segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Sétimo elemento constitutivo do culto público: Cântico de Salmos (parte 2 - A Lei Cerimonial) - Sermão pregado dia 15.01.2012



Sétimo elemento constitutivo do culto público: 
Cântico de Salmos (parte 2 - A Lei Cerimonial) -  
Sermão pregado dia 15.01.2012

Dando seguimento ao que vimos na semana passada, hoje iniciaremos sobre a lei cerimonial, com o que estava relacionada e ainda algumas considerações importantes. De fato eu havia indicado que hoje veríamos sobre os instrumentos, mas achei prudente adiantar o ponto de hoje e adiar o que veríamos.

Quando perguntamos ao crentes se a lei cerimonial foi abolida, quase que em uníssono nos responderiam que sim. Certo estou de que tal resposta não é completamente errada, mas é preciso compreender que nem toda lei cerimonial foi abolida, quer dizer, esta lei ainda é válida para nós, porém certos aspectos dela devem agora ser feitos com outra abordagem, a saber, a do Novo Testamento.

Já disse certo autor: "Como posso defender tal afirmação? [nota minha: a vigência da lei cerimonial] Eu baseio meus argumentos primariamente nas palavras de Jesus gravadas em Mateus 5.17-19. Jesus nos diz que ele não veio para abolir a lei, mas para cumpri-la e que 'nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido'. Nós não podemos concluir que Jesus ensinava que a lei moral não seria abolida, mas a lei cerimonial sim - Jesus não faz essa distinção. Para a mente judaica  a lei era uma única unidade... Nós não podemos concluir pelo que Jesus disse em Mateus 5.17-19 que a lei sumária [nota minha: resumida] (isto é, os Dez Mandamentos) não foram abolidos, mas que os detalhes específicos dela foram. A Lei fica de pé ou cai em unidade, até mesmo por um 'um jota ou um til'. Ou Jesus aboliu a Lei ou não. Baseado nas próprias palavra de Jesus, os aspectos cerimoniais da Lei não foram abolidos e portanto continuam para serem aplicados no regimento do Novo Testamento na mesma extensão que a lei moral requer". [1]

É importante entendermos esse ponto, pois Jesus não poderia nos ter deixado sem lei alguma para a prática cúltica. Seria uma insensatez divina deixar os homens escolherem conforme o seus corações a melhor forma de se adorar e louvar ao Senhor, afinal, o próprio artífice da criação já nos disse que "Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?" (Jr 17.9).

"Outra linha de argumentação sobre que a lei cerimonial não foi abolida e que portanto a Lei deve ser considerada como uma unidade completa, é providenciada pelas seguintes considerações:

- Deus tem uma lei que é boa e santa (Rm 7.12), sobre qual todos os homens deverão ser julgados (Rm 2.12-16; Tg 2.12). Ele não tem dois sistemas de lei - um para o Antigo Testamento e outra para o Novo Testamento.
- Levítico 17-19 mistura leis relacionadas a comer sangue, moral sexual, ofertas de sacrifício, roubar e mentir, separação de sementes, tipos de animais e material de vestimenta. A coleção de leis não foi entregue por Moisés em diferentes classes - moral, civil e cerimonial [nota minha: conforme já vimos, essa distinção foi feita apenas pelos teólogos e visa tão somente ser didática]. Tiago constantemente refere-se à lei desses capítulos, indicando sua contínua aplicabilidade no regimento do Novo Testamento.
- Tiago diz à igreja do Novo Testamento que se alguém quebrar qualquer lei, quebra-a por inteiro (Tg 2.10)." [2]

Dito isso, é então preciso que falemos (ainda que brevemente) sobre o que a lei cerimonial significava e agora significa no Novo Testamento.

"A forma mosaica de observação dos tipos redentivos [nota minha: a forma de se olhar para as cerimônias e nelas visualizar aquele que viria - Jesus] na Lei de Deus, não são mais observadas pelos cristãos do Novo Testamento como eram pelos judeus na economia do Antigo Testamento, porque Deus se revelou completamente em Cristo. Contudo, embora a lei cerimonial do Antigo Testamento não tenha sido abolida, a forma de observá-la foi mudada. Por exemplo:

- Um novo sacerdócio foi estabelecido e que não é dependente da linhagem dos filhos de Arão e não depende de seres humanos pecadores que precisem ter os pecados expurgados conforme os filhos de Arão (Hb 7.11-28). Essa mudança no sacerdócio foi antecipada no tempo do Antigo Testamento (Sl 110.1, 4; Is 66.21).
- O sistema sacrificial de sangue (e.g., Hb 7.11, 12, 27; 9.9, 10, 12; 10.4, 10) foi substituído pelos sacrifícios espirituais (Hb 13.15).
- Os rituais de cerimônia (e.g.; Cl 2.16,17;Hb 9.1-4) foram substituídos por formas espirituais...
- Os sinais do pacto foram mudados (e.g., Gl 5.1, 2, 11; Mt 28.19; At 2.38, 39; Cl 2.11, 12).
- As vestes dos sacerdotes apontavam para a justiça de Cristo; no Novo Testamento as vestes foram mudadas para a imputação da justiça aplicada em seu povo (Is 61.10; Ap 7.13,14).
 - As leis específicas sobre santidade e separação, isto é, leis alimentares, sobre roupas, mistura de sementes e animais, casamento com etnias não judaicas, o casamento levirato [nota minha: obrigação do homem casar com a viúva de seu irmão, caso não tenha deixado um filho homem], cidades refúgio, etc (e.g., At 10.9-16; 11.7-9), eram símbolos físicos dos princípios que seriam manifestos na vida espiritual dos crentes (e.g., Mt 5.8; Mt 16.11, 12; At 10.28; 2Co 6.14-18; Tt 1.14, 15).

Note que os exemplos acima onde se diz substituído, novo, mudado, tem grande diferença de significado com relação a 'abolido'. O cumprimento da Lei por Jesus (Mt 5.17) não aboliu toda lei de Deus (princípios), mas os mudou, particularmente no caso dos rituais associados ao sistema sacrificial e o caminho ou maneira como aplicamos esses princípios. Após Jesus ter declarado que a Lei não foi abolida, em seu ensino no Sermão do Monte (Mt 5-7) ele continua a apresentar a correta interpretação e aplicação da Lei". [3]

A fim de de finalizar esse ponto, também é preciso notar sobre quais são as formas de cerimônia do Novo Testamento.

"Isso é necessário, portanto, para mostrar como os crentes do Novo Testamento devem aplicar o princípio da lei cerimonial que não foi abolida e que ainda é obrigatório observar-se tais leis - mas debaixo de uma nova forma. Para fazer essa aplicação, nós responderemos a questão: O que foi substituído da forma levítica e da lei cerimonial do Antigo Testamento? Nós achamos as seguintes mudanças na forma de se observar as cerimônias no Novo Testamento:

- Não há sacerdócio separado. Todos os crentes são membros da nova classe de sacerdotes (Êx 19.6; Hb 10.11-22 [especialmente v.14]; 1Pe 2.9; Ap 1.6; 5.10; 20.6) em que Cristo é um único sumo sacerdote.
- Todos os crentes têm acesso direto a Deus e não somente uma ordem sacerdotal exclusiva (Hb 10.19-25 [especialmente v.22]).
- Todos os crentes (não somente homens circuncidados e a Páscoa) são participantes das cerimônias não sangrentas e das ofertas: batismo, ceia do Senhor, dízimos e ofertas de renda e em espécie [nota minha: dar sobre e conforme aquilo que ganha] e jejum.
- Jesus é a figura que representa o tabernáculo e o templo (Mt 12.6; Jo 1.14; 2.19-22) e nele todos os crentes são parte do templo santo/cidade santa de Deus (Hb 12.22, 23; 1 Pe 2.5). Quando os crentes se reúnem para adorar em comunidade (isto é, o culto público), eles se reúnem em e como templo de Deus.
- Todos os crentes são chamados a viverem suas vidas com um espírito de santa separação. As leis mosaicas de separação foram descontinuadas (At 10.9-16; 11.7-9) e substituídas por equivalentes espirituais que elas tipificavam [nota minha: eram sombra do que haveriam de vir e por isso se tornaram o que haveriam de ser] (Mt 5.8; Mt 16.11, 12; At 10.28; 2Co 6.14-18; Tt 1.14,15).
- Todos os crentes oferecem sacrifícios (espirituais) a Deus sem a mediação de um sacerdócio humano. Esses sacrifícios espirituais consistem em:
- Incenso (A.T.) = Oração (N. T.) (Sl 141.2; Lc 1.9-11; Ap 5.8; 8.3, 4)
- Sacrifício de animais (A.T.) = Salmos de louvor  (N. T.) (Sl 27.6; 69.30-31; 107.22; Hb 13.15, 16; Ef 5.18, 19; Cl 3.15-17; 1Pe 2.5)
- Vestes santas (A.T.) = Vida dedicada  (N. T.) (Rm 12.1; 15.16, 17; Fp 2.17; 2Tm 4.6; Ap 7.9, 13, 14).

O verdadeiro cristão radical do Novo Testamento não é aquele que reivindica que o sistema cerimonial do Antigo Testamento foi abolido e que depois busca executar as mesmas coisas, mas sim que entende que em Cristo as cerimônias necessárias ainda estão de pé - da total transformação de adoração em forma simbólica, exterior e física, para a espetacular substância, interior, espiritual e simples". [4]

"Por fim, em nossa consideração sobre a adoração, nós concluímos:

1. Somente o próprio Deus define a verdadeira adoração. Qualquer coisa que Deus não requer por preceito ou exemplo, é vã e  falsa adoração (Dt 12.28-32; Mt 28.18-20; Jo 4.23,24).
2. Deus já definiu os elementos da adoração. Em cada tempo de pacto, Deus providenciou um conjunto de elementos que constituem a adoração e são somente esses elementos que ele permite - qualquer outro elemento que o povo traga diante de Deus é falsa adoração (Gn 4.4-7; Êx 20.4-6; Is 65.2-7; Mq 6.6-8).
3. A verdadeira adoração consiste em reverentes atos autorizados. A verdadeira adoração consiste em reverentes atos autorizados por e para Deus e que são feitos para honrar a Ele mesmo ou Seu nome (Sl 96.9).
4. Deus não pode tolerar a falsa adoração. A natureza de Deus requer que a verdadeira adoração seja guardada ciumentamente (Êx 20.4-6).
5. Deus pune a falsa adoração. Ele mostra pelo exemplo de punições severas, durante a inauguração de novas formas de adoração associadas com mudanças do Pacto, que é um pecado oferecer adoração que não é requerida por Ele ou que é requerida mas não oferecida da maneira correta (Lv 10.1-2; At 5.1-11; 1 Co 11.29,30).
6. Homens são criaturas finitas. É um absurdo pensar que homens podem determinar o que é certo fazer ou não fazer durante a adoração e o que agradará a Deus (Dt 29.29; Is 40.12-14; 55.9).
7. Homens são criaturas pecaminosas. O homem natural tem a tendência de avançar na idolatria e introduzir falsa adoração (Is 29.13; Mc 7.6-13; Rm 1.18-23; Cl 2.18-23).
8. O homem não tem autoridade para mudar a adoração. Somente os profetas e sobre direta revelação foi dada a autoridade temporária por Deus para introduzir mudanças em sua adoração. Essas mudanças estavam associadas com mudanças do novo Pacto. Como não há profetas nos dias de hoje e não há mudanças no Pacto, então não pode-se introduzir mudanças nos elementos ou na forma de adoração (Ne 12.24. 36).
9. A Lei Cerimonial não foi abolida, mas a forma de adoração do Antigo Testamento foi mudada no Novo Testamento. O cristão do Novo Testamento é obrigado a manter toda a Lei, inclusive as "cerimoniais" ou "rituais" (Mt 5.17-19; Tg 2.10). A forma de se observar as leis rituais e cerimoniais  foi mudada no Novo Testamento (Ef 2.15). Um fiel cristão neotestamentário irá guardar os princípios cerimoniais da lei, de acordo com as formas do Novo Testamento: oração, cântico de salmos e uma vida dedicava de santidade espiritual.
10. A adoração do Novo Testamento é definida por Jesus e seus apóstolos. Sobre a administração do pacto do Novo Testamento, nós obtemos nossa garantia para os elementos da adoração a partir dos comandos e exemplos de Jesus e dos apóstolos (Mt 28.19,20; Jo 14.26; 1Co 11.1). Alguns elementos (e.g.,  jejuns ou bênçãos) e modos (e.g., batismo por imersão ou aspersão) podem ser aprendidos do Antigo Testamento e de princípios do Novo Testamento (Mt 5.17-19; 2Tm 3.16, 17). [5]

É necessário que os cristãos compreendam que a vinda de Jesus não inaugurou um neonomismo (nova lei) nem criou um antinomismo (ser contrário à lei), mas confirmou o teonomismo (governo de Deus através de suas leis) do Antigo Testamento. O próprio Mestre disse, "E é mais fácil passar o céu e a terra do que cair um til da lei" (Lc 16.17), testificando que até mesmo o menos traço da lei não haveria de passar enquanto Ele reinasse como Senhor absoluto e sumo sacerdote de todos os santos.

