terça-feira, 7 de agosto de 2012

Efésios 1.22-23 - O Constituiu Como Cabeça da Igreja - Exposição em Efésios - Sermão pregado dia 05.08.2012


Efésios 1.22-23 - O Constituiu Como Cabeça da Igreja
Exposição em Efésios - 
Sermão pregado dia 05.08.2012

"E sujeitou todas as coisas a seus pés, e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja, Que é o seu corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todos" (Ef 1.22-23).

Sendo nosso Senhor Jesus Cristo constituído como soberano de todas as coisas, reinante e triunfante acima de todos os poderes, tanto da terra como do céu, importava que também fosse elevado acima de todos os Seus filhos. Embora tenhamos visto anteriormente de que somos como que irmãos do Salvador, não devemos esquecer de que Ele possui a primazia e sob Ele está fundado todo o Reino (Mc 12.10). Isto é mister de nossa atenção, pois uma vez que está exaltado acima de todo o nome (Fp 2.9), é tido como o cabeça da igreja - mas não de modo superficial, e sim eficaz, pois ela é "o seu corpo", demonstrando que não possui domínio ao longe ou a observa levianamente, mas sim uma vez que ela é parte integrante de seu Seu ser, nela é cumprida "a plenitude" que Ele "cumpre... em todos"

1. "E sujeitou todas as coisas a seus pés"

A figura dos pés como representando o poder de Cristo já era anunciada deste os tempos primórdios, quando ainda à mãe das nações foi dito: "E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar" (Gn 3.15). O apóstolo nos deixa claro que sob os pés do Senhor todas as coisas estão sujeitas. Nada há terra, no ar ou ainda noutro lugar que não seja firmemente controlado e estabelecido pelo Soberano. Isto precisa ser grande verdade na vida de todos os cristãos, pois uma vez que de Cristo é dito que descendemos (Ef 1.5), então é necessário que compreendamos que Ele também é soberanamente poderoso e cuja mão é forte (Dt 26.8; Sl 89.13; Jr 31.11...) para nos livrar de todas as mazelas do pecado e conduzir-nos firmemente à cidade celestial.

Escrevendo aos romanos, Paulo diz que "Porque está escrito: Como eu vivo, diz o Senhor, que todo o joelho se dobrará a mim, E toda a língua confessará a Deus" (Rm 14.11; cf. Is 45.23). Embora o primeiro casal tenha sido criado pouco menor que os anjos e toda a criação estivesse sob seu domínio (Sl 8.5-6), o pecado lhes tirou  de seu estado de glória e fez como que morressem em seu delitos e pecados (Ef 2.1) e carecessem da glória do Senhor (Rm 3.23). Assim, Cristo necessariamente possui absolutamente toda a criação sob Seu domínio, não porque antes não a tivesse, mas sim para demonstrar a graciosidade do Senhor para com Seus filhos, de modo que ainda que o homem não pudesse exercer tal mandato, Ele a regeria soberanamente.

Notemos como o Senhor é longânimo para conosco (2Pe 3.9) e nos trata com benignidade mui superior àqueles anjos que caíram de seu estado de perfeição. O apóstolo escreve dizendo: "Porque, se Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas, havendo-os lançado no inferno, os entregou às cadeias da escuridão, ficando reservados para o juízo" (2Pe 2.4). Todavia, assim acontecerá com os retos de coração e que buscam a Verdade eterna? Certamente que não, pois ele mesmo pronuncia: "Assim, sabe o Senhor livrar da tentação os piedosos, e reservar os injustos para o dia do juízo, para serem castigados" (2Pe 2.9). Que grande graça que possuímos! Magnífica e bendita misericórdia nos acude neste santo dia! Embora os anjos não tenham tido vez para o arrependimento, o Senhor se põem a revelar-nos que Ele livra "da tentação os piedosos". Ademais, acrescenta dizendo: "Não veio sobre vós tentação, senão humana; mas fiel é Deus, que não vos deixará tentar acima do que podeis, antes com a tentação dará também o escape, para que a possais suportar" (1Co 10.13). Ainda que seja verdade que muitas vezes tropeçamos e caímos no lamaçal imundo, o Senhor nos alenta ao dizer que "é longânimo para conosco" (2Pe 3.9). Sim! Embora a cão volte ao vômito e a porca à lama (2Pe 2.22), os filhos do Senhor são diferentes, pois possuem longanimidade daquele que é o "cabeça da igreja", não desejando que nenhum se perca, "senão que todos venham a arrepender-se" (2Pe 3.9).

Isto deve ser cravado profundamente em nossos corações, pois mesmo sendo o Altíssimo mais poderoso do que qualquer exército humano - não é sem motivo que Ele inúmeras vezes se pronuncia como sendo o Senhor dos Exércitos (1Sm 17.45; 2Sm 5.10; 1Rs 18.15; 2Rs 19.31; 1Cr 11.9...) - e acima de todo poder e potestade (Ef 1.21) continuamente leva Seus filhos a perseverarem na fé e os guia firmemente até os palácios celestiais da vida porvir. 

Todavia, que não nos esqueçamos de que os inimigos também estão sob os Seus pés. Enquanto os filhos de Deus estão sob os Seus pés o adorando, os ímpios estão a sentir Sua ira que não é branda. Não somente agora estes sentem o desprezo do Senhor, mas virá ainda um tempo onde por toda uma eternidade o que terão será apenas dor e ranger de dentes (Mt 8.12) e cujo lugar será de terríveis trevas, "Onde o seu bicho não morre, e o fogo nunca se apaga" (Mc 9.44, 46, 48). A palavra usada por Cristo para "bicho", no grego é "skolex" (skwvlhx) e nos comunica sobre um tipo de verme que consume os cadáveres e vai consumindo os corpos mortos. Há que se notar a ênfase dada pelo Senhor: no inferno, este verme não morre. Oh! Que terríveis dias serão aqueles! Profundas trevas se abaterão todos os que rejeitaram o conhecimento de Deus (Os 4.6)! Desde os mais ricos desta terra até os mais necessitados - todos que não estiverem cobertos com o sangue de Cristo (Ap 7.14) serão juntados e queimados no fogo que nunca se apagará (Mt 3.12).

Os cristãos devem se apegar firmemente a este ensinamento, pois não é sem motivo que o Senhor nos declara que todas as coisas estão debaixo de Sua soberania. Ainda que no tempo presente possamos ser assolados de inúmeras maneiras e a terra pareça estar sob completa inundação do pecado, tal qual a pomba enviada por Noé e que retornou com uma folha de oliveira em seu bico (Gn 8.11), assim também o Senhor nos sustenta em meio às tempestades e vicissitudes da vida. "Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados. Perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos" (2Co 4.8-9). Pela graça do Senhor, mesmo que "que a terra se mude, e ainda que os montes se transportem para o meio dos mares. Ainda que as águas rujam e se perturbem, ainda que os montes se abalem pela sua braveza... O SENHOR dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio. (Selá.)" (Sl 46.2-3, 7).

É salutar, então, que compreendamos que acima de toda força política, bélica, viril ou qualquer outro poder, "O SENHOR reina; tremam os povos. Ele está assentado entre os querubins; comova-se a terra" (Sl 99.1). Deste modo, podemos confiar que até em meio às tribulações e o pecado que tão ferozmente nos acedia (Hb 12.1), "resta ainda um repouso para o povo de Deus" (Hb 4.9).

2. "e sobre todas as coisas o constituiu como cabeça da igreja"

Agora é preciso atentar para o fato de que o Senhor não somente é soberano sobre as coisas criadas, como a natureza e os homens, mas igualmente é o detentor do cetro de justiça que governa majestosamente Sua própria Igreja. Não é sem motivo que o apóstolo insta a igreja de Éfeso para que entenda plenamente de que embora eles sejam parte da Igreja do Senhor, não devem ir além do que o Senhor ordenou - "Tudo o que eu te ordeno, observarás para fazer; nada lhe acrescentarás nem diminuirás" (Dt 12.32). Este registro feito por Moisés só possui validade para os cristãos se eles reconhecem que verdadeiramente Cristo é o cabeça da Igreja. Falando de modo outro, a Igreja do Senhor é um povo do Livro que é eterno e imutável. Mesmo que as mais diferentes filosofias mundanas desejem adentrar às portas da santa igreja, os crentes  sempre devem bradar: "seja anátema" (Gl 1.9)!

Há algumas implicações de Cristo ser o cabeça da Igreja:

Em primeiro lugar, as Escrituras descrevem o Senhor como aquele que não pode mentir (Tt 1.2) e cuja excelsa sabedoria não pode mudar (Tg 1.17). Diferente de nossas cabeças que muitas vezes são levadas como as ondas do mar e titubeamos diante das situações, o Artífice é exaltado acima de toda a criação (Sl 2.8). Em segundo lugar, é descrito como estando acima de todo o corpo. Observemos atentamente e reconheçamos nossa pequenez diante do cérebro controlador de todas as coisas. Tudo, de uma forma ou de outra, é sentido, analisado, rejeitado ou fortalecido pela cabeça. Nela estão os olhos que as costas não possuem, a boca que os braços não têm, o nariz que os joelhos desejam e os ouvidos que os pés não conhecem. Assim como toda entrada e percepção de conhecimento está nesta parte do corpo, igualmente o Senhor é o Supremo sobre Sua igreja. Em terceiro lugar, por deter o domínio sobre o corpo, o Senhor o organizou da melhor e mais perfeita maneira que pudesse ser feita: "Deus colocou os membros no corpo, cada um deles como quis" (1Co 12.18). Deste modo se depreende que precisamos entender que a Igreja de Cristo deve ser controlada por Ele mesmo - homens que buscam monopolizar e encampar para si as honras e louvores, no juízo final ouvirão diretamente d'Aquele que supostamente servirão: "Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade" (Mt 7.23). Em quarto lugar, sendo verdadeiro que o Senhor é soberano e que nossas Bíblias são a Palavra viva, então é eficaz nos relembrarmos de que somente a Escritura é nosso padrão de fé e de conduta. Alguém afirmar que cada um possui uma fé diferente é ir diretamente contra o ensino bíblico que diz: "E temos, portanto, o mesmo espírito de fé, como está escrito: Cri, por isso falei; nós cremos também, por isso também falamos" (2Co 4.13; Ef 4.5). Por fim, em quinto lugar, tendo Cristo a posição de destaque no corpo, sem constrangimento algum Ele reina soberano sobre o próprio corpo, retendo aqueles que são compatíveis com o sistema corporal e rejeitando os que não desejam construir suas casas sobre a rocha, mas sim sobre a areia (Mt 7.26).

