segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

A Glória de Deus - por John Owen (1616–1683)


A glória do nosso Senhor Jesus Cristo é por demais grande para que as nossas pequenas mentes a possam entender. Desta forma, nunca poderemos dar a Ele o louvor que Lhe é devido. No entanto, através da fé podemos ter algum conhecimento de Cristo e Sua glória, e esse conhecimento é melhor que qualquer outra forma de sabedoria ou entendimento. O apóstolo Paulo disse: "E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor" (Filipenses 3:8). Se a nossa felicidade futura significa estar onde Cristo está e ver a Sua glória, não há melhor preparação para isso que encher os nossos pensamentos com ela desde agora. Assim, estaremos gradualmente sendo transformados naquela glória.

É apenas de Cristo que podemos nos ufanar e nos gloriar, pelas seguintes razões:

1. A nossa natureza humana foi no princípio feita em Adão e Eva à imagem de Deus, cheia de beleza e glória. Todavia, o pecado derrubou essa glória no pó e a natureza humana tornou-se completamente diferente de Deus, cuja imagem ela havia perdido. Satanás assumiu o controle e, se as coisas fossem deixadas dessa forma, a humanidade teria perecido eternamente. Mas, o Senhor Jesus, o Filho de Deus, curvou-Se em grande perdão e amor para assumir a natureza humana. Assim, a nossa natureza humana, após ter mergulhado nas maiores profundezas da miséria, agora foi erguida acima de toda a criação de Deus, pois Deus exaltou a Cristo “... pondo-o à sua direita nos céus, acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro" (Efésios 1:20-21). Aqueles que receberam fé e graça para entenderem corretamente o propósito da natureza humana, devem se regozijar porque ela foi elevada das profundezas do pecado para a glória que agora recebeu mediante a honra concedida a Cristo.

2. Em Cristo, o relacionamento da nossa natureza com Deus é sempre o mesmo. Contudo, a nossa amizade original com Deus, na criação, foi rompida pela queda do homem. Os seres humanos se tornaram inimigos de Deus. Mas a sabedoria e a graça de Deus planejaram restabelecer novamente a nossa natureza à semelhança da Sua, e fazê-lo de tal forma que tornasse qualquer separação entre nós e Ele impossível. Não podemos deixar de nos admirar que a nossa natureza possa participar da vida gloriosa de Deus. A sabedoria onipotente, poder e bondade tornaram isso possível através de Cristo. Esta obra de Deus é parte do mistério da piedade que os anjos desejam perscrutar. (I Pedro 1:12). Quão pecaminosos e tolos seremos nós se pensarmos muito em outras coisas e não O suficiente nisso. O grande amor de Deus para com a humanidade é demonstrado pelo fato de o Filho de Deus não ter vindo à terra como um anjo, e sim como homem — o homem Cristo Jesus — tendo natureza humana como a nossa.

3. Cristo mostrou que é possível para a nossa natureza humana morar no céu. As nossas mentes não podem entender o número e as distâncias das estrelas no céu. Como, então, supomos que os seres humanos podem morar num céu mais glorioso que o firmamento? Todavia, a nossa natureza, no homem Cristo Jesus foi para o céu eterno de luz e glória e Ele prometeu que onde estivesse ali estaríamos com Ele para sempre.
Tentações, provações, tristezas, temores, medos e doenças são parte desta vida presente. Todas as nossas ocupações têm problemas e tristezas nelas. Se considerarmos porém, a glória de Cristo que iremos compartilhar, podemos obter alívio de todos esses males e ganhar a vitória sobre eles. "Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados; perseguidos, mas não desamparados; abatidos mas não destruídos. Por isso não desfalecemos: mas ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia, porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente; não atentando nós nas coisas que se vêem mas nas que não se vêem; porque as que se vêem são temporárias, e as que não se vêem são eternas" (11 Coríntios 4:8-9,16-18). O que são todas as coisas desta vida, quer sejam boas ou más, comparadas com o benefício a nós da excelente glória de Cristo?

A condição em que as nossas mentes se encontram é o que geralmente nos causa os maiores problemas. O salmista perguntava a si mesmo: "Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas em mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei na salvação da sua presença" (Salmo 42:5,11).

A centralização de nossos pensamentos, pela fé na glória de Cristo, trará paz e calma à mente perturbada e desordenada. É através de Cristo que “... temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória de Deus... porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado" (Romanos 5:2-5).

