terça-feira, 11 de setembro de 2012

Carta ao Eduardo - Um Homem que Pensa ser Reformado


*A presente carta é de gênero fictício, embora contenha situações da vida real.

Olá, Eduardo. Talvez você não lembre muito bem de mim, mas sou o Filipe, aquele com quem você já conversou pela internet acerca de alguns assuntos das doutrinas da graça. Como estão as coisas com sua família? A relação entre vocês está melhorando? Oro ao Senhor para que sim.

Estou lhe enviando esta carta, Eduardo, e já inicio pedindo para que não a leias como sendo algo diretamente a você, mas sim com relação ao movimento em que dizes estar engajado. Lembro-me de tê-lo visto pela internet e em algumas vezes tenho percebido que você tem tentado defender sua posição "reformada" com relação à vida cristã. Acontece, meu caro, que sua posição dita "reformada", nada mais é do que um brevíssimo entendimento daquilo que todo e qualquer cristão precisa saber. Deixe-me explicar:

Muitas vezes as pessoas têm se autodenominado "reformadas", somente porque creem na soberania de Deus, na depravação do homem e na incapacidade do mesmo ir até o Senhor. O problema é que estas coisas, embora sejam verdadeiras e todo professo da fé cristã tenha de tê-las como certas para ser um verdadeiro cristão, não significa que tal pessoa seja um crente "reformado". Por "reformado", estou querendo dizer que é aquela pessoa cujas convicções refletem o que Paulo deixou evidente: "Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus" (1Co 10.31). Isto significa dizer  que um cristão "reformado" busca um amparo e resposta bíblica para absolutamente todas as áreas da vida e em todas elas busca maximizar o louvor ao Senhor por meio de seus atos. Um cristão reformado acorda para a glória de Deus e reconhece Sua bondade por despertá-lo pela manhã (Lm 3.22-23); ao se limpar das impurezas por meio do lavar da água, entende que mais importante que limpar o exterior, é limpar o interior (Mt 23.25); vai até a mesa do almoço e não faz dela um laço para si (Sl 69.22), mas sim reconhece que precisa alimentar seu corpo, pois é templo do Senhor (1Co 3.16).

Ainda que eu conjecture que você esteja lendo e pensando algo como, "sim, mas isso eu já sei", noto que em sua vida isto não tem sido levado "a ferro e a fogo", como dizem em algumas regiões deste Brasil. Quer dizer, me parece que na teoria você entende, mas na prática isto não acontece. Tenho visto você citar alguns reformadores, grandes calvinistas, eventualmente algum puritano, mas sua vida diária está bastante divorciada daquilo que você tem professado. Me vem à memória aquele dia em que você disse não ter problema algum em se declarar um imposto de renda diferente do que você realmente ganha, por exemplo. Também me recordo (com tristeza) que você defende - na teoria - um alto grau de santidade, mas na prática você ainda viola conscientemente o Dia do Senhor com seus campeonatos de futebol e idas ao shopping center, não vê problema em se falar meia dúzia de expressões de baixo calão (indo contra Efésios 4.29), pensa que o governo não deve legislar qualquer moralidade (violando o Salmo 2), é contra quase toda qualquer modéstia no vestir; não pensa haver problema em se comprar jogos falsificados e efetuar download ilegais...

O que desejo com esta singela carta, Eduardo, é lhe alertar sobre um grande perigo que vem correndo: você crê que o pentecostalismo e todo liberalismo moderno é errado (nisto você está certo), mas entende que o simples fato de você crer nas doutrinas as quais me referi logo acima, já o torna um homem salvo. Ora, amado, por vezes tem me parecido que você pensa ter chego ao topo do mundo, donde pode olhar para toda multidão "sob seus pés" e se vangloriar do título que você mesmo se deu: "Eduardo, um homem reformado".

Crer na soberania de Deus é importante, mas colocá-la em prática é ainda mais - Tiago nos alertou sobre isso: "E sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos" (Tg 1.22). Você tem vivido algo perigoso e que tem levado muitos a grandes ruínas: o fato de achar que o termo "reformado" é o mesmo que "liberado". Em suas postagens no blog e em redes sociais, tenho acompanhado sua defesa em nome da liberdade cristã, dos direitos individuais, do direito de cada igreja ter o culto que entender por certo - mas, "cá entre nós": você realmente acredita nisso? Você realmente já leu a Bíblia e atentou para o fato, por exemplo, de que apenas nos dois últimos capítulos de Êxodo nos é registrado 17 vezes que Moisés fez tudo "conforme lhe ordenara o Senhor"? Quem tem lhe enfeitiçado com palavras mágicas que afirmam que você pode viver de maneira "liberada" e que, porque você crê ser um eleito, pode viver como bem entender?

Sabe, Eduardo, aquele seu problema com sua esposa e outros em sua família e igreja, não são necessariamente porque Deus é soberano e Ele tem entendido por bem lhe impor estas provações (embora isto seja também verdade), mas sim porque você não tem aplicado corretamente a sã doutrina, como ordena o apóstolo: "Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade" (2Tm 2.15). Sua esposa deseja atenção sua, mas você diz: "eu preciso estudar as Escrituras, ler livros e escrever textos"; seus filhos querem brincar com você, mas dizes a eles: "depois, agora o pai está ocupado"; coisas semelhantes também acontecem em sua igreja, como o fato destes tempos eu ter ouvido algumas coisas não muito boas sobre você e seu comportamento.

Buscar a verdade é essencial para o cristão; ler as Escrituras é fundamental - e quem não a lê, sinceramente penso que ainda não morreu para o pecado e nasceu para Cristo; todavia, busque aplicar estar benditas coisas em sua vida. Pare de achar que você já alcançou a estatura de Cristo ou que sempre é o "coitado" da história. Deixe de meninice, homem! Desculpe lhe falar nestas palavras, mas tem aparentado que o termo "reformado" só lhe trouxe problemas. Brevemente me recordo de quando você era "pentecostal" e orava fervorosamente, agora, entretanto, por dizer crer na soberania de Deus, tens orado muito pouco; outrora você visitava os aflitos e se compadecia dos pobres, hoje sequer corta o seu coração ver uma imagem de alguém necessitado - aliás, em seu perfil na rede social, você possui mais fotos de animais "carentes" do que expressões de contrição e ajuda benéfica aos "órfãos e às viúvas" (Tg 1.27).

Encerro por aqui lhe exortando para que busque ter mais piedade em seu coração e em suas atitudes. Deixe das brincadeiras de menino e cresça em conhecimento piedoso. Lembro-me com saudades do tempo em que você "descobriu" a fé reformada e estava grandemente entusiasmado. Não sei exatamente o que lhe aconteceu, mas de longe observei-o se afastando gradativamente do ensino verdadeiramente reformado - talvez você tenha pensado que ele é "rígido" demais ou algo que não se encaixe em nossa época... ainda não sei ao certo o que lhe aconteceu.

Que o Senhor abra os olhos de teu entendimento (Ef 1.18) e o leve ao conhecimento de Sua verdade que é segundo à contrição de coração. "Exercita-te a ti mesmo em piedade" (1Tm 4.7)

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Efésios 2.4 - Um Deus Riquíssimo em Misericórdia Exposição em Efésios - Sermão pregado dia 09.09.2012




Efésios 2.4 - Um Deus Riquíssimo em Misericórdia
Exposição em Efésios - 
Sermão pregado dia 09.09.2012

"Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou" (Ef 2.4).

Na sentença anterior o apóstolo do Senhor nos informou sobre a terrível situação em que se encontra este mundo caído e todos aqueles que não pertencem a Deus. Por não serem pertencentes ao Eterno, Paulo os chama de "filhos da ira" (Ef. 2.3), pois o Altíssimo não somente odeia o pecado, mas também repudia todo aquele em que vê o pecado estampado. O Senhor não pode simplesmente odiar o pecado e amar o pecador, pois o pecado está amarrado e colado junto ao homem, de modo que quando dos céus olha os homens, Ele não vê homens por sob a terra e o pecado como que "pairando" no ar sobre suas cabeças. O pecado se encontra no íntimo do homem: "Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias" (Mt 15.19; Mc 7.71). De fato isto é verdade, pois o próprio escritor de Provérbios já registrou que "Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida" (Pv 4.23). 

Sendo o pecado algo entranhado no seres humanos em virtude da queda de nossos primeiros pais, então o Senhor é plenamente justo em reputar todos os homens como inimigos de Seu reino. O próprio apóstolo ao falar de "filhos da ira" (Ef. 2.3) se utiliza de uma expressão por demais incisiva para declarar aos homens que por natureza elas estavam afastadas de Deus: "fazendo a vontade da carne e dos pensamentos". Tal qual um juiz profere sua sentença condenatória sobre aquele que bem entende ser o transgressor da Lei, assim também o Senhor fez com todos os homens - "Mas a Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes" (Gl 3.22; Rm 11.30-33). Observemos com que grande clareza o Soberano depõem contra os homens, a ponto de dizer que "encerrou tudo debaixo do pecado", isto é, nada sobrou para acima da linha do pecado, "Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus" (Rm 3.23). Não apenas alguns pecaram, não somente os assassinos e ladrões, mas todos - desde a criança da mais tenra idade (Sl 51.1) até o idoso que está à beira da morte. 

Tendo este ensinamento sido passado aos crentes de Éfeso, Paulo muda o seu discurso e inicia a falar da bondade de Deus, pois ainda que tenhamos de entender mui especificamente a doutrina da ira de Deus, não há homem nesta terra que suporte o peso do seu pecado e ainda tão somente ouça que Deus o odeia e que pode o matar a qualquer instante. Assim, teve por bem o Senhor, levar o apóstolo a escrever sobre "Deus, que é riquíssimo em misericórdia". Por Sua inefável graça, o Eterno nos deixou legado que mesmo tendo nascidos em pecado (Sl 51.5) e nada feito até a regeneração, exceto pecar e atrair a ira de Deus, com Seu muito amor nos amou e nos redimiu da ira vindoura, conforme registrado: "E esperar dos céus a seu Filho, a quem ressuscitou dentre os mortos, a saber, Jesus, que nos livra da ira futura" (1Ts 1.10).

O fato de Paulo registrar que Deus é "riquíssimo em misericórdia", dever-nos-ia levar a exultar em alegria e chorar rios de felicidade, pois o perdão que o Senhor nos concedeu não foi de pouca monta, mas ultrapassou tudo que o homem poderia intentar "comprar" com seu esforço. Notemos quando Jesus diz: "Por isso o reino dos céus pode comparar-se a um certo rei que quis fazer contas com os seus servos; E, começando a fazer contas, foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos; E, não tendo ele com que pagar, o seu senhor mandou que ele, e sua mulher e seus filhos fossem vendidos, com tudo quanto tinha, para que a dívida se lhe pagasse. Então aquele servo, prostrando-se, o reverenciava, dizendo: Senhor, sê generoso para comigo, e tudo te pagarei. Então o senhor daquele servo, movido de íntima compaixão, soltou-o e perdoou-lhe a dívida" (Mt 18.23-27).