Este último ponto nos clareia o porquê do inferno e da punição ser necessária, pois haja vista que Deus é santo e não pode suportar o pecado em Sua presença (Sl 5.4), é imprescindível que Ele condene os homens que se dobram diante de outros deuses e seguem suas próprias vontades - "Porque os tais não servem a nosso Senhor Jesus Cristo, mas ao seu ventre" (Rm 16.18). Destarte, a Igreja do Senhor é também incumbida de admitir os piedosos e excluir os impenitentes da santa assembléia dos santos - "e, se também não escutar a igreja, considera-o como um gentio e publicano" (Mt 18.17). Fortes e duras palavras! Certamente que a Igreja de Cristo deve receber toda sorte de homens ímpios para dentro de seu seio, contudo, tais homens para lá vão a fim de serem transformados pelo Evangelho. Este é o motivo para Paulo acrescentar o terceiro ponto:

3. "Que é o seu corpo" 

Aquele que brinca de ser parte do povo de Deus, crê que a santa Igreja é uma organização em prol do "eu" e se diverte às custas do Senhor dos Exércitos, deve ser avisado de que de inopino surgirá o cetro de equidade que esmigalhará todos os Seus inimigos (Sl 2.9). Por isto, não é inutilmente que lemos: "E, vendo ele muitos dos fariseus e dos saduceus, que vinham ao seu batismo, dizia-lhes: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira futura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento; E não presumais, de vós mesmos, dizendo: Temos por pai a Abraão; porque eu vos digo que, mesmo destas pedras, Deus pode suscitar filhos a Abraão" (Mt 3.7-9). Assim como aqueles homens estavam seguros em si mesmos por serem descendentes de Abraão, muitos hoje se assentavam confortavelmente nos bancos da vida cristã e tranquilamente ignoram toda palavra e exortação para que fujam "da ira futura". 

A Escritura é demasiadamente firme e específica em dizer: "não presumais, de vós mesmos". Isto significa dizer que uma vez que Cristo é o cabeça da igreja que é o seu corpo, ninguém deveria julgar a si mesmo mediante sua própria consciência, pois "Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá" (Jr 17.9). Tendo por certo que a Igreja é, como dizem as Sagradas Letras, "seu corpo", todo professo da fé cristã deveria de fato levar mais a sério as palavras que dizem: "operai a vossa salvação com temor e tremor" (Fp 2.12). Assim como um câncer é submetido aos mais rígidos tratamentos e posteriormente eliminado do corpo, de modo semelhante acontecerá com todo o que se achega ao trono da graça de modo frugal e leviano.

O próprio apóstolo Paulo testifica sobre isto quando diz: "Porque nós somos cooperadores de Deus; vós sois lavoura de Deus e edifício de Deus" (1Co 3.9; Ef 2.22). Pontuemos por um momento que grande bênção é essa que possuímos: cooperarmos com a obra do Senhor! Não que Ele precise de nós (Gn 1.1), mas sim que nos fez partícipes de Seu reino celestial, de modo que humildemente nos rendemos aos Seus pés e reconhecemos que uma vez firmados à oliveira verdadeira (Rm 11), devemos dar os bons frutos do corpo de Cristo, afinal, "Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons" (Mt 7.18).

Sendo a Igreja o corpo do Senhor, é preciso que ela sempre recorra à cabeça para saber o que precisa fazer e de que forma deve executar Suas ordens. Um membro como o pé não pode e sequer consegue desejar ir em caminhos contrários ao que a cabeça determina - assim também é todo o guiado por Deus: "O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito" (Jo 3.8). Tal qual o vento leva as folhas por lugares que elas mesmas desconhecem, igualmente o Senhor trabalha em Seu próprio corpo de maneira que ele cresça saudável e seja encontrado no último dia puro, conforme lemos: "Para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível" (Ef 5.27).

4. "a plenitude daquele que cumpre tudo em todos"

Sendo, portanto, onipotente sobre todas as coisas, o apóstolo acrescenta algo de muitíssima importância: Ele "cumpre tudo em todos". Um professo da fé cristã que não experimenta uma nova vida e uma mudança de mente (Rm 12.2), deve desnudar seu coração diante da Palavra para que esta quebre seu o coração de pedra daquele e dê nova vida e pulso vivo (Ez 11.19).

Paulo é enfático ao afirmar que Cristo de fato cumpre os Seus veredictos santos e abençoadores na vida de todo o Seu povo. Tornar-se parte da Igreja de Cristo é o maior e mais sublime privilégio que alguém pode galgar nesta terra. Isto também precisa ser verdade, pois se anteriormente lemos que Jesus está acima de "todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro" (Ef 1.21), então Ele é poderoso para cumprir em nós a Sua vontade. As Escrituras também nos revelam isto em outro lugar: "Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade" (Fp 2.13). Igualmente é necessário frisar que Ele não trata Sua Igreja com descaso ou a deixa sofrer os percalços, pois o próprio texto sagrado nos diz que a Igreja é "a plenitude" do Senhor.

Isto nos ensina que uma vez estando agasalhados na santa Igreja de Cristo, nos reunimos debaixo de Suas protetores asas (Mt 23.37) e somos guiados na perseverança de Seu poder que atua eficazmente em todos os Seus eleitos. "Ora, àquele que é poderoso para fazer tudo muito mais abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos, segundo o poder que em nós opera, A esse glória na igreja, por Jesus Cristo, em todas as gerações, para todo o sempre. Amém" (Ef 3.20-21).

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Série: Homem e Mulher os criou - parte 19 - Homem e Mulher após a Queda - A Modéstia no Vestir - (Introdução e as vestes dadas pelo Senhor) - Sermão pregado dia 05.08.2012



Série: Homem e Mulher os criou - parte 19 -
Homem e Mulher após a Queda – A Modéstia no Vestir 
(Introdução e as vestes dadas pelo Senhor)
Sermão pregado dia 05.08.2012


Este estudo bíblico foi gravado em vídeo - para assistir, clique no link: 
http://twitcam.livestream.com/bebx6
(clique em Skip this ad now para pular a propaganda)
(antes do estudo há a leitura do Salmo 64 e alguns comentários pertinentes)

Tendo em vista que a modéstia cristã no vestir-se inicia não no exterior, e sim no interior do ser humano ("Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias" (Mt 15.19) - observemos que Cristo não diz que "das roupas procedem os maus pensamentos", mas sim do coração), é necessário ainda fazer alguns apontamentos extras.

Em primeiro lugar, todo cristão verdadeiro reconhece que "Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra" (2Tm 3.16-17). Isto implica em dizer que ele reconhece que a Bíblia, no mínimo deve lhe fornecer padrões sobre absolutamente todas as coisas existentes na terra - não que ela possua literalmente cada situação descrita, mas, por exemplo, nos ensina sobre que ao construir uma moradia, devemos cuidar para a fazermos segura (Dt 22.8); quando andarmos por e para algum lugar (tanto em doutrina como fisicamente), devemos lembrar de andar na velocidade que os mais fracos possam acompanhar (Gn 33.14). Em segundo lugar, o cristão sincero irá reconhecer que a Bíblia não é legalista (no sentido ruim da palavra) em suas ordens acerca de todos os assuntos. O cristão sabe que a ética, moral e pressupostos bíblicos são quase sempre opostos a tudo que vemos na sociedade, todavia, isto nunca o leva a afirmar que a Palavra seja ultrapassada ou que seja um mero ajuntado de leis morais e vazias, como que supostamente não desejando que homem e mulher pudessem ter certas alegrias e regozijos neste mundo. Em terceiro lugar, por já termos fixado que o problema principal é o pecado do ser humano, o cristão devoto ao Senhor irá reconhecer que todas as vezes que achar alguma doutrina "difícil" ou de dura aplicação em sua vida e por isto não as conseguir compreender e/ou aplicar imediatamente, fará como a frase atribuída a John Newton que disse: "Atribuirei todas as aparentes incoerências da Bíblia à minha própria ignorância." Assim sendo, então resumimos que o autêntico filho de Deus reconhece: 1. A suficiência das Escrituras; 2. Procura nela toda a base para suas respostas e aplicações; 3. Compreende que toda dificuldade que tem de entender a aplicar a Bíblia, não provém de erro da Palavra, mas sim de seu coração enganoso e perverso.

Conforme pontuamos nos estudos anteriores, há uma claríssima (ou deveria haver) diferença entre o ser masculino e o feminino. Sendo isto verdade no tocante à família, sociedade e igreja, é mister a compreensão de que também haja uma distinção no portar-se de cada sexo. Na verdade, a própria natureza (criada por Deus) nos ensina esta distinção, como a diferença de altura entre homem e mulher (geralmente os homens são mais altos), o tom da voz, pêlos no corpo, força, memória, capacidade de fazer mais coisas de uma só vez... cada qual possuindo as atribuições que o Senhor conferiu. Estas diferenças devem sempre ser relembradas, pois uma vez que nosso Deus é ordeiro e age com solenidade em tudo o que faz (vide desde a criação, a distinção das plantas, dos animais, dos corpos celestes...), igualmente Ele nos legou Sua revelação (a Bíblia) para que por ela fossemos regulados e instruídos em nosso viver.

Entendendo o que queremos dizer com a palavra "modéstia"

De pronto já deixemos estabelecido que modéstia não significa se vestir de forma feia e alheia a este mundo, mas sim implica em um viver não luxuoso, não sensual, não provocador. O viver do homem e da mulher do Senhor deve ser simples, honroso, discreto e santo (como veremos no restante do estudo). Todavia, este tipo de abordagem tem gerado toda sorte de confusão e intriga entre os professos da fé cristã, pois muitíssimos (infelizmente) ainda pensam como o mundo, por nunca terem tido suas mentes verdadeiramente transformadas pelo evangelho - "E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus" (Rm 12.2). Assinalemos também e entendamos que modéstia não significa se vestir como nos séculos passados; porém, igualmente não se traduz em dizer que ignoraremos a prudência que muitas daquelas roupas representavam.

Nosso Senhor Jesus já deixou o salutar e precioso alerta sobre o grande pecado em que incorrem aqueles que levam outros a tropeçarem por suas doutrinas, atos, e, por que não, modos de se vestirem: "Mas, qualquer que escandalizar um destes pequeninos, que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de azenha, e se submergisse na profundeza do mar. Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é mister que venham escândalos, mas ai daquele homem por quem o escândalo vem! Portanto, se a tua mão ou o teu pé te escandalizar, corta-o, e atira-o para longe de ti; melhor te é entrar na vida coxo, ou aleijado, do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno. E, se o teu olho te escandalizar, arranca-o, e atira-o para longe de ti; melhor te é entrar na vida com um só olho, do que, tendo dois olhos, seres lançado no fogo do inferno" (Mt 18.6-9). Basta ler os versículos anteriores e se perceberá que os pequeninos são os cristãos. Cristo enfatiza que sempre haverão pessoas sendo pedra de tropeço - "porque é mister que venham escândalos". Contudo, "ai daquele homem por quem o escândalo vem!" Para a Santa palavra de Deus, levar um irmão ou irmã a pecar é algo digno de morte - "melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de azenha, e se submergisse na profundeza do mar". Duras palavras, meus amados! Isto, por si só, dever-nos-ia causar extremo espanto e desconforto em nossos corações, levando cada um a perscrutar se já se tornou ou se fez conscientemente pedra de tropeço por seu modo de andar, falar e vestir - homens com camisetas muito colocadas ao corpo, usando "regatas" apenas para aparecer às garotas e se orgulharem diante dos outros homens, short's muito curtos, calças caindo ou muito apertadas, andando sem camiseta em lugares públicos... mulheres com seus decotes na frente e atrás, calças justíssimas e que colam ao corpo, vestidos e saias curtas, short's minúsculos, penteados chamativos e toda sorte de ouro, joia e bijuteria que brilha. Todas estas coisas, embora a grandiosa maioria não saiba, são contra as Escrituras e afrontam a santidade de Deus.