A história da Igreja nos mostra que onde não mais existiu temor, a ira do Senhor veio e consumiu tais homens - ora matando-os literalmente, ora entregando-os às suas próprias concupiscências. "Ouvi, SENHOR, a tua palavra, e temi; aviva, ó SENHOR, a tua obra no meio dos anos, no meio dos anos faze-a conhecida; na tua ira lembra-te da misericórdia" (Hc 3:2).

Nós, crentes em Jesus Cristo, precisamos compreender que assim como os sacerdotes do Antigo Testamento deveriam ter o mais sublime respeito e submissão à palavra do Senhor, nós também devemos temer a palavra do do Altíssimo; não porque vivemos sob a lei, mas devido a ela ainda ser nosso jugo que está em Cristo. Assim como o povo veterotestamentário foi claramente instruído acerca do culto e do louvor ao Senhor, nós hoje de igual forma somos instruídos no mesmo caminho, pois certamente que o Senhor não nos têm deixado órfãos quanto à seu lei e nem nos legou apenas a sua "graça", como se agora a lei viesse de nosso coração, mas, prostrados humildemente diante do Cristo ressurreto e que tipificava todas as coisas, devemos buscar conhecê-lo através do Espírito Santo de Deus, nosso fiel ajudador e guia perpétuo em nossa peregrinação rumo a cidade celestial.

Amém.



Notas:
[1] HUGHES, James R. - citado em "In Spirit and Truth: Worship as God Requires (Understanding and Apllying the Regulative Principle of Worship)" - pág. 47 - tradução livre.
[2] Op. Cit. - pág. 48 - tradução livre.
[3] Op. Cit. - pág. 52 - tradução livre.
[4] Op. Cit. - pág. 53 - tradução livre.
[5] Op. Cit. - págs. 54 e 55 - tradução livre.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A Teologia do Culto Reformado - Diferença entre Luteranos e Calvinistas


É freqüentemente suposto que as reformas litúrgicas de Lutero e Calvino são concordes somente na condenação dos abusos existentes no período final da Igreja Medieval. É também admitido que as diferença nas respectivas concepções de Culto e no cerne essencial das suas ordens litúrgicas, refletem os contrastes no temperamento dos dois reformadores. Isto, esperamos demonstrar, é um grave equívoco no entendimento tanto de Lutero como de Calvino, em dois aspectos. Uma tentativa será feita para demonstrar que os pilares gêmeos da Reforma concordavam não apenas no que se constituía os abusos do período final da igreja medieval, mas também no desejo de retornar para a primitiva simplicidade do culto cristão. Esperamos demonstrar, inicialmente, que a concordância deles sobre os abusos que deviam ser corrigidos, além de ser a expressão de suas preferências subjetivas, foi devido às doutrinas e teologia que eles mantinham em comum. Emsegundo lugar, será demonstrado que é uma simplificação espúria da questão, declarar que os desacordos entre Lutero e Calvino são explicados como resultado, respectivamente, do conservadorismo de Lutero e da natureza rigidamente lógica de Calvino. Mesmo que esta afirmação seja alterada e venha a produzir a impressão de que Calvino foi inteiramente verdadeiro aos seus princípios, enquanto Lutero foi conservador, isto ainda permanece uma concepção injusta a respeito de Lutero. Seu aparente conservadorismo pode ser explicado por princípios teológicos.

Os Reformadores eram concordes com respeito aos abusos da igreja medieval, que deviam ser corrigidos. Em particular, eles investiram contra quatro falsas concepções.

(1) Sua comum “aversão peculiar” foi o antigo e medieval ensino a respeito da Missa. Eles concordavam em condenar o ensino que proclama ser na Missa, mais uma vez, oferecido o sacrifício que de uma vez por todas foi feito no Calvário. Não parecia nada menos que blasfemo para eles que homens usassem asseverar que o sacrifício feito na Cruz exigia repetição.

(2) Eles estavam igualmente seguros, em segundo lugar, que a Missa como era celebrada na época não era uma comunhão. O povo não comungava de ambos os elementos; eles eram apenas espectadores de um drama no qual o sacerdote era o ator principal e o coro cantava uma música incidental e complicada. Isso não era tudo; o serviço da Missa não era ao menos inteligível para a maior parte do povo, porque onde era audível, ou era falada ou cantada em uma língua acadêmica [Latim*]. Os Reformadores também objetaram o caráter propiciatório da missa, quando elas eram oferecidas para aplacar a Deus pelas ofensas de alguém ou obter favores especiais de Deus, como por exemplo, antes de sair para uma jornada de trabalho. De fato os Reformadores contendiam que a Missa medieval fora considerada um officium ao invés de um beneficium.[1]

Aliada à desaprovação da Missa por eles estavam suas objeções pelas concepções correntes concernentes ao sacerdócio. Pois se o sacerdote deveria ser considerado como um instrumento indispensável para obter o bom favor de Deus, ele se tornava, não um veículo de graça, mas um impedimento, um obstáculo para a comunhão entre Deus e o homem. Além do mais, os sacerdotes eram, como insistia Lutero com desprezo, tirânicos, insaciáveis, mundanos e mercenários.[2]

(3) A terceira concepção que ambos os Reformadores condenavam era a falsa visão da autoridade dos santos, os quais eram considerados como poderosos mediadores entre Deus e os homens, que poderiam ser influenciados por um indivíduo a remir suas penas e suplícios do purgatório, o que constituía um panteão.

Não é surpresa que, tanto Lutero como Calvino, enfatizassem a primazia da pregação da Palavra de Deus, tanto para acabar com os abusos que estavam incrustados no sacramento da Santa Ceia, como para declarar o que era a verdadeira vontade de Deus nesta matéria.

Os Reformadores não apenas concordavam em suas negações, mas eles eram uma só mente em muitas afirmações positivas. Ambos desejavam restaurar o puro culto da Igreja primitiva. Em sua Formula Missae Lutero declara que não era sua intenção “omnem cultum dei prorsus oblere” (não era obsoleto todo o culto que era prestado a Deus), mas apenas “eum qui in usu est, pessimis additamentis viciatum, repurgare et usum pium monstrare” (alguns usos que estão em prática, péssimas adições viciosas, que pelo uso pio ficam aparentes e repugnam).[3] Ele, portanto não atirava ao mar toda a tradição da igreja não dividida, desde que concordava que “primorum patrum additiones...laudabiles fuere, quales Athanasius et Cyprianus fuiesse putantur” (as primeiras adições dos Pais da Igreja...foram saudáveis, as quais Atanásio e Cipriano foram seus artífices).[4] De fato sua visão era retornar ao não corrompido Serviço da Comunhão da igreja primitiva. A intenção de Calvino era similar. Isto ficou claramente explícito no título completo do Livro de Culto de Genebra de 1542. Este título dispõe: “La forme dês prieres et chantz eclesiastiques auec la maniere d´administrer lês sacrements, et consacrer lê mariage; selon la coutume de L´eglise ancienne” (A forma das orações e cânticos eclesiásticos e ainda a maneira de administrar os sacramentos e celebrar o casamento; segundo o costume da Igreja Antiga).[5] Era portanto, um declarado anseio de ambos os reformadores de restaurar o Culto da Igreja antiga. 

A base comum de concordância tanto nos abusos do culto contemporâneo quanto na positiva concepção de restauração do culto da Igreja primitiva, longe de ser apenas coincidência, era baseado em pressuposições teológicas similares. As doutrinas básicas mantidas em comum pelos reformadores foram três: A Bíblia como a Revelação de Deus, a Justificação por meio da Fé, e Cristo como único mediador entre Deus e os homens. As últimas duas doutrinas, obviamente, foram derivadas da primeira doutrina toda inclusiva das Escrituras. Uma vez que a Bíblia foi resgatada em toda a sua autoridade, então se seguiu que qualquer tradição que conflitasse com a Palavra de Deus, embora com a sanção da Igreja, tinha que ser abolida. 

Ademais, a primazia das Escrituras determinou um desejo pelo retorno aos princípios e práticas da comunidade primitiva dos cristãos como vista nos Atos dos Apóstolos. Estas duas conclusões passaram de mão em mão. Isso porque os erros da Igreja da época foram vistos como desvios, tanto da Bíblia, como também da Igreja primitiva. Além disso, existiam dois princípios dominantes na Bíblia que a prática da época desconsiderava. Se os homens eram justificados por meio da fé na justiça de Cristo, aceitando seu sacrifício como garantia toda suficiente para o perdão de seus pecados, então todas as práticas motivadas por uma crença na justificação pelas obras deveriam desaparecer. Tais práticas incluíam participar da Missa como uma boa obra como também fazer peregrinação religiosa. Ainda, a noção de que os santos tinham um tesouro de méritos o qual está disponível como um crédito para compensar os débitos do pecador, também tinha que ser abolida. A mesma concepção da eficácia da intercessão dos santos e da mediação necessária do sacerdote, anulava a doutrina bíblica de Cristo como único mediador. Se santos e sacerdotes eram indispensáveis, seria inverídico dizer ser Cristo “o único nome dado entre os homens pelo qual importa que sejamos salvos”. Portanto através destas três doutrinas integradas no pensamento de ambos os reformadores, Lutero e Calvino, se fez necessária uma reforma litúrgica.

Os resultados das reformas litúrgicas luteranas e calvinistas foram reconhecidamente diferentes. Como essas diferenças deveriam ser levadas em consideração? É insuficiente explicar estas diferenças assumindo que Lutero era um conservador e cauteloso reformador enquanto que Calvino era lógico e radical. A diferença real entre a reforma luterana e calvinista no culto pode ser disposta como a seguir: Lutero ficaria com o que não era especificamente condenado nas Escrituras enquanto Calvino ficaria apenas com o que é ordenado por Deus nas Escrituras. Este era o seu fundamental desacordo. Isto é de vital importância na historia do culto Puritano, visto que os Puritanos aceitavam o critério Calvinista, enquanto que seus oponentes, os Anglicanos, aceitavam o critério Luterano.

