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O Governo Civil como Expressão da Ética Populacional


Muito se tem dito sobre as formas corretas de se reger um povo, as melhores maneiras de governá-lo e com que vigor se deve aplicar as leis e princípios que norteiam toda a esfera governamental. Também tem se frisado a importância do governo ser relevante para a sociedade, de modo que as autoridades sejam a real expressão do que o povo deseja e está convicto de que precisa. Há, igualmente, muita tendência de se desejar um governo puro, justo, igualitário e que reflita a verdadeira ética da proclamação de direitos sociais, de modo que todo discurso circunda os mais diversos arraiais doutrinários, levando alguns pensadores em estímulo à luta por tal ensejo e, muitas vezes, a falecerem na labuta por tal garantia. Todavia, frequentemente, quase todas as teorias têm se esquecido (por negligência ou omissão voluntária) de que o governo civil, em si mesmo, já é uma expressão do povo. Quer dizer, o fato de haverem governantes sobre um determinado povo e localização, já é intrinsecamente a visualização da ética comum alçada ao poder limitado para comandar, legislar e julgar os fatos cotidianos das milhares de miríades de intenções e – por vezes – votos que os levaram até lá. Assim, se patenteia que a luta por um governo mais ético já está perdida – não por causa explícita do poder, mas sim devido ao povo. Explico.
Embora a luta por um governo justo e íntegro seja válido e necessário, não podemos esquecer-nos de que o homem é mau e suas inclinações são sempre de acordo com suas vontades e desejos. Vemos com espantosa clarividência que sempre predomina com grande vigor o interesse próprio, as concupiscências do ego e insaciável vontade de se ter os próprios pressupostos pessoais tidos como regras para todos. Por causa deste motivo, desdobram-se uma infinidade de erros e disparidades para com aquilo que se professa no campo das ideias e de como isso reflete no modo de agir. As ideias, por serem o elemento subjetivo da ação, muitas vezes tendem a ser boas, ligeiramente honestas e com finalidades quase que somente altruístas. Todavia, quando as tais são reveladas na prática horizontal e vivencial, se demonstra a imundícia e calamidade que habita em tais redutos. 

Ainda que as intenções de modificar o governo civil – e, por que não, toda forma de governo – sejam úteis e traduzam a vontade do povo em não se acomodar com o que lhes é desgostoso, é mister a compreensão de que tal prática advém dos ditames erroneamente fundados, pois a forma de governo é consequência necessária da ética de um povo. Por mais que se critiquem os governantes e toda sorte de pessoas que estão em hierarquia superior, o câncer não reside apenas neles, mas em todos. A sociedade é culpada pelos governantes que têm, pois seus próprios ideais são destituídos de boa-fé verdadeira e real ética pressuposicionalista idônea. Isto é, dito de outra forma, a população deseja um governo justo, mas ela não é justa; crêem que precisam de governantes firmes em suas batalhas, mas ela não é com relação às outras áreas de sua vida; pensam que os governantes deveriam ser pessoas honestas e que não se deixem levar por dinheiro, ambição egoísta e falcatruas de toda natureza, mas ela é tão perversa quanto eles, pois não são poucas as vezes que se deixam corromper pelas mais diferentes situações e ocasiões que lhes proporcionam o vislumbrar de uma chance de atropelar e alçar vôo destruidor sobre outrem. 

Vislumbra-se, neste sentido, que o governo civil, tal qual temos no atual momento em nossas terras tupiniquins – apenas para se falar com relação ao presente viver -, em si mesmo, já é expressão característica da miséria de seu povo. A ética populacional, neste sentido, é diretamente refletida em seus governantes, pois uma vez que pudesse haver justiça e verdadeira moral reinando naquele, este nada poderia fazer, exceto ecoar aquele que lhe inseriu no poder, afinal, este último, nada mais é do que fruto do primeiro. Tal entendimento se evidencia mui diferentemente e claramente quando os governantes exalam o bom perfume e firme diretrizes de seu povo arraigado não em uma ética evolutiva e temporal, mas sim fixa, e, portanto, eterna. É fato que não se pode conferir brilhantismo de ideias e pleno legislar e julgar de acordo com a reta doutrina, tão somente tomando assento governamental; entretanto, paira para além da dúvida que é verdadeiro o dito de ser possível se estabelecer um padrão de maior sustentabilidade ética, afinal, quando há um povo estabelecido sobre tal preceito fundamental – aqui, defendido como sendo ad infinitum e, não, advindo do homem mortal -, então se visualiza o devido executar dos retos padrões determinados; apesar do mau ainda não ter sido expurgado por completo da esfera terrestre.
Neste prisma, é necessário que se compreenda que antes do desejo de modificar o outro, isto é, os governantes, é salutar, que haja uma mudança no homem interior. Assim lemos na Bíblia, o documento ímpar dos cristãos: "E viu o SENHOR que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente" (Gênesis 6.5). Sendo todos os homens inclinados para o mau, então, antes de desejarmos uma reforma no exterior e no próximo, que se comece pelo seu próprio coração. Jesus, o único salvador do homem perverso – e quem foge a este atributo? -, há muito também já havia salientado esta necessidade: "E por que reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho?" (Mateus 7.3). O homem natural precisa ser modificado para que o governo também seja. Não é crível desejar sustentar uma ordem cível mais pura e destituída de corrupção, antes de se transformar os desígnios do homem iníquo. 
O governo civil, portanto, reflete a ética de um povo. Acertadamente que há ressalvas quanto à corrupção generalizada e ramificada em todos os círculos sociais; todavia, ao se observar de um ângulo macro para a nação, é plenamente compreensível o entendimento de que ela ainda está embrenhada em dissoluções morais, mortais e péssimos costumes estão arraigados em sua tenra juventude constitucional. Destarte, não há que se falar em um governo mais justo, e, sim, primeiramente em uma sociedade mais regrada. E, para que ninguém pense que estamos a falar de utopia, que se relembre ainda outra vez das intenções ocultas do próprio coração e traga à memória as incontáveis vezes que já se desviou da moralidade mínima e desejou com todo vigor mais a sua vontade de que a verdadeira moral. 

Assim sendo, que não se lamente pelos governantes, mas sim que se chore pela falta de ação e inércia diante da perversidade crescente em si mesmo.

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*texto escrito em ocasião de um trabalho de faculdade.

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