Iniciemos, pois, a verificar de onde se extrai os subsídios (bases) para se afirmar o que dissemos acima.

A Queda e a vestimenta dada pelo Senhor

Observemos o primeiro ato após a queda: "Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram [costuraram] folhas de figueira, e fizeram para si aventais" (Gn 3.7). Por certo que nenhum de nós pode conhecer com exatidão a forma, tamanho e formato do avental feito pelos primeiros pais, entretanto, a palavra hebraica para "aventais" é "Chagowr" (rwgx) e significa "cinto, lombo de cobertura, tanga, armadura". [1] Que tipo de roupa era esta fica mais evidente quando contrastamos com a fornecida pelo Senhor: "E fez o SENHOR Deus a Adão e à sua mulher túnicas de peles, e os vestiu" (Gn 3.21). A palavra "túnicas" em hebraico é "Kethoneth" (tntk) e significa "túnica, uma longa veste'. [2] Notemos, então, que há uma grande diferença entre uma "tanga" e uma "longa veste".

Há duas funções principais de uma longa veste: esconder a pele e não revelar a forma do corpo. Isto é evidente até mesmo em nossos dias, pois basta olhar para uma mulher de vestido longo e não justo, que se percebe que aquela vestimenta não marca as "curvas" do corpo como outras roupas. Olhando para tal pessoa, não conseguimos saber qual o grossura de suas pernas, por exemplo - esta é a função da longa veste. Este é um ponto importante para se compreender a modéstia, pois a vestimenta, para a Bíblia, se tornou sinônimo de cobrir a vergonha e não de beleza (ainda que a roupa não seja inerentemente má, pois como visto em vários lugares das Escrituras, a roupa é também usada para distinguir, por exemplo, um rei de um súdito)! Após a queda os homens não se cobrem mais para serem bonitos ou chamarem a atenção, mas sim para esconderem sua nudez! Ora, não é isto que fazemos ao sair de casa? Qual é a razão para que não andemos nus por nossas cidades? Certo estou de que é por reconhecermos que a nudez é má e contrária à civilidade e ao Senhor. Certamente que isto não significa que devemos nos vestir da pior maneira que conseguirmos (para mostrarmos que somos modestos), mas sim que devemos entender o porquê de haverem vestes: para esconder a nudez. O Senhor Deus não foi um costureiro ou doador de roupas, mas sendo o Soberano e regente de toda a criação, então algo Ele estava a comunicar por meio da túnica.

Neste ponto, os opositores da modéstia irão afirmar que esta descrição bíblica da túnica, ou não tem coisa alguma para nos comunicar, ou que era parte da cultura, ou zombarão e dirão que se deve, então, voltar a usar túnicas tais quais as usadas pelos primeiros pais, a saber, "túnicas de peles". Contudo, se refuta facilmente estas objeções, pois se a narrativa bíblica não contém algo para nos ensinar neste aspecto, por que teria em algum outro qualquer? O que define, então, o que é proveitoso e não é? Quanto à cultura ser outra, que se relembre que a narrativa se passa no belo e glorioso jardim, portanto, se assim podemos dizer, em um lugar "neutro", pois Adão e Eva ainda não haviam sido expulsos do Éden. Quanto a se ter de utilizar túnicas feitas literalmente de animais, que se recorde que a Bíblia não se encerra nesta narrativa, fazendo que com que absolutamente qualquer pessoa racional consiga ler o restante das Escrituras e perceba que há muitos outros tipos de tecidos e panos de cobertura que se usavam (cf. Êx 39.27; Lv 16.4; Dt 22.11; Pv 31.22).

Antes de avançarmos às demais explicações, que a Palavra de Deus, "mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração" (Hb 4.12), possa ser nosso guia por meio do Espírito Santo e fale aos nossos corações sobre quantas foram as vezes que no passado ou presente usamos roupas que não condizem com este pequeno apontamento que fizemos: roupas longas, que não marcam o corpo e escondem a forma dele. Que olhemos para a roupa natural que o homem perverso deseja fazer e usar (curta e apertada como o avental de folhas) e a comparemos com a túnica feita pelo Senhor (longa e não apertada). O motivo de muitas fornicações e adultérios é certamente o coração vil e pecador, porém muitíssimas são as roupas (de ambos os sexos) de hoje que são como que forjadas diretamente nas fábricas diabólicas e demoníacas de Satanás. Homens têm ido à igreja (e ido a todos os lugares) com roupas que tem apenas um objetivo: chamar a atenção - ou para à grife ou para seus próprios corpos. Mulheres têm se vestido como nunca se imaginou em toda a história humana e jamais foi sequer pensado por uma filha do Senhor nos tempos passados.

Infelizmente, os seres humanos se esquecerem de que o pecado corrompeu até mesmo as vestimentas e a prudência ao usá-las. Muitos professos da fé cristã se esqueceram dos ditos de Paulo: "Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus. Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de Deus" (1Co 10.31-32). A Palavra é certeira ao dizer que todas as coisas devem ser feitas para a glória de Deus - e isto inclui a modéstia cristã. A visão de João nos revela: "Aconselho-te que de mim compres ouro provado no fogo, para que te enriqueças; e roupas brancas, para que te vistas, e não apareça a vergonha da tua nudez; e que unjas os teus olhos com colírio, para que vejas" (Ap 3.18).

Quem, ó irmãos, iria desejar não seguir este conselho? Quem de nós gostaria de perecer nas profundezas do inferno por causa de termos nossas vergonhas e nudez à vista de todos?! "E foram dadas a cada um compridas vestes brancas e foi-lhes dito que repousassem ainda um pouco de tempo, até que também se completasse o número de seus conservos e seus irmãos, que haviam de ser mortos como eles foram" (Ap 6.11). O que aí está escrito? "E foram dadas vestes curtas, calções curtos, vestidos e mini-saiais"? Mas é claro que não! Foram dadas "compridas vestes", tipificando assim a completa justiça de que seríamos revestidos e tais seriam "brancas", demonstrando a santidade (o que enfatizamos é a alusão às compridas vestes, igualmente como nossos primeiros pais receberam). Não bastasse isto já ser suficiente, ainda lemos: "Eis que venho como ladrão. Bem-aventurado aquele que vigia, e guarda as suas roupas, para que não ande nu, e não se vejam as suas vergonhas" (Ap 16.15). Certamente que ninguém será condenado pela mera vestimenta, todavia, as Escrituras afirmam que o nosso exterior reflete o interior e por isto a condenação não tem como fato fundante a roupa, mas sim o coração.

Isto tudo, de modo algum poderia ser chamado de legalismo, pois Paulo nos diz: "Ora, o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade" (2Co 3.17). De qual liberdade Paulo está falando? Basta ver os dois versículos anteriores: "E até hoje, quando é lido Moisés, o véu está posto sobre o coração deles. Mas, quando se converterem ao Senhor, então o véu se tirará" (2Co 3.15-16). O apóstolo está dizendo que por causa do "véu" que cobre os corações endurecidos (o pecado), os homens não conseguem enxergar ao Senhor, todavia, "quando se converterem ao Senhor, então o véu se tirará". Em outras palavras, quando são convertidos, então passam a compreender as coisas celestiais, o mistério de Cristo lhes é revelado (Ef 1.9), e, então, possuem liberdade para ir até Ele! O texto nada está falando sobre a liberdade para os cristãos fazerem o que bem entenderem, mas sim dizendo que anteriormente eram escravos do pecado e por isto não conseguiam ir até Cristo; entretanto, uma vez que o véu que lhes impedia de ver o Senhor foi retirado de seus corações, agora podem livremente ter acesso ao Senhor. A liberdade que Paulo fala é que os cristãos agora podem obedecer ao Senhor, pois já não são mais escravos da velha vida: "Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo" (2Co 5.17).

"Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, mas como sábios, Remindo o tempo; porquanto os dias são maus. Por isso não sejais insensatos, mas entendei qual seja a vontade do Senhor" (Ef 5.15-17).

Nota:
[2] Fonte: http://www.biblestudytools.com/lexicons/hebrew/kjv/showq.html - acessado dia 10.07.2012.

domingo, 5 de agosto de 2012

Como Saber se Você é um Cristão de Verdade (parte 3/3)


Uma Verdadeira Experiência Espiritual Transforma o Coração

Agora nós chegamos a questão: Se todas essas várias experiências e sentimentos provêm de nada além do que aos demônios é possível, quais os tipos de experiências que são verdadeiramente espirituais e santas? O que eu devo encontrar no meu coração como uma prova segura de que a graça de Deus está lá? Quais as diferenças que as mostram como sendo do Espírito Santo? Esta é a resposta: Os sentimentos e experiências que se mostram como um bom sinal da graça de Deus no coração, diferem das experiências dos demônios em sua origem e em seus resultados. Sua fonte é o senso da irresistível santidade, beleza e amabilidade das coisas de Deus. Quando uma pessoa agarra em sua mente, ou, melhor ainda, quando ela sente seu próprio coração mantido em cativeiro pela atratividade do Divino, este é um sinal inconfundível de que Deus está trabalhando. Os demônios e os condenados no inferno não experimentam agora, nem jamais experimentarão um pouquinho sequer disso. Antes de sua queda, os demônios possuíam esse sentimento sobre Deus, mas em sua queda, eles o perderam, a única coisa que eles poderiam perder de seu conhecimento sobre Deus. Temos visto como os demônios têm idéias muito claras acerca de quão poderoso Deus é, Sua justiça, santidade e assim por diante. Eles conhecem um monte de fatos sobre Deus. Mas agora eles não têm um vestígio sobre como Deus é. Eles não podem saber como Deus é mais do que um homem cego pode saber sobre cores! Demônios podem ter um forte senso sobre a impressionante majestade de Deus, mas eles não vêem Seu encanto. Eles têm observado Sua obra entre a raça humana por estes milhares de anos, certamente com máxima atenção, mas eles nunca enxergam um vislumbre de Sua beleza. Não importa o quanto eles conheçam sobre Deus (e temos visto que eles realmente sabem muito), o conhecimento que eles possuem nunca os levará ao elevado conhecimento espiritual de como Deus é. Pelo contrário, quanto mais eles sabem sobre Deus, mais eles O odeiam. A beleza de Deus consiste primariamente em sua santidade, ou excelência moral, e isto é o que eles mais odeiam. É pelo fato de Deus ser santo que os demônios O odeiam. Alguém poderia supor que se Deus fosse menos santo, os demônios O odiariam menos. Não duvido que os demônios odiassem qualquer Ser santo, não importando o quão diferente Ele fosse. Mas, eles certamente odeiam este Ser, mais do que tudo, por sua infinita santidade, infinita sabedoria e infinito poder!