Podemos até pensar com alegria na morte quando fixamos nossos pensamentos na glória de Cristo. Muitos vivem com receio da morte todos os seus dias. Como podemos vencer estes temores?

1. Devemos deliberadamente entregar as nossas almas, ao partirmos deste mundo, nas mãos dAquele que pode recebê-las e guardá-las. A alma, sozinha e por si mesma, tem que ir para a eternidade. Ela deixa para trás, para sempre, tudo o que conheceu anteriormente pelas suas faculdades próprias e naturais.

Deve haver, portanto, um ato de fé ao entregar a alma à disposição de Deus, como Paulo foi capaz de fazer. “... eu sei em quem tenho crido, e estou certo de que é poderoso para guardar o meu depósito até aquele dia" (11 Timóteo 1:12).

O Senhor Jesus Cristo é o nosso grande exemplo. Quando Ele despediu o Seu espírito, Ele entregou a Sua alma nas mãos de Deus o Pai, em total confiança que ela não sofreria nenhum mal. "Portanto está alegre o meu coração e se regozija a minha glória: também a minha carne repousará segura. Pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção" (Salmo 16:9-10). O último e vitorioso ato de fé acontece .na morte. A alma poderá, então, dizer para si mesma: "Você está agora deixando o tempo e entrando naquelas coisas eternas que o olho natural não viu, nem o ouvido ouviu, nem o coração do homem tem sido capaz de imaginar. Desta forma, em silêncio e confiança entregue-se à soberana graça, verdade e fidelidade de Deus, c encontrarás descanso e paz". Jesus Cristo imediatamente recebe a alma daqueles que crêem nEle, como no caso de Estevão.

Quando morria, ele disse: "Senhor Jesus, receba o meu espírito" (Atos 7:59). O que poderia ser de maior encorajamento para entregar as nossas almas nas mãos de Cristo, na hora da morte, do que conhecer em cada dia de nossas vidas alguma coisa de Sua glória, do Seu poder e da Sua graça?

2. Como seres humanos, não somos semelhantes aos anjos que são apenas espírito e não podem morrer. Nem somos semelhantes aos animais que não possuem alma eterna. Mas Deus designou para nós uma ressurreição gloriosa do corpo que não mais terá uma natureza física; seremos mais semelhantes aos anjos. Nesta vida há uma relação tão íntima entre alma e corpo que nós tentamos tirar da cabeça qualquer pensamento sobre a sua separação. Como é possível, então, ter tal disposição de morrer, a exemplo do apóstolo Paulo quando disse: "mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir, e estar com Cristo, por que isto é ainda muito melhor" (Filipenses 1:23)? Essa disposição só pode ser encontrada se olharmos pela fé para Cristo e Sua glória, tendo a certeza que estar com Ele é melhor do que tudo quanto esta vida possa oferecer.

Se quisermos morrer alegremente, devemos pensar em como Deus nos chamará do túmulo na ressurreição. Então, pelo Seu grandioso poder, Ele não apenas nos restaurará à glória de Adão e Eva na criação, como também nos acrescentará ricas bênçãos além da nossa imaginação. Devemos, também, nos lembrar que apesar do corpo e da alma do nosso glorioso Salvador terem sido separados na morte (à semelhança que os nossos também o serão), Ele agora possui grande glória. O Seu exemplo pode nos dar esperança.

3. Deve haver uma disposição nossa em aceitar o tempo de Deus para morrermos. Podemos, à semelhança de Moisés, desejar ver mais da gloriosa obra de Deus em favor do Seu povo na terra. Ou, à semelhança de Paulo, podemos sentir que seja necessário, para o benefício de outros, que vivamos um pouco mais. Pode ser que desejemos ver as nossas famílias e as nossas coisas numa condição melhor e mais estabelecidas.
Mas não podemos ter paz neste mundo, a não ser que estejamos dispostos a nos submeter à vontade de Deus com respeito à morte. Os nossos dias estão em Suas mãos, à Sua soberana disposição. Devemos aceitar isso como sendo o melhor.