A visão de Lutero, que será demonstrada, foi na maior parte direcionada por suas considerações teológicas, mas deve ser levado em alguma conta seu temperamento e suas exigências práticas que teve de encarar e que devem ser apreciadas as notórias razões do seu tão conhecido conservadorismo. Ele deixou isto perfeitamente claro quando não desejava introduzir uma “nova lex” em matéria litúrgica. Ele era completamente avesso a instalação de um cristianismo Levítico. Isto, dizia ele, era contrário a liberdade do Cristão.[6] Além disso, Lutero sustentava que a Palavra de Deus, se fielmente pregada, iria por ela mesma criar novas e adequadas formas de culto cristão. Não era prerrogativa sua produzir uma liturgia obrigatória que acorrentasse as consciências dos homens cristãos. Mesmo promulgando a Formula Missae ele negou o desejo de coagir os cristãos a aceitá-la.[7] Foi meramente apresentada como uma alternativa sugerida à Missa da Igreja Romana, não como uma declaração autoritativa a qual se deva submeter. A variedade de ritos e cerimônias praticadas nos dias atuais pelas igrejas luteranas do continente é um legado da doutrina de Lutero da liberdade cristã. Deve ainda ser lembrado que ele favoreceu a fluidez cúltica tendo por base uma liturgia uniforme e pela sua própria uniformidade poderia cegar os homens em relação ao caráter interno do culto.[8] Tudo o que ele requeria era que os ritos da Igreja não conflitassem com a orientação da Sagrada Escritura. Aliada a esta preocupação pela liberdade cristã, estava sua defesa do princípio da “festina lente”. Isto estava baseado na orientação de Paulo em considerar o irmão mais fraco. Para que eles não fossem desnorteados por nenhum iconoclasticismo, ele propunha abolir apenas o que era contrario ao ensinamento claro das Escrituras. Para o resto, ele iria provar de todas as coisas e reter o quer era bom.

Esta tendência em considerar a tradição da igreja como valiosa, quando e onde ela não contradizia a Escritura, foi confirmada por Lutero em sua doutrina das Ordens. As implicações desta doutrina foram que Deus ordenou ao mundo que o homem não deveria viver como um indivíduo isolado da sociedade, mas como um ser compartilhando certas relações comunitárias. Tais comunidades ordenadas por Deus são a Igreja e o Estado. Desde que elas dependem para a sua continuidade da divina sanção, os homens devem respeitá-las. Portanto, excetuando-se o que elas definidamente contradizem a vontade revelada de Deus, elas devem ser obedecidas. Tal doutrina coloca um grande prêmio sobre a tradição e deve ser tida como a base religiosa do conservadorismo de Lutero. Também ajuda a explicar o porquê dos bispos terem uma parte importante em decidir quais particulares reformas litúrgicas são desejáveis. Teoricamente Lutero deixou a escolha de aceitar ou rejeitar suas reformas litúrgicas para os cristãos das igrejas locais, mas na prática a decisão foi deixada para a escolha do bispo.

Um ponto a ser tratado ainda, é a atitude de Lutero para com o cerimonial. Em contraste com o despido Culto Calvinista, a liturgia luterana é rica no uso de ações simbólicas e vestimentas. Nesta matéria, nós temos a clara afirmação de Lutero que Deus deu ao homem cinco sentidos com os quais ele o poderia adorar e seria uma franca ingratidão não usá-los.[9] Sem dúvida ele teria considerado a forma de liturgia de Calvino como um exemplo de cultuar a Deus com apenas dois dos sentidos: ouvir e falar [ou cantar]. Ao contrário da liturgia Luterana que apela para o sentido do olfato nos incensos e para a visão pelo uso de vestimentas e cerimônias. Para esse criticismo, Calvino teria legitimamente respondido que o culto é primariamente para a glória de Deus, e secundariamente para a edificação dos homens e não para o prazer deles. Alguém poderia questionar se Lutero ficaria satisfeito com essa resposta, desde que com o senso que tinha da grandiosa condescendência de Deus em Cristo, ele mantinha que Deus tinha dado ao homem auxílios as suas devoções. Tais auxílios eram rituais e cerimoniais. Assim como Cristo, pela sua encarnação, santificou a humanidade, então as coisas terrenas poderiam ser sacramentadas pelo divino. Lutero não estava preparado a dispensar o “o porta olho” para a alma, como Bunyan iria mais tarde denominar. Como nós iremos ver mais tarde, essa visão era inaceitável para Calvino, desde que ele mantinha que o homem era essencialmente corrupto e que seu culto só era aceitável na medida que ele se conformava com a lei de Deus nas Escrituras. Calvino mantinha que o Decálogo discorrendo contra “as imagens de escultura”, tinha dispensando suficientemente a necessidade de cerimônias e vestimentas.

A postura de Lutero, como veremos, era capaz de ser defendida em termos teológicos. Mas sua atitude não era estritamente teológica, nem era sempre baseada em princípios. Algumas vezes ele era inconsistente com seus princípios. Lutero nem sempre levava suas convicções teológicas às suas conclusões lógicas. Por exemplo, seu apelo ao braço do estado para punir os camponeses que se revoltaram contra seus senhores era contrário à sua doutrina da liberdade cristã. Similarmente, em matéria litúrgica, pode ser exposto de forma justa que sua doutrina da Palavra de Deus não foi logicamente desenvolvida. Como atenuante deve ser lembrado, no entanto, que ele foi o primeiro reformador e que no tempo de Calvino a situação era mais estável e os homens tinham mais tempo de refletir nestes assuntos. Não obstante, não pode ser negado que nos últimos anos de Lutero, o reformador mostrou um crescente conservadorismo. Ele desejava mais uniformidade tanto no uso das vestimentas eclesiásticas como nas formas de liturgia. O que previamente era opcional se tornou obrigatório.

Finalmente, não pode se ter dúvida que a opinião de Lutero foi, em certa extensão, moldada não em cima de um princípio, mas pelos acontecimentos. O método era “solvitur ambulando”. Isto era definitivamente o caso na ordem pela qual suas reformas eram executadas. Sua pregação da Justificação pela fé exigiu-lhe reformar o Cânon da Missa. Isto por sua vez levou os sacerdotes a serem separados para cada localidade e também para o costume onde cada sacerdote era permitido realizar uma missa a cada dia. Isso levou mais clérigos para fora da vida cotidiana e assim significava menos dinheiro nos cofres da Igreja. O ataque à vida monástica fez com que muitos monges e freiras ficassem desempregados e solitários. O completo colapso das finanças levou Lutero a buscar ajuda do Príncipe. Um outro efeito das reformas de Lutero era que a Igreja Romana recusava ordenar candidatos que eram luteranos ou que não tomassem os votos do celibato. Todas estas circunstâncias forçaram Lutero a fazer sua própria provisão para ordenar e treinar futuros ministros da Palavra. Numa extensão considerável, portanto, Lutero foi guiado não por seus princípios mas pelos fatos. Ao mesmo tempo é também verdadeiro que foi a fiel proclamação destes princípios teológicos que levou a estes acontecimentos. A atitude de Lutero com a reforma litúrgica foi, pois, majoritariamente fundamentada em bases teológicas, mas também foi parcialmente determinada pelas considerações de conveniências.

As doutrinas que são logicamente aplicadas por Calvino não são distintivamente suas. Ele e Lutero estavam unidos concordemente na maioria delas, mas foi Calvino que deu a elas sua ênfase distintiva e aplicou logicamente a teoria e a prática do culto. Para ambos Lutero e Calvino a Bíblia era a Palavra de Deus. Mas suas concepções da autoridade da Palavra de Deus eram diferentes. Lutero descrevia a Bíblia como “trostbuch” (livro consolador), o berço de Cristo; Calvino, porém a definia como “la sainte loy et parole evangelique de Dieu” (a santa lei e promessa evangélica de Deus).[10] Lutero aceitava a orientação bíblica em matérias doutrinárias, mas recusava em considerá-la um diretório de culto. Lutero iria admitir em sua adoração qualquer elemento litúrgico que não fosse inconsistente com o ensinamento da Bíblia. Calvino só iria aceitar o que a Bíblia especificamente autoriza. Se a Bíblia era a vontade revelada de Deus, afirmava Calvino, então somente as ordenanças bíblicas seriam aceitáveis a Deus. Adições humanas deveriam, por conseguinte, ser de todo ab-rogadas, porque Deus fez conhecer sua vontade nas Escrituras.

A raiz da objeção de Calvino às adições humanas no culto legítimo de Deus tinha outra base. O homem era essencialmente corrupto; ele carregava a “damnosa haereditas” (herança danosa) do pecado original e portanto ele não poderia cultuar a Deus da forma certa ainda que pudesse assim o desejar.[11] Ele é inteiramente pecaminoso e assim suas próprias idéias do que constituiria o correto culto seriam viciadas pela sua depravação. Estando nesta confusão, ele ainda não poderia afastar de seu coração o fato que Deus tinha declarado o que é o verdadeiro culto em Sua Palavra. O homem, portanto, deveria aprender ali como glorificar a Deus da forma certa. Visto que só podemos orar da maneira certa a Deus apenas quando o Espírito Santo por nós intercede, devemos nos submeter a orientação do Espírito. Estas três doutrinas: da Palavra de Deus, do pecado original (da queda), e da intercessão do Espírito Santo, são logicamente aplicadas no culto calvinista. Conseqüentemente o caráter bíblico e os precedentes bíblicos para a liturgia também, ou seja, a centralidade da Palavra está invisivelmente na pregação e visivelmente nos sacramentos. Isto também explica a abertura invocatória pelo auxílio de Deus na liturgia de Genebra, enfatizando a total falta de amparo do homem à parte de Deus. Conseqüentemente, também, a confissão de pecados e a invocação da ajuda do Espírito Santo antes de ler as Escrituras para que Elas possam ser corretamente entendidas.[12] Todas estas três doutrinas tão cuidadosamente levadas a cabo na forma genebrina podem ser compreendidas sob a total submissão da Doutrina Calvinista à dependência de Deus.

A doutrina que Calvino fincou, cada vez mais distintivamente sua, foi a da Eleição. Pode ser dito que ele redescobriu o sentido da Igreja como o Novo Israel, o povo de Deus. Esta doutrina sem sombra de dúvida é refletida em sua teoria do culto. Ela produziu um profundo senso de honra e reverência perante Deus, que era enfatizado na liturgia pela leitura do Decálogo e pela confissão de fé que era feita pelos cristãos como uma unidade em Cristo. Não era menos sentida na profunda e espontânea gratidão que extravasava através do cântico dos salmos pela congregação. E foi esta doutrina, como também a da Comunhão como “sigillum Verbi”, que fazia Calvino enfatizar a unidade dos elementos do culto antes da Comunhão. A Comunhão é, portanto não um mero apêndice ao ato da pregação, é o ato, para os fiéis, no qual Deus sela suas promessas aos Eleitos. A doutrina da Eleição com sua reflexão na natureza corporativa do culto calvinista contrasta com o individualismo que caracteriza a liturgia Luterana.

Deixar esta matéria desta forma seria uma injustiça para a memória de Lutero. Deve ser reconhecido que Calvino teve que acomodar suas visões em três assuntos. Ele fez uma distinção entre os fundamentais e os não importantes pontos na forma do culto. Ele não vacilava por um momento de sua convicção de que todo o culto deve proceder da divina inspiração, e as tradições humanas não carregavam nenhum peso na adoração. Por outro lado, ele mantinha que, em matéria de culto, existiam tanto doutrinas fundamentais como também auxílios superficiais que conduziam à paz e concórdia e que deveriam ser deixados para o julgamento dos Cristãos como indivíduos. Ele fez apenas três concessões, cada uma delas em matéria de forma, não de doutrina.[13] 1) Ele desistiu de sua fórmula de absolvição quando o populacho de Genebra a depreciou como novidade. 2) Ele também permitiu que a Santa Ceia fosse celebrada com pão não fermentado. Ele não desaprovou o uso de pão não fermentado no Sacramento, mas ele não gostou do método pelo qual esta mudança foi introduzida em Genebra, ou seja, ele desaprovou o modo arbitrário pelo qual o vizinho Cantão de Berna exigiu que Genebra adotasse esta prática. 3) Sua terceira e maior concessão, foi a de se render ao requerimento dos magistrados de Genebra em permitir a Ceia do Senhor ser celebrada apenas quatro vezes por ano. Este ponto não foi facilmente concedido e Calvino deixou registrado para a posteridade que sua convicção nesta matéria foi imposta pelos magistrados genebrinos.[14] Estas três concessões não podem ser comparadas em seriedade ou amplitude com as concessões feitas por Lutero. Sendo assim, Calvino não pode ser acusado de inconsistência ou conservadorismo na matéria de acomodação, porque ele sabia tanto a lógica de sua posição quanto que deveria ceder porque era minoria e porque os pontos em questão eram apenas de menor importância.

