"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Conhecendo a Reforma Protestante - Sermão pregado dia 02.10.2011

Conhecendo a Reforma Protestante -
Sermão pregado dia 02.10.2011

Antes de iniciarmos acerca do que viria a ser o Sola Scriptura (Somente a Escritura) é importante verificarmos por qual motivo e em quais circunstâncias ela surgiu.

Em primeiro lugar, devemos ter em mente que o fato conhecido como Reforma Protestante foi a "explosão" de um centelha que havia iniciado há muitos anos antes por homens como John Wycliff (1329-1384) que estava prometido para queimar em praça pública caso não morresse de derrame cerebral, John Hus (1369 - 1415) queimado na estaca e Girolamo Savonalora (1452 - 1498) que foi queimado em praça pública - todos condenados a morte por terem sido considerados hereges diante do romanismo. Portanto, quando se cita que Lutero foi o homem da reforma, muitas vezes - sem querer - menosprezamos a vida e ousadia desses homens, como se o mérito fosse exclusivamente de Lutero.

Diante disso, vemos que a Reforma Protestante – de modo glorioso e sobrenatural – resgatou os princípios basilares do verdadeiro cristianismo. Enquanto o romanismo católico ia inserindo cada vez mais indulgências sem fim, isto é, acrescentava à sua “fé” uma série de elementos estranhos às Escrituras - que visavam “ajudar” o fiel em sua busca pelo céu (sem citar as indulgências para os que já haviam falecido, dando ao “vivo” a oportunidade de resgatar seu amado(a) do fogo eterno mediante o pagamento pecuniário à Igreja Católica Romana) –, o movimento reformado viu-se obrigado a combater toda sorte de heresias que haviam adentrado à santa igreja e que por hora vinha sendo massacrada por indulgências absurdas e desprovidas de qualquer prova bíblica – ainda que a verdadeira igreja de Deus, mesmo que com seus poucos remanescentes, certamente tenha permanecido fiel à sã doutrina de Cristo.

Nos é interessante notar que o movimento protestante não teve como motivação o fato de homens desejarem um poder sobre a massa populacional, tampouco o orgulho por parte de homens dotados de maior conhecimento, mas sim uma humilde reverência à Bíblia e aos princípios nela expostos, de forma que todo “protesto” tinha como alvo resgatar a biblicidade há muito já perdida e soterrada pelos ultrajes cometidos pelo papismo. A necessidade de uma reforma na igreja católica foi devido ao forte abandono nos séculos pretéritos a ela, cujo desvio eclesiástico foi se dando de forma sorrateira a fim de acrescentar “melhorias” humanas a um Deus soberano e transcendente, o que inevitavelmente acabou por levar a igreja a enveredar por caminhos tortuosos – “O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento” (Oséias 4:6). Numa época em que vivia-se o auge do romanismo, o último desejo dos reformadores era o de acabar com a igreja católica, haja vista sua proeminência e uma infinidade de fieis que se achegavam a ela – certamente que esse ponto não se traduz em dizer que os reformadores queriam se aproveitar da situação, pois eles buscavam um retorno às Sagradas Escrituras de forma que a igreja pudesse continuar seus trabalhos de modo santificado, prescrito pelas Escrituras e sem a necessidade de uma divisão. Importa-nos salientar também que a Reforma Protestante não foi um movimento agradável aos olhos humanos – nem mesmo para os participantes do mesmo – mas um trabalho árduo que visava destruir as fortalezas do orgulho e vãs presunções humanas sobre o que Deus requer do homem.