4. Alguns podem não temer a morte, porém podem temer a maneira como morrerão. Uma longa doença, grandes dores, ou alguma forma de violência poderiam ser uma maneira de trazer a nossa vida terrena a um fim. Devemos ser sábios, como se estivéssemos sempre prontos para passar por qualquer experiência que Deus nos permita passar. Não seria correto que Ele fizesse o que deseja com o que Lhe pertence? Acaso a vontade dEle não é infinitamente santa, sábia, justa e boa em todas as coisas? Ele não sabe o que é melhor para nós e o que trará maior glória para Si mesmo? Muitas pessoas descobriram que são capazes de suportar as coisas que mais temiam porque receberam maior força e paz do que podiam imaginar que lhes fosse dado.
No entanto, nenhuma dessas quatro coisas podemos fazer, a não ser que acreditemos na excelente glória de Cristo e desfrutemos dela.
Muitas outras vantagens de se meditar na glória de Cristo ainda poderiam ser ditas, porém a minha fraqueza e a proximidade da morte me impedem que eu escreva aqui com maiores detalhes.

- por John Owen (1616–1683)
Extraído do livro: A Glória de Cristo de John Owen, Editora PES, págs.7-10

domingo, 20 de janeiro de 2013

Download do Estudo Sobre o Uso do Véu em 1 Coríntios 11





Amados irmãos, segue abaixo o link (em .pdf) para download do estudo sobre o Uso do Véu em 1Coríntios 11. O que nosso Senhor nos ensinou? O véu é algo cultural? Que dizer do cabelo? Devemos aplicá-lo no dia de hoje?

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Um Pecado Dentro do Pecado da Pornografia


Você sabe, eu sei, ele sabe, nós sabemos: pornografia é pecado. Desde o garoto de 8 anos, até o senhor com 40 anos de casamento, entende que ver indecências é algo pecaminoso e que desencadeia consequências seríssimas. Esta demoníaca indústria pornográfica multibilionária, não cessa de lucrar e a cada dia está mais difícil conseguir navegar por algum site sem termos propagandas indecentes e insinuantes "saltando à tela", matérias e artigos com conotações tais ou um grande banner ao lado piscando e se movendo.

Porém, ocorre que quando alguém vai (quase todos nós já fomos, em algum momento) até este pecado, não fica, posteriormente, com o coração insensível, como nos demais pecados. Explico:

Durante toda minha caminhada cristã, nunca fui chamado para aconselhar alguém que estava abatido e triste por ter, por exemplo, sonegado impostos ou declarado um imposto de renda diverso do real. Também nunca conversei com alguém de coração amargurado por estar chegando constantemente atrasado, por culpa sua, no trabalho. Igualmente, jamais sentei-me com alguém lamentoso em virtude de estar, sem motivo, profundamente irado com outrem.

Isto significa, portanto, que há um pecado dentro do pecado da pornografia e que é tão grave como ela: o achar que este pecado, a pornografia, é o único pecado que se comete. 

Você sabe como são as coisas: a roda entre os amigos cristãos está tranquila, todos conversaram de maneira natural - a vida segue e todos dizem estar confiantes em Deus. Todavia, um dia seu amigo lhe liga ou manda uma mensagem via internet - você sabe que algo aconteceu. Ele, então, diz: "Irmão, preciso falar contigo - eu pequei". Não é preciso dizer mais nada, você sabe qual foi o pecado.

Bem, mas por que isso acontece? Além da fraqueza espiritual que acomete a todos, o pecado é de traição tal, que frequentemente nos diz que "estamos bem", "estamos vencendo", "estamos na graça", pois fazem algumas semanas ou meses que não olhamos para alguém na rua, folheamos uma revista pecaminosa ou entramos em algum site indevido. Com esta falsa consciência, seguimos adiante, crendo que tudo vai bem conosco.

A palavra de Deus nos alerta: "Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe não caia" (1Co 10.12). Note que Paulo não está falando de pornografia, mas sim do desviar-se do Senhor, comparando o desvio do povo no deserto com o desvio de alguns irmãos em Corinto.

Desta forma, amados irmãos e irmãs, se você está, pela graça de Deus, tendo vitória com respeito à pornografia, louve ao Senhor e permaneça firme - mas não se esqueça de que ela, a pornografia, é apenas um pecado, havendo tantos outros a nos rodear e instigar o coração.

Você não é um bom cristão por obter vitória sobre a pornografia, mas, sim, se anda como Ele andou (1Jo 2.6), lamenta profundamente por seus pecados (Salmo 51), clama por arrependimento (1Jo 1.9) e busca fazer tudo para a glória de Deus (1Co 10.31).