Pessoas perversas, incluindo as que estão vivas hoje, verão no dia do julgamento tudo o que se há para ver em Jesus Cristo, exceto Sua beleza e encanto. Não há nenhuma coisa sobre Cristo que nós possamos pensar que não será estabelecida diante deles na mais forte luz daquele dia brilhante. Os ímpios verão Jesus “vindo nas nuvens com grande poder e glória” (Marcos 13:26). Eles verão sua glória externa, a qual é muito, muito maior do que nós possamos imaginar agora. Você sabe que os ímpios serão totalmente convencidos de tudo o que Cristo é. Eles serão convencidos sobre Sua onisciência, quando virem seus pecados recapitulados e avaliados. Eles conhecerão em primeira-mão a justiça de Cristo, quando suas sentenças forem anunciadas. Sua autoridade se fará inteiramente convincente quando todo joelho se dobrar e toda língua confessar Jesus como Senhor (Filipenses 2:10,11). A divina majestade será impressa sobre eles de maneira completa e eficaz, quando os ímpios forem despejados no próprio inferno e entrarem em seu estado final de sofrimento e morte (Ap 20:14,14). Quando isto acontecer, todo seu conhecimento sobre Deus, tão verdadeiro e poderoso quanto possa ser, não valerá nada, e menos que nada, porque eles não verão a beleza de Cristo.

Portanto, é essa visão da beleza de Cristo que faz a diferença entre a graça salvadora e a experiência dos demônios. Esta visão ou percepção é o que torna a verdadeira experiência cristã diferente de tudo o mais. A fé do povo eleito de Deus é baseada nisto. Quando uma pessoa vê a excelência do Evangelho, ela percebe a beleza e o encanto do plano divino da salvação. Sua mente está convencida de que isto é de Deus, e ele crê nisto de todo o seu coração. Como o apóstolo Paulo diz em 2 Coríntios 4:34: “mesmo se nosso evangelho estiver encoberto, está encoberto para aqueles que estão perecendo. O deus desta era tem cegado o entendimento dos incrédulos, para que eles não possam ver a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus”. Ou seja, como foi explicado anteriormente, descrentes podem ver que há um evangelho, e compreender os fatos sobre ele, mas eles não verão a sua luz. A luz do evangelho é a glória de Cristo, Sua santidade e beleza. Logo após isto, lemos 2 Cor 4:6: “Pois Deus, que disse: ‘Deixe das trevas brilhar a luz’, fez Sua luz brilhar em nossos corações para nos dar a luz do conhecimento da gloria de Deus na face de Cristo”. Claramente, é esta luz divina, brilhando em nossos corações, que nos capacita a ver a beleza do evangelho e ter uma fé salvadora em Cristo. Esta luz sobrenatural nos mostra a superlativa beleza e amabilidade de Jesus, e nos convence de Sua suficiência como nosso Salvador. Somente um glorioso, majestoso Salvador pode ser nosso Mediador, permanecendo entre culpado, pecadores merecedores do inferno como nós, e um Deus infinitamente santo. Esta luz sobrenatural nos dá um senso de Cristo que nos
convence de uma maneira que nada jamais poderia.

Genuínas Experiências Espirituais Têm Resultados Diferentes

Quando os mais vis pecadores são levados a ver a divina beleza de Cristo, já não especulam o porquê de Deus dever estar interessado neles, para salvá-los. Antes, eles não podiam entender como o sangue de Cristo podia pagar a penalidade por seus pecados. Mas agora eles podem ver a preciosidade do sangue de Cristo, e como ele é digno de ser aceito como resgate para o pior dos pecadores. Agora, a alma pode reconhecer que é aceita por Deus, não por causa de quem ela é, mas por causa do valor que Deus coloca no sangue, obediência e intercessão de Cristo. Vendo este valor e a importância dada a pobre alma culpada, o qual jamais poderá ser encontrado em qualquer sermão ou livreto. Quando uma pessoa vem ver com seus próprios olhos o apropriado fundamento da fé e da confiança, isto é a fé salvadora. “Pois a vontade do meu Pai é que todo aquele que vê o Filho e crê nEle tenha a vida eterna” (João 6:40). “Eu o revelei aos homens que do mundo me deste. Eles eram teus, e tu os deste a mim, e eles têm obedecido a tua palavra. Agora eles sabem que tudo que tu tens me dado vem de ti. Pois Eu lhes dei as palavras que tu me deste e eles as aceitaram. Eles têm verdadeiramente conhecido que eu vim de ti, e creram que tu me enviaste” (João 17:6-8).

Esta é a visão da divina beleza de cristo que cativa a vontade e atrai os corações dos homens. Uma visão da aparente grandeza de Deus em Sua glória pode subjugar homens, e ser mais do que eles possam resistir. Isto será visto no dia do julgamento, quando os ímpios serão trazidos diante de Deus. Eles serão esmagados, sim, mas a hostilidade do coração permanecerá em plena força e a oposição da vontade continuará. Mas por outro lado, quando um único raio da moral e espiritual glória de Deus e da suprema beleza de Cristo brilha no coração, supera toda hostilidade. A alma é inclinada a amar a Deus como se por um poder onipotente, de modo que agora não apenas o entendimento, mas todo o ser recebe e abraça o amável Salvador.

Este senso da beleza de Cristo é o começo da verdadeira fé salvadora na vida do verdadeiro convertido. Isto é completamente diferente de qualquer sentimento vago de que Cristo o ama ou morreu por ele. Estes tipos de sentimentos indistintos podem causar uma espécie de amor e alegria, pois a pessoas sente uma gratidão por escapar da punição de seus pecados. Na realidade, estes sentimentos são baseados no amor próprio e não no amor a Cristo sobre todas as coisas. É triste que tantas pessoas estejam iludidas por esta falsa fé. Por outro lado, um vislumbre da glória de Deus na face de Jesus Cristo causa no coração um supremo e genuíno amor por Deus. Isso ocorre porque a luz divina mostra a excelência da beleza da natureza de Deus. Um amor baseado nisto está longe, muito acima de qualquer coisa que venha do amor-próprio, que os demônios podem ter tão bem quanto os homens. O verdadeiro amor de Deus, o qual vem desta visão de Sua beleza, causa uma espiritual e santa alegria na alma; a alegria em Deus e exultação nEle. Não há alegria em nós mesmo, mas somente em Deus. 

A Visão da Beleza de Cristo – O Maior Dom de Deus!

A visão da beleza das coisas divinas causará verdadeiros desejos pelas coisas de Deus. Estes desejos são diferentes das aspirações dos demônios, as quais acontecem devido ao conhecimento que eles possuem acerca do destino que os aguarda, e que gostariam que de algum modo pudesse ser diferente. Os desejos que vêm desta visão da beleza de Cristo são desejos livres e naturais, como um bebê desejando por leite. Por esses desejos serem tão diferentes de suas imitações, eles ajudam a distinguir entre as genuínas experiências da graça de Deus e as falsas. Falsas experiências espirituais têm a tendência de causar orgulho, o qual é o pecado especial do Diabo. “Ele não deve ser um novo convertido, ou poderá se tornar soberbo e cair sob a mesma condenação do Diabo” (1 Tm 3:6). O orgulho é o resultado inevitável da falsa experiência espiritual, ainda que esteja freqüentemente encoberto por um disfarce de grande humildade. A falsa experiência é apaixonada por si mesma e cresce em si mesma. Ela vive para se auto-promover de uma forma ou de outra. Uma pessoa pode ter grande amor por Deus e se orgulhar da grandiosidade de seu amor. Ela pode ser muito humilde e, entretanto, muito orgulhosa de sua humildade. Mas as emoções e experiências que vêm da graça de Deus são exatamente o oposto. A verdadeira obra de Deus no coração produz humildade. Ela não produz qualquer tipo de exibicionismo ou alto-exaltação. Esse senso da impressionante, santa e gloriosa beleza de Cristo mata o orgulho e humilha a alma. A visão da beleza de Deus, e isto somente, revela a alma sua própria feiúra. Quando uma pessoa realmente compreende isso, ela inevitavelmente começa um processo de fazer Deus maior e maior, e a si mesma menor e menor.

Outro resultado da obra da graça de Deus no coração é que a pessoa odiará o mal e responderá a Deus com coração e vida santificados. Falsas experiências podem gerar uma certa quantidade de zelo, e até mesmo uma grade porção do que comumente é chamado de religião. No entanto, não é um zelo pelas boas obras. Sua religião não é um serviço de Deus, mas sim um serviço de si mesmo. Este é o modo como o apóstolo Tiago o coloca no contexto: “Você crê que há um só Deus. Bom! Até os demônios crêem que estremecem. Você homem insensato, quer provas de que a fé sem obras é inútil?” (Tiago 2:19,20). Em outras palavras, as boas obras são a evidência da genuína experiência da graça de Deus no coração. “Sabemos que temos vindo a conhecê-lo se obedecemos os seus mandamentos. Aquele que diz: ‘Eu o conheço’, mas não faz o que ele manda é um mentiroso, e a verdade não está nele” (1 João 2:34). Quando o coração tem sido arrebatado pela beleza de Cristo, de que outra forma pode ele responder?

Parte Final

Quão excelente é esta bondade interna e verdadeira religião que vem desta visão da beleza de Cristo! Aqui você tem as mais maravilhosas experiências dos santos e anjos do céu. Aqui você tem a melhor experiência do próprio Jesus Cristo. Mesmo que sejamos meras criaturas, isto é um tipo de participação na própria beleza de Deus. “Pelas quais ele nos tem dado suas grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas vos torneis participantes da natureza divina” (2 Pe 1:4). “Deus nos disciplina para o nosso bem, para que possamos participar de sua santidade” (Hb 12:10). Devido ao poder desta obra divina, há uma habitação mutua de Deus e Seu povo. “Deus é amor. Quem vive em amor vive em Deus, e Deus nele” (1 Jo 4.16).

Esse relacionamento especial tem de fazer da pessoa envolvida tão feliz e abençoada quanto qualquer criatura na existência. Isto é uma dádiva especial de Deus, a qual Ele dá apenas, e especialmente, aos seus favoritos. Ouro, prata, diamantes, terras e reinos são dados por Deus a pessoas que a Bíblia chama de cães e porcos. Mas esta grande dádiva de contemplar a beleza de Cristo é a benção especial de Deus para seus mais queridos filhos. Carne e sangue não podem doá-la, somente Deus a pode conceder. Este foi o dom especial pelo qual Cristo morreu para obter em favor de Seus eleitos. Este é o mais alto símbolo do seu amor eterno, o melhor fruto de seus labores e a mais preciosa aquisição de seu sangue.