A história nos revela que os adendos humanos são introduzidos de forma sutil e sorrateira, aparentemente para não causar demasiado espanto nos “fieis”, que por sua vez poderiam vir a se afastar da igreja, pois não os tolerariam. A Bíblia nos ensina sobre a necessidade de fazermos somente o que ela prescreve - Jeremias 7.31: "E edificaram os altos de Tofete, que está no Vale do Filho de Hinom, para queimarem no fogo a seus filhos e a suas filhas, o que nunca ordenei, nem me subiu ao coração" -, isto é, devemos nos pautar pelo princípio regulador das Escrituras. Esse principio nos ensina que não necessitamos de uma proibição expressa das Escrituras para termos consciência de que determinado feito é contrário aos mandamentos de Deus, pois se Ele diz “faça isso”, deduz-se que não há necessidade de também dizer “não faça esse, aquele e aquele outro”, pois a simples afirmativa de Deus já é ponto fundante para que tenhamos sua vontade revelada em Sua Escritura. Sobre os adendos humanos, é notório observar que os primeiro acréscimos do romanismo - a oração pelos mortos, sinal da cruz e o uso de velas, todos datados do ano 300 – não foram acréscimos tão absurdos assim (do ponto de vista humano), na verdade, a oração pelos mortos fôra bem recebida pelos fieis – ainda que contrariasse as Escrituras -, haja vista vislumbrarem nova oportunidade de salvaram seus queridos do tormento eterno. Importa-nos observar também, que embora do ponto de vista humano algumas práticas podem não aparentar serem tão contrárias às Escrituras, é de suma importância que compreendamos que por estarmos diante de um Deus três vezes santo, nos é impossível acrescentar, distorcer ou falsear sua mensagem sem “manchar” sua santidade, pois um Deus santíssimo não pode ser “melhorado” ou modificado por mãos vis e pecadoras do homem orgulhoso e que não se submete humildemente à sã doutrina. Neste ponto, percebemos que a história nos mostra que aproximadamente 300 anos depois do início dos adendos e “leves distorções”, mais algumas práticas – dessa vez mais intensas – foram introduzidas ao rito romano. A doutrina do Purgatório, o Latim usado nas orações e no culto e as orações feitas à Maria, santos mortos e anjos, foram adendos mais ousados do que os primeiros feitos da igreja. Desse segundo ponto, podemos notar que o objetivo do uso do latim nas missas não era para que o povo entendesse o que estava sendo lido e falado, mas tão somente para conferir aos padres e ao papa uma suposta autoridade e espiritualidade elevada quando comparada a dos restantes dos fieis. Por fim, as três últimas coisas acrescentadas pelo romanismo foram a da Imaculada Conceição da Virgem Maria (1854), a Infabilidade Papal (1870) e a Ascenção corporal de Maria (1950), demonstrando que quando a Bíblia não é nossa regra de fé – Sola Scriptura – os acréscimo humanos não tem fim e são cada vez mais perniciosos e maléficos ao reino de Deus. “Eis que a palavra do SENHOR é para eles coisa vergonhosa, e não gostam dela” (Jeremias 6:10).

Diante de todo esse arraial pernicioso e quase que completamente desprovido de qualquer sanção bíblica para seus atos, surge um monge agostiniano chamado Martinho Lutero que inicia – através de seus ensinos como professor – uma tentativa de reforma dentro do romanismo. É importante notarmos que Lutero não foi desde sempre um árduo defensor dos “cinco solas” da Reforma Protestante (como foram conhecidas), mas teve sua mentalidade transformada pelo Espírito Santo de Deus enquanto lia a carta de Paulo aos romanos e passou a perceber – mediante o tocar do Espírito Santo - que a justificação do homem não vinha por meio de indulgências e acréscimos à Escritura, mas tão somente pela fé concedida aos filhos do Altíssimo - "Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego.Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé" (Rm 1:16-17). Tal renovação mental que ocorreu em Lutero foi ponto fático para a concretização de um retorno à maneira coerente de se ver e interpretar a Bíblia, tal qual os pais dos primeiros séculos faziam. Aliado a esse ponto, Lutero sabia que o homem só glorificaria a Deus se de fato O conhecesse. Por isso, pôs-se a traduzir a Bíblia para o alemão, o que muito facilitou e difundiu – de uma vez por todas – a Bíblia entre o povo

