quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Usando o Facebook Para a Glória de Deus


Ao iniciar este pequeno escrito, desde já preciso estabelecer o seguinte fato: todos os cristãos são obrigados a usar o Facebook para a glória de Deus. De minha parte não há receio algum quanto ao ser possivelmente taxado de "legalista" ou "moralista", pois tenho a Escritura ao meu lado: "Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus" (1Co 10.31).

Paulo não poderia ser mais claro: os cristãos devem fazer tudo, absolutamente tudo, para a glória de Deus. Isso implica em dizer que se fizermos qualquer coisa sem visar a Sua glória, estamos em pecado - "Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado" (Tg 4.17). Todavia, precisamos estabelecer alguns pontos sobre o que significa fazer tudo "tudo para glória de Deus".

Em primeiro lugar, fazer tudo para a glória de Deus, é ter em mente que Ele é quem deve ser engrandecido e visto por todos, não nós. João o Batista nos traz cristalina evidencia deste nosso dever: "É necessário que ele cresça e que eu diminua" (Jo 3.30).

Em segundo lugar, significa buscar fazer tudo e somente o que a Bíblia ordena que façamos. É impossível viver para a glória de Deus se tentarmos colocar nossas vontades e desejos acima da Escritura. Por meio de Moisés, o Senhor foi enfático ao afirmar: "Tudo o que eu te ordeno, observarás para fazer; nada lhe acrescentarás nem diminuirás" (Dt 12.32).

Em terceiro lugar, se temos de fazer somente o que a Escritura ordena, então precisamos nos dedicar ao estudo da Lei de Deus. Paulo afirma categoricamente que a Lei de Deus é boa e necessária: "Que diremos pois? É a lei pecado? De modo nenhum. Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás" (Rm 7.7).

Em quarto lugar, é preciso ter o correto entendimento de que é um exercício muitas vezes doloroso, porque envolve a renúncia da carne e o matar do pecado. O apóstolo foi direto em dizer que todas as vezes, isto é, sempre, devemos trazer a morte de Cristo em nossas vidas, a fim de que morramos e Ele viva: "Trazendo sempre por toda a parte a mortificação do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também nos nossos corpos" (2Co 4.10); "Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim" (Gl 2.20).

Desta forma, se patenteia que o cristão não deve, por exemplo, "postar", "curtir" ou "compartilhar" qualquer coisa que contenha alguma coisa contra o senhorio de Cristo. Em caso prático, significa não fazer apologia a políticos que sejam contra a Palavra de Deus; não "curtir" fotos ou qualquer fato que incentive a carne ao pecado, como fotos sensuais ou de pessoas com pouca roupa (as vestes de praia se encaixam neste ponto), libertinagem, vandalismo; igualmente não se deve promover a luxúria com "compartilhamentos" que tendem a fazer o homem e a mulher amarem mais a este mundo que ao Senhor. Você, talvez, esteja se perguntando: "Mas qual a base bíblica para afirmar tal coisa?" "Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai" (Fp 4.8). Políticos contrários ao Senhor não são verdadeiros nem honestos; fotos com pessoas que mostram excessivamente seus corpos não são puras; vandalismo não é algo de boa fama; pode haver alguma virtude na luxúria?

Em grupos do Facebook, importa que não hajam discussões sobre pontos pacíficos sobre a sã doutrina, pois fazer o contrário, é contender inutilmente: "Como o soltar das águas é o início da contenda, assim, antes que sejas envolvido afasta-te da questão" (Pv 17.14). Sob hipótese alguma o crente deve xingar ou maldizer alguém. O cristão não deve ignorar as pessoas ou "detestar" outros irmãos em Cristo, pois isto é ferir o  sexto mandamento "não matarás": "Qualquer que odeia a seu irmão é homicida. E vós sabeis que nenhum homicida tem a vida eterna permanecendo nele" (1Jo 3.15).

Também é preciso notar que o cristão não deve usar as mídias sociais para ficar bisbilhotando a vida alheia - quem faz isso se assemelha àquela atitude de Satanás: "Então o SENHOR disse a Satanás: Donde vens? E Satanás respondeu ao SENHOR, e disse: De rodear a terra, e passear por ela" (Jó 1.7). Além disso, suscita a inveja, orgulho, maldizeres e cobiça sobre o próximo, violando o décimo mandamento: "Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo" (Êx 20.17).

O cristão também precisa cuidar para não passar tempo demais nas redes sociais, pois a Bíblia diz para aprendermos a aproveitar o tempo com coisas puras e necessárias: "Remindo o tempo; porquanto os dias são maus. Por isso não sejais insensatos, mas entendei qual seja a vontade do Senhor" (Ef 5.16-17). Lembre-se que na parábola dos trabalhadores da vinha, nosso Senhor Jesus Cristo assemelha o homem comum e envolto em pecado, àquele ocioso e que nada produz: "E, saindo perto da hora terceira, viu outros que estavam ociosos na praça" (Mt 20.3). 

Use esta preciosa tecnologia para a todo o tempo falar do Senhor: "Que pregues a palavra, instes a tempo e fora de tempo, redarguas, repreendas, exortes, com toda a longanimidade e doutrina" (2Tm 4.2). Note que Paulo não diz que existem tempos que não são oportunos, afinal, toda ocasião é propícia para falar e testemunhar da verdade divina. Não se esqueça de que além de estudar arduamente a sã doutrina, você precisará estar apto para defendê-la pelo poder do Senhor: "Santificai ao Senhor Deus em vossos corações; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós" (1Pe 3.15).

Tenha somente conversações santas, pois isto é agradável a Deus: "Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas só a que for boa para promover a edificação, para que dê graça aos que a ouvem" (Ef 4.29). Observe que a Bíblia é explicitamente incisiva: "mas só a que for boa para promover a edificação". Com qual intuito? "para que dê graça aos que a ouvem".

Portanto, se buscarmos pelo poder vivificador do Espírito Santo, praticar estas coisas, começaremos a entender o que é viver sob "a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus" (Rm 12.2) e o mundo testificará de nosso amor por Cristo, ao ponto de dizer: "Para onde foi o teu amado, ó mais formosa entre as mulheres? Para onde se retirou o teu amado, para que o busquemos contigo?" (Ct 6.1).

Que Deus nos abençoe.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Cristo Morreu pelo Pecador - Horatius Bonar (1808-1889)



“E Deus viu que a maldade do homem era grande na terra, e que era continuamente mau todo o desígnio do seu coração” (Gn. 6:5).

O testemunho divino relativo ao homem é, que ele é um pecador. Deus testemunha contra ele, não a seu favor; e testifica que "não há nenhum justo, nem um sequer"; que "não há quem faça o bem"; nenhum que "entenda"; nenhum "que busque a Deus" e, mais ainda, nenhum que O ame (Sl. 14:1-3; Rm. 3:10-12). Deus fala de forma amável, mas severamente ao homem; como alguém que procura ansiosamente por uma criança perdida, contudo sem fazer qualquer concessão para com o pecado, e que "de modo nenhum inocenta o culpado" (Na.1:3).

Ele declara o homem perdido, alguém que se desviou, um rebelde, alguém "aborrecido de Deus" (Rm. 1:30); não um pecador ocasional, mas um pecador em tempo integral; não um pecador com partes boas, mas um pecador por completo; não satisfazendo-se com a bondade; mau tanto no coração quanto na vida, "morto em delitos e pecados" (Ef. 2:1); um praticante do mau, e consequentemente debaixo de condenação; um inimigo de Deus, e por isso "debaixo da ira"; alguém que continuamente quebra a reta lei de Deus, estando portanto "debaixo da maldição da lei" (Gl. 3:10). O pecador não somente traz o pecado diante de si, mas ele o carrega consigo, como seu segundo eu; ele é um "corpo de pecado" (Rm. 6:6), e "corpo de morte" (Rm. 7:24), não sujeito à lei de Deus, mas a "lei do pecado" (Rm. 7:23).

Há ainda outra sentença pior contra ele. Ele não acredita no nome do Filho de Deus, nem ama o Cristo de Deus. Este é o principal pecado dele. Que o coração dele não é reto para com Deus, é a primeira sentença contra ele. Que o coração dele não é reto para com o Filho de Deus, é a segunda. E esta segunda sentença, que é a principal de todas, traz sobre si mais terrível condenação do que todos os outros pecados juntos.

"O que não crê (nEle), já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus" (Jo 3:18). "Aquele que não dá crédito a Deus, O faz mentiroso, porque não crê no testemunho que Deus dá acerca do seu Filho" (1 Jo. 5:10). "Quem, porém, não crer será condenado" (Mc. 16:16). E, portanto, o primeiro pecado que o Espírito Santo leva em conta, é a incredulidade; "quando Ele [o Espírito Santo] vier, convencerá o mundo do pecado...: do pecado porque não crêem em mim" (Jo. 16:8-9).

