quarta-feira, 9 de maio de 2012

O Ateu Como Prova da Existência de Deus


Todo homem, por natureza, ainda que se declare "ateu", assim se declara porque sente no seu íntimo que haja uma divindade maior - mas não quer aceitá-la. Na verdade, o fato de alguém ser ateu é também uma prova de que Deus existe! Explico:

"Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis" (Rm 1.20). O apóstolo Paulo informa-nos que de algum modo - muitas vezes de difícil compreensão - a natureza, as coisas criadas e tudo que nela circunda, revelam alguma divindade, isto é, revelam algum "poder maior", um sustentador e provedor de todas as coisas. A prova, então, de que o ateu comprova a existência de Deus, é o fato de dizer que não acredita em sua existência - ou como mais consistente foi um certo, "Eu não posso estar certo de que Deus não existe" (Richard Dawkins).

O fato de partir da premissa - em outras palavras - de que não deseja a existência de Deus ou que não a pode provar, na verdade é em si mesma uma declaração de concordância com o apóstolo e a Santa palavra de Deus. O ateu, por possuir em si mesmo esse "incômodo" com relação às coisas divinas, é prova viva - como parece desejar transmitir-nos a Palavra - de que sempre há (em menor ou maior escala) uma centelha de senso de um ente superior que atua, rege e é soberano sobre a tudo e todos.

Desse modo, portanto, não há que se falar que a existência do ateísmo no mundo "destrua" a fé cristã (ainda que, logicamente, seja uma "crença" totalmente perversa), pelo contrário, a confirma como sendo verdadeira.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Efésios 1.10 - Em Cristo Congregam-se Todas as Coisas Exposição em Efésios - Sermão pregado dia 06.05.2012


Efésios 1.10 - Em Cristo Congregam-se Todas as Coisas
Exposição em Efésios - 
Sermão pregado dia 06.05.2012

"De tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra" (Ef 1.10).

O apóstolo Paulo mostrou-nos no versículo passado a grandiosidade do tempo em que vivemos, pois apesar de não sermos judeus, já não somos mais estranhos à promessa de Cristo, pois de uma vez por todas o véu foi rasgado (Mt 27.51), não há mais um mediador que tipifica Cristo, não há mais um templo físico e não há mais uma separação entre a presença de Deus e o povo. Agora, pela graça de Deus, as boas novas do Evangelho foram anunciadas a todas as nações, de forma que todos os povos, sem distinção, podem ouvir a mensagem da salvação e se achegar ao Senhor. Sigamos as três delineações que o apóstolo nos propôs.

1. "De tornar a congregar em Cristo todas as coisas."

Já temos visto várias vezes a passagem que nos afirma: "Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém" (Rm 11.36). Novamente o apóstolo nos afirma que o fim de todas as coisas é Cristo, assim como o início e o sustento de tudo que vem a lume. É preciso deixar bastante claro que é em Cristo que todas as coisas são achadas e reunidas; não que isso signifique uma diminuição do Pai ou do Espírito Santo, mas uma vez que ninguém se achega ao Pai, a não ser mediante o Filho (Jo 14.6), então é preciso notar que ao Filho pertence o caminho de acesso às coisas celestiais.

Recordemos também de que anteriormente ao advento de Cristo, o mundo jazia no maligno e todos estavam afastados de Cristo. Esse entendimento se desdobra do fato de que todo o mundo, todo o restante da terra (fora dos arraiais judaicos) era estranho ao poder do Senhor e nenhum deles sequer possuía uma centelha de iluminação divina. Nesse sentido, então, o apóstolo nos diz que tendo o próprio Criso vindo à terra e se tornado semelhante a homem (Fp 2.7), todas as nações podem agora ter uma "arca da aliança" consigo, o templo já não é mais exclusividade dos judeus, pois em que Cristo surgiu e agora todos podem congregar n'Ele. Mas, parece-nos que não é esse o único intuito de Paulo, pois entendemos também que agora em Cristo Jesus, todo corpo cresce como um edifício e um corpo bem ajustado. Paulo trata disso quando fala negativamente aos Colossenses: "Ninguém vos domine a seu bel-prazer com pretexto de humildade e culto dos anjos, envolvendo-se em coisas que não viu; estando debalde inchado na sua carnal compreensão, E não ligado à cabeça, da qual todo o corpo, provido e organizado pelas juntas e ligaduras, vai crescendo em aumento de Deus" (Cl 2.18-19). Também escreve aos Coríntios e diz: "Porque nós somos cooperadores de Deus; vós sois lavoura de Deus e edifício de Deus" (1 Co 3.9). Igualmente são as palavras do próprio Cristo:  "Ainda não lestes esta Escritura: A pedra, que os edificadores rejeitaram, Esta foi posta por cabeça de esquina" (Mc 12.10; Mt 21.42; Lc 20.17; Ef 2.20 - todos com base em Sl 118.22).

O apóstolo então ensina-nos que apesar da Igreja do Senhor estar dispersa por sobre a terra, seja por questões físicas ou por lutas e perseguições, não há mais separação étnica e revelação exclusiva para a nação de Israel, pois agora todos estão congregados, unidos e alicerçados na pedra de esquina, isto é, a pedra angular, o fundamento da construção que é Cristo! No Filho há toda riqueza e n'Ele toda a Igreja cresce junta e se fortalece mutuamente; não há mais separação, o véu se resgou, os discípulos foram para além das portas de Jerusalém... não existe mais qualquer empecilho para o avanço do Reino por sobre a terra.

No entanto, surge-nos a pergunta: se não há mais nada que possa deter o evangelho, como isso pode ser possível? Paulo então continua e nos explica:

2. "na dispensação da plenitude dos tempos."

Deve-se ter bem fixo na mente que dispensação não é o mesmo que dispensacionalismo. O dispensacionalismo é a doutrina que ensina que há diversos "tempos" de Deus, isto é, Deus tem um propósito específico para cada região e momento da história. Esse, em si, não é o problema, mas sim a má interpretação que fazem da palavra de Deus no que concerne - também - à doutrina das últimas coisas (escatologia). Essa corrente teológica afirma que haverá o arrebatamento secreto, que haverá um milênio com crentes reinantes sobre a terra (após o arrebatamento), que os ímpios terão uma segunda chance de arrependimento... algo completamente impossível de ser provado pelas Escrituras. Analisemos, então, ainda que brevemente, o que o apóstolo inspirado quis dizer que a dispensação em relação a já vivermos na plenitude dos tempos.

Assim lemos: "Ele prendeu o dragão, a antiga serpente, que é o Diabo e Satanás, e amarrou-o por mil anos" (Ap 20.2). Para nossa muitíssima e excelsa alegria, as forças do maligno já não podem mais cegar (completamente) as nações. Ele (o Maligno) está preso. "E lançou-o no abismo, e ali o encerrou, e pôs selo sobre ele, para que não mais engane as nações, até que os mil anos se acabem. E depois importa que seja solto por um pouco de tempo" (Ap 20.3). O propósito de sua prisão e encarceramento é para "impedi-lo de enganar as nações". As nações foram enganadas durante todo o período anterior a vinda de Cristo, mas com a morte e ressurreição de Cristo, Satanás está preso e não pode mais enganar - ainda que ao final, será "necessário que ele seja solto por um pouco de tempo".

Como podemos provar esse ponto? Olhemos a diferença da comissão dada por Cristo aos apóstolos antes e depois de Sua ressurreição. Antes: "Jesus enviou estes doze, e lhes ordenou, dizendo: Não ireis pelo caminho dos gentios, nem entrareis em cidade de samaritanos; Mas ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel; E, indo, pregai, dizendo: É chegado o reino dos céus" (Mt 10.5-7). Depois: "E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém" (Mt 28.18-20). Anexo a isso vem a declaração de Paulo: "Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne, e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão feita pela mão dos homens; Que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo" (Ef 2.11-12).

Novamente o apóstolo João registra, mostrando-nos assim a magnífica unidade das Escrituras, as palavras de Jesus que nos dizem: "Agora é o juízo deste mundo; agora será expulso o príncipe deste mundo. E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim" (Jo 12.31-32). Ainda outra vez João nos diz: "Quem comete o pecado é do diabo; porque o diabo peca desde o princípio. Para isto o Filho de Deus se manifestou: para desfazer as obras do diabo" (1 Jo 3.8).