Os “cinco solas” da reforma ficaram conhecidos assim pois foram o contra ponto dos reformadores às preferêcias interpretativas que o romanismo outorgava para si. Enquanto o romanismo defendia que as Escrituras, a igreja, os concílios e o papa eram quem deveriam guiar doutrinariamente os fieis, os reformadores afirmavam que somente as Escrituras eram a regra de fé e conduta (Sola Scriptura), sendo ela não submetida a qualquer adendo e interpretação humana – para os reformadores, a Bíblia se auto explicava, isto é, as respostas para a interpretar eram encontradas nela mesma. O catolicismo romano também afirmava que o homem não fôra totalmente corrompido pelo pecado original, de forma que podia se aproximar livremente do Senhor e obter a salvação mediante o seu próprio querer. Em contra partida, os reformadores afirmavam que somente a graça é que podia salvar o homem pecador (Sola Gratia), “pois todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23). Os romanistas não pararam e também instituíram que a fé por si só não poderia levar o homem à salvação, sendo necessário que também houvesse obras para achegar-se a Deus, como se a fé em Cristo Jesus não fosse suficiente para efetuar o livramento do pecado – para eles, as obras não eram um consequência da operação salvífica no coração do homem, mas sim um modo de se obter a salvação . Os reformadores não podiam aceitar essa ideia demoníaca e desprovida de sanção bíblica e por isso também combateram veemente tal pensamento e afirmaram que somente a fé era o que podia salvar e regenerar o homem (Sola Fide) – “Mas se é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já não é graça. Se, porém, é pelas obras, já não é mais graça; de outra maneira a obra já não é obra” (Romanos 11:6). Como se não estivessem satisfeitos, os romanistas acrescentaram que somente Cristo não poderia livrar o homem dos enredos do pecado, sendo necessário a veneração à Maria, santos instituídos pela igreja e objetos santificados durante a missa, indicando que Cristo não era suficiente para a salvação. Novamente, os reformadores não se calaram e em uníssono proclamaram que tão somente o Cristo era essencial à salvação (Solus Christus), haja vista Seu sacrifício ter sido eficaz na vida de todos os seus eleitos, não podendo ter tido Seu sangue vertido em vão, como se necessitasse de ajuda pecadora para alcançar o objetivo proposto. Por fim, o último “somente” defendido pelos reformadores dizia respeito à glória somente a Deus (Soli Deo Gloria), ou seja, se somente às Escrituras devem ser nossa regra de fé, se somente a graça é capaz de nos regenerar, se é a fé que somente nos leva ao Salvador, e se Cristo é nosso único baluarte da salvação, naturalmente a conclusão é que toda a glória deve ser rendida ao Soberano Senhor - “Aquele, porém, que se gloria, glorie-se no Senhor” (2Co 10.17).

Infelizmente, a presente teologia que temos em nossos arraiais (ditos evangélicos), nada mais é do que antropologia disfarçada de teologia. A presente teologia predominante em nossos dias inicia sua busca da compreensão de Deus não em quem é seu objeto de estudo (O Senhor), mas no homem vil e pecador que é. A teologia atual busca compreender Deus a partir de moldes humanos, busca atribuir a Deus pés e mãos – coisa que Ele não tem – na tentativa (frustrada) de fazer com que Ele seja mais apetitoso ao paladar humano. Contudo, tais homens não percebem que estão retornando a um modo bastante semelhante àquele pelos quais os reformadores lutaram contra, isto é, contra os acréscimos humanos à palavra de Deus.

Vemos com tristeza o modo com que a igreja tem se desviado das ordenanças de Deus e seguido suas emoções e opiniões fundamentas em si mesmos. Com mais tristeza ainda constatamos que esse fato – o abandono da sã doutrina – não é algo novo, mas que acompanha o homem desde sempre. Há muito tempo o profeta Oséias já havia advertido seu povo: “O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento” (Os 4.6), mas não somente isso, anunciou ao povo que tal abandono não os deixaria impunes, mas antes “porque tu rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; e, visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos” (Os 4.6) – levando-nos a ter temor diante das coisas do Altíssimo.

A Reforma Protestante buscou resgatar o princípio básico da vida cristã: “Portanto, quer comais, quer bebais, ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus” (1Co 10.31). Os reformadores conclamaram aos homens para que fossem a Cristo e a Ele somente rendessem louvores, não se deixando levar por vãs superstições destituídas de qualquer valor escriturístico. Certamente que Lutero foi grandemente utilizado por Deus para “dividir” o tempo, isto é, fazer uma cisão entre as vãs imaginações e adendos humanos e o retorno à fidelidade das Escrituras, pois “Toda Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir,  em justiça, para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra” (2Tm 3.16,17). Graças sejam dadas a Ele que pelas Suas ricas misericórdias preservou – e ainda preserva – um remanescente fiel que busca pautar-se de acordo com a sã doutrina, não se deixando levar por preceitos de homens, “As quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade, e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne” (Cl 2:23).

------------- Segunda Parte ------------- 

Após esse breve panorama, importa-nos ver o que o Sola Scriptura propriamente dito, NÃO significa.