Cristo inicia dizendo que esta parábola é uma ilustração do "reino dos céus". Isto significa dizer que Jesus está exemplificando como que a alguém é dado o privilégio de ir até os céus e desfrutar das maravilhas do "rei". Nosso Senhor inicia dizendo que o rei "quis fazer contas com os seus servos", quer dizer, o rei teve por bem que chegasse o momento do acerto final, o dia em que cada um receberia de acordo com o que realizou - "Porque o Filho do homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos; e então dará a cada um segundo as suas obras" (Mt 16.27). Começou então o rei a fazer as contas e lhe foi levado um servo "que lhe devia dez mil talentos". Se os estudiosos estão certos, dez mil talentos equivalem a 60 milhões de denários, sendo 1 denário um bom pagamento proveniente de 1 dia de trabalho. Noutras palavras, se dividirmos estes 60 milhões por 365 dias de um ano (isto sob a consideração de que o homem trabalharia todos os dias sem parar - sequer estamos considerando o shabath e as demais festas judaicas), se chega ao resultado de que aquele servo teria de trabalhar 164.383 anos para pagar o seu senhor - por isto, então, Cristo diz: "E, não tendo ele com que pagar". Jesus não foi dúbio sobre o resultado, Ele não titubeou e eventualmente pensou que talvez, sob alguma possibilidade remota, o servo poderia pagar, pois era completamente impossível - a dívida era simplesmente impagável. Tendo tal dívida contraída, restava apenas uma coisa: vender-se como escravo para seu Senhor. Todavia, observemos como não somente o homem, o pai de família foi ordenado para a venda, mas também "sua mulher e seus filhos fossem vendidos, com tudo quanto tinha, para que a dívida se lhe pagasse". No intuito de procurar clemência para si e para os seus, "aquele servo, prostrando-se, o reverenciava, dizendo: Senhor, sê generoso para comigo, e tudo te pagarei". Acontece que o rei sabia que aquele servo não poderia lhe pagar as contas, ainda que dissesse que tudo iria pagar. "Então o senhor daquele servo, movido de íntima compaixão, soltou-o e perdoou-lhe a dívida."

Assim como este terrível e irresponsável homem que não possuía qualquer controle sobre suas finanças teve primeiramente sobre si o machado posto aos pés de seu coração, como que esperando apenas a ordem divina para ser ceifado (Mt 3.10; Lc 3.9), mas foi poupado (Ez 9.8), igualmente os filhos do Senhor foram libertos pela grandiosa misericórdia de Deus. Para aquele rei ter perdoado tal homem incontrolável e irremediável, ele deveria possuir uma riqueza exorbitantemente gigantesca. Ninguém perdoa dívida alguma se o montante somado lhe for precioso e tal credor necessitar do pagamento. Quando alguém contrai alguma dívida conosco, na grandiosa parte das vezes não podemos simplesmente perdoar a dívida, pois se o devedor não nos pagar, por consequência ficaremos sem subsídios para pagar a quem nós também devemos,  que semelhantemente ficarão sem receber e não honrarão suas respectivas dívidas - é um ciclo que não tem fim. Mas, diz o apóstolo, "Deus... é riquíssimo em misericórdia". 

Deus não necessita de nosso pagamento; primeiro, porque nossas obras são semelhantes à trapos de imundícia: "todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniqüidades como um vento nos arrebatam" (Is 64.6); segundo, porque a dívida que temos para Ele, nem mesmo vendendo todos os nossos bens, família e vivendo de caridade social a vida inteira, poderíamos pagar - pois este pagamento não se resolve com bens e acessórios, mas com apenas com sangue, afinal, "sem derramamento de sangue não há remissão" (Hb 9.22).

Eis a razão do santo apóstolo continuar sua afirmação: "pelo seu muito amor com que nos amou". Por algum motivo não nos foi dada a capacidade de imaginarmos a quantidade de amor que o Senhor possui; não conseguimos entender como Deus pode ser eterno e, por consequência, não criado; foge-nos ao palpável e imaginável o mero considerar de Ele subsiste de eternidade a eternidade (Sl 106.48). Porque aquele rei havia perdoado seu servo que nem mesmo com a morte poderia lhe pagar (notemos que ele poderia morrer trabalhando que ainda faltariam milhares de anos para quitar a dívida), havia a necessidade de ser levantado alguém cuja vida fosse propícia à remissão dos pecados - e este é o glorioso e perfeito Cristo, nosso Senhor!

A maravilhosa e esplêndida vida de Cristo foi o que proporcionou a todos os Seus filhos, aqueles que são enviados pelo Pai a Ele (João 10), a vida eterna ao lado do Senhor. Grandemente importante é gravarmos em nossa mente que, embora o homem natural esteja em dívida impagável diante do Rei dos reis, o Soberano não nos leva até Ele mesmo por vias de chibatadas ou pisoteamentos divinos, mas sim conforme lemos: "Há muito que o SENHOR me apareceu, dizendo: Porquanto com amor eterno te amei, por isso com benignidade te atraí" (Jr 31.3). 

Interessantemente devemos recordar de que as Escrituras não registraram tudo o que Cristo fez na terra. Quer dizer, se cogitamos a possibilidade de mensurar a grandeza dos feitos de Cristo, na verdade, sequer  podemos alcançar tal grandeza. Olhemos o dito de João: "Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez; e se cada uma das quais fosse escrita, cuido que nem ainda o mundo todo poderia conter os livros que se escrevessem" (Jo 21.25). A beleza, santidade, justiça e verdade que o Senhor possui está para muito além de nosso alcance - não que sejamos impedidos de O conhecer, porque se assim fosse a salvação seria uma utopia, mas sim que é verdadeiro o fato de aqui conhecermos apenas aquilo que o Senhor teve por bem nos revelar, ao passo que no Reino glorioso teremos o pecado completamente removido de nossos corpos e seremos semelhantes aos seres celestiais que incessantemente clamam: "Santo, Santo, é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso" (Ap 4.8).

Vejamos, então, algumas aplicações que possuem o grande e riquíssimo amor de Deus para conosco:

1. Devemos perdoar ao próximo

Uma das principais características que deve permear o cristianismo verdadeiro é o perdão mútuo e, consequentemente, o amor entre os irmãos - "Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros" (Jo 13.35). O perdão dos pecados é uma grande alegria que o cristão possui - "Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada, e cujo pecado é coberto" (Sl 32.1). Na narrativa sobre o reino dos céus exemplificado por Cristo, vemos clarividente que o cristão verdadeiro é alguém que vai e perdoa o seu próximo, pois primeiramente foi perdoado pelo Senhor (Mt 18.23-35).

A raiz para não se perdoar o próximo é o orgulho de se achar merecedor de algum mérito. Quando alguém nos insulta, nos furta, nos oprime os nos entristece ao coração e posteriormente vem pedir perdão a nós, a primeira reação que costumamos ter em nosso coração é: "eu não vou perdoar, pois ele/ela muito me magoou". Acontece, amados, irmãos, que esta é uma atitude de fariseus e escribas, pois eram estes homens que pensavam ser apenas os outros os pecadores (Lc 15.2). O verdadeiro filho regenerado pelo Senhor é alguém que perdoa seus inimigos, pois reconhece que também recebeu graça sobre graça vinda de Deus: "E como vós quereis que os homens vos façam, da mesma maneira lhes fazei vós, também. E se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? Também os pecadores amam aos que os amam. E se fizerdes bem aos que vos fazem bem, que recompensa tereis? Também os pecadores fazem o mesmo. E se emprestardes àqueles de quem esperais tornar a receber, que recompensa tereis? Também os pecadores emprestam aos pecadores, para tornarem a receber outro tanto. Amai, pois, a vossos inimigos, e fazei bem, e emprestai, sem nada esperardes, e será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo; porque ele é benigno até para com os ingratos e maus" (Lc 6.31-35).

Este fato é de magnífica importância para nós, pois deste modo, todas as vezes em que formos ofendidos (seja por amigos ou até mesmo os da própria família), lembraremos de quantas são as nossas ofensas ao Senhor, reconheceremos que Sua misericórdia foi abundante para conosco e que nossos pecados para com Ele foram infinitamente mais ultrajantes do que qualquer insulto ou violência que possamos receber nesta terra de algum vil e desprezível homem.

2. Devemos ser longânimos e perseverantes

"O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; mas é longânimo para conosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se" (2Pe 3.9). O motivo pelo qual devemos buscar um ânimo longo é porque primeiramente o Senhor foi "longânimo para conosco". Ele não nos castigou com a morte eterna ainda quando dávamos os primeiros passos; Ele não veio com Seu imenso furor e queimou nossas casas; Ele veio para ânimo grandiosamente longo para conosco. É certo que por muito tempo o Senhor teve por bem que seguíssemos "o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência" (Ef 2.2), todavia, "com amor eterno te amei, por isso com benignidade te atraí" (Jr 31.3).

"Misericordioso e piedoso é o SENHOR; longânimo e grande em benignidade" (Sl 103.8). A perseverança na graça de Deus é algo que temos que praticar diariamente. Oh! Como somos tardios para aprender e com que grande dificuldade entendemos que nossa alma também padece de fraquezas e precisa ser diariamente alimentada! Como somos ainda entendemos muito bem o curso de mundo, sabendo que se hoje depositarmos sobre a terra a semente de uma grande árvore, com absoluta certeza sabemos que levará muitas dezenas de anos para ela atingir o seu esplendor. Contudo, em matéria espiritual, desejamos que a piedade floresça e dê os frutos graciosos em pouquíssimo tempo. 

3. Devemos depositar nossas esperanças somente no Senhor

Muitos têm se esquecido de que é depende do Altíssimo. Recordemos de como o rei havia perdoado seu servo: ele foi perdoado, mas não confiou em Seu senhor. Aquele vil e perverso servo, mesmo tendo sido perdoado, creu em seu orgulhoso coração que era digno de receber uma quantia absolutamente ínfima (em comparação ao perdão que havia recebido) de seu devedor. "Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem, e faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do SENHOR!" (Jr 17.5) - aquele homem confiou em outro homem, pois intentou que o sustento de sua casa viria das mãos de seu devedor, e não do Senhor. É preciso que compreendamos que há apenas um que pode nos suster com Sua graça: "Deus, que é riquíssimo em misericórdia". 

Uma das causas para que o professo da fé cristã muitas vezes fraqueje diante das dificuldades, é devido ao problema de ele ainda pensar superficialmente. Homens e mulheres têm depositado suas esperanças em seus empregos, casas, carros, família, amigos e nalgum dinheiro no banco - mas, infelizmente não percebem que estão construindo suas vidas sob a areia e será "grande a sua queda" (Mt 7.27). Nesta passagem onde Cristo fala da importância de se estar firmado sob a Rocha, Ele não aventa a possibilidade de descer a chuva, correr os rios, e assoprar os ventos, e combater aquela casa, e sim diz que isso vai acontecer: "E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram ventos, e combateram aquela casa, e caiu, e foi grande a sua queda" (Mt 7.27)`.