O homem não pode dizer uma só palavra boa sobre si mesmo, ou ainda declarar-se inocente, a menos que ele possa mostrar que ama, e sempre amou a Deus de todo coração e alma. Se ele pode dizer isto verdadeiramente, ele é reto, ele não é um pecador, e não precisa de perdão. Ele achará seu próprio caminho para o reino de Deus, sem a cruz e sem um Salvador.

Mas, se ele não pode dizer isto, sua boca está emudecida e ele é culpado diante de Deus . Conquanto uma vida de boa conduta externa possa dispô-lo e a outros a olharem, no presente, favoravelmente para si mesmos, o veredicto contra ele, virá no futuro. Este é o dia do homem, quando os julgamentos dos homens prevalecem; mas o dia de Deus está vindo, quando o caso será julgado em seus reais méritos. Então o Juiz de toda a terra fará justiça, e o pecador será envergonhado. Este é um veredicto divino, não humano. É Deus, não o homem, que condena; e "Deus não é homem para mentir". Este é o testemunho de Deus relativo ao homem, e nós sabemos que este testemunho é verdadeiro. Compete-nos recebê-lo como tal, e agirmos baseados nisto.

"Olhai para mim, e sede salvos, vós, todos os termos da terra; porque Eu sou Deus, e não há nenhum outro" (Is. 45:22), um "Deus justo e Salvador" (v. 21). "Deixe o perverso o seu caminho, o iníquo os seus pensamentos; converta-se ao senhor, que se compadecerá dele, e volte-se para o nosso Deus, porque é rico em perdoar" (Is. 55:7).

Volte seus olhos, olhos da fé, para a cruz e veja estas duas coisas: os crucificadores e o crucificado. Veja os crucificadores, os inimigos de Deus e do Seu Filho, Jesus. Eles são você. Perceba neles o seu próprio caráter. Então agora, veja O crucificado. É o próprio Deus; amor encarnado. Seu Criador, Deus manifesto em carne, sofrendo, morrendo pelo pecador. Você pode duvidar da Sua graça? Você pode acalentar pensamentos maus sobre Ele? Você pode imaginar qualquer outra coisa, que desperte em você a mais completa e franca confiança? Você interpretará mal aquela agonia e morte, dizendo que elas não querem dizer graça, ou que a graça que elas representam não são para você? Relembre o que está escrito: "Nisto conhecemos o amor, em que Cristo deu a sua vida por nós" (1 Jo. 3:16) e, "Nisto consiste o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que Ele nos amou, e enviou o Seu Filho como propiciação pelos nossos pecados" (1 Jo. 4:10).

- por Horatius Bonar (1808-1889)
Fonte: Monergismo

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Efésios 2.12 - Estáveis sem Cristo e Sem Deus no mundo - Exposição em Efésios - Sermão pregado dia 02.12.2012


Efésios 2.12 - Estáveis sem Cristo e Sem Deus no mundo
Exposição em Efésios -
Sermão pregado dia 02.12.2012


"Que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo" (Ef 2.12).

No intento de lançar maior luz e compreensão de onde haviam sido tirados pelo Senhor, o apóstolo Paulo passa a expandir em maior grau a vileza em que os cristãos em Éfeso estavam noutro tempo. Observemos que não aprouve ao Senhor inspirar o apóstolo para lhes dizer que tão somente fossem cônscios de sua malignidade natural, mas, também, agora lhes instiga ainda outra vez afirmando que não somente eram "chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão" (Ef 2.11), e sim que "estáveis sem Cristo"; ademais, "separados da comunidade de Israel"; promessas? "estranhos às alianças da promessa"; sua esperança era vã, "não tendo esperança"; viviam para suas próprias paixões, porque estavam "sem Deus no mundo".

Preciosos irmãos, é preciso estabelecer estes fatos em nosso entendimento. Uma vez que o Senhor abre os olhos de todos os Seus eleitos para que vejam a Verdade (Ef 1.18), os filhos do Altíssimo irão olhar para a sua vida passada e verão que não fato estavam "sem Cristo... e sem Deus no mundo". Todavia, será que temos considerado suficientemente bem esta maravilhosa graça que nos atingiu? Será que temos meditado sobre o estado natural de nosso coração e de onde ele nos tirou? Acaso há em nossas vidas uma ira santa contra os dias de nosso passado, no qual estávamos "separados da comunidade de Israel"? A pergunta que devemos fazer nesta manhã é: reconhecemos que já estivemos sem Cristo?

Antes de avançarmos em direção às benesses do amor paternal de Deus (mais enfatizadas no próximo versículo), precisamos pontuar o que acontece (e nos acontecia) com aqueles que estão sem Cristo.

Deus é seu inimigo e, portanto, está irado contra os tais

A Palavra de Deus nos ensina que Deus é amor (1Jo 4.16), mas ele também é justiça e verdade, sendo, então, justamente um Deus irado: "Deus é juiz justo, um Deus que se ira todos os dias. Se o homem não se converter, Deus afiará a sua espada; já tem armado o seu arco, e está aparelhado. E já para ele preparou armas mortais; e porá em ação as suas setas inflamadas contra os perseguidores" (Sl 7.11-13). Davi compreendeu corretamente este ensinamento bíblico. Nos versículos anteriores ele suplica para que o Senhor venha o livrar de Seus inimigos; agora, declara que Deus "é juiz justo, um Deus que se ira todos os dias".

Precisamos recordar que a ira de Deus está sobre o pecador e não somente contra o pecado. Não vemos em qualquer lugar das Escrituras, em qualquer versículo ou em qualquer inferência lógica, que Deus "ama o pecador, mas odeia o pecado". Se isto fosse verdade, o Eterno não seria descrito como tendo afiada "a sua espada; já tem armado o seu arco, e está aparelhado". Nossas Bíblias possuem inúmeros relatos de Deus destruindo os povos gentios, pois eles eram contrários à Sua Lei e também ao Seu domínio (Salmo 2). Tamanha era a ira de Deus que, não somente os gentios sofriam as repreensões e morte do Senhor, mas muitos judeus padeceram no deserto, bem como outros foram seriamente repreendidos por Cristo: "Mas bem vos conheço, que não tendes em vós o amor de Deus. Eu vim em nome de meu Pai, e não me aceitais; se outro vier em seu próprio nome, a esse aceitareis" (Jo 5.42-43). Jesus é sublime e sem rodeios ao afirmar que tais pessoas não criam n'Ele, mas se "se outro vier em seu próprio nome, a esse aceitareis", mostrando o que inúteis eram e a grandiosidade de sua cegueira. 

Entrementes ao conclamar do povo ao arrependimento, diz o profeta Zacarias: "E o anjo que falava comigo disse-me: Clama, dizendo: Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Com grande zelo estou zelando por Jerusalém e por Sião. E com grande indignação estou irado contra os gentios em descanso; porque eu estava pouco indignado, mas eles agravaram o mal" (Zc 1.14-15 - grifo meu). Deus não se mostrou irado somente com o pecado dos gentios, mas também com os próprios gentios! Assim como um homem que odeia e abomina a pornografia, jamais receberá em sua casa algum ímpio que seja dominado por estas coisas, também o Senhor não pode suportar o pecado aonde quer que ele seja visto.

Novamente, Davi é cirúrgico: "Porque tu não és um Deus que tenha prazer na iniqüidade, nem contigo habitará o mal. Os loucos não pararão à tua vista; odeias a todos os que praticam a maldade" (Sl 5.4-5 - grifo meu). Também o profeta Isaías diz: "Sião será remida com juízo, e os que voltam para ela com justiça. Mas os transgressores e os pecadores serão juntamente destruídos; e os que deixarem o SENHOR serão consumidos" (Is 1.27-28).

Agora, pois, o amor de Deus

Tendo considerado a ira de Deus, precisamos investigar a dúvida que se levanta em meio ao pó da iniquidade: em que diferimos destes a quem o Senhor está irado? Certamente que alguém pode objetar: "Mas eu sou um justo e por isso Deus não está mais irado comigo!". Isto é plenamente verdadeiro, porém, jamais devemos nos esquecer de que "éramos por natureza filhos da ira" (Ef 2.3). Terrível condição em que nos encontrávamos! Quantas foram as inúmeras vezes que Deus esteve com sua espada afiada e seu arco apontado para nós, e poderia ter nos matado?! Quantas vezes? Há alguém que possa contar? De quantas mil mortes o Senhor já nos livrou! Por isso devemos glorificá-lo nesta manhã.

É bastante a declaração bíblica: "separados da comunidade de Israel". "Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou" (Ef 2.4), "viu uma grande multidão, e teve compaixão deles, porque eram como ovelhas que não têm pastor; e começou a ensinar-lhes muitas coisas" (Mc 6.34). Isto precisa ser simplesmente estarrecedor em nossos corações. De condenados à morte, à vida e sustento em Cristo; de rejeitados por causa do pecado, à concidadãos dos céus; de obras imundas e perversas, à mãos santas e puras; de ovelhas sem pastor, ao pastoreio e guarida em Cristo!