Em primeiro lugar, Sola Scriptura não significa que absolutamente TUDO o que ocorre na terra e na espaço está escrito literalmente na Bíblia. Não vemos em lugar algum das Escrituras sobre como nasce uma estrela, como as plantas fazem fotossíntese, o porquê dos cangurus pulares e uma miríade de elementos que temos em nossos dias. Contudo, isso não se traduz em dizer que a Bíblia não se importa com esse tipo de fenômeno e que tudo isso não diz respeito a Deus e sua criação.

Em segundo lugar, Sola Scriptura não significa que todas as situações - literalmente - que ocorrem no dia a dia estejam explícitas nas Escrituras. Deixe-me explicar: não encontramos na Bíblia algo que nos guie acerca das células tronco, assim como também não encontramos alguma passagem explícita sobre ser ou não errado um pecado ir à praia durante o verão. Contudo, embora não tenhamos passagens explícitas sobre esses e muitos outros assuntos, temos uma revelação inteira - leia-se, a Bíblia - para compreendermos sobre a questão da vida, da morte, quem a dá e quem tem o direito de tirá-la e também sobre a importância de fazermos tudo para a glória de Deus (1Co 10.31) e se algo não nos for lícito, que fujamos da aparência do mal (1Ts 5.22).

Em terceiro lugar, Sola Scriptura não significa que devamos ser estúpidos e voltarmos a vivermos no deserto, afinal lemos que o povo de Deus por muito tempo viveu nesse ambiente, ou que ainda seja lícito sairmos por aí pelejando contra nossos rivais e os assassinando, afinal, temos relatos bíblicos assim. Ou seja, Sola Scriptura não é ser ignorante e passar a simplesmente "imitar" os feitos bíblicos como meros cumpridores de um ritual (que desconhecem o verdadeiro significado), mas significa compreender que somente a Bíblia é nossa regra de fé e de conduta. Sobre fé e conduta, deixe-me ainda explanar um outro ponto.

Nenhum professo da fé cristã- em sã consciência - iria negar que a Bíblia é sua regra de fé e de conduta. Nenhum homem iria dizer que segue a Cristo mas não segue a Bíblia (exceto algumas seitas loucas e destituídas de qualquer padrão) - todos iriam confirmar sua crença nas Sagradas Escrituras. Porém, o problema surge quando fazemos a pergunta: "O que a Bíblia me autoriza e o que ela me proíbe de fazer?". Diante disso, surgem as duas "correntes" de interpretação bíblica - deve-se ter em mente que essas duas "correntes" divergem principalmente (não exclusivamente) em como deve ser o culto ao Senhor.

A primeira adota o princípio normativo das Escrituras, isto é, para eles a Bíblia torna-se o seu "padrão" de vivência, porém esse padrão não é estrito, não é limitado, mas sim amplo e que permite uma série de coisas não proibidas pelas Escrituras. Para os que defendem esse ponto, os cristãos podem fazer absolutamente TUDO o que a Biblia não nos proíbe. Na prática isso se traduziria da seguinte forma: em lugar algum a Bíblia proíbe o homem de substituir a pregação da palavra de Deus por teatros, filmes, danças, apresentações infantis e muitas outras coisas, por isso eles creem que podem acrescentar essas coisas ao culto do Senhor. A Bíblia também não proíbe o homem de não ter culto no domingo, por isso eles entendem que o culto é feito no domingo apenas por questão de conveniência e não porque a Bíblia diga que tem de ser assim. Para esses, a Bíblia está apenas para guiar e conduzir o homem por estradas semi acabadas, sendo necessário que o homem complete sua construção e assim o faça do jeito que entender ser prudente.

A outra interpretação adota o princípio regulador das Escrituras, isto é, a Bíblia não é apenas o seu padrão, mas também regula TUDO o que acontece durante o culto e vida diante do Senhor. Para esses, os cristãos devem somente fazer o que está na Bíblia, ou seja, tudo o que não é prescrito nas Escrituras, deve ser rejeitado. De forma prática, esses entendem que por não haver aval bíblico para se ter filmes, danças, apresentações infantis e muitas outras coisas durante o culto público, todos esses elementos devem ser rejeitados (ainda que em outros momentos essas atividades sejam lícitas - para entender esse ponto, se faz necessário compreender a diferença entre culto público e particular). Quanto ao culto de domingo, esses verificam na Bíblia e leem que os apóstolos se reuniam no domingo para lerem, escutarem e cantarem a palavra de Deus; que o Senhor Jesus Cristo ressuscitou no domingo; que o apóstolo João - em Apocalipse - foi arrebatado no "dia do Senhor" e ainda alguns outros eventos que levam-os a acreditar que o sábado (literal) judaico foi mudado e que agora deve-se cultuar ao Senhor no dia de domingo.