O entendimento correto dessa doutrina é a afirmação de que já vivemos no milênio descrito por João, já estamos na plenitude dos tempos (como nos está afirmando o apóstolo). Esse belo e claro ensino das Escrituras nos ensina que o Diabo não mais está "livre" para enganar as nações, pois nós somos testemunhas disso; porque mesmo não sendo judeus, o evangelho nos alcançou e nos trouxe vida. Não há a menor necessidade de esperarmos um milênio porvir, pois tudo já reside na plenitude de Cristo; o ápice da vida cristã terrena já encontra-se concretizado (não no sentido da maciça proclamação da Verdade, mas no sentido de que as nações já estão "livres" para ouvirem a Palavra), não devendo homem algum ansiar por um novo momento, exceto, a cidade celestial.

Notemos ainda como esse entendimento nos é maravilhoso, pois apesar que Satanás "vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar" (1 Pe 5.8), ele não está livre para cegar completamente os corações do restante das nações, pois assim também lemos: "O povo, que estava assentado em trevas, Viu uma grande luz; E, aos que estavam assentados na região e sombra da morte, A luz raiou" (Mt 4.16). Nos precioso o ler de tais palavras, pois os povos não viram uma pequena luz, como exemplificou o Senhor, tal qual uma candeia colocada debaixo duma vasilha ou da cama (Mc 4.21), mas sim uma "grande luz" foi colocada nos montes, nas praças e em todos lugares, a fim de que o evangelho se espalhasse por todas as regiões do mundo. Se anteriormente a sabedoria clamava nas portas, muros e praças do povo judeu (vide Provérbios), agora ela cavalga o mundo inteiro e não há mais nação que seja, por causa da cegueira do pecado, privada de ouvir a palavra de Deus.

Logicamente que todo esse ponto não nos deve fazer entender que todo o mundo será salvo pelo Senhor, mas sim deve-nos levar à glorificação eterna do amor paternal de Cristo por todos os seus filhos dispersos pelo mundo, pois "Não obstante, ele os salvou por amor do seu nome, para fazer conhecido o seu poder" (Sl 106.8).

É importante frisar também mais um ponto, a saber, o porquê dos gentios terem a graça de poderem ouvir do evangelho. Paulo nos explica: "Porque assim como vós também antigamente fostes desobedientes a Deus, mas agora alcançastes misericórdia pela desobediência deles, Assim também estes agora foram desobedientes, para também alcançarem misericórdia pela misericórdia a vós demonstrada" (Rm 11.30-31). Os gentios foram alcançados pela graça de Deus porque os judeus se mostraram desobedientes à palavra do Senhor (não excluindo, é claro, a soberania de Deus e os propósitos divinos). Por terem os judeus rejeitado a palavra do Senhor e se rebelado contra o Messias (pois não acreditavam que Cristo Jesus era o salvador), o apóstolo então nos diz o evangelho foi levado até a eles, pois era como se os judeus não tivessem tido o sincero desejo de acatar a mensagem da salvação de Cristo. Porém, o apóstolo não deixa os judeus sem esperança, mas afirma que assim como os gentios eram desobedientes a Deus (pois estavam cegos pelo pecado) e Ele agiu em complacência para com eles, assim também os judeus, apesar de suas transgressões, também não foram privados da salvação. Paulo expõe-lhes isso para não dar margem a qualquer interpretação de superioridade, isto é, para que os gentios não pensassem que eram melhores que os judeus e, então, passassem a os desprezar; assim como não era seu intento que os judeus se inflassem contra os gentios e lhes vissem como inimigos e conquistadores de algo que lhes era seu por direito.

3. "tanto as que estão nos céus como as que estão na terra."

"E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra" (Mt 28.18). Cristo não veio somente ao mundo para instaurar o avanço do Evangelho por sobre toda a terra, mas também para reunir e unir as coisas celestiais e terrenas. 

Penso que o intuito do apóstolo é informar-nos que as mesmas bênçãos derramadas de modo sobrenatural sobre o povo judeu, agora também são estendidas aos povos gentios. Lemos assim em Efésios 3.6: "A saber, que os gentios são co-herdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho." Ele também diz "Porque não quero, irmãos, que ignoreis este segredo (para que não presumais de vós mesmos): que o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios haja entrado" (Rm 11.25). Aqui, o apóstolo informa aos romanos que ouve um certo endurecimento sobre o povo de Israel, como que um castigo sobre essa nação, pois apesar de terem o berço do salvador, desprezaram os Seus feitos. Entretanto, esse endurecimento não foi completo, mas sobreveio apenas "em parte sobre Israel", por qual motivo? "até que a plenitude dos gentios haja entrado". Desse modo o apóstolo informa-nos que aconteceu o inverso: se anteriormente os gentios é que tinham seu coração endurecido e os judeus eram agraciados com a palavra de Deus, agora acontece que os gentios tem o seu coração amolecido e alguns judeus, por rejeitarem a Santa Palavra, estão com o coração separados da vontade de Deus.

É preciso, portanto, relembrar-mo-nos daquilo que anteriormente o apóstolo nos disse: "Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo" (Ef 1.3). Não fomos abençoados apenas com a participação nas bênçãos e sofrimentos terrenos de Cristo, mas também com toda infinidade de benevolências e gratificações vindas do céu até o povo judeu. Em outras palavras, o que o apóstolo ensina-nos é que assim como o Senhor andou com diligentemente com Seu povo nos tempos antigos (judeus), agora também está intimamente conosco, não havendo diferença alguma entre os povos, pois, "Assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo" (Rm 12.5; 1 Co 10.17).

Amém

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Série: Homem e Mulher os criou - parte 7 - Homem e Mulher no Jardim, A Questão dos Filhos (A Mulher e Esposa Cristã) - Sermão pregado dia 06.05.2012



Série: Homem e Mulher os criou - parte 7 - 
Homem e Mulher no Jardim, A Questão dos Filhos (A Mulher e Esposa Cristã) -
Sermão pregado dia 06.05.2012



Você pode acompanhar o vídeo onde tivemos esse estudo bíblico. O link é: http://twitcam.livestream.com/9wdfl (clique em "Skip this ad now" para pular a propaganda).

Agora, então, é preciso que notemos de que modo essa doutrina se "materializa", pois todo ensinamento não tem simplesmente o intuito de alcançar a mente, mas também o coração e as atitudes.

Conforme temos apontado, o Senhor legou ao homem o papel de lavrar e guardar a terra e à mulher o papel de lhe ser ajudadora idônea. Ao homem (Adão) era honroso e agradável (lembremos que estamos vendo a vida antes da queda) cuidar dos elementos que o Eterno lhe dispôs, de modo que tudo que subia à sua vista era nobre, justo e puro. Para a mulher (Eva) o submeter-se também era feito com total amabilidade e graciosidade de coração, pois como uma rainha ela se submetia alegre e confiante ao seu rei.

Penso que até o momento conseguimos ver com clareza com o papel do homem de Deus na relação, mas recapitulemos: em primeiro lugar, é seu dever primário o guardar e cuidar da terra que o Senhor lhe deu. Em segundo lugar, ele deve sustentar sua casa e somente deve se engajar num casamento quando tem reais possibilidades de os sustentar. Em terceiro lugar, uma vez que na relação de casamento há sempre a possibilidade de nascerem filhos, o homem do Senhor precisa sempre estar pronto a "trabalhar mais" e/ou  viabilizar o sustento de sua casa conforme o Senhor vai-lhe provendo (ou não) filhos. Em quarto lugar, o homem deve estar plenamente cônscio que é sua responsabilidade o cuidado não somente da terra, mas também da casa, dos filhos, não somente na questão financeira, mas também física e emocional. Em quinto lugar, o homem do Senhor sempre deve buscar liderar sua casa de acordo com o exemplo dado por Cristo Jesus, isto é, com amor, humildade, justiça e verdade. Jamais deve ser um tirano, mas também não deve ser um lacaio ou um alguém que não faz jus à ordenança divina.

