segunda-feira, 9 de julho de 2012

Série: Homem e Mulher os criou - parte 15 - Homem e Mulher após a Queda - Encontrando um Cônjuge Piedoso - Sermão pregado dia 08.07.2012



Série: Homem e Mulher os criou - parte 15 -
Homem e Mulher após a Queda - Encontrando um Cônjuge Piedoso
Sermão pregado dia 08.07.2012

É de suma importância que o cristão compreenda que tão importante quanto ter um casamento firmado nas Escrituras (ainda que os cônjuges continuem sendo pecadores), é saber encontrar um cônjuge que seja firmado na Santa Palavra de Deus. Não basta ao solteiro conhecer todas as formas corretas e bíblicas de se guiar o matrimônio se não souber qual deve ser o seu parceiro(a) para toda a vida. Assim sendo, importa-nos verificar algumas formas e conselhos bíblicos sobre a maneira adequada de se encontrar um cônjuge piedoso.

1. O homem vai até a mulher - ela aguarda pacientemente no Senhor

Muitos são os jovens que se enamoram com as mais diferentes pessoas antes de contraírem uma união para toda a vida e, por consequência disto, se casam com as mais terríveis mazelas e cicatrizes que os relacionamentos anteriores lhes trouxeram. Por isso é necessário que entendamos por onde é preciso começar na "busca" por um cônjuge. Como já delineamos anteriormente, nas Escrituras quem vai até a pessoa amada é o homem; a mulher aguarda pacientemente a chegada de seu futuro cônjuge. Isto não significa que o homem deve ser um "caça-futura-esposa", nem que a mulher não possa sair e conversar com as pessoas, mas sim que a ele é devido o ir até a amada e a ela o aguardar da iniciativa dele em começar um relacionamento, afinal, assim prescrevem as Escrituras.

"Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne" (Gn 2.24). A palavra de Deus é bastante explícita em afirmar o que dissemos anteriormente, pois note como não é dito que "a mulher deixará pai e mãe", mas sim que "deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher". Este entendimento é muitíssimo importante para nossos dias, pois não são poucas as mulheres que procuram se "vender" no mercado gospel (perdoem-me a forte expressão) a fim de encontrarem um "homem de Deus". Também é igualmente verdadeiro que muitos homens não tem deixado pai e mãe, isto é, de sustentado passar a sustentador, e tem se enamorado sem a menor condição de prover sustento para sua possível casa.

Quando afirmamos que a mulher deve aguardar pacientemente o homem se achegar até ela, não estamos falando de uma proibição expressa em conversar pessoalmente, em redes sociais ou sair para um jantar. A questão a ser enfatizada é que assim como a Igreja anseia e aguarda pacientemente (paciência não é enfado, mas sim o sustendo da espera em ânimo longo) pelo Senhor, também deste modo a mulher deve proceder: "Sede pois, irmãos, pacientes até à vinda do Senhor. Eis que o lavrador espera o precioso fruto da terra, aguardando-o com paciência, até que receba a chuva temporã e serôdia" (Tg 5.7).

2. Embora a beleza seja lícita, não deve ser o único objetivo

Não - definitivamente não. Não estamos dizendo que a beleza é caso de pouca importância para o relacionamento. O que precisamos compreender é que toda beldade e "glamour" são passageiros e, dado a este fato, não podemos cogitar um relacionamento somente porque determinada pessoa possui traços físicos que nos chamam a atenção. 

Um exemplo bastante importante é encontrado no livro de Gênesis, quando Abraão mandou seu servo buscar uma mulher para seu filho Isaque. Duas coisas chamaram a atenção no servo: a beleza e a forma de se portar de Rebeca: "E sucedeu que, antes que ele acabasse de falar, eis que Rebeca, que havia nascido a Betuel, filho de Milca, mulher de Naor, irmão de Abraão, saía com o seu cântaro sobre o seu ombro. E a donzela era mui formosa à vista, virgem, a quem homem não havia conhecido; e desceu à fonte, e encheu o seu cântaro e subiu" (Gn 24.15-16). Aqui, notamos como a beleza estava também associada ao sair "com o seu cântaro sobre o seu ombro". Quer dizer, o servo de Abraão não olhou somente para Rebeca, viu o quanto era formosa e foi falar com ela - houve um ponderar das atitudes. "E, acabando ela de lhe dar de beber, disse: Tirarei também água para os teus camelos, até que acabem de beber. E apressou-se, e despejou o seu cântaro no bebedouro, e correu outra vez ao poço para tirar água, e tirou para todos os seus camelos. E o homem estava admirado de vê-la" (Gn 24.19-21 - grifo meu).

As Escrituras são enfáticas ao afirmarem esse ensinamento: "Enganosa é a beleza e vã a formosura" (Pv 31.30). William Gouge (1575-1653) acertadamente escreveu: "Se um homem tem uma esposa não muito bonita ou agradável, mas que possui algum defeito em seu corpo, alguma imperfeição no falar, no olhar, nos gestos ou em qualquer parte do corpo, [ele deve, apesar disso, ser bastante afeiçoado por ela e] deleitar-se nela como se fosse a mais linda e, de todos os modos, a mulher mais completa do mundo." [1]

Muito mais importante do que a beleza é a pureza de coração e um espírito pronto a obedecer. Quando Davi havia pecado com Bate-Seba, se prostrou diante do Senhor e clamou: "Torna a dar-me a alegria da tua salvação, e sustém-me com um espírito voluntário" (Sl 51.12). Tal qual o salmista, também devemos procurar por um cônjuge que constantemente clama por mais alegria pela salvação e também busca refúgio no Senhor e ora para que tenha um espírito voluntário de servidão.

A continuação do versículo de Provérbios enfatiza ainda mais este ponto: "Enganosa é a beleza e vã a formosura, mas a mulher que teme ao SENHOR, essa sim será louvada" (Pv 31.30 - grifo meu). Observemos que, embora o texto se refira à mulher virtuosa, por certo que não exclui o papel do homem ser temente ao Senhor. O profeta Josué expressou maravilhosamente este ponto: "Mas, se vos parece mal o servirdes ao Senhor, escolhei hoje a quem haveis de servir; se aos deuses a quem serviram vossos pais, que estavam além do Rio, ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra habitais. Porém eu e a minha casa serviremos ao Senhor" (Js 24.15 - grifo meu). Tal qual a mulher necessita primeiramente buscar temer ao Senhor (e o homem deve buscar este caráter em sua futura esposa), igualmente o homem precisa estar consciente de que sua grande ambição na vida não é simplesmente ter uma bela esposa, mas sim uma amada companheira que construa consigo uma casa que sirva diariamente ao Senhor.

3. Não se deve casar somente tendo em vista o benefício próprio

Ainda que o casamento seja próprio para uma infinidade de motivos, este, em especial, deve ser cuidadosamente analisado. O puritano William Gouge nos é útil outra vez: "O casamento é como um abrigo para aqueles que estão em perigo de sua salvação pela força das tentações à lascívia." [2] Mas, este não é único objetivo - John Cotton (1585-1652) pontuou que as pessoas devem se casar "não para satisfazerem seus próprios objetivos, mas para se tornarem mais bem preparadas nos serviço de Deus e trazê-las para mais perto dele". [3] Acima do benefício próprio, devem estar o amor ao Senhor e o amor entre cônjuges. William Whately (1583-1639) disse: "Quanto ao amor, ele é a vida, a alma do casamento; sem o amor o casamento é, em si mesmo, como uma carcaça de um homem; sim, é uma morte viva, infeliz, miserável." [4]

O apóstolo Paulo também nos ensinou sobre a importância da servidão ao próximo: "Ninguém busque o proveito próprio; antes cada um o que é de outrem" (1Co 10.24). Portanto, ao procurar um cônjuge, não se deve fazer com espírito egoísta, como que dizendo para si mesmo: "Buscarei encontrar um cônjuge bonito, que me traga prazer, que seja agradável, que me faça bem, que me seja propício, que cuide de mim, que me estime acima de todas as coisas...". O cônjuge a ser escolhido não deve ser, "selecionado" com base somente no que ele pode fazer por você, mas também no que você pode fazer por ele - "O amor... não busca os seus interesses" (1Co 13.4-5).

4. O possível cônjuge deve ter o mesmo entendimento teológico

Talvez, aqui, alguns ousem pensar que estamos indo além da "sanidade teológica" descrita pelas Escrituras. Porém, a Bíblia é clarividente em afirmar: "Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis; porque, que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas?" (2Co 6.14). O apóstolo é bastante explícito em afirmar que o cristão não deve se associar (em todos os sentidos - desde o casamento até as sociedades empresariais) com infiéis e pessoas não comprometidas com a Palavra. Entretanto, este ensino urge ser ampliado para doutrinas incompatíveis com o cristianismo verdadeiro. Isto é, embora seja fato que muitas pessoas sejam cristãs, mas que até o presente momento possuem uma compreensão errônea de determinadas doutrinas, elas também devem ser evitadas por um cristão comprometido - ou, que se passe primeiro a paulatinamente ensinar sobre a Verdade e, depois, caso haja real mudança, então contrair um relacionamento.

Pessoalmente conheço alguns jovens que "tentaram" um relacionamento com pessoas de entendimentos diversos e desconexos das Escrituras e, posteriormente, ou vieram a romper os laços ou acabaram seguindo as doutrinas perniciosas em que o cônjuge vivia. É preciso que haja compreensão neste sentido, pois embora não seja necessário pedir para que a pessoa desejada recite os símbolos de fé cristã e saiba fazer uma grande exposição sobre todos os temas bíblicos, é no mínimo necessário visualizar se há sã compatibilidade doutrinária entre eles. 

Escrevendo sobre a importância do companheirismo entre irmãos no Senhor, o autor de Eclesiastes diz: "Melhor é serem dois do que um, porque têm melhor paga do seu trabalho. Porque se um cair, o outro levanta o seu companheiro; mas ai do que estiver só; pois, caindo, não haverá outro que o levante" (Ec 4.9-10). Sendo este fato verdadeiro entre irmãos em Cristo, por que não seria aplicável também ao matrimônio? Ora, onde encontraríamos alguém que se casa com outrem e não deseja ser também ajudado em tempo oportuno? Todavia, muitos são os que agem em desacordo com este preceito, violam as ordenanças do Senhor e sofrem amargamente por seus pecados; afinal, pensam que mais importante que a doutrina é simplesmente o amor. Neste prisma, delineou corretamente Samuel Willard (1640-1707): "Muitas outras alianças são delimitadas pelos que as fazem, mas todos os deveres desta aliança [são] designados por Deus. [Portanto,] quando o marido e a mulher negligenciam seus deveres, eles não estão somente errando um contra o outro, mas também provocando a Deus, por transgredirem sua lei." [5] Ou seja, se alguém contrai matrimônio com alguém alheio à sã doutrina, não somente obtém prejuízo para si, mas também é desobediente quanto à Palavra.

