"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

Se inscreva no meu canal do YouTube!

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Diferenciando o Culto Público do Culto Particular - Sermão pregado dia 09.20.2011


Diferenciando o Culto Público do Culto Particular -
Sermão pregado dia 09.10.2011

Uma das grandes razões para que a confusão quanto ao Sola Scriptura e ao Princípio Regulador do Culto (PRC) se instaure, é o fato de que a Bíblia parece regular o culto de forma mais intensa do que regula outras áreas da vida. Samuel Waldron escreveu: “Parece que um dos obstáculos de ordem intelectual que impede os homens de aceitarem o Princípio Regulador é que este envolve a ideia de que a igreja e seu culto foram ordenados de maneira diferente do restante da vida. No que concerne ao restante da vida, Deus estabelece para os homens os grandes e abrangentes princípios de sua Palavra e, de acordo com os limites estabelecidos nestas orientações, permite que eles conduzam suas vidas da melhor forma que puderem. Ele não dá aos homens orientações detalhadas sobre como devem edificar suas casas ou seguir carreiras seculares. O Princípio Regulador, por outro lado, envolve uma limitação na iniciativa da vontade humana, o que não é característico no que se refere ao restante de nossa vida. Evidentemente, isto admite que existe uma diferença entre a maneira como o culto da igreja deve ser regulado e a maneira como o restante da sociedade e a conduta humana devem ser ordenadas. Portanto, o Princípio Regulador está sujeito a ofender muitas pessoas, por considerarem-no como opressivo, específico e, por conseguinte, sob suspeita, por não estar de acordo com a maneira de Deus lidar com os homens e orientar os outros aspectos de nossa vida”.

Quando falamos do Sola Scriptura, precisamos ter em mente que "Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra" (2Tm 3:16-17) e isso se traduz de forma intensa sobre o modo como enxergamos a Palavra de Deus. Se "Toda a Escritura é divinamente inspirada" - isto é, os 66 livros da Bíblia - então devemos compreender que de Gênesis à Apocalipse temos tudo o que é necessário para nos guiar e nos conduzir em fé, santidade, amor, justiça, dedicação, salvação, culto ao Senhor... Conforme vimos semana passada (clique aqui para ler), esse ponto não se traduz de forma que encontramos literalmente todas as situações diárias e vividas pelo homem nas Sagradas Escrituras. Não há versículos sobre as células troncos nem tampouco sobre como as lagostas se reproduzem, contudo, isso não significa que Deus não controle e arquitete essas e todas as outras situações que se fazem presente na terra.

É importante também notarmos que o fato de muitos professos da fé cristã terem se apartado do Sola Scriptura, se dá quase que da mesma forma do povo israelita: "Então disse o sumo sacerdote Hilquias ao escrivão Safã: Achei o livro da lei na casa do SENHOR. E Hilquias deu o livro a Safã, e ele o leu" (2Rs 22:8). Tal qual os israelitas haviam se esquecido do Senhor e vivam conforme suas imaginações e pretensões, assim também muitos tem vivido de forma desordeira e baseando suas crenças naquilo que lhes traz mais prazer e conforto mundano.  

A vida cristã - por mais óbvio que possa parecer - é pautada pelo ensino Bíblico e pelo exemplo vivo de Jesus Cristo que esteve fisicamente entre nós e agora está presente em nossos corações através do Seu Santo Espírito que nos guia em toda a verdade. Contudo, muitos parecem confundir as "esferas" de atuação do ensino bíblico. Deixe-me explicar.

Embora a Bíblia nos ensine sobre o governo eclesiástico e o governo civil, eles são coisas distintas e assim devem ser tratados.

Sobre o governo eclesiástico: "Esta é uma palavra fiel: se alguém deseja o episcopado (pastoreio), excelente obra deseja. Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar; Não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância, mas moderado, não contencioso, não avarento; Que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia (Porque, se alguém não sabe governar a sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus?); Não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo. Convém também que tenha bom testemunho dos que estão de fora, para que não caia em afronta, e no laço do diabo (1Tm 3:1-7).

Sobre o governo civil: "Toda a alma esteja sujeita às potestades superiores; porque não há potestade que não venha de Deus; e as potestades que há foram ordenadas por Deus. Por isso quem resiste à potestade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos a condenação. Porque os magistrados não são terror para as boas obras, mas para as más. Queres tu, pois, não temer a potestade? Faze o bem, e terás louvor dela. Porque ela é ministro de Deus para teu bem. Mas, se fizeres o mal, teme, pois não traz debalde a espada; porque é ministro de Deus, e vingador para castigar o que faz o mal" (Rm 13:1-4).