Com relação à mulher, temos um excelente padrão divino que está fixado em Provérbios 31.10-31. O autor coloca-nos diante de uma mulher perfeita, uma esposa magnífica e uma mãe exemplar. Ao visualizarmos e contemplarmos tais versículos, não há homem que não se sinta desejoso de um dia encontrar tal mulher e creio também que toda mulher piedosa ao ler tal descrição, não hesita em seu coração e logo roga ao Senhor para que Ele lhe transforme em tal caráter. Vejamos alguns ensinamentos relacionamentos ao proceder que a mulher e esposa cristã deve ter.

1. Sua conduta é sempre amorosa para com seu marido. "Mulher virtuosa quem a achará? O seu valor muito excede ao de rubis. O coração do seu marido está nela confiado; assim ele não necessitará de despojo. Ela só lhe faz bem, e não mal, todos os dias da sua vida" (Pv 31.10-12). A palavra do Senhor começa-nos com uma pergunta: é possível encontrar a mulher que descreveremos? Acaso pode existir uma mulher com tamanha virtude como essa que o Senhor intentou? Sem deixar uma clara resposta, então ele diz qual é o valor dessa mulher: o maior possível. Uma mulher virtuosa, segunda a palavra de Deus, vale mais que qualquer joia, pedra preciosa ou todo ouro que alguém possa ter para si. Uma mulher virtuosa não é um bem fungível (trocável), é algo único e raro.

O autor pretende deixar bem claro que o homem casado com tal bela e formosa mulher (em caráter), sempre pode confiar nos seus afazeres. Chega até mesmo a dizer que tal homem não necessitará de despojos, isto é, provavelmente uma alusão àquilo que se o povo derrotado na batalha deixava para trás (por ocasião de fuga ou morte) e era então tomado pelos conquistadores. O marido que possui tal mulher não necessita de nenhum outro agrado, pois tem o melhor daquilo que se pode encontrar, é possuidor da joia mais rara e benignidade mais pura que se pode achar sobre a terra - mas não somente isso. Dize-nos também que "Ela só lhe faz bem, e não mal, todos os dias da sua vida". Um homem só tem felicidade dentro de seu lar quando primeiramente ele é temente a Deus e guarda sua casa assim como Senhor guarda sua igreja, mas também quando tem por companheira e ajudadora (uma rainha!) uma esposa que só lhe faz bem, só deseja o seu progresso e tudo corrobora para o bem de seu esposo.

2. É uma mulher trabalhadora e dedicada à sua casa. "Busca lã e linho, e trabalha de boa vontade com suas mãos. Como o navio mercante, ela traz de longe o seu pão. Levanta-se, mesmo à noite, para dar de comer aos da casa, e distribuir a tarefa das servas. Examina uma propriedade e adquire-a; planta uma vinha com o fruto de suas mãos. Cinge os seus lombos de força, e fortalece os seus braços. Vê que é boa a sua mercadoria; e a sua lâmpada não se apaga de noite. Estende as suas mãos ao fuso, e suas mãos pegam na roca. Abre a sua mão ao pobre, e estende as suas mãos ao necessitado. Não teme a neve na sua casa, porque toda a sua família está vestida de escarlata. Faz para si cobertas de tapeçaria; seu vestido é de seda e de púrpura" (Pv 31.13-22). A palavra do Senhor instrui-nos acerca do bom e reto trabalho que a mulher deve exercer dentro de seu chamado divino. No entanto, qual é o seu chamado? Em primeiro lugar, a mulher não foi chamada para sustentar a sua casa - esqueça o movimento feminista. A mulher cristã é como a Igreja de Cristo - trabalha e se esforça, mas não é sua a responsabilidade inerente de sustento, pois quem a verdadeiramente alimenta é o próprio Cristo. Em segundo lugar, a palavra de Deus não proíbe a mulher de trabalhar. Esse ponto é claramente notado já numa primeira leitura do presente capítulo de Provérbios, pois a narrativa fala-nos claramente que ela até mesmo "Examina uma propriedade e adquire-a". A Santa Palavra de modo algum pretende dizer que as mulheres devem nascer, crescer e morrer dentro de suas casas - não é esse o intuito bíblico; contudo, o oposto não é tão verdadeiro como muito podem achar.

Embora tal revelação bíblica (a Bíblia) nos revele muitas mulheres trabalhando, devemos lembrar que elas possuem ainda outro chamado: cuidar da casa e dos filhos que o Senhor pode enviar. O trabalho da mulher é visto também em Gn 24.15-16: "E sucedeu que, antes que ele acabasse de falar, eis que Rebeca, que havia nascido a Betuel, filho de Milca, mulher de Naor, irmão de Abraão, saía com o seu cântaro sobre o seu ombro. E a donzela era mui formosa à vista, virgem, a quem homem não havia conhecido; e desceu à fonte, e encheu o seu cântaro e subiu". Esse relato encontra-se dentro da ordem de Abraão ao seu servo para que fosse até sua terra natal e de lá trouxesse uma mulher para seu filho Isaque. Após o servo ter orado para o Senhor e ter se cumprido tal decreto divino, lemos também: "E o homem estava admirado de vê-la" (Gn 24.21). Rebeca não somente havia vindo pegar água para sua família (para si ou para os animais), mas também ofereceu-a ao servo e também aos animais que o servo de Abraão trazia consigo - e tudo isso muito admirou aquele homem. Assim também é a mulher virtuosa: trabalhadora e eficaz em tudo aquilo que faz.

Temos ainda outro exemplo advindo da família de Abraão: "Disse-lhes mais: Está ele bem? E disseram: Está bem, e eis aqui Raquel sua filha, que vem com as ovelhas. E ele disse: Eis que ainda é pleno dia, não é tempo de ajuntar o gado; dai de beber às ovelhas, e ide apascentá-las" (Gn 29:6-7). Agora foi a vez de Isaque mandar o seu filho Jacó a Padã-Arã e lá buscar uma mulher para si. Novamente, então, temos o relato de mais uma mulher do Senhor que trabalhava arduamente. Não é sem motivo que temos registrado as palavras de Jacó: " Eis que ainda é pleno dia". Raquel não era uma moça preguiçosa, não saía de casa apenas quando o sol já havia se posto - "[...] veio Raquel com as ovelhas... porque ela era pastora" (Gn 29.9).

Porém, precisamos, como já dito acima, relembrar-mo-nos de que esse não é o fim último da mulher, pois o Senhor ainda pode-lhe dar filhos. No relato de Raquel, após ter o Senhor feito-a fértil (Gn 30.22), não temos qualquer outro relato de que ela continuou a cuidar das ovelhas ou saiu para trabalhar. Isso significa que Raquel nunca mais trabalhou e ajudou em casa? Certamente que não. Isso quer ensinar-nos que a mulher não pode mais plantar nem ajudar seu marido? Não é isso que a Bíblia nos ensina (vide novamente Provérbios 31). A mulher nunca mais poderá exercer uma profissão? Lembre-se da mulher virtuosa e você obterá a resposta. Então, podem-se perguntar alguns, "como fica a questão do trabalho e da mulher?" Penso que podemos extrair alguns entendimentos a partir desses (e outros) relatos:

A mulher pode estudar e trabalhar fora. Ninguém está negando o "mundo" para a mulher. De forma alguma estamos advogando uma espécie de prisão domiciliar à mulher - por isso mesmo (baseado na palavra de Deus) é que afirmamos ser lícito à mulher sair, estudar e trabalhar fora. No entanto, deve-se ter alguns cuidados com relação isso.[1] Se podemos assim dividir, há dois momentos num casamento cristão: antes e depois dos filhos. Antes dos filhos é naturalmente compreensível que a mulher trabalhe em algum lugar, ajude seu marido, estude, se dedique em questões pessoais e tudo isso certamente lhe é lícito. Porém, quando (se assim for do agrado do Altíssimo) vierem os filhos, o fim primeiro da mulher muda de foco e, então, ela passa a se dedicar às "pequenas grandes bênçãos" (os filhos) que o Senhor lhe proveu. Por isso, há também algumas sugestões para a esposa cristã. Em primeiro lugar, embora você seja tenha liberdade para escolher qual curso superior deseja cursar, sendo possível, dê preferência aos cursos que poderão ter alguma valia para quando você for mãe. Não, eu não estou dizendo que uma esposa formada em, por exemplo, engenharia ambiental, seja uma esposa fora do padrão - novamente: não é isso que estou dizendo. O que desejo frisar é que tendo em vista a finalidade da esposa cuidar dos filhos, é prudente que enquanto ainda o Senhor não lhe proveu filhos (ou ainda é solteira), já visualize essa possibilidade e passe a estudar não com o propósito de ter uma "carreira bem sucedida", mas sim em ser uma mãe bem sucedida.