"Porque este meu filho estava morto, e reviveu, tinha-se perdido, e foi achado. E começaram a alegrar-se" (Lc 15.24) - esta era a situação natural em que vivíamos. Notemos que num primeiro momento a narrativa contém uma aparente imprecisão, pois diz que "este meu filho estava morto", quando na verdade ele jamais morrera fisicamente. Entretanto, devemos recobrar à memória que as Escrituras tratam, muitas vezes, de coisas físicas, a fim de exemplificar o espiritual. Ainda que o filho pródigo não tivesse morrido literalmente, sua alma estava morta, como explicita o apóstolo: "estando vós mortos em ofensas e pecados" (Ef 2.1). Lemos também que ele "e reviveu, tinha-se perdido, e foi achado", o que está em completo acordo com os ditos de Paulo: "nos vivificou juntamente com Cristo" (Ef 2.5).

A santa e inerrante Palavra, também nos diz que por natureza os gentios eram "estranhos às alianças da promessa". Talvez um dos piores sentimentos que o homem possa ter é aquele que concerne ao sentir-se inútil diante de alguém. Por nossa natureza pecaminosa, desejamos ser amados, estimados e que tudo convirja em nós. Isto é plenamente verdadeiro e verificável, bastando que relembremos as vezes em que ficamos abatidos, chateados, angustiados e perplexos diante das injustiças contra nós cometidas. Pensamos: acaso ninguém irá me reconhecer pelo esforço? A esposa se indaga se o marido elogiará a casa bem arrumada; o marido é esperançoso de que a esposa goste do presente e do carinho; o trabalhador deseja ser reconhecido em sua empresa; até mesmo o pastor preza pelo esmero de sua congregação e pelos seus afazeres - todos nós desejamos ser amados e queridos por todos. Mas, por natureza, éramos "estranhos às alianças da promessa".

Devido ao pecado, no tempo em que estávamos sem Cristo, todo e qualquer amor que recebíamos, era falso - pois o mundo é falso! Aquele menino que deu atenção à garota, aquela jovem que foi ajudada pelo moço que levou as pesadas caixas, o empregador que reconheceu o trabalho de seu serviçal, o empresário que conquistou honras por seu esforço... tudo isto, na verdade, era em vão, pois não serviam para coisa alguma, exceto para massagear nosso ego e nos afastar das promessas.

Entretanto, o apóstolo vai além e diz sermos não somente estranhos às promessas, mas também "não tendo esperança". 

Em primeiro lugar, isto se prova mediante a análise sociológica, pois enquanto estávamos perdidos e sob a ira de Deus, na primeira oportunidade que tivéssemos para saciarmos nossa ansiedade por esperança, desenfreadamente nos jogaríamos e gastaríamos todas as nossas riquezas - tal qual fez o filho pródigo. Nos tempos pretéritos, qual quantia em dinheiro já gastamos com superficialidades, roupas e coisas para nos darem status em meio aos demais? Que tudo isso significa? Que procurávamos no mundo, aqui nesta terra perecível, alguma razão de viver, algo que nos motivasse - mas não encontramos. Em segundo lugar, notamos que os não convertidos, embora não tenham esperança, na verdade pensam que a possuem. Eles rejeitam o evangelho e não optam por seguir a Cristo; falar-lhes do inferno é loucura e conversar sobre arrependimento não surte efeito. Por que tudo isso? Porque eles enganam a si mesmos e querem ter neste mundo alguma razão de viver - suas mentes são finitas e devido ao pecado, não enxergam nada além do terreno. Em terceiro lugar, o mundo sugere aos homens que eles podem ter esperança nos bens transitórios. Observemos a grande enxurrada de tecnologia que se fabrica todos os dias e sejamos sinceros: boa parte é inútil ou com muitíssimo pouco proveito real e necessário. Todavia, o homem natural é seduzido pelos prazeres deste mundo e cai no engodo de Satanás. O jovem é estimulado a ter músculos fortes e sua recompensa é que as demais mulheres olhem para ele; a mulher, por sua vez, vive muitas vezes para comprar roupas, sob a perspectiva de que muitos homens olharão para ela e a desejarão. Que é isto, senão um viver semelhante aos animais? As Escrituras, todavia, prescrevem quais devem ser as atitudes completamente diferenciadas do crente: "Quero, pois, que os homens orem em todo o lugar, levantando mãos santas, sem ira nem contenda. Que do mesmo modo as mulheres se ataviem em traje honesto, com pudor e modéstia, não com tranças, ou com ouro, ou pérolas, ou vestidos preciosos, Mas (como convém a mulheres que fazem profissão de servir a Deus) com boas obras" (1Tm 2.8-10).

A falta de esperança leva à loucura e insensatez: "Os insensatos zombam do pecado" (Pv 14.9). A mulher que se encontra nos braços de um sequestrador e avista uma arma apontada para seu crânio, certamente não brinca com seus pensamentos e muito menos zomba daquele que a capturou; um homem que sabe estar em jura de morte não vacila em seus passos e não dorme sob a luz do luar; entretanto, o homem pecaminoso faz exatamente isto - na verdade, ainda pior.

"Os reis da terra se levantam e os governos consultam juntamente contra o SENHOR e contra o seu ungido, dizendo: Rompamos as suas ataduras, e sacudamos de nós as suas cordas" (Sl 2.2-3). Você consegue imaginar isto? De um lado da batalha, os gentios com suas espadas, arcos, carros de guerra, estudados quanto à milícia, buscando cercar os flancos e proteger a linha de frete e a retaguarda; do outro, o povo de Israel, também com suas espadas e apetrechos de guerra. Levanta-se, então, deste lado de Israel, alguém que brada em alta voz: "Rendam-se, ó gentios, sob a mão do Senhor! Temos ao nosso lado o Criador, o Sustentador, o Deus que se ira todos os dias e que é chamado de Senhor dos Exércitos! Não levemos esta batalha adiante, pois se o Senhor é por nós, ninguém será contra nós!". Do outro lado, um homem gentio sobe a colina e exclama: "Rompamos as suas ataduras, e sacudamos de nós as suas cordas! Obedecer ao Deus de Israel? Jamais! Reverenciá-lo? Nunca! Desistir? Somente sob nosso cadáver!"

Pareceria-nos uma cena digna de futura boa batalha, não fosse a continuação do Salmo: "Aquele que habita nos céus se rirá; o Senhor zombará deles. Então lhes falará na sua ira, e no seu furor os turbará" (Sl 2.4-5). A ironia com que o Senhor trata o povo que intenta se insurgir contra Ele, é mortal. Por meio do salmista Ele registra que Sua ira não procede da terra, mas dos "céus". Não há qualquer menção de temor por parte de Deus; pelo contrário: "o Senhor zombará deles". Chegará, assim, a hora do terrível juízo, onde "lhes falará na sua ira, e no seu furor os turbará". No dia do Senhor será tão grande o juízo, que "Tu os esmigalharás com uma vara de ferro; tu os despedaçarás como a um vaso de oleiro" (Sl 2.9).

Assim, a falta de esperança deste mundo, tem levado muitos à insanidade, fazendo com que se encha rapidamente a medida de sua iniquidade (Gn 15.16).

Por fim, Paulo acrescenta que estes mesmos crentes em Éfeso, outrora gentios, quando estavam naquela terrível situação, não obstante todas as mazelas que sofriam, ainda lhes é acrescido que estavam "sem Deus no mundo". Será possível entendermos a gravidade disto? Tentemos, nem que seja por um momento, imaginarmos as nossas vidas sem Cristo - onde estaríamos? em que vala teríamos sido assassinados? Quantos filhos perdidos teríamos pelo mundo? Que enormidade de doenças teriam nos afligido? Mas isto são fatores naturais - pensemos mais alto.

Pensemos nas aflições da alma, nos choros angustiantes da noite, nas madrugadas em claro com grande pesar no coração e tristeza mortal, no desejo de ver algo melhor acontecendo... mas, nada acontece,  porque estamos "sem Deus no mundo". Imaginemos o que é perder um pai do qual dependemos completamente! De uma mãe que nos aconchega com seu carinho! Dos amigos que tanto nos alegram e nos sustém nos momentos de angústia! Conseguimos imaginar o que seria perder tudo isso? Se sim, multipliquemos a dor e desgraça em um número infinito, pois assim é a vida daqueles que não possuem Deus.

Ainda que alguém objete e diga que os não cristãos são felizes e não sofrem nada disso, que se relembre das palavras do salmista: "Certamente tu os puseste em lugares escorregadios; tu os lanças em destruição. Como caem na desolação, quase num momento! Ficam totalmente consumidos de terrores... Pois eis que os que se alongam de ti, perecerão; tu tens destruído todos aqueles que se desviam de ti" (Sl 73.18-19, 27).