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Salmofobia - Medo de Cantar os Salmos



Tenho me surpreendido com o fato de que Igrejas de herança reformada, como as presbiterianas, têm resistido à prática cúltica de cantar os Salmos e vão além, se opõem frontalmente ao cântico dos hinos de Sião. O fato de igrejas presbiterianas no Brasil não cantarem salmos há dezenas de gerações, não traz surpresa, pois hoje sabemos a razão básica. A Igreja Presbiteriana quando foi estabelecida no Brasil já não cantava exclusivamente os salmos, visto que os missionários que aqui aportaram vinham de um contexto americano onde esta prática havia cessado. Além disso, vinham de um contexto onde uma de chuva hinos foram compostos e incluídos, de forma inovadora, na liturgia do culto e especialmente na evangelização. Neste período o amor pelo cântico dos salmos começou a se desvanecer. Mas ainda que não os cantassem exclusivamente, cantavam-nos inclusivamente nos cultos de adoração com alegria no coração. Não é de admirar que uma igreja que esquece sua história, seus padrões de fé e sua tradição reformada, desconheça o culto reformado e o saltério. Hoje, a existência de uma igreja presbiteriana que canta salmos é fato muitíssimo raro.

Fui de uma geração que conheceu ainda os Salmos e Hinos[1] como o hinário adotado pelas igrejas presbiterianas do Brasil. Para ser sincero, nunca vi nenhuma ênfase dada à importância de se salmodiar, como era próprio dos presbiterianos e reformados de outrora. Porém ainda havia resquícios desta antiga prática Congregacional e Presbiteriana. Vi a transição do hinário Salmos e Hinos para um hinário que quase exclui os salmos, usado hoje pela IPB e com o reforço de cânticos chamados de “espirituais”, muitos deles de autores desconhecidos, de teologia rasa e confusa. Sei que alguns hinos são apenas baseados em algum salmo, ou apenas parte de alguns deles.

Posso dizer que, nascido no final da década de 40, fiquei por mais de 40 anos ignorando o valor que historicamente os calvinistas e presbiterianos do mundo inteiro davam à salmodia. Permaneci tanto tempo na ignorância sem saber que o cantar salmos com gratidão no coração sempre foi uma marca distintiva das igrejas reformadas oriundas da Reforma, especialmente de Calvino[2] e, como a maioria dos presbiterianos, eu não conhecia esta assertiva da Confissão de Fé de Westminster. Não precisamos falar muito para mostrar que o povo cristão “reformado” do Brasil viveu também nesta ignorância, como eu. Quantos líderes de música nas igrejas presbiterianas conhecem a história da salmodia e seu valor? Por que sua Igreja não canta salmos e porque o Brasil não tem saltério até o dia de hoje? Pergunte ao seu pastor e a seus presbíteros. Pergunte por que o piedoso reformador Calvino afirmava: “Não é possível achar melhores ou mais adequados cânticos para esse fim que os Salmos de Davi, inspirados pelo Espírito Santo”. É importante conhecer a resposta, mesmo que isso o entristeça — Em tristeza o coração é quebrantado.

Hoje sabemos como os reformados valorizavam os salmos, os hinos e os cânticos espirituais de Davi. Hoje já há alguma literatura sendo escrita e traduzida no Brasil sobre o tema. Pequenos grupos têm se organizado ansiosos pela confecção do primeiro saltério Brasileiro mas, infelizmente sem a iniciativa de algum órgão oficial eclesiástico ou mesmo de algum profissional experimentado designado e supervisionado pela Igreja. Para muitos se tornou um sonho ter nas mãos um saltério para o crescimento na piedade e para edificação da Igreja brasileira e dos lares evangélicos, usufruindo da profundidade teológica encontrada nos Salmos e raramente encontrada nos escritos não inspirados. Muitos pais sonham em ver os filhinhos da aliança salmodiando ao Senhor com os cânticos soprados pelo Espírito, e seus velhinhos sendo confortados antes da morte com sua mensagem de esperança. 

Philip Schafff, um historiador reformado, assim se expressou: “O cântico de salmos tornou-se essencial para a piedade calvinista. Os protestantes franceses, ao serem levados para a prisão ou para a fogueira, cantavam salmos com tanta veemência que tornou-se proibido por lei cantar salmos e aqueles que persistiam tinham sua língua cortada. O salmo 68 era a Marselhesa huguenote”.