Esse entendimento é explicitado pelo apóstolo Paulo quando diz: "Há diferença entre a mulher casada e a virgem. A solteira cuida das coisas do Senhor para ser santa, tanto no corpo como no espírito; porém, a casada cuida das coisas do mundo, em como há de agradar ao marido" (1Co 7.34) - mundo, aqui, não é sinônimo de pecado, mas sim de coisas concernentes ao dia-a-dia.

Esse entendimento é clarividente também em outros dois textos bíblicos: "Quero, pois, que as que são moças se casem, gerem filhos, governem a casa, e não dêem ocasião ao adversário de maldizer" (1 Tm 5.14). "As mulheres idosas, semelhantemente, que sejam sérias no seu viver, como convém a santas, não caluniadoras, não dadas a muito vinho, mestras no bem; Para que ensinem as mulheres novas a serem prudentes, a amarem seus maridos, a amarem seus filhos, A serem moderadas, castas, boas donas de casa, sujeitas a seus maridos, a fim de que a palavra de Deus não seja blasfemada" (Tt 2.3-5). Ambos os escritores bíblicos (inspirados pelo Senhor) afirmam, note: afirmam (e, não, sugerem) que é dever da mulher ser boa dona de casa. Isso lhes é um dever abençoado e glorioso ao Senhor - e por que assim deve ser? "a fim de que a palavra de Deus não seja blasfemada." A ordem de Deus não foi dada para ser questionada, e sim, cumprida.

Em segundo lugar, não se deixe levar pela pressão dos tempos modernos e que afirma que uma mulher que cuida dos filhos é uma esposa fracassada e fadada às tristezas da vida. Uma frase atribuída à ‎Rebecca VanDoodewaard, diz assim: "As feministas se recusam a ver que ser dona-de-casa proporciona a uma mulher mais tempo na cozinha do que qualquer aficcionado por gastronomia pode ter, mais oportunidades de ler do que qualquer bibliotecária, mais chances de moldar o caráter das crianças que qualquer super babá, mais tempo para fazer o bem do que qualquer mulher engajada em obras sociais, mais tempo para decorar a sua casa do que qualquer decoradora ou arquiteta e mais tempo para ler estatísticas econômicas do que qualquer economista. Ficar em casa cria mais oportunidades para desenvolver os seus interesses, habilidades, capacidades e modos de servir do que qualquer outro trabalho lá fora. Ainda assim, as feministas empurram as mulheres em cubículos, dizendo-lhes que apenas dessa forma elas terão uma vida, se sentirão realizadas, e estarão em contato com o mundo exterior."[2]

Ao nascer dos filhos, é dever da mãe o cuidar e amar dos seus. Seguindo então a partir da "segunda" parte do casamento, a saber, quando há o nascimento dos filhos, é preciso compreender claramente que uma vez nascido os filhos, encerra-se, ao menos por alguns longos anos (em média 20 anos - mas sempre lembrando que o Senhor pode lhe dar muitos filhos) o sair para o mercado de trabalho e o desejar crescer numa carreira promissora. Falando acerca do afastamento do povo de Israel em relação à devoção ao Senhor, o profeta Jeremias faz um comparativo chocante: "Até os chacais abaixam o peito, dão de mamar aos seus filhos; mas a filha do meu povo tornou-se cruel como os avestruzes no deserto" (Lm 4.3). Trazendo esse exemplo (já que o profeta utilizou-se de tal alegoria) para o cuidado da mãe para com os filhos, vemos que é dever da mãe o amamentar seu filho e zelar por sua criação e cuidado. [3

Procure por toda a Escritura e você não encontrará nenhum resquício ou algo semelhante à creches ou crianças crescendo sob o cuidado dos avós, tios e amigos - simplesmente isso não existe para a palavra de Deus. De modo a impressionar o povo, o profeta Jeremias diz-lhes que até mesmo os animais, em alguns momentos, parecem demonstrar mais "humanidade" do que os filhos do Senhor. Diz ele que até os animais "sabem" que seus filhos precisam de cuidados e do leite materno, mas - infelizmente - muitos do povo de Deus não sabem! Quão lamentável é percebermos que tal atitude é grandemente representada ainda nos dias de hoje. Quantos casais relegam seus filhos a "tios e tias" de creche e "seja o que Deus quiser". Penso que sequer há a necessidade de citar um sem fim de versículos afirmando que cabe à mulher (pois fica em casa enquanto o homem trabalha) o cuidado dos filhos.

3. Por suas atitudes o seu marido é tido em boa reputação. "Seu marido é conhecido nas portas, e assenta-se entre os anciãos da terra. Faz panos de linho fino e vende-os, e entrega cintos aos mercadores. A força e a honra são seu vestido, e se alegrará com o dia futuro. Abre a sua boca com sabedoria, e a lei da beneficência está na sua língua" (Pv 31.23-26). Segundo os dizeres do próprio Senhor que inspirou o autor de Provérbios, quando uma mulher executa diligentemente seu trabalho, seu marido não é tido por fracassado ou é humilhado diante dos demais, mas sim é tido como um bom marido, feliz e de boa reputação entre os demais. Certamente que a Palavra de Deus não está se referindo literalmente à causa e efeito diretos, isto é, que se a mulher for boa dona de casa e boa mãe dos filhos, nada dará errado nos afazeres trabalhistas de seu marido - não é esse o ensinamento. A importância desse texto quer ensinar-nos que o marido que possui tal mulher virtuosa não tem do que se envergonhar, não possui motivos para reclamar e não há qualquer coisa que o desabone em frente ao seus colegas e amigos, pois assim como ele busca executar bem o seu mandato, de igual forma sua esposa lhe preenche e lhe é uma rainha por demais importante em sua vida.

4. Não é preguiçosa. "Está atenta ao andamento da casa, e não come o pão da preguiça. Levantam-se seus filhos e chamam-na bem-aventurada; seu marido também, e ele a louva" (Pv 31:27-28). Apesar de já ter frisado, aqui a palavra de Deus é mais incisiva: ela "não come o pão da preguiça". Não é porque não precise sustentar a sua casa que agora deve se achar no direito de gastar o dinheiro de seu marido em salões de beleza, hidroginástica, shopping, carro novo e uma miríade de outras coisas. A mulher cristã é aquela que entende o seu papel no lar e ao lado de seu marido. De maneira nenhuma a mulher de Deus é ociosa e fica o dia inteiro dormindo (até porque isso não é possível com uma casa para limpar, comida a fazer e filhos a cuidar) ou desperdiçando suas forças. A mulher virtuosa é aquela que tem boa estima até mesmo de seus filhos que são disciplinados; eles mesmos quando olham para ela, dizem: "bem-aventurada", isto é, feliz e agraciada. Mas não somente seus filhos, seu marido também mui se contenta com sua presença e por todos os seus feitos - " ele [também] a louva".

5. Seu agir testifica sua beleza. "Muitas filhas têm procedido virtuosamente, mas tu és, de todas, a mais excelente! Enganosa é a beleza e vã a formosura, mas a mulher que teme ao SENHOR, essa sim será louvada. Dai-lhe do fruto das suas mãos, e deixe o seu próprio trabalho louvá-la nas portas" (Pv 31.29-31). A esposa cristã não é alguém que busca se sobressair sobre as demais mulheres, pois o seu proceder não tem finalidades egocêntricas, mas tão somente fixa-se em Deus e no seu mandato como esposa e boa mãe. 