Assim como aquela chuva desceu e levou toda segurança de um homem, também virá o Senhor em Seu dia glorioso e "recolherá no celeiro o seu trigo, e queimará a palha com fogo que nunca se apagará" (Mt 3.12).

Que possa o Senhor nos agraciar com uma visão mais precisa de Suas tenras misericórdias, de modo que possamos cantar e nos alegrar com o salmista: "Israel, confia no SENHOR; ele é o seu auxílio e o seu escudo. Casa de Arão, confia no SENHOR; ele é o seu auxílio e o seu escudo. Vós, os que temeis ao SENHOR, confiai no SENHOR; ele é o seu auxílio e o seu escudo. O SENHOR se lembrou de nós; ele nos abençoará; abençoará a casa de Israel; abençoará a casa de Arão" (Sl 115.9-12).

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Meditações para começar a orar - Lewis Bayly (1565-1631)



1. Se, quando você estiver quase começando a orar, satanás lhe insinuar que as suas orações são compridas demais e que, portanto, melhor será, ou deixar de orar, ou fazer orações mais curtas, medite e veja que a oração é um seu sacrifício espiritual que agrada a Deus (Hb 13.15-16). Por isso a prática da oração desagrada tanto ao diabo e é tão penosa para a carne. Incline, pois, os seus sentimentos, queiram eles ou não, impelindo-os a tão santo exercício. Esteja certo de que, quanto mais isso agradar a Deus, mais desagradará à sua carne.

2. Não se esqueça de que o Espírito Santo assinala como uma característica especial dos réprobos a seguinte: "Eles não invocam ao Senhor; eles não invocam a Deus" (Sl 14.4; 53.4). E quando Elifaz supôs que Jó tinha rejeitado o temor de Deus, e que Deus tinha rejeitado Jó privando-o do Seu favor, acusou Jó de diminuir suas orações diante de Deus (Jó 15.4), dizendo que um sinal certo daquele primeiro ato é causa suficiente do segundo. Não se esqueça de que, por outro lado, Deus prometeu que "todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo" (Rm 10.13). A verdade é que aquele que não toma consciência do dever de orar não tem em seu ser nenhuma graça do Espírito Santo, porquanto o Espírito de graça e o de oração são um só (Zc 12.10). Sucede, então, que a graça e a oração andam juntas. Mas aquele que, movido por um coração penitente, ora a Deus de manhã e de noite, pode estar certo de que possui sua porção de graça neste mundo, e de que terá sua porção de glória na vida por vir.

3. Lembre-se de que a repugnância por comida e uma penosa dificuldade para falar são dois sintomas de um corpo enfermo. Assim também, o aborrecimento pela oração quando você fala com Deus, e a negligência em ouvir, quando Deus, por Sua Palavra, fala com você, são dois sinais seguros de uma alma enferma.

4. Chame à sua memória as zelosas devoções dos cristãos da Igreja Primitiva. Eles passavam muitas noites e vigílias velando e orando pelo perdão dos seus pecados, e para que fossem encontrados preparados para a Vinda de Cristo. Também Davi não se contentava em orar de tarde, de manhã e ao meio-dia (Sl 55.16-17), mas também costumava levantar-se à meia-noite para orar a Deus (Sl 119.62). E se Cristo repreendeu o Seus discípulos porque não se dispuseram a vigiar com Ele em oração "nem uma hora" (Mt 26.40), que repreensão você pensa que merece, sendo que acha que é tempo demais ficar orando meramente um quarto de hora? Se você passou várias horas num fútil baile ou jogo; sim, na verdade, dias e noites completos em jogos de cartas e dados, para agradar a sua carne, tenha vergonha de achar que orar durante um quarto de hora é um exercício demasiado longo para o serviço de Deus.

5. Os papistas, em sua cega superstição, usando uma língua desconhecida e, portanto, própria somente para os filhos da Babilônia mística (1Co 14.14; Gn 11.7-9; Ap 17.5), murmuram sobre as contas do rosário todas as manhãs e as noites, muitas dezenas de aves-marias, padre-nossos e orações idolátricas. Considere, então, como eles, com sua devoção supersticiosa, hão de levantar-se no juízo contra você, que se proclama verdadeiro adorador de Cristo. Talvez você pense que essas orações são um trabalho demasiado longo, e que as orações que você faz são mais curtas que as deles, mas muito mais proveitosas pela qualidade e por visarem somente a glória de Deus e o benefício da Sua Pessoa, bastando formular as orações com frases compiladas das Escrituras, alegando que pode falar com Deus tão bem com as Suas santas palavras como com a sua língua nativa. Envergonhe-se com o que fazem os papistas que, em sua supersticiosa adoração de criaturas, mostram-se mais devotos do que você em sua sincera adoração do Deus único e verdadeiro (Jo 17.3). E, na verdade, uma oração feita em devoção privada deve ser uma fala continuada, e não muitos fragmentos quebrados.

6. Por último, quando lhe ocorrem pensamentos que o induzam a abster-se de orar ou a distrair-se na oração, lembre-se de que esses pensamentos são aves que o maligno envia para devorarem a boa semente e os cadáveres dos seus sacrifícios espirituais. Esforce-se, porém, para, com Abraão, expulsá-las (Gn 15.11). Não obstante, se vez por outra você perceber que o seu espírito está embotado e a sua mente não está apta para a oração e para uma santa devoção, não lute demais dessa vez. O que você deve fazer, nesse caso, é humilhar-se, conscientizando-se da sua fraqueza e do seu embotamento, sabendo que Deus aceita a mente desejosa, apesar de oprimida pelo peso da carne (Mt 26.41; 2Co 8.12). Na próxima vez, esforce-se para compensar esse embotamento, redobrando o seu zelo.

Fonte: Lewis Bayly (1565-1631), "A Prática da Piedade", Ed. PES, págs. 173-175.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Download do Estudo Sobre o Casamento e a Questão dos Filhos




Amados irmãos, segue abaixo o link (em .pdf) para download do estudo sobre o Casamento e a questão dos Filhos. O casal cristão pode evitar ter filhos? Seria isto lícito à luz das Escrituras?

O arquivo possui marcadores (bookmarks) para melhor navegação - caso seu Adobe Reader não o ative automaticamente, clique no símbolo que se parece com um marca páginas (aqueles de fita).

Link para download: Estudo - Casamento e Filhos

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Série: Homem e Mulher os criou - parte 23 (final) - Homem e Mulher após a Queda - O Uso do Véu - Sermão pregado dia 02.09.2012


Série: Homem e Mulher os criou - parte 23 (final) -
Homem e Mulher após a Queda - O Uso do Véu
Sermão pregado dia 02.09.2012

Este estudo foi gravado em áudio (botão direito para salvar):
Áudio completo 
Se preferir, pode também baixar em 3 partes:
- Parte 1
- Parte 2
- Parte 3

Este é o último artigo que vamos tratar nesta série sobre o homem e a mulher. Somos gratos ao Senhor por todo bem que nos tem feito até aqui e nos ensinado em Sua sã doutrina. Vejamos, portanto, a questão do uso do véu pelas mulheres.

Muito se tem dito sobre esse assunto no meio evangélico, todavia, muito também se tem distorcido com relação a esta tão importante doutrina que é o uso do véu esboçado principalmente em 1Coríntios 11.1-16. Logo de início deixemos registrado que a palavra "véu" é uma palavra que os tradutores entenderam por bem colocar em nossas versões bíblicas, porém, a palavra original não é "véu", e sim "cobertura/manto". A própria versão do rei Tiago (King James) traz a palavra "cobertura". Por mais bem intencionados que possam ter sido os tradutores, a palavra "véu" trouxe mais confusão do que ajuda - bom seria se tivessem traduzido por "cobertura". Assim, toda a vez que lermos ou falarmos em "véu", que se recorde que não estamos nos referindo a um pedaço de pano ou tecido específico, mas de algo que cobre a cabeça. Quer dizer, não é necessariamente um véu (tipo chiffon ou de renda), mas algo sobre a cabeça - seja o véu em si ou um chapéu, gorro ou coisa semelhante. Apesar de para alguns isto parecer não tão relevante, na verdade é de muita importância, pois caso contrário teria de se usar literalmente e apenas o véu, sendo o chapéu, gorro ou outra cobertura, fora do padrão bíblico.

Penso que o motivo para muitos rejeitarem instantaneamente esta questão seja o fato de realizarem analogias com outros grupos que possuem a mesma prática, mas que não estão em conformidade com a sã Palavra de Deus. Explico: muitas pessoas rejeitam o batismo infantil porque o romanismo assim também procede; muitos não aceitam o cântico a cappella (sem instrumentos) porque eventualmente alguns monges e outros grupos possuem esta mesma prática; do mesmo modo, então, muitos ignoram o uso do véu, porque, por exemplo, atualmente algumas outras igrejas não tão centradas na Palavra de Deus praticam o uso do véu pelas mulheres. 

Entretanto, no que muitos acabam por tropeçar é em justamente rejeitar uma verdade somente porque ela também é vista em meio à mentira. Noutras palavras e citando um exemplo verídico, é o mesmo raciocínio que as pessoas se utilizam quando ouvem que alguém possui uma arma de fogo - elas logo pensam: "Aquela pessoa é um bandido para ter que andar armado?" Ora, esta "analogia" não faz qualquer sentido, pois o que tem a ver um civil (pessoa comum) portar legalmente uma arma e o ladrão que a possui ilegalmente? Acaso é a arma que torna alguém um infrator da lei? Desta maneira, ao realizarem este tipo de comparação estapafúrdia, muitos sequer buscam compreender e até mesmo se fecham para o ensino, além de se privarem do estudo deste tema sob o pretexto de que "porque naquela e naquela 'igreja' eles fazem isso, então só pode ser errada esta prática". Em suma, como se costuma dizer em nossa língua, "desejaram jogar fora a água suja da banheira, mas acabaram jogando o bebê junto". Os que assim procedem, na verdade até mesmo falham ao desconhecerem que grandes homens (admirados por estes mesmos, muitas vezes) do Senhor - das mais diversas "denominações" -  defenderam o uso do véu pelas irmãs em Cristo. Entre tais homens figuram João Calvino (1509-1564), João Knox (1514-1572), João Bunyan (1628-1688, autor de "O Peregrino"), Charles Haddon Spurgeon (1832-1892) e ainda outros que serão citados neste estudo.

