sábado, 25 de novembro de 2023

O culto online e a tentação do Diabo

Você conhece o plano de fundo deste texto olhando no retrovisor da história recente: pandemia, COVID-19... todos em casa e você se dá conta de que nunca tinha sentado em frente da televisão para acompanhar um culto da sua igreja. Talvez a sua igreja nem tivesse esta opção.

Você queria ir à igreja, mas não podia. Você desejava sair de casa e estar com os irmãos, mas não podia. Vocês queria tocar na banda, mas não podia. Você queria... mas não podia quase nada. Sua (nossa!) fé ativa e em comunidade, agora estava em parafuso e sem direção.

Neste cenário conhecido é que o culto online veio como uma verdadeira e justa benção de Deus. Eu não quero exagerar, mas foi quase como o maná no deserto para o povo de Deus.

Sem dúvidas o culto online supriu uma lacuna imensa na vida de todo crente, muitas vezes até testemunhando para dentro de casa que "eu e minha casa serviremos ao Senhor, pois agora é a hora de desligar a Netflix e acompanhar o culto; somos crentes"! Eu brinco, ok, mas também falo sério.

Aqui, não vou entrar em comentários se o culto online era realmente válido diante do "rito padrão das Escrituras", se a ceia por wi-fi tinha utilidade real diante de Deus... O motivo principal do culto online já passou e por mil motivos não há razões para questionar isso neste momento. Vamos admitir que tudo ou quase tudo foi proveitoso, como acredito de coração. E o que não foi, na ignorância fizemos e Senhor nos perdoe por Tua misericórdia.

Voltando... O fato é que embora possamos dizer a Deus que andaremos "com um coração sincero." (Sl 101.2) diante d'Ele e que estaremos buscando ter uma "aparência de piedade" (2Tm 3.5), a Bíblia diz que somente a doutrina do sábio é capaz de nos livrar dos laços da morte (Pv 13.14).

Pois bem, que doutrina é essa? Ainda que a resposta seja clara (a Palavra de Deus, lógico), as tentações são fortes e buscam nos seduzir com atalhos que parecem agradáveis. Os laços de morte continuam lá, junto com o leão que procura nos devorar (1Pe 5.8).

Há muitos irmãos que não congregam mais após a pandemia ou se o fazem é com baixíssima frequência. Todo pastor pode relatar diversos membros que nunca mais foram vistos na igreja local e em nenhuma outra. Embora o plantiu possa ter se renovado e Deus acrescentado ovelhas de "outros apriscos", criou-se uma nova espécie dentro da fé cristã: os salvos intocáveis. Explico.

Na medida em que não somos ninguém pra duvidar da salvação de gente que nem conhecemos, também não podemos entender como normal a adoção de padrões que geram efeitos colaterais danosos à fé cristã. Atitudes que já foram genuínas e puras de coração, se tornaram uma armadilha pra alma.

Os santos intocáveis são aqueles não precisam mais chegar atrasados no culto ou a família inteira com cara de briga, só porque o tempo fechou antes de saírem de casa. Agora estes santos podem se enfileirar no sofá (ou cada um em seu celular em seu quarto) e assistir ao culto comendo pipoca ou pizza.

Esta nova espécie não cumprimenta mais o pastor da igreja e outros irmãos. Como consequência, não olha outros crentes nos olhos e escuta: "como você realmente está, meu querido? Não tenho mais visto você na igreja". Ninguém mais os pergunta como estão seus filhos ou seu casamento. Conquistaram uma vida de "paz".

Estes santos ficaram imunes às discussões sobre que horário sair para ir à igreja, sobre o culto ser de manhã ou à noite... Nem mesmo precisam mais enfrentar uma pregação ou louvor "chatos", pois o controle oferece outras mil opções de mensagem. Não são mais incomodados com quase nada dentro da "Arca de Noé" do Novo Testamento. Acreditam que tiveram êxito em construir um barquinho extra e ficam fora da Arca, embora tentem seguir seu rumo.

Conseguiram (ou assim creem) encontrar um meio de viver sua fé de modo particular e sem interrupções. E não tenho dúvidas de que quanto mais este rito se repete, pior fica sair dele. É uma espécie de entorpecência espiritual. A droga é lenta, constante e perigosa.

Neste sentido, não temos como não lembrar de Jesus e sua tentação no deserto (Lc 4). Nosso Mestre não ouviu mentiras: tudo o que o Diabo disse era verdade e estava na Escritura. Todas as investidas do inimigo tinham um fundo de verdade e aparência de piedade.

E eu receio que embora não possamos transformar pedra em pão ou nos jogar de cima do templo e sermos salvos por anjos, tentação semelhante bata em nossa casa toda semana através deste tal culto online.

Argumentos a favor de ficar em casa e cultuar por wi-fi não me faltariam aqui neste texto: comodidade, economia de combustível, mais tempo com a família, oportunidade de pausar o vídeo e abrir a Bíblia... Desculpas sem fim eu poderia escrever, mas que só serviriam para justificar o que acredito não ser justificável.

Por isso, a fim de encorajar quem talvez passa por esta situação, gostaria de elencar 3 razões para você voltar ao "antigo modelo" e retornar ao culto presencial (se for possível):

1. Admita com honestidade que sua vida espiritual, ainda que não tenha "piorado horrores", certamente não avançou.

Não lembro qual antigo autor escreveu (se John Flavel ou outro), mas que dizia que Deus jamais usará um meio de Graça para afastar os Seus filhos. Deus nunca (se assim podemos dizer) levará os crentes à igreja para os tirar da igreja; jamais usará a congregação de irmãos para que briguem e tumultuem a fé um do outro.

Os meios de graça (oração, leitura, comunhão...) foram dados para nosso benefício e para sempre assim será. O culto online preenche muito parcialmente alguns destes meios e acaba por não completar nenhum. Não há abraços, você não ajuda ninguém, não é ajudado nem confrontado, não há pedidos de socorro ou sorrisos encorajadores, ninguém ora por ninguém... nada. 

A prova de que não há crescimento é que beira o impossível alguém ser adepto do culto online e durante a semana ter uma vida ativa dentro da sua comunidade. Sem provas, mas com alguma certeza por percepção e lógica, afirmo que quanto mais se foge da comunhão, menos vontade se tem de estar com outros crentes ou viver o evangelho no dia a dia.

A fé não avança quando andamos já contramão do sistema bíblico.

2. Ser igreja não exclui estar com a igreja e fazer coisas de igreja.

O argumento famoso de que "eu sou igreja até quando estou no Starbucks" é tão válido quanto "eu sou médico até quando estou tomando sorvete". É uma frase vazia e sem sentido objetivo algum.

As próprias cartas escritas e enviadas (que lemos na Bíblia), são uma prova de que existe a necessidade constante de estar junto para aprender junto. Não existe autodidata na fé cristã existencial. Ler os melhores livros ou assistir aos melhores pregadores online, não torna ninguém automaticamente participante da comunidade cristã.