Hoje muitos têm louvado a Deus com estes cânticos inspirados nas igrejas, simpósios, congressos e conferências. Há uma explosão de alegria em muitos corações pelo fato de terem descoberto esta recomendação bíblica e confessional (CFW, Cap. XXI.V). Creio que, pela providência de Deus, muitas igrejas no Brasil já cantam os salmos inclusive igrejas Batistas e Congregacionais. O desejo por esta prática cresce a cada dia e muitos não apenas desejam ser ouvintes, mas praticantes cantores dos salmos.

No entanto, ainda estamos muito longe de uma Reforma cúltica onde as Igrejas Presbiterianas sejam conhecidas pelo zelo no seu louvor congregacional. Mais que isso, muitos líderes estão atemorizados pela possibilidade de que isso venha a acontecer. “Seria um retrocesso”, dizem eles; “seria uma confusão nas igrejas”, advertem; “o que faríamos com nosso hinário e nossos hinos e corinhos tão amados...?, alguns indagam; “temos de ser prudentes e sábios, pois nosso contexto é outro”, concluem, minimizando a assertiva. Isso apenas revela insegurança e temor, uma quase fobia, claramente incompreensível.

Maior temor 

Para atemorizar mais ainda, há aqueles que defendem a salmodia exclusiva, e que são vistos como um grupo presbiteriano e reformado radical como se estes, durante 200 anos após a reforma, concebessem uma “errada teologia” da adoração e que hoje se choca frontalmente com a “teologia correta” da igreja contemporânea. Bem, aqui chegamos ao ponto nevrálgico da questão. Este grupo salmodista provoca medo e repulsa no meio presbiteriano a ponto de muitos não admitirem o fato de que é um dever do povo de Deus cantar a Bíblia e não apenas lê-la. Já pensou? É como se dissessem: Nós só queremos ler os salmos e ouvir suas mensagens, mas não cantá-los. Como pode ser isso? Esse receio brota da possibilidade de serem vistos e confundidos com este grupo “puritânico”. Bem, não concordar com salmodia exclusiva é uma coisa, não cantar os salmos é outra coisa. Radicalizar aqui é cair no pecado da reforma radical quando os anabatistas rejeitavam tudo que lembrasse a aparência de romanismo, mesmo que fosse bíblico. Diríamos que eles “jogavam fora a água do banho com a criança e tudo”. Aliás, naquela época muitos chamavam os reformados de católico-romanos, por se assemelharem aos romanistas que incluíam em sua liturgia fixa o cântico dos salmos através dos corais.

O medo continua

Aqui é necessário, também, mencionar aqueles que desejam cantar os salmos, mas não exclusivamente, como é o caso de muitas igrejas fiéis da América e Europa. Estas igrejas procuram cantá-los, mas também cantar hinos supervisionados e teologicamente aprovados pela história e robustos doutrinariamente. O que dizer destas igrejas? Bem é aqui que reside a gravidade da questão. Por quê? Porque, nem mesmo esta postura criteriosa e zelosa é aceita pelos líderes presbiterianos no Brasil, pois o medo da salmodia ainda assim continua. Eles se acham, se não mais sábios, pelo menos mais prudentes e dizem: “Cuidado, tudo começa assim! Começam cantando os salmos e depois só querem cantá-los exclusivamente; o melhor é cortar o mal pela raiz; nada de cantar salmos, pois enfatizam demasiadamente a ira de Deus, fazem imprecações para destruir e matar os inimigos, quebrar seus dentes e suas queixadas; não falam explicitamente de Cristo; sua melodia é estranha, não é de nossa cultura e não agrada aos jovens...; vamos preferir os nossos corinhos baseados em pedaços de salmos e nossos hinos do cancioneiro brasileiro...; vamos fazer uma distinção entre eles e os hinos tradicionais do hinário, pois temos de satisfazer aos jovens e velhos”. Já pensou? Isso vai totalmente de encontro com a história da Reforma. Isso faria estremecer os nossos pais na fé, Lutero, Martin Bucer, Calvino, os Huguenotes, John Knox e miríades de outros heróis da fé. É bom lembrar que “o saltério tornou-se um dos livros mais importantes da reforma”.