5. Ambos devem entender previamente seus papéis diante do outro e do Senhor

O homem enquanto solteiro deve estar ciente de quais são as suas funções dentro do relacionamento. Conforme já descrevemos, o homem tem papel de suma importância na liderança do lar e no gerenciamento do mesmo. A mulher, de igual maneira, deve se aproximar de alguma relação sabendo também quais são suas responsabilidades, de modo que possa ser uma ajudadora idônea (Gn 2.18). Assim, o homem deve buscar uma esposa que desde a sua solteirice já demonstra submissão aos pais e às pessoas mais velhas, se veste com modéstia, possui padrões bíblicos, é temente ao Senhor e estuda diligentemente a Palavra. Semelhantemente, a mulher deve aguardar um homem segundo os padrões da Escritura, alguém que a defenda das intempéries da vida, cuide e proveja o sustento do lar, seja carinhoso e também amante do estudo da Palavra.

É necessário agir com toda esta prudência antes de se ajuntar com outrem, caso contrário pode-se colher maus frutos de um possível casamento a ser contraído. "Os puritanos Dod e Cleaver em seu A Godly Form of Household Government (Uma Forma Piedosa de Governar a Família) afirmam: 'Vejam um ao outro comendo e acordando, trabalhando e brincando, conversando, rindo e desaprovando também; ou, caso contrário, pode ser que se tenha um para com o outro menos do que se procurava, ou mais do que desejassem'." [6]

6. Passos para se iniciar um relacionamento e chegar ao casamento


Aqui, extraímos seis passos que os puritanos comumente utilizavam para até o casamento.

"Primeiro, havia o período de conhecer, gostar e amar um ao outro. Isso podia ser iniciado pelo próprio casal, pelos pais ou pelos amigos. Contudo, jovens prudentes buscariam conselhos tanto dos pais como dos amigos a respeito de possíveis companheiros conjugais. Em qualquer caso, o amor era fundamental na perspectiva puritana, pois estimula a união. Como Gouge disse: 'O amor mútuo e a boa afeição um pelo outro são como uma cola'. Essa cola sustentará um casal durante a vida conjugal, pois 'o amor não será facilmente enfraquecido por quaisquer provações'.

Segundo, havia um contrato de cônjuges, que era um compromisso de casar. Esse contrato era mais obrigatório do que nossa forma moderna de noivado. Gouge o descreve nestes termos: 'Isto, sendo feito corretamente, é um contrato, que é o começo de um casamento'. Segurando as mãos um do outro diante de testemunhas, cada parte votava: 'Eu prometo fielmente casar contigo no tempo apropriado e conveniente'. O apoio bíblico para esse contrato incluía o exemplo das filhas de Ló, que eram virgens e estavam contratadas para casar (Gn 19.8, 14), e Maria, que é descrita como uma 'uma virgem desposada' (Lc 1.27).

[Terceiro] O contrato era anunciado formalmente à igreja em três domingos sucessivos. Esses anúncios proviam uma oportunidade para que, se algum membro da igreja tivesse objeções legítimas contra o casamento, comunicasse-as por meio das canais apropriados da igreja. Se não houvesse objeções, admitia-se que a igreja dera uma 'aprovação silenciosa' ao casamento.

Quarto, o casamento era solenizado publicamente em uma cerimônia religiosa, que consistia da ministração por um pastor dos votos conjugais e de um sermão curto, seguido por uma celebração civil. Gouge descreveu a celebração civil como 'todos aqueles costumes legais que são usados para expressar a solenidade exterior [do casamento], como uma reunião de amigos, que acompanhavam o noivo e a noiva vindo e saindo da igreja, vestindo as melhores roupas, sentados, com outros símbolos de alegria; para o que temos garantia expressa da Palavra de Deus'.

Quinto, depois do culto [7], havia a festa na casa do noivo, onde 'perguntas engraças e charadas duvidosas podem ser propostas'. As perguntas e charadas que divertiam eram saudáveis e intelectualmente estimulantes; nada obsceno era tolerado, em contraste com os comentários e atitudes sugestivos que ocorrem em muitos casamentos modernos.

Sexto e último, o casamento era consumado pela relação sexual". [8]

Notas:
[1] Citado em "Vivendo para a Glória de Deus", Ed. FIEL, pág. 347.
[2] Ibid., pág. 339.
[3] Idem.
[4] Ibid., pág. 344.
[5] Ibid., pág. 343.
[6] Citado em "A Mulher Puritana", pág. 12 - publicada pelo blog Projeto Os Puritanos.
[7] Aqui, penso que "culto" não esteja significando o culto no Dia do Senhor, mas sim à cerimônia de casamento que de um modo ou de outro, se assemelha a um culto, pois há uma pregação. Todavia, caso o fato seja de um culto público, que assim se entenda que o casamento daquela época era bastante diferente das irreverentes, perniciosas e muitas vezes místicas festas que temos.
[8] BEEKE, Joel R., "Vivendo para a Glória de Deus", Ed. FIEL, págs. 339-340.

sábado, 7 de julho de 2012

Uma Palavra aos Pais


Uma das mais infelizes e trágicas características de nossa civilização é a excessiva desobediência aos pais da parte dos filhos, quando menores, e a falta de reverência e respeito, quando grandes. Infelizmente, isto se evidencia de muitas maneiras inclusive em famílias cristãs. Em nossas abundantes viagens nestes últimos trinta anos, fomos recebidos em muitos lares. A piedade e a beleza de alguns deles ainda permanecem em nossos corações como agradáveis e singelas recordações. Outros lares, porém, nos transmitiram as mais dolorosas impressões. Os filhos obstinados ou mimados não apenas trazem para si mesmos perpétua infelicidade, mas também causam desconforto para todos que se relacionam com eles e prenunciam coisas ruins para os dias vindouros.

Na maioria dos casos, os filhos são menos culpados do que seus pais. A falta de honra aos pais, onde quer que a achemos, deve-se em grande medida aos pais afastarem-se do padrão das Escrituras. Atualmente, o pai imagina que cumpre suas obrigações ao fornecer alimento e vestuário para os filhos e, ocasionalmente, ao agir como um tipo de policial de moralidade. Com muita freqüência, a mãe se contenta em desempenhar a função de uma criada doméstica, tornando-se escrava dos filhos, realizando várias tarefas que estes poderiam fazer, para deixá-los livres em atividades frívolas, ao invés de treiná-los a serem pessoas úteis. A conseqüência tem sido que o lar, o qual deveria ser "por causa de sua ordem, santidade e amor" uma miniatura do céu, degenerou-se em "um ponto de parada para o dia e um estacionamento para a noite", conforme alguém sucintamente afirmou.

Antes de esboçarmos os deveres dos pais em relação aos filhos, devemos ressaltar que eles não podem disciplinar adequadamente seus filhos, a menos que primeiramente tenham aprendido a governar a si mesmos. Como podem eles esperar que a obstinação de suas crianças sejam dominadas e controladas as manifestações de ira, se eles mesmos dão livre curso à seus próprios sentimentos. O caráter dos pais é amplamente reproduzido em seus descendentes. "Viveu Adão cento e trinta anos, e gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem" (Gn 5.3). Os pais devem eles mesmos viver em submissão a Deus, se desejam obediência da parte de seus filhos. Este princípio é enfatizado muitas e muitas vezes nas Escrituras. "Tu, pois, que ensinas a outrem, não te ensinas a ti mesmo?" (Rm 2.21). A respeito do pastor ou presbítero da igreja está escrito que ele tem de ser alguém "que governe bem a própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo o respeito (pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?)" (1 Tm 3.5). "E, se um homem ou uma mulher não sabem como dominar seu próprio espírito" (Pv 25.28), como poderão cuidar de seus filhos?

Deus confiou aos pais um solene e valoroso privilégio. Não exageramos ao afirmar que em suas mãos estão depositadas a esperança e a bênção ou a maldição e a ruína da próxima geração. Suas famílias são os berçários da Igreja e do Estado, e, de acordo com o que agora cultivam, tais serão os frutos que colherão posteriormente. Eles deveriam cumprir seu privilégio com bastante diligência e oração. Com certeza, Deus lhes pedirá contas referentes à maneira de criarem seus filhos, que a Ele pertencem, sendo-lhes confiados para receberem cuidado e preservação. A tarefa que Deus confiou aos pais não é fácil, em especial nestes dias excessivamente maus. Entretanto, poderão obter a graça de Deus, se a buscarem com sinceridade e confiança. As Escrituras nos fornecem as regras pelas quais devemos viver, as promessas das quais temos de nos apropriar e, precisamos acrescentar, as terríveis advertências, para que não realizemos essa tarefa de maneira leviana.

Instrua seu filho

Queremos mencionar aqui quatro dos principais deveres confiados aos pais. Primeiro, instruir seus filhos. "Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcar ás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te" (Dt 6.6-7). Este dever é sobremodo importante para ser transferido aos outros; Deus exige dos pais, e não dos professores da Escola Dominical, a responsabilidade de educarem seus filhos. Tampouco essa tarefa deve ser realizada de maneira esporádica ou ocasional, mas precisa receber constante atenção. O glorioso caráter de Deus, as exigências de sua lei, a excessiva malignidade do homem, o maravilhoso dom de seu Filho e a terrível condenação que será a recompensa de todos aqueles que O desprezam e rejeitam. Estas coisas precisam ser apresentadas constantemente aos filhos. "Eles são pequenos demais para entendê-las" é o argumento de Satanás, visando impedir os pais de cumprirem seu dever.

"E vós, pais, não provoqueis vossos filhos à ira, mas criai-os na disciplina e na admoestação do Senhor" (Ef 6.4). Temos de observar que os "pais" são especificamente mencionados neste versículo, por duas razões: eles são os cabeças das famílias e o governo desta lhes foi confiado; os pais são inclinados a transferir sua responsabilidade às esposas. Essa instrução deve ser ministrada através da leitura da Bíblia e de explicar aos filhos as coisas adequadas à sua idade. Isto deveria ser acompanhado de ensinar-lhes um catecismo. Um constante falar aos mais novos não se mostra tão eficiente quanto a diversificação com perguntas e respostas. Se nossos filhos sabem que serão questionados após ou durante a leitura bíblica, ouvirão mais atentamente: fazer perguntas os ensina a pensarem por si mesmos. Este método também leva a memória a reter mais os ensinos, pois o responder perguntas definidas fixa idéias específicas em nossas mentes. Observe quantas vezes Jesus fez perguntas aos seus discípulos.