É na comparação da doutrina dos sacramentos de Calvino (e particularmente da Ceia do Senhor) com a de Lutero, que a anterior base teológica consistente aparece de forma clara. Não é apenas asseverar que Calvino era meramente lógico no seu tratamento dos Sacramentos, visto que ele reconheceu que existe um mistério impenetrável nos atos graciosos de Deus para com o homem, os quais a razão pode raramente provar. Assim, ele era um adorador de mente acurada. No entanto, sua doutrina dos Sacramentos era mais consistente teologicamente que a de Lutero. Como Barclay demonstra,[15] os dois Reformadores eram concordes em quatro principais aplicações. (1) Ambos condenavam qualquer doutrina que negava a necessidade de fé viva no receptor ou que ensinava que os sacramentos conferiam graça ex opere operato. (2) Ambos repudiavam a doutrina que mantinha que os Sacramentos deveriam ser entendidos num sentido meramente etimológico como distintivos ou testemunhos da confissão cristã. (3) Em terceiro lugar, eles rejeitavam como inadequada a visão que os sacramentos representavam meras alegorias ou significativas exibições da verdade. (4) Finalmente, ambos se opuseram a doutrina que expressava que a Ceia do Senhor era apenas um rito comemorativo. Para ambos os sacramentos eram, positivamente, “sigilla verbi”, ou seja, eles eram sinais pelos quais Deus confirmava ou selava suas promessas ao seu povo. A diferença radical entre a posterior visão luterana e a doutrina Calvinista consistia no fato que Lutero mantinha que os Sacramentos tinham eficácia inerente, enquanto Calvino se refere ao seu poder santificador pelo acompanhamento do auxílio de Deus.[16] Lutero pensava que a objetividade dos sacramentos apenas poderia ser mantida se a eficácia inerente fosse postulada. Asseverar a fé como uma pré-condição para a sua eficácia parecia para ele fazer os sacramentos dependerem da fé do receptor. Calvino estava bem ciente desta imputação, mas sua doutrina da Ceia do Senhor não pode ser acusada de subjetividade, desde que ele declara que a própria fé é um dom de Deus mediado pelo Espírito Santo. Lutero também achou dificuldade em manter uma crença numa união mística de Cristo com o crente na Santa Ceia, se alguém mantinha que o corpo ressurreto do Senhor era limitado (limitado ao céu em corpo humano – N. E.)

Para eliminar esta dificuldade, Lutero mantinha a doutrina da ubiquidade do corpo de Cristo. Calvino, por outro lado, não recorreu a uma dúbia teoria metafísica para substanciar conclusões chegadas de equivocados fundamentos teológicos. Ele argumentou que o corpo ressurreto de Cristo estava no céu, mas isto não o impedia de que ele pudesse operar pelo poder do Seu Espírito Santo.

“Cristo, com todas as suas riquezas está lá presente a nós não menos do que estivesse perante nossos olhos ou tocado por nossas mãos”.[17]

Então, pode ser visto que a posterior doutrina de Lutero da eficácia inerente dos Sacramentos se distancia de sua doutrina inicial dos sacramentos como “sigilla Verbi”, presente e respondida por meio da fé. Do outro lado, Calvino é consistente teologicamente sem conceder nada da objetividade da posterior visão de Lutero. Ao mesmo tempo seu ensinamento, igualmente com o de Lutero, preserva o sentido da grata adoração como a condescendência de Deus quanto também a um profundo senso de mistério.

(1) Esta primeira grande diferença entre o culto Luterano e o Calvinista, considerada como um todo, é que o primeiro é mais subjetivo e o ultimo é mais objetivo. Para Lutero a Bíblia é a Palavra de Deus na qual ele encontra a corroboração de sua experiência espiritual. Para Calvino a Bíblia é a declaração da vontade de Deus e tem autoridade em toda sua totalidade. O culto luterano tende a se tornar a expressão da experiência que a Palavra gera. Sua atmosfera é de alguém grato pelo perdão misericordioso de Deus. No culto Calvinista mais proeminência é dada para a Bíblia como a declaração da vontade de Deus para a doutrina, conduta e governo da Igreja. A atmosfera característica é a de reverente temor perante a Soberana Vontade. O sermão no culto calvinista é um elemento objetivo de culto, porque é o proclamar e expor a vontade de Deus declarada em todas as partes dos Escritos Sagrados. Além disso, enquanto o culto luterano apela para o individual e expressa sua confissão na primeira pessoa do singular, o culto calvinista é corporativo e congregacional. Deus é concebido como declarando sua vontade aos Eleitos e as orações feitas são a resposta corporativa à Sua Palavra, como o são os louvores nos salmos metrificados.

(2) A segunda diferença é que o culto calvinista é mais bíblico em natureza que o luterano. Onde no culto luterano se continha hinos que são paráfrases da experiência cristã e ensinamentos cristãos, para Calvino os louvores eram inteiramente escriturísticos. Ele apenas permitiria os Salmos. Enquanto Lutero não se opunha ao uso de seqüências de prosas, provadas antes que sua doutrina fosse correta, Calvino insistia na leitura da Palavra de Deus sem embelezamentos. Outra vez, enquanto as orações luteranas poderiam proclamar a experiência cristã, como o arrependimento ou a adoração, nas formas originais de Calvino a liturgia apenas continha uma oração de confissão que era exclusivamente escriturística. Também Calvino incluiu o Decálogo como uma parte integral da liturgia de Estrasburgo.

(3) Uma terceira diferença entre os ritos luteranos e calvinistas é que mais se destaca. Enquanto o culto luterano é composto de dois elementos, o movimento descendente de Deus em direção ao homem e o movimento ascendente do homem até Deus (estes sendo aproximadamente iguais em proporção), o culto calvinista é majoritariamente um movimento descendente. Se o pensamento em primeiro lugar na mente de Lutero era a gratidão, o pensamento dominante para Calvino é que no culto o homem obedecia à Bíblia, pois à parte desta obediência ele não poderia oferecer uma aceitável adoração a Deus. A idéia fundamental do culto luterano era gratidão; a de Calvino era obediência. Ainda que existam elementos, tanto nas orações como nos louvores do culto calvinista que representem este movimento ascendente, o senso que prevalece é uma reverente humilhação perante o Deus vivo. Isto é exemplificado pela falta de uma específica oração de adoração no serviço calvinista. Se os adoradores luteranos eram “laeti triumphantes”, os calvinistas eram “miseri et abiecti”. Esta distinção não é absoluta, mas aponta para uma real diferença de ênfase.

(4) Em quarto lugar, o culto luterano é mais rico no uso de cerimônias que o serviço calvinista. Anteriormente já foi mostrado que eram teológicas e não estéticas as razões para a diferença. Basta dizer aqui que o culto luterano é “rico” e o calvinista é “nu”.

As diferenças teológicas entre Lutero e Calvino refletidas nas diferenças de ênfase litúrgicas são de total importância porque esta base litúrgica prepara o caminho para as diferenças entre os Anglicanos e os Puritanos na Inglaterra. É visto que a posição do Clero Estabelecido na Inglaterra era a de Lutero, enquanto que as visões dos Puritanos eram aquelas de Calvino. A analogia não é exata em cada detalhe, mas num todo é muito boa. Pode ser certamente mantido, no entanto, que as diferentes concepções da autoridade das Escrituras na mente de Lutero e na mente de Calvino reapareceram na controvérsia litúrgica entre os Puritanos e o clero Estabelecido, os Anglicanos. Os Puritanos foram os herdeiros dos Reformadores.

Extraído e traduzido do The Worship of the English Puritans, páginas 13 a 24, de autoria do Dr. Horton Davies – Editora Soli Deo Gloria Publications.

[1]James Moffatt, ‘Lutero’, capítulo viii de Christian Worship (ed. cit.) p. 127
[2] Formula da Missae de Lutero, em Carl Clemen Quellenbuch zur praktischen Theologie, I Teil (Giessen 1910) p. 27f
[3] Clemen op. cit. p. 27
[4] ibid.
[5] Maxwell The Liturgical Portions of the Genevan Service Book (1931) p. 70; os itálicos são meus.
[6] Moffat op. cit. p. 125
[7] Clemen op. cit. p. 26
[8] Moffat loc. cit.
[9] Moffat op. cit. p. 129
[10] J. S. Whale, “Calvin”, ch. x. of Christian Worship p. 156.
[11] Inst. I. iv
[12] Calvino La forme des prières ecclésiastiques, em Clemen op. Cit. Pp. 51-58
[13] F. O. Reed Public Worship in XVIth century Calvinism (tese para graduação – não publicada – na B. Litt. na Universidade de Oxford) ch. ii
[14] Maxwell op. cit. p. 203
[15] The Protestant Doctrine of the Lord´s Supper (1928) ch. ii
[16] Inst. IV xix 2
[17] Le Catechisme français de Calvin, citado por F. O. Reed op. cit.

Fonte: Os Puritanos

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Sétimo elemento constitutivo do culto público: Cântico de Salmos (parte 1 - fazer somente o ordenado nas Escrituras) - Sermão pregado dia 08.01.2012



Sétimo elemento constitutivo do culto público: 
Cântico de Salmos (parte 1 - fazer somente o ordenado nas Escrituras) -  
Sermão pregado dia 08.01.2012

Queridos irmãos, é com grande alegria que chegamos ao último elemento constitutivo do culto público. Todos nós podemos testemunhar de como o Senhor tem sido benigno para conosco, nos têm ensinado segundo seus preceitos imutáveis e de como nos tem sustentado em meio aos momentos de dúvida e fraqueza.

Devido à certa complexidade do tema em voga (Cântico de Salmos), creio que levaremos um pouco mais de tempo para finalizarmos, haja vista precisarmos entender algumas nuances quanto à adoração e louvor.

A finalidade do presente estudo - Elementos Constitutivos do Culto Público - é para que entendamos quais são as coisas requeridas pelo Senhor em Sua Palavra e de que forma elas devem ser aplicadas à vida da igreja. Também temos por alvo compreender que tudo que fuja à regra que estamos vendo, deve ser cuidadosamente analisada, não porque sejamos perfeitos (Rm 3.10), mas sim porque desejamos compreender a verdade revelada nas Escrituras, e para isso devemos ter todo cuidado para não acrescentar ou diminuir algo da sua palavra.

Para captarmos o presente ensino bíblico, é necessário que tenhamos pressupostos corretos, quer dizer, nossa base de fé deve ser coerente com a Bíblia - com isso digo que devemos ter a soberania de Deus como certa para nossas vidas, a certeza de que Deus revelou seu plano de salvação e de guia para o homem na terra tão somente na Sua Palavra escrita e também estarmos certos da suficiência das Escrituras (2Tm 3.16,17).

"Tudo o que eu te ordeno, observarás para fazer; nada lhe acrescentarás nem diminuirás" (Dt 12.32). Esse precisa ser um dos versículos que constantemente permeie nossa mente, pois ele nos é explícito ao dizer que tudo o que precisamos para a fé e salvação encontra-se revelado nas Sagradas Escrituras - conforme diz a própria Confissão de Fé de Westminster: "À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens" (Cap I, VI). Como já vimos esse ponto em outro lugar (clique aqui), não me deterei novamente nele.

Quando conversamos com os crentes sobre o que viria a ser adoração e louvor, de um modo geral a resposta que obtemos é que "louvor é tudo o que eu ofereço a Deus". Certamente que não está de toda errada essa afirmação, porém fica ainda uma pergunta: "o que você oferece a Deus é aceitável a ele"? Um rei que decreta seus mandamentos e a maneira como deseja ser adorado, certamente reputará como erro toda forma não prescrita por ele, isto é, ainda que algum vassalo seu venha "de todo coração" lhe oferecer algum fogo estranho (tal qual os filhos de Arão fizeram e por isso foram mortos - Nm 26.61), tal oferta não será aceitável ao Rei, pois não foi dessa maneira que ele havia ordenado que se fizesse. Ou ainda: haveria alguma  razão para um aluno de matemática que ao ser lhe dada uma tarefa, em vez de resolvê-la, pega e entrega um artigo sobre a história dos componentes químicos? Acaso seu professor aceitaria como sendo uma tarefa resolvida? Certamente que tal aluno seria aconselhado a entregar a tarefa que lhe foi dada, ainda que tenha feito de todo coração o artigo não pedido.