Durante toda a história bíblica temos narrativas de homens e mulheres de Deus chamando o povo a congregar. Toda vez que se dispersavam e não mais buscavam a Deus... eles liam livros e voltavam a ser crentes? Não! Voltavam a congregar para buscar perdão, consolo e ânimo uns nos outros. A vida cristã é feita de suor e corpos unidos. O templo e nem o muro foram reerguidos com um discurso bonito e depois cada um foi para sua casa para não mais se verem.

E que ninguém tente argumentar de que naquela época poucos sabiam ler e escrever, como se este fosse o motivo para se congregar. A internet não fez as pessoas pararem de viajar de avião para estarem juntas, só porque podem falar a distância! Quando gostamos de alguém, queremos estar juntos! É da essência da criação! 

Assim como não existe vida familiar online, filhos online ou pets online, não existe vida em igreja somente no virtual.

3. Observe que tipo de pessoas adere até hoje ao culto online.

Com exceção dos doentes, pessoas que não podem se locomover ou estão a trabalho, ouso dizer que todo o restante é de uma espécie que deliberadamente não quer "ver certas pessoas", não quer "se incomodar com determinadas coisas" ou possui outro argumento que não merece meu tempo escrevendo.

Você não verá um crente de joelhos em frente à televisão clamando por perdão, graça, misericórdia e ousadia para falar da palavra e que não se mova em direção efetiva daquilo pelo qual orou. Lembre-se: Deus não vai usar os meios de graça para afastar seus filhos. Se alguém orar deste jeito, Deus vai mover está pessoa a fazer e estar com outras pessoas!

Adeptos conscientes do virtual, embora eu não deva duvidar da sua salvação efetiva, vocês estão em dormência espiritual e eu espero que esta reflexão os ajude.

Que Deus nos dê graça e nos lembre sempre: "aquele que julga estar de pé, cuide para que não caia" (1Co 10.12).

Amém.

sábado, 4 de novembro de 2023

Relato dos 21km na Ultra Trail Rota das Águas 2023!


Em 2016 participei desta mesma corrida, na primeira edição (se não me engano). E 7 anos depois eu volto para a mesma distância (esta prova aconteceu dia 04 de novembro de 2023).

É interessante como a corrida exige muito treinamento e também humildade. Talvez até possamos falar o mesmo de todos os esportes e até mesmo da vida em geral.

Pra esta corrida, fui praticamente sem treinar: eu confesso! A vontade e desejo de participar foram maiores do que o empenho para treinar. E quando é assim, só sobra uma alternativa: baby steps!

E pra "piorar", me inscrevi nos 21km Dog Montain, que teve mais de 1.200m de elevação acumulada.


Não encontrei qualquer conhecido na linha de largada e o instinto de sobrevivência logo avisou: arranje um parceiro para correr junto! Eu sei que pode parecer bobeira, mas para um amador isso faz a diferença, já que a moral e a camaradagem contam muito! É até bíblico: “Porque se um cair, o outro levanta o seu companheiro; mas ai do que estiver só; pois, caindo, não haverá outro que o levante. Eclesiastes 4:10”

Aguardando a largada, me juntei a um corredor mais velho que eu e fomos correndo de maneira lenta e trocando figurinhas por todo o caminho. E enquanto a conversa fluía, fui descobrindo que o Sr. Darci já tinha feito diversas provas longas (inclusive de 100k!) e que era um experiente corredor.

E quando você não treina e vai para uma prova "difícil" para se divertir, só resta ir num ritmo tranquilo, buscando aproveitar os momentos e a paisagem.

 






Cabe ressaltar que como não vivo na corrida (além de não querer e não conseguir), todos os objetivos são sempre pessoais: seja de simplesmente conseguir largar e chegar, até finalizar em determinado tempo. 

A vida já impõe desafios e o esporte sempre vem para "aliviar a pressão", permitindo manter a mente oxigenada e o espírito de resistência sempre em dia. Mas isso não significa que seja fácil! Nem sempre aliviar a pressão significa ter vida mansa! As vezes é preciso passar por dificuldades que levam ao crescimento.

*

*para outras informações, acesse o Strava desta corrida: Strava - Rota das Águas 2023

Por fim, depois de 3h e 38 minutos, chegamos na linha de chegada. Inclusive peguei uma flor (no mato) pra minha esposa e o fotógrafo conseguiu registrar.

 


A sensação de completar uma prova que sabidamente é desafiadora (mesmo para quem treina) só é sentida por quem participa. Não há como descrever, apenas sentir.

E por fim, o abraço da família, fazendo tudo valer muito mais a pena!

quarta-feira, 2 de março de 2022

Carta ao Lukinha - um seminarista que faz vakinha online


 *Esta carta é fictícia, embora contenha situações da vida real.

Meu caro e grande Lukinha! 

Confesso que esses dias até bateu uma saudade de você: lembrei quando jogávamos Free Fire juntos há pouco tempo atrás. Acho que agora você está em outro jogo, né?

Enfim, hoje te escrevo para falar de uma situação que me deixou intrigado: aquela sua vakinha virtual para pagar os estudos no seminário.

Rapidamente, duas coisas me chamaram a atenção: em primeiro lugar, que o seminário fica nos EUA; e em segundo lugar, que eu não lembro de ter visto você trabalhar e juntar algum dinheiro próprio para isso.

Eu sei, pequeno Nébias (sua avó me contou esse apelido kkkk), que o Brasil não tem tantos seminários, mas realmente precisa ser lá nos EUA, bem na terra da Disney, do combustível mais barato e dos iPhones pra todo lado? 

Veja só, eu sei que você gosta de estudar, mas a vakinha vai sustentar também as suas férias, certo? Todo mundo vai contribuir com a sua foto junto ao Pluto e o castelo encantado. O sorvete, os passeios - sim, eu sei, os livros também -, tudo vai ser custeado por quem está de longe, só olhando...

Me lembro muito bem que até pouco tempo atrás, você está indeciso quanto ao que fazer da sua vida profissional. E quero te dizer, meu amigo, que isso é normal. Ao fazer 18 anos, não se abrem certezas na vida - tem gente que vive por anos com essa dúvida - e isso continua sendo normal.

Porém, Lukinha, uma coisa não é normal: não querer trabalhar. E nisso eu vejo que você errou bastante! Você passou a confundir a incerteza profissional com um chamado ministerial - e isso é grave!

Eu não quero discutir contigo se Paulo fez tendas a vida toda, se a tenda era com duas águas ou meia água, se vermelha ou preta... não me importa nada disso.

Mas um fato é bem verdade: você quase não trabalhou e agora quer a ajuda de um monte de pessoas para patrocinar o seu desejo. Naquela incerteza natural da vida, você começou a achar que o ministério era um chamado...