Seja um bom exemplo

Segundo, boas instruções precisam ser acompanhadas de bons exemplos. O ensino proveniente apenas dos lábios provavelmente será ineficaz. Os filhos são espertíssimos em detectar inconsistências e rejeitar a hipocrisia. Neste aspecto, os pais precisam humilhar-se diante de Deus, buscando todos os dias a graça que desesperadamente necessitam e somente Ele pode dar. Que cuidado eles precisam ter, para que diante de suas crianças não digam e façam coisas que tendem a corromper suas mentes ou produzam más conseqüências, se elas as imitarem! Os pais necessitam estar constantemente alertas contra aquilo que pode torná-los desprezíveis aos olhos daqueles que deveriam respeitá-los e honrá-los. Não apenas devem instruir seus filhos no caminho da santidade, mas eles mesmos devem andar neste caminho, mostrando por sua prática e conduta quão agradável e proveitoso é ser orientado pela lei de Deus.

No lar de pessoas crentes, o supremo alvo deve ser a piedade familiar "honrar a Deus em todas as ocasiões", e as outras coisas, subordinadas a este alvo. Quanto à vida familiar, nem o esposo nem a esposa deve transferir para o outro toda a responsabilidade pelo aspecto espiritual da vida da família. A mãe com certeza tem a incumbência de suplementar os esforços do pai, pois os filhos desfrutam mais de sua companhia. Se existe a tendência de os pais serem muito rígidos e severos, as mães são propensas a serem muito brandas e clementes; portanto, têm de vigiar mais contra qualquer coisa que enfraquecerá a autoridade do pai. Quando este proibir alguma coisa, ela não deve consenti-la às crianças. É admirável observar que a exortação dada em Efésios 6.4 é precedida por "Enchei-vos do Espírito" (Ef 5.18); enquanto a exortação correspondente em Colossenses 3.21 é precedida por "habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo" (v. 16), demonstrando que os pais não podem cumprir seus deveres, a menos que estejam cheios do Espírito Santo e da Palavra de Deus.

Discipline seu filho

Terceiro, a instrução e o exemplo precisam ser reforçados mediante a correção e a disciplina. Antes de tudo, isto implica no exercício de autoridade "a correta aplicação da lei divina". A respeito de Abraão, o pai dos fiéis, Deus afirmou: "Porque eu o escolhi para que ordene a seus filhos e a sua casa depois dele, a fim de que guardem o caminho do SENHOR e pratiquem a justiça e o juízo; para que o SENHOR faça vir sobre Abraão o que tem falado a seu respeito" (Gn 18.19). Pais crentes, meditem estas palavras com cuidado. Abraão fez mais do que simplesmente dar conselhos: ele ensinou com vigor a lei de Deus e ordenou sua casa. As regras com que ele administrou seu lar tinham o objetivo de seus filhos guardarem "o caminho do SENHOR, aquilo que era correto aos olhos de Deus". Este dever foi cumprido pelo patriarca a fim de que a bênção de Deus estivesse sobre sua família. Nenhuma família pode crescer adequadamente sem leis familiares, que incluem recompensas e castigos. Isto é especialmente importante na primeira infância, quando ainda o caráter moral não está formado e as crianças não apreciam ou entendem seus motivos morais.

As regras devem ser simples, claras, lógicas e flexíveis, tais como os Dez Mandamentos. Poucas, mas relevantes regras morais, ao invés de centenas de restrições insignificantes. Uma das maneiras de provocarmos desnecessariamente nossos filhos à ira é atrapalhá-los com muitas restrições insignificantes e regras detalhadas e arbitrárias, procedentes de pais perfeccionistas. É de vital importância para o bom futuro dos filhos que estes sejam trazidos em submissão desde cedo. Uma criança malcriada representa um adulto ímpio. Nossas prisões estão superlotadas com pessoas que tiveram a liberdade de seguirem seus próprios caminhos durante sua infância. A mais leve ofensa de uma criança quebrando as regras do lar não deve ficar sem a devida correção; pois, se ela achar clemência ao transgredir uma regra, esperará a mesma clemência em relação a outras ofensas, e sua desobediência se tornará mais freqüente, até que os pais não tenham mais controle, exceto através do exercício de força brutal.

O ensino das Escrituras é claro quanto a este assunto. "A estultícia está ligada ao coração da criança, mas a vara da disciplina a afastará dela" (Pv 22.15; ver também 23.13- 14). Por isso, Deus afirmou: "O que retém a vara aborrece a seu filho, mas o que o ama, cedo, o disciplina" (Pv 13.24). E, ainda: "Castiga a teu filho, enquanto há esperança, mas não te excedas a ponto de matá-lo" (Pv 19.18). Não permita que uma afeição insensata o impeça de cumprir seu dever. Com certeza, Deus ama seus filhos com um sentimento paternal mais profundo do que você ama seus filhos, mas Ele nos diz: "Eu repreendo e disciplino a quantos amo" (Ap 3.19; cf. Hb 12.6). "A vara e a disciplina dão sabedoria, mas a criança entregue a si mesma vem a envergonhar a sua mãe" (Pv 29.15). A severidade tem de ser utilizada nos primeiros anos de uma criança, antes que a idade e a obstinação endureçam-na contra o temor e a pungência da correção. Poupe a vara e você arruinará seu filho; não a utilize e terá de sofrer as conseqüências.

É quase desnecessário salientar que as Escrituras citadas anteriormente não têm o propósito de incutir-nos a idéia de que nosso lar deve ser caracterizado por um reino de terror. Os filhos podem ser governados e disciplinados de tal maneira que não percam o respeito e as afeições por seus pais. Estejamos atentos para não estragarmos seus temperamentos, por fazermos exigências ilógicas, e provocá-los à ira, por castigá-los expressando nossa própria ira. O pai têm de punir um filho desobediente não porque ficou bravo, e sim porque é correto fazer isso. Deus o exige, bem como a rebeldia de seu filho. Nunca faça uma ameaça, se não tenciona cumpri-la. Lembre que estar bem informado é bom para seu filho, mas ser bem controlado é ainda melhor.

Esteja atento às inconscientes influências que cercam seu filho. Estude meios para tornar seu lar atraente, não pela utilização de recursos carnais e mundanos, mas por servir- se de ideais nobres, por incutir lhes um espírito de altruísmo e desenvolver uma comunhão agradável e feliz. Não permita que seus filhos se associem a más companhias. Verifique cautelosamente as revistas e livros que entram em seu lar, observe os amigos que ocasionalmente seus filhos convidam para vir ao lar e as amizades que eles estabelecem. Antes mesmo de o reconhecerem, muitos pais permitem seus filhos relacionarem-se com pessoas que arruínam a autoridade paternal, transtornam seus ideais e semeiam frivolidade e pecado.

Ore por seus filhos

Quarto, o último e mais importante dever, no que se refere ao bem-estar físico e espiritual de seus filhos, é a intensa súplica a Deus em favor deles. Sem isto, todos os outros deveres são ineficazes. Os meios são inúteis, exceto quando o Senhor os abençoa. O trono da graça tem de ser fervorosamente buscado, para que sejam coroados de sucesso os nossos esforços em educar os filhos para a glória de Deus. É verdade que precisa haver uma humilde submissão à soberana vontade de Deus, um prostrar-se ante a verdade da eleição. Por outro lado, o privilégio da fé consiste em apropriar-se das promessas divinas e em recordar que a ardente e eficaz oração de um justo produz muitos resultados. A Bíblia nos diz que o piedoso Jó "chamava... a seus filhos e os santificava; levantava-se de madrugada e oferecia holocaustos segundo o número de todos eles" (Jó 1.5). Uma atmosfera de oração deve permear o lar e ser respirada por todos os que dele compartilham.

texto por Arthur W. Pink (1886 - 1952)
Fonte: Editora FIEL

sexta-feira, 6 de julho de 2012

A mulher deve se vestir de modo que nenhum homem venha pecar por sua causa


Muitas mulheres e moças atualmente perderam seu próprio valor e muitas mulheres cristãs não tem se dado conta disso - o que acaba por as levar se vestindo conforme o mundo tem ditado; isto é, a moda. Por que digo isso?  Tenho notado o quanto muitas mulheres e moças têm se iludido ao pensarem que é bonito usarem vestimentas que mostram todas as suas curvas, tais como: roupas justíssimas delineando seu corpo, shorts e saias curtas e blusas decotadas. Mas, se fosse para ser  assim, Deus não teria vestido Adão e Eva como diz na Bíblia: "E o Senhor Deus fez túnicas de peles para Adão e sua mulher, e os vestiu" (Gênesis 3:21). Na palavra também está escrito: "Que do mesmo modo as mulheres se ataviem em traje honesto, com pudor e modéstia, não com tranças, ou com ouro, ou pérolas, ou vestidos preciosos. Mas (como convém a mulheres que fazem profissão de servir a Deus) com boas obras" (1 Timóteo 2:9-10).

Noto ainda que muitas mulheres e moças usam roupas indecentes com a intenção de chamar a atenção do público masculino. Então, questiono a vocês, mulheres, moças: por que se iludem em achar que para conquistar um homem é necessário usar roupas justíssimas delineando seu corpo, shorts, saias curtas e blusas decotadas, ou, então, se alegram e se sentem bem quando os homens as olham e as desejam? "A mulher graciosa guarda a honra como os violentos guardam as riquezas" (Provérbios 11:16).

O que significa guardar a honra? É se valorizar (mas sem ser sensual), evitar que falem mal de você (suas roupas devem refletir sua postura cristã), guardar seu corpo para seu esposo ou futuro esposo, pois somente ele tem ou terá o direito de te desejar e saber como é seu corpo. Mulheres e moças que fazem os homens terem pensamentos impuros (pecar) devido ao seu modo de se vestir, um dia com certeza serão cobradas pelo Senhor. "Ai do mundo, por causa das coisas que fazem tropeçar! É inevitável que tais coisas aconteçam, mas ai daquele por meio de quem elas acontecem!" (Mateus 18:7).