O que observamos nessas duas passagens bíblicas? Observamos que ambos os governos são ministros de Deus, um na igreja e outro no Estado. Contudo, as atribuições dos governos nem sempre se comunicam, isto é:

1. Enquanto para ser ministro do Senhor se faz necessário não ser neófito (novo na fé), para a carreira civil isso não é requerido (ainda que possa ser aconselhável - caso seja um crente que venha a assumir o posto).
2. O governo eclesiástico é formado por crentes em Cristo Jesus, já o governo civil muitas vezes é praticado por homens não tementes a Deus. 
3. O governo eclesiástico pode e deve aplicar a disciplina àqueles membros que não se sujeitam à sã doutrina, mas o governo civil não tem parte nesse assunto, pois essa disciplina compete à igreja do Senhor. 
4. O fato do governo eclesiástico não ter autorização para eliminar o malfeitor da sociedade, não significa que o governo civil também não tenha essa autorização e incentivo para que erradique o malfeitor da sociedade (sobre esse ponto, leia o texto "Quando matar não é crime nem pecado"). 

Sob esse prisma das "esferas" de atuação da Bíblia, importa-nos fazer a diferença entre o culto público e o culto particular.

Elementos constitutivos do culto público:

- Pregação a partir da Bíblia - Mt 26.13; Mc 16.15; At 9.20; 1Tm 4.13; 2Tm 4.2; At 17.13.
- Leitura da Palavra de Deus - Mc 4.16-20; At 13.15; 1Tm 4.13; 1Co 11.20.
- Audição da Palavra de Deus - Lc 2.46; At 8.31; Rm 10.17; Tg 1.22; Lc 4.20; At 20.9.
- Oração a Deus - Mt 6.9; 1Ts 5.17; Hb 13.18; Fp 4.6; Tg 1.5.
- Administração dos sacramentos - Mt 28.19; Mt 26.26-29; 1Co 11.24,25.
- Reunião no dia do Senhor - At 20.7; 1Co 16.2; Ap 1.10; 1Co 11.18.
- Cântico de salmos - 1Co 14.26; Ef 5.19; 1Cr 16.9; Sl 95.1,2; Sl 105.2; Cl 3.16.

Elementos constitutivos do culto particular:

Embora a Bíblia não seja um guia que dispõe literalmente todas as ações humanas, o Senhor nos deixou uma máxima que precisa ser rigorosamente seguida: "Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus" (1Co 10:31). Aqui, Paulo está nos dizendo que TUDO, absolutamente TUDO o que fazemos deve ser feito para a glória de Deus.

Para Calvino, a glória de Deus dividia-se em três dimensões [1]: 

1. A Glória Celestial de Cristo (Sua glória nos céus, não alcançável pelo homem - Tt 2.13);
2. A Glória como mediador (Sua glória na predestinação e mediação com o Pai - Ef 1.11);
3. A Glória dos filhos de Deus (Sua glória em revelar-se ao Seus filhos - Cl 1.27).

Então, o que Paulo está a nos instruir é que tudo em nossa vida deve refletir a glória de Deus. Tudo o que fazemos deve ser feito para a glória de Deus e não há nada mais importante para nós do que buscarmos conhecer aquilo que Deus requer de Seus filhos. Só podemos glorificar ao Senhor quando sabemos quais são os seus preceitos. Tão qual quando uma esposa busca agradar seu marido dando-lhe presentes que não lhe são agradáveis, assim também somos nós quando tentamos fazer a vontade do Senhor oferecendo-lhe coisas que não lhe satisfazem o coração. Temos uma ilustração bíblica que elucida essa questão:

"E conheceu Adão a Eva, sua mulher, e ela concebeu e deu à luz a Caim, e disse: Alcancei do SENHOR um homem. E deu à luz mais a seu irmão Abel; e Abel foi pastor de ovelhas, e Caim foi lavrador da terra. E aconteceu ao cabo de dias que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao SENHOR. E Abel também trouxe dos primogênitos das suas ovelhas, e da sua gordura; e atentou o SENHOR para Abel e para a sua oferta. Mas para Caim e para a sua oferta não atentou. E irou-se Caim fortemente, e descaiu-lhe o semblante" (Gn 4:1-5). 