É preciso notar que a esposa cristã deve ser louvada, isto é, tida em boa estima, não por sua beleza exterior, nem por seus adornos, correntes e joias que naturalmente deseja usava, mas sim pelo seu temor ao Senhor - "essa sim será louvada". Sua própria devoção e trabalho é o que dão testemunho de sua competência como esposa graciosa. A mulher não precisa e não deve "sair para o mercado de trabalho" e deixar seus filhos sob o cuidado de outrem; também não lhe devido o abater-se do coração por não poder trabalhar fora enquanto seus filhos crescem, pois o autor de Provérbios nos diz que a mulher que procede de acordo com tais prescrições, "[é], de todas, a mais excelente!".

De modo mais objetivo, então, resumamos o que vimos até aqui: 1. A esposa cristã deve amar seu marido acima de tudo; 2. é chamada para cuidar de sua casa e dela cuidar com todo esmero e carinho; 3. não lhe é proibido o estudar e trabalhar fora, desde que isso não interfira em suas outras atividades e incumbências dadas pelo Senhor (cuidar da casa e cuidar dos filhos), ou seja, por uma questão praticamente óbvia, a mulher com filhos não possui possibilidade alguma de trabalhar fora e ainda cuidar dos filhos; 4. enquanto cuida dos filhos não lhe é proibido exercer alguma atividade e/ou ajudar seu marido - a mulher pode fazer algum trabalho em casa, seja confeccionando alguma coisa e depois vendendo, talvez ajudando nos trabalhos do marido (em casa), tendo alguma "renda extra" pela internet -, desde que não fira seu papel como mulher e esposa cristã; 5. não é preguiçosa - apesar de ser verdadeiro que vive-se num estado de pecado, a mulher busca forças no Senhor e não se deixar desanimar em face das grandes coisas que precisa fazer; 6. sua beleza não está numa "carreira promissora", nem em belas roupas ou joias (1 Tm 2.9; 1 Pe 3.3), mas no seu reto e justo proceder.

Nota:
[1] Mais para frente trataremos da mulher enquanto solteira; por ora importa-nos analisar a questão da mulher casada.
[3] Aqui, não estamos isentando o cuidado e carinho do pai, mas apenas enfatizando a questão materna.

sábado, 5 de maio de 2012

Devemos Pregar Sobre o Terror da Lei de Deus? - Jonathan Edwards


Não se pode argumentar que uma obra não é do Espírito de Deus porque, aparentemente, os ministros a promovem, insistindo demais nos terrores da santa lei de Deus, com uma boa dose de sentimento e seriedade. Se realmente existir, como geralmente se supõe, um inferno de tormentos tão pavorosos e incessantes, do qual verdadeiras multidões correm grande perigo - e no qual a maior parte dos homens das nações cristãs efetivamente cai, geração após geração, por não perceber sua terrível natureza e, portanto, por não tomar o devido cuidado para evitá-lo -, então por que não seria correto que aqueles que se preocupam com as almas se dessem ao trabalho de conscientizar as pessoas disso? Por que os homens não deveriam ser informados o máximo possível sobre a verdade? Se corro o risco de ir para o inferno, deveria ficar feliz por saber tudo o que posso sobre sua natureza pavorosa. Se estou muito propenso a negligenciar o devido cuidado para evitá-lo, aquele que me explicar a verdade sobre a situação, mostrando da maneira mais vívida possível minha desgraça e o perigo em que me encontro, essa pessoa me prestará o maior dos favores.

Pergunto a qualquer um: não é este mesmo o caminho que os homens tomariam se corressem perigo de uma grande calamidade natural? Suponhamos que algum de vocês que são chefes de família visse um de seus filhos dentro de uma casa totalmente em chamas; se, na iminência de ser consumida pelo fogo, a criança estivesse completamente inconsciente do perigo e não fizesse nenhuma tentativa para fugir depois de você lhe ter gritado, você passaria a falar com ela de maneira apenas fria e indiferente? Você não gritaria bem alto, chamando-a com seriedade do modo mais vigoroso possível, mostrando-lhe o perigo em que se encontra e sua insensatez em demorar? Será que sua própria natureza não lhe ensinaria isso, obrigado-o a tomar tal atitude? Se você continuasse a falar apenas friamente, como fazemos em conversas comuns sobre assuntos indiferentes, será que aqueles que estão a seu redor não pensariam que você está destituído de suas faculdades mentais? Não é assim que a humanidade se comporta em acontecimentos seculares de grande importância que requerem a máxima atenção e muito urgência, e com os quais os homens estão bastante preocupados. Eles não estão acostumados a falar com os outros sobre o perigo que correm e adverti-los apenas superficialmente ou de maneira fria e indiferente. A natureza os ensina de outro modo. Se nós, que cuidamos das almas, soubéssemos como é o inferno e conhecêssemos a situação dos condenados à perdição, ou se por algum outro meio nos tornássemos conscientes de quão pavorosa é a condição deles; se ao mesmo tempo soubéssemos que a maioria dos homens foi para lá e víssemos que nossos ouvintes não se dão conta do perigo - nessas circunstâncias, seria moralmente impossível que evitássemos mostrar-lhes com muita seriedade a terrível natureza de tal desgraça e como estão extremamente ameaçados por ela. Nós até mesmo lhes chamaríamos em voz alta.

[...] Não que eu acredite que devemos pregar somente a lei; acontece que os ministros talvez preguem insuficientemente outras coisas. O evangelho deve ser proclamado tanto quanto a lei, e esta deve ser pregada apenas para preparar o caminho para o evangelho, a fim de que ele possa ser proclamado de modo mais eficaz. A principal tarefa dos ministros é pregar o evangelho: "Pois Cristo é o fim da lei para justificação de todo aquele que crê" (Rm 10.4). Portanto, um pregador ficaria muito além da verdade se insistisse demais nos terrores da lei, esquecendo seu Senhor e negligenciando a proclamação do evangelho. Mesmo assim, porém, a lei realmente deve ser enfatizada, e sem isso a pregação do evangelho talvez seja em vão.

Certamente, é belo falar com seriedade e emoção, de acordo com a natureza e a importância do assunto. não nego que possa existir um pouco de impetuosidade imprópria, diferente daquilo que, pela lógica, decorreria da natureza do tema, fazendo com que forma e conteúdo não estejam de acordo. Alguns dizem que é ilógico usar o medo a fim de afugentar as pessoas para o céu. Contudo, acho que faz parte da lógica o esforço para afugentar as pessoas do inferno, em cuja margem elas se encontram, prontas para cair dentro dele a qualquer momento, mas sem se dar contra do perigo. Não seria justo afugentar alguém para fora de uma casa em chamas? O medo justificável, para o qual há uma boa razão, certamente não deve ser criticado como se fosse algo ilógico.

Por Jonathan Edwards (1703-1758)
Fonte: A Verdadeira Obra do Espírito, Ed. Vida Nova - págs. 40-43

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Uma Grande Mulher! Katharina Von Bora (esposa de Lutero)


Uma das figuras femininas mais importantes da Reforma Protestante do Século XVI foi, sem dúvida, Katharina Von Bora. Não que ela tenha praticado qualquer grande ato heróico, se envolvido pessoalmente em grandes controvérsias ou sido martirizada em virtude da sua fé. No dizer de um de seus biógrafos: “ela não escreveu nenhum livro nem jamais pregou um único sermão, mas seu inestimável auxílio possibilitou que seu marido fizesse tudo isso como poucos na história da igreja.” Estamos falando da Sra. Lutero.

Katharina nasceu em 1499, filha de um nobre alemão que passava por dificuldades financeiras. Aos 3 anos de idade, perdeu sua mãe, e seu pai a levou para estudar na escola do convento Beneditino, onde vivia sua tia Madalena Von Bora. Aos 9 anos, entrou para o convento propriamente dito, tornando-se freira aos 16 anos de idade.