Creio que toda a mulher sonha em ser amada, respeitada e valorizada por um homem. Por isso quero lhes dizer que, para isso acontecer, você deve guardar sua honra, pois no momento que você não a guarda, acaba perdendo o que você mais gostaria de ter de um homem: amor, respeito e valor.  Não é se vestindo com trajes vulgares que irá conquistar verdadeiramente um homem; talvez você até o conquiste, mas é por um pequeno tempo - ou seja, até o tempo de seu corpo permanecer bonito, e isso infelizmente será por poucos anos. Se assim você agir, não poderá reclamar se for deixada, pois você o "conquistou" apenas com seu corpo bonito, e não com o seu caráter, afinal, no momento em que a beleza externa deixa de existir, o "amor" perece. Todavia, se você conquistá-lo com seu caráter e ele realmente gostar de você por seres uma mulher virtuosa e com temor ao Senhor, então ele te amará até que a morte os separe, pois o caráter prevalece pela vida toda, mas a beleza é apenas por um determinado tempo. "Enganosa é a beleza e vã a formosura, mas a mulher que teme ao SENHOR, essa sim será louvada" (Provérbios 31:30). 

Antigamente as mulheres por um acaso usavam roupas indecentes como as de hoje? E seus casamentos eram duradouros. Quem antigamente usava roupas curtas, decotadas e justas? Perdoem-me, mas nem preciso dizer quem eram essas mulheres.

Pergunte, portanto, a um homem de Deus, qual mulher ele escolheria para ser sua esposa: aquela que se veste com roupas justíssimas delineando seu corpo, shorts e saias curtas e blusas decotadas ou aquela que guarda seu corpo para seu futuro esposo. Creio que um homem verdadeiramente de Deus escolheria aquela que se valoriza e guarda sua honra.

Algumas perguntas, para nossa reflexão:

- Com que intuito tenho me vestido? 
- Porque me visto com roupas curtas, decotadas e apertadas?
- O que pretendo com isso? 
- Vou glorificar a Deus? 
- Serei bem vista com as roupas que estou usando? 
- Será que com essa roupa nenhum homem vai me olhar e pecar? 

"Portanto, quer comais quer bebais, ou façais, qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus" (1 Coríntios 10:31).

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Texto por Letícia Fernanda da Silva

Segue abaixo um excelente vídeo sobre o assunto:

quinta-feira, 5 de julho de 2012

O Governo Civil como Expressão da Ética Populacional


Muito se tem dito sobre as formas corretas de se reger um povo, as melhores maneiras de governá-lo e com que vigor se deve aplicar as leis e princípios que norteiam toda a esfera governamental. Também tem se frisado a importância do governo ser relevante para a sociedade, de modo que as autoridades sejam a real expressão do que o povo deseja e está convicto de que precisa. Há, igualmente, muita tendência de se desejar um governo puro, justo, igualitário e que reflita a verdadeira ética da proclamação de direitos sociais, de modo que todo discurso circunda os mais diversos arraiais doutrinários, levando alguns pensadores em estímulo à luta por tal ensejo e, muitas vezes, a falecerem na labuta por tal garantia. Todavia, frequentemente, quase todas as teorias têm se esquecido (por negligência ou omissão voluntária) de que o governo civil, em si mesmo, já é uma expressão do povo. Quer dizer, o fato de haverem governantes sobre um determinado povo e localização, já é intrinsecamente a visualização da ética comum alçada ao poder limitado para comandar, legislar e julgar os fatos cotidianos das milhares de miríades de intenções e – por vezes – votos que os levaram até lá. Assim, se patenteia que a luta por um governo mais ético já está perdida – não por causa explícita do poder, mas sim devido ao povo. Explico.
Embora a luta por um governo justo e íntegro seja válido e necessário, não podemos esquecer-nos de que o homem é mau e suas inclinações são sempre de acordo com suas vontades e desejos. Vemos com espantosa clarividência que sempre predomina com grande vigor o interesse próprio, as concupiscências do ego e insaciável vontade de se ter os próprios pressupostos pessoais tidos como regras para todos. Por causa deste motivo, desdobram-se uma infinidade de erros e disparidades para com aquilo que se professa no campo das ideias e de como isso reflete no modo de agir. As ideias, por serem o elemento subjetivo da ação, muitas vezes tendem a ser boas, ligeiramente honestas e com finalidades quase que somente altruístas. Todavia, quando as tais são reveladas na prática horizontal e vivencial, se demonstra a imundícia e calamidade que habita em tais redutos. 

Ainda que as intenções de modificar o governo civil – e, por que não, toda forma de governo – sejam úteis e traduzam a vontade do povo em não se acomodar com o que lhes é desgostoso, é mister a compreensão de que tal prática advém dos ditames erroneamente fundados, pois a forma de governo é consequência necessária da ética de um povo. Por mais que se critiquem os governantes e toda sorte de pessoas que estão em hierarquia superior, o câncer não reside apenas neles, mas em todos. A sociedade é culpada pelos governantes que têm, pois seus próprios ideais são destituídos de boa-fé verdadeira e real ética pressuposicionalista idônea. Isto é, dito de outra forma, a população deseja um governo justo, mas ela não é justa; crêem que precisam de governantes firmes em suas batalhas, mas ela não é com relação às outras áreas de sua vida; pensam que os governantes deveriam ser pessoas honestas e que não se deixem levar por dinheiro, ambição egoísta e falcatruas de toda natureza, mas ela é tão perversa quanto eles, pois não são poucas as vezes que se deixam corromper pelas mais diferentes situações e ocasiões que lhes proporcionam o vislumbrar de uma chance de atropelar e alçar vôo destruidor sobre outrem. 

Vislumbra-se, neste sentido, que o governo civil, tal qual temos no atual momento em nossas terras tupiniquins – apenas para se falar com relação ao presente viver -, em si mesmo, já é expressão característica da miséria de seu povo. A ética populacional, neste sentido, é diretamente refletida em seus governantes, pois uma vez que pudesse haver justiça e verdadeira moral reinando naquele, este nada poderia fazer, exceto ecoar aquele que lhe inseriu no poder, afinal, este último, nada mais é do que fruto do primeiro. Tal entendimento se evidencia mui diferentemente e claramente quando os governantes exalam o bom perfume e firme diretrizes de seu povo arraigado não em uma ética evolutiva e temporal, mas sim fixa, e, portanto, eterna. É fato que não se pode conferir brilhantismo de ideias e pleno legislar e julgar de acordo com a reta doutrina, tão somente tomando assento governamental; entretanto, paira para além da dúvida que é verdadeiro o dito de ser possível se estabelecer um padrão de maior sustentabilidade ética, afinal, quando há um povo estabelecido sobre tal preceito fundamental – aqui, defendido como sendo ad infinitum e, não, advindo do homem mortal -, então se visualiza o devido executar dos retos padrões determinados; apesar do mau ainda não ter sido expurgado por completo da esfera terrestre.
Neste prisma, é necessário que se compreenda que antes do desejo de modificar o outro, isto é, os governantes, é salutar, que haja uma mudança no homem interior. Assim lemos na Bíblia, o documento ímpar dos cristãos: "E viu o SENHOR que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente" (Gênesis 6.5). Sendo todos os homens inclinados para o mau, então, antes de desejarmos uma reforma no exterior e no próximo, que se comece pelo seu próprio coração. Jesus, o único salvador do homem perverso – e quem foge a este atributo? -, há muito também já havia salientado esta necessidade: "E por que reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho?" (Mateus 7.3). O homem natural precisa ser modificado para que o governo também seja. Não é crível desejar sustentar uma ordem cível mais pura e destituída de corrupção, antes de se transformar os desígnios do homem iníquo. 
O governo civil, portanto, reflete a ética de um povo. Acertadamente que há ressalvas quanto à corrupção generalizada e ramificada em todos os círculos sociais; todavia, ao se observar de um ângulo macro para a nação, é plenamente compreensível o entendimento de que ela ainda está embrenhada em dissoluções morais, mortais e péssimos costumes estão arraigados em sua tenra juventude constitucional. Destarte, não há que se falar em um governo mais justo, e, sim, primeiramente em uma sociedade mais regrada. E, para que ninguém pense que estamos a falar de utopia, que se relembre ainda outra vez das intenções ocultas do próprio coração e traga à memória as incontáveis vezes que já se desviou da moralidade mínima e desejou com todo vigor mais a sua vontade de que a verdadeira moral. 

Assim sendo, que não se lamente pelos governantes, mas sim que se chore pela falta de ação e inércia diante da perversidade crescente em si mesmo.

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*texto escrito em ocasião de um trabalho de faculdade.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Tentações no Trabalho Ministerial


Contudo, nesta obra, como em todas as outras, tive tentações de vários tipos. Às vezes, em meu trabalho, eu era atacado com grande desânimo, medo de não ser capaz de pronunciar uma única palavra de edificação ou até de não conseguir falar qualquer coisa que tivesse sentido para as pessoas. Nessas ocasiões, uma estranha debilidade e falta de vigor sobrevinha ao meu corpo, de modo que minhas pernas mal podiam carregar-me ao lugar onde tinha de falar.

Em outras ocasiões, enquanto estava pregando, era violentamente assaltado por pensamentos blasfemos e fortemente tentado a expressar esses pensamentos em voz alta, na presença da congregação. Algumas vezes, mesmo quando começava a pregar a Palavra com bastante clareza, com testemunho fiel e liberdade de discurso, antes que chegasse ao fim, eu ficava tão desconcertado e desviado das coisas sobre as quais estava falando, e minha locução, tão obstruída, que eu parecia não saber nem lembrar o que estava fazendo ou parecia que minha cabeça estivera numa sacola todo o tempo em que preguei.

Às vezes, quando eu estava para pregar sobre alguma passagem penetrante e desafiante da Palavra, o tentador sugeria: "O quê?" Você vai pregar isso? Isso te condena; sua própria alma é culpada disso, não pregue sobre isso de jeito nenhum, ou, se o fizer, interprete e aplique o texto de maneira que lhe permita escapar, a fim de que, em vez de despertar outros, você não coloque tanta culpa sobre sua própria alma, de forma que nunca possa se recuperar". Mas, graças ao Senhor, fui guardado de consentir com tão horrendas sugestões e, à semelhança de Sansão, tenho me inclinado com toda a minha força a condenar a transgressão e o pecado onde quer que os encontre, mesmo que, ao fazê-lo, traga, de fato, culpa sobre minha consciência. Morra eu, pensei, como os filisteus (Jz 16.30), ao invés de lidar de um modo corrupto com a bendita Palavra de Deus. "Tu, pois, que ensinas a outrem, não te ensinas a ti mesmo?" É melhor trazer juízo sobre si mesmo, pregando plena e fielmente a outros, do que deter a verdade pela injustiça, a fim de proteger-se do poder condenador da Palavra. Bendito seja Deus por seu socorro também aqui!