Não sei você, mas eu cresci aprendendo que o fato de o Senhor não aceitar a oferta de Caim foi porque ele não havia feito de todo o coração - mas em que lugar das Escrituras achamos tal explicação? Respondo: Hb 11.4. Mas o problema de Caim não foi oferecer de falso coração - pois em momento algum somos informados de que ele ofereceu de forma desonrosa - mas sim oferecer de forma não prescrita por Deus. Sobre esse ponto, (além de outros que concordam com essa posição) Brian Schwertley diz: 

O que havia na oferta de Caim para torná-la inaceitável aos olhos de Deus? A preferência pela oferta de Abel e a rejeição da de Caim não foi arbitrária; ela se baseou na revelação apresentada a Adão e sua família. ...Deus revelou essa informação a Adão ao matar animais para cobrir o homem e sua mulher (Gn 3.21). Gerações mais tarde, Noé sabia que Deus aceitaria apenas animais e aves puros como holocausto (Gn 8.20). Caim, diferentemente do irmão Abel, decidiu, à parte da Palavra de Deus, que a oferta de frutos da terra seria aceitável ao Senhor. Deus, porém, rejeitou a oferta de Caim por ser uma invenção de sua mente. Ele não a ordenara; portanto, ainda que Caim fosse sincero no desejo de agradar a Deus, ele a rejeitaria da mesma forma.

Deus espera fé e obediência à sua Palavra. Se o povo de Deus pode cultuar o Senhor segundo sua vontade, pelo fato de ordenanças humanas não serem expressamente proibidas, então não poderiam Caim, Noé ou os levitas oferecer a Deus uma salada de frutas ou uma cesta de nabos, por não haver proibição? E se Deus desejasse uma regulamentação estrita de seu culto à parte do PRC, não seriam necessárias centenas de volumes (ou talvez milhares deles) para nos informar das proibições? No entanto, Deus, em sua infinita sabedoria, diz: “Tudo o que eu te ordeno, observarás para fazer; nada lhe acrescentarás nem diminuirás” (Dt 12.32). [2]

Portanto, percebemos que mesmo o culto particular - isto é, o nosso deitar, levantar, comer, trabalhar, casar, procriar, divertir, estudar, construir, aconselhar... - deve ser pautado pelas Escrituras. É preciso que reconheçamos a diferença entre cultuar a Deus de forma particular e em conjunto com os outros irmãos. Em casa, podemos tomar banho e louvarmos ao Senhor por suas grandes riquezas e maravilhas; ao jogarmos futebol com os amigos, louvarmos a Deus pela Sua criação e irmãos preciosos que nos tem dado; ao trabalharmos, louvarmos a Deus pelo sustento que nos têm concedido; ao juntar alguns amigos e tocar boa música, louvamos o Seu nome pela habilidade que tem nos dado para executar os instrumentos, contudo, não é porque essas práticas são lícitas em nosso dia a dia que devem ser incorporadas como sendo parte do culto ao Senhor. 

Escrevendo ao seu amado Timóteo, Paulo diz: "Conserva o modelo das sãs palavras que de mim tens ouvido, na fé e no amor que há em Cristo Jesus. Guarda o bom depósito pelo Espírito Santo que habita em nós" (2Tm 1:13-14). Ao lermos as cartas de Paulo a Timóteo, em momento algum vemos que Paulo estimula Timóteo a adicionar elementos não ensinados por ele e que não prescritos pelo AT - que já era corrente naqueles dias - e também não lhe diz para que fizesse o culto de acordo com a sua geração, mas que tão somente trouxesse "à memória a fé não fingida que em ti há, a qual habitou primeiro em tua avó Lóide, e em tua mãe Eunice, e estou certo de que também habita em ti" (2Tm 1.5).

Semana que vem começaremos a ver de forma mais detalhada os elementos constitutivos do culto, isto é, (nesta ordem) a  pregação a partir da Bíblia, leitura da Palavra de Deus, audição da Palavra de Deus, oração a Deus, administração dos sacramentos, reunião no dia do Senhor e cântico de salmos 


Notas:
[1] Fonte: Calvin09.org
[2] Schwertley, M. Brian - Sola Scriptura e o Princípio regulador do Culto - Ed. FIEL.

Comente com o Facebook:

2 comentários :

Por favor, comente este texto. Suas críticas e sugestões serão úteis para o crescimento e amadurecimendo dos assuntos aqui propostos.

Compartilhe

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails

pop-up LIKE

Plugin