Possa o Altíssimo, neste Dia do Senhor, encher-nos da alegria de Sua salvação (Sl 51.12) e nos fortalecer, a fim de que vivamos segundo o Seu querer, pois fomos libertos do poder do morte, a fim de "que não sirvamos mais ao pecado" (Rm 6.6)

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Ensinando Crianças a Adorar


Adoração é muito importante – na verdade, é a coisa mais importante que fazemos. O Breve Catecismo diz: “O fim principal do homem é glorificar a Deus, e gozá-lo para sempre”. Deus nos criou para adorá-lo, e adorar a Deus é nossa tarefa mais importante – nosso fim principal.

Embora num sentido geral devamos adorar a Deus em tudo o que fazemos, é no Dia do Senhor que nos reunimos para a adoração formal. Neste dia, a igreja reúne-se como o corpo de Cristo para vir em sua presença e oferecer-lhe o culto que lhe é devido.

O relacionamento de Deus com o homem é pactual. Em particular, a aliança que temos com Deus não é só para nós, mas, como Deus ensinou a Abraão, também é para nossos filhos. Portanto, nós ensinamos nossos filhos a adorá-lo, mesmo na idade mais jovem. Quando ensinamos nossos filhos da aliança a adorar conosco, estamos lhes ensinando e preparando para a tarefa mais importante de suas vidas – e da eternidade.

Em geral, as igrejas norte-americanas sofrem de uma baixa consideração pelo culto público. Um indicativo disso são as “saídas fáceis” que usamos para manter nossos filhos felizes durante o culto, como o berçário, o culto infantil e mesmo atividades para adolescentes. O berçário pode ser útil, mas normalmente é mais utilizado do que deveria. O culto infantil é completamente desnecessário. E marcar as reuniões da mocidade durante os cultos de domingo ensina nossos jovens que o culto é apenas uma opção extra.

Deus está presente na adoração pública de uma maneira especial. Jesus nos diz em Mateus 18.20: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles”. Quando mantemos nossos filhos na igreja, estamos trazendo-os à presença de Cristo de uma maneira singular.

O culto enfoca aquilo que entregamos. Portanto, quando mantemos nossas crianças na igreja, podemos ensiná-las a adorar, a despeito do que (achamos) elas possam “tirar disso”.

O Deus que é suficiente para chamar nossos corações para adorá-lo também é suficiente para chamar os corações dos nossos filhos a adorá-lo. Não nos cabe convencê-los ou suborná-los para estarem no culto, mas discipliná-los para sentar-se em silêncio e ensiná-los pelo exemplo como adorar nosso Criador e Redentor.

Guardar essas convicções, contudo, nem sempre é suficiente para atingir o objetivo de ter os filhos quietamente sentados na igreja. Nós mantivemos facilmente nosso primeiro filho na igreja  até ele ter quase sete meses e começar a falar e se mexer. Finalmente recorremos ao berçário da igreja. Poucos meses depois, uma família com sete filhos visitou nossa igreja. Ficamos maravilhados de vê-los todos, até o que tinha um ano e meio, sentados quietamente e mesmo durante todo o sermão de cinquenta minutos. A partir deles, aprendemos a estabelecer nossas expectativas para nossos filhos e tomar a iniciativa em ensiná-los a sentar-se quieta e atentamente.

Após já termos ensinado nosso terceiro filho a ficar calmo e quieto na igreja, tivemos tempo para praticar os princípios de estabelecer nossas expectativas e tomar a iniciativa com nossos filhos. Mesmo aos oito meses, nosso terceiro filho rapidamente entendeu que um tapinha na perna significava que ele precisava ficar quieto. (Nosso segundo filho, que é muito enérgico, precisou de muito mais tempo para aprender a ficar calmo. Mas quando finalmente restringimos alguns limites que estávamos negligenciando em casa, ele fez grande progresso).

A despeito de você escolher ensinar seu filho a ficar quieto na igreja, normalmente aos dois anos, as crianças em desenvolvimento são totalmente capazes de sentar-se quietamente no culto. (Aprendemos que a tarefa é mais fácil se realizada antes da criança aprender a preferir o berçário).

Espere retirar seu filho e dar-lhe palmadas, pelo menos algumas vezes, enquanto ele aprende a ficar quieto. (Em nossa experiência, tem sido mais que “algumas vezes”). É importante que as crianças aprendam a ser reverentes em relação a Deus e, na medida do possível, não se tornem distrações para os outros. Elas estão na igreja para aprender a adorar e participar do chamado mais elevado de suas vidas.

Certamente, há aspectos negativos em disciplinar os filhos a sentarem-se quietamente na igreja: não fale, não se mexa, não ande por aí. Entretanto, há também o aspecto positivo de disciplinar nossos filhos. Não basta ter crianças calmas e quietas na igreja se elas não estão aprendendo também a participar e deleitar-se mais e mais na adoração de seu Redentor.

Ensine hinos a seus filhos (especialmente os que são cantados com mais frequência), a Oração do Senhor, e a doxologia, de maneira que mesmo antes de aprenderem a ler, eles possam participar dessas coisas. Crianças também amam ouvir o pastor citar os versos que elas memorizaram. Se puder, descubra o texto do sermão do pastor e leiam juntos antes do culto. Também pode ser útil permitir que seus filhos tomem notas (na forma de figuras, antes de aprenderem a ler) durante o sermão.

Lembrem-nos também das batalhas espirituais que todos encaramos no culto – distrações, deixar nossas mentes vagando, maus comportamentos – e como buscar auxílio do Senhor ao lutar essas batalhas.

E mais importante: orem com e por seus filhos, para que juntos com você eles crescentemente aprendam e amem adorar a seu Criador e Redentor.

Em resumo, devemos ensinar nossos filhos da aliança a adorar conosco, não por causa de tradição ou sentimento, mas porque o fim principal deles é glorificar a Deus, e gozá-lo para sempre. Nós, pais, devemos estabelecer nossas expectativas de acordo com isso e tomar a iniciativa em ensinar nossos filhos a adorar com reverência e amor.

- por Paul e Judi English
Fonte: iPródigo

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Afinal: Devemos ou Não dar o Dízimo?



Talvez, de todas as perguntas que circunde os arraiais evangélicos em nossos dias, a questão dos dízimos seja uma das mais controvertidas. Certamente que muitas outras coisas são passíveis de discussão, porém, muitas destas discussões não possuem motivo de ser, razão pela qual, embora se tenha divergência quanto à elas (por exemplo, calvinismo e arminianismo), todo pleito é inútil, pois as Escrituras são claras em afirmar, neste sentido, a completa soberania de Deus - relegando, então, o arminianismo a erro e falsa doutrina. Entretanto, outras doutrinas não nos saltam aos olhos como a supracitada, de modo que é necessário um maior escrutínio e entendimento da Palavra de Deus, a fim de que se possa compreender a correta nuance e aplicação da Verdade.

Em fevereiro de 2010, escrevi um texto chamado "O que dizer dos dízimos e das ofertas?". Naquela oportunidade, aventurei-me a escrever sobre o primeiro vislumbre que tive acerca deste assunto - daí o artigo ter sido simples e conciso. Hoje, passado pouco mais de 2 anos e algumas graças recebidas do Senhor, volto a escrever sobre esta importante veia do cristianismo. Não serei demasiadamente longo, todavia, espero conseguir dirimir as dúvidas e solidificar o argumento mediante a Escritura, a única base estável e que pode ser "proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra" (2T 3.16-17).

1. O dízimo é anterior à Lei e pago a Jesus Cristo

Muitos têm argumentado em favor de uma completa abolição de toda e qualquer contribuição à Igreja de Cristo, sustentando, para tanto, que o dízimo passou a vigorar apenas na Lei de Deus dada a Moisés. Acontece, que isto não é verdade. Assim lemos: "E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; e era este sacerdote do Deus Altíssimo. E abençoou-o, e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra; E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos. E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo" (Gn 14.18-20). Sim, é sabido que que Abrão entregou o dízimo dos despojos de guerra, mas o que fez, de qualquer modo, continuou sendo dízimo (veremos mais para frente alguns detalhes importantes).

Devemos nos perguntar: quem era Melquisedeque? A resposta é direta: "rei de Salém". Não obstante esta resposta, temos ainda um problema: onde ficava "Salém"? Diferente da resposta anterior, não temos uma base certa para afirmarmos onde se situada este local. Alguns pensam que por "Salém" significar "paz", era uma cidade/região que posteriormente seria a conhecida e notória Jerusalém. Outros, talvez, podem crer que era uma cidade inexistente ou extremamente longínqua.

Aqui, o leitor pode se questionar: que diferença isto faz? Atentemos para o versículo abaixo:

"Onde Jesus, nosso precursor, entrou por nós, feito eternamente sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque" (Hb 6.20). O livro de Hebreus nos revela que Jesus Cristo foi "nosso precursor", "segundo a ordem de Melquisedeque". Quer dizer, hoje os cristãos são sacerdotes diante de Deus, porque Cristo, primeiramente, foi sacerdote segundo a linha de Melquisedeque - e não, de Arão ou Levi.