Desafio 

A liderança eclesiástica de hoje deve se empenhar para que a salmodia volte a ser uma prática nas igrejas históricas, especialmente as presbiterianas. Pastores e presbíteros, que pela graça de Deus, foram impactados com esta verdade histórica e escriturística devem batalhar pela restauração do culto bíblico e reformado, sem receio porque o povo de Deus sempre salmodiou ao Senhor na certeza de que esta é uma ordenança de Deus. Sendo assim, somos desafiados a vencer a timidez considerando que mais importa obedecer a Deus do que aos homens. As Igrejas devem reformar seu culto, sendo esse um dos maiores desafios da igreja contemporânea; a batalha de fazer reforma é uma empreitada que poucos têm coragem de enfrentar. Podemos também lutar implantando congregações com uma estrutura onde se tem ensino, pregação, adoração e liturgia reformados e onde é possível se cantar os salmos. Mas não devemos abrir uma congregação com receio dos comentários, críticas e acusações infundadas. Muitos são tentados a pensar assim: “Que tal, começarmos uma congregação onde de início não somos explicitamente reformados e não se canta salmos, mas aos poucos vamos reformando o culto?”. Bem, já pensou, se criar uma congregação não reformada e com os mesmos vícios cúlticos contemporâneos para depois torná-la reformada? Não nos parece sensato este pensamento. Reformar significa lutar para se reaver o que foi deteriorado pela ignorância e desobediência e não aquilo que se estabelece deliberadamente deteriorado. Porque não começar uma congregação reformada e ir em frente, “reformada sempre reformando”? Por que não travar esta batalha logo no início, para se entrar em “terra santa”?

Bem, sei que estas minhas palavras podem ser polêmicas e críticas, mas não desejo criticar para destruir, e sim advertir e encorajar. O Senhor é o meu juiz. Se alguém não concorda com a salmodia exclusiva, deve, pelo menos, e no mínimo, concordar com os reformadores e cantar os hinos de Sião. Deve cantá-los com alegria e gratidão no coração; cantar com a família, com seus filhos e netos e contribuir para o Reino de Deus nesta e em outras gerações. Os salmos não foram feitos apenas para serem lidos, mas também para serem cantados como Jesus cantou, e também os apóstolos, e a igreja primitiva, e os pais da Igreja (Agostinho), e os reformadores e também os primeiros presbiterianos o fizeram sem temor.

Cante os Salmos sem medo e rejeição, mas com gratidão a Deus e obedecendo à Sua Palavra!

“Mas também, se padecerdes por amor da justiça, sois bem-aventurados. E não temais com medo deles, nem vos turbeis” (1 Pedro 3:14).

- por Manoel Canuto

[1] A coleção Salmos e Hinos, foi organizada pelo casal Dr. Robert Reid Kalley e Sarah Poulton Kalley, fundadores da Igreja Evangélica Fluminense, a primeira igreja evangélica em língua portuguesa no Brasil no ano de 1855. Com salmos parafraseados e hinos, foi usada pela primeira vez em 17 de novembro de 1861, seis anos depois de sua chegada ao Brasil. Esta coleção foi a primeira coletânea de hinos evangélicos em língua portuguesa organizada no Brasil. Também foi primeiro hinário usado por diversas denominações. 
[2] “Os salmos nos incitam a louvar a Deus, orar a ele, meditar nas suas obras a fim de que os amemos, temamos, honremos e o glorificamos. O que Santo Agostinho diz é totalmente verdade; a pessoa não pode cantar nada mais digno de Deus do que aquilo que recebermos dele” (Calvino).

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

O Segundo Mandamento: Não Fazer Imagens (por Francis Turretin)

Amados, àqueles que não possuem a obra Compêndio de Teologia Apologética de Francis Turretin (1623-1687), segue anexo "fotos" do livro, onde ele comenta sobre o 2º mandamento.
Para melhor visualização, clique nas imagens.












sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

5 Maneiras de Orar por Seu Pastor em 2013



Um dia desses eu recebi uma carta de um médico que eu não conhecia até então. Tendo me dito o quão ele havia sido beneficiado por alguns de meus sermões e artigos, ele continuou e me disse: “Eu oro por você. Eu serei capaz de fazê-lo diariamente agora, e estou certo de que você será ajudado e fortalecido em seu ministério e sua família.” Este foi um enorme conforto e encorajamento para mim. Ao contrário do que algumas pessoas possam supor, ministros do evangelho precisam desesperadamente das orações dos santos. Um de meus professores de seminário costumava dizer ao corpo discente: “Pastores possuem um alvo em suas costas e pegadas em seus tórax.” Esta é uma descrição bastante apropriada das dificuldades que os servos de Deus são chamados para suportar por causa do evangelho. Os dardos inflamados do maligno estão persistentemente sendo atiradas em pastores. Além disso, o mundo está ansioso por atropelá-los em qualquer oportunidade. Isso é, infelizmente, também uma realidade com relação a alguns na igreja.