Quando Lutero fixou as suas famosas 95 teses nos portões da Capela de Wittenberg, Katharina estava com 18 anos de idade. Entretanto, ela e outras freiras do convento ouviram falar do ensino bíblico de Lutero, e crendo no que ele pregava, desejaram abandonar a clausura. Escreveram a seus pais, mas eles não tomaram nenhuma atitude no sentido de libertá-las. Decidiram então escrever a Lutero, tendo a carta sido redigida pela própria Katharina. Quando o reformador tomou conhecimento do fato, encorajou um amigo negociante a ajudá-las a escapar. Esse homem, Leonardo Koppe, ia frequentemente ao convento, levando alimentos e todo tipo de mantimentos para abastecer o mosteiro, e uma noite em 1523, ajudou-as a fugir, transportando as 12 noviças em um barril de peixes! Muitas retornaram às suas famílias. Lutero procurou auxiliar a todas, ajudando-as a encontrar moradias, maridos e empregos. Dois anos após a fuga, todas haviam seguido seu destino, exceto Katharina, que morou por um curto período de tempo na casa do pintor Lucas Cranach, autor de seu famoso retrato.

Em 1524, com a aprovação e recomendação de Lutero, Katharina foi cortejada por um dos alunos de Wittenberg, mas seu pai se opôs ao casamento. Neste mesmo ano, Lutero arrumou-lhe um novo pretendente, o Pastor Glatz, mas ela recusou-se a desposá-lo. Ela costumava dizer: “Só me casarei com o Dr. Lutero ou com alguém muito parecido com ele”. Lutero ria ao ouvir isso, pois apesar de, já àquela altura, condenar o celibato, não tinha intenção de casar-se: “nunca farão com que eu me case!”, afirmou ele. Alguns garantem que ele chegou a interessar-se por outra ex-freira, Ave Von Schonfeld, mas o relacionamento parece não ter prosperado.

Porém, gradualmente, tanto pela convivência, como por insistência dos seus amigos e seu pai, Lutero acabou propondo casamento à Katharina. Eles ficaram noivos em 13 de junho de 1525 e casaram no dia 25 de junho daquele mesmo ano, ou seja, doze dias depois! A decisão parece ter causado surpresa, pois o próprio Melanchthon, escrevendo a um amigo, declarou: “Inesperadamente, Lutero desposou Bora sem querer mencionar seus planos ou consultar seus amigos”. Muitos foram contra o casamento, pelos motivos mais variados. Primeiramente porque, àquela altura, ainda não se admitia que os religiosos contraíssem matrimônio: tratava-se de um escândalo! Segundo, pela grande luta que o reformador vinha travando contra Roma: na condição de herege e proscrito, sua vida estava em constante perigo. Outra razão era a diferença de idade: quando casaram, Lutero estava com 42 anos e Katharina com 26! Ela também sofreu difamações pela união com o reformador, mas, felizmente, o casamento ocorreu e eles viveram felizes por cerca de 21 anos, até a morte do reformador. São curiosos alguns escritos de Lutero sobre esse período inicial de sua vida matrimonial. Escrevendo a um amigo ele declarou: “Existem algumas coisas com as quais precisamos nos acostumar no primeiro ano de casamento; o sujeito acorda de manhã e encontra um par de tranças postiças no travesseiro, onde antes não havia nada!” Entretanto, após um ano de casado, escreveu: “Minha Kathe é, em tudo, tão dedicada e encantadora que eu não trocaria minha pobreza pelas maiores riquezas do mundo”. E mais tarde: “Não há na terra um laço tão doce, nem uma separação mais amarga como a que ocorre num bom casamento”. Finalmente, é bem conhecida sua declaração: “Não há relação mais bela, mais amável e mais desejável, nem comunhão e companhia mais agradável do que a de marido e mulher num casamento feliz”.

O príncipe Frederico havia dado de presente a Lutero o prédio do mosteiro agostiniano em Wittemberg, e foi para lá que a família se mudou em 1525. Katharina reformou o mosteiro e o administrou, o que veio a permitir que Lutero gozasse de relativa paz e ordem em sua vida privada. Ela dirigia e administrava as finanças da família, para que ele pudesse dedicar-se às tarefas que essencialmente lhe competiam: escrever, ensinar e pregar. Ela foi uma esposa dedicada e diligente, a quem Lutero freqüentemente se referia como “Kathe, minha patroa (no inglês, my lord)”. Eles tiveram 6 filhos, dos quais 4 sobreviveram até à idade adulta. Além disso, cuidavam de uma parente de Katharina e, em 1529, com a morte da irmã do reformador, mais 6 crianças – agora órfãs – se juntaram à família. Além dos familiares e de um cachorro de estimação, era comum haver mais de 30 pessoas no mosteiro, entre hóspedes, viajantes em trânsito e estudantes (eles costumavam receber estudantes, que pagavam pelos seus estudos, ajudando assim a equilibrar o orçamento doméstico). Desse modo, sua rotina diária era bastante atarefada: ela tinha uma horta, um orquidário, confeccionava material para pescaria, e acabaram, posteriormente, adquirindo uma pequena fazenda onde criavam gado, galinhas e fabricavam cerveja caseira. Ela também gostava de ler e de bordar. Lutero costumava chamá-la de “a estrela da manhã de Wittenberg”, já que diariamente levantava às 4 horas da madrugada para dar conta de suas muitas responsabilidades. Com muita freqüência, o reformador caía enfermo, e Katharina cuidava dele não simplesmente como esposa, mas quase como enfermeira, devido aos grandes conhecimentos médicos que possuía.

Entretanto, sua vida não era somente dedicada a coisas materiais. Seu marido a encorajava em seus estudos bíblicos devocionais e sempre sugeria algumas passagens particulares para que memorizasse. Quando ele se encontrava deprimido, era a sua vez de ajudá-lo: sentava-se ao seu lado e lia a Bíblia para ele, edificando o seu coração. Conta-se que, certa vez, Lutero estava bastante deprimido. Não se alimentava e passava os dias trancafiado em seu quarto. Estava cheio de dúvidas sobre se o que fazia era ou não da vontade de Deus. Katharina vestiu-se de preto e entrou subitamente no aposento. Lutero tomou grande susto, pensando que alguém tinha morrido. Katharina respondeu: “Ao que parece, Deus morreu!” A reação de Lutero foi imediata: levantou-se e saiu do quarto, agradecendo à esposa por fazê-lo retornar à vida.

Em termos de recreação, Lutero gostava de participar de jogos ao ar livre com a família, e também apreciava os jogos de mesa, como o xadrez, além de jardinagem e música. Ele e Katharina eram pais diligentes, “disciplinando seus filhos, em amor”. Seu lar era famoso pela vitalidade e felicidade ali reinantes. Dessa forma, a família do reformador tornou-se um modelo para as famílias cristãs alemãs por muitos anos. Lutero considerava o casamento como a melhor escola para moldar o caráter e a vida familiar um método excelente e apropriado para treinar e desenvolver as virtudes cristãs da firmeza, paciência, bondade e humildade.

Lutero faleceu em 1546, e Katharina ainda viveu por mais 6 anos. Ela chegou a ver seus filhos atingirem a idade adulta, alcançando posições de influência na sociedade, exceto aqueles que morreram na infância, causando grande sofrimento as pais: sua primeira filha (Elizabeth) que morreu aos 8 meses de idade, e a segunda filha (Madalena) que faleceu aos 13 anos. Para termos uma idéia desses sofrimentos, segue um breve relato. Quando Madalena adoeceu gravemente, Lutero orou: “Senhor, eu amo muito a minha filha, mas seja feita a tua vontade”. Ajoelhando-se junto à cabeceira de sua cama, falou: “Madalena, minha menina, eu sei que você gostaria de permanecer aqui com seu pai, e também sei que gostaria de ir encontrar-se com o seu Pai no céu. Ela, sorrindo, respondeu: ‘Sim, papai, como Deus quiser’”. Finalmente, depois de alguns dias, ela faleceu em seus braços, e no seu sepultamento, Lutero disse chorando: “Minha querida e pequena Lena, como você está feliz! Você ressurgirá e brilhará como o Sol e as estrelas… É uma coisa esquisita – eu saber que ela está feliz e em paz, e ainda assim, me sentir tão triste!”