Surge outra indagação: qual era a linhagem de Melquisedeque? Isto é, quem eram seus predecessores? Observemos o versículo:

"Porque este Melquisedeque, que era rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssimo, e que saiu ao encontro de Abraão quando ele regressava da matança dos reis, e o abençoou; A quem também Abraão deu o dízimo de tudo, e primeiramente é, por interpretação, rei de justiça, e depois também rei de Salém, que é rei de paz; Sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida, mas sendo feito semelhante ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre" (Hb 7.1-3). O que isto nos ensina? Que quando Abrão (posteriormente, Abraão - Gn 17.5) deu o dízimo de tudo à Melquisedeque, estava tributando não à qualquer mortal, mas a um tipo de Cristo, prefigurando o dia em que todos tributariam diretamente ao Senhor, rei dos reis - "Mas tu, ó homem de Deus, foge destas coisas... Que guardes este mandamento sem mácula e repreensão, até à aparição de nosso Senhor Jesus Cristo; A qual a seu tempo mostrará o bem-aventurado, e único poderoso Senhor, Rei dos reis e Senhor dos senhores" (1Tm 6.11, 14-15 - grifo meu).

Assim, de maneira breve, verifica-se que o fundamento do dízimo e seu alvo não é a Lei ou a nação de Israel, mas Cristo Jesus, "único poderoso Senhor, Rei dos reis e Senhor dos senhores" (1Tm 6.15). Daí, porque, lemos o próprio Mestre afirmar: "Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus" (Mt 22.21; Mc 12.17; Lc 20.25) - a César (representando o Estado) são os tributos governamentais, ao passo que a Cristo é o coração e tudo o que possuímos.[1] 

2. No Antigo Testamento, existiam basicamente três tipos de contribuição:

2.1 Um tributo que não era dinheiro

"Tomai do que tendes, uma oferta para o SENHOR; cada um, cujo coração é voluntariamente disposto, a trará por oferta alçada ao SENHOR: ouro, prata e cobre, Como também azul, púrpura, carmesim, linho fino, {pêlos}) de cabras, E peles de carneiros, tintas de vermelho, e peles de texugos, madeira de acácia, E azeite para a luminária, e especiarias para o azeite da unção, e para o incenso aromático. E pedras de ônix, e pedras de engaste, para o éfode e para o peitoral" (Êx 35.5-9); "E falou o SENHOR a Moisés, dizendo: Ordena aos filhos de Israel que te tragam azeite de oliveira, puro, batido, para a luminária, para manter as lâmpadas acesas continuamente. Arão as porá em ordem perante o SENHOR continuamente, desde a tarde até à manhã, fora do véu do testemunho, na tenda da congregação; estatuto perpétuo é pelas vossas gerações. Sobre o candelabro de ouro puro porá em ordem as lâmpadas perante o SENHOR continuamente" (Lv 24.1-4); "Tudo que abrir a madre, e toda a carne que trouxerem ao SENHOR, tanto de homens como de animais, será teu; porém os primogênitos dos homens resgatarás; também os primogênitos dos animais imundos resgatarás. Os que deles se houverem de resgatar resgatarás, da idade de um mês, segundo a tua avaliação, por cinco siclos de dinheiro, segundo o siclo do santuário, que é de vinte geras" (Nm 18.15-16).

Nestes breves versículos, podemos observar que além do dízimo pago (veremos a seguir), o povo de Israel era incumbido de muitos outros tributos sobre sua nação, de modo que o dízimo era, também, como que um tributo, todavia, destinado aos levitas e para a manutenção do tabernáculo/templo e seus sacerdotes. Observemos que a Escritura nos diz que o povo deveria levar "azeite de oliveira, puro, batido, para a luminária, para manter as lâmpadas acesas continuamente" (grifo meu), indicando que não bastaria uma única oferta durante toda a vida, e sim um contínuo sustentar.

2.2 Um tributo que era alimento aos sacerdotes

"Os sacerdotes levitas, toda a tribo de Levi, não terão parte nem herança com Israel; das ofertas queimadas do SENHOR e da sua herança comerão. Por isso não terão herança no meio de seus irmãos; o SENHOR é a sua herança, como lhes tem dito. Este, pois, será o direito dos sacerdotes, a receber do povo, dos que oferecerem sacrifício, seja boi ou gado miúdo; que darão ao sacerdote a espádua e as queixadas e o bucho. Dar-lhe-ás as primícias do teu grão, do teu mosto e do teu azeite, e as primícias da tosquia das tuas ovelhas. Porque o SENHOR teu Deus o escolheu de todas as tuas tribos, para que assista e sirva no nome do SENHOR, ele e seus filhos, todos os dias" (Dt 18.1-5).

O motivo dos israelitas terem de sustentar "toda a tribo de Levi", é porque estes "não terão parte nem herança com Israel". Quando lemos atentamente a distribuição de terras às doze tribos, vemos que justamente a tribo de Levi não ganhou porção alguma de terra, pois "o SENHOR é a sua herança". Mas, como homens que eram e por não terem qualquer porção de terra para plantarem ou criarem animais, "será o direito dos sacerdotes, a receber do povo, dos que oferecerem sacrifício, seja boi ou gado miúdo". Era preciso sustentar todos os levitas - e o motivo era grandioso: "Porque o SENHOR teu Deus o escolheu de todas as tuas tribos, para que assista e sirva no nome do SENHOR, ele e seus filhos, todos os dias". A tribo de Levi havia sido separada para trabalhar exclusivamente no templo, de modo que se algum israelita negligenciasse sua doação a eles, estes padeceriam necessidades e não poderiam servir ao Senhor; caso isso acontecesse, o fogo se apagaria, os levitas morreriam de fome e o tabernáculo (posteriormente, templo) se extinguiria, afinal, não haveria quem pudesse trabalhar nem quem sustentasse os levitas. Certamente que isto seria impossível, pois uma vez que Deus é soberano e tudo que decreta, faz também acontecer, tanto os levitas como o povo de Israel, continuamente levariam o ordenado pelo Senhor.[2]


2.3 O dízimo que servia de comida à família e também aos trabalhadores do templo

"Certamente darás os dízimos de todo o fruto da tua semente, que cada ano se recolher do campo. E, perante o SENHOR teu Deus, no lugar que escolher para ali fazer habitar o seu nome, comerás os dízimos do teu grão, do teu mosto e do teu azeite, e os primogênitos das tuas vacas e das tuas ovelhas; para que aprendas a temer ao SENHOR teu Deus todos os dias. E quando o caminho te for tão comprido que os não possas levar, por estar longe de ti o lugar que escolher o SENHOR teu Deus para ali pôr o seu nome, quando o SENHOR teu Deus te tiver abençoado; Então vende-os, e ata o dinheiro na tua mão, e vai ao lugar que escolher o SENHOR teu Deus; E aquele dinheiro darás por tudo o que deseja a tua alma, por vacas, e por ovelhas, e por vinho, e por bebida forte, e por tudo o que te pedir a tua alma; come-o ali perante o SENHOR teu Deus, e alegra-te, tu e a tua casa; Porém não desampararás o levita que está dentro das tuas portas; pois não tem parte nem herança contigo" (Dt 14.22-27).

Este texto nos ensina preciosas verdades. Em primeiro lugar, colocando um imperativo, uma ordem: "Certamente darás". Não era opcional o sustento da casa de Deus, pois haviam pessoas e toda uma obra que deveria ser levada adiante. Em segundo lugar, este dízimo não poderia ser oferecido em qualquer lugar, mas somente "no lugar que escolher para ali fazer habitar o seu nome". Em terceiro lugar, a prática do dízimo tinha um objetivo específico de Deus para com seu povo: "para que aprendas a temer ao SENHOR teu Deus todos os dias". Em quarto lugar, notamos a sabedoria e bondade de Deus para com os Seus, pois, embora o povo tivesse que dar "os dízimos do teu grão, do teu mosto e do teu azeite, e os primogênitos das tuas vacas e das tuas ovelhas", poderia acontecer que o lugar de os oferecer fosse muito longe, inviabilizando completamente o levar de toda aquela mercadoria, bem como todos os animais "e a tua casa" (lembremos que as famílias viviam num grande espaço de terra; avôs, avós, tios, sobrinhos, mulheres grávidas, crianças de colo...). Sabendo e determinando (em sua predestinação) que isto viria a acontecer, diz o Senhor: "E quando o caminho te for tão comprido que os não possas levar, por estar longe de ti o lugar que escolher o SENHOR teu Deus para ali pôr o seu nome, quando o SENHOR teu Deus te tiver abençoado; Então vende-os, e ata o dinheiro na tua mão, e vai ao lugar que escolher o SENHOR teu Deus".