Precisamos também deixar estabelecido que assim como o cântico exclusivo de Salmos, uma modéstia mais restrita no vestir, o batismo de crianças e outros salutares ensinamentos bíblicos, o uso do véu não torna alguém mais ou menos cristão, assim como não significa que aqueles que entendem diferente sejam impedidos de se assentar em nosso meio, ouvir a Palavra de Deus ou sejam reputados como hereges - absolutamente não! Somos contra qualquer tentativa de alguém (e tão somente) advogar a ideia de que é detentor da plena e real verdade, como se apenas esta pequena "casta" fosse eleita pelo Senhor e todo o restante das igrejas e do mundo certamente perecerá. Embora isto seja bastante evidente, é preciso enfatizar, pois se alguém fosse salvo por obras, então já não seria pela graça de Deus. Todavia, aqueles que não concordam com esta prática, devem nos demonstrar biblicamente os porquês de assim fazerem - caso contrário, serão meros esperneadores sem razão.

Por último, convém também lembrar que muitos afirmam que o uso do véu estava ligado a um simbolismo na época de Paulo e que naqueles dias possuía algum significado, ao passo que para nós já não transmite coisa alguma neste sentido (tão somente o ensinamento da autoridade do homem sobre a mulher - segundo alegam). Pontuamos, então, que a Bíblia está repleta de simbolismos dentre os quais todos os cristãos são usuários e praticantes. Olhemos para a igreja de Deus: ela é invisível, mas representa que estamos congregados sob o templo que é Cristo (Mt 12.6); as orações dos cristãos são audíveis, mas são como o incenso que subia até o Senhor no Antigo Testamento (Ap 5.8); não possuímos mais sacrifícios de animais, mas nossas vidas são agora o sacrifício (Hb 13.15); a páscoa que era comemorada pelo israelitas deu lugar à santa ceia (Lc 22.19) - assim como tantos outros fatos que poderíamos citar. O que precisamos compreender, então, é que a vida cristã é recheada de simbolismos e eles não podem ser simplesmente alterados conforme o "gosto" e desejo de cada cultura, porque se assim for, acaso não poderíamos advogar que o pão e vinho da ceia poderiam ser trocados por banana e água de coco em alguma região do mundo onde o pão e vinho não transmitissem a ideia de corpo e sangue? Ora, se alguém afirmasse tal coisa, certo estou de que ainda não possui a devida renovação da mente e pensa conforme o curso deste mundo (Rm 12.2), crendo piamente que é o evangelho quem deve se adequar à cultura, e não o contrário.

Quando buscamos compreender um assunto bíblico, seja ele de qual natureza for, temos de ter em mente os seguintes pressupostos: Em primeiro lugar, que o Senhor é soberano sobre toda a terra e sobre toda e qualquer cultura. Isto implica em dizer que uma doutrina não deve ser aceita ou rejeitada baseado naquilo que temos por bem e que se encaixe em nosso ou noutro padrão de gosto pessoal e social. Em segundo lugar, o fato de Deus e Sua Palavra serem soberanos sobre nossas vidas, não elimina os motivos e as circunstâncias em que os livros bíblicos foram escritos. Quer dizer, não estamos defendendo que se deva ignorar a situação cultural e eclesiástica de Corinto - proceder assim seria ser um mau intérprete das Escrituras. Em terceiro lugar, embora as circunstâncias do local sejam importantes, elas não significam que o fato ordenado e regulado por Deus em si não seja necessário para as demais igrejas de Deus. Para demonstrar como isto é verdadeiro, lembremos, por exemplo, que Mateus escreveu seu evangelho visando os judeus e gentios convertidos; Marcos também enfatizou algumas particularidades da vida de Jesus para determinado grupo; Lucas direcionou seu evangelho para Teófilo; Paulo escreveu para diversas igrejas; Pedro escreveu aos "aos estrangeiros dispersos no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia" (1Pe 1.1)....

O que desejamos afirmar, portanto, é que o fato de tais cartas terem sido escritas sob determinadas circunstâncias e para determinado povo ou pessoa, não exauri a importância de continuarem a ser Palavra de Deus valida para nós! Se fôssemos excluir a prática da doutrina por causa da cultura em que foi escrita, teríamos que excluir as instruções de Paulo com relação à ceia e ao "Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice" (1Co 11.28), pois esta admoestação e instrução está - por ironia para aqueles que rejeitam o uso do véu por causa da cultura - justamente logo abaixo dos versículos sobre o véu.

Também frisamos que ainda que já tenhamos visto e pontuado sobre este fato na modéstia cristã, precisamos relembrar que todos os sessenta e seis livros da Bíblia foram escritos sob outras culturas e geografias, momentos políticos diversos e as mais variadas coisas que sequer possuímos hoje. Se formos levar a questão cultural ao extremo e nos pautarmos por ela, sequer teremos uma Palavra de Deus válida para nós, pois salvo se o Senhor nos enviasse uma nova Bíblia para o século vinte e um, deveríamos "renunciar" ao cristianismo, afinal, ele foi escrito em momentos que não são os nossos.

Para iniciar nosso entendimento, é preciso notar para quem Paulo dirigiu esta carta: "Paulo (chamado apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus), e o irmão Sóstenes, À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso: Graça e paz da parte de Deus nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo" (1Co 1.1-3 - grifo meu). Sejamos bons leitores e percebamos que a carta foi não somente "À igreja de Deus que está em Corinto", mas também às demais igrejas de Deus "em todo o lugar". Ao final de sua explanação sobre o uso do véu, Paulo reforça este dito: "Mas, se alguém quiser ser contencioso, nós não temos tal costume, nem as igrejas de Deus" (1Co 11.16 - grifo meu). Paulo não falou em "igreja" (singular), e sim "igrejas" (plural), demonstrando que ele estava a falar de uma prática que era comum em todas as igrejas de Deus plantadas pelos apóstolos - isto é bastante evidente devido à harmonia da Igreja de Cristo e a impossibilidade do Senhor ter ordenado que cada região ou cultura tivesse um culto diferente e tipos diversos de práticas; o próprio Cristo mesmo disse: "Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações" (Mt 28.19); vê-se, então, que nada se fala sobre adequar e manejar o culto conforme apraz a cada lugar ou ocasião. [1]

Tendo estes pressupostos como base e certos para nosso estudo, avancemos rumo ao texto proposto.

1. "Sede meus imitadores, como também eu de Cristo" (1Co 11.1).

No intuito de facilitar a localização e auxiliar na leitura e estudo da Palavra de Deus, algumas versões bíblicas e seus respectivos editores resolveram colocar as palavras de Jesus em vermelho (geralmente) ou em destaque. Acontece que isto (dentre outras coisas, é evidente) levou muitos a considerarem as palavras de Cristo mais importantes ou com maior peso do que as dos apóstolos e demais escritores bíblicos. Não que estejamos defendendo que Cristo seja igual aos demais homens, mas lembremos que "Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra" (2Tm 3.16-17) - atentemos, pois, para que toda a Bíblia foi legada a nós como sendo palavra advinda do próprio Deus.

Desde modo, quando lemos que os crentes de Corinto deveriam ser imitadores de Paulo, isto em nada diminui ou relativiza o poder da Escritura, afinal, se toda ela é vinda do próprio Deus, obedecer as palavras de Paulo, Pedro, João ou Jesus, no fim resulta no mesmo ato: obedecer a palavra de Deus. Deste modo é que Paulo inicia o seu argumento ao invocar para si e expor aos cristãos de Corinto que ao obedecerem os preceitos ensinados por ele estariam diretamente obedecendo ao Senhor Jesus Cristo, pois o próprio apóstolo havia recebido tais instruções e era seguidor de Cristo.

2. "E louvo-vos, irmãos, porque em tudo vos lembrais de mim, e retendes os preceitos como vo-los entreguei" (1Co 11.2).

Ao lermos as duas cartas de Paulo aos coríntios, por vezes somos levados a pensar que aqueles homens nem mesmo eram crentes, pois até mesmo no tempo em que tinham a ceia alguns se embriagavam e outros comiam além da conta, fazendo que pouca comida sobrasse aos demais e todo ato solene fosse perturbado (1Co 11.20-22). Mas, ao contrário do que podemos eventualmente pensar, Corinto havia sido o lugar onde o Senhor teve por bem levar o evangelho da salvação e de fato havia uma igreja estabelecida naquele local. O próprio apóstolo denomina aqueles homens e mulheres de "irmãos", apesar de possuírem muitas falhas e estarem regendo a igreja local com acentuada falta de prudência e ordem vinda do Senhor - e é justamente  sobre isto que Paulo escreve, para ensinar aqueles irmãos sobre a maneira correta de procederem acerca dos mais variados assuntos eclesiológicos.

Algumas pessoas têm inquirido e levantado objeções quanto ao uso do véu porque no Novo Testamento há apenas este conjunto de versículos que fale sobre o que estamos nos propondo a analisar. Porém, nota-se abundante falta de maturidade teológica e interpretativa nos que assim procedem, pois quem há de advogar a ideia de que todas as cartas e escritos bíblicos deveriam conter as mesmas instruções? Aliás, se assim fosse, não bastaria termos apenas uma carta? Ora, Paulo escreveu sobre este fato para a igreja de Corinto porque lá estava havendo este problema! Do mesmo modo como escreveu à igreja da Galácia por outros motivos, à Tessalônica por outros e em todas as suas demais cartas! Por que haveria razão para se tratar de um assunto em determinada igreja, sendo que lá não era preciso porque já era aceita? Evidencia-se, nestes termos, como infelizmente muitos estão distantes da compreensão de que a Escritura é una e indivisível, ainda que seja uma junção de várias cartas e escritores humanos que tenham registrado - ao final, porém "tudo vem de Deus" (1Co 11.12).

3. "Mas quero que saibais que Cristo é a cabeça de todo o homem, e o homem a cabeça da mulher; e Deus a cabeça de Cristo" (1Co 11.3).

O modo como Paulo inicia esta frase é importante para nós, pois enquanto no versículo anterior ele havia louvado os irmãos (isto é, estado alegre e jubiloso pelo o que o Senhor operara no meio deles), agora faz uma ressalva, uma pausa, um adendo a fim de explicar aos irmãos algo que eles haviam se esquecido (ou eventualmente ainda não haviam sido ensinados) ou estavam negligenciando voluntariamente. O que Paulo pontua neste versículo irá nos guiar por todo o estudo restante.

Após fazer a ressalva ("Mas"), ele diz: "Cristo é a cabeça de todo o homem, e o homem a cabeça da mulher; e Deus a cabeça de Cristo". Três fundamentos são postos nesta passagem:

1. Cristo é a cabeça de todo homem. Relembrando o que vimos nos estudos passados, isto significa que mesmo o homem tendo o domínio sobre a criação e o dever de reger o lar (com amor e gratidão), ele está primeiramente submetido a Cristo.