Ao realizar eta bendita obra de Cristo, também era frequentemente tentado ao orgulho e à altivez de coração. E, embora não ouse dizer que não fui afetado por estas coisas, o Senhor, em sua preciosa misericórdia, lidou comigo de tal modo que, na maioria das vezes, tive apenas o mais tênue desejo de ceder a essas coisas. A cada dia meu quinhão tem sido o de ser exposto à maldade de meu próprio coação e ser capacitado a ver uma multidão de corrupção e fraquezas que há nele. Isso me tem feito curvar a cabeça de vergonha, diante de todos os meus dons e de tudo que tenho alcançado. Tenho sentido esse espinho na carne, até a misericórdia de Deus para comigo (2 Co 12.89).

por John Bunyan (1628-1688)
Fonte: Graça Abundante ao Principal dos Pecadores (autobiografia do autor), págs. 138-139.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Efésios 1.17 - O Conhecimento de Deus - Exposição em Efésios - Sermão pregado dia 01.07.2012


Efésios 1.17 - 
O Conhecimento de Deus - 
Exposição em Efésios - 
Sermão pregado dia 01.07.2012

Esta pregação que tivemos foi gravada em vídeo - clique no link para assistir: http://twitcam.livestream.com/arg4d

"Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos dê em seu conhecimento o espírito de sabedoria e de revelação" (Ef 1.17).

No versículo anterior o apóstolo nos rememorou acerca da importante tarefa que os crentes em Cristo Jesus têm de amarem uns aos outros e zelarem pela união em torno do Salvador. O amor para com a causa de Cristo deve fazer com que a família da fé se una concomitantemente em favor do Reino de Deus e juntos trilhem suas peregrinações, a fim de - também - demonstrar aos habitantes deste mundo que de fato não estão presos ao presente tempo, e sim que buscam juntos, no amor de Cristo, uma cidade melhor (Hb 13). Tendo delimitado esta importante doutrina e lhes animado ao dizer que continuamente intercedia por eles, agora lhes revela sobre o que orava ao Senhor em favor dos irmãos.

É necessário que haja compreensão da palavra de Deus para que entendamos qual seja "a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus" (Rm 12.2). Todavia, o conhecimento de Deus não pode ser alcançado por meios meramente racionais ou com muita erudição e leitura acima da média. O apóstolo, então, deixa explícito que orava a Deus para que os irmãos tivessem um espírito de "sabedoria e de revelação". Esta oração de Paulo é por demais importante para todos nós, pois é deveras salutar que compreendamos o que vem a ser a obra de Cristo e que implicações práticas ela tem em nossa vida. Se o apóstolo simplesmente tivesse orado para que os irmãos tivessem "mais sabedoria", seria de se supor que ele estaria afirmando que o homem já possui um conhecimento inerentemente bom em si mesmo. Porém, por orar a fim de que lhes fosse concedido o poder de compreensão das coisas celestiais, então se faz necessário o entendimento de que o homem necessita da iluminação de Deus para compreender ao Senhor. [1] 

Isto nos leva a três raciocínios principais:

Em primeiro lugar, é mister que entendamos a cegueira que se abate sobre o homem natural com respeito ao conhecimento de Deus. Embora seja fato que exista uma revelação natural (delineada nos primeiros capítulos de Romanos), ela não é capaz de conferir o verdadeiro conhecimento regenerador do Senhor. O entendimento obscurecido que os homens têm sobre as coisas do Alto foi expresso pelo próprio Senhor quando disse: "Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não vêem; e, ouvindo, não ouvem nem compreendem" (Mt 13.13). O homem não transformado pelo Espírito Santo não é capaz de entender a mensagem do evangelho - foi isto que Paulo também afirmou: "Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos" (1Co 1.23). Aos judeus era um escândalo afirmar que o seu rei estaria posto em uma cruz (Dt 21.23); já para os gregos e sua erudição que lhes era peculiar, afirmar que Cristo era mais poderoso do que todos os seus "deuses", também lhes era completamente insano.

Em segundo lugar, muitos podem compreender parcialmente a verdade cristã, mas nunca serem verdadeiramente transportados para o reino da luz. Lembremos com temor e terror do próprio Faraó, que apesar de ter visto as maravilhas que o Senhor havia feito no Egito, de modo algum foi transformado pelo Senhor. Assim como ele, muitos procedem desta maneira, de forma que por anos a fio podem vir diligentemente à igreja, assentarem-se nos primeiros bancos e levarem muitos convidados para o culto - porém, nunca foram fielmente transformados. Aqui, entretanto, se faz a ressalva dita pelo próprio Senhor: "Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora" (Jo 6.37). Isto é, o que estamos a pontuar não é que o Senhor rejeitará os que estão de coração contrito em Sua presença, mas sim todo aquele que meramente está engajado na "vida cristã" apenas em busca de uma moralidade mínima.

Em terceiro lugar, o conhecimento de Deus não se processa de forma instantânea. Observemos, por exemplo, a vida do apóstolo Pedro. Quantas foram as vezes que aquele santo vacilou em sua fé e não compreendeu o senhorio de Cristo? Afirmou precipitadamente que nunca abandonaria o Senhor (Mt 26.33), mas por três vezes violou a própria declaração; vendo Jesus andando sobre as águas, pediu que Ele confirmasse Seu poder e ordenasse que ele fosse até Sua direção (Mt 14.28), mas tão logo iniciara a andar e já lhe faltou fé; após Jesus ter afirmado que deveria ir à Jerusalém e morrer, ele tentou lhe persuadir sobre em que grande erro supostamente estaria incorrendo, ao passo que foi advertido severamente pelo Senhor (Mt 16.23); foi também repreendido pelo apóstolo Paulo (Gl 2.11), pois teve medo dos judeus o verem comendo com gentios.

É a partir desde ponto que começamos a vislumbrar a imperiosa obra que Deus realiza na vida dos crentes, de modo que compreendam a verdade bíblica por meio de um espírito de sabedoria e revelação. Notemos, portanto, as três categorias principais que o apóstolo descreve:

1. O conhecimento é vindo de Deus. 

Penso que poucas coisas sobrepujem a alegria cristã de saber que todo nosso conhecimento não vem por meios meramente humanos, mas sim que é o Senhor quem infunde em nós através de Seu Espírito Santo. Por tal conhecimento ter como fonte o próprio Deus, então se patenteia de maneira belíssima a certeza de podermos crer que a revelação que hoje temos é a do próprio Senhor revelado a nós. Observe como a linha de pensamento de Paulo é sequencial - a fim de que os crentes de Éfeso pudessem entender melhor: 

1. Deus os abençoou com bênçãos em Cristo Jesus (Ef 1.3); 
2. Assim o fez e os elegeu antes da fundação do mundo (Ef 1.4); 
3. Os predestinou para adoção por e em Cristo (Ef 1.15); 
4. Lhes mostrou os mistérios de Sua vontade (Ef 1.9); 
5. Foram criados para louvor do Senhor (Ef 1.12); 
6. Podem ter a segurança da vida eterna (Ef 1.14); 
7. Não estavam sozinhos, pois o apóstolo compartilhava das graças de Deus por eles (Ef 1.15-16);
8. Deus os faria a cada dia mais conscientes de Sua sabedoria e revelação (Ef. 1.17-18)...

Tal compreensão nos leva à percepção de quão maravilhoso é o dom que o Senhor nos tem concedido, a ponto de podermos receber o conhecimento diretamente vindo de Deus! Nenhum filósofo não cristão conseguiu obter tal conhecimento! Leia atentamente e veja que o apóstolo cita unicamente "o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória" como fonte de sua intercessão em favor dos irmãos. Ele não ora para que o mundo lhes ensine coisas boas, para que os amigos digam qual e como deve se processar o conhecimento... O apóstolo somente roga ao Deus todo poderoso para que lhes visite e paulatinamente os encha de Seu conhecimento. Assim, nós também podemos ser confortados com a mensagem bíblica diária e as demais disciplinas espirituais (oração, jejum meditação...), afinal, nosso conhecimento não tem como fonte algo perecível, mas sim o próprio Deus eterno.

2. Espírito de sabedoria.

Muitos são os homens que se julgam sábios segundo suas próprias vontades e fazem de Deus uma espécie de bolha de sabão selvagem. Você consegue imaginar tal anomalia - uma bolha de sabão cruel, perversa, sem mente e coração, mas poderosa para fazer o que deseja? Assim como a visualização desta suposta "coisa" é um tanto quanto infantil e destituída de princípios coerentes, de forma muito semelhante é o que muitos pretendem fazer com Deus e com Sua sabedoria. Ao olharem para as Escrituras, não enxergam nela a palavra do Senhor, a ira de Deus, Sua justiça, as boas novas do evangelho, a graça e perdão do Altíssimo para todo aquele que n'Ele crê...Tão somente visualizam um apanhado de certa moralidade reguladora para a sociedade, de forma que acabam por distorcer completamente a verdadeira sabedoria de Deus, pois não a tem como bem mais supremo de suas vidas.

A verdadeira sabedoria que Deus infunde no homem é imutável e, por não ter em Si qualquer sombra de variação (Tg 1.17; 2Tm 2.13), deve ser sempre a mesma no decorrer dos séculos. É por esta razão que frequentemente se recorre aos antigos escritos e se tenta persuadir os demais para que visualizem o que já foi escrito e exposto sobre as doutrinas, pois de forma alguma pode ser possível que no primeiro milênio da vida cristã o ensinamento tenha sido um e, agora, no segundo, tenhamos outra "sabedoria". É certo afirmar que frequentemente ocorrem épocas de maior ou menor visualização dos preceitos divinos; que ora se está mais inclinado para uma área do que outra (por causa do pecado humano) - entretanto, se a sabedoria é vinda diretamente do próprio Deus, então a Sua palavra não pode conter, duas, três, quatro ou mais interpretações completamente desconexas.

Friso este ponto porque (muitíssimo infelizmente! oremos ao Senhor para que reverta este quadro) quantas são as pessoas que se achegam ao lado da verdade e ao ouvirem a mensagem bíblica, dizem: "Eu penso diferente; na verdade, nem ao menos posso concordar parcialmente com você... mas o que importa é Jesus - amém?" Não que sejamos perfeitos - longe de nós afirmar tal coisa -, mas o ponto é: como pode ser possível que Jesus tenha uma lista sem fim de ensinamentos contraditórios? Quer dizer, ou Ele nos deu um espírito de sabedoria e nos ensina por meio de Sua palavra (o único meio de revelação que temos hoje) algo que é comum para todos os cristãos ou vamos começar a ter uma infinidade de "cristãos" que pensam coisas completamente avessas. Veja, por exemplo, quantos são os professos da fé cristã que creem que possuem livre arbítrio - todavia, onde isto é encontrado nas Escrituras? Por outro lado, há também professos da fé cristã que afirmam que tal coisa não existe, "Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade" (Fp 2.13). Alguns afirmam que ainda existem dons especiais de cura por meio de pessoas; contudo, outros afirmam que tais dons já cessaram. 