Essas duas "correntes" surgiram do desentendimento entre luteranos e calvinistas. As principais diferenças entre eles eram as seguintes [1]:

1. Abordagem quanto à Ceia do Senhor. Os luteranos mantinham a doutrina da consubstanciação, afirmando que Cristo está presente fisicamente, em, com e sob os elementos da Ceia do Senhor. Eles resistiram a qualquer tentativa de explicar a expressão de Jesus "isto é o meu corpo" como uma metáfora, dizendo que esses esforços abriam a porta para a alegorização do próprio evangelho.

2. A função primária da Lei. Lutero considerava, de modo geral, a lei como negativa e associada com o pecado, a morte e o Diabo. Ele acreditava que a função predominante da lei era humilhar o pecador ao convencê-lo do pecado e impulsioná-lo a Cristo, onde acharia libertação. Calvino considerava a lei mais como um guia para o crente, um instrumento para encorajá-lo a apegar-se a Deus e obedecer-lhe mais fervorosamente. O crente deverá tentar seguir a lei de Deus, não como um ato compulsório, e sim como uma reação da obediência marcada por gratidão. Com a ajuda do Espírito, a lei provê um meio para o crente expressar sua gratidão.

3. Abordagem quanto à salvação. Tanto os luteranos como os calvinistas responderiam a pergunta "o que devo fazer para ser salvo?" ao afirmarem que são necessários o arrependimento para com Deus, operado pelo Espírito, e a fé no Senhor Jesus Cristo e na sua obra de expiação vicária. No entanto, os luteranos tinham a tendência de permanecer focalizados na doutrina da justificação, enquanto os calvinistas, sem minimizar a justificação, insistiam, mais do que os luteranos, na santificação, que indaga: "havendo sido justificados pela graça de Deus, como viveremos para a glória de Deus?". Assim, o calvinismo se tornou mais abrangente do que o luteranismo, ao explicar como a salvação se expressa na vida de uma crente.

4. Entendimento sobre o culto. A reforma de Lutero foi mais moderada do que a de Calvino e reteve muito da liturgia medieval. Seguindo os seus líderes, os luteranos e os calvinistas diferiam em seus pontos de vista a respeito de como as Escrituras regulam o culto. Os luteranos ensinaram que podemos incluir no culto o que não é proibido nas Escrituras; os calvinistas defendiam que não podemos incluir no culto o que o Novo Testamento não ordena.

Entendido esse ponto, passemos para a introdução do que significa o Sola Scriptura. Vejamos alguns pontos [2]:

1. A autoridade da escritura. O princípio regulador da Escritura alicerça-se no fato de que a Bíblia é única. Somente a Bíblia é a Palavra de Deus. Só há um Deus - a Trindade ontológica que é transcendente, que criou todas as coisas e que dá sentido à realidade. Do mesmo modo, só existe hoje uma única direção verbal ou fonte escrita da revelação divina. Só existe um único livro que nos declara a mente e a vontade de Deus. Por ser inspirada pelo próprio Deus, a Escritura é auto autenticada e absoluta. Por ser Palavra de Deus, a Escritura é a autoridade final e definitiva para todos os assuntos de fé e de vida. A Bíblia é o único padrão absoluto para todos os assuntos de fé e vida. A Confissão de Fé de Westminster afirma que "O Juiz Supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser determinadas e por quem serão examinados todos os decretos de concílios, todas as opiniões dos antigos escritores, todas as doutrinas de homens e opiniões particulares, o Juiz Supremo em cuja sentença nos devemos firmar não pode ser outro senão o Espírito Santo falando na Escritura" (Mat 22:29, 3 1; At 28:25; Gal 1:10). Homens pecadores e falíveis podem e recebem autoridade delegada por Deus, mas somente Deus, que é o Soberano absoluto e Criador de todas as coisas, tem o direito à sujeição da fé da obediência dos homens.