Enquanto escrevo, me lembro novamente da sua avó, quando ela me disse que você a procurou e pediu ajuda pra essa vakinha. Lukinha, meu pequeno Nébias, isso não tem o menor cabimento! Sua família é de origem pobre, ninguém tem sequer passaporte e agora você quer dinheiro para viajar aos EUA - francamente! Olhe o estado da casa da sua avó - o que você fez para a ajudar?

Sim, eu sei que a Bíblia fala sobre a possibilidade de ser ministro enquanto ainda jovem, mas a Escritura não diz que você precisa ser ministro enquanto jovem. E aqui vai meu primeiro conselho: salvo se houver uma indicação muito clara da parte de Deus, adie essa vontade e vá trabalhar primeiro.

Sim, trabalhe onde for necessário, junte algum dinheiro e depois vá em busca desse sonho. É importantíssimo você trabalhar, até mesmo para entender como é o dia a dia da sua possível congregação; para você compreender as dificuldades reais e de como é a vida de um pai de família; para você ter a clara noção do quanto custa colocar 100 reais numa vakinha online...

Não quero me alongar muito mais, mas como um segundo conselho, te recomendo formar uma família antes de ir ao seminário. E aqui novamente: também não me importa se Paulo, Timóteo ou Tito eram solteiros, e sim a sua realidade.

Você gosta de ficar até tarde estudando, o que pode ser ótimo. Mas conseguiria entender uma mãe que não consegue ler a Bíblia, tudo porque está com um filho pequeno no colo e com as emoções bagunçadas? Você já namorou umas duas vezes e estranhamente "não deu certo" - como vai fazer para aconselhar casais em dificuldade?

Veja só que não estou duvidando do poder de Deus na sua vida, mas preciso pontuar que Deus já estabeleceu vários meios para aprendermos a Sua vontade e uma delas se chama casamento, a outra trabalho e assim por diante.

Por fim, gostaria de te animar a viver para a glória de Deus, independentemente de onde está. Seja você peão de obra ou seminarista, ali há um chamado. Ninguém precisa se formar durante anos no exterior - gastando uma grana federal - para que possa falar de Jesus para as pessoas. Recorde dos apóstolos e sua pouca instrução, mas foram chamados e capacitados pelo Senhor...

Essa escolha é sua e estou orando por você.

Forte abraço e que Deus o abençoe!

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Como ser um cristão feliz? O contentamento cristão

 

O contentamento cristão

Hoje gostaria de falar sobre a importância do contentamento na vida do cristão. 


Quero recomendar 3 livros para vocês:

1. O segredo do contentamento (William B. Barcley)        

2. A rara joia do contentamento cristão (Jeremiah Burroughs 1648)

3. A arte do divino contentamento (Thomas Watson 1653)


Quando fui convidado para trazer essa palavra, a ideia era falar sobre “começando a vida financeira”. Então, pensando sobre, me veio à memória as palavras de Paulo em Fp 4.11-13: 

Não estou dizendo isso porque esteja necessitado, pois aprendi a adaptar-me a toda e qualquer circunstância. Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo/mistério de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece.” 

Também em Hb 13.1-5, quando nas últimas instruções, o autor diz: 

Seja constante o amor fraternal. Não se esqueçam da hospitalidade; foi praticando-a que, sem o saber alguns acolheram anjos. Lembrem-se dos que estão na prisão, como se aprisionados com eles; dos que estão sendo maltratados, como se fossem vocês mesmos que o estivessem sofrendo no corpo. O casamento deve ser honrado por todos; o leito conjugal, conservado puro; pois Deus julgará os imorais e os adúlteros. Conservem-se livres do amor ao dinheiro e contentem-se com o que vocês têm, porque Deus mesmo disse: "Nunca o deixarei, nunca o abandonarei

Mas o que é o contentamento cristão? Burroughs define como: 

O contentamento cristão é aquele estado doce, interior, sereno e gracioso de espírito, que livremente se submete e se delicia na disposição sábia e paternal de Deus em toda e qualquer situação” 

Mas quando começou o descontentamento do homem? Após o pecado (Gn 3).

Adão e Eva acreditaram que o que Deus lhes havia preparado, não era o suficiente. William Barcley diz: “O espírito descontente não descansa no controle soberano de Deus” 

Precisamos lembrar que desenvolver esse contentamento cristão em um coração pecaminoso e descontente é uma tarefa impossível. A partir da queda do homem, não existe mais possibilidade natural para o homem se contentar com as coisas de Deus.

Portanto, existe uma diferença entre o contentamento natural do homem e o bíblico:

No mundo,  para você estar contente, você precisa sair de uma situação ruim; já na Bíblia, lemos que podemos encontrar contentamento até mesmo em meio às circunstâncias mais difíceis. Para o mundo, somos felizes se conseguirmos o que desejamos; já a Bíblia, ensina a estar satisfeito com Deus.

O ponto chave aqui é que precisamos desenvolver o contentamento cristão em nossas vidas. Por sermos crentes, o Espírito Santo trabalha em nós. Paulo mesmo escreve: 

Assim, pois, amados meus, como sempre obedecestes, não só na minha presença, porém, muito mais agora, na minha ausência, desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor” Filipenses 2:12 (ARA).

Desenvolver o contentamento significa dizer que ele não nasce sozinho! Spurgeon pregando sobre o tema, nos lembra que as ervas daninhas e toda sorte de “mato” não precisa ser semeado no jardim – eles nascem sozinhos! Não precisamos ensinar uma criança a reclamar, pois ela já nasce reclamando!

J. C. Ryle (1816-1900) escreveu: “Dizem que há duas coisas muito raras de ser no mundo: um jovem humilde e um velho contente. Receio que essa afirmação seja verdadeira, infelizmente”.

E o descontentamento afeta todas as áreas da nossa vida. Estar descontente não gera algo abstrato ou uma “espiritual separação de Deus, mas quem ninguém consegue ver ou medir”. Pelo contrário: estar descontente em Deus, afeta diretamente nossas amizades, desempenho no trabalho, nos estudos, casamento, família, igreja, empresas, filhos... Na vida de um crente, não há nada que se fortaleça ou melhore quando estamos descontentes.

Alias, o descontentamento é a origem de muitos dos nossos pecados. Tg 1.14, 15 diz:

Cada um, porém, é tentado pela própria cobiça, sendo por esta arrastado e seduzido. Então a cobiça, tendo engravidado, dá à luz o pecado; e o pecado, após ter-se consumado, gera a morte.”

A sedução do pecado é algo incrível. No capítulo 13 de Gênesis, lemos sobre a desavença entre os pastores de Abraão e Ló, por causa da grande quantidade de animais e de terra que precisavam. Então Abraão propôs que Ló escolhesse um lado da terra e ele iria para o outro. A Bíblia diz, então: 

Olhou então Ló e viu todo o vale do Jordão, todo ele bem irrigado, até Zoar; era como o jardim do Senhor, como a terra do Egito. Isto se deu antes do Senhor destruir Sodoma e Gomorra. Ló escolheu todo o vale do Jordão e partiu em direção ao Leste. Assim os dois se separaram: Abrão ficou na terra de Canaã, mas Ló mudou seu acampamento para um lugar próximo a Sodoma, entre as cidades do vale”. Gênesis 13:10-12

Possivelmente Zoar ficava a uma curta distância de Sodoma e Gomorra – e isso não parece ter sido importante para Ló. Mas onde ele foi encontrado, quando os anjos vieram destruir as cidades?