Por esta dádiva, mais do que por qualquer outra coisa, os santos brilham como luzes no mundo. Esta dádiva, mais do que qualquer outra coisa, é o conforto deles. É impossível que a alma que possua este dom, possa sequer perecer. Este é o dom da vida eterna. É o começo da vida eterna; aquele que o possui jamais poderá morrer. É a manifestação da luz da glória. Este dom vem do céu, ele tem uma qualidade celestial, e levará seu portador ao paraíso. Aqueles que possuem este dom podem vagar pelo deserto ou ser lançados nas ondas do oceano, mas alcançarão o paraíso no final. Lá a centelha celeste será aperfeiçoada e aumentada. No céu, as almas dos santos serão transformadas em uma chama brilhante e pura, e eles resplandecerão como o sol no reino de seu Pai. Amém.


por Jonathan Edwards (1703-1758)
Tradução: Nelson Ávila

sábado, 4 de agosto de 2012

Como Saber se Você é um Cristão de Verdade (parte 2/3)


Objeção #1 – As Pessoas São Diferentes dos Demônios

Algumas Pessoas têm fortes experiências religiosas e pensam nelas como uma prova da obra de Deus em seus corações. Freqüentemente tais experiências dão as pessoas uma noção da importância do mundo espiritual, e da realidade das coisas divinas. Todavia, estas também não são provas seguras da salvação. Demônios e seres humanos condenados possuem muitas experiências espirituais as quais produzem um grande efeito sobre as atitudes de seus corações. Eles vivem no mundo espiritual e vêem em primeira-mão como ele é. Seus sofrimentos os revelam o valor da salvação e de uma alma humana na forma mais poderosa imaginável. A parábola em Lucas capítulo 16 ensina isto claramente, o modo como o homem em sofrimento pede para que Lázaro seja enviado para contar aos seus irmãos que evitem este lugar de tormento. Sem dúvida as pessoas no inferno têm agora uma idéia distinta sobre a vastidão da eternidade e a brevidade da vida. Eles estão completamente convictos de que todas as coisas desta vida são totalmente sem importância quando comparadas as experiências do mundo eterno. As pessoas agora no inferno possuem um elevado senso da preciosidade do tempo, e das maravilhosas oportunidades que têm aqueles que possuem o privilégio de ouvir o Evangelho. Eles estão completamente conscientes da tolice de seus pecados, de negligenciar as oportunidades e ignorar os avisos de Deus. Quando os pecadores descobrem por experiência própria o resultado final de seus pecados, há “choro e ranger de dentes” (Mat 13:42). Assim, mesmo as mais poderosas experiências religiosas não são um sinal seguro da graça de Deus no coração.

Os demônios e as pessoas condenadas também possuem um forte senso da majestade e do poder de Deus. O poder de Deus é mais claramente apresentado através da execução da vingança divina sobre os Seus inimigos. “E se Deus, querendo mostrar a sua ira e tornar conhecido o seu poder, suportou com grande paciência os objetos de sua ira, preparados para a destruição?” (Rm 9:22). Estremecendo, os demônios aguardam sua punição final, sob o mais forte senso da majestade de Deus. Isto, eles o sentem agora, é claro, mas no futuro isto será mostrado no mais elevado grau, quando o Senhor Jesus “for revelado do céu no fogo ardente com seus anjos poderosos” (2 Tes 2:7). Naquele dia eles desejarão fugir para se esconderem da presença de Deus. “Olhe, ele vem com as nuvens, e todo olho o verá, até mesmo aqueles que o traspassaram; e todos os povos da terra se lamentarão por causa dele” (Ap 1:7). Então todos O verão na glória de Seu Pai. Mas, obviamente, nem todos os que o virem serão salvos.

Objeção #2 – As Pessoas Podem Ter Sentimentos Religiosos Que os Demônios Não Podem

Agora, é possível que algumas pessoas possam se opor a tudo isto, dizendo que os homens ímpios deste mundo são bastante diferentes dos demônios. Eles estão sob circunstâncias diferentes e são tipos diferentes de seres. Um objetor pode dizer: “Essas coisas que são visíveis e presentes para os demônios, são invisíveis e futuras para os homens. Além disso, as pessoas têm a desvantagem de possuírem corpos, os quais restringem a alma e as impedem de ver estas coisas espirituais em primeira-mão. Portanto, mesmo que os demônios tenham um grande conhecimento e uma experiência pessoal sobre as coisas de Deus, e não possuam graça, a conclusão não se aplica a mim”. Ou, dito de outra maneira: se as pessoas têm essas coisas nesta vida, isto pode muito bem ser um sinal claro da graça de Deus em seus corações.

Em resposta, foi acordado que o homem nesta vida jamais teve estas coisas no grau que os demônios as têm. Ninguém jamais estremeceu, com a mesma quantidade de medo, como estremecem os demônios. Nenhum homem, nesta vida, pode, sequer, ter o mesmo tipo de conhecimento que o Diabo possui. É evidente que os demônios e os homens condenados entendem a vastidão da eternidade e a importância do outro mundo mais do que qualquer pessoa viva, e assim, eles desejam a salvação e tudo mais.

Mas nós podemos ver que os homens neste mundo podem ter o mesmo tipo de experiências que os demônios e os homens condenados possuem. Eles têm a mesma atitude mental, as mesmas opiniões e emoções e os mesmos tipos de impressões em seus corações e mentes. Observe que, para o apóstolo Tiago, isto é um argumento convincente. Ele afirma que se as pessoas pensam que crer que há um só Deus é prova da graça de Deus, elas estão enganadas, pois os demônios crêem do mesmo jeito. Tiago não está se referindo ao ato de crer somente, mas às ações e emoções que também acompanham suas crenças. Estremecer é um exemplo das emoções do coração. Isto mostra que se as pessoas possuem a mesma atitude mental e respondem, de coração, da mesma maneira, isto não é um sinal seguro da graça.

A Bíblia não relaciona quantas pessoas neste mundo podem ver a gloria de Deus e não ter a graça de Deus em seus corações. Não nos é dito exatamente em qual grau Deus se revela a certas pessoas, e quantas delas responderão em seus corações. É muito tentador dizer que se uma pessoa tem certa quantidade de experiências religiosas, ou uma certa quantidade de verdade, ela deve ser salva. Talvez seja mesmo possível para algumas pessoas não salvas ter experiências maiores que alguns daqueles que possuem a graça em seus corações. Portanto, é errado olhar para a experiência ou conhecimento em termos de quantidade. Homens que possuem uma genuína obra do Espírito Santo em seus corações têm experiências e conhecimento de um tipo diferente.

Verdadeiras Experiências Espirituais Possuem uma Origem Diferente

Neste ponto, alguém poderia responder a estas reflexões dizendo: “Eu concordo com você. Eu vejo que crer em Deus, observar Sua majestade e santidade, e saber que Jesus morreu por pecadores não é prova da graça de Deus em meu coração. Eu concordo que demônios podem conhecer estas coisas também. Mas eu tenho algumas coisas que eles não têm. Eu tenho alegria, paz e amor. Demônios não podem tê-las, de modo que isto mostra que eu sou salvo”.

Sim, é verdade que você tem algumas coisas além das que um demônio pode ter, mas isso não significa que você tenha algo melhor do que um demônio poderia ter. Uma experiência pessoal de amor, alegria, etc., pode acontecer, não por haver neles qualquer causa que seja diferente da de um demônio, mas apenas por circunstâncias diferentes. As causas, ou origens, de seus sentimentos são as mesmas. É por isso que essas experiências não são melhores que as de um demônio. Para explicar melhor: Todas as coisas que foram discutidas anteriormente sobre demônios e pessoas condenadas, são levantadas por duas causas principais: o entendimento natural e o amor-próprio. Quando pensam sobre si mesmos, essas duas coisas são o que determinam seus sentimentos e respostas. O entendimento natural os mostra que Deus é santo, enquanto eles são pecaminosos. Deus é infinito, mas eles são limitados. Deus é poderoso, eles são fracos. O amor-próprio lhes dá um senso da importância da religião, do mundo eterno e um posterior desejo de salvação. Quando estas duas causas trabalham juntas, demônios e homens condenados se tornam conscientes da impressionante majestade de Deus, pelo qual eles sabem que serão julgados. Eles sabem que o julgamento de Deus será perfeito e que suas punições serão eternas. Portanto, essas duas coisas juntas ao senso que eles possuem, os conduz a angústia acerca do dia do julgamento, quando eles verão a aparente glória de Cristo e dos Seus santos.

A razão pela qual, hoje, muitas pessoas sentem alegria, paz e amor, enquanto os demônios não, podem estar mais ligada as suas circunstâncias do que a qualquer diferença em seus corações. As causas em seus corações são as mesmas. Por exemplo: o Espírito Santo está agora trabalhando no mundo, impedindo que toda a humanidade seja tão perversa quanto poderia ser (2 Tessalonicenses 2:17). Isto está em contraste com os demônios, os quais são sempre tão perversos quanto podem ser. Além disso, Deus em sua misericórdia concede dons a todas as pessoas, tais como a chuva para as lavouras (Mt 5:45), o calor do sol, etc. Não só isto, mas freqüentemente as pessoas recebem muitas coisas na vida que lhes traz felicidade, tais como relacionamentos pessoais, prazeres, música, boa saúde e assim por diante. Mais importante que tudo isto, muitas pessoas têm ouvido boas novas de esperança: Deus enviou um Salvador, Jesus Cristo, o qual morreu para salvar pecadores. Nestas circunstâncias, o entendimento natural das pessoas pode levá-las a sentirem coisas que os demônios jamais serão capazes.

Amor-próprio é uma força poderosa nos corações dos homens, forte o bastante para, mesmo sem a graça, levar as pessoas a amarem aqueles que as amam, “Mas se você ama aqueles que o amam, que mérito há nisso para você? Porque até pecadores amam aqueles que os amam” (Lucas 6:32). É um coisa natural para uma pessoa que vê Deus sendo misericordioso, e que sabe que não é tão mal quanto poderia ser, concluir, por tanto, que o amor de Deus é para ele. Se seu amor por Deus vem apenas de seus sentimentos acerca de que Ele o ama, ou porque você tem ouvido que Cristo morreu por você, ou algo similar, a fonte de seu amor a Deus é apenas amor-próprio. Isto reina nos corações dos demônios também.