2. O homem é a cabeça da mulher. Paulo não expõe qualquer novidade teológica neste ponto, e sim afirma o que já é categórico da vida cristã: o homem é o governador (amoroso, paciente, cuidadoso, fiel...) do lar. Observemos, porém, que aqui não nos é dito sobre o respeito somente entre casados, como se as mulheres devessem honra (assim como os homens devem - já tratamos deste assunto) somente aos pais, irmãos e tios da família, mas sim é delimitado que o princípio da submissão abarca toda a relação de homem e mulher. [2]

3. Deus é a cabeça de Cristo. Dos três fundamentos que temos, este é o de maior impacto e que precisa ser posto em lugar de destaque em nosso conhecimento. Cristo, que é Deus, humildemente foi "semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo" (Hb 2.17), "Que não foi feito segundo a lei do mandamento carnal, mas segundo a virtude da vida incorruptível" (Hb 7.16) e "esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens" (Fp 2.7; Jo 17.5). De toda a submissão (do homem para Cristo e da mulher para o homem), a de Cristo ao Pai é certamente a mais sublime e gloriosa. Por meio desta declaração a santa Escritura nos ensina que todo ato de submissão humana não é coisa alguma em comparação ao que Cristo fez por Seus filhos.

Para fins pedagógicos, se visualiza desta forma o dito de Paulo:


4. "Todo o homem que ora ou profetiza, tendo a cabeça coberta, desonra a sua própria cabeça" (1Co 11.4).

As Escrituras tratam de duas questões neste ponto: orar e profetizar (que é pregar) e realizar estes atos com a cabeça coberta. Notemos que a ênfase não está no orar ou pregar (pois tais funções já pertencem aos homens), nas no fazer isto "tendo a cabeça coberta". A consequência desta atitude é que o homem "desonra a sua própria cabeça".

A dúvida que surge neste ponto é sobre o que significa desonrar a própria cabeça. A resposta para esta indagação está no versículo anterior: "Cristo é a cabeça de todo o homem". O que a Bíblia está ensinando é que se o homem ora ou prega com a cabeça coberta, ele "desonra a sua própria cabeça" - desonra a si mesmo. [3] Então, quando o homem desonra sua cabeça, ele acaba por desonrar a Cristo que é sua cabeça (seu dono, regente, supremo e soberano). Se o homem ora ou prega tendo algo em sua cabeça, ele acaba por desonrar a Cristo, pois Cristo passaria a ser a cabeça de alguém sem honra, de um ser não louvável, não submisso, alguém que sob sua cabeça recai vergonha.

5. "Mas toda a mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta, desonra a sua própria cabeça, porque é como se estivesse rapada" (1Co 11.5).

A fim de que a mulher não pensasse que deveria se portar igualmente ao homem, Paulo diz que se ela orar e profetizar (novamente, sinônimo de pregar) "com a cabeça descoberta", ela traz "desonra a sua própria cabeça", assemelhando-se a uma mulher com a cabeça "rapada". A palavra em grego para "descoberta" é "Akatakaluptos" (ajkatakavluptoß) e significa "não coberta, não velada, sem cobertura". [4]

Temos o primeiro indício, nesta passagem, de que se a mulher ora ou profetiza com a cabeça descoberta (sem a devida cobertura - véu, chapéu, gorro...), isso lhe é algo vergonhoso, desonroso. Isto é tão verdade que Paulo diz que se a mulher se assenta na igreja sem a cobertura, é como se estivesse com o cabelo raspado. No versículo 15 se visualizará melhor este dito, mas o apóstolo já indica que para a mulher, o estar sem a cobertura é a mesma coisa que negligenciar a sua glória que é o seu cabelo! Quer dizer, se a mulher se porta no culto sem a cobertura, ela está voluntariamente dizendo a Deus que o seu cabelo também nada vale de coisa alguma e sequer lhe é uma glória, pois estar sem a coberta é o mesmo que estar sem cabelo que é uma glória. Noutras palavras, se a mulher assim procede, ela negligencia a glória que Deus lhe deu, porque estar sem a cobertura é o mesmo que rapar o cabelo que é sua glória.

Há, aqui, um problema: como Paulo pôde dizer que a mulher poderia orar e pregar sendo que em 1Timóteo 2.12 ele expressamente proíbe esta prática e ordena que as mulheres fiquem "em silêncio"?

Para compreender e destrinchar esta dificuldade, lembremos do glorioso princípio de que a Escritura não pode conter contradição; quer dizer, uma vez que a Igreja invisível (todos os verdadeiros crentes de todos os lugares) de Deus é somente uma e se rege pela mesma Palavra, a Bíblia não poderia ordenar que em determinado lugar as mulheres pregassem e em outro que ficassem caladas - até mesmo logo depois 1Coríntios 14.34 Paulo proíbe as mulheres de falarem na igreja. Assim, deve haver alguma forma de conciliarmos estas duas aparentes contradições.

A maneira mais plausível e que não viola a harmonia bíblica é afirmar que ainda que a mulher não esteja no púlpito e/ou em frente à congregação, ela "participa" (assim como todos os presentes no local) da oração do ministro e quando o servo do Senhor prega a Palavra de Deus ela vai recebendo a mensagem e pregando para si mesma (como todos fazem), confirmando os ensinamentos e rogando ao Senhor para que lhe fale ao coração. Outro viés de entendimento também pode ser delineado a partir de que Paulo não está colocando ênfase na autorização para a mulher orar e pregar em público, mas sim proibindo-as de retirar a cobertura enquanto estiverem no culto público na presença de Deus e dos homens. Enquanto os homens demonstram sua liberdade com a cabeça descoberta, as mulheres demonstram sua submissão cobrindo-se adequadamente. [5]

Ainda uma terceira forma de se entender seria com relação à mulher orar e pregar apenas para mulheres, pois estas coisas juntamente com o expor do evangelho para outras pessoas do mesmo sexo (sem a presença de homens - refiro-me a algum estudo bíblico ou reunião de mulheres) é permitido pelas Escrituras. [6] Contudo, pelo contexto da passagem esta interpretação fica mais difícil de ser sustentada - por isso nos parece ser mais verdadeira a primeira cumulada com a segunda.

6. "Portanto, se a mulher não se cobre com véu, tosquie-se também. Mas, se para a mulher é coisa indecente tosquiar-se ou rapar-se, que ponha o véu" (1Co 11.6).

Quase toda discussão sobre o uso do véu se inicia no versículo anterior e se desdobra na presente sentença. Primeiro, porque alguns titubeiam ante ao real significado; segundo, porque alguns apelam para um suposto contexto cultural que levara Paulo a escrever sobre isso; terceiro, porque baseado no versículo 15 entendem que o véu na verdade é o próprio cabelo. Todavia, infelizmente esta tradução "que ponha o véu" não é benéfica e não facilita o entendimento. Basta abrirmos  algum Novo Testamento grego que veremos que a tradução melhor é "que esteja coberta". A palavra usada é "Katakalupto" (katakaluvptw) e significa justamente "estar coberto, manto/véu coberta de si mesmo". [7]

Olhemos atentamente algumas nuances do presente escrito e deixemos para o entender mais profundamente conforme avançamos na exposição.

Paulo inicia sua frase dizendo "Portanto", isto é, como se dissesse: "ou seja, irmãos, de acordo com o que lhes escrevi até agora". O versículo anterior fala que se a mulher ora ou profetiza com a cabeça descoberta, é como se estivesse rapada. Aqui se verifica, então, o primeiro sinal de que cabelo e véu são coisas distintas, pois uma vez que o apóstolo contrasta "não se cobre com véu, tosquie-se" com "que ponha o véu" (melhor sendo: "que esteja coberta"), não haveria razão (tanto lógica como gramatical e teológica) para supostamente falar da mesma matéria e as opor entre si. Dizendo de outra forma, Paulo não poderia escrever: "Se a mulher ora com a cabeça descoberta, é como se estivesse rapada - por isso deve se cobrir com o cabelo". Este entendimento é confirmado pelo próprio contraste traçado por Paulo no presente versículo, afinal, claramente ele utiliza o chamado "argumento de absurdo", isto é, dizer algo que é impensável e certamente reprovável. Também a própria palavra "Katakalupto" não é a mesma de cabelo, mas sim de algo que cobre, uma cobertura, manto/véu.

Outro ponto de notável importância é que "que ponha o véu" não pode ser substituído por "ponha o cabelo", pois o cabelo não é algo que se coloca e retira - já o véu (a cobertura) possui esta característica.

Notemos que Paulo diz que caso uma mulher não deseje usar o véu, em tese seria a mesma coisa que cortar o seu cabelo (tosquiar é cortar) curto ou estar com a cabeça rapada. Assim, presumindo (o óbvio) que para a mulher ter cabelo curto lhe é vergonhoso - "coisa indecente" -, então deveria usar "o véu" (colocar a cobertura "extra" que é o véu, chapéu...). A Palavra nos deixa clarividente que uma coisa é o cabelo (donde ele retira a menção à tosquiar-se e rapar-se) e outra é o véu (ora, não há como tosquiar um pano como se faz com o cabelo!). A própria palavra traduzida para nós como véu, como vimos logo acima é "Katakalupto" (katakaluvptw) e significa  "estar coberto, manto/véu coberta de si mesmo". Deste modo, Paulo está falando de que a mulher deve usar sua cobertura natural (que é o cabelo), pois para ela o andar de cabelo curto lhe é "coisa indecente".

O motivo de Paulo mencionar que para a mulher o ter cabelo curto lhe é vergonhoso, vem do versículo 15 que diz: "Mas ter a mulher cabelo crescido lhe é honroso" (1Co 11.15). Observemos que Paulo não está supondo que algumas mulheres gostem de cabelo curto e outras não, pois o motivo do cabelo crescido (veremos mais adiante sobre isto) para a mulher é que ele lhe é justamente honroso. Que mulher, então, gostaria de não ter a devida honra dada por Deus? Portanto, se a mulher não usa o véu, ela também rejeita a honra que o Senhor lhe deu.

7. "O homem, pois, não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e glória de Deus, mas a mulher é a glória do homem" (1Co 11.7).

Devemos ter sempre em mente que Paulo trata de duas coisas: a glória e a cobertura que cobre a glória.

O apóstolo passa a complementar o que havia registrado no versículo 4. O motivo pelo qual o homem não deve cobrir a sua cabeça enquanto ora ou profetiza é porque ele "é a imagem e glória de Deus". Quando um homem cobre sua cabeça durante a oração ou pregação (note que Paulo não se dirige apenas ao ministro, mas a todos os homens), ele está desrespeitando o Senhor, porque ele (o homem) "é a imagem e glória de Deus". [8]

É importante frisar que Paulo não transparece em suas palavras algum estado de preocupação para com aqueles que eventualmente não concordariam com este simbolismo e seu respectivo ensinamento. A Palavra do Senhor é enfática ao afirmar que o homem não deve se cobrir durante a oração e a pregação porque é a imagem e glória de Deus. Absolutamente nenhum "conforto" ou argumento é oferecido aos que talvez não concordem com este ponto. A razão para Paulo afirmar tal fato encontra-se registrado no próprio ato da criação: "E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança" (Gn 1.26).