Precisamos fixar este entendimento: o próprio dízimo (grãos, animais...) poderia ser "transformado" em dinheiro, caso fosse necessário. E mais: este dízimo era comido pela própria família! Quer dizer, havia uma separação para o Senhor, mas pela graça divina, quem usufruía eram os próprios israelitas! "E aquele dinheiro darás por tudo o que deseja a tua alma, por vacas, e por ovelhas, e por vinho, e por bebida forte, e por tudo o que te pedir a tua alma; come-o ali perante o SENHOR teu Deus, e alegra-te, tu e a tua casa". Atentemos, contudo, para a ressalva que faz o Senhor: "Porém não desampararás o levita que está dentro das tuas portas; pois não tem parte nem herança contigo". Isto implica em dizer que, mesmo a família comendo o próprio dízimo, não deveria desamparar o levita, pois ele vivia exclusivamente das doações. Estas doações, então, não deveriam ser ínfimas, pois os levitas (muitos deles, toda uma tribo) necessitavam do completo sustento.[3]

Acrescente-se ainda que, mesmo a família indo até o local "que escolher o SENHOR teu Deus para ali pôr o seu nome" e lá comer e entregar os dízimos, deveria: "Ao fim de três anos tirarás todos os dízimos da tua colheita no mesmo ano, e os recolherás dentro das tuas portas; Então virá o levita (pois nem parte nem herança tem contigo), e o estrangeiro, e o órfão, e a viúva, que estão dentro das tuas portas, e comerão, e fartar-se-ão; para que o SENHOR teu Deus te abençoe em toda a obra que as tuas mãos fizerem" (Dt 14.28-29). Portanto, não bastava apenas "ir e oferecer" os dízimos, mas também dever-se-ia guardar outro dízimo "Ao fim de três anos", para quando os que não tinham porção de terra ("o levita... e o estrangeiro, e o órfão, e a viúva") viessem, pudessem ter o que comer.

O que tudo isso nos ensina? Em breve síntese, que o sistema do Antigo Testamento era completamente oposto ao que temos visto hoje em dia. Não conheço uma pessoa sequer que "Ao fim de três anos", guarda certa quantia de dinheiro para ajudar os necessitados; também não me recordo de ter visto alguém separando o dízimo, comprando comida com ele, comendo e repartindo com os demais irmãos (pois hoje, como é sabido, todos os crentes são como que levitas diante do Senhor, devido ao sacerdócio ser universal).[4] 

Desta forma, precisamos compreender qual a maneira correta de aplicar esta verdade.

Nem todas as contribuições era iguais

Devemos lembrar acerca da importância de considerarmos o Antigo Testamento em sua completude, isto é, precisamos atentar para o fato de o dízimo ser parte integrante de um corpo maior. Considerar o dízimo, isolado das demais contribuições e deveres que os israelitas tinham, é violar os princípios de interpretação bíblica e colocar um peso que a própria Palavra não autoriza. Destarte, se verifica que nem todas as contribuições eram fixas e intransigíveis, quer dizer, muitas vezes cada pessoa contribuía/pagava com o que podia:

"Mas, se der à luz uma menina... trará um cordeiro de um ano por holocausto, e um pombinho ou uma rola para expiação do pecado... O qual o oferecerá perante o SENHOR... Mas, se em sua mão não houver recursos para um cordeiro, então tomará duas rolas, ou dois pombinhos, um para o holocausto e outro para a propiciação do pecado; assim o sacerdote por ela fará expiação, e será limpa" (Lv 12 5-8). Neste texto temos um real exemplo de proporcionalidade. A regra para àqueles que possuíssem posses era de trazer "um cordeiro de um ano por holocausto, e um pombinho ou uma rola para expiação do pecado". Porém, caso não houvesse condições de se trazer estes animais, "então tomará duas rolas, ou dois pombinhos, um para o holocausto e outro para a propiciação do pecado".

Muitos outros textos poderiam ser citados para confirmar esta verdade, mas a fim de cumprir a promessa de ser breve, deixo ao encargo do leitor os demais textos (capítulos 5, 14, 27 de Levítico - dentre outras passagens).

O dízimo em Malaquias 3.10

De todos os textos usados para defender o dízimo, talvez nenhum seja mais usado que este. Olhemos-o: "Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal até que não haja lugar suficiente para a recolherdes" (Ml 3.10).

Assim como o amor por dinheiro é a raiz de muitos males (1Tm 6.10), a ignorância é a mãe de muitos pecados (Os 4.6). Precisamos entender para quem Malaquias estava escrevendo. 

A carta começa com os dizeres: "Peso da palavra do SENHOR contra Israel, por intermédio de Malaquias" (Ml 1.1). Lemos, então, a advertência: "E dizeis ainda: Eis aqui, que canseira! E o lançastes ao desprezo, diz o SENHOR dos Exércitos; vós ofereceis o que foi roubado, e o coxo e o enfermo; assim trazeis a oferta. Aceitaria eu isso de vossa mão? diz o SENHOR" (M 1.13). Posteriormente, se evidencia que a carta não era somente para o povo que estava oferecendo animais impuros (leia todo o capítulo 1), mas igualmente: "Agora, ó sacerdotes, este mandamento é para vós" (Ml 2.1). Portanto, a carta de Malaquias não foi escrita somente para o povo, mas também aos sacerdotes, aqueles que administravam e recebiam os alimentos para consagrarem ao Senhor.[5]

Dito isso, olhemos o texto proposto. Este texto diz claramente: "Trazei todos os dízimos à casa do tesouro". Aqui se encontra um dos trunfos da interpretação: "à casa do tesouro". Não é necessário muito conhecimento para saber o que era a casa do tesouro, pois o próprio texto fornece a dica: "para que haja mantimento na minha casa". A casa do tesouro era onde eram guardados os mantimentos que o povo enviava aos levitas e sacerdotes. Era um lugar onde ficavam estocados tudo que era recebido, a fim de que houvesse sustento na casa do Senhor. Mas, devemos lembrar que Israel era um Estado, isto é, uma nação, regida por regras próprias e princípios ímpares em relação aos gentios. Isto demonstra que a casa do tesouro, talvez, pudesse se associar ao nosso Tesouro Nacional - "A Secretaria do Tesouro Nacional é responsável pela administração e utilização dos recursos financeiros que entram nos cofres do Estado brasileiro".[6] É, então, por causa disso, que não podemos pretender fazer este texto dizer o que ele não diz, afinal, vemos claramente que hoje não existe mais uma "casa do tesouro" bíblico, real e fixo como antigamente.

Não podemos, contudo, desprezar as promessas de Deus sobre os que contribuíssem de acordo com o estipulado pelo Senhor: "e depois fazei prova de mim nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal até que não haja lugar suficiente para a recolherdes". O próprio Senhor prometeu abençoar os que trouxessem àquele lugar o que era devido - mas não prometeu quando, quanto e nem onde; tão somente afirmou: "até que não haja lugar suficiente para a recolherdes" - ou seja, o importante era crer que haveria grande bênção sobre o povo de Israel.

Vale observar que a bênção não é dirigida aos indivíduos, e sim à coletividade, fazendo com que entendamos que o povo de Deus, como um grande corpo, deve contribuir ao Senhor - e quando isto acontecer, o Senhor nos abençoará grandemente.[7]

O dízimo no Novo Testamento

No intuito de avançarmos para a finalização, pontuemos que muitos têm afirmado que por o Novo Testamento silenciar a esse respeito, nós devemos fazer o mesmo - isto é, deixar sob o critério de cada cristão o contribuir ou não. Mas este é um pensamento falacioso, pois muitas das doutrinas bíblias são entendidas sob a ótica da lógica dedução - por exemplo: não somos informados que no Novo Testamento as mulheres cantem no culto, que as meninas sejam batizadas (no AT apenas os meninos eram circuncidados), que mulheres tomem da ceia junto com homens; também não temos qualquer versículo literal que fale da união das duas naturezas de Cristo (divina e humana) ou que contenha a palavra trindade... Assim sendo, precisamos do auxílio do Espírito Santo para "ligarmos os pontos" e compreendermos a Verdade.

O primeiro registro neotestamentário vem do próprio Cristo: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas" (Mt 23.23). Jesus não está censurando o dízimo dos escribas e fariseus, pois chega até mesmo a afirmar que o que faziam era bom - "deveis, porém, fazer estas coisas". O problema daqueles homens era que "desprezais o mais importante da lei" - e o que era o mais importante? "o juízo, a misericórdia e a fé". Tais pessoas viviam uma religião de aparência, de profissão de fé vazia. Noutro momento, Cristo até mesmo os censurou por darem mais valor aos animais do que às pessoas carentes (veja o capítulo 12 de Mateus).

Ressalta-se também que, agora no Novo Testamento, os israelitas (hoje, todos os cristãos - leia Romanos 11) não vivem mais sobre o Estado de Israel, o que implica dizer que os cristãos devem obedecer também as demais autoridades. Jesus foi um exímio exemplo, até mesmo pagando impostos: "Mas, para que os não escandalizemos, vai ao mar, lança o anzol, tira o primeiro peixe que subir, e abrindo-lhe a boca, encontrarás um estáter; toma-o, e dá-o por mim e por ti" (Mt 17.27). Paulo também afirmou: "Portanto é necessário que lhe estejais sujeitos, não somente pelo castigo, mas também pela consciência. Por esta razão também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo sempre a isto mesmo. Portanto, dai a cada um o que deveis: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra" (Rm 13.5-7).