2. A suficiência e perfeição da Escritura. Por perfeição da Escritura queremos dizer que a Bíblia é completamente suficiente para aquilo que foi por Deus designada (2Tm 3.16,17). Quando discutimos a Escritura como a revelação inspirada e final de Deus, que é suficiente e completa para a salvação, para servir a Deus, e para a fé e prática, não queremos dizer que não existam verdades que não possam ser apreendidas fora dela (como aprender sobre lógica elementar, matemática simples, observações básicas e superficiais, engenharia, artistas, arquitetos...). Entretanto, até mesmo nestas áreas da vida chamadas de "seculares", os não crentes, para fazerem alguma coisa, têm de conduzir os seus assuntos em conformidade com as pressuposições bíblicas. Noutras palavras, a Bíblia não apenas nos ensina sobre Deus, sobre nós mesmos, redenção e ética, ela é também o fundamento de todo o entendimento. Sem revelação divina o homem não pode realmente entender nem dar explicação de nada.

Por "perfeição e suficiência" da Escritura, as confissões reformadas querem dizer que, para o homem, a Bíblia é um guia tão completo e perfeito quanto a tudo o que Deus requer que creiamos (salvação, doutrinas, estatutos, etc.) que ela não precisa de nenhuma complementação da parte do homem. Falando positivamente, a Bíblia é a única regra de fé e obediência. Falando negativamente, é expressamente proibido aos homens, em qualquer hipótese, acrescentarem as suas próprias ideia, doutrinas e/ou preceitos à Escritura. O fato de toda a Bíblia ser suficiente, perfeita e completa, torna em antibíblica e tola todas as tentativas de complementar seus ensinamentos, quanto a fé e à ética, com ideias e regras da mente do homem. A doutrina da perfeição e suficiência das Escrituras protege os crentes da tirania das exigências humanas.

3. A completude e o fechamento da Escritura. Por Escritura queremos dizer o cânon completo (os 66 livros do Velho e do Novo Testamento), a Palavra de Deus escrita. No ponto atual da história da salvação (após a pessoa e obra de Cristo ter sido explicada pelos profetas e apóstolos do Novo Testamento e o governo, culto e doutrina da igreja da Nova Aliança terem sido completamente definidos pelo Espírito Santo na Escritura) o processo revelacional cessou. A Escritura não poderia estar completa senão após Jesus ter concluído a Sua obra na terra. Tudo na Escritura está, de algum modo, relacionado à pessoa e obra de Jesus Cristo. Ele é descrito como o ápice e a conclusão de Deus falando ao homem (Hb 1.1-2). É fato histórico que a revelação divina cessou co a morte do último apóstolo. Ao longo da história, aqueles que afirmaram ter revelações diretas de Deus (ex: os Montanistas, os profetas de Zwickau, os Irvingitas, os modernos carismáticos, etc.) foram sempre falsos profetas. Cristo e os apóstolos predisseram o surgimento dos falsos profetas e advertiram-nos para não seguirmos às suas revelações mentirosas (cf. Mt 7.15-23; 24.11; 2Pe...). O fato de que a revelação cessou e de que a Escritura for criada por Deus como totalmente suficiente às nossas necessidades (2Tm 3.16,17) significa que se quisermos conhecer a mente e a vontade de Deus, a nossa única fone de conhecimento será a Bíblia.  É preciso curar em primeiro lugar a raiz antes que o fruto doente e venoso seja substituído.

Semana que vem veremos alguns afazeres que são requeridos pela Escritura e como nós devemos aplicá-los ao nosso culto e também ao nosso dia a dia.

Notas:
[1] R. Beeke, Joel - Vivendo para a Glória de Deus, Ed. FIEL - págs. 31,32.
[2] M. Scwertley, Brian - Sola Scriptura e o Princípio Regulador do Culto, Ed. Os Puritanos - págs.

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2 comentários :

  1. Outra doutrina falsa introduzida pela igreja romana é o domingo. A Bíblia não ordena em nenhum lugar santificar o domingo. O fato de Jesus ter ressuscitado no primeiro dia da semana não o torna santo, assim como o fato dele ter morrido na sexta-feira, não torna a sexta-feira santa. O único dia que Deus ordenou santificar é o Sábado, o sétimo dia da semana, este é único "dia do Senhor" citado nas escrituras.

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    Respostas
    1. Sua resposta sobre o domingo não procede, caro "anônimo". Gentileza ler este estudo aqui já postado: http://2timoteo316.blogspot.com.br/2012/10/download-do-estudo-o-quarto-mandamento.html

      Obrigado pela visita.

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