Pular para o conteúdo principal

Falar em línguas é auto-edificante?

por John Stott
-----

Ainda paira um ponto de interrogação sobre o fenômeno contemporâneo conhecido como falar em línguas, quanto a ele ser idêntico ao dom do Novo Testamento. Está claro que no dia de Pentecostes os crentes cheios do Espírito estavam falando "em outros línguas", isto é, em línguas estranhas, e "segundo o Espírito lhes concedia que falasse", e que todas estas línguas era compreensíveis a grupos da multidão (At 2.4-11).

A suposição teológica e linguistica é forte no sentido de que o fenômeno mencionado em 1Coríntios é o mesmo. Primeiro, porque as expressões no grego são praticamente as mesmas, e uma das primeiras regras da interpretação da Bíblia é que expressões idênticas têm o significado idêntico.

Em segundo lugar, porque o substantivo glōssa tem somente dois significados conhecidos, que são o órgão, ou seja, a língua e o idioma. A tradução "lhes concedia que falassem em êxtase" não tem base linguistica. Isto não é uma tradução, mas uma interpretação. De modo análogo, a expressão "interpretação de línguas" significa tradução de idiomas.

Em terceiro lugar, todo o empenho de 1Coríntios 14 é no sentido de desencorajar o culto de caráter ininteligível, como coisa de criança: "Irmãos, não sejais meninos no juízo; (...) sede homens amadurecidos" (v.20). O Deus da bíblia é um Deus racional, que não tem prazer em irracionalidade ou em ininteligibilidade.

A interpretação levanta algumas dificuldade exegéticas, que levaram algumas pessoas a distinguirem radicalmente entre "línguas" em Atos e "línguas" em 1Coríntios. Mas as dificuldades são pequenas em comparação com a força do argumento de que o fenômeno é o mesmo, não uma expressão extática ininteligível, mas um idioma inteligível - compreensível, é claro, a alguns poucos presentes (como no Dia de Pentecostes). Obviamente ela precisaria ser "interpretada" ou "traduzida" em um porto de Corinto, em que se falavam muitos idiomas, para benefício daqueles que falavam alguma língua estrangeira. (...) porque todos os dons de Deus são bons e desejáveis, mas o dom de línguas em si (isto é, à parte do conteúdo falado) não tem capacidade para edificar.

O que dizer, então, da prática atual e particular do falar em línguas, como ajuda à devoção pessoal? Muitos dizem estar descobrindo através disto um novo grau de fluência quando se achegam a Deus. Outros falam de um tipo de "liberação psíquica" que experimentam, e que ninguém quer lhes negar. Por outro lado, precisa ser dito (1Co 14) que Paulo, além de proibir completamente o falar em línguas em público sem interpretação, também desencoraja com insistência que se fale em línguas em particular, se a pessoa não entende o que está dizendo. Muitas vezes, as pessoas se esquecem do versículo 13: "O que fala em outra língua, ore para que a possa interpretar". De outra forma sua mente fica "infrutífera ou improdutiva. Mas, então, que ele deverá fazer? O próprio Paula faz a pergunta. E responde dizendo que irá orar e cantar "com o espírito", mas também "com a mente". Está claro que ele simplesmente não consegue imaginar oração e louvor dos cristãos em que a mente não esteja envolvida de modo ativo.

Alguns leitores, sem dúvida, responderão que nos primeiros versículos de 1Coríntios 14 o apóstolo contrasta a profecia e o falar em línguas, afirma que o profeta "edifica a igreja", enquanto quem fala em línguas "edifica a si mesmo" e, portanto, está incentivando ativamente a prática de falar em línguas em particular. Questiono se podemos tirar esta conclusão legitimamente, devo confessar. Duas razões fazem-me hesitar.

A primeira é que, no Novo Testamento, a "edificação" invariavelmente é um ministério voltado para as outras pessoas. A palavra grega oikodomeō significa literalmente "construir" - cidades, casas, sinagogas etc. É aplicada figuradamente à igreja. Jesus disse: "Edificarei a minha igreja (Mt 16.18). O apóstolo Paulo escreveu: "Edifício de Deus sois vós" (1Co 3.9; v. Ef 2.20-21), e Pedro acrescentou: "Vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual" (1Pe 2.5). A partir deste significado básico, a palavra passou a ser usada no sentido de "fortalecer, estabelecer, fazer crescer em número e maturidade" cristãos e igrejas. Lucas escreve que a igreja na Palestina estava "edificando-se", e Paulo escreve que sua autoridade apostólica tinha-lhe sido dada "para edificação" (At 9.31; 2Co 10.8, 12.19, 13.10).