Neste prisma, o próprio Cristo nos ensinou sobre a importância da unidade de compreensão: "Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna" (Mt 5.37). Deste modo, se precisamos cumprir o que dizemos, também se depreende o entendimento de que os crentes devem ressoar em uníssono o "sim" e o "não", de forma que a palavra de Deus não venha a ser envergonhada diante do mundo que não conheça a Sua sabedoria - "Todo o reino dividido contra si mesmo é devastado; e toda a cidade, ou casa, dividida contra si mesma não subsistirá" (Mt 12.25)

Assim, embora seja prudente fazer a ressalva de que é por causa do pecado que existam tantas interpretações e apesar disso o Senhor ainda salvará a muitos, devemos compreender que a sabedoria que os cristãos possuem no Senhor deve ser una e harmônica, pois uma vez que devemos amar e orar por nossos irmãos (como vimos no versículo passado), então é necessário que oremos por coisas comuns a todos e que sejam descritas em sintonia nas Escrituras, caso contrário estaremos professando uma fé em um "Senhor" que nem ao menos sabe como guiar seu povo, pois contém uma gama tão grande de variações e interpretações que se torna impossível conhecer sua verdadeira vontade.

3. Espírito de revelação.

Que ninguém leia este ponto com olhos brilhosos e pense em revelações extraordinárias - isto não acontece mais. Penso já ter pontuado vezes suficiente, mas ainda outra vez, para ressaltar, lemos sobre a importância de somente termos a Escritura como fonte de nossa revelação: "Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra" (2Tm 3.16-17). Em momento algum o apóstolo nos fala que "todo conselho do 'profeta' do século XXI é inspirado por Deus", ou ainda, "todo dom de revelar fatos sobre a vida de alguém é inspirado" - nada disto! Há somente uma coisa grandemente inspirada pelo Senhor e que nos tornará "perfeitamente instruído para toda a boa obra": "Toda a Escritura".

O espírito de revelação que Paulo roga ao Senhor não diz respeito a novas revelações, mas sim de poder de compreensão da Santa Palavra. Lembremos do que vimos em alguns versículos anteriores, quando Paulo escreveu dizendo que o Senhor "[Descobriu-nos] o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo" (Ef 1.9). Este descobrimento, isto é, o fazer entender de Sua vontade, é o espírito de revelação. Bem sabemos que o homem por si mesmo não consegue alcançar o conhecimento da Verdade - por isso é necessário que o Espírito Santo de Deus o fortaleça e o guie em toda verdade, conforme lemos: "Mas, quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade" (Jo 16.13) Esta promessa de Jesus foi feita antes do derramamento pleno de Seu Espírito, de modo que após este tempo, para os judeus foi revelado as glórias de Cristo e aos gentios (que é o nosso caso e da igreja de Éfeso) foi demonstrado grande benevolência, pois em outros tempos andávamos em trevas e não conhecíamos ao Senhor (Ef 1.11-13; 2.1).

Portanto, a revelação que Deus nos dá por Sua graça e misericórdia está contida tão somente em Sua palavra. Assim, com gratidão no coração podemos compreender a Sua Lei e sermos maravilhados por Seu grande amor para conosco. Quando os crentes recebem o espírito de sabedoria e revelação vindos de Deus, então eles se regozijam grandemente, pois já não são estranhos à promessa, "A saber, que os gentios são co-herdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho" (Ef 3.6).

Que o Senhor possa nos levar em toda a Sua verdade e que a cada dia sejamos mais dependentes do Espírito Santo que nos guia em toda a verdade, a fim de que possamos nos gloriar somente em Cristo, o único salvador - "O qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória" (Ef 1.14).

Nota:
[1] Este assunto será mais bem tratado no versículo seguinte.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Série: Homem e Mulher os criou - parte 14 - Homem e Mulher após a Queda - Divórcio e Novo Casamento - Sermão pregado dia 01.07.2012




Série: Homem e Mulher os criou - parte 14 -
Homem e Mulher após a Queda - Divórcio e Novo Casamento
Sermão pregado dia 01.07.2012


Este estudo bíblico que tivemos foi gravado em vídeo - clique no link para assistir: http://twitcam.livestream.com/arcex

Uma vez demonstrado alguns direitos e deveres com relação aos solteiros e casados no Senhor, é necessário que agora nos foquemos no segundo grupo - os casados - e entendamos como se processa biblicamente esta questão. Todavia, uma vez que para se alcançar o correto entendimento é preciso ter os pressupostos adequados, isto é, saber da onde partir e para onde ir, nos lembremos de algumas questões:

Em primeiro lugar, recordemos do que já lemos: "Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne" (Gn 2.24). Observemos que tal declaração se encontra antes da queda ao pecado, ou seja, é um imperativo (ordem) não com base na fragilidade humana, mas sim no firme decreto de Deus. Precisamos levar isto em conta, pois muitos se esquecem desse ponto e acabam por atropelar os demais ensinos matrimonias. O princípio estabelecido por Deus é para que homem e mulher não se separem. Em segundo lugar, como já nos é conhecido, o Antigo Testamento também é parte das Escrituras e plenamente apto para nos ensinar - é o que o apóstolo Paulo escreve para Timóteo em sua segunda carta a ele (2Tm 3.16-17). Naquela época o Antigo Testamento já era completo, ao passo que o Novo Testamento, por óbvio, ainda estava sendo escrito; assim, se verifica como o Antigo Testamento é também [sempre em conjunto com o Novo] eficaz para nos instruir no conhecimento do Senhor. Em terceiro lugar, não nos esqueçamos de que o Senhor é completamente soberano para fazer tudo o que deseja. Quer dizer, sendo Ele onipotente, então não compete ao homem natural buscar interpretar as Escrituras meramente por sua razão, o que nos leva, portanto, sempre a recorrer ao Espírito Santo que nos guia em toda a Verdade divina (Jo 16.13). Em quarto lugar, reconhecemos que homens e mulheres tomam atitudes erradas em suas vidas e devem pagar por elas - e isso inclui o divórcio (e suas consequências). O perdão do Senhor não exclui o pagamento pelo erro. Um fato claro e que explicita esse entendimento é o ladrão da cruz que foi salvo. Se todas as vezes que fôssemos perdoados pelo Senhor tivéssemos que ser perdoados também das mazelas da vida, então aquele ladrão deveria ter sido liberto por Cristo do madeiro e prontamente ter seus direitos ressarcidos, pois uma vez que em Deus não há sombra de variação (Tg 1.17), não é crível que entendamos que Deus abrira uma "exceção" para o ladrão. Por isso precisamos entender que meramente pedir perdão ao Senhor não nos isenta do castigo civil, penal, ou, quem sabe, até mesmo emocional.

Com esses pressupostos em mente, vejamos algumas notas importantes de ambos os testamentos e de que forma eles tratam a indissolubilidade do casamento e as consequência de o violar.

É preciso pontuar que o divórcio, seja de que forma for e sob as circunstâncias em que ocorrerem, não agrada ao Senhor. Assim lemos: "Então chegaram ao pé dele os fariseus, tentando-o, e dizendo-lhe: É lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo? Ele, porém, respondendo, disse-lhes: Não tendes lido que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez, E disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e serão dois numa só carne? Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem. Disseram-lhe eles: Então, por que mandou Moisés dar-lhe carta de divórcio, e repudiá-la? Disse-lhes ele: Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres; mas ao princípio não foi assim" (Mt 19.3-8). Jesus Cristo afirmou àqueles homens que no "princípio não foi assim" (v. 8), pois "deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e serão dois numa só carne? Assim não são mais dois, mas uma só carne" (v. 5). Tal qual não é possível rasgar um bife ao meio sem se arrebentar os nervos e fibras musculares do mesmo, de igual modo se dá com o divórcio, afinal, tendo por certo que após o casamento, " não são mais dois, mas uma só carne", toda divisão será uma violação do princípio unitário do matrimônio. Assim, nesta passagem, Jesus estava afirmando que a ordem estabelecida não contemplava o divórcio como uma possibilidade. Isto é, uma vez que no capítulo segundo de Gênesis lemos sobre a unidade do homem e da mulher e isto está registrado antes da queda, então fixemos em nossos corações que o divórcio é fruto do pecado humano.

Jesus também lhes frisa sobre a importância deste entendimento, a ponto de afirmar que todo casamento, isto é, união de homem e mulher perante Deus (o casamento é um voto) e de acordo com a lei dos homens (desde que não firam as regas bíblicas), é feito e cimentado pelo próprio Senhor: "Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem" (v.6). Aqui, se demonstra grande refutação ao que comumente se entende desta sentença, pois não são poucas as pessoas que repetem o presente versículo como se ele dissesse: "Portanto, o que Deus ajuntou o homem não separa", como que reivindicando que os casamentos e uniões que se dissolvem, na verdade, nunca foram unidos pelo Senhor. Por o texto ser por demais clarividente e afirmar que é os cônjuges não devem se apartar da união e, portanto, acabar derribando por completo esta falácia, nem nos deteremos nela. Todavia, que fique estabelecido que o Senhor ordena que o homem (sentido genérico) não se aparte de seu cônjuge, pois uma vez unido, se deduz (ou é assim que deveria ter sido) que ambos uniram-se em matrimônio sendo cônscios de seus direitos e deveres do Senhor. [1]

Porém, embora este texto de Jesus seja muito claro, ele não esgota o tema. Deste modo, penso que toda sorte de dúvidas e intrigas teológicas quanto ao divórcio surjam porque muitas vezes se despreza a Lei de Deus do Antigo Testamento. Quer dizer, certamente que o Novo Testamento é o cumprimento de muitíssimas promessas do Antigo, mas isso não significa que o Senhor revogou a Sua Lei. [2] Então, tendo em mente que o Antigo Testamento e Sua Lei (também as civis) são boas e adequadas para nós (apesar de muitas vezes nos espantarem), visualizemos primeiramente como ela trata do divórcio (para posteriormente voltarmos ao Novo Testamento):

A pena de morte pelo adultério:

"Também o homem que adulterar com a mulher de outro, havendo adulterado com a mulher do seu próximo, certamente morrerá o adúltero e a adúltera" (Lv 20.10). Não somente o adultério era condenado à pena capital, mas também o assassinato (Êx 21.12), sequestro (Êx 21.16), ter relação sexual com animais (Êx 22.19), homossexualismo (Lv 20.13), ser um falso profeta (Dt 13.5), prostituição e estupro (Dt 22.4). Aqui,  já de imediato pontuamos sobre a importância de se reconhecer que a pena de morte na Bíblia nunca visou incitar o ódio e "alegria" por ver a morte alheia, mas sim a preservação da vida. Ao se punir o malfeitor da sociedade, algo fica clarividente aos demais: não se deve cometer aquele mesmo ato, caso contrário poderei também ser punido. A pena capital, portanto, tem duplo sentido: punir o ofensor e alertar os demais para que não procedam de tal modo.