Os dois anjos chegaram a Sodoma ao anoitecer, e Ló estava sentado à porta da cidade. Quando os avistou, levantou-se e foi recebê-los. Prostrou-se, rosto em terra” Gênesis 19:1

Tudo indica que aos poucos, Ló foi se mudando para Sodoma. Possivelmente começou a ver as coisas boas daquela cidade e quando a história retorna com Ló, ele está morando dentro da cidade.

Ainda mais: o texto nos diz que Ló, apesar de ter sido avisado da destruição, ele não saiu rapidamente de lá.

Ao raiar do dia, os anjos insistiam com Ló, dizendo: "Depressa! Leve daqui sua mulher e suas duas filhas, ou vocês também serão mortos quando a cidade for castigada". Tendo ele hesitado, os homens o agarraram pela mão, como também a mulher e as duas filhas, e os tiraram dali à força e os deixaram fora da cidade, porque o Senhor teve misericórdia deles.” Gênesis 19:15,16

Só podemos nos fazer a pergunta: por que Ló demorou? 

A Bíblia diz que apesar de Ló viver em Sodoma, não compactuava com o que via:

Também condenou as cidades de Sodoma e Gomorra, reduzindo-as a cinzas, tornando-as exemplo do que acontecerá aos ímpios; mas livrou Ló, homem justo, que se afligia com o procedimento libertino dos que não tinham princípios morais (pois, vivendo entre eles, todos os dias aquele justo se atormentava em sua alma justa por causa das maldades que via e ouvia)”. 2 Pedro 2:6-8

Mas então, por que Ló demorou? Talvez apesar de se afligir e não concordar com o que via, tinha um certo prazer em morar lá. Quem sabe fosse o famoso “não concordo com tudo, por isso vou tentar aproveitar o que é bom” – e é aí que muitos problemas começam a surgir.

E é dessa mesma maneira que o descontentamento vai brotando em nossos corações. Não acordamos louvando a Deus e de repente, abandonamos o evangelho no meio da tarde. Essas coisas não costumam acontecer rapidamente, mas quando vemos... já foi. Ló não deixou Abraão e foi diretamente para Sodoma – ele apenas foi “perto” de lá.

É preciso lembrar que o contentamento cristão não significa nunca se questionar, chorar, lamentar ou mesmo orar para que Deus mude aquela situação. O contentamento tem a ver com apesar das circunstâncias que enxergamos e passamos, confiamos que Deus está no controle e sabe o que é melhor para nós – ainda que não entendamos nada naquele momento.

Sobre isso, Paulo escreveu em Rm 5.5: “E a esperança não nos decepciona, porque Deus derramou seu amor em nossos corações, por meio do Espírito Santo que ele nos concedeu.”

O mundo procura pelo contentamento cristão. Aborde qualquer pessoa na rua e se elas forem sinceras, tudo o que elas desejam é estar satisfeitas com a vida e com elas mesmas.

Existe, inclusive, movimentos que buscam esse contentamento, como o “Slow Movement”, “Slow Food”, “Viver a custo zero” e tantos outros. Todos eles estão buscando encontrar um sentido na vida, algo que lhes traga a alegria nas coisas simples da vida.

Surge, então a pergunta: quais os benefícios do contentamento cristão? Poderia listar vários, mas irei comentar 4 deles:

1. Um espírito contente nos permite adorar a Deus

Burroughs descreve que adoração não é apenas “fazer o que agrada a Deus”, mas, também, “agradar-se do que Deus faz”.

Por que tantas vezes temos dificuldade de adorar e reconhecer o senhorio de Deus em nossas vidas?

Porque as vezes temos tudo e estamos bem supridos – então estamos contentes com as coisas terrenas e nos esquecemos de que foi Deus quem nos deu. Ou porque estamos com dificuldades na vida (dinheiro, família, estudos...) e não conseguimos enxergar Deus nisso tudo.

Somente quando estamos confiantes n’Ele é que podemos o adorar.

2. O contentamento nos permite experimentar a paz de Deus

Paulo mesmo escreve em Fp 4.7: 

Não andem ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e súplicas, e com ação de graças, apresentem seus pedidos a Deus. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os seus corações e as suas mentes em Cristo Jesus”.

A passagem de Paulo em Fp 4.11-13 (início) indica algo importante: parece ter havido um tempo em que ele ainda não sabia como viver contente – ou não da maneira como estava vivendo. Talvez ele mesmo, ao longo da vida, foi aprendendo a experimentar e a saber o que de fato era essa paz com Deus.
Isso também significa que por mais apóstolo que fosse em outras aspectos, era um cristão comum nas coisas normais da vida. Sentia fome, dor, medo, angústia... mas com tudo isso, foi aprendendo a viver contente.

E frequentemente só aprendemos isso, quando perdemos algo. Não somos bons aprendizes enquanto o mar está tranquilo ou temos grandes quantias guardada em dinheiro. A maioria de nós só aprender quando perde. 

3. O contentamento é uma joia rara e preciosa

Lemos em 1Tm 6.6: “grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento”.

Falar em vida simples, vida completa, vida desprendida das coisas materiais... nada disso faz sentido para o cristão, se tudo não estiver conectado a Deus.

Ajudar na igreja, tocar na banda, pregar, orar antes das refeições... toda essa aparência de piedade, uma hora vai nos cansar, se o alicerce não for Deus. Ninguém aguenta se doar durante muito tempo, se não houver a graça divina operando.

Por isso que o contentamento é uma joia rara. Quase que dá “super poderes” e quem tem, tem tudo.

4. Viver descontente afeta o nosso testemunho cristão
Também para os filipenses, Paulo escreve:

Façam tudo sem queixas nem discussões, para que venham a tornar-se puros e irrepreensíveis, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração corrompida e depravada, na qual vocês brilham como estrelas no universo, retendo firmemente a palavra da vida”. Filipenses 2:14-16

Como falar de Jesus para as outras pessoas, quando nós não estamos contentes com ele? É praticamente impossível.

Como agradecer e dar um beijo no pai e na mãe, quando estamos brabos com eles? Impossível. Não conseguimos dar o braço a torcer. O mesmo ocorre em nosso relacionamento com Deus.

Considerando o que já vimos, 3 coisas precisam ficar gravadas em nossa mente:

1. Deve ser uma meta na vida do cristão, o buscar o contentamento em Deus.
2. Este contentamento não irá brotar sozinho, a menos que busquemos ao Senhor.
3. Depois que você encontrar, fique firme na fé e mantenha esse contentamento sempre aceso. 