O profeta Jeremias nos relata esse ensino:

"Assim diz o SENHOR, acerca deste povo: Pois que tanto gostaram de andar errantes, e não retiveram os seus pés, por isso o SENHOR não se agrada deles, mas agora se lembrará da iniqüidade deles, e visitará os seus pecados. Disse-me mais o SENHOR: Não rogues por este povo para seu bem. Quando jejuarem, não ouvirei o seu clamor, e quando oferecerem holocaustos e ofertas de alimentos, não me agradarei deles; antes eu os consumirei pela espada, e pela fome e pela peste. Então disse eu: Ah! Senhor DEUS, eis que os profetas lhes dizem: Não vereis espada, e não tereis fome; antes vos darei paz verdadeira neste lugar. E disse-me o SENHOR: Os profetas profetizam falsamente no meu nome; nunca os enviei, nem lhes dei ordem, nem lhes falei; visão falsa, e adivinhação, e vaidade, e o engano do seu coração é o que eles vos profetizam" (Jr 14:10-14).

A palavra de Deus é clara: o povo ama o caminho que lhe é prazeroso, mas constantemente deixa de consultar o Senhor para saber se a Ele tal caminho também é agradável. O Senhor também ensina sobre que quando o erro não é combatido e deixado de lado, ainda que ofereçam "holocaustos e ofertas de alimentos, não me agradarei deles; antes eu os consumirei pela espada, e pela fome e pela peste" (v.12). A voz do Senhor não é coisa para se brincar, mas para se temer.

Temos ainda outro exemplo de desobediência e de como o Senhor não aceita louvores - isto é, modos de O honrá-lo e glorificá-Lo - contrários ao que Ele instituiu1Sm 15.1-23.


A palavra do Senhor foi muito clara para Saul: "Ouve, pois, agora a voz das palavras do Senhor" (v.1), "Vai, pois, agora e fere a Amaleque; e destrói totalmente a tudo o que tiver, e não lhe perdoes; porém matarás desde o homem até à mulher, desde os meninos até aos de peito, desde os bois até às ovelhas, e desde os camelos até aos jumentos" (v.3). A ordem para Saul era muito clara: ir e matar tudo o que encontrasse. Contudo, não foi isso que fez: "E Saul e o povo pouparam a Agague, e ao melhor das ovelhas e das vacas, e as da segunda ordem, e aos cordeiros e ao melhor que havia, e não os quiseram destruir totalmente; porém a toda a coisa vil e desprezível destruíram totalmente" (v.9). Humanamente falando, Saul até teve um bom discernimento, afinal, destruiu tudo o que era vil e desprezível e ficou apenas com os melhores animais - ainda mais, o próprio Saul testifica estar convicto de ter feito exatamente o que o Senhor lhe ordenara: "Veio, pois, Samuel a Saul; e Saul lhe disse: Bendito sejas tu do SENHOR; cumpri a palavra do SENHOR" (v.13). Pobre Saul, não soube sequer discernir o próprio erro. "Então disse Samuel: Que balido, pois, de ovelhas é este aos meus ouvidos, e o mugido de vacas que ouço?" (v. 14). Samuel questiona a Saul, pois se ele havia cumprido a palavra do Senhor, como seria possível haver ovelhas e vacas com ele, sendo que tudo deveria ser destruído?

Vemos também que Saul tentou achar uma desculpa para seu não cumprimento: "E disse Saul: De Amaleque as trouxeram; porque o povo poupou ao melhor das ovelhas, e das vacas, para as oferecer ao SENHOR teu Deus; o resto, porém, temos destruído totalmente" (v.15). Que atitude lamentável! O rei Saul achou que poderia oferecer algo contrário ao que Deus havia instituído, como se ele soubesse melhor o que poderia agradar ao próprio Senhor! Então Samuel lhe questiona: "Por que, pois, não deste ouvidos à voz do SENHOR, antes te lançaste ao despojo, e fizeste o que parecia mau aos olhos do SENHOR?" (v.19). Saul tenta mais uma vez se desculpar e dizer que desejou fazer tudo de bom coração: "Então disse Saul a Samuel: Antes dei ouvidos à voz do SENHOR, e caminhei no caminho pelo qual o SENHOR me enviou; e trouxe a Agague, rei de Amaleque, e os amalequitas destruí totalmente; Mas o povo tomou do despojo ovelhas e vacas, o melhor do interdito, para oferecer ao SENHOR teu Deus em Gilgal" (vs.20,21 - grifo meu).

Infelizmente, assim com procedeu Saul, muitos hoje também agem achando que o simples fato de tentarem fazer o seu melhor para o Senhor é sinônimo de que Deus receberá a sua oferta. O profeta Samuel foi incisivo em repreender Saul e dizer-lhe que o Senhor ordena que O obedeçamos conforme ele mesmo prescreveu e não segundo os intentos de nosso coração! "Porém Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros" (v.22). Por fim, o veredicto contra Saul demonstra a gravidade de seu pecado: "Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniqüidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei" (v.23) -.

Com razão já disseram certos escritores: "A conexão entre teologia e adoração é tão vital, que é impossível mudar a forma de adoração (prática) sem alterar o conteúdo (convicção teológica)" [1] e é por essa mesma razão que devemos compreender que um ensino verdadeiro do evangelho deve ser coerente com a prática ordenada e ensinada pelas Escrituras, pois se assim não for, corremos grande perigo de brincarmos com o nome do Senhor, de lhe oferecermos "holocaustos e ofertas" e em lugar da bênção e provisão, colhermos "espada, fome e peste".

Um dos assuntos mais questionados pelos novos convertidos é sobre como eles devem passar a viver pelo Senhor, isto é, eles perguntam aos crentes mais experimentados sobre qual a forma correta de prestarem culto durante toda a sua vida ao Senhor. Muitos obtém uma boa resposta com respaldo bíblico (1Co 10.31), mas mesmo esses, por muitas vezes não são ensinados sobre a diferença que há entre o culto público e o particular (clique aqui para ler) e também não sabem diferenciar os momentos das circunstâncias. Um exemplo bastante claro disso é o fato de muitas pessoas ainda acharem que a dança é algo permitido durante o culto ao Senhor, pois baseando-se em alguns Salmos, acham que podem louvar ao Senhor em público com tal atitude, porém, "Ao olharmos para o Salmo 150:4 ('Louvai ao Senhor com adulfes e danças'), o termo hebraico mahol 'dança', é um termo usado como símbolo de alegria após uma vitória. Normalmente uma mahol era acompanhada de adufes (tof); por isso o salmista usa o conjunto 'adulfes e danças'. A expressão hebraica do Salmo 150:4 é exatamente a mesma encontrada em referência à dança de Miriam em Êxodo 15:20, em sua forma verbal ('tocaram adulfes e dançaram')" [2], ou seja, uma coisa é pular e cantar durante após uma vitória na batalha, outra coisa muitíssimo diferente é dizermos que as danças são um meio de adoração em si, ou ainda como querem certos espíritos enganadores, que a dança é "profética" e "move o coração de Deus". Também notamos que "(o 'mahol' é uma comemoração de batalha que pode incluir danças nada artísticas, nem belas - são simples 'pulos'; ou mesmo pode não incluir dança alguma, mas simplesmente dois tipos de címbalos, tocados com o movimento dos pulsos e do corpo. Está muito longe de ser um balé oriental, ou uma dança do ventre como alguns têm feito. Também não é uma 'dança de salão', pois danças de casal com proximidade física são reservadas para a intimidade na Escritura e não são cabíveis em público...)". [3]

Calvino diz: "Para os homens que não dão importância para o que Deus ordenou ou que aprovou, e em vez de servi-lo de forma adequada assumem para si mesmos a licença de elaborar modos de adoração e mais tarde fazem a si mesmos mais altos que o Senhor na obediência... Deus rejeita, condena, abomina toda forma fictícia de adoração e emprega sua Palavra como freio para nos manter em uma obediência incondicional. Quando esse jugo nos é tirado, vagamos por nossas próprias ficções e oferecemos a ele um louvor imprudente de nós mesmos, de modo que em sua visão isso é vã insignificância, mais que isso, vileza e poluição. Os advogados das tradições humanas os pintam em cores vistosas e leais, e Paulo certamente admite que eles carreguem uma amostra de sabedoria, mas como para Deus a obediência vale mais do que todos os sacrifícios, isso deveria ser suficiente para rejeitar qualquer modo de adoração que não é sancionado pelo comando de Deus" [4].

Diante do exposto precisamos nos perguntar: O que a Bíblia diz acerca do louvor e de que forma ele deve ser feito? É lamentável que muitos "líderes de louvor" ou "levitas" (como se tal oficio ainda existisse) estejam a anos nessa prática, mas quando indagados se de fato estão em conformidade com as Escrituras, pouco sabem a respeito. Assim também são aqueles "árduos" defensores do "culto" alternativo (leia-se, show) e que voltam-se para a geração atual, como se as ordens bíblicas dependessem da sanção do homem!

"Como nós adoramos reflete a nossa teologia. 'Adoração, contrário à muita opinião, não é uma questão de gosto, mas um assunto de convicção teológica'". [5] Se tivermos nossas convicções teológicas separadas da Bíblia, certamente labutados em terreno maligno. É impressionante como na prática muitos homens e mulheres acham que os intentos de Deus são inferiores aos dos homens, como se Deus não soubesse qual a melhor maneira que lhe agrada ser adorado! Também notamos que uma liturgia errada (práticas durante o culto) leva à uma noção errada sobre o Senhor. Se tivermos verdadeiros shows e concertos em nossas igrejas, como esperar que alguém venha com reverência e devoção ao Senhor, sendo que o que ali se faz não é segundo as Escrituras?

Para aprendermos sobre adoração, precisamos lembrar-nos de 3 coisas:

1. A adoração é para a glória de Deus. "A luz da natureza mostra que há um Deus que tem domínio e soberania sobre tudo, que é bom e faz bem a todos, e que, portanto, deve ser temido, amado, louvado, invocado, crido e servido de todo o coração, de toda a alma e de toda a força; mas o modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por ele mesmo e tão limitado pela sua vontade revelada, que não deve ser adorado segundo as imaginações e invenções dos homens ou sugestões de Satanás nem sob qualquer representação visível ou de qualquer outro modo não prescrito nas Santas Escrituras (Rm  1:20; Sl 119:68, e 31:23; At 14:17; Dt 12:32; Mt I5:9, e 4:9, 10; Jo 4:3, 24; Êx. 20:4-6 - grifo meu). [6]

2. Deus ministra ao homem, e não o contrário. Ainda que louvar seja um ato humano, o louvor ao Senhor não serve para dar algo a ele (pois do que necessita?), mas é o momento onde profundamente reverenciamos o seu nome e cantamos glórias na esperança de que ele fale e transforme o nosso coração à medida que vamos crescendo em graça e em conhecimento,

3. A adoração é definida somente por Deus. Ninguém, absolutamente ninguém tem o poder de dizer como Deus pode ser adorado, exceto Ele mesmo. Assim como em minha casa tenho autoridade para dizer como as coisas devem ser feitas, onde determinado objeto deve ser guardado e como me agrada a disposição das peças, assim também Deus é a autoridade suprema sobre a adoração que Lhe rendemos. Para evitarmos cair em erro, é preciso que partamos da premissa de que a adoração não pode ser feita segundo nossos desejos ou paixões, mas somente como o Senhor ordena.