Todavia, o apóstolo vai além e diz que o homem também possui uma glória, uma honra, algo/alguém que lhe seja especial (quer dizer, ele não está somente em posição de submissão): "mas a mulher é a glória do homem". Assim, enquanto o homem é a glória de Deus, a mulher é a glória do homem.

Robert L. Dabney (1820-1898) comenta: "Assim, aquele que se levanta em público como o arauto e representante do Rei dos Céus deve permanecer com a cabeça descoberta; a honra do Soberano por quem ele fala exige isto. Mas nenhuma mulher pode se apresentar em público com a cabeça descoberta sem pecar contra a natureza e contra seu sexo. Portanto nenhuma mulher pode ser um arauto público de Cristo." [9]

8. "Porque o homem não provém da mulher, mas a mulher do homem" (1Co 11.8).

O motivo para a mulher ser glória do homem é baseado na criação, conforme registramos. Paulo jamais argumentou com base na cultura (caso contrário, como já vimos, poder-se-ia ignorar as recomendações sobre a ceia, por exemplo). Paulo não era o ministro da cultura em Corinto para buscar promover algo que já era supostamente praticado (ou não) por mulheres daquela época. Embora para muitos este argumento de Paulo seja "fraco" ou demasiadamente "simples", que se recorde de que estamos diante da Palavra do Altíssimo e, portanto, se foi este o motivo que Deus teve por bem nos revelar, tão somente assim deve ser.

9. "Porque também o homem não foi criado por causa da mulher, mas a mulher por causa do homem" (1Co 11.9).

Já temos visto nos estudos passados que a mulher de maneira alguma é menosprezada ou tratada com menos esmero que o homem. O que ocorre é que a sociedade constituída de pecadores, paulatinamente vai semeando a discórdia nos corações e busca desenfreadamente perverter o papel de cada sexo criado por Deus. O fato de Paulo argumentar que o homem não foi criado por causa da mulher, mas sim ela por causa dele, não é algo "machista" ou tendencioso, pois basta que volvamos nossas Bíblias novamente para o relato da criação que perceberemos cristalinamente o que o próprio Senhor havia dito: "E disse o SENHOR Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele" (Gn 2.18).

Deste modo, os versículos 8 e 9 explicam o porquê do homem não dever orar ou profetizar com a cabeça coberta (escrito no versísculo 7): "Porque o homem não provém da mulher" e "Porque também o homem não foi criado por causa da mulher, mas a mulher por causa do homem".

O reformador João Knox (1514-1572) comenta: "Primeiro, eu digo que a mulher em sua maior perfeição foi feita para servir e obedecer ao homem, não para governar e comandar sobre ele. Como São Paulo explica nestas palavras: 'O homem não é da mulher, mas a mulher do homem. E o homem não foi criado por causa da mulher, mas a mulher por causa do homem e, portanto, a mulher deve ter sobre a sua cabeça um sinal de poderio' (isto é, deve cobrir a cabeça em sinal de submissão)... Crisóstomo, explicando estas palavras do apóstolo, 'O cabeça da mulher é o homem', compara Deus em seu reinado universal a um rei sentado em sua majestade real, a quem todos os seus súditos, ordenados a render-lhe homenagem e obediência, comparecem perante, tendo cada um tal emblema e medalha de dignidade e honra conforme receberam do rei; o que desprezar este emblema e medalha, com isto desonra ao rei. 'Assim sendo', diz ele, 'devem o homem e a mulher comparecerem diante de Deus, levando as insígnias que representam aquilo que receberam do rei. O homem recebeu uma certa glória e dignidade acima da mulher; e, portanto, deve comparecer ante Sua mais alta Majestade portanto o sinal da sua honra, sem cobertura sobre sua cabeça, testemunhando que na Terra não há cabeça sobre o homem … Mas a mulher deve estar coberta, para testemunhar que na Terra ela tem um cabeça, que é o homem'." [10]

10. "Portanto, a mulher deve ter sobre a cabeça sinal de poderio, por causa dos anjos" (1Co 11.10).

Quando nos deparamos com assertivas desta natureza, é mister que não avancemos ou façamos inferências e "deduções" assaz especulativas. Assim, convém que sejamos prudentes e reconheçamos que esta afirmação de Paulo é de difícil compreensão. Todavia, algo que é certo nesta declaração é: a mulher deve ter sobre sua cabeça um sinal de poderio, pois quem governa-a (no bom e dócil sentido da expressão) é o homem.

Podemos aventar algumas possibilidades quanto a "por causa dos anjos":

Francis Turretin (1623-1687) comenta: "O que se diz em 1 Coríntios 11.10 ('deve a mulher, por causa dos anjos, trazer véu na cabeça, como sinal de autoridade') deveras mostra que os anjos estão sempre presentes nas assembléias sacras e são testemunhas da piedade ou da impiedade, da humildade ou da arrogância dos homens presentes (que por isso a mulher deve reverenciar)". [11] Outro ponto é que Paulo escreve é que, aparentemente, os homens irão julgar os anjos: "Não sabeis vós que havemos de julgar os anjos? Quanto mais as coisas pertencentes a esta vida?" (1Co 6.3). Podemos também pontuar que os seres celestiais se cobrem na presença do Senhor: "No ano em que morreu o rei Uzias, eu vi também ao Senhor assentado sobre um alto e sublime trono; e o seu séquito enchia o templo. Serafins estavam por cima dele; cada um tinha seis asas; com duas cobriam os seus rostos, e com duas cobriam os seus pés, e com duas voavam" (Is 6.1-2).

O reformador João Calvino (1509-1564) diz: "São Paulo então continua com o assunto que ele antes iniciou: o qual é, que a mulher deve ter a decência de não vir a reunião pública da Igreja com a cabeça descoberta; e que o homem também deve estar decentemente vestido, de forma que não haja uma bestial confusão. Para confirmar isto, contudo, ele adiciona uma razão a mais. 'Não ensina a natureza que se uma mulher não cobre a cabeça, isto é uma vergonha para ela?', ele diz. Alguém poderia certamente dizer que uma mulher está louca, se ela rapasse o cabelo para vir. Quando ele diz 'seu cabelo é uma cobertura', ele não intenta que enquanto uma mulher tiver cabelo, isto é o suficiente para ela. Antes ele ensina que o nosso Senhor está dando uma orientação que ele deseja que seja observada e mantida. Se uma mulher tem cabelo cumprido, isto deve ser entendido como se dizendo para ela, 'Cubra a sua cabeça, use um chapéu, use um capuz; não se exponha desta forma! O seu cabelo, mesmo quando você está sem chapéu ou capuz, é algo que te cobre. Veja, seria inadequado não ter cabelo algum; seria mesmo contra a natureza. De forma semelhante, estar sem o capuz é inadequado na assembléia.' É desta forma que esta passagem de São Paulo deve ser entendida." [12]

João Bunyan (1628-1688), o autor de "O Peregrino", comenta: "Portanto, a mulher deve ter sobre a cabeça (isto é, uma cobertura) sinal de poderio, por causa dos anjos." (1 Cor 11:10)... 'Parece-me, santas e queridas irmãs, que vocês devem se contentar em usar este poder ou sinal...' [13]

Vejamos o que diz Charles Haddon Spurgeon  (1832-1892) diz sobre o assunto: "Você acha que eu e você temos considerado suficientemente que estamos sempre sendo olhados pelos anjos, e que eles desejam aprender de nós a sabedoria de Deus? A razão pela qual nossas irmãs aparecem na casa de Deus com suas cabeças cobertas é 'por causa dos anjos'. O apóstolo diz que uma mulher deve ter uma cobertura sobre a cabeça por causa dos anjos, uma vez que os anjos estão presentes na assembléia e eles marcam cada ato de indecência, e, portanto tudo é para ser conduzido com decência e ordem na presença dos espíritos angélicos". [14]

Todavia, mesmo diante da dificuldade, algo é muito explícito e notório nas palavras do apóstolo: as mulheres devem se cobrir "por causa dos anjos". O escrever de Paulo, como querem alguns, não é "por causa da cultura", "por causa de Corinto" ou ainda "por causa das prostitutas que rapam suas cabeças". É inegável o padrão que Paulo estabelece, pois uma vez que anjos são criaturas atemporais (não restritos a algum tempo ou agindo de acordo com a cultura), o argumento "cultural" é esplendidamente refutado pelo próprio apóstolo.

Greg Price comenta: "Deve ser evidente a todos que o argumento de Paulo acerca da observância dos anjos no culto cristão não é um argumento a partir da cultura. Anjos não são criaturas culturais nem estão limitados a culturas particulares onde ministram ao povo de Deus ou testemunham/participam da adoração do povo de Deus. Se as mulheres são obrigadas a terem este sinal de submissão aos homens em suas cabeças durante o culto, por causa dos anjos, então essa obrigação é de caráter universal e obrigatório em todas as igrejas de Jesus Cristo até a volta de Cristo." [15]

Portanto, ainda que não entendamos exatamente como os anjos se portam durante o culto e como eles assistem/participam, o que nos é evidente é o fato de Paulo argumentar não em favor ou por causa da cultura, mas sim em virtude de criaturas celestiais e que são fora do tempo e da cultura.

11. "Todavia, nem o homem é sem a mulher, nem a mulher sem o homem, no Senhor" (1Co 11.11).

Nos versículos 8 e 9 o apóstolo argumentou acerca de que o homem não deveria cobrir a cabeça porque na criação o homem havia sido feito por primeiro e a causa da criação da mulher havia sido o próprio homem, pois Deus teve por bem que o homem não estivesse só (Gn 2.18). Neste prisma é que Paulo continua o seu dito, porém, faz uma nova ressalva e afirma que o homem depende da mulher, ela depende dele e, portanto, ambos dependem do Senhor.

12. "Porque, como a mulher provém do homem, assim também o homem provém da mulher, mas tudo vem de Deus" (1Co 11.12).

A fim de responder a futuros argumentos e já deixando pontuado para que homem algum não se insurgisse contra a mulher e pensasse ser mais especial do que ela ou que intentasse a subjugar somente porque havia sido criado primeiramente, Paulo declara que, embora "a mulher provém do homem", no ciclo natural da vida quem gera o homem é a própria mulher - "também o homem provém da mulher". Homem algum pode se orgulhar diante das mulheres, pois se não fossem estas honráveis e preciosas pessoas criadas por Deus, nenhum de nós existiria, pois somente a elas foi dada a graciosidade de dar à luz e continuidade à toda posterioridade.