Resumindo: o contentamento surge e se forma no decorrer da caminhada cristã. 
Que Deus nos abençoe

*este texto é um esboço do sermão, pregado dia 22/11/2020 em Blumenau, na igreja MEUC.

quinta-feira, 12 de março de 2020

Relato dos 21km na JaraguáSky!



Gosto de escrever pelo prazer próprio e porque posso, talvez, influenciar alguém positivamente. Por isso o relato abaixo.

Em novembro escrevi sobre minha corrida de trilha e montanha na Ultra Trail Celebration. Você pode ler o relato aqui

Também já escrevi sobre três corridas que participei e que me marcaram: Maratona de 42km por praias e trilhas (2014)23km na Ultra Trail Rota das Águas (2016) e minha tentativa de 50km da Ultra Trail Ribeirão das Pedras (2016). Também já comentei sobre o exercício físico e seus benefícios mentais.

E hoje é dia de falar da JaraguáSky Marathon! Que corrida, amigos!

Pra quem não conhece, este tipo de corrida é chamado de "trail running" ou "corrida de trilha". Porém mais do que sair do asfalto, alguém em algum dia (provavelmente ocioso), resolveu começar a correr em trilhas pelas montanhas - ferrou geral.

Vamos lá. Primeiramente, o percurso da prova. A prova largava no pavilhão de eventos em Jaraguá do Sul e encarava todo este trecho pelas montanas:



Na inscrição constava: Dificuldade - alta. E confesso que não dei bola, porque achei que estava preparado. "Achei", do verbo "cheguei lá e vi que não estava".

A altimetria da prova:




A gente sempre procura estar condicionado para o que vem pela frente, mas o que veio me surpreendeu. Aqui neste maravilhoso vídeo, você pode ver o pico do terceiro morro em que estivemos. É tão alto que o pessoal salta de parapente!

Já de imediato, meus elogios ao pessoal da Ultra Trail Eventos e da TRC Brasil, que como sempre fizeram um ótimo evento. Boa estrutura para os atletas e aquela animação característica das provas!

Disse em outros relatos aqui e repito: corro pra me vencer. Escolho distâncias e lugares que eu simplesmente acho que são desafiadores. E assim foi com na JaraguáSky: 5h e 15min de alegrias e batalhas.


Nas provas que participo, um ciclo sempre se repete: euforia na largada, reflexões de toda sorte pelo caminho e sentimento de conquista na chegada. É sempre assim.

Larguei com meu colega Bruno Wanke e fomos juntos até perto do quilômetro 9, após passar por duas subidas fortes, porém "ok". Até ali o corpo respondia bem e inocentemente achei que se até ali estava legal, o resta estava "ok". Logo percebi que fui juvenil...

Nessa foto do Luis Villar, você pode ter uma ideia de como eram diversas subidas. Sim, meu amigo, era só na base da corda.


Peguei uma do Fábio Holler também, mostrando a subida em mata quase fechada.


Para não dizer que não corri ali, uma minha também: 


A paulera foi grande. Sofri muito. Diversas vezes pensei em desistir - mas do que adiantaria? Desistir de uma prova no meio do mato? Quem iria me resgatar? O jeito era prosseguir.

Ao final da terceira subida (o morro das antenas), cheguei simplesmente moído e fiz questão de fazer a "cara que mais retratasse o estado do corpo" - acho que consegui.


Porém, como é comum após um longo esforço e muita batalha mental, a vitória acaba valendo a pena: 


Apesar do sofrimento, a vista lá de cima era incrível (uma pena estar tão quebrado e não ter curtido ela):

Após as 3 subidas, sabia que teria mais 6 quilômetros de descida (que viraram quase 9, porque a prova acabou com praticamente 24km). E se engana quem pensa que só porque desce é fácil. Como se costuma dizer, "a subida cansa e a descida machuca". Com as pernas em frangalhos, andar foi quase a única opção.

E após mais de uma hora descendo, alternado entre caminhada e corrida nos quilômetros finais, finalmente a glória de ter chego e vencido:


A alegria no rosto não representa o sentimento e as dores do corpo, mas expressa a felicidade de ter vencido a mim mesmo mais uma vez. A medalha não é nada, senão a materialização de todo o esforço e foco necessários.


Obrigado, Ultra Trail Eventos e TRC Brasil! 

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Relato dos 12km na Ultra Trail Celebration!




Relato aqui porque gosto de registrar e escrever é uma maneira de firmar ainda mais a experiência vivida.

Pois bem, neste sábado passado (09/11/2019), após 3 anos sem participar de corridas (aliás, correndo pouco, apenas jogando tênis e outras atividades), resolvi voltar às provas. Sou amador, corro pelo mero prazer do desafio e da alegria envolvida. A medalha pela participação é o foco, em vez do pódio - assim me decepciono menos e me divirto mais.

A ideia de voltar a correr, começou quando comentei sobre esta corrida com um colega da época de faculdade (o Bruno), e como ainda lembro muito bem da minha tentativa de completar os 50km e dos 23km sofridos de 2016, desta vez peguei mais leve, acreditando ser dentro do limite razoável para uma corrida com boas doses de alegria e esforço compartilhados - por isso em inscrevi nos 12km.

Quando falei com o Bruno, ele comentou que inclusive já estava inscrito na prova (sem termos combinado), então era o que faltava pra dar aquela motivação a mais. E como nós dois já estávamos com uma vida bastante ativa em outras atividades físicas, resolvemos fazer uma e tão somente uma pequena trilha, duas semanas antes da prova, pra dar aquela testada na musculatura e já dar um gosto da prova. O resultado:


Nos cortamos em algumas plantas pela trilha, porém, são cortes por viver e aproveitar a vida. Faz parte da emoção!

Pois bem, eis que chega o dia da prova. Acordei às 05:30, tomei café (e nada mais, pois não gosto de comer pela manhã) e o Bruno me pegou em casa às 06:00, rumo à Nova Rússia em Blumenau/SC.

Chegamos no evento e só quem já participou sabe o que é: vida em meio ao mato, tendas, equipes conversando, música, pórtico de chegada com gente ao microfone, local para comer... um verdadeiro espetáculo de experiência.

A prova era de 12km e esta era a altimetria (houve uma pequena mudança, mas dá pra ter uma ideia):


Se você já correu eu trilhas, sabe como é o percurso. Mas se ainda não correu, leia meus relatos anteriores (onde há mais fotos) e na primeira oportunidade, se inscreva em uma prova - há grandes chances de você gostar muito!

E é importante notar que assim como em qualquer esporte, muitas vezes o mental precisa de tanto preparo quanto o físico. São muitas as vezes em que o corpo está bom, mas a cabeça pensa em desistir (pelo simples fato de querer que o corpo pare com o esforço), assim como o contrário é verdadeiro. Treine!