Paulo, em Romanos 13.1-5, afirma que de fato as autoridades civis podem e devem executar tais pessoas - não pelo desejo de sangue, mas de justiça e autorização divina para tal. O apóstolo também deixou este ponto claro ao declarar que ele mesmo estava disposto a sofrer tal sanção penal, caso fosse verdadeiramente culpado: "Se fiz algum agravo, ou cometi alguma coisa digna de morte, não recuso morrer; mas, se nada há das coisas de que estes me acusam, ninguém me pode entregar a eles; apelo para César" (At 25.11 - grifo meu). Em nenhum momento vemos o apóstolo apelando, escrevendo ou dizendo algo desta natureza: "Basta disto, homens! estamos no Novo Testamento! Eu sei que vocês antigamente foram ensinados a matar, mas agora o momento é outro, a Lei é outra... ." Este pensamento simplesmente seria estranho e maligno para Paulo, pois ele amava o Senhor e reconhecia que Sua Lei era boa, justa e eficaz (Rm 7.7).

Muitos estranham o fato de se punir um adúltero com a morte, mas são poucas as pessoas que sabem que até 2005 nosso ordenamento jurídico contemplava o adultério como crime! Isto mesmo, cometer adultério era crime e resultava detenção de 15 dias até 6 meses. Todavia, artigo foi revogado Lei nº 11.106, de 2005 - fazendo com que tal prática entrasse na "adequação social", isto é, deixou de  ser crime por passar a ser normal. Ainda há aqueles que desconhecem que o Código Penal Militar (apenas para exemplificar como ainda estes desvios morais são punidos), no seu artigo 235, prevê a sanção de detenção de 6 meses a um ano por quem pratique pederastia: "Pederastia ou outro ato de libidinagem - Praticar, ou permitir o militar que com êle se pratique ato libidinoso, homossexual ou não, em lugar sujeito a administração militar". Deste modo, se depreende que a pena de morte pela adultério não é "tão estranha assim", afinal, em nosso próprio pais ainda temos certas sanções por coisas desta natureza - sem falar que o Brasil também autoriza a pena de morte em caso de guerra.

Por prezarmos pelo princípio da unidade das Escrituras, então não podemos colocar a palavra do Senhor contra Ele mesmo, ou seja, se no Antigo Testamento havia a penalidade e o pagamento respectivo com a própria vida (o que não excluía a salvação - lembre-se do ladrão da cruz que, apesar de morto, foi salvo) e o próprio apóstolo concordou com tal lei aplicada pelos romanos, então, antes de recusarmos essa Lei, devemos - no mínimo - procurar algum ensinamento bíblico que nos diga o contrário.

Muitos de fato procuram por tal ensinamento contra a pena de morte e frequentemente citam o caso da mulher adúltera trazida até Jesus: "E os escribas e fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério; E, pondo-a no meio, disseram-lhe: Mestre, esta mulher foi apanhada, no próprio ato, adulterando. E na lei nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes? Isto diziam eles, tentando-o, para que tivessem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia com o dedo na terra. E, como insistissem, perguntando-lhe, endireitou-se, e disse-lhes: Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela. E, tornando a inclinar-se, escrevia na terra. Quando ouviram isto, redargüidos da consciência, saíram um a um, a começar pelos mais velhos até aos últimos; ficou só Jesus e a mulher que estava no meio. E, endireitando-se Jesus, e não vendo ninguém mais do que a mulher, disse-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? E ela disse: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais. Falou-lhes, pois, Jesus outra vez, dizendo: Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida" (Jo 8.3-12).

Embora o presente relato possa nos ensinar muitas coisas, uma certamente não nos ensina: a abolição da pena de morte. Notemos como o ocorrido difere da Lei de Deus do Antigo Testamento, pois onde estava o homem pego juntamente com a mulher? Levítico 20.10 prescrevia que "morrerá o adúltero e a adúltera". Os escribas fizeram correto, pois o adúltero e a adúltera tinham de ser pegos em flagrante - "esta mulher foi apanhada, no próprio ato, adulterando". Porém, em um julgamento parcial e de acordo com seus próprios interesses, os escribas e fariseus (recorde quantas vezes o Senhor os censurou durante Seu ministério) tentaram persuadir ao Senhor e colocá-lo em uma situação aparentemente sem saída; ao passo que Cristo agiu de acordo com a reta justiça e não violou de modo algum a Lei, pois seria uma desobediência à Lei o condenar a mulher e não assim o fazer com o homem - além de que Ele não poderia tropeçar em qualquer ponto da mesma, "Porque qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos" (Tg 2.10).

Assim, neste breve apanhado sobre a indissolubilidade do casamento e a pena de morte ao adúltero, comentemos sobre como se processa o fim do casamento.

A primeira anotação que precisamos fazer é com relação ao fim natural do casamento, isto é, a morte de um dos cônjuges. "A mulher casada está ligada pela lei todo o tempo que o seu marido vive; mas, se falecer o seu marido fica livre para casar com quem quiser, contanto que seja no Senhor" (1Co 7.39 - grifo meu). O apóstolo é bastante explícito em dizer que não há qualquer problema em alguém contrair novo casamento após a morte de seu companheiro(a), "contanto que seja no Senhor" e que se avalie se realmente tal casamento lhe será benéfico, afinal, assim como no primeiro casamento, "os tais terão tribulações na carne, e eu quereria poupar-vos" (1Co 7.28).

A segunda anotação diz respeito à declaração de Jesus: "Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de fornicação, e casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada também comete adultério" (Mt 19.9). Certos autores compreendem que esta passagem esteja se referindo ao repúdio antes do casamento, explicando que as palavras de Jesus dizem respeito a somente se ter autorização para repudiar a mulher (ou vice-versa) antes do matrimônio ser oficializado, afinal, a palavra em voga é "fornicação" - um ato cometido antes do casamento. Os autores que andam neste limiar afirmam que a dissolução permitida do casamento se dá no tempo que denominamos "noivado", pois lhes parece que a passagem esteja tratando desta forma. [3] Para tais, há somente chance de se repudiar o cônjuge antes de se contrair verdadeiro casamento, haja vista que depois, conforme lemos em 1Co 7.31, o casamento deve permanecer para toda a vida.

Contudo, embora tal entendimento possa ter parcela de verdade e ser recomendado, pois é melhor não casar-se do que unir-se e logo se separar, é importante notar que esta declaração fica difícil de ser coadunada com a pena de morte pelo adultério. Ou seja, se no Antigo Testamento é prescrito tal pena para o adúltero, como ficaria a situação de não dever haver separação após o casamento? Se o repúdio por fornicação [4] deveria ser realizado antes do voto diante do Senhor e perante os homens, por que dever-se-ia tirar a vida do adúltero? Sua vida não deveria ser preservada tendo em vista 1Co 7.31?

Portanto, sem se alongar demasiadamente, a fim de não cansar o leitor e entrar em discussões não tão relevantes, parece-nos bastante claro a condição que Jesus impõe para o divórcio: a transgressão sexual de um dos cônjuges.

No capítulo XXIV da Confissão de Fé de Westminster, os ilustres teólogos puritanos trataram deste assunto e, na seção V, resolveram: "O adultério ou fornicação cometida depois de um contrato, sendo descoberto antes do casamento, dá à parte inocente justo motivo de dissolver o contrato; no caso de adultério depois do casamento, à parte inocente é lícito propor divórcio, e depois de obter o divórcio casar com outrem, como se a parte infiel fosse morta - Mt 1.18-20, 5.31-32; 19.9."

Na seção seguinte, lemos também suas resoluções: "VI. Posto que a corrupção do homem seja tal que o incline a procurar argumentos a fim de indevidamente separar aqueles que Deus uniu em matrimônio, contudo só é causa suficiente para dissolver os laços do matrimônio o adultério ou uma deserção tão obstinada que não possa ser remediada nem pela Igreja nem pelo magistrado civil; para a dissolução do matrimônio é necessário haver um processo público e regular, não se devendo deixar ao arbítrio e discrição das partes o decidirem seu próprio caso -Mt 19.6-8; 1Co 7.15; Dt 24.1-4; Ed 10.3."

Observemos que as delimitações dos teólogos se harmonizam com grande clareza com nossos pressupostos. Portanto, façamos um  breve resumo do que vimos:

1. O casamento deve persistir por toda a vida. Esta ordem de Deus é intransigível e sob nenhuma circunstância deve ser violada. O fato de nosso governo civil permitir o divórcio por literalmente qualquer motivo, não constitui necessariamente autorização bíblica para tal feito. Ademais, por nosso sistema de leis ser perverso e contrário à instituição do Senhor, em vez de misericórdia e compaixão, o Senhor declara Sua ira e justiça vingativa sobre a nação - mas, principalmente sobre o magistrado civil que age em desacordo com a prescrição divina -, pois esta não se assemelha às palavras do profeta que dizem: "Bem-aventurada é a nação cujo Deus é o SENHOR, e o povo ao qual escolheu para sua herança" (Sl 33.12). [5]

2. A forma natural de rompimento matrimonial. Somente e unicamente a morte é causa natural e de acordo com a ordem de Deus antes da Queda. A morte, por levar um dos cônjuges e ao outro deixar, permite que o "vivo" contraria novo matrimônio, todavia, lembrando do que já vimos, a saber, que seria melhor permanecer solteiro, mas, caso não seja possível (por uma série de motivos), que se contraria novo matrimônio com um crente.

3. A forma não natural de rompimento matrimonial. Uma vez que somente a morte deveria separar os cônjuges, então é necessário que levemos cativo a excludente de ilicitude proferida por Jesus. Isto é, embora devessem esperar pela morte do cônjuge para contraírem novo casamento, caso os laços sejam desfeitos por causa de fornicação (pré-casamento) ou adultério (pós-casamento), então é lícito à parte prejudicada contrair novo casamento - ainda que, novamente, melhor é que permanecesse solteira após isto.