Além disso, os cristãos têm um ministério de "edificação de uns para com os outros" (Rm 14.19), também expresso na ordem: "Edificai-vos reciprocamente" (1Ts 5.11; v. Rm 15.2, Ef 4.29, Jd 20). E, se alguém perguntar o que mais edifica a igreja, Paulo responderia "a verdade" (At 20.32; v. Cl 2.7) e o "amor" (1Co 9.1; cf. também 10.23). A mesma ênfase em edificar os outros transparece em 1Coríntios 14: o profeta "edifica" com sua mensagem "(v. 3-4), e, no culto público, "tudo" deve ser feito "para edificação" (v. 26; veja também 17), e os cristãos devem procurar "progredir, para a edificação da igreja" (v. 12; v. também 5).

Agora, à luz desta ênfase consistente do Novo Testamento na edificação como ministério aos outros na igreja, o que faremos com a única exceção, que diz que quem fala em línguas "edifica a si mesmo"? Certamente deve existir pelo menos uma ponto de ironia no que Paulo escreve, porque a frase praticamente se contradiz em seus termos. A auto-edificação está completamente fora de cogitação quando o Novo Testamento fala de edificação.

Em segundo lugar, devemos entender a expressão à luz do ensino que já estudamos "para a utilidade de todos", para o serviço aos outros. Então como seria possível inverter este dom e usá-lo para proveito próprio, e não mais para o proveito de todos? Não devemos concluir que isto é um abuso do dom? O que pensar de um crente que recebeu um dom de ensino e que o usa somente para dar-se instrução particular, ou de alguém que recebeu um dom de curar e o usa somente para curar a si, e mais ninguém? É difícil justificar o uso egoísta de um dom concedido especificamente para o benefício dos outros.

Fonte: Stott, John. Batismo e Plenitude do Espírito Santo. Ed. Vida Nova. Páginas 117-120.

Comentários

  1. Olá Filipe,
    Parabéns pelo Blog. É um belo trabalho que está realizando aqui. Já estou seguindo!

    Quero aproveitar pra lhe convidar a visitar e também seguir meu blog. Será uma honra tê-lo como leitor. Seus comentários também serão sempre muito bem-vindos.

    Visite: www.teologiainteligente.blogspot.com

    Juntos seremos mais eficazes na proclamação do Evangelho de Cristo !!!
    Te espero lá...
    Graça e Paz !!!

    ResponderExcluir
  2. Graça e Paz;
    O TEXTO É TENDENCIOSO E NAO ENTRA EM OUTROS PONTOS QUE A BIBLIA MENCIONA COMO NÃO SE DEVE O PROIBIR FALAR EM LINGUAS E EM JUDAS 20 E TANTOS OUTROS TEXTO SOBRE O DOM DO ESPÍRITO.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Irmão , o texto Judas 20 diz que a forma de edificação a si mesmo é a oração . Orar . Não falar em línguas.

      Excluir
    2. Deveria falar da língua como sinal e como promessa.... Jesus mesmo disse que os sinais seguiram os que crêem... incluso o falar em liguas

      Excluir
  3. Pr. Gean Carlos, o senhor devia ter mais cuidado ao chamar um texto de tendencioso se seu comentário for ainda tendencioso. Destacar o "não proibais" do verso 39 sem perceber que Paulo mesmo fez VÁRIOS tipos de proibição, não é só tendencioso, mas também uma péssima tentativa.

