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Crônica do Comodismo



“Tudo deve mudar para que tudo fique como está” é a frase do Príncipe Falconeri, de Lampedusa, que ilustra melhor o espírito do comodismo. Um segundo de vida é passível de render-se ao espírito da renúncia da mudança.

Descolo sem piedade a frase do Príncipe do seu contexto para que ela me sirva. A vida vai mal, contam-se as moedas para o café, a dobradiça da porta precisa de óleo, a tábua rangente da escada reclama uma ou duas marteladas, a conversa atravessada com a esposa precisava de dois dedinhos mais de prosa para aplainar-se, mas nada se muda. Avistado o mínimo de esforço para mudar, arrumamos um motivo maior para não fazê-lo.

O comodismo tem das mais várias armas para fazer o sujeito acomodar-se cotidianamente, sem arrastar um rochedo de remorso. Há os sujeitos que carregam verdadeiros cartórios nos bolsos, anotam tudo e resolvem nada. Para os mais tecnológicos há os famigerados alarmes no celular, tablets e afins; com um simples toque limpa-se a carga de negligência e sente-se que a coisa foi feita – para os mais aflitos e preocupados há o botão de “soneca” que dá o leve sabor de preocupação futura.

Tão difícil falar do comodismo sem tropeçar nas próprias pernas.

Há anos o sujeito procura uma maneira de ficar rico e comprar uma ilha, mas jamais soube sequer como é que se compra uma ilha. À mocinha desde nova é prometido um bom marido, um sujeito que vá fazê-la feliz, dar boa vida, mas o pai, bonacheirão, jamais a levou a outro círculo que não o das festas de família ou dos amigos beberrões. Trabalha anos a fio na empresa e sabe que para subir dentro da mesma precisa de um curso de inglês, mas coloca-o atrás da desejada televisão de plasma. Rapaz frequentador assíduo de prostíbulos pensa em casamento e em arrumar boa moça, mas insiste em visitar as damas da noite sem sequer ter auspícios de um dia poder cantar pra moça da vida “eu vou tirar você desse lugar.” São tantas as possiblidades que enfadonho seria persistir nesse índex de comodismos.

Para não cair no nível de best seller de autoajuda, a questão é simples: aferir os riscos, aceitá-los e meter o pé na porta.

O que foi dito até aqui diz respeito ao comodismo em uma esfera pessoal, mas ainda há um mais pernicioso, ao qual a frase tão cara do Príncipe já não me serve mais.

Já aviso, se és uma carpideira do relativismo, pare a leitura aqui, o que vem adiante é um atentado à sua despudorada e sem-vergonha relativização: o povo brasileiro é hábil e costumeiro acomodado. Enquanto argentinos pululam nas praças contra os desmandos de Cristina Kirchner, a Maga Patológica, os brasileiros, diante das taxas, greves, salário mínimo inferior ao do tempo do Império e 40 % de impostos – o dobro da época da Derrama e Inconfidência Mineira – acocoram-se e deixam pra fazer algo pra depois do Carnaval – interminável, diga-se de passagem. É a síndrome de Macunaíma. A culpa é da novela, do jornal que não anuncia as corruptelas, dos filhos que não dão tempo, do dinheiro que anda curto, do futebol, etc. Acocorar-se e esperar alguém fazer algo é mais fácil.

Já existe no Brasil, há algum tempo, uma série de cala-bocas sendo dados a representantes do pensamento majoritário da nação. O pessoal da dita “direita conservadora” ira-se, reclama, mas não faz nada de substancial. E não os culpo. Há um medo generalizado entre eles: o de perder o emprego, de sofrer algum tipo de repressão ou perseguição, de morrer na rua atacado por algum militante hidrófobo; e tal sentimento os empurra para o mais triste dos comodismos: o impulsionado pelo terror. O dinheiro move o mundo, por mais que os comunistas queiram extingui-lo e viver o conto de fadas macabro deles. A turma dos que caçam estão amparados por ONGs, doações governamentais e pelas vovós que emprestam dinheiro, pois são convencidas pelos netinhos com cara de anjo barroco e camisetas do Stálin. Os que são atacados ficam à mingua. Não aparece um sujeito endinheirado que queira bancar uma contrapartida de peso.

O grande homem de negócios parece querer esperar a ocasião de vender areia no deserto; olha de esguelha, acha estranho que quem defende o direito dele negociar e os valores que mantém a família dele podendo frequentar a missa ou o culto, serem atacados, mas não move uma palha. É o mal do brasileiro. Acocora-se e espera até a cobra chegar bem perto para desferir o bote. Se pegar, bem; se não pegar, morre. Mas mais absurdo que isso há o empresário, acuado por um pequeno grupo que faz voz de multidão, além de aquietar-se, incentiva-os, por medo de ser atacado. Uma lógica um tanto macabra, é como o sujeito que viu um ladrão pulando dentro do seu quintal, só que ao invés de correr e descer o tacape, vai lá abraça-o e entrega o dinheiro.

Por falar em ladrão, outra situação diante da qual o brasileiro acocorou-se: a segurança pública. Mata, estupra, assassina, sequestra, mas há os direitos humanos e tudo se resolve – para os criminosos, evidentemente. O povo o que faz? Bate palma, aceita desarmamento, esconde-se, compra placa de “cuidado cão feroz”, mete caco de vidro no topo do muro. Mas uma atitude veemente, de verdade mesmo, ninguém toma. Aceitam-se as leis que protegem os bandidos prontamente e ainda reclama-se da agressividade das polícias, mas nada se faz para que as leis passem a punir de fato os criminosos e a permitir que o cidadão possa defender-se sem o medo de tomar um processo nas costas.

Algumas pessoas, a quem pouco interessa o sentimento de ordem e a realidade de segurança, construíram para as Forças Armadas uma pecha infame de ditadores e torturadores, um ódio muitas vezes voltado contra todos os seus membros. O resultado é que hoje as Forças Armadas estão sucateadas e pobres, apesar de serem formadas por homens muito honrados. O recente exemplo de honestidade e eficiência das FFAA, ao reformar o aeroporto de Congonhas e devolver milhões aos cofres públicos é mais que suficiente para tomar vergonha na cara e parar de alimentar o conveniente subterfúgio de culpar o Exército Brasileiro por todos os problemas gerados após a redemocratização, uma desculpa diversas vezes utilizada para livrar os reais responsáveis pela bagunça. O caso também prova que é possível sair do comodismo e fazer um bom trabalho público de forma ética e eficiente.

Aqui em Minas Gerais diz-se que quando se mata um burro e se enterra a cabeça dele sob um terreno, a coisa vai para o brejo. Bom, como não consigo vislumbrar uma explicação palpável para todo o problema, peço, encarecidamente, que os amigos defensores dos animais esqueçam, por um momento, os jumentos vendidos para a China e me ajudem a descobrir quem matou e enterrou as milhares de cabeças de burro debaixo do Brasil. E, claro, é bom que se providencie um espelho, para que todos os que tenham meios de incentivar a saída do comodismo político e não o fazem, vejam como até o momento carregam no lugar da face uma cara com um focinho comprido e duas orelhas bem grandes.

- por Flávio Penha

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