Deste modo, confirmando que entre o homem e a mulher há paridade diante do Senhor, complementa o apóstolo: "mas tudo vem de Deus". Quer dizer, por um lado há diferença entre homem e mulher e tal fato deve ser representado pelo uso do véu; por outro lado, diante do Senhor, em questão de salvação, santidade, amor de Deus, pecaminosidade, depravação... são exatamente iguais. Em resumo (pois não é o propósito deste estudo se alongar demasiadamente), podemos dizer que Paulo advoga uma diferença e uma igualdade: diferença quanto à criação e autoridade; igualdade quanto à situação do ser humano diante de Deus.

13. "Julgai entre vós mesmos: é decente que a mulher ore a Deus descoberta?" (1Co 11.13).

Muitos leem esta passagem como se Paulo dissesse: "Bem, irmãos de Corinto, o que vocês pensam sobre isso? O que vocês entendem? De acordo com suas convicções, seria prudente a mulher orar descoberta? Digam-me, amados, o que vosso coração diz?" Por que Paulo não poderia ter isto me mente? Quer dizer, a pergunta que temos de fazer é: por que Paulo não poderia estar cogitando uma resposta dos crentes de Corinto?

A resposta é que Paulo não fez a pergunta esperando uma resposta dos irmãos da igreja, mas sim realizou uma pergunta retórica, isto é, aquela que não tem por finalidade ser respondida. De onde retiramos isto? Ora, basta lermos o versículo 5 novamente: "Mas toda a mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta, desonra a sua própria cabeça, porque é como se estivesse rapada". Paulo não poderia iniciar dizendo para os crentes serem imitadores dele assim como ele era de Cristo (v.1), afirmar no versículo 5 que quando a mulher vai até a igreja sem a cabeça coberta traz desonra sobre si (vide o contexto em que os irmãos estavam tendo dificuldades com o culto - os próximo versículos mesmo falam sobre a ceia, que por consequência é realizada no culto), e depois, então, como querem alguns, colocar em dúvida a sua própria palavra! Se assim fosse, era como se Paulo tivesse dito: "Bem, irmãos, lhes apresentei a verdade recebida de Cristo, mas são vocês mesmos quem devem decidir a questão - acham que é correto o que expus?" O apóstolo é Paulo e a autoridade é Paulo, não os irmãos da igreja de Corinto! O mestre era Paulo, não a congregação!

14. "Ou não vos ensina a mesma natureza que é desonra para o homem ter cabelo crescido?" (1Co 11.14).

Atentemos para o fato de que Paulo faz duas perguntas sequenciais e que visam reforçar o que ele já dissera até agora. Como dissemos anteriormente, não faz qualquer sentido o apóstolo afirmar e ensinar uma verdade, para depois questioná-la. Quando o apóstolo faz a pergunta acerca do cabelo crescido ao homem, esta "mesma natureza" não é somente sinônimo de cultura ou natureza criada por Deus, mas sim do que ele havia dito até o momento, ou seja, é como se perguntasse: "segundo o que lhes disse sobre a mulher usar o véu e não cortar o cabelo (tosquiar, rapar), não lhes é claro que, se o homem possui cabelo comprido, isso lhe é desonroso?"

Algo que todo cristão precisa entender é que a cultura e as pessoas nela inseridas não são a fonte do direito divino. A fonte, a matriz, a nascente, o padrão, o norte, a direção, é sempre vinda da palavra de Deus. Assim como em sociedade buscamos nos pautar (ao menos nas bases e coisas certas) pelo que os códigos e as leis nos prescrevem, de igual maneira devemos fazer com relação à Bíblia. Aqui, não estamos levantando a bandeira de sempre interpretar e aplicar as Escrituras de forma literal, mas sim de compreendermos que a cultura da época não pode fazer com que uma passagem perca todo ou quase todo seu significado para nós!

15. "Mas ter a mulher cabelo crescido lhe é honroso, porque o cabelo lhe foi dado em lugar de véu" 1Co 11.15).

Se boa parte da celeuma inicia-se nos versículos 5 e 6, é aqui que ela ganha força e as discussões ficam mais acentuadas. Alguns leem este versículo e dizem que de fato o cabelo foi dado em lugar do véu - portanto, não se deve ou não se precisa mais usá-lo. Outros, contudo, analisam esta sentença à luz de todos os catorze versículos precedentes e concluem que são duas coisas distintas. O problema desta primeira interpretação é que, embora tenhamos em nossa língua a palavra "véu" (que, novamente, significa "cobertura") em ambos os versículos (6 e 15), aqui Paulo não usa a mesma palavra que no versículo 6. A palavra usada neste ponto é "Peribolaion" (peribovlaion) e significa "uma cobertura lançada à volta [de alguém], um invólucro". [16Portanto, ainda que "Katakalupto" e "Peribolaion" signifiquem algo que "cobre, uma cobertura" Paulo não pode estar falando de duas coisas idênticas.

A pergunta, então, é: poderia haver uma única e fiel interpretação? Com o intuito de resolvermos esta questão, dividamos as duas afirmações que Paulo faz.

1. "Mas ter a mulher cabelo crescido lhe é honroso". O primeiro fato a ser analisado é que esta declaração é a resposta do porquê o homem não deve ter cabelo crescido, pois foi somente à mulher que ele foi concedido como uma honra. Mas, por que apenas a mulher recebeu tal honra? Ora, nos é por demais simples a resposta: "O homem, pois, não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e glória de Deus, mas a mulher é a glória do homem" (1Co 11.7 - grifo meu). O motivo para o homem não ter cabelo crescido é o fato de que sua glória é a mulher, enquanto a dela é o cabelo.

Temos, então, o seguinte quadro:

[17]

2. "porque o cabelo lhe foi dado em lugar de véu". O segundo quesito a se analisar é o concernente à questão: poderia o apóstolo defender o uso do véu e depois simplesmente ab-rogar o mesmo e dizer que o cabelo é um substituto real e eficaz?

A disparidade em dizer que o cabelo é o próprio véu, é que em primeiro lugar, mesmo aqueles que assim pensam, não defendem muitas vezes o cabelo crescido pelas mulheres (notemos: Paulo fala em cabelo crescido e não em cabelo longo até a cintura ou até X ou Y lugar - se conclui, portanto, que o cabelo da mulher deve ser distintamente maior que o do homem). Em segundo lugar, se o cabelo foi dado em lugar do véu (cobertura exterior), teremos sérias complicações com relação ao que Paulo ensinou até agora, pois:

Paulo afirma que Deus é a cabeça de Cristo;
- Que Cristo é a cabeça do homem;
- Que o homem é a cabeça da mulher;
- Que o homem é a glória de Deus;
- Que a mulher é a glória do homem;
- Que o cabelo é a honra/glória da mulher;
- Que o homem não deve se cobrir por ser imagem e glória de Deus;
- Que a mulher deve se cobrir porque ela é a glória do homem.

Tendo delimitado estas bases, é simplesmente irracional e contra o padrão estabelecido por Paulo que o cabelo seja a honra/glória (conforme explicado na nota de rodapé [17]) da mulher e ao mesmo tempo seja aquilo que cobre a glória! Ora, ou o cabelo é a glória da mulher, ou é o que cobre a glória do homem - não pode ser ao mesmo tempo positivo e negativo! Se fôssemos demonstrar qual é o resultado de cada cobertura em cada sexo, teríamos o seguinte:

Se o homem e a mulher se cobrem com o véuNinguém fica em evidência/destaque no culto, porque o homem que é a glória de Deus está coberto - logo, Deus não está em proeminência, pois Seu servo está coberto. Com relação à mulher, visto que está coberta e é glória do homem, o homem também não aparece e ela também não, pois somente com o uso do cabelo a mulher estaria cobrindo-se diante do homem, mas sua glória (que é o cabelo) estaria em evidência - então, esta é a razão pela qual ela deve ter tanto o cabelo crescido como o véu (isto é muito importante de se entender!)

Se o homem se cobre e a mulher não: Deus fica "coberto", porque o homem é a Sua glória e ele está coberto. Como a mulher não está coberta com o véu (apenas com o cabelo), quem fica em evidência é ela mesma, pois seu cabelo (sua glória) está descoberta.

Se homem e mulher não se cobrem: Deus fica em evidência, porque o homem que é Sua glória está descoberto e, então, Deus "aparece". Como a mulher está descoberta (sem o véu) e o cabelo é sua glória, então ela também está em evidência.

Se o homem não se cobre e a mulher se cobre: Por o homem ser a glória de Deus, quando ele está descoberto, então Deus fica em evidência. A mulher tendo sua cabeça coberta com o cabelo (que é sua cobertura natural) e o véu por cima do cabelo, então tanto o homem quanto a mulher não aparecem, pois o cabelo da mulher cobre a glória do homem (que é a mulher) e o véu cobre a glória da mulher que é o cabelo.

Em uma tabela para melhor visualização, se traduz no seguinte:



16. "Mas, se alguém quiser ser contencioso, nós não temos tal costume, nem as igrejas de Deus" (1Co 11.16).

Para encerrar o assunto, Paulo adverte os cristãos sobre que esta prática era realizada não por uma, mas sim pelas "igrejas de Deus". Muitos têm argumentado que o apóstolo está se referindo ao uso do cabelo como véu, isto é, de que Paulo jamais tivesse ordenado o uso do véu e de que se alguém desejasse ser contencioso em relação a usar o véu (noutras palavras, se alguém deseja criar intriga e impor o uso do dele), estaria indo contra o costume das igrejas de Deus.

Tal arguição, entretanto, não merece prosperar, pois uma vez que Paulo dedica longos 15 versículos falando justamente da autoridade, das glórias e do véu, em hipótese alguma ele poderia chegar ao final e simplesmente abolir tudo o que construiu! Seria tão absurdo quando se ele dissesse: "Amados, tenho vos ensinado que véu/cobertura é importante e as mulheres devem usar, mas finalizo meu ensino dizendo que não se deve; aliás, se alguém quiser obrigar, saiba que está fazendo errado, pois não temos este costume de usar o véu". Penso que tal aberração não deva sequer ser alvo de demais refutações, tamanha a discrepância entre o texto e o final proposto por tais pessoas.