    ResponderExcluir
  4. Não consigo ver que Paulo estava proibindo o falar em outras línguas sem interpretação, pois no v.18 ele dá graças porque fala mais do que todos. O que ele aconselha é que, para que o culto tenha ordem, o que fala em línguas sem interpretação fale consigo, mas o que profetiza edifica a igreja. Então encoraja para que todos profetizem. Na igreja, procure edificar os outros. V.19.Leiam o v. 28.
    Por fim, tenho falado em línguas e experimentado edificação. Agradeço por mais um incentivo para interpreta-las!
    Paz!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Concordo plenamente com sua opinião parece que qurm não recebeu ainda este dom tão real fica dando desculpas e difamando quem fala e desautorizando o mesmo na Igreja de Cristo...misericórdia...ele é biblico e real nos nossos dias e só saberá os efeitos e beneficios dele quem o tem e o pratica, portanto se vc ainda não o recebeu nao fale mal dem quem o usa...mas vai pedir a Deus a mesma experiencia!

      Excluir
  5. O ultimo comentário do anônimo está de acordo com o que acredito. Também tenho experimentado o dom de falar em línguas e tenho sido edificada!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Por favor, comente este texto. Suas críticas e sugestões serão úteis para o crescimento e amadurecimendo dos assuntos aqui propostos.

Postagens mais visitadas deste blog

A mulher deve se vestir de modo que nenhum homem venha pecar por sua causa

Muitas mulheres e moças atualmente perderam seu próprio valor e muitas mulheres cristãs não tem se dado conta disso - o que acaba por as levar se vestindo conforme o mundo tem ditado; isto é, a moda. Por que digo isso?  Tenho notado o quanto muitas mulheres e moças têm se iludido ao pensarem que é bonito usarem vestimentas que mostram todas as suas curvas, tais como: roupas justíssimas delineando seu corpo, shorts e saias curtas e blusas decotadas. Mas, se fosse para ser  assim, Deus não teria vestido Adão e Eva como diz na Bíblia: " E o Senhor Deus fez túnicas de peles para Adão e sua mulher, e os vestiu " (Gênesis 3:21). Na palavra também está escrito: " Que do mesmo modo as mulheres se ataviem em traje honesto, com pudor e modéstia, não com tranças, ou com ouro, ou pérolas, ou vestidos preciosos. Mas (como convém a mulheres que fazem profissão de servir a Deus) com boas obras " (1 Timóteo 2:9-10). Noto ainda que muitas mulheres e moças usam roupas indecentes co

É pecado um casal de namorados dormir junto?

É pecado um casal de namorados dormir junto? - por Filipe Luiz C. Machado Recentemente um irmão em Cristo perguntou-me sobre a legitimidade - ou não - para um casal de namorados poder dormir junto. Confesso que esse é um ponto delicado, mas creio que - mais uma vez - as Escrituras nos revelam aquilo que devemos fazer. É importante notarmos, primeiro, sobre que tipo de situação nos rodeia. Uma coisa é um casal de namorados que viaja de avião e cuja aeronave cai no meio da floresta, restando poucos sobreviventes e ainda por cima, estavam na estação do inverno, o que implica dizer que necessariamente todos precisam dormir juntos - para se aquecer, caso contrário, morrerão. Mas é claro que essa é uma situação hipotética e nela seria perfeitamente coerente dormir junto, pois seria um pecado deixar alguém morrer de frio quando podia-se evitá-lo. Porém, mesmo a realidade dos namorados não é esta do avião, é a partir do dia-a-dia que as dúvidas surgem. Muitos namorad

Esposa, você vem concedendo a devida benevolência ao seu marido?

“ O marido pague à mulher a devida benevolência, e da mesma sorte a mulher ao marido. A mulher não tem p oder sobre o seu próprio corpo, mas tem-no o marido; e também da mesma maneira o marido não tem poder sobre o seu próprio corpo, mas tem-no a mulher. Não vos priveis um ao outro, senão por consentimento mútuo por algum tempo, para vos aplicardes ao jejum e à oração; e depois ajuntai-vos outra vez, para que Satanás não vos tente pela vossa incontinência. Digo, porém, isto como que por permissão e não por mandamento ” (1 Coríntios 7:3-6). Primeiramente, é importante mencionar que a pergunta feita neste artigo poderia destinar-se aos esposos cristãos, até porque alguns deles podem apresentar problemas neste sentido, porém, como creio que a dificuldade em praticar esta ordenança seja mais comum para nós mulheres, resolvi destinar a pergunta nesta direção. Muitos homens ao lerem “ Seja bendito o teu manancial, e alegra-te com a mulher da tua mocidade. Como cerva amorosa, e g