Quanto aos outros filhos, o mais velho (Hans) estudou Direito e tornou-se conselheiro da corte. O segundo (Martin), estudou Teologia. O terceiro (Paul), tornou-se um médico famoso, e a terceira filha (Margareth) casou-se com um rico prussiano. A título de curiosidade: os descendentes de Lutero que ainda vivem, descendem de sua filha Margareth, dentre eles, o ex-presidente da Alemanha, Paul Von Hindenburg.
No mesmo ano da morte de Lutero (1546), Katharina deixou Wittenberg e fugiu para Dessau, devido à guerra smalkaldiana e, em 1552, viajou para Torgau, fugindo de uma peste que grassara em Wittenberg. Ela morreu em 20 de dezembro de 1552 na cidade de Torgau.

Encerro esse breve relato sobre a vida de Katharina citando o último testemunho do seu esposo. Escrevendo, certa vez, a um amigo, ele disse: “Minha querida Kate me mantém jovem, e em boa forma também… Sem ela, eu ficaria totalmente perdido. Ela aceita de bom grado minhas viagens e quando volto, está sempre me aguardando com alegria. Cuida de mim nas minhas depressões e suporta meus acessos de cólera. Ela me ajuda em meu trabalho, e acima de tudo, ama a Cristo. Depois Dele, ela é o maior presente que Deus já me deu nesta vida. Se algum dia, vierem a escrever a historia de tudo o que já tem acontecido (a Reforma), espero que o nome dela apareça junto ao meu. Eu oro por isso…”.

Ao tomar conhecimento dessa declaração, Katharina respondeu: “Tudo o que tenho feito se resume a simplesmente duas coisas: ser esposa e mãe, e tenho certeza que uma das mais felizes de toda a Alemanha!”.

Por Layse Anglada

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Efésios 1.9 - "Descobrindo-nos o mistério da sua vontade" - Exposição em Efésios - Sermão pregado dia 29.04.2012



Efésios 1.9 - "Descobrindo-nos o mistério da sua vontade"
Exposição em Efésios - 
Sermão pregado dia 29.04.2012

"Descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo" (Ef 1.9).

É preciso que em nossas mentes esteja bem claro qual o intento do apóstolo Paulo com essa sentença de hoje. Não são poucos os casos em que os homens têm deturpado a palavra do Altíssimo e dado um significado completamente alheio ao intentado pelo Senhor. Por isso, já de imediato, precisamos nos relembrar de três aspectos importantíssimos para a vida cristã:

Em primeiro lugar, o Antigo e Novo Testamento não estão separados por um abismo monstruoso, a ponto de nós não conseguirmos sequer enxergar algo "do outro lado" (isto é, o AT). Um dos princípios básicos do cristianismo é que a Escritura é uma unidade, uma única coisa e, portanto, não pode haver uma ruptura entre os Testamentos (alianças). Em segundo lugar, Jesus Cristo estava presente já no Antigo Testamento. No conhecido versículo de Lucas (24.44), nosso Senhor afirma que tudo que ocorria naqueles tempos dizia respeito e apontava à sua pessoa, de modo que Ele já era atuante na vida daqueles crentes veterotestamentários. Em terceiro lugar, sempre e em todo o momento os crentes foram salvos por meio de Cristo Jesus. Jamais houve um só homem nessa terra que tenha sido salvo pela mera "esperança" ou por uma "fé" em outra coisa que não o Senhor. Muitos têm alegado que no Antigo Testamento os crentes eram salvos pela Lei, mas afirmar isso é uma abominação e ultraje contra o Eterno, pois basta-nos ler Hebreus 11 e nos será mui clarividente que todos aqueles santos viveram, morreram e foram salvos pela fé. Ora, se a fé só é possível através do Espírito de Deus e que tudo converge em Cristo, então, como alguém ousaria afirmar que há salvação em algum outro (como, por exemplo, pela obediência à Lei)? - "E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos" (At 4.12). Em quarto lugar, embora seja verdadeiro que a Escritura é una, há sim uma diferença entre os Testamentos, mas que fique bem estabelecido que essa diferença não é em relação à salvação, isto é, no Novo Testamento não foi iniciado um novo meio de se salvar. Porém, podem-se perguntar alguns: onde podemos nos basear para afirmar tal preposição? Vejamos:

Nosso Salvador disse: "Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim" (Jo 14.6). Ele não disse: "Eu sou o caminho, e a verdade e a vida, hoje, nesses dias, ninguém vem ao Pai, senão por mim." A afirmação de Jesus tem como finalidade a demonstração de que em todos os tempos a salvação se deu pelo Seu nome. Contudo, quem poderia ser salvo no Antigo Testamento? O apóstolo Paulo nos diz: "Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne, e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão feita pela mão dos homens; Que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo" (Ef 2.11-12). O apóstolo deixa-nos bastante claro que antes da vinda de Cristo, tão somente o povo judeu (os que verdadeiramente seguiam os mandamentos e se apegavam à fé no Cristo que viria) era salvo, de modo que todo o restante do mundo estava condenado e morria sem a salvação do Eterno. Portanto, temos aqui a salutar diferença: a vinda de Cristo inaugurou uma nova aliança, não mais somente com o povo judeu, mas com todas as nações (Mt 28.19-20) - se, então, com todas as nações, é preciso lembrar que Lei do Senhor continua vigorando entre todos os povos (pois é por ela que Ele julga), quer desejem ou não.

Contudo, embora isso que afirmamos pareça ser comumente defendido por todos os crentes de hoje, muitos tem pervertido o sentido da vinda de Cristo, como se Ele tivesse vindo a fim de criar uma nova regra, um novo meio de viver, uma forma completamente oposta a tudo que Ele mesmo representava no Antigo Testamento! Notemos, por exemplo, o fato do batismo - quantos são os homens que afirmam que no Novo Testamento as crianças não devem ser mais batizadas? Acaso, mesmo com nossa limitação de pensamento, conseguiríamos conceber um judeu que desde sempre entendeu que seu filho fazia parte da aliança com Deus (vide as declarações pactuais feitas pelo Senhor com seu povo - "eu serei o seu Deus e vocês serão o meu povo") e, "de repente", fora ensinado que seu(s) filho(s) não mais fazia parte da família de Deus? Ora, se assim tivesse sido, talvez pensasse ele, "que tipo de Messias é esse que vem piorar a situação de meus filhos?" Outro fato também é com respeito a Lei, pois não são poucas as pessoas que se baseiam na graça de Deus no Novo Testamento, como se no Antigo ela não estivesse presente! Muitos têm afirmado que Jesus veio abolir a Lei, como se viesse para destruí-la - mas, perguntamo-nos: donde retiraram tal afirmação? Penso que esse ensinamento vil e corrompido é advindo do mau entendimento acerca da unidade da Escritura, pois uma vez que a Bíblia Sagrada representa toda a revelação de Deus, então Deus não pode negar a si mesmo e n'Ele não reside qualquer sombra de variação (Tg 1.17).

Aqui, então, começamos a vislumbrar o intento do apóstolo com as seguintes palavras: "Descobrindo-nos o mistério da sua vontade". O mistério que o Senhor veio nos trazer é a realização plena de Seu Filho Jesus. Ao contrário do que muitos homens incautos têm afirmado, a palavra "mistério" não significa algo não revelado, isto é, o apóstolo não está dizendo aos crentes de Éfeso que Jesus lhes trouxe um novo "mistério", como que querendo dizer que tudo na vida é misterioso, sem entendimento pleno, que qualquer coisa se enquadra em "mistério". Homens bem versados na língua grega afirmam que a palavra "mistério" tem o significado de "descoberto". Diz-se [1] que nos tempos gregos antigos (Paulo utilizou-se dessa expressão também junto a Corinto, na Grécia), era comum que o povo (ou os "sábios") se ajuntasse e alguém contasse algum história, algum enigma, algo que precisava ser desvendado e, então, por fim, perguntava aos ouvintes: "qual o mistério?" - isto é, "qual a solução para esse caso proposto?" Os versículos abaixo corroboram com esse entendimento:

- "Ele, respondendo, disse-lhes: Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é dado" (Mt 13.11).
- "Eis aqui vos digo um mistério: Na verdade, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados" (1 Co 15.51).
- "A mim, o mínimo de todos os santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios, por meio do evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo, E demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou por meio de Jesus Cristo" (Ef 3.8-9).