Com tanta oposição e dificuldade de dentro e de fora, pastores precisam constantemente que o povo de Deus esteja orando por eles. O pastor precisa das orações das ovelhas tanto quanto elas precisam das orações dele. Ele também é uma das ovelhas de Cristo, e está suscetível às mesmas fraquezas. Ainda que haja muitas coisas que se possa orar pelos pastores, aqui estão cinco categorias escriturais diretas:

1. Ore para que ele seja protegido espiritualmente contra o mundo, a carne e o Diabo.

Quer tenha sido a ira pecaminosa de Moisés que levou-o a golpear a rocha (Números 20:7-12), o adultério e o assassinato de Davi (2 Samuel 11), ou a negação de Pedro ao Senhor (Mateus 26:69-75) e a negação prática da justificação somente pela fé (Gálatas 2:11-21), os ministros são confrontados com a realidade da fraqueza da carne, das investidas do mundo e da fúria do diabo (veja este artigo). Tem havido uma pletora de ministros que caíram em práticas pecaminosas na história da igreja, trazendo assim desgraça para o nome de Cristo. Visto que Satanás tem os ministros do evangelho (e suas famílias) trancados em sua mira; e visto que a honra de Deus está em jogo de maneira intensificada com qualquer ministro público da palavra, membros de igreja devem orar para que seu pastor e a família de sue pastor não seja uma vítima do mundo, da carne, ou do Diabo.

2. Ore para que eles sejam livrados dos ataques físicos do mundo e do Diabo.

Enquanto esteve aprisionado em Roma, o apóstolo Paulo encorajou os crentes em Filipos a orarem por sua libertação quando escreveu: “Estou certo de que isto mesmo, pela vossa súplica e pela provisão do Espírito de Jesus Cristo, me redundará em libertação” (Filipenses 1:19). (Veja também 2 Coríntios 1:9-11).

Quando Herodes prendeu Simão Pedro, nós aprendemos que “havia oração incessante a Deus por parte da igreja a favor dele” (Atos 12:5). Após uma libertação digna do Êxodo, Lucas nos diz que Pedro apareceu na casa onde os discípulos estavam continuamente orando por sua libertação. Este é ainda outro exemplo do ministro sendo livrado do mal devido, em parte, às orações dos santos.

3. Ore para que portas sejam abertas para eles para que espalhem o evangelho.

Em sua carta aos Colossenses, Paulo pediu à igreja que orasse “para que Deus nos abra porta à palavra, a fim de falarmos do mistério de Cristo, pelo qual também estou algemado” (Colossenses 4:3). O sucesso do compartilhamento do evangelho é dependente, em parte, das orações do povo de Deus. Desta maneira, a igreja participa do ministério do evangelho com o pastor. Embora ele não seja o único no corpo que seja chamado para espalhar a Palavra, ele possui o chamado único de “fazer o trabalho de um evangelista.” Os santos o ajudam a cumprir este trabalho orando para que o Senhor abra as portas “à palavra, a fim de falarmos do mistério de Cristo.”

4. Ore para que eles tenham ousadia e poder para pregar o evangelho.

Além de orar para que portas sejam abertas para o ministério da palavra, o povo de Deus deve orar para que os ministros possuam uma ousadia forjada pelo Espírito. Quando escreveu à igreja de Éfeso, o apóstolo Paulo pediu que eles orassem “para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra, para, com intrepidez, fazer conhecido o mistério do evangelho” (Efésios 6:19).  Há uma história muito conhecida de vários estudantes universitários indo visitar o Tabernáculo Metropolitano para ouvir Charles Spurgeon pregar. A história diz que Spurgeon os encontrou na porta e se ofereceu para mostrar-lhes o lugar. Em determinado momento, ele perguntou se eles queriam ver as instalações do aquecedor (a sala da caldeira). Ele os levou ao subsolo onde eles viram centenas de pessoas orando para que Deus abençoasse o culto e a pregação de Spurgeon. A reunião do povo de Deus para orar pelo ministério da Palavra é o que ele chamava de “as instalações do aquecedor!” Crentes podem ajudar os ministros orando para que lhes seja dada ousadia e poder na pregação do evangelho.