No geral a prova foi "puxada", mas tranquila, em termos de esforço máximo. Ela consistiu de basicamente duas subidas mais fortes e uma boa dose de descida, onde podíamos imprimir uma velocidade mais generosa. A distância menor me ajudou a fazer um tempo legal: 1h e 35min, ficando em 10º colocado na categoria e 30º na geral entre os homens. Estou bem satisfeito, para a primeira prova depois de alguns anos.

Como sempre o evento foi muito bem organizado pelo pessoal da UT Eventos. Profissionalismo e ótimo serviço prestado, tanto em infraestrutura como das pessoas que trabalham. O pessoal do Foco Radical também está sempre presente, registrando estes momentos tão bacanas pra gente.

Finalizada a alegria, comi uma excelente cuca do pessoal da Cia da Cuca (uma das melhores da região!), comprei uma camiseta para corrida, conversei, ri, me lavei no riacho próximo e já comecei a pensar na próxima!

Lembre-se: após uma corrida, não importa a distância, você sempre sai vencedor, pois lutou consigo mesmo e venceu: 


E agora que voltei, já estou de olho e diversas provas para 2020,  pois algumas horas de esforço em meio à natureza são capazes de dar energia para muitos meses de trabalho!

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Livro em promoção!


O livro está com 50% de promoção, por ocasião da parceria com o Instituto Burke!

*após a confirmação de pagamento, você receberá o e-book em seu email cadastrado no PagSeguro.

terça-feira, 5 de junho de 2018

O cristão pode ter armas? Um cristão pode portar arma de fogo?

Se há uma dúvida constante entre os cristãos é aquela com relação ao uso de armas. Enquanto alguns argumentam que "a vida pertence ao Senhor" e por isso, segundo eles, ninguém as pode tirar, outros relembram as constantes passagens bíblicas sobre defender a si mesmo e evitar o mal ao próximo. Mas devemos lembrar que mais do que nossas opiniões ou gostos pessoais, a Bíblia é quem deve ter a última palavra.

Por isso, em 2013, escrevi um livro chamado "Armas, Defesa Pessoal e a Bíblia". Nas 159 páginas do livro, trago inúmeras interpretações bíblicas, comentários de diversos teólogos e colocações importantes acerca deste tema. Inclusive fiz algumas entrevistas com pessoas, para saber o que eles achavam sobre o assunto. Felizmente, devido à excelente procura que o livro teve, acabou esgotando todas as 700 unidades físicas produzidas.

Mas você ainda pode o adquirir no formato digital ou mesmo PDF, bastando acessar: http://www.livro.reformahoje.com.br

E se você já o leu, coloque nos comentários o que achou e quais sugestões teria para uma eventual segunda edição.

Que Deus os abençoe!

domingo, 15 de outubro de 2017

A importância da obrigatoriedade na vida cristã


Mais de um ano depois do último artigo postado aqui no blog, retorno com uma reflexão que me ocorreu por ocasião de diversas circunstâncias. Como noticiei em 2015 (aqui), as atividades na igreja foram inicialmente suspensas e posteriormente encerradas, de comum acordo com os membros da igreja. Passados mais de dois anos afastado do efetivo ministério da pregação e ensino, algumas coisas me ocorreram e desejo compartilhar.

P.s.: deixo registrado que o exposto aqui não é apenas uma visão minha, mas algo compartilhado por outros irmãos, pastores, missionários e pessoas que estão à frente de algum trabalho, com os quais já conversei sobre este tema.

Se "ter que pregar em quase todos os cultos" é algo cansativo e que traz um peso ao longo do tempo, o nunca ter de pregar leva à forte tendência de se relaxar demais e se esquecer da Palavra. Sim, até o mais valioso servo do Senhor, quando está fora de sua obrigação, tende a ser fortemente tentado a esmorecer e esquecer de seus compromissos com a Palavra.

Disto surge a indagação: enquanto se era "obrigado" a pregar, por exemplo, se lia, orava e se buscava mais piedade por causa da obrigação ou era algo genuíno? Em outras palavras, será que a falta de obrigatoriedade é capaz de manter o mesmo fogo e zelo de quando se está à frente?

Certa vez, enquanto jantávamos com um casal de amigos, a esposa dele comentou que "quando ele tinha de ministrar um estudo sobre casamento, naquela semana ele era diferente - mais amoroso, paciente e muito mais". Lembro de que o mesmo ocorria comigo: quando tinha de pregar, a semana era diferente. Pode parecer estranho, mas é a realidade.

Por isso tenho percebido que quanto mais pensamos "eu não vou fazer isso até realmente ter uma profunda e genuína vontade de realizar", mais nos afundamos e nos afastamos deste ideal. É semelhante à pessoa acima do peso e que não tem vontade de se exercitar, pois pensa consigo: "por enquanto não tenho vontade, mas quanto vier, irei começar". Ou parecido com o aluno que não se dedica às matérias, pois entende que só deve começar a fazer, quando realmente for tocado por isso. Pior: ao viciado em algo, que teimosamente afirma estar livre para largar "quando quiser", porém, nunca o vemos fazendo.

E a Bíblia testifica isso: "Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço" (Rm 7.15 - grifo meu). No fundo, o marido cristão quer ser um homem, um pai, um amigo, um trabalhador, um genro, um filho, enfim, alguém melhor. Ele quer se esforçar, porque sabe do ideal bíblico. Mas o que faz este homem? Não executa metade do que sabe que deveria fazer. E por quê? Acredito que seja a falta de obrigatoriedade. Darei um exemplo.

Se você tem filho pequeno, tente apenas sugerir para que ao findar da brincadeira, ele mesmo arrume a bagunça. Vou direto ao ponto pra encurtar a história: ele não vai arrumar ou vai arrumar com uma qualidade bastante duvidosa. E o motivo é óbvio: não foi obrigado à coisa alguma. Ou pense da seguinte forma: os pais vendo o filho já com 18 anos e ainda em casa, sem trabalhar e nem procurar emprego. Sugerem, amigavelmente, que ele vá atrás de algo - mas continuam pagando suas contas, dando celular e tudo que ele deseja. Resultado? Obviamente que nunca sairá para procurar trabalho, pois não é obrigado a isso. Ainda mais: em seu trabalho cotidiano, seu chefe nunca lhe pede algo a mais, deixando você na zona de conforto e com seu salário garantido; por que você vai se esforçar mais no trabalho, se não é cobrado por ninguém?

Jesus disse: "Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou" (Jo 6.38 - grifo meu). Quando dissemos que iremos esperar "ter vontade" para executar, no fundo estamos afirmando que nossa obra ao Reino de Deus depende do nosso querer, enquanto Cristo diz o exato oposto. O apóstolo Paulo também comenta: "Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, mas como sábios, Remindo o tempo; porquanto os dias são maus. Por isso não sejais insensatos, mas entendei qual seja a vontade do Senhor" (Ef. 5.-15-17 - grifo meu). E entender a vontade de Deus é sinônimo de a colocar em prática, pois a Bíblia é prática. É luz para o nosso caminho e lâmpada para os nossos pés. A analogia não deixa dúvidas: não diz que estamos em um caminho de luz e que a Palavra é mais uma luz - naturalmente estamos em trevas e somente ela é a luz! Por isso é que somo gentilmente "obrigados" pela Palavra à obedecer, pois se depender do nosso querer, ainda que regeneramos, jamais iremos ter aquilo afinco desejado.