Imagine a situação dos demônios. Eles sabem que não há restrições a sua maldade. Eles sabem que Deus é seu inimigo e sempre será. Embora eles estejam sem qualquer esperança, eles continuam ativos e lutando. Apenas pense: e se eles tivessem algo da esperança que as pessoas têm? E se os demônios, com seus conhecimentos sobre Deus, tivessem sua maldade restringida? Imagine se um demônio, após todo o seu pavor acerca do julgamento de Deus, repentinamente fosse levado a imaginar que Deus pudesse ser seu amigo? Que Deus pudesse perdoá-lo e levá-lo, com pecado e tudo, para o céu? Oh que alegria, que maravilha, que gratidão nós veríamos! Não seria este demônio levado a amar grandemente a Deus, pois, afinal de contas, todos amam aqueles que lhes ajudam? O que mais poderia causar sentimentos tão poderosos e sinceros? É de se admirar que tantas pessoas estejam tão enganadas assim? Especialmente porque as pessoas têm os demônios para promoverem esta ilusão. Eles têm promovido isto por muitos séculos e, infelizmente, são muito bons nisso.

por Jonathan Edwards (1703-1758)
Tradução: Nelson Ávila

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Como Saber se Você é um Cristão de Verdade (parte 1/3)



Os Demônios Possuem um Conhecimento de Deus

“Tu crês que há um só Deus. Bom! Até os demônios crêem, e estremecem” (Tg 2.19). Como você sabe se pertence a Deus? Nós vemos nestas palavras que algumas pessoas dependem de uma evidência de que são aceitas junto a Deus. Algumas pessoas pensam que estão em uma boa posição diante de Deus se não forem tão ruins como algumas pessoas más. Outras pessoas apontam para a história de suas famílias ou para a membresia da igreja para mostrar que Deus as aprova. Existe um programa evangelístico em uso comum que faz as pessoas algumas perguntas. Uma das perguntas é: “Suponha que você fosse morrer hoje. Por que Deus deveria deixar você entrar no paraíso?” Uma resposta muito comum é: “Eu creio em Deus”. Aparentemente o apóstolo Tiago conhecia pessoas que diziam a mesma coisa: Eu sei que estou no favor de Deus, porque eu conheço essas doutrinas religiosas.

É claro que Tiago admite que este conhecimento é bom. Não só é bom, mas também necessário. Ninguém que não crê em Deus pode ser um cristão; e mais do que isto, ninguém que não crê no Único Deus Verdadeiro. Isto é particularmente verdade para aqueles que tiveram a grande vantagem de conhecer pessoalmente o apóstolo, alguém que poderia contar-lhes em primeira mão das experiências que tivera com Jesus, o Filho de Deus. Imagine o grande pecado de uma pessoa que, tendo então conhecido Tiago, se recusou a crer em Deus! Certamente isto faria sua condenação ainda maior. Obviamente, todo cristão sabe que esta boa crença no Único Deus é somente o início, porque “qualquer um que dele se aproxima deve crer que ele existe e recompensa os que sinceramente o buscam” (Hb 11.6).

No entanto, Tiago é claro em destacar que embora esta crença seja uma coisa boa, ela não prova definitivamente que uma pessoa é salva. O que ele quer dizer é isto: “Você diz que é um cristão e está no favor de Deus. Você pensa que Deus o deixará entrar no paraíso, e a prova disto é que você crê em Deus. Mas isto não é evidência alguma, pois os demônios também crêem, e têm a certeza de que serão punidos no inferno”. Os demônios crêem em Deus, você pode ter certeza disto! Eles não somente acreditam que Ele existe, mas acreditam que Deus é um Deus santo, um Deus que odeia o pecado, um Deus de verdade, que prometeu julgamentos e realizará sua vingança sobre eles. Esta é a razão porque os demônios “estremecem” ou tremem – eles conhecem a Deus mais claramente que a maioria dos seres humanos, e eles estão apavorados. No entanto, nada na mente do homem é tão inexperenciável aos demônios, quanto qualquer sinal de certeza da graça de Deus em nossos corações.

Este raciocínio pode ser facilmente seguido. Suponha que os demônios pudessem ter, ou encontrar dentro de si, algo da graça salvadora de Deus – evidentemente eles iriam para o paraíso. Isto provaria que Tiago estava errado. Mas que absurdo! A Bíblia deixa claro que os demônios não têm esperança de salvação, e sua crença em Deus não elimina sua futura punição. Portanto, crer em Deus não é prova de salvação para os demônios, e é seguro dizer, que não o é para os homens também.

O Conhecimento de Deus Apenas, Não é Prova de Salvação

Isto é sempre visto mais claramente quando nós pensamos acerca do que são os demônios. Eles são profanos: qualquer de suas experiências, não pode ser uma experiência santa. O diabo é perfeitamente perverso. “Vocês pertencem ao seu pai, o Diabo, e querem realizar o desejo do vosso pai. Ele foi um assassino desde o princípio, não firmado na verdade, pois não há verdade nele. Quando ele mente, fala sua linguagem natural, porque ele é um mentiroso e o pai da mentira” (Jo 8.44). “Aquele que pratica o pecado é do Diabo, pois o Diabo tem pecado desde o princípio” (1 Jo 3.8). Portanto, os demônios são chamados de espíritos malignos, espíritos imundos, potestades das trevas, e assim por diante. “Porque nossa luta não é contra carne e sangue, mas contra os principados, contra as autoridades, contra os poderes deste mundo tenebroso e contra as forças espirituais do mal nos lugares celestiais” (Ef 6.12). Por isso, é claro que qualquer coisa nas mentes dos demônios não pode ser santa, ou conduzir a verdadeira santidade por si mesma. Os demônios conhecem claramente muitas coisas sobre Deus e a religião, mas eles não possuem um conhecimento santo. As coisas que eles sabem em suas mentes podem fazer impressões em seus corações – sem dúvida nós vemos que os demônios têm fortes sentimentos a respeito de Deus; tão fortes, de fato, que eles “estremecem”. Mas não são sentimentos santos, pois eles nada têm a ver com a obra do Espírito Santo. Se isto é verdade acerca da experiência dos demônios, também é verdade sobre a experiência dos homens.

Note isto, que não importa quão genuínos, sinceros e poderosos estes pensamentos e sentimentos são. Demônios, sendo criaturas espirituais, conhecem Deus de uma maneira que os homens na terra não podem. Seu conhecimento sobre a existência de Deus é mais concreto que qualquer conhecimento humano possa ser. Porque eles estão presos na batalha com as forças do bem; o conhecimento deles é igualmente sincero. Em certa ocasião, Jesus expulsou alguns demônios. “O que queres conosco, Filho de Deus?” eles gritaram. “Viestes aqui para nos torturar antes do tempo?” (Mt 8.29). Qual experiência poderia ser mais clara do que esta? No entanto, embora seus pensamentos e sentimentos sejam genuínos e poderosos, eles não são santos.

Também podemos ver que os sagrados objetos de seus pensamentos não fazem destes pensamentos e sentimentos santos. Os demônios sabem que Deus existe! Mateus 8.29 mostra que eles sabem mais sobre Jesus do que muitas pessoas! Eles estão inteiramente certos de que Jesus os julgará algum dia, porque Ele é santo. Mas está claro que genuínos, sinceros e poderosos pensamentos e sentimentos acerca do sagrado, das coisas espirituais, não é prova da graça de Deus no coração. Os demônios possuem estas coisas, e olham prontamente para o castigo eterno no inferno. Se os homens não possuem mais do que aquilo que os demônios possuem, eles sofrerão da mesma forma.

Experiências Religiosas Não São Provas de Salvação

Nós podemos fazer diversas conclusões baseadas nestas verdades. Em primeiro lugar, não importa o quanto as pessoas possam conhecer acerca de Deus e da Bíblia, isto não é um sinal certo de salvação. O Diabo, antes de sua queda, foi uma das mais brilhantes estrelas da manhã, uma chama de fogo, uma excelência em força e sabedoria (Isaías 14.12, Ezequiel 28.12-19). Aparentemente, como um dos comandantes angelicais, Satanás conhecia muito sobre Deus. Agora que ele está caído, seu pecado não tem destruído suas memórias anteriores. O pecado destrói a natureza espiritual, não as habilidades naturais, tais como a memória. Que os anjos caídos possuem muitas habilidades naturais pode ser visto em muitos versículos bíblicos, por exemplo: Efésios 6:12 “Porque nossa luta não é contra carne e sangue, mas contra os principados, contra as autoridades, contra os poderes deste mundo tenebroso e contra as forças espirituais do mal nos lugares celestiais”. Do mesmo modo, a Bíblia diz que Satanás é “mais astuto” do que outros seres criados (Gn 3:1, 2 Cor 11:3, At 13:10). Portanto, podemos ver que o Diabo sempre teve grande habilidade mental e é capaz de saber muito acerca de Deus, do mundo visível e do invisível, e muitas outras coisas. Desde o princípio, seu trabalho foi ser um comandante angelical diante de Deus, e é natural que a compreensão destas coisas tenha sido sempre o primeiro de seus mais importantes interesses, e que todas as suas atividades têm a ver com estas áreas de pensamentos, sentimentos e conhecimentos.

Porque este era seu trabalho original, ser um dos anjos bem diante da face de Deus, e o pecado não destrói a memória, fica claro que Satanás sabe mais sobre Deus que qualquer outro ser criado. Depois da queda, nós podemos ver suas atividades como um tentador, etc. (Mt 4:3), que ele tem gasto seu tempo aumentando seu conhecimento e suas aplicações práticas. Que seu conhecimento é grande, pode ser visto no quão esperto ele é ao tentar as pessoas. A astúcia de suas mentiras mostra o quão inteligente ele é. Certamente ele não poderia manejar seus truques tão bem sem um efetivo e verdadeiro conhecimento dos fatos. Esse conhecimento acerca de Deus e suas obras vem desde o princípio. Satanás estava lá desde a criação, como Jó 38:47 mostra: “Onde estava você quando eu lancei os fundamentos da terra? Digame, se você entende... enquanto as estrelas da manhã cantavam juntas e todos os anjos gritavam de alegria?” Assim, ele deve saber bastante sobre o modo como Deus criou o mundo, e como Ele governa todos os eventos no universo. Por outro lado, Satanás tem visto a maneira como Deus tem trabalhado seu plano de redenção no mundo; e não como um espectador inocente, mas como um ativo inimigo da graça de Deus. Ele viu a obra de Deus nas vidas de Adão e Eva, Noé, Abraão e Davi. Ele deve ter se interessado especialmente na vida de Jesus Cristo, o Salvador dos homens, a Palavra encarnada de Deus. Quão de perto ele observou Cristo? Quão atentamente ele observou seus milagres e ouviu suas palavras? Isso é porque Satanás se colocou em oposição a obra de Cristo, e para seu tormento e angústia é que Satanás assistiu o sucesso do desenrolar da obra de Cristo. Satanás, então, conhece muito sobre Deus e Sua obra. Ele conhece o paraíso de primeira-mão. Ele conhece o inferno também, com conhecimento pessoal como seu primeiro morador, e tem experimentado seus tormentos por todos estes milhares de anos. Ele deve ter um grande conhecimento bíblico; ou pelo menos, podemos ver que ele conhecia o bastante para objetivar tentar nosso Salvador. Além disso, ele esteve por muitos anos estudando os corações dos homens, seu campo de batalha onde luta contra nosso Redentor. Quais trabalhos, esforços e cuidados o Diabo teve ao longo dos séculos para levar os homens ao engano. Só um ser com seu conhecimento e experiência da obra de Deus, e do coração humano, poderia imitar assim a verdadeira religião e transformar-se em um anjo de luz (2 Coríntios 11:14).