Uma das frequentes razões para que os crentes não gostem da abordagem sobre o louvor, é que ela parece dizer que enquanto para a vida diária não há ordenanças específicas (que tipo de emprego arrumar, onde morar, qual casa comprar...), para o culto ao Senhor seja prescrita uma série de orientações e ainda mais, ordenanças de como se deve prestá-las a Ele.

É preciso notar que assim como os reformadores (e muitos antes e depois deles!) foram árduos defensores do "Sola Scriptura" e combateram com veemência (as vezes com seus próprios sangues) os acréscimos à palavra do Senhor, nós também hoje devemos lutar, não somente para com o romanismo e outras religiões (ainda que seja importante), mas também para eliminar o mau de dentro do que tem se chamado de "igreja". Bem sabemos que não é nosso serviço "limpar a eira" (Lc 3.17), pois tal pertence ao Senhor, mas no que tange à nossa responsabilidade e instrução na graça de nosso Deus, somos chamados a pregar a verdade em meio a tantas mentiras e práticas repugnantes ao Altíssimo. Defender uma prática como sendo supostamente bíblica, mas não tendo como prová-la, é quase tão maligno como negar a verdade e a fé.

"Deus se importa com a adoração correta. Isso é importante para ele. Nós não estamos lidando com um único versículo prova. As páginas das Escrituras proclamam em alta voz que Deus deve ser adorado em espírito e em verdade. Nós não estamos tratando de um assunto banal. Estamos tratando com um dos mais importantes assuntos que nós podemos imaginar. A adoração a Deus fica em pé ou cai devido à quantidade de consideração que damos às leis de Deus em todas as áreas da vida... A Bíblia e somente ela deve ser nosso guia para determinar como Deus deve ser adorado". [7] Em outras palavras: ou humildemente nos submetemos à Bíblia e ao que ela ensina sobre adoração, ou será melhor negarmos que ela é nosso guia de fé e de prática.

Ditas essas coisas, é preciso que verifiquemos nas Escrituras (semana que vem) se coisas como bandas, orquestras, show de luzes e o tipo de música cantada atualmente é algo que pode ter respaldo bíblico - se tiver, faremos; se não tiver, precisamos verificar o que a Bíblia nos diz sobre isso e fazer somente o que ela nos ordena.

Infelizmente muito do que se diz ser "desde sempre" - isto é, quase que um axioma cristão -, na verdade é invencionice bastante recente. Vemos por exemplo que os dons de línguas e as novas revelações do Espírito Santo vieram a ser enfatizadas com maior vigor somente no século passado (em 1906, com a reunião na rua Azuza, nos Estados Unidos). A doutrina do "arrebatamento secreto", segundo o Dr. Martyn Lloyd Jones, não surgiu no mundo senão depois de 1830. O sistema de "apelos" no culto, do tipo "venha para frente receber Jesus - faça uma oração e seja salvo", também teve sua maximização em Charles Finney (1792 - 1875). Também vemos que muitas bíblicas editadas nos últimos tempos fazem quase que piada com o nome do Senhor, a ponto de serem tão simplórias que marginalizam toda a estrutura do texto e adulteram palavras de magnífica importância, quando não são aquelas que fazem comentários inúteis e malignos ao texto divino (Bíblia Batalha Espiritual e Vitória Financeira, Bíblia da Mulher que Ora, Bíblia de Estudo Pentecostal...).

A Bíblia também relata-nos que nem sempre podemos nos guiar pela maior quantidade de pessoas executantes de certos feitos, afinal, não é porque boa parte das igrejas tenha determinada prática, que isso signifique por si só que seja bíblico. A Bíblia nos mostra que a maioria muitas vezes esteve errada:

- A maioria esmagadora pereceu nas águas do dilúvio, Gn. 7;
- A maioria se rebelou contra Deus e Moisés em Êx. 32;
- A maioria se rebelou contra Deus e Moisés em Nm. 14;
- A maioria cultuava falsos deuses em Jz 2;
- A maioria matou Jesus;
- A maioria vai eleger o anti-cristo.

O chamado "Sola Scriptura" pode-nos ser algo novo, mas para a história da igreja é algo bastante antigo. Não devemos nos espantar com as "novidades", desde que elas sejam novidades apenas para nós, não para a história da igreja.

Muitos dos erros cometidos hoje em dia são devidos à ignorância teológica que existe entre o pastor e o povo - "O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento; porque tu rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei" (Os 4.6). Certamente que o Senhor vinga-se dos profetas que falam falsamente no seu nome, mas não somente isso, também vinga-se daqueles que executam certas atividades que são contrárias à sua lei.

Hoje, nós aqui presentes, se desejamos ser mais santos ao Senhor - "sem a qual ninguém verá o Senhor" (Hb 12.14) -, devemos buscar o conhecimento de Deus tão somente através de sua palavra santificadora e mais do que útil para nos ensinar. Nossos papéis como crentes não são de colocar a cultura à frente da palavra nem o gosto à frente da verdade, mas sim a Bíblia como nossa única regra de fé, conduta, piedade e sobriedade.

Semana que vem veremos o que a Bíblia nos ensina sobre instrumentos (Sempre foram usados? Qual sua relação com o templo do Antigo Testamento? Qual foi a prática apostólica? Que dizer dos Salmos que falam sobre eles?) e o testemunho da igreja histórica sobre isso.

Não podemos nos dar o luxo de afirmarmos que algo é verdadeiro sem antes verificarmos se a Bíblia assim sanciona.

Cristo os abençoe.

Notas:
[1] HART, D. G e MUETHER, John R. - citado em "In Spirit and Truth: Worship as God Requires (Understanding and Apllying the Regulative Principle of Worship)" By James R. Hughes, pág. 5 - tradução livre.
[2] Citado nesse mesmo blog - clique aqui para ler na íntegra.
[3] Citado pelo professor e diretor do Instituto Malleus Dei, Salomão Rod - via e-mail.
[4] Citado em "In Spirit and Truth: Worship as God Requires (Understanding and Apllying the Regulative Principle of Worship)" By James R. Hughes, pág. 7 - tradução livre.
[5] Ibid, pág. 8
[6] Confissão de Fé de Westminster, capítulo XXI, seção I.
[7] Citado em "In Spirit and Truth: Worship as God Requires (Understanding and Apllying the Regulative Principle of Worship)" By James R. Hughes, pág. 15 - tradução livre.

domingo, 8 de janeiro de 2012

A Importância de se Valorizar o Tempo - Jonathan Edwards


"Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, mas como sábios, Remindo o tempo; porquanto os dias são maus" (Efésios 5:16,17).

Os Cristãos não só devem estudar para melhorar as oportunidade de que gozam, para seu próprio benefício, como como aquelas das quais se poderia fazer um bom negócio; mas também trabalhar para reclamar a outros de seus maus caminhos, de tal maneira que Deus postergaria Sua ira, e os tempos poderiam ser redimidos daquela terrível destruição, a qual, quando vier, porá um fim ao tempo da Divina paciência.

E, pode ser quanto a isto, que a seguinte razão é adicionada a proprosição principal - porque os dias são maus. É como se o Apóstolo houvesse dito - a corrupção dos tempos tende a acelerar os julgamentos ameaçados; mas vosso santo e cirscunspecto caminhar tenderá a redimir o tempo das mandíbulas devoradoras destas calamidades. Contudo, certamente há muito a ser tido em conta por nós nestas palavras, a saber: que temos de ter o tempo em alta estima, e devemos ser excessivamente cuidadosos para que este não seja desperdiçado; e nós estamos portanto exortado a exercer sabedoria e perspicácia, de forma que possamos redimí-lo. E então como se mostra, o tempo é sobremaneira precioso.

CAPÍTULO I

Porque o Tempo é precioso.

O Tempo é precioso pelas seguintes razões:

Primeiro, porque uma eternidade em alegria ou em miséria depende do bom ou do defectuoso uso do Tempo. As coisas são preciosas em proporção a sua importância, ou ao grau no qual são concernentes a nosso bem. Os homens costumam definir como de valor mais elevado aquilo de que eles sentem que seus interesses dependem principalmente. E isto torna o Tempo tão extraordinariamente precioso, porque o nosso bem eterno depende do bom proveito do mesmo.
...

Segundo, o Tempo é muito curto, o que é outra característica que faz ele muito precioso. A escassez de qualquer mercadoria ocasiona aos homens aumentar o valor dela, especialmente se é necessária e se não podem viver sem ela. Desta forma, quando Samaria foi cercada pelos Sírios, e as provisões eram excessivamente escassas, “se vendeu uma cabeça de um jumento por oitenta peças de prata, e a quarta parte de um cabo de esterco de pombas por cinco peças de prata” 2 Reis 6:25. - Assim, o Tempo deve possuir muito mais apreço pelos homens, porque toda a eternidade depende dele; e, no entanto, nós temos somente um pouco de tempo. “Porque decorridos poucos anos, eu seguirei o caminho por onde não tornarei” Jó 16:22. “E os meus dias são mais velozes do que um correio; fugiram, e não viram o bem” Jó 9:25, 26. “Digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece” Tiago 4:14. É somente como um momento se comparado à eternidade. O Tempo é tão curto, e o trabalho que temos de fazer nele é tão grande, que nós não temos Tempo algum de sobra. O trabalho que temos a fazer para nos preparar para a eternidade, tem de ser feito no Tempo, ou nunca poderá ser feito; e este é um trabalho de grande dificuldade e labor, e portanto, para o qual o tempo é mormente requisitado.

Terceiro, o tempo deve ser estimado por nós como muito precioso, porque nós não estamos certos de que ele vá continuar. Sabemos que ele é muito curto, mas não sabemos o quão curto ele é. Não sabemos quão pouco dele ainda resta, se um ano, ou se muitos anos, ou apenas um mês, uma semana, um dia. Nós estamos todos os dias incertos se aquele dia será o último ou não, ou mesmo se nós teremos todo o dia. Não há nada que a experiência possa verificar mais do que isto.
...

Quarto, o tempo é muito precioso, porque quando ele passa, não pode ser recuperado. Existem muitas coisas as quais os homens possuem, que se perderem, eles podem obter novamente. Se um homem se separar de algo que ele tinha, sem saber o valor daquilo, ou a necessidade que ele teria daquela coisa, muitas vezes ele pode recuperá-la, pelo menos, com dores e custo. Se um homem foi distraído em uma barganha, e permutou ou vendeu algo, e depois se arrependeu disto, ele sempre pode obter um livramento, e recuperar aquilo do que se desfez. Mas não é asim com respeito ao tempo. Uma vez que ele se foi, ele se foi para sempre; sem dores, nenhum preço ou sacrifício pode recuperá-lo.
...

Se nós tivermos vivido cinqüenta, sessenta ou setenta anos, e não tivermos feito bom uso de nosso tempo, agora nada se poderá fazer quanto a ele. Ele está eternamente perdido, foi-se para sempre de nós. Tudo o que poderemos fazer é fazer bom uso do pouco que resta. Sim, se um homem gastou toda a sua vida, exceto alguns poucos momentos, de forma vã, tudo o que passou está perdido, e apenas estes poucos momentos que restam poderão ser feitos verdadeiramente dele. E se todo o tempo de um homem foi gasto, ele está todo perdido e é irrecuperável. A Eternidade depende do bom aproveitamento do tempo. Mas, quando uma vez o tempo da vida houver passado, quando a morte chegar, não temos nada mais com o tempo; não há possibilidade de obter a restauração dele, ou outro lugar no qual se preparar para a Eternidade. Se um homem perdesse todas as suas propriedades e riquezas terreais, e chegasse a falência financeira, é possível que pudesse se recuperar desta perda. Ele pode ter outros bens tão bons quanto. Mas quando o tempo da vida se esvai, é impossível obter novamente este tal tempo. Todas as oportunidades de obter o bem eterno terão absolutamente e para sempre se perdido.

Por Jonathan Edwards

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O Mundo Sempre Deseja Barrabás


"Então todos tornaram a clamar, dizendo: Este não, mas Barrabás. E Barrabás era um salteador" (Jo 18.40).