E como bem sabemos, a carne milita contra o Espírito (Gl 5.17) e portanto é errado e enganoso ao coração, imaginar que devemos aguardar a bondade e vontade brotar em nosso coração, para, assim sendo, passar a executar aquilo que Deus nos diz. Talvez possamos afirmar que na maioria das vezes iremos obedecer por mera obrigação, como já preguei e escrevi em 2011 - Os Mandamentos de Deus Requerem Obediência Imediata.

Por fim, concluo dizendo que ainda que os crentes sejam regenerados por Deus, nossa relação com Ele é como para com um Pai adotivo - nos tirou do reino das trevas e transportou para a luz (Cl 1.13) - e sendo enxertados na boa oliveira (Rm 11), devemos executar os mandamentos do novo Pai (em contraposição aos do maligno). Não espere ter vontade, pois se as vezes nos alimentamos mesmo sem vontade, mas por saber que precisamos de força, não faríamos o mesmo para com o Senhor?

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Relato dos 50km na Ultra Trail Ribeirão das Pedras!



Em 2014 tive a oportunidade de relatar a excelente e primeira corrida de 42km que fiz por montanhas, cruzando praias deslumbrantes e tendo o apoio de grandes parceiros de esporte - link. Este ano, também descrevi a graciosa experiência em correr os 23km na Ultra Trail Rota das Águas. E agora conto, de maneira resumida, a experiência que tive ao tentar correr os 50km da Ultra Trail Ribeirão das Pedras!

Na última ocasião dos 23km, fiquei imaginando o que seria correr 50km por montanhas. No gráfico abaixo falta um último morro ao final, mas dá para se ter uma ideia do sofrimento que me aguardava. Seriam mais de 2.300 metros de desnível positivo, ou seja, literalmente, subiríamos em altitude (não distância), um total de 2.3km! O ponto de "corte" seria no km 37,5 e com 07:30 de prova - quem não chegasse lá neste tempo, seria cortado da prova.


Ainda não tenho mais fotos da prova, mas as abaixo (tiradas no local da prova, porém num treino duas semanas antes), retratam o que seria o dia da prova - e que estava muito pior, pois choveu uma semana inteira.



Voltando ao que dizia, após imaginar o que seria correr 50km por trilhas e montanhas, resolvi me inscrever. Olhando agora para o tempo que passou deste os treinos até a prova, reconheço que treinei pouco e não para o que a prova exigiria. Achei que estava razoavelmente preparado, mas falhei. Ao menos aprendi. Faz parte da vida.

Prova no sábado e sexta-feira, então, fui dormir mais cedo e coloquei o relógio para despertar às 04:45, pois haveria de tomar café, me arrumar e perto das 06:00 tinha de sair de casa e ir até o local da prova (uns 30min de carro de minha casa). Cheguei em tempo, peguei o kit do atleta, afixei o número no shorts, fui para o pórtico de largada, comecei a conversar com outros atletas e largamos! Emoções mil estavam para começar!

Primeiro morro subido (o mais longo da prova, aliás), chegamos ao PA-1 (posto de atendimento), tomamos uma água e fomos mata à dentro. Era uma single-track (só cabia uma pessoa na largura, praticamente) bem agradável - muito molhada e cheia de lama, mas excelente para quem gosta! Ao final dela, pegamos uma estrada de terra e emparelhei com outro atleta que também estava tentando correr seus primeiros 50km. Descíamos bem o morro e estávamos no ritmo planejado (mais ou menos 01:30h para cada 10km). Porém, ali, já logo de cara, um erro foi cometido.

Estando muito perto do PA-2, vimos uma placa para seguir reto no caminho dos 50km, porém eu olhei ligeiramente para trás e vi outra placa de 50km, indicando que se devesse subir um morro. Conversei com o colega e achamos que o correto era subir este morro - mas estávamos errados! Aqui, porque somente nós dois pegamos este trajeto errado, isento a organização de qualquer culpa; nós que erramos! [Atualização: fiquei sabendo que ali deveria haver alguém informando e tirando essa dúvida, mas a pessoa descumpriu sua palavra e acabou não aparecendo no dia da prova]

Como sabíamos que o PA-2 estava muito próximo de nós, imaginamos que logo o encontraríamos acima, todavia, ledo engano. Posteriormente ficamos sabendo que este caminho era, de fato, dos 50km, porém num trajeto de volta (por isso que tive de olhar para trás para ver a placa) e isso nos custou mais de 1 hora andando/trotando/correndo errado. Perdemos muito tempo nesta subida e nos caminhos que saiam dela, pois a marcação ainda estava sendo feita naquele local, o que nos levou a ficar sem direção umas duas ou três vezes. Nos dividíamos pelas bifurcações e gritávamos ao alto, a fim de saber se havia encontrado alguma marcação da prova. Voltávamos, seguíamos por alguma estrada; procurávamos algum caminho marcado, mas estando no caminho errado, seria difícil encontrar a marcação correta. Somente quando chegamos bem próximo do topo do morro é que encontramos um dos organizadores da prova (Maicon Cellarius) que olhou com aquela cara de "what?!" para nós e informou que tínhamos pego o caminho errado e indicou o certo. Paciência e obrigado, Cellarius!

Tivemos de retornar do erro e já com 02:40h de prova mais ou menos, finalmente chegamos ao PA-2. O que era para ser 01:30h no PA-2, estava, agora, bem fora da realidade, mas mesmo assim seguimos adiante. Neste momento já estava chovendo a mais de uma hora na prova e o frio começava a aparecer. Seguimos pela estrada da chão, cruzamos o que sempre foi um pequeno córrego (mas que virou um pequeno riacho), se segurando na corda e encaramos outro morro (o mesmo das fotos acima).

O problema é que ao chegar no topo do morro, estava, apenas, no km 15 e já tinham se passado mais de 3 horas de prova. Parei para conversar com o pessoal do ponto de apoio, comi alguma coisa e um estranho frio começou a bater. Chovia, ventava, era alto e eu estava completamente molhado. Avaliei com cuidado e percebi que não queria e muito provavelmente não teria condições de completar os 50km e talvez nem de chegar a tempo no tempo de corte. Some-se a isso que havia combinado com minha família que a expectativa era chegar entre 14:30 e 15:30 de volta, fechando entre 07:30h e 08:30h de prova, o que não aconteceria e os faria esperar muito mais do que o previsto. Resolvi abortar.