Portanto, podemos ver que não é por alguma quantidade de conhecimento acerca de Deus e da religião que podemos provar que uma pessoa foi salva dos seus pecados. Um homem pode falar sobre a Bíblia, Deus e a Trindade. Ele pode ser capaz de pregar um sermão sobre Jesus Cristo e tudo o que Ele tem feito. Imagine, alguém pode falar sobre o caminho da salvação e a obra do Espírito Santo nos corações dos pecadores, talvez até o suficiente para mostrar a outros como se tornarem Cristãos. Todas estas coisas podem edificar a igreja e iluminar o mundo, mas ainda assim não são uma prova segura da graça salvadora de Deus no coração de uma pessoa. Também pode-se ver que o mero fato de uma pessoa concordar com a Bíblia não é um sinal seguro da salvação. Tiago 2:19 mostra que os demônios realmente, verdadeiramente, acreditam na verdade. Assim como eles crêem que há um só Deus, eles concordam com toda a verdade da Bíblia. 

O Diabo não é um herege: todos os artigos de sua fé estão firmemente estabelecidos na verdade. Deve ser entendido que quando a Bíblia fala sobre crer que Jesus é o Filho de Deus, como uma prova da graça de Deus nos corações, não significa um mero assentimento da verdade, mas um outro tipo de crença. “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus” (1 João 5:1). Este outro tipo de crença é chamado de “a fé dos eleitos de Deus e o conhecimento da verdade que conduz a santidade” (Tito 1.1). Há uma firmeza espiritual na verdade, a qual será explicada mais tarde.

por Jonathan Edwards (1703-1758)
Tradução: Nelson Ávila

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Ser calvinista não é sinônimo de ser reformado


Há quatro anos, Cristianismo Hoje publicou um artigo, “Jovem, Incansável, Reformado”. Neste artigo, o autor Collin Hansen analisou um fenômeno que existe há uma década: o retorno de muitos jovens cristãos as doutrinas reformadas. Ele entrevistou alguns pastores e jovens membros de igrejas que saíram de movimentos carismáticos e “igrejas sensíveis ao público” que agora adotam as doutrinas do Calvinismo. Na opinião de Hansen, esse retorno é menos divulgado, mas é muito maior e persuasivo do que a “igreja emergente” ou a “igreja sensível ao público”. Ele acredita que o retorno do “Calvinismo” está “balançando a Igreja”. Ele chamou atenção para a popularidade de velhos autores Puritanos entre os “novos Reformados”, especialmente entre os jovens. O velho puritanismo dos séculos 17 e 18 pareciam ser o combustível ideológico por trás do retorno Calvinista. Muitas das obras Puritanas estavam sendo relançadas por causa do interesse renovado. Um professor em Gordon-Conwell chegou a dizer que ele suspeitava que “jovens evangélicos são atraídos aos Puritanos em busca de raízes históricas mais profundas e modelos para um Cristianismo dedicado”.

Isso foi muito encorajador. Tudo de bom que o Ocidente tem hoje – os conceitos de liberdade, estado de direito, ética de trabalho superior, organizações caridosas, espírito empreendedor, poupança e investimento em longo prazo, etc. – é devido a teologia Reformada e aqueles que a aplicaram na prática. Quando a hora chegou da liberdade ser defendida por todo mundo Ocidental, e especialmente na América, foram pregadores Reformados e Puritanos que encorajaram populações a defender suas liberdades sob Deus, e foram leigos Reformados e Puritanos que lideram as estações de batalha contra a opressão. E foram líderes Reformados e Puritanos que trabalharam para construir o Ocidente como uma sociedade justa e próspera, e para espalhar as ideias de liberdade ao resto do mundo; os outros só seguiram o exemplo. Então, se Collins estava correto em sua análise sobre o retorno do Calvinismo, então teríamos de volta a solução historicamente comprovada para a decadência da América no socialismo, paganismo, turbulência política e recessão econômica.

Mas seja qual fosse a esperança que alguém poderia extrair do que Hansen viu como o retorno do Calvinismo, estaria completamente extinguida em nossa experiência dos últimos dois anos. Em uma época em que nossa sociedade está lutando para preservar aquilo que a América já representou – tudo o que os Puritanos nos entregaram no decorrer das gerações – estes “novos Reformados” de Hansen falharam em materializar quando a influencia foi mais necessária. Desde 2008, em nossa intensa guerra cultural contra aqueles que querem subverter a América, as igrejas chamadas de “Reformadas” por Hansen não são de qualquer maneira visíveis. Seja qual for o “combustível” que pegaram emprestado dos Puritanos, não foi capaz de produzir os pregadores reformados responsáveis pela Primeira Revolução Americana. Não vemos esses novos reformadores assumindo a liderança em uma Segunda Revolução Americana. Se a Primeira Revolução foi chamada pelo Rei George de “Revolução Presbiteriana”, não há qualquer motivo para Obama, Nancy Pelosi ou qualquer outro aspirante a tirano esquerdista falar da “Insurreição Reformada” ou da “Tea Party Calvinista”. Longe de serem os herdeiros espirituais ou ideológicos dos Puritanos, os pastores mencionados no artigo de Hansen são muito cuidadosos em nunca mencionar nada de relevante nas batalhas culturais de nosso tempo.

Por quê? Por que um movimento tão grande e persuasivo de retorno as nossas raízes Reformadas não consegue produzir uma resposta apropriadamente Reformada? Uma mente Puritana não deveria produzir uma prática Puritana, individualmente e socialmente? Se os antigos Puritanos nos deram a América, os Puritanos modernos não deveriam restaurar a América ao que ela deveria ser? Como conciliar essa contradição?

A resposta é o seguinte: Não há contradição. Hansen está errado. O que ele acredita ser um “retorno ao Calvinismo” não é. O que ele vê como pastores e crentes “Reformados” não são. A definição que Hansen dá de “Reformado” é truncada. O motivo pelo qual não vemos uma resposta Puritana é porque não há influencia teológica Puritana nas igrejas que ele entrevistou. Ele somente vê a superfície. A essência não é Reformada.

Na procura por igrejas “Reformadas”, Hansen usa a TULIP – o acrônimo dos cinco pontos para Calvinismo – como sua régua de medição. Se uma Igreja acredita na TULIP (Total Depravação, Eleição Incondicional, Expiação Limitada, Graça Irresistível, Perseverança dos Santos), se ensina isso, se isso se tornou o ponto central de sua doutrina, então Hansen acredita que é “Reformada”. TULIP é mencionado, direta ou indiretamente, mais de 20 vezes no artigo. É a inspiração de alguns dos convertidos ao Calvinismo que foram entrevistados em seu artigo. Algumas das igrejas “Reformadas” importantes têm cursos e instruções especiais sobre a TULIP. Outros estão nos púlpitos ousadamente pregando sobre. TULIP é o principio e fim do que Hansen define como “Calvinismo”. Ele acredita que se uma igreja é focada na TULIP, é Reformada.

A verdade que Hansen não percebeu é que TULIP não é a essência da teologia Reformada. É claro, as doutrinas da Total Depravação, Eleição Incondicional, Expiação Limitada, Graça Irresistível e Perseverança dos Santos são um passo inicial importante em direção ao imenso corpo de verdades teológicas chamadas de “teologia Reformada”. É um resultado direto do conceito maior da Soberania de Deus. É uma descrição correta do estado caído do homem e da obra de Deus na salvação do indivíduo. Quando olhamos para o alto e agradecemos a Deus pelo que ele fez pessoalmente por nós, pensamos “TULIP”, mesmo que não conhecêssemos ou compreendêssemos o termo.

Em resumo, TULIP é o acrônimo para o “mecanismo” de nossa salvação pessoal. E só isso. Nada além de nossa salvação pessoal. Mas a teologia Reformada inclui imensuravelmente mais que simplesmente nossa salvação pessoal. E quanto uma Igreja faz da TULIP a soma de toda sua teologia, essa Igreja não é Reformada. Sim, ela deu o primeiro passo nessa direção, mas ainda está longe do objetivo.

Os Puritanos que os “novos Reformados” dizem gostar e seguir ficariam profundamente surpresos se alguém colocasse toda a Soberania de Deus na salvação individual das almas. Isso pareceria realmente egoísta para eles – ficaria parecendo que a Soberania de Deus foi feita para servir as necessidades do homem, em fez da salvação do homem servir aos planos de Deus. A salvação de indivíduos nunca ocupou um status tão alto no pensamento dos Puritanos e sim o Reino de Deus e sua justiça. Os Puritanos entendiam que os planos de Deus eram uma prioridade acima da salvação de indivíduos; o Faraó e seu coração endurecido era um tópico de sermão favorito para muitos pregadores Puritanos. Eles não vinham a soberania de Deus somente na salvação, mas também na condenação e em muitas outras coisas. O evangelismo realmente chamava para o arrependimento individual e para andar em justiça, mas eles compreendiam que pregar a salvação era somente o leite (Hb 6.1-2). Havia mais áreas do conhecimento e práticas que são alimentos mais sólidos e que merecem mais atenção.

O artigo de Hansen mencionou aqueles dentre os jovens “novos Reformados” que saíram das “igrejas sensíveis ao público” e se tornaram Reformadas. Mas o que mudou para essas pessoas? Sim, a justificação teológica para a fé mudou, sem dúvidas. Não acreditam mais que conquistam a própria salvação. Mas as prioridades e motivações mudaram? De jeito nenhum. Tanto em um ambiente “sensíveis ao público” quanto “novo Reformado”, o foco é no EU e no MEU, o que Deus fez por MINHA salvação. O principio e o fim é a salvação pessoal e só isso. Em um sentido muito verdadeiro, os “novos Reformados” são simplesmente uma versão teologicamente correta do movimento “sensível ao público”: o egoísmo da busca continua lá, exceto que agora tem uma teologia melhor. Essa ênfase em si mesmo, nas MINHAS necessidades, pareceria uma reinterpretação grosseira da Soberania de Deus para os antigos Puritanos. Dificilmente eles reconheceriam a si mesmos ou suas ideias no movimento “novo Reformado”. Não é o legado deles e a obsessão com batalha espiritual pessoal não fazia parte de suas mentes ou cultura.

Qual foi o legado deixado pelos Reformadores para futuras gerações?

Não foram igrejas cheias de crentes que ansiosamente estudam teologia somente para regozijar-se com sua salvação pessoal. Alias, com duas exceções – Escócia e Hungria – os primeiros Reformadores não nos deixaram igrejas permanentes. Não foram sermões intelectualizados de linguagem psicologicamente elaborada que analisam cada sentimento e emoção que um crente possa ter. Não foram sermões corajosos sobre tópicos irrelevantes, de importância periférica para nossa era e cultura. E, sem dúvidas, não foi uma crença em um Deus que somente é soberano para salvar indivíduos e nada mais.