"No primeiro dia da semana cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar, conforme a sua prosperidade, para que não se façam as coletas quando eu chegar" (1Co 16.2 - grifo meu). É preciso evidenciar este fato para que não sejamos levados pelo legalismo ou pela libertinagem. Devido a estas coisas, nos é mister atentar para que sob a égide da Nova Aliança pelo sangue do cordeiro (Hb 9:15; 12.24), os crentes continuam com seus deveres sobre o dízimo - não como comumente se diz, mas como a Palavra requer.

Por fim, estes são os requisitos que devem ser balançados, a fim de que tenhamos o correto entendimento acerca do dízimo para nós. Ele é:

1. Mandamento de Deus e já realizado antes da outorgada Lei;
2. Parte integrante de um sistema maior de tributos, contribuições e necessidades sociais;
3. Não era somente para o sustento dos levitas e sacerdotes, mas também das famílias e dos pobres;
4. Quando não se tinha condições de contribuir com determinado tributo, se fazia de acordo com as posses;
5. Por não vivermos mais em Israel como nação, devemos entender quais são as aplicações para nós;
6. No Novo Testamento, foi sancionado (aprovado) por Jesus, mas com a ressalva de que deveria-se não desprezar o mais importante;
7. Existem tributos para o governo e dízimos para Deus;
8. Deus promete ainda hoje abençoar seu povo mediante os dízimos, e não um indivíduo isolado;
9. Paulo menciona que devemos dar segundo o que possuímos.

Conclui-se, então, que os dízimos (a décima parte) são válidos para nós, mas não como uma fração irredutível, mas um padrão aceitável a Deus. Talvez pudéssemos dizer que a melhor expressão seria "contribuição", no lugar de "dizimar", uma vez que o princípio não expressa um valor ou quantia específica, mas um princípio, a saber: 100%

Se alguém se perguntar: "Quanto devo contribuir? Qual é o padrão das Escrituras?" A resposta é: "Com seu dízimo, o padrão bíblico". Alguém também pode dizer: "E se eu puder dar mais que 10%?" Se evidencia, então: "Deve assim realizar, de acordo com as possibilidades, pois os 10% são um padrão, apenas". Outra pessoa, porém, pode dizer: "Mas eu não possuo quaisquer condições, meus filhos estão doentes, meu marido desempregado, pagamos aluguel...". Para esta, o jugo também é suave e o fardo é leve, devendo contribuir "conforme a sua prosperidade", mesmo que esta prosperidade seja o comprar comida para a casa e saciar a necessidade - "come-o ali perante o SENHOR teu Deus, e alegra-te, tu e a tua casa".

Que Deus nos abençoe.

____________
Notas:
[1] Poderíamos ampliar a discussão e afirmar que até mesmo os tributos, em última instância, pertencem ao Senhor ("Por esta razão também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo sempre a isto mesmo" (Rm 13.6), mas nos ateremos à presente proposta e trataremos apenas dos dízimos.
[2] Recordemos, entretanto, da advertência de Malaquias acerca dos israelitas, que em vez de levarem "as primícias" (Dt 18.4), estavam recebendo do povo e oferecendo alimentos e animais impuros: "Ofereceis sobre o meu altar pão imundo, e dizeis: Em que te havemos profanado? Nisto que dizeis: A mesa do SENHOR é desprezível. Porque, quando ofereceis animal cego para o sacrifício, isso não é mau? E quando ofereceis o coxo ou enfermo, isso não é mau? Ora apresenta-o ao teu governador; porventura terá ele agrado em ti? ou aceitará ele a tua pessoa? diz o SENHOR dos Exércitos" (Ml 1.7-8).
[3] Esta questão do sustento completo, além de tipificar muitas coisas sobre Cristo (o pão como corpo, o vinho como sangue, os animais como o sacrifício do próprio Cristo...), creio que também visava o correto alimento para os levitas, pois que seria daqueles homens se vivessem apenas de grãos ou de vinho, por exemplo? Assim, o Senhor providenciava, através de todos os dízimos, uma "santa dieta", de modo que sempre estariam corretamente nutridos e aptos para o trabalho.
[4] "Por isso, irmãos santos, participantes da vocação celestial, considerai a Jesus Cristo, apóstolo e sumo sacerdote da nossa confissão" (Hb 3.1). Assim como no Antigo Testamento havia o sumo sacerdote e os sacerdotes, hoje Cristo é nosso sumo sacerdote, de modo que todos os crentes são sacerdotes diante do Senhor - "Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?" (1Co 3.16).
[5] Por analogia aos dias de hoje, podemos dizer que a exortação é também para os pastores e todos que cuidam e administram o que os crentes levam para a obra de Deus.
[6] http://www.brasil.gov.br/sobre/economia/orgaos-reguladores/tesouro-nacional
[7] Não cabe ao escopo do presente artigo o verificar de que natureza é esta bênção. Importa que entendamos que Deus abençoa segundo o Seu querer. Devemos orar e bradar às palavras de Paulo: "porque já aprendi a contentar-me com o que tenho" (Fp 4.11).

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Hereges São Pessoas Legais!




Por que foi tão difícil para Paulo e os outros apóstolos combaterem os falsos mestres em seus dias?

Muitas pessoas esperam que aqueles que deturpam e torcem as verdades bíblicas sejam pessoas não amáveis, sem simpatia, sem carisma... Paulo disse aos coríntios: “E não é maravilha, porque o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz.” -  2 Coríntios 11:14 - “Mas temo que, assim como a serpente enganou Eva com a sua astúcia, assim também sejam de alguma sorte corrompidos os vossos sentidos, e se apartem da simplicidade que há em Cristo”. 2 Coríntios 11:3

Em toda a história da igreja homens que propagaram heresias destruidoras eram amáveis, simpáticos, falavam em amor ao próximo, se empenhavam em caridade... hoje é assim como sempre foi. Podemos ensinar doutrinas antibíblicas enquanto falamos em ajuda aos pobres, missão integral, igreja relevante... Na verdade, todas as religiões podem falar sobre temas simpáticos, agradáveis, caridosos... sendo mesmo assim o oposto da revelação bíblica. Podemos passar horas lendo Confúcio, Budismo... Mas nossa questão aqui são heresias que saem da igreja, de líderes na igreja, simpáticos, caridosos... Paulo quando fala sobre líderes que ensinam doutrinas heréticas e desviam homens da verdade, diz: “e com suaves palavras e lisonjas (bajulações) enganam os corações dos simples.” - Romanos 16:18

Falsos mestres são simpáticos, amáveis e adoram falar sobre amor. Mas o amor que é proposto é um tipo de amor completamente diferente do que a Bíblia ensina. É um sentimentalismo que põe a verdade de lado em nome do que chamam amor. Qualquer amor que é destrutivo para a verdade total do evangelho (com todo seu lado ofensivo ao homem natural), qualquer amor que ignora a verdade e a vê como um obstáculo, chamando-a de dogmatismo... qualquer amor que é tolerante com o erro ou propaga o erro... tem que ser completamente evitado e combatido... porque isso não está nem próximo da essência daquilo que a Bíblia chama de amor. Toda conversa sobre amor, caridade, missão, união... que põe a verdade de lado é exatamente o trabalho dos falsos mestres, falsos profetas... Como é doce ouvir “paz, paz...” – “E curam superficialmente a ferida da filha do meu povo, dizendo: Paz, paz; quando não há paz.” - Jeremias 6:14 – É isso que Paulo enfatiza: “e com suaves palavras e lisonjas (bajulações) enganam os corações dos simples.” - Romanos 16:18

Na história da igreja homens que ensinaram doutrinas terríveis eram homens simpáticos e amáveis. Ário (Arius 256-336)  negava a divindade de Cristo. Ele defendia que o Logos e o Pai não eram da mesma essência, que o Filho era uma criação do Pai, que houve um tempo em que o Filho ainda não existia... Era um líder cristão em Alexandria. Mas é dito sobre ele que era um homem simpático, amável... Era descrito como  - brilhante, companheiro, atraente... um tipo de cidadão que todos gostariam de ter ao seu lado em causas nobres. Um tipo de homem que todos gostavam de ver ensinando a Bíblia... ele foi imensamente popular nos seus dias... Exatamente o que Paulo disse: “e com suaves palavras e lisonjas (bajulações) enganam os corações dos simples.” - Romanos 16:18

Outro homem que ensinou as mesmas heresias foi Socino (Fausto Socinus 1539-1604) – Seu ensino rejeitou os pontos de vista ortodoxos teologia cristã no conhecimento de Deus, sobre a doutrina da Trindade,  divindade de Cristo , e na soteriologia... Mas ele em si era um cara legal e simpático, amável... Ele é descrito como um verdadeiro cavaleiro. Sua moral estava acima de qualquer suspeita e era conhecido por sua cortesia infalível. É descrito como muito mais cortês do que os Reformadores que viveram na mesma época, Calvino, Lutero... Enfim, Socino é descrito como homem exemplar.