Mas como não existe um carro para levar atletas desistentes de um lado para o outro, ainda precisei seguir mais uns 5km até a linha de chegada (segui o caminho do pessoal que estava fazendo a percurso com 26km, abondando, assim, a prova; estava no km 15 pros 50km, mas no 21 para o percurso de 26km - acho que foi isso, não lembro ao certo). Se estes 5km já foram difíceis (tive de correr e ficar mexendo os braços e mãos para não passar frio, porque estava complicado), ficava me perguntando o que seria se tivesse tentado os 50km. Nestes 5 km tive de andar sob a chuva e ficava fazendo reflexões sobre os motivos de ter desistido. Aqui escrevendo, me recordo das Olimpíadas e relembro que até para os mais excelentes atletas, as vezes, desistir é a melhor opção. Desistir para aprender e voltar mais forte.

Assim sendo, mesmo com uma desistência, foram mais de 04:00h molhado, cheio de lama, com frio, vários desconfortos e aproximadamente 30km percorridos no total. Não deu pra fechar os 50km, mas vou treinar para voltar mais forte na próxima e tentar alcançar este feito pessoal. 

Mais uma vez ficam os agradecimentos ao pessoal da Ultra Trail Eventos pela excelente prova projetada e que certamente exigiu muito da logística, especialmente pelo mau tempo e todas as circunstâncias adversas que devem ter surgido.

Que venham mais corridas!

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Carta Aberta aos pais que levam seus bebês chorões e crianças pequenas às Igrejas


Queridos pais levam crianças pequenas às Igrejas,

Vocês estão fazendo algo realmente, realmente muito importante. Eu sei que não é fácil. Eu vejo vocês com os braços assoberbados e sei que vocês vieram para a igreja já muito cansados. Criar filhos pequenos é trabalhoso. Muito cansativo mesmo.

Eu os vejo rodopiar, sacolejar e balançar incansavelmente tentando manter seus bebês quietos. Assisto todo o esforço necessário para encontrar um lugar para se sentar na igreja: Os malabarismos com o carrinho e o equilibrismo com as sacolas de fraldas e todas as dezenas de bugigangas do arsenal móvel de cada bebê.

Eu vejo vocês se sacudirem quando seus filhos choram e assisto solidária toda agitação e ansiedade com que vocês abrem os seus sacos de mágica, catando os truques que podem ajudar a acalmar os seus filhotes. 

E eu vejo vocês com as suas crianças pequenas, as que dão os primeiros passos e as de três, quatro e cinco aninhos. E vejo como vocês se irritam quando seus meninos fazem uma pergunta inocente, num tom que era para ser um sussurro, mas sai como de um megafone, ouvido em claro e bom som lá no fundo da igreja, risos.

E percebo o desespero na voz de vocês, quando pedem pela décima vez que seus filhos se sentem e fiquem quietos. E vejo os seus semblantes envergonhados, como quem imagina que todos na igreja estão olhando para vocês. Sabemos que nem todos estão, mas vocês pensam que sim.

Papais e mamães, eu sei o que vocês estão pensando: Será que isso tudo vale a pena? Por que se preocupar? Todo este trabalho e desgaste. Eu sei que muitas vezes vocês deixam a igreja muito mais exaustos do que gratificados. Mas saibam: o que vocês estão fazendo é muito importante.

Quando vocês estão aqui, a igreja está inundada com um ruído de pura alegria. Quando vocês estão aqui, o Corpo de Cristo é mais plenamente presente. Quando vocês estão aqui, somos lembrados de que este evento que chamamos de culto não é sobre estudo bíblico ou sobre uma contemplação pessoal e tranquila. Mas nos reunimos para adorar como uma comunidade onde todos são bem-vindos. Prostramo-nos junto, como Corpo, diante de Deus e compartilhamos da Palavra e do Sacramento juntos.

Queridos pais que levam seus filhos pequenos à Igreja: Quando vocês estão aqui, vivo mais fortemente a esperança de que estes bancos não estarão vazios em 10 anos quando seus filhos já tiverem idade suficiente para se sentarem calmamente e se comportarem durante a adoração. Eu sei que agora eles estão aprendendo ocomo e o porquê da nossa adoração. E o fazem antes que seja tarde demais .Eles estão aprendendo que a adoração é importante.

Vejo-os a aprender. No meio dos gritos, balbucios e risos. Assisto maravilhada o seu aprendizado, entre o chiadinho dos sacos de bolacha se abrindo e a pilha crescente de migalhas. Eu vejo a menina indócil que insiste em pular dois bancos para compartilhar a "Graça e Paz do Senhor" com alguém que ela nunca conheceu. Ouço o menino sugando (num assobio bem alto) até a última gota de seu vinho da comunhão, determinadíssimo a não perder uma gota sequer de Jesus. 

Eu vejo uma criança excitada colorir uma cruz no programa do culto. Eu me delicio com os tantos ecos de "améns" infantis que pipocam alguns segundos depois que o resto da comunidade disse-o junta. Eu vejo um menino que mal aprendeu a ler tentar encontrar o Hino 672 do livro de cantos e me lembro dos meus meninos aprendendo a fazer o mesmo.

Queridos, eu sei o quão difícil é fazer o que vocês estão fazendo, mas eu quero que vocês saibam que isto é muito importante. Isso importa para mim. É importante para os meus filhos, para que eles nunca fiquem sozinhos nos bancos. É importante para a congregação saber que as famílias se preocupam com a fé dos jovens, em estar com os mais  jovens ... E mesmo naquelas semanas, quando você não puder perceber estes pequenos momentos do Amor de Deus, tudo isto será  sempre e eternamente importante para as  almas de seus filhos.

É importante que eles aprendam que adoração é o que fazemos como uma comunidade de fé. Que na Igreja toda a gente é bem-vinda e que a adoração de cada um é importante.

Quando ensinamos as nossas crianças que a sua adoração é importante, os estamos ensinando que a sua presença aqui é plena e suficiente como a de qualquer outra pessoa entre os membros e visitantes da nossa comunidade de fé. Eles não precisam esperar até que eles possam entender, acreditar, orar ou adorar de uma certa "maneira “correta” para serem bem-vindos. Na liturgia de Cristo, eles sempre foram chamados a estar à frente. “Deixai vir a mim as criancinhas". Eu sei, e você também sabe, que até mesmo na sua igreja há muitos adultos que não possuem todas as credenciais lembradas acima e, ainda assim, estão nos bancos.

O importante é que as crianças aprendam que eles são parte integrante desta igreja, que suas orações, suas canções, e até mesmo o seu choro (se bem contidos, para alguns, risos) são sinais de júbilo recebidos por Deus e testemunham a todos que: Sim, eles estão entre nós.

Eu sei que é difícil, mas obrigado pelo que vocês fazem quando trazem seus filhos para a igreja. Por favor, saibam que a sua família - com todo o seu ruído, peleja, comoção, alvoroço e alegria - não são simplesmente tolerados, vocês são parte vital desta comunidade quando ela se reúne para a adoração.

- por Jamie Bruesehoff

O culto online e a tentação do Diabo

Você conhece o plano de fundo deste texto olhando no retrovisor da história recente: pandemia, COVID-19... todos em casa e você se dá conta ...