O legado mais duradouro foi sobre o cultivo de sociedades, cujas culturas se baseavam na aplicação prática da teologia Reformada, de cima a baixo. Genebra, Estrasburgo, Holanda, Inglaterra, Escócia, Hungria, as comunidades huguenotes na França e posteriormente na Carolina do Norte e do Sul, Oranje-Vrystaat e Transval. Sociedades que se tornaram luz para o mundo, uma encarnação da liberdade e justiça de Cristo para todos. Os crentes Reformados de séculos anteriores construíram uma civilização que influenciou o mundo permanentemente. Eles mudaram o mundo, não pelo egoísmo de enfatizar a própria salvação, mas pela obediência em ensinar as nações e construir o Reino de Deus.

Foram cidades edificadas sobre o monte que nos deixou um legado, e o lema “Cidade Sobre o Monte” é o que melhor descreve a teologia Reformada hoje, não TULIP. Sejam Calvinistas ou Arminianos, Cristãos e Não-Cristãos, todo mundo na América hoje – e não somente na América – é uma testemunha do sucesso de construir aquela “Cidade Sobre o Monte”. Os Puritanos de quem Hansen falou não chegaram nesse litoral para encontrar a perfeita teologia TULIP. De fato, eles criam na soberania de Deus sobre a salvação, mas eles criam em muito mais do que isso. Eles sabiam que eram predestinados por Deus para serem os vasos escolhidos para manifestar a Soberania de Deus sobre culturas e sociedades de homens ao construir uma nova civilização. “Os reinos deste mundo vieram a ser o Reino de nosso Deus” tinha um significado muito específico para os Puritanos, e essa visão era o que caracterizava a visão deles de Soberania.

Com uma visão de Cidade Sobre o Monte, os Puritanos estavam muito mais preocupados com questões legais e culturais da sociedade do que com questões psicológicas e filosóficas da existência humana, como é o caso dos “novos Reformados”. Justiça e retidão era a prioridade acima de espiritualização excessiva e experiências místicas. Desenvolveram códigos legais, teorias e praticas econômicas, organização social, educação e ciência. Eles não se preocupavam com os pequenos e irrelevantes detalhes da vida espiritual do Cristão. Eles viam valor em encarnar as verdades de Deus na cultura, não em teologia do interior. A visão que tinham do mundo era de uma unidade, segundo a Lei de Deus, espiritual ou material, igreja, família, estado, mente, matéria, lei e graça. Eles não seriam capazes de compreender o dualismo das igrejas dos “novos Reformados”. “Pacto”, para eles, não era um termo religioso. Era o componente essencial de todas as relações, espirituais ou temporais, e todos os pactos – na esfera civil, no comercio, igreja, família, escola – deveria imitar o pacto supremo entre Deus e a humanidade em Jesus Cristo.

É por isso que quando John Whitherspoon declarou que a liberdade de cultuar e a liberdade econômica e política eram coisas inseparáveis, ele não estava declarando uma nova doutrina. Ele estava proclamando o que aprendeu com seus antepassados espirituais, com Agostinho, Calvino, Mather e Edwards. E quando os discípulos de Whitherspoon se juntaram para se tornar os Pais Fundadores dos Estados Unidos da América, isso foi um ato verdadeiramente Reformado, uma consequência lógica das doutrinas da Reforma.

Aqueles que querem ser Reformados hoje, não podem ficar limitados ao pensamento confortável de que Deus lhes deu a salvação pessoal. Reformado significa a Soberania de Deus sobre tudo – tudo na vida, pensamento e ação do homem, incluindo a sociedade e cultura do homem. Portanto, os “novos Reformados” de Hansen não são Reformados. É somente uma versão teologicamente de uma religião centrada no homem.

Da próxima vez que Cristianismo Hoje quiser encontrar o retorno do Calvinismo, a frase chave não é TULIP. O retorno do Calvinismo será conhecido pelo seguinte: “Cidade Sobre o Monte”, “Visão de Mundo Abrangente”, “Ensinar as Nações”, “Os Direitos Régios de Jesus Cristo Sobre Todas as Áreas da Vida”, “Cristandade”, “Domínio sob o Pacto de Deus”. O artigo deve se chamar: “Os Reformados, Historicamente Otimistas, Voltados para o Domínio”. Qualquer outra coisa será somente uma imitação vazia do legado dos Puritanos, não verdadeiramente Reformado.

Por Bojidar Marinov
Tradução: Frank Brito

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Alguns conselhos sobre como ler a Bíblia corretamente


A fim de ser simples e objetivo, deixarei abaixo algumas recomendações sobre como você pode ler a Bíblia com proveito e correto entendimento:

Dificuldades e barreiras à compreensão

1. Lembre-se de que há um abismo de tempo, contexto, cultura, língua e autor (os homens que usaram da pena para escrever não estão mais presentes) que fazem com que a interpretação bíblica seja algo que exija tempo e dedicação. 

2. Não se esqueça de que existe uma diferença natural, espiritual e moral entre Deus e o homem - enquanto Deus é completamente eterno, nós somos mortais; Ele é santo e nós pecadores; Ele é justo e nós injustos.

3. Cada literatura possui um modo correto de ser lida. Um livro sobre Direito, por exemplo, não é lido de capa a capa, pois o objetivo é apenas dirimir alguma dúvida rápida sobre determinado assunto; então, apenas se abre o mesmo, procura-se a página e se lê o desejado. Não é assim com um livro de poesia, pois é altamente recomendado ler do começo ao fim da mesma, afinal, a poesia tem começo, meio e fim - se parar no "meio" será difícil retomar a leitura com uma boa lembrança do já lido. Assim também é com a Bíblia: um sistema interligado de doutrinas - não é possível apenas ler parte dela; é necessário constantemente lê-la por completo.

Cuidados ao se interpretar

1. Não alegorize o texto. Tome cuidado para não tentar buscar um suposto sentido mais espiritual e profundo no texto, sendo que ele não quer dizer nada daquilo. Um exemplo clássico é dizer que as cinco pedras que Davi pegou para matar o gigante Golias (1Sm 17.40) representavam o Senhor que era "Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz" (Is 9.6). Isto não é interpretar, mas sim afirmar uma coisa que o texto não diz e nem fornece bases para se especular.

2. Não utilize o método histórico crítico/liberal. Muitos tem caído nesta errônea interpretação e toda vez que leem uma passagem e ela não se encaixa com o racionalismo humano e não passa pelo crivo cientificista, então é de pronto rejeitada como sendo um mito ou erro de tradução. É o caso de quando se observa Moisés no Sinai e a narrativa que diz que as tábuas da Lei foram escritas pelo próprio dedo de Deus (Êx 31.18) - os que interpretam a partir deste método, afirmam que é impossível Deus ter escrito e que, na verdade, foi o próprio Moisés quem cunhou as palavras nas pedras.

3. Cuidado com a experiência pessoal. Não se deve interpretar a Bíblia baseado em suas próprias emoções e naquilo que você julga ter sido uma experiência com o Senhor. De fato o cristão muitas vezes passa por certas situações e Deus lhe ensina, todavia, tome todo o cuidado para que as Escrituras sejam o guia que validem (ou não) a sua experiência - nunca o contrário, isto é, não utilize a experiência pessoal para interpretar a Bíblia. Fazer este tipo de coisa seria como afirmar que porque um dia você orou por alguém e tempos depois a pessoa foi curada, então todos os milagres de Jesus - por exemplo - devem ser tidos como uma ordem para você curar todas as pessoas, sem exceção (e com quem isto não acontecer, é porque a pessoa não é devota ao Senhor).

4. Muita atenção com o hiper-literalismo. Aqui é preciso haver muito cuidado, pois a Bíblia não é somente a casca da letra, como dizia Charles H. Spurgeon. Quando for às Escrituras e ler que se alguém tiver a fé do tamanho de um grão de mostarda poderá transportar os montes (Mt 13.31; 1Co 13.2), não leia como sendo algo literal, pois já imaginou que confusão seria este mundo caso pudéssemos mudar as coisas de lugar? Entenda o sentido próprio do texto, ainda que muitíssimas vezes a literalidade seja preferível à alegorização.

O modo correto de se interpretar e ler a Bíblia

1. A Escritura é a base. Todo ensinamento para a vida do cristão provém tão somente da Escritura. Ninguém deve lê-la e não ter por certo de que ela é sua regra de fé e de conduta. Toda base para a interpretação deve ser fornecida pelas próprias doutrinas bíblicas - não pela psicologia ou ciência moderna.

2. Há somente um sentido pleno e verdadeiro. Todo versículo e texto, por mais obscuro que possa parecer a nós pecadores, possui apenas um sentido. Em outras palavras, pode até ser que o texto contemple certas sugestões de interpretações, contudo, elas não podem ser excludentes entre si. Um mesmo texto não pode afirmar a soberania de Deus e dizer que o homem controla e determina o que acontecerá; não pode afirmar que Judas possuía a chance de se arrepender e de que ao mesmo tempo não possuía. Isto precisa ser verdadeiro, pois uma vez que no Senhor não há sombra de variação (Tg 1.17), então a Bíblia não pode contemplar diferentes e opostas interpretações em si mesma.

3. Geralmente o sentido é obtido pela interpretação mais natural e imediata do texto. Isto significa dizer que muitas das vezes o próprio explicará ele mesmo e a sequência natural da narrativa nos fornecerá as respostas e apontamentos para a solução da aplicação.

4. Cristo é o começo, meio e fim da Bíblia. Sempre leia as Escrituras "procurando por Cristo". Ele está em todos os livros e sempre, de alguma maneira, é o fim de todo ele - "Pois dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre! Amém" (Rm 11.36).

Resumindo:

1. Não pode haver contradição nas Escrituras: toda interpretação e doutrina extraída tem que necessariamente estar harmonizada com absolutamente todo o restante da Bíblia.

2. Pontos mais claros iluminam os mais escuros, quer dizer, toda vez que houver um texto de difícil compressão, se lembre de qual doutrina pode lançar luz sobre ele e ajudar na compreensão. Em um caso prático, quando lemos que Jesus "No qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão" (1Pe 3.19), tenha em mente que Deus é soberano, Jesus é infinitamente maior que Satanás, não há chance para um segundo arrependimento e que Cristo triunfou sobre a morte - com estas "luzes" ficará um pouco mais fácil buscar a possível interpretação. Em outras palavras, você deve ir ao texto com os pressupostos corretos.

3. Analogia da fé: isto é diferente de alegorizar o texto. A analogia da fé consiste em olhar para o Egito, por exemplo, e ver que nele estava prefigurado a escravidão do homem ao pecado e a impossibilidade de se libertar dele. A nuvem que se interpôs entre os israelitas e os egípcios, como representando a providência de Deus em fornecer ao Seu povo tempo suficiente para ir adiante e conseguir escapar do exército contrário. O mar vermelho, neste sentido, representando nosso Senhor e Salvador, cujo caminho nos leva à terra prometida e faz com que os inimigos seja mortos antes mesmos de nos alcançarem.

Ainda que exposto de modo sucinto, espero ter ajudado.

O culto online e a tentação do Diabo

Você conhece o plano de fundo deste texto olhando no retrovisor da história recente: pandemia, COVID-19... todos em casa e você se dá conta ...