Nos impressiona como o mundo ímpio sempre deseja o mais vil e perverso dos homens que tem a seu dispor para lhes ser de companhia. Não obstante o grande Mestre tivesse realizado grandes coisas entre o povo, ensinado com amor e brandura, ter se compadecido do pobre e necessitado, ainda assim vemos que a semente maligna permanece no coração dos não regenerados, mesmo que muitos milagres lhes sobressaiam à vista. Contudo, não deveria espantar-nos em demasia o fato de Jesus ter sido requerido pelos judeus à crucificação, pois eles amavam o que Senhor odiava e rejeitavam àquilo em que Cristo se deleitava. 

Não somente os judeus, mas desde o advento da graça de Deus que fez conhecida todas as coisas entre os povos da Terra, notório é que por mais grandioso que possa ser o prodígio, por mais amável que seja a doçura, ainda que se eleve acima de toda sabedoria e seja tido como sustentáculo da paz, todos, sem exceção, preverem o maligno ao benigno. 

Barrabás, homem ímpio e maligno, cuja fama era bem conhecida, não por boas obras, mas por infundir terror, medo e angústia em todos ao seu redor, esse era o homem que os judeus desejavam ter consigo. Homens escravizados pelo pecado desejam sempre aquilo que lhes é pertinente e conhecido. Jamais encontraremos um homem afastado dos caminhos do Senhor e que deseje outra a coisa, a não ser o mais violento dos seres para conviver consigo. O que diferenciava Barrabás do povo era tão somente que ele havia sido notadamente perigoso em seus feitos, contudo, no que tange ao coração, todo o restante assemelhava-se a ele.

Portanto, esforcemo-nos nesse dia para não sermos participantes da mesma revolta demoníaca que caiu sobre os antigos e ainda recai sobre muitos diariamente, onde preferem o salteador ao salvador. Não estejamos contentes com o homem contrário às leis do Senhor e nem permitamos que ele viva em nossa cidade, mas sigamos o Senhor e "Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando o seu vitupério. Porque não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura" (Hb 13:13-14).

Por Filipe Luiz C. Machado

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Sexto elemento constitutivo do culto público: Reunião no Dia do Senhor (parte final) - Sermão pregado dia 01.01.2012


Sexto elemento constitutivo do culto público: 
Reunião no Dia do Senhor (parte final) - 
Sermão pregado dia 01.01.2012

Estimados irmãos, hoje finalizaremos o penúltimo elemento constitutivo do culto público: a reunião no Dia do Senhor. Na semana que vem entraremos no último elemento que é o Cântico de Salmos.

É com grande alegria que percebemos que as Escrituras demonstram que nosso Senhor não é como nós, homens inconstantes e que frequentemente são levados a se indagar se estão no caminho correto. Certamente que o Senhor nos tem sido mui benigno a ponto de providenciar meios eficazes para demonstrar a salvação que ocorreu na vida de cada um de seus filhos e isso certamente se dá através da sua palavra e de seus mandamentos.

Conforme vimos nos dois cultos anteriores (parte 1 e parte 2), a lei de Deus nunca foi invalidada, quer seja por homens que não a seguiram, quer pelo próprio Deus. Também é importante levar cativo que vimos três distinções da lei (cerimonial, civil e moral), na qual apontamos que os dez mandamentos são a lei moral de Deus resumida e que por serem mandamentos que refletem o caráter perpétuo de Deus não podem ser anulados, pois vieram do Senhor, "descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação" (Tg 1:17). Portanto, sabidas essas coisas cerca da lei moral e do Dia do Senhor, partamos para a aplicação desse mandamento tão belo e majestoso que o Senhor legou a nós.

É importante notarmos que quando falamos do Dia do Senhor, não estamos a dizer que somente nesse dia deve-se ter culto público ou ainda que todo culto em outro dia da semana na verdade não seria culto, mas uma reunião. Nada disso deve nos perpassar a mente quando estamos vendo tal elemento, e sim que o Senhor nos ordenou que observássemos (praticássemos as devidas coisas necessárias) um dia em cada sete para nos dedicarmos à atividades concernentes à salvação e santificação de nossas vidas. O Breve Catecismo de Westminster (que logo começaremos a estudar) nos auxilia nesse ponto:

Pergunta 60: De que modo se deve santificar o sábado (domingo)?
Resposta: Deve-se santificar o sábado (= domingo) com um santo repouso por todo aquele dia, mesmo das ocupações e recreações temporais que são permitidas nos outros dias (Lv 23.3; Êx 16.25-29; Jr 17.21,22); empregando todo o tempo em exercícios públicos e particulares de adoração a Deus (Sl 92.1,2; Lc 4.16; Is 58.13; At 20.7), exceto o tempo suficiente para as obras de pura necessidade e misericórdia” (Mt 12. 12).

Pergunta 61: Que proíbe o quarto mandamento?
Resposta: O quarto mandamento proíbe a omissão ou a negligência no cumprimento dos deveres exigidos (Êx 22.26; Ml 1.13; Am 8.5), e a profanação deste dia por meio de ociosidade, ou fazer aquilo que é em si mesmo pecaminoso (Ez 23.38), ou por desnecessários pensamentos, palavras ou obras acerca de nossas ocupações e recreações temporais” (Is 58.13; Jr 17.24, 27).

Pergunta 62: “Quais são as razões anexas ao quarto mandamento?
Resposta: As razões anexas ao quarto mandamento são: a permissão de Deus de fazermos uso dos seis dias da semana para os nossos interesses temporais (Êx 31.15,16); o reclamar ele para si mesmo a propriedade especial do dia sétimo (Lv 23.3), o seu próprio exemplo (Êx 31.17), e a bênção que ele conferiu ao dia de descanso” (Gn 2.3).

Ao olharmos para o que os grandes mestres puritanos escreveram, logo percebemos que não é possível cumprir na íntegra esse mandamento do Senhor, pois quem consegue ficar sem ter pensamentos desnecessários ou ainda ser tão santo que consiga manter um palavreado inteiramente coerente com a vida cristã, falando somente o que for bom "para promover a edificação, para que dê graça aos que a ouvem" (Ef 4.29)? Com certeza o único homem que conseguiu cumprir tal mandamento foi nosso Senhor Jesus Cristo, porém isso não nos dá a liberdade de fugirmos da responsabilidade que temos em observar esse dia, pois ainda que constantemente violemos esse e muitíssimos outros mandamentos (glórias ao Senhor pelas suas misericórdias!), somos obrigados a buscá-los com afinco, não por nossas forças, mas em Cristo - "porque sem mim nada podeis fazer" (Jo 15.5).

Dito isso, vejamos três "classes" de obras que a Bíblia nos diz que podemos e devemos fazer no dia de domingo (o sábado - shabbath cristão) - sim, alguns dos exemplos dizem respeito a Jesus e ao sábado judeu, mas como já vimos que após a ressurreição do Mestre o dia foi mudado, entendemos que a obrigação continua, embora o dia tenha sido mudado.

1. Obras que contribuam para a edificação pessoal e mútua, a glorificação de nosso Senhor e um maior crescimento na piedade.

"Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o SENHOR o dia do sábado, e o santificou" (Êx 20:8-11).

Aqui temos vários parâmetros que nos ajudam a entender o que devemos fazer no dia do Senhor. Moisés registra que o quarto mandamento prescreve não somente trabalhar para o Senhor, mas também que deve haver um cessar das obras comuns, pois no sétimo dia o Senhor descansou. Conforme vimos semana passada, Matthew Henry (citado por J. I. Packer) diz: "Guardar o domingo significa ação, e não inércia. O dia do Senhor não é um dia de ociosidade. 'A ociosidade é um pecado em qualquer dia, e muito mais no dia do Senhor'. Não se guarda o domingo ficando atirado em algum lugar, sem fazer nada. Convém que descansemos das atividades de nossos afazeres diários, ocupando-nos nas atividades próprias à nossa vocação celestial. Se não passarmos o dia ocupados nestas atividades, não o estaremos santificando". 

O quarto mandamento nos ensina que devemos cessar das obras comuns do dia a dia, pois embora elas não sejam malignas em si mesmas, se as continuarmos no dia do Senhor teremos menos tempo para nos dedicarmos a Ele (além da violação) - é isso que expressa Êx 16.22-26: "E aconteceu que ao sexto dia colheram pão em dobro, dois ômeres para cada um; e todos os príncipes da congregação vieram, e contaram-no a Moisés. E ele disse-lhes: Isto é o que o SENHOR tem dito: Amanhã é repouso, o santo sábado do SENHOR; o que quiserdes cozer no forno, cozei-o, e o que quiserdes cozer em água, cozei-o em água; e tudo o que sobejar, guardai para vós até amanhã. E guardaram-no até o dia seguinte, como Moisés tinha ordenado; e não cheirou mal nem nele houve algum bicho. Então disse Moisés: Comei-o hoje, porquanto hoje é o sábado do SENHOR; hoje não o achareis no campo.Seis dias o colhereis, mas o sétimo dia é o sábado; nele não haverá". Em momento algum o Senhor diz ao seu povo que era inerentemente mau fazer comida no dia de sábado, e sim os anima para deixar pronto a comida para o dia seguinte, justamente pelo fato de não precisarem ficar muito tempo cozinhando, haja vista o dia ser apropriado para o louvor do Senhor e não um dia para se fazer uma mega banquete onde demandem horas e horas de cozinha e preparo (falaremos sobre isso daqui a pouco).

"Se desviares o teu pé do sábado, de fazeres a tua vontade no meu santo dia, e chamares ao sábado deleitoso, e o santo dia do SENHOR, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, nem pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falares as tuas próprias palavras, Então te deleitarás no SENHOR, e te farei cavalgar sobre as alturas da terra, e te sustentarei com a herança de teu pai Jacó; porque a boca do SENHOR o disse" (Is 58.13-14).

Além de necessitarmos parar com nossas atividades ordinárias, a Bíblia nos prescreve que ao cessar uma atividade, devemos nos dedicar a outra, isto é, se cessamos de trabalhar como fazemos nos outros seis dias e o ócio é um grande pecado (nota: descansar e aproveitar a vida não são pecados - o pecado do ócio consiste em se desperdiçar grandes quantias de tempo para "não fazer nada", isto é, enquanto já se está descansado e poderia-se dedicar à alguma leitura, conversar com amigos cristãos ou ainda crescer no conhecimento de Deus, tende-se a continuar sem produzir alguma coisa, de modo que contrarie àquilo que Paulo escreveu: "Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, mas como sábios, Remindo o tempo; porquanto os dias são maus" - Ef 5:15-16), convém que dediquemos todo tempo possível ao Senhor. Certamente que isso não implica em dizer que deve-se trabalhar freneticamente para o Senhor, a ponto de não se ter tempo sequer para comer ou ainda que chegue-se no segunda-feira totalmente cansado, devido a tanto trabalho (além do requerido) no dia anterior, mas é necessário que foquemos as atividades naquilo que nos traz refrigério e glorifica ao Senhor.

2. Obras de caridade.

"E, estava ali um homem que tinha uma das mãos mirrada; e eles, para o acusarem, o interrogaram, dizendo: É lícito curar nos sábados? E ele lhes disse: Qual dentre vós será o homem que tendo uma ovelha, se num sábado ela cair numa cova, não lançará mão dela, e a levantará? Pois, quanto mais vale um homem do que uma ovelha? É, por conseqüência, lícito fazer bem nos sábados. Então disse àquele homem: Estende a tua mão. E ele a estendeu, e ficou sã como a outra" (Mt 12:10-13).

Os fariseus eram os grandes campeões de acusação contra o Senhor, não porque eram melhores que o Senhor (embora assim julgassem), mas porque tinham um entendimento errado acerca da lei e dos profetas que prediziam que o Cristo ali presente era o cumprimento de tudo aquilo que eles estudavam.