O próprio Cristo afirma aos seus discípulos que a eles foi dado conhecer "os mistérios do reino dos céus", pois Ele não viera inaugurar um tempo de mistérios e enigmas, mas justamente o contrário, ou seja, que viera inaugura a plenitude dos tempos, a descoberta de tudo aquilo que estava encoberto pelas sombras do Antigo Testamento! Oh! Quão diferente é a abordagem de Cristo em relação à correntes "teológicas" de nossos dias, onde tudo que é de difícil compreensão é tido como um "mistério", sempre procurando persuadir-nos de que tudo é obscuro, tudo é oculto, a vontade de Deus não nos é conhecida, o entendimento está alheio a nós, a revelação nos é desconhecida...

Como crentes pensantes e desejosos de conhecer a vontade de Deus, devemos ter a certeza de que não nos há mais mistérios por parte de Deus - sim, certamente que nem tudo nos é alcançável e que ainda nos resta boa dose de incompreensão quanto a certas coisas, pois ainda vivemos como pecadores e não adentramos a cidade celestial -, pois aprove ao Pai revelar seu filho Jesus aos crentes judeus e também estender o chamado à todas as nações.

Foi por esse motivo que o apóstolo continuou e afirmou: "segundo o seu beneplácito, que propusera em si mesmo". Paulo está nos dizendo que Jesus Cristo veio ao mundo quando, como e porque desejou. O apóstolo também informa aos filipenses sobre essa atitude de Jesus Cristo: "Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros. De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz" (Fp 2.4-8). Cristo, junto com o Espírito Santo e com o Pai (pois, embora três, são apenas um), teve por bem o vir para a terra, esvaziar-se a si mesmo, isto é, negar Sua glória e mais sublime comunhão que tinha com o Pai, e, então, assumir a forma de servo, humilhar-se, ser obediente a vontade do Pai e morrer a morte de cruz. A palavra de Deus quer deixar-nos o mais claro possível que Cristo veio por livre e espontânea vontade. Como já se afirmou em algum lugar, "se há alguém que tem livre arbítrio, esse alguém é Deus".

Notemos que o apóstolo Paulo utiliza-se reiteradas vezes da afirmação de que o Senhor faz tudo conforme lhe agrada e tudo de acordo com o que deseja - todos os versículos anteriores falam, de alguma maneira, de que tudo que temos vem do Senhor. O próprio salmista também deixou isso claro quando disse: "[...] o nosso Deus está nos céus; fez tudo o que lhe agradou" (Sl 115.3).

Portanto, é preciso que os crentes em Jesus Cristo entendam que não nos há mais mistérios em relação à revelação de Deus, ou seja, diferentemente do Antigo Testamento onde Cristo estava representado pelas coisas físicas (os sacrifícios, os rituais, as peregrinações...) e que eram sombras do que haveria de vir, hoje nós vivemos na plenitude dos tempos (Paulo nos ensinará melhor sobre isso no próximo versículo e também no próximo capítulo) e isso tem grande significado para nós. Atentemos, então, para três aplicações com relação ao mistério revelado pelo Senhor:

1. Todo homem é indesculpável diante do Senhor, pois o Seu Filho foi revelado. Quando o apóstolo  Paulo trata da revelação natural, ele diz: "Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis" (Rm 1.20). Aqui, Paulo não está dizendo que pode-se ser salvo apenas olhando para a natureza, mas sim que a criação de Deus revela Seu poder criativo, sustentador e mantenedor de todas as coisas, de modo que todos os homens são indesculpáveis diante do Senhor, pois de um modo ou de outro, todos os homens reconhecem que deve haver um "ser superior" que a tudo controla. E, aqui, podemos seguramente afirmar tal coisa, pois visto que as Escrituras não podem conter contradição, é preciso que passagem de Paulo seja entendida como que explicando que a revelação natural não serve para salvar os homens, mas sim para os condenar. O modo de salvação foi explanado por ele mais para frente, quando disse: "De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus" (Rm 10.17). Ouvir, ler, conversar sobre, ter contato com a palavra de Deus, é o que leva a fé ao homem (pois ela é um dom de Deus - Ef 2.8).

Tendo nós, então, a revelação completa do Senhor em Seu Filho e em Sua palavra, podemos compreender que todos os crentes devem se dedicar à leitura firme da Santa Escritura do Altíssimo, pois não estamos esperando outra revelação, não vivemos mais como os judeus nas sombras da realidade, mas sim já nos áureos tempos onde Cristo foi revelado e a mensagem do Senhor se tornou plena. Se estamos já na plenitude, isto é, no tempo "completo" (apenas ansiando o findar dele), então não temos motivo algum para procrastinarmos nossa devoção e leitura da palavra, pois se toda ela é divinamente inspirada (2 Tm 3.16-17), então ou nos dedicamos firmemente a ela e buscamos conhecer ao Senhor Jesus Cristo tão somente através de suas páginas, ou seria melhor que abandonássemos a fé e voltássemos para o mundo, pois viver na plenitude e ter a completa revelação de Deus, mas relegá-la a pouca coisa, é um dos piores pecados que pode-se cometer.


2. A revelação de Deus (Sua palavra) para nós está completa. Uma vez que a Escritura teve sua completude, então precisamos atentar para o precioso compêndio de livros que temos em nossas mãos. Certa vez diz-se que Lutero afirmou ser a palavra de Deus externa e fixa, isso é, não está em nós, como se fôssemos os responsáveis por ditá-la - está fora de nós; mas, embora esteja fora, é fixa e imutável, pois depreende-se do Altíssimo.

É necessário que compreendamos o valor de termos a palavra de Deus em sua totalidade, pois sendo isso verdade, então não podemos e nem devemos buscar novas revelações. Aquilo que o Senhor intentou que soubéssemos sobre o céu e inferno, por exemplo, não é "ampliado" por livros contrários à palavra de Deus e que se baseiam em supostas "experiências espirituais". Tudo deve passar pelo crivo da Escritura e, uma vez que o apóstolo nos deixa claríssimo que toda a Escritura é divinamente inspirada, então, ao mesmo tempo ele está dizer que somente a Escritura assim o é e tão somente ela é quem pode nos fazer perfeitos e perfeitamente habilitados para toda boa obra. Ninguém e nenhum livro deve buscar revelar coisas contrárias à Escritura, pois agir dessa maneira (e colaborar com ela - comprando livros e indo em conferências, por exemplo) é agir de modo contrário ao Senhor e aliar-se ao inimigo.

3. A vontade de Deus não é subjetiva, mas objetiva. Por fim, é necessário que recordemos que todo o necessário para nossa vida está diretamente especificado nas Escrituras. Com o termo diretamente quero enfatizar que as doutrinas do Senhor podem e devem ser entendidas por todos os cristãos. Não há ninguém que precise ser arrebatado ao terceiro céu para então compreender a verdade do Senhor, pois aprouve a Ele revelar-se de modo objetivo, isto é, ainda que possam conter pontos "obscuros", a boa e sensata interpretação (sempre sob a iluminação e guia do Espírito Santo) é capaz de compreender a vontade do Senhor, pois se assim não fosse, qual o intuito de lermos as Santas Letras se não a pudéssemos entender?

As maravilhosas palavras da Bíblia revelam-nos que o ponto chave da interpretação não é o homem, mas sim a própria Escritura. Quem define a doutrina é a Escritura, quem ensina como ela deve ser aplicada é a própria Palavra, quem admoesta e fala das bênçãos de sua observância é a revelação do Senhor (isto é, a própria Bíblia). Jamais teremos qualquer autorização para interpretarmos a Bíblia de forma "livre" e descompromissada, pois estando cientes de que a palavra de Deus é advinda do Altíssimo, então nela não podem residir várias e muitíssimas interpretações desconexas, pois nosso Deus não é Senhor de confusão, mas de ordem e solenidade.

Que possamos nessa noite agradecer ao Senhor pelos Seus feitos gloriosos e somente a Ele render graças, pois assim como os partícipes dos dias de Cristo, nós também somos igualmente abençoados, de forma que nada nos falta quanto à doutrina e salvação em nosso Jesus Cristo.

Nota:
[1] MOREIRA, Ademir - Professor e Diretor do Instituto Malleus Dei (confirmado também em pesquisas pela internet).

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