5. Ore para que eles tenham um espírito de sabedoria e entendimento.

Uma das mais urgentes necessidades de um ministro do evangelho é que lhe seja dada a sabedoria necessária para aconselhar, para saber quando confrontar, para mediar e discernir as necessidades pastorais particulares de uma congregação. Esta é uma necessidade que absolutamente abrangente e recorrente. O ministro é confrontado diariamente com os desafios particulares para os quais ele necessita desesperadamente da sabedoria de Cristo. É dito a respeito de Jesus que “o Espírito de sabedoria e de entendimento, o Espírito de conselho e de fortaleza” repousaria sobre Ele (Isaías 11:2). Os servos de Cristo precisam do mesmo Espírito. Muito prejuízo é causado na igreja como um todo se o ministro não procede com a sabedoria proporcional aos desafios com os quais ele é confrontado. Aqueles que se beneficiam de sua sabedoria podem ajudar o ministro pedindo para que esta divina bênção venha do céu e repouse sobre ele.

- por Nicholas Batzig
Fonte: Blog Fiel

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

8 Pontos Para Ajudar a Lidar com a Aflição



Ontem [12/12/2012] eu me submeti a uma segunda cirurgia pequena, em um intervalo de várias semanas, por causa de um câncer basocelular de pele em meu rosto. Não é algo muito sério, já passei por isso uma meia dúzia de vezes. Entretanto, ontem foi mais doloroso. Injeções no nariz para anestesiar a área infectada não nos fazem sentir bem! Depois de o dermatologista retirar uma camada, você vai para uma sala de espera com uma meia dúzia de outras pessoas que estão infectadas de forma similar – todos com grandes curativos sobre o nariz e outras partes do rosto. Arrisco dizer que todos ficam orando secretamente enquanto esperam que o médico tenha removido todo o câncer já na primeira sessão. O tempo de espera entre as sessões gira em torno de quarenta e cinco minutos à uma hora.

Bem, basta dizer que ontem metade das pessoas foram tratadas com sucesso após a sessão 1, e quase a outra metade na sessão 2 – todas com exceção de mim. O dermatologista finalmente teve sucesso com meu caso depois da sessão 3. Isso significa ter sido anestesiado quatro vezes e muitas picadas no nariz e nas áreas em volta durante todo o dia. Acabamos ficando lá por seis ou sete horas.

Para minha vergonha, eu estava começando a murmurar quando fui o único que restou na sala. Duas coisas providenciais me ajudaram, entretanto. Uma delas foi uma doce senhora metodista que ficava nos dizendo que a vida dela estava nas mãos de Deus de forma que não importava quantas sessões ela teria que se submeter. O testemunho dela foi bastante humilhante.

Mas o segundo, e mais útil, foi o livro que eu estava editando durante os períodos de espera – a primeira biografia sobre o puritano 
Arthur Hildersham, a qual a Reformation Heritage Books espera publicar no próximo mês. Assim que minha murmuração começou a surgir, cheguei a um notável capítulo do livro sobre as aflições que Hildersham teve que enfrentar em sua vida, e como ele, então, escreveu sobre 8 pontos para ajudar a lidar com a aflição. Rapidamente, aqui estão eles:
1. Pense sobre aflição, espere-a, e se prepare para ela antes de ela chegar.
2. Afaste seu coração do amor por coisas terrenas de forma que quando perdas e cruzes chegarem, você estará apto a se curvar diante delas em doce submissão.
3. Familiarize-se completamente com as Escrituras, pois elas preparam as pessoas para a aflição, e nos ensinam a paciência e o conforto na aflição, como nenhum outro livro consegue.
4Esforce se por perceber o quão pecador você realmente é, de maneira que você entenderá que aquilo que você está suportando não é nada se comparado ao que você merece.
5. Antes que provação chegue, tenha certeza de que você tem uma fé verdadeira e viva, e uma agradável convicção de sua reconciliação com Deus através de Cristo, pois a fé em Cristo e a segurança do bem-estar da sua alma nEle lhe capacitará a beber “a porção mais amarga da mão dEle”.
6. Lembre-se de que você possui a esperança da glória eterna se e quando você morrer.
7. Antes que a aflição chegue, seja diligente em “levar uma vida piedosa e estar com a consciência limpa”.
8. Deixe que a oração lhe fortaleça em todas as provações.
Que ajuda esses oitos pontos foram para mim ontem! Como um crente pode murmurar depois de meditar em uma lista como essa? Na verdade, Deus é mais bondoso conosco em nossas piores provações do que nós somos para Ele em nossos momentos mais piedosos e de maior retidão.]
- por Joel Beeke
Fonte: iPródigo

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