Nesses versículos vemos que Jesus demonstrou aos judeus que fazer o bem ao próximo não era contrário à lei do Senhor, pois tal ajuda não visava qualquer honra para si mesmo, mas consistia em ajudar o outro a se recuperar e glorificar ao Senhor por meio da ajuda. Jesus também ensina-os dizendo que eles julgavam um animal ser mais importante que um homem! Ora, Jesus os repreende dizendo que quando uma ovelha deles se desprende do rebanho e cai em algum lugar que não consegue sair sozinha, eles vão até ela e a ajudam a sair daquele problema, contudo condenam aquele que ajuda o próximo no mesmo dia! "Pois, quanto mais vale um homem do que uma ovelha?" (v.12).

"E ensinava no sábado, numa das sinagogas. E eis que estava ali uma mulher que tinha um espírito de enfermidade, havia já dezoito anos; e andava curvada, e não podia de modo algum endireitar-se. E, vendo-a Jesus, chamou-a a si, e disse-lhe: Mulher, estás livre da tua enfermidade. E pôs as mãos sobre ela, e logo se endireitou, e glorificava a Deus. E, tomando a palavra o príncipe da sinagoga, indignado porque Jesus curava no sábado, disse à multidão: Seis dias há em que é mister trabalhar; nestes, pois, vinde para serdes curados, e não no dia de sábado. Respondeu-lhe, porém, o Senhor, e disse: Hipócrita, no sábado não desprende da manjedoura cada um de vós o seu boi, ou jumento, e não o leva a beber? E não convinha soltar desta prisão, no dia de sábado, esta filha de Abraão, a qual há dezoito anos Satanás tinha presa? E, dizendo ele isto, todos os seus adversários ficaram envergonhados, e todo o povo se alegrava por todas as coisas gloriosas que eram feitas por ele" (Lc 13:10-17).

Homens que não conhecem a palavra de Deus ficam indignados quando alguém ofende suas consciências cauterizadas pelo pecado. Aqui, outra vez nosso Senhor repreende os judeus por fazerem de seus animais algo mais importante que um ser criado por Deus. " E, tomando a palavra o príncipe da sinagoga, indignado porque Jesus curava no sábado, disse à multidão: Seis dias há em que é mister trabalhar; nestes, pois, vinde para serdes curados, e não no dia de sábado". O príncipe da sinagoga era um ser estúpido e profundo desconhecedor do poder de Deus, pois não bastasse ordenar ao povo para que viessem ser curados em qualquer outro dia, menos nesse (o sábado), ainda por cima achava-se superior em Rei dos reis que acabara de curar uma mulher enferma pelo maligno - assim também são muitos hoje em dia. Aqueles que se opõem ao dia do Senhor dizem que estamos violando aquilo que nós mesmo instituímos (como se tal mandamento fosse coisa de "reformado" cismático), quando ajudamos o próximo e nos dedicamos à ajuda mútua (seja de que forma for) - temível veredicto tem a palavra do Senhor contra tais.

3. Obras de necessidade.

"Naquele tempo passou Jesus pelas searas [nota minha: Jesus não tinha uma seara (campo) em que plantava alguma coisa, daí que saiu com seus discípulos para algum seara próxima, a fim de colherem algum alimento necessário para sua subsistência], em um sábado; e os seus discípulos, tendo fome, começaram a colher espigas, e a comer. E os fariseus, vendo isto, disseram-lhe: Eis que os teus discípulos fazem o que não é lícito fazer num sábado.Ele, porém, lhes disse: Não tendes lido o que fez Davi, quando teve fome, ele e os que com ele estavam?Como entrou na casa de Deus, e comeu os pães da proposição, que não lhe era lícito comer, nem aos que com ele estavam, mas só aos sacerdotes?" (Mt 12:1-4). Por que isso era permitido? Porque a lei do Senhor proibia apenas o passar a foice no campo, isto é, colher grandes quantidades e fazer uma colheita no dia de sábado - "Quando entrares na seara do teu próximo, com a tua mão arrancarás as espigas; porém não porás a foice na seara do teu próximo" (Dt 23.25). 

Aqui, ainda outra vez vemos que Jesus não violou o sábado, mas mostrou que certas obras poderiam e deveriam ser feitas nesse dia. Anteriormente vimos que durante o êxodo para a terra prometida os judeus deveriam preparar seus alimentos para o dia posterior e então apenas comê-los no dia seguinte, sem a necessidade de prepará-los, mas aqui o Senhor nos ensina algo mais excelente, isto é, que quando houver a necessidade de se suprir alguma necessidade, que se faça de bom grado e louvando ao Senhor pela provisão.

Visto isso, avanço à parte final e exponho ainda algumas considerações.

Confissão de Fé de Westminster, Cáp. I, seção VI: Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela. À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens; reconhecemos, entretanto, ser necessária a íntima iluminação do Espírito de Deus para a salvadora compreensão das coisas reveladas na palavra, e que há algumas circunstâncias, quanto ao culto de Deus e ao governo da Igreja, comum às ações e sociedades humanas, as quais têm de ser ordenadas pela luz da natureza e pela prudência cristã, segundo as regras gerais da palavra, que sempre devem ser observadas (II Tim. 3:15-17; Gal. 1:8; II Tess. 2:2; João 6:45; I Cor. 2:9, 10, l2; I Cor. 11:13-14) (grifo meu).

A Confissão de Fé é bastante clara em dizer que "Todo o conselho de Deus... ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela", porém também é sensata em dizer que nem tudo está perfeitamente discriminado (elencado, listado), a ponto de termos uma resposta exata para cada situação de nosso dia-a-dia. A partir desse ponto é que se faz necessário ter - conforme à própria confissão - sabedoria durante nossa vida (prudência), e isso logicamente diz respeito também ao quarto mandamento.

Um exemplo nos ajuda nessa questão: "E, havendo-o tirado, envolveu-o num lençol, e pô-lo num sepulcro escavado numa penha, onde ninguém ainda havia sido posto. E era o dia da preparação, e amanhecia o sábado. E as mulheres, que tinham vindo com ele da Galiléia, seguiram também e viram o sepulcro, e como foi posto o seu corpo. E, voltando elas, prepararam especiarias e ungüentos; e no sábado repousaram, conforme o mandamento. E, havendo-o tirado, envolveu-o num lençol, e pô-lo num sepulcro escavado numa penha, onde ninguém ainda havia sido posto. E era o dia da preparação, e amanhecia o sábado. E as mulheres, que tinham vindo com ele da Galiléia, seguiram também e viram o sepulcro, e como foi posto o seu corpo. E, voltando elas, prepararam especiarias e ungüentos; e no sábado repousaram, conforme o mandamento" (Lc 23.53-56; 24.1). 

Assim como José de Arimatéia (Lc 23.50-52) e essas benditas mulheres se preparam de modo a não violar o sábado, nós também devemos arranjar nossas atividades a fim de maximizar o tempo dedicado ao Senhor. José não foi pedir a Pilatos o corpo de Jesus no dia de sábado (até porque era contra a lei judaica), mas o fez no dia anterior. As mulheres desejavam embalsamar o santo Mestre, mas não ficaram horas e horas preparando as especiarias no dia de sábado, mas preparam-as um dia antes e descansaram no dia de sábado e somente no outro dia foram ao sepulcro.

Essa narrativa tem muito a nos ensinar, pois admoesta-nos sobre a NECESSIDADE (veja, não é questão de querer ou não, ou ainda de ser agradável ou não, ou se é fácil ou não, ou se é requerido dos mais velhos e não dos mais jovens - nada disso!) de organizarmos o nosso tempo de modo que não venhamos a ter de despender o dia do Senhor em atividades que não são requeridas (além disso ser uma violação do mandamento).

Em seu livro "O Dia do Senhor", o Dr. Joseph Pipa dá uma boa diretriz sobre como podemos saber quais são as atividades lícitas para esse dia - em outras palavras ele diz: procure investigar se o que você irá fazer ou deixar de efetuar contribui para o propósito do dia, ou seja, para saber se esta vivendo de maneira coerente com esse dia, verifique se o que você faz entra em uma das três categorias, isto é, é uma obra que contribui para a edificação pessoal ou mútua? É um afazer que glorifica ao Senhor? É um trabalho que me traz mais conhecimento de Deus? Entra na questão da caridade, quer dizer, estou realmente fazendo isso porque desejo o bem do próximo? É uma atividade necessária para esse dia?

Não há como precisarmos nem listarmos quantas milhares de miríades de atividades poderiam ou não serem feitas nesse dia, mas a fim de lhes ser mais proveitoso, direi ainda isso:

Baseado no que vimos, o dia do Senhor não foi feito para fazermos compras no shopping ou ficarmos perambulando por lojas tão somente para comprarmos algo para nosso bem estar (e que na maioria das vezes nem precisamos), contudo, suponhamos que algum de nossos queridos - ou ainda nós mesmos - tenha ficado enfermo e precisamos comprar-lhe um remédio. Já vimos que esse dia não foi feito para fazer compras - "Se desviares o teu pé do sábado, de fazeres a tua vontade no meu santo dia..." (Is 58.13 - grifo meu) -, porém a atividade de ir até a farmácia (ou outra loja) nesse caso não viola o princípio do dia, pois estaríamos ajudando o próximo.

De forma semelhante, o dia do Senhor não foi feito para ficarmos fazendo longas viagens desnecessárias e ou acamparmos ou ainda outra coisa dessa natureza, porém, ir à praia (ainda que eu tenha certos receios quanto à esse lugar, haja vista a verdadeira pornografia ao vivo ali escancarada - "Não adulterarás", sétimo mandamento [Êx 20.14]) e viajar (inclua uma lista sem fim de atividades aqui...) não são coisas malignas, daí que requer-se prudência ao fazer essas atividades. Quer dizer, se moro longe da praia e o culto ocorre em minha cidade, convém que eu não vá até a praia no dia de domingo, não que o viajar seja errado, mas dedicar-se horas desse dia tão somente para "ver a praia" e aproveitá-la, não é a melhor maneira de se observar o quarto mandamento. Porém, pode ser que alguém more em uma cidade costeira e faça um dia de grande calor. Ora, não é necessário se alongar para dizer que pode-se ir até o mar e tomar um banho para a glória de Deus, mas essa prática deve ser observada com cuidado, pois isso é muito diferente de se dedicar horas e horas para somente ficar na praia e não se instruir na palavra de Deus.

Com os exemplos acima (sim, um tanto quanto infantis, mas creio que ajude na compreensão) desejo mostrar que sempre dependerá da finalidade da atividade. Claro, devemos também ter o cuidado para não sermos hipócritas e dizer que faltaremos no culto do Senhor porque iremos "dormir para a glória de Deus", haja vista o dia anterior ter sido muito cansativo (se você falta no culto público apenas por estar cansado, é um sinal bastante grande de que você não tem sido um bom mordomo do tempo que Deus lhe deu), ou ainda que organizaremos um mega evento esportivo a fim de "glorificar ao Senhor através dos esportes". Deseja praticar esportes para a glória de Deus? Pratique e se dedique, mas não no domingo, porque não tal prática não encaixa-se numa das três possibilidade acima aventadas.

Que não sejamos fariseus ou legalistas a ponto de colocarmos nossa vida sob o jugo da escravidão da lei, mas também não permitamos que nossa carnalidade frequentemente presente retire tão grande bênção e desejo de fazer a vontade do Senhor! "Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou" (1 Jo 2:6.) 

Concluo com as já sabidas palavras do profeta Isaías: "Se desviares o teu pé do sábado, de fazeres a tua vontade no meu santo dia, e chamares ao sábado deleitoso, e o santo dia do SENHOR, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, nem pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falares as tuas próprias palavras, Então te deleitarás no SENHOR, e te farei cavalgar sobre as alturas da terra, e te sustentarei com a herança de teu pai Jacó; porque a boca do SENHOR o disse" (Is 58.13-14 - grifo meu).

Amém.

O culto online e a tentação do Diabo

Você conhece o plano de fundo deste texto olhando no retrovisor da história recente: pandemia, COVID-19... todos em casa e você se dá conta ...