David Dickson, um puritano escocês (1583-1663) escreveu: "Se alguém não foi movido por estes argumentos, mas contende, o Apóstolo se opõe as suas contenciosas apologias, o costume recebido e estabelecido pelos Judeus e pelo resto das Igrejas: Outras Igrejas não têm tal costume, de que uma mulher deve ser apresentar nas assembléias públicas com suas cabeças descobertas e o homem com sua cabeça coberta. Portanto seu costume não concordando com a decência, quer de acordo com o uso natural, quer de acordo com as igrejas, é totalmente inadequado." [18]

João Cotton (1585-1652) disse: "Como a adoração pública de Deus deve ser ordenada e administrada na igreja? Todos os membros da igreja estando reunidos como um só homem (i) aos olhos de Deus (ii) devem se ajuntar em santos deveres em uma só harmonia (iii) os homens com suas cabeças descobertas e as mulheres com as cabeças cobertas." [19]

O gigante puritano Matthew Henry (1662-1714) comenta: "Era um costume comum nas igrejas as mulheres aparecerem nas assembleias públicas usando véu; e é manifestadamente decente que elas devem fazê-lo. Devem ser muito contenciosos aqueles que brigariam por causa disto ou que colocam este assunto de lado." [20]

Charles Hodge (1797-1878): "Para a mulher em Corinto, portanto, descartar o véu era renunciar sua reivindicação por modéstia e se recusar a reconhecer sua subordinação a seu marido. Essa é a suposição desse significado do uso do véu que o apóstolo usa em todo o seu argumento no presente parágrafo... Como sendo uma ordem divinamente estabelecida, ambos, homem e mulher devem estar de acordo com isso; o homem tendo sua cabeça descoberta e a mulher tendo o véu." [21]

Deste modo, por fim, se resume no seguinte o que vimos: 1. O homem não deve cobrir a cabeça porque é a glória de Deus e Ele precisa estar em proeminência no culto; 2. A mulher deve estar no culto público com as duas coberturas que o Senhor concedeu: o cabelo que lhe foi dado em lugar de véu e, portanto, é para ela uma cobertura natural (o cabelo, então, cobre a mulher); e igualmente deve usar a cobertura externa, pois ela deve cobrir o cabelo, que por vez é a glória da mulher.

Assim, se vê a utilidade e beleza que traduz o véu: cobrir o homem e mulher, e revelar somente a Deus, o único e digno de toda honra, glória e louvor!

Finalizamos, portanto, nosso estudo sobre as atribuições, características, direitos e deveres dos homens e das mulheres. Que possa o Senhor nos fortalecer a cada dia em Sua Palavra e nos levar a ansiar e trabalhar em prol de Seu reino!

"Esforça-te, pois, e esforcemo-nos pelo nosso povo, e pelas cidades de nosso Deus; e faça o SENHOR o que bem parecer aos seus olhos" (2Sm 10.12; 1Cr 19.13).


Notas:
[1] Certamente que cada igreja possui suas peculiaridades como tipo de assento, forma do púlpito, horário do culto, quantos salmos serão cantados e outras coisas mais. Nos referimos aqui é sobre práticas ordenadas pelas Escrituras, e não as chamadas "questões indiferentes".
[2] Para mais detalhes, veja os estudos anteriores.
[3] Não pode se referir primeiramente (note: primeiramente) a desonrar a Cristo, porque no versículo seguinte Paulo fala acerca da mulher e de ela ter o seu cabelo rapado.
[4] Fonte: http://www.biblestudytools.com/lexicons/greek/kjv/akatakaluptos.html
[5] Este é o pensamento de Calvino em seu comentário sobre a passagem.
[6] Já vimos com mais detalhes este assunto nos estudos anteriores.
[7] Fonte: http://www.biblestudytools.com/lexicons/greek/kjv/katakalupto.html
[8] Lembremos de que esta ordem de Paulo sobre o homem estar sem cobertura era até mesmo praticado (embora não com o mesmo sentido) antigamente quando os homens retiravam seus chapéus antes das orações, ou ainda, nos dias atuais, enquanto ocorre alguma solenidade - hino à bandeira, por exemplo - os homens retiram seus chapéus, bonés e afins enquanto o hino é tocado e cantado.
[9] DABNEY, Robert L. Discussions Evangelical and Theological, vol. 2, pp. 98.
[10] KNOX, João - Fonte: http://calvinismoexperimental.blogspot.com/2011/06/mulheres-cubram-suas-cabecas-john-knox.html#comment-form
[11] TURRETINI, François, Compêndio de Teologia Apologética, Volume 1, Ed. Cultura Cristã, pág. 702.
[12] CALVINO, João - Fonte: http://calvinismoexperimental.blogspot.com/2011/06/mulheres-cubram-suas-cabecas-joao.html#comment-form
[13] BUNYAN, João - Fonte: http://www.the-highway.com/headcovering_Silversides.html
[14] SPURGEON, Charles Haddon, sobre Efésios 3:10, Metropolitan Tarbenacle Pulpit, vol. 8, p. 263.
[15] PRICE, Greg, citado em "Glory and Coverings" de Phillip G. Kayser, pág. 22 - tradução livre. Retirado de: http://www.biblicalblueprints.org/wp-content/uploads/2011/01/GloryAndCoverings.pdf
[16] Fonte: http://www.biblestudytools.com/lexicons/greek/kjv/peribolaion.html
[17] Embora em nossas Bíblias tenhamos traduzido que o cabelo "lhe é honroso", no grego original a mesma palavra para honroso é usada em "glória", para dizer que o homem é a "glória de Deus". A palavra é "doxa". Fonte: http://www.biblestudytools.com/lexicons/greek/kjv/doxa.html
[18] DICKSON, David - Commentary on 1 Corinthians 11.16.
[19] COTTON, João - Fonte: http://www.the-highway.com/headcovering_Silversides.html
[20] HENRY, Matthew, Comentário em 1Coríntios.
[21] HODGE, Charles - Fonte: http://godrules.net/library/hodge/34hodge_a12.htm

sábado, 1 de setembro de 2012

8 maneiras proveitosas de ler a Bíblia



1. Comece a ler sua Bíblia hoje mesmo. A maneira de se fazer algo – é fazendo; e a maneira de se ler a Bíblia – é realmente lendo-a! Não é meramente querendo, ou desejando, ou decidindo, ou pretendendo, ou pensando sobre isso – assim você só avançará um passo. Você deve de fato ler. Não há um “caminho dourado” para esse assunto, assim como não há para a oração. Se você não sabe ler, convença alguém a lê-la para você. De uma maneira ou de outra, através dos olhos ou ouvidos – as palavras das Escrituras precisam passar pela sua mente.

2. Leia a Bíblia com um desejo profundo de entendê-la. Não pense, nem por um momento, que a grande questão é virar certa quantidade de papel impresso, sem importar se você entende ou não. Algumas pessoas ignorantes parecem imaginar que se eles avançaram tantos capítulos por dia, sua tarefa está feita, apesar de não terem noção sobre o que foi lido. Só sabem que avançaram o marcador de livros algumas páginas para frente. Isso é transformar a leitura da Bíblia em um mero ritual. Guarde isso na sua mente como um princípio geral: uma Bíblia que não é entendida é uma Bíblia que não faz nada em sua vida! Diga a você mesmo constantemente enquanto você lê, “De que se trata tudo isso?”. Busque o significado como um homem busca por ouro.

3. Leia a Bíblia com a fé e humildade de uma criança. Abra seu coração à medida que você abre o livro de Deus e diga: “Fala, Senhor, pois teu servo está ouvindo!”. Decida implicitamente acreditar em qualquer coisa que você encontre lá, não importa o quanto seja contrário aos seus próprios desejos e preconceitos. Decida receber no coração cada afirmação da verdade, quer você goste ou não. Fique atento àquele hábito miserável no qual alguns leitores da Bíblia caem – eles aceitam algumas doutrinas porque gostam delas, e rejeitam outras porque elas os condenam, ou condenam algum parente ou amigo. Dessa forma, a Bíblia é inútil! Somos juízes sobre o que deve estar na Palavra de Deus? Sabemos melhor do que Deus? Guarde em sua mente: você receberá tudo e crerá em tudo, e aquilo que você não for capaz de entender, você aceitará que é verdade mesmo assim. Lembre, quando você ora, você está falando com Deus, e Deus o ouve. Mas lembre também, quando você lê as Escrituras, Deus está falando com você, e você não deve “ordenar”, mas ouvir!

4. Leia a Bíblia com um espírito de obediência e autoaplicação. Sente para estudá-la com uma determinação diária de que você viverá por suas regras, descansará em suas afirmações e agirá de acordo com seus mandamentos. Considere, à medida que navega por cada capítulo. “Como isso afeta meu pensamento e minha conduta diária? O que essa passagem me ensina?”. É um trabalho pobre ler a Bíblia por mera curiosidade e propósitos especulativos para encher sua mente com meras opiniões, porque você não permite que o livro influencie seu coração e sua vida. A Bíblia que é mais bem lida é aquela que é mais praticada!

5. Leia a Bíblia diariamente. Faça com que a leitura e meditação de algum trecho da Palavra de Deus sejam parte do seu dia a dia. Meios particulares de graça são tão necessários diariamente para nossas almas como alimento e vestimenta são para nossos corpos. O pão de ontem não alimentará o trabalhador hoje; e o pão de hoje não alimentará o trabalhador amanhã. Faça como os Israelitas no deserto. Pegue o seu maná fresco a cada manhã. Escolha a parte do dia e os horários. Não atropele sua leitura, apressadamente. Dê a sua Bíblia a melhor e não a pior parte do seu tempo! Mas qualquer que seja o plano que você use, faça da visita ao trono da graça e a Palavra de Deus uma regra da sua vida para todos os dias.

6. Leia toda a Bíblia – e a leia de uma maneira ordenada. Temo que haja muitas partes da Palavra que algumas pessoas nunca lêem. Para dizer o mínimo, isso é um hábito muito presunçoso. “Toda a Escritura é útil” (2 Timóteo 3.16). Esse hábito é o causador da falta de uma visão balanceada da verdade, tão comum hoje em dia. Algumas pessoas lêem a Bíblia como um perpétuo sistema de “mergulhar e pegar”, como aperitivos. Eles parecem desconsiderar a possibilidade de avançar regularmente por todo o Livro.

7. Leia a Bíblia de forma justa e honesta. Decida considerar tudo em seu significado claro, óbvio, e considere com muita suspeita todas as interpretações forçadas. Como uma regra geral, o que um verso da Bíblia parece significar – é o que ele significa! Uma regra bastante valiosa é: “A maneira correta de se interpretar a Escritura é considerá-la como a encontramos, sem nenhuma tentativa de forçá-la a um sistema teológico particular.”

8. Leia a Bíblia com Cristo continuamente em perspectiva. O grande e primário objeto de toda a Escritura é testificar sobre Jesus! As cerimônias do Antigo Testamento são sombras de Cristo. Os juízes do Antigo Testamento são tipos de Cristo. As profecias do Antigo Testamento estão cheias dos sofrimentos de Cristo e de Sua Glória ainda porvir. A primeira e a segunda vinda, a humilhação do Senhor e Seu reino glorioso, Sua cruz e sua coroa brilham intensamente em toda a Bíblia. Segure-se firme nisso, e você lerá a Bíblia corretamente.

Eu poderia facilmente adicionar mais dicas, se mais espaço fosse permitido. Apesar de poucas e curtas, você perceberá que elas são mais proveitosas quando postas em prática.

Por J. C Ryle
Fonte: iPródigo

O culto online e a tentação do Diabo

Você conhece o plano de fundo deste texto olhando no retrovisor da história recente: pandemia, COVID-19... todos em casa e você se dá conta ...