Eis o motivo porque raramente é ou será popular combater e resistir os falsos mestres. Eis o motivo porque Paulo teve grandes problemas para combatê-los em Corinto, na igreja dos Gálatas, e em todas as outras igrejas. Falsos mestres, hereges... são amáveis, falam muito sobre o amor, em ajuda aos necessitados... são simpáticos, falam sobre “paz paz..” – então eles quase sempre são vistos como uma benção para a igreja. Eles sempre tem palavras cativantes. Eles são atenciosos. Eles falam o que muitos querem ouvir. Eles estão prontos a adaptar a verdade. Eles são cavaleiros... Então Paulo diz: “e com suaves palavras e lisonjas (bajulações) enganam os corações dos simples.” - Romanos 16:18

“Suaves palavras” – A frase significa discurso suave. Eles sabem falar de forma inteligente. O diabo coloca os erros mais devastadores não na boca de hereges óbvios... ele não coloca esses erros na boca de homens que são um desastre para o objetivo dele. Palavra suaves e lisonjas. A palavra é eulogia, como elogio. É a ideia de uma eloquência falsa, mentiras bem escolhidas e que tem um som atraente e enganam o coração dos ingênuos,  é o que Paulo diz. Inteligente, eloquente, polido, de fala suave, elogiando, lisonjeiro, abraçando causas nobres... Ele ganha o ouvido e engana o coração.

Nunca, nunca será popular resistir falsos mestres na igreja, eles são vistos como benção e não tragédia!

- por Josemar Bessa

terça-feira, 27 de novembro de 2012

O Que é o Verdadeiro Arrependimento?



O arrependimento pertence exclusivamente à religião dos pecadores. Não tem lugar na vida de criaturas não caídas. Aqueles que nunca cometem pecados nem possuem uma natureza pecaminosa não precisam de perdão, conversão ou arrependimento. Os anjos santos nunca se arrependem. Não têm do que se arrepender. Isso é tão claro que é desnecessário argumentar o assunto. Mas os pecadores precisam de todas essas bênçãos, que lhes são indispensáveis. A impiedade do coração humano torna-as necessárias.

Em todas as épocas, desde que nossos primeiros pais foram expulsos do Jardim do Éden, Deus tem insistido no arrependimento. Entre os patriarcas, Jó disse: "Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza" (Jó 42.6). Sob a vigência da Lei, Davi escreveu os salmos 32 e 51. João Batista clamou: "Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus" (Mt 3.2). Cristo declarou a respeito de Si mesmo que viera "chamar... pecadores ao arrependimento" (Mt 9.13). Pouco antes de sua ascensão, Cristo ordenou "que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém" (Lc 24.47). E os apóstolos ensinaram a mesma doutrina, "testificando tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus" (At 20.21).

Portanto, qualquer sistema de religião entre os homens que não inclua o arrependimento é falso. Matthew Henry disse: "Se o coração do homem tivesse permanecido reto e puro, as consolações divinas seriam recebidas sem essa dolorosa operação precedente. Mas, visto que o coração do homem é pecador, tem de ser primeiramente quebrantado, antes de receber paz; tem de labutar, antes de obter descanso. Para haver a cura, a ferida precisa ser examinada. A doutrina do arrependimento é uma doutrina correta do evangelho. Não somente o austero João Batista, que foi considerado um homem melancólico e pessimista, mas também o amável e gracioso Jesus, cujos lábios transbordavam doçura, pregou o arrependimento".

Embora o arrependimento seja um dever óbvio e freqüentemente ordenado, só pode ser realizado de modo verdadeiro e eficaz pela graça de Deus. É um dom do céu. Paulo orientou Timóteo a instruir, com mansidão, aqueles que se opunham, na expectativa de que Deus lhes concedesse "o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade" (2 Tm 2.25). Cristo foi exaltado como Príncipe e Salvador, "a fim de conceder... o arrependimento" (At 5.31). Assim, quando os gentios foram introduzidos na igreja, esta glorificou a Deus, dizendo: "Logo, também aos gentios foi por Deus concedido o arrependimento para vida" (At 11.18).

Tudo isso está de acordo com o tom das promessas do Antigo Testamento. Ali, Deus afirmou que faria essa obra em e por nós. Ouça esta graciosa promessa: "Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis" (Ez 36.26-27)... O verdadeiro arrependimento é uma misericórdia especial da parte de Deus. Ele nos dá o arrependimento, pois este não procede de nenhum outro. É impossível para a natureza caída recuperar-se a si mesma, por suas próprias forças, assim como é impossível arrepender-se verdadeiramente. O coração está preso aos seus próprios caminhos e justifica sua vida pecaminosa com obstinação incurável, até que a graça opera a mudança. Motivos para fazer o bem não são suficientemente fortes para vencer a corrupção no coração natural do homem. Se devemos alcançar esta bênção, isso deve ocorrer pela ação do grande amor de Deus por homens perdidos.

O arrependimento é bastante lógico... Quando somos chamados ao exercício de deveres que relutamos em cumprir, nos convencemos facilmente de que tais deveres são cobrados de nós insensatamente. Portanto, sempre é proveitoso que tenhamos um mandamento de Deus compelindo nossa consciência, em qualquer dos casos. É verdadeiramente benéfico que Deus fale conosco de modo autoritário quanto a este assunto. Deus "notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam" (At 17.30). A base da ordem é o fato de que todos os homens, onde quer que estejam, são pecadores. Nosso bendito Salvador não tinha pecado. Ele não podia se arrepender. Com essa única exceção, desde a Queda, nunca existiu qualquer pessoa justa que não necessitasse de arrependimento. E ninguém é mais digno de compaixão do que os homens infelizes e iludidos que não vêem em seu coração nada do que se arrependerem.

O que é o verdadeiro arrependimento? Essa é uma pergunta da mais elevada importância. Merece a nossa melhor atenção. Esta talvez seja a melhor definição já apresentada: "O arrependimento para a vida é uma graça salvadora, que o Espírito Santo e a Palavra de Deus operam no coração de um pecador; é uma graça por meio da qual o pecador, motivado por senso e percepção, e não somente pelo perigo, bem como por causa da impiedade e do ódio para com seu pecados, com base na apreensão da misericórdia de Deus, em Cristo, para com aqueles que se arrependem, sente tanta tristeza e odeia tanto o seu pecado, que se volta deles para Deus, intencionando e se esforçando continuamente para andar com Ele em todos os caminhos de uma nova obediência". Quando examinamos mais completamente essa definição, torna-se evidente que ela é correta e bíblica. O verdadeiro arrependimento é uma tristeza pelo pecado, um tristeza que leva a transformação. O simples remorso não é arrependimento, assim como não o é a reforma exterior. O arrependimento não é uma imitação da virtude; é a própria virtude...

Aquele que se arrepende verdadeiramente sente tristeza por seus pecados; aquele cujo arrependimento é espúrio se preocupa principalmente com suas conseqüências. O primeiro se entristece principalmente por haver praticado o mal; o segundo, por ter incorrido no mal. Um lamenta e admite que merece punição, o outro lamenta que tenha de sofrer punição. Um aprova a Lei que o condena; o outro acha que é tratado com severidade e que a Lei é rigorosa. Para aquele que se arrepende com sinceridade, o pecado parece bastante pecaminoso. Para aquele que se entristece segundo o mundo, o pecado parece agradável, de algum modo; ele lamenta que o pecado lhe seja proibido. Um diz que pecar contra Deus é algo perverso e terrível, ainda que não lhe sobrevenha punição. O outro veria pouco mal na transgressão, se não houvesse as dolorosas punições que certamente a acompanham. Um desejaria ser libertado do pecado, ainda que não existisse o inferno. O outro pecaria com avidez crescente, se não houvesse retribuição.

O verdadeiro arrependimento é adverso ao pecado, pois este é uma ofensa contra Deus. E isso se refere a todos os tipos de pecados. Contudo, pode-se observar que há duas classes de pecado que permanecem com grande vigor na consciência daqueles cujo arrependimento é verdadeiro. São os pecados de omissão e os pecados secretos. Por outro lado, em um arrependimento espúrio, a mente inclina-se a permanecer em pecados notórios e pecados de comissão. A pessoa verdadeiramente arrependida conhece a praga de um coração mau e de uma vida infrutífera; a pessoa de arrependimento falso não se inquieta a respeito do estado genuíno de seu coração, mas se entristece com o fato de que as aparências lhe são bastante contrárias.

por - William S. Plumer (1802-1880)
Fonte: http://www.editorafiel.com.br/artigos_detalhes.php?id=324

O culto online e a tentação do Diabo

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