Neste quesito, é mais do mister que se entenda que somente o cônjuge traído pode cogitar a possibilidade de novo casamento. Este entendimento é fruto da junção da declaração de Cristo e da lei do que punia o adúltero. Assim, temos a compreensão de que porque a Lei de Deus não pode ser desassociada do Evangelho, o adúltero deveria ser morto. [6] E, apesar disto não ocorrer nos dias atuais, não significa que a Lei de Deus esteja abolida. A partir disto é que se entende com clareza (apesar do temor que acompanha tal entendimento) que, caso a Lei de Deus um dia seja posta em vigor em alguma sociedade, o magistrado civil será obrigado a eliminar o adúltero e a pessoa com que foi pega adulterando e/ou fornicando. Todavia, tendo em vista que não pode haver contradição na Palavra de Deus, uma vez que o magistrado civil não executa tais pessoas, é dever da Igreja declarar os adúlteros como "mortos" para um novo casamento, pois é assim que a Lei de Deus prescreve. [7]

Outra forma não natural do rompimento é aquela referida pela Confissão de Fé de Westminster ("contudo só é causa suficiente para dissolver os laços do matrimônio o adultério ou uma deserção tão obstinada que não possa ser remediada nem pela Igreja nem pelo magistrado civil" - grifo meu) e que se acha descrito no livro de Esdras: "Então Secanias, filho de Jeiel, um dos filhos de Elão, tomou a palavra e disse a Esdras: Nós temos transgredido contra o nosso Deus, e casamos com mulheres estrangeiras dentre os povos da terra, mas, no tocante a isto, ainda há esperança para Israel. Agora, pois, façamos aliança com o nosso Deus de que despediremos todas as mulheres, e os que delas são nascidos, conforme ao conselho do meu senhor, e dos que tremem ao mandado do nosso Deus; e faça-se conforme a lei... Então se levantou Esdras, o sacerdote, e disse-lhes: Vós tendes transgredido, e casastes com mulheres estrangeiras, aumentando a culpa de Israel. Agora, pois, fazei confissão ao SENHOR Deus de vossos pais, e fazei a sua vontade; e apartai-vos dos povos das terras, e das mulheres estrangeiras. E respondeu toda a congregação, e disse em altas vozes: Assim seja, conforme às tuas palavras nos convém fazer" (Ed 10:2-3, 10-12).

Notemos, então, que não somente a morte natural, fornicação e adultério são causa justa para o divórcio, mas também uma situação que seja tremendamente afrontante à Lei de Deus e que não possa ser sustentada biblicamente. Para exemplificar, basta que pensemos em uma mulher que apanha terrivelmente e diariamente de seu marido. Mesmo que com ele já se tenha conversado e o admoestado em amor, insiste em agredir sua esposa. Neste caso, com muita graça e sabedoria, cabe aos pastores decidirem se de fato o caso em voga é tão complicado que "que não possa ser remediada nem pela Igreja nem pelo magistrado civil" (leia todo o capítulo décima de Esdras para uma melhor compreensão).

4. Com relação ao cogitar que o cônjuge incorreu em traição. Sabemos que na prática matrimonial pode vir a acontecer a suposição de que o cônjuge tenha incorrido ou esteja adulterando. Aqui, então, se faz a pergunta: o que fazer? Quer dizer, vimos que o Antigo Testamento prescreve que se pegos em adultério, isto é, no flagrante, ambos deveriam morrer - mas como isto se processa nos dias de hoje caso haja apenas uma desconfiança ou uma "certeza", mas sem provas concretas? Pela graça do Senhor, temos a resposta em Sua própria Escritura. Vejamos Números 5.11-31.

Esta passagem nos diz que quando houvesse certa suposição de alguma traição, o cônjuge que estivesse "desconfiando" deveria se apresentar diante do sacerdote com seu parceiro(a) e, então, o sacerdote faria duas misturas de água com o pó da terra e daria de beber ao cônjuge que supostamente estaria traindo. Se de fato fosse condenado (no caso da mulher), sua coxa incharia e o castigo de Deus seria o não poder ter mais filhos. Mas, caso não fosse culpado, seria apenas um gole d'água - "E, se a mulher se não tiver contaminado, mas estiver limpa, então será livre, e conceberá filhos" (v. 28).

Por isto estar prescrito nas Escrituras, então nos parece ser plausível afirmar que em nossos dias, caso haja desconfiança, os cônjuges devem se apresentar diante de seu pastor e ele falará ao suposto traidor das consequências terríveis que lhe podem sobrevir. Entretanto, não cabe ao pastor determinar quais são estas consequências - lhe é por dever apenas o afirmar que caso seu cônjuge esteja certo em sua desconfiança, embora ninguém o tenha visto no ato do adultério, o Senhor o viu e Ele certamente lhe castigará como bem aprouver. Mas, como é uma mera suposição, não deve haver divórcio - basta que o Senhor aflija o transgressor de acordo com Sua vontade.

5. O divórcio não deve ficar sob o arbítrio dos cônjuges. Notemos que os pastores estão destinados à Igreja para prover o devido sustentando e ensino necessário mediante as Sagradas Escrituras. Assim, é preciso que sempre que se visualizem algumas das situações acima aventadas, não cabe meramente ao casal decidir o que fazer, e sim é prudente que levem o caso ao pastor e ele, por já lhes acompanhar durante a caminhada cristã, com a ajuda do Senhor poderá dar um bom parecer sobre a situação. Esta compreensão não é desprovida de base bíblica, pois de acordo com 1Pe 5.1-3, este é um dos deveres dos pastores: "Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto" (v. 2). Mas, é também dever da congregação obedecer ao seu pastor (desde que ele esteja de acordo com a sã doutrina): "Obedecei a vossos pastores, e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossas almas, como aqueles que hão de dar conta delas" (Hb 13.17). Portanto, visto que muitíssimas vezes é grandemente enganosa a visão que os cônjuges têm de sua própria relação, é sábio se aconselhar com àquele que o Senhor proveu para o cuidado de suas vidas (vide também Esdras 10), a fim de não dissolverem o casamento erroneamente e/ou não tomarem qualquer decisão que não seja determinada pelas Escrituras.

Por fim, fazemos a ressalva sobre a importância de se primar pela reconciliação em vez do divórcio (sempre que possível, é claro), pois uma vez que somos chamados a perdoar "até setenta vezes sete" (Mt 18.22), na sublime maioria das vezes, se deve recorrer ao perdão e reatar os votos de fidelidade.

Deste modo, penso que de maneira sucinta obtivemos êxito em examinar o divórcio e novo casamento sob a luz das Escrituras.

Notas:
[1] Para melhor compreensão de quais são os direitos e deveres, leia toda a presente série.
[2] De modo algum podemos afirmar que hoje vigora a graça/fé e que no Antigo Testamento vigorou apenas a Lei. O próprio profeta Habacuque nos deixa clarividente isso: "mas o justo pela sua fé viverá" (Hc 2.4). No livro de Hebreus, capítulo 11 também lemos sobre a famosa "galeria da fé", onde reiteradas vezes somos informados de que os santos do AT viveram somente pela fé - buscavam cumprir a Lei, mas sabiam que o fim da dela, isto é, para onde apontava, era Cristo. Devemos ter cuidado com o jogo de palavras que fazem muitos tropeçar. Um exemplo claro desse jogo é de que o fim de um túnel não implica no fim de uma estrada; ou que o fim de um jogo de futebol não significa o fim de um campeonato. Isto é, quando lemos "o fim da Lei é Cristo" (Rm 10.4), significa que a finalidade da Lei é apontar para Cristo, conforme o próprio Cristo afirmou: "E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas e nos Salmos" (Lc 24.44). Se Cristo tivesse abolido a Lei, então em vez de lermos, "Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir" (Mt 5.17), teríamos o Senhor Jesus afirmando que "não vim cumprir, mas ab-rogar". Ademais, se Cristo tivesse abolido a Lei, Ele estaria negando a si próprio, pois estaria dizendo que Sua sombra no AT não era mais válida - destruindo assim a própria unidade das Escrituras. Esse princípio é clarividente em 2Tm 3.16-17: "Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra." Ora, qual era a Escritura de que Paulo estava falando? Certamente que era do Antigo Testamento (e também de algumas cartas já correntes do Novo), pois o próprio Timóteo havia sido instruído por sua avó e mãe, "...a qual habitou primeiro em tua avó Lóide, e em tua mãe Eunice" (2Tim 1.15). Assim, portanto, não há que se falar em antinomismo (contra a Lei) ou neonomismo (nova Lei), mas sim em teonomismo (Lei de Deus), pois uma vez que a Bíblia é a Palavra do Eterno e Deus é soberano, então a Bíblia é soberana; sendo Deus onipotente e sem sombra de variação (Tg 1.17), então a Bíblia também não pode conter variação.
[3] Um expoente desta defesa é o pastor e autor John Piper.
[4] Fornicação é a relação sexual (ou carícias desta natureza) entre solteiros ou entre solteiro e casado. Caso assim seja, o primeiro (solteiro) comete fornicação, ao passo que o segundo (casado) incorre em adultério.
[5] Ainda que o versículo esteja a falar da nação do povo de Deus e entendamos isto à luz do Novo Testamento, isto é, de que feliz é o povo de Deus por O ter como Senhor, certamente que passagem bíblica também se harmoniza num âmbito civil, pois assim se dava no Antigo Testamento.
[6] É fato que muitos homens e mulheres bíblicos não foram mortos por causa de pecados condenáveis a morte - Davi é um exemplo claro. Todavia, Davi não foi morto por dois motivos: Primeiro porque não havia ninguém hierarquicamente superior a ele, pois era o rei de Israel. E em segundo lugar, embora não tenha perecido, alguém teve de tomar o seu lugar - seu filho fruto do adultério -, tipificando assim a morte de Cristo em nosso favor, pois ainda que Ele tenha morrido, assim o fez em favor de todos os Seus filhos. Aqui, portanto, nosso papel não é de se basear nas exceções que aprouve Deus realizar, mas sim em Sua Lei.
[7] Embora tenha de declarar a "morte" para o novo casamento, a Igreja não deve excluir tal pessoa do povo de Deus. Assim como apontado na nota anterior, por um lado o transigente deveria ser punido com a morte, mas visto que o Senhor também teve por bem até o presente momento não instituir um governo civil que aplique tais penalidades, devemos ser graciosos com estes irmãos e irmãs que incorrem em pecado e os tratá-los com disciplina e, caso se arrependam, os admitir à comunhão.

O culto online e a tentação do Diabo

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