"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

sexta-feira, 16 de março de 2012

Como as Mulheres Devem se Vestir?


Comentário de Calvino sobre 1 Tm 2.9, 10 ("Que do mesmo modo as mulheres se ataviem em traje honesto, com pudor e modéstia, não com tranças, ou com ouro, ou pérolas, ou vestidos preciosos, Mas (como convém a mulheres que fazem profissão de servir a Deus) com boas obras"):

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9. Que do mesmo modo. Conforme ele havia ordenado aos homem para que levantassem mãos puras, agora ele prescreve a maneira pela qual as mulheres devem se preparam para orarem corretamente; e parece haver um contraste entre aquelas virtudes que ele recomendou e a santificação externa dos Judeus; para isso ele sugere que não há lugar profano, nem qualquer lugar onde ambos, homem e mulher, não podem se aproximar de Deus, desde que não sejam excluídos por seus vícios.

Ele pretende abraçar a oportunidade de corrigir um vício de que as mulheres geralmente são propensas, e que talvez em Éfeso, sendo uma cidade de grandes riquezas e vastas mercadorias, especialmente abundavam; esse vício é a vontade e desejo de se vestir ricamente e abundantemente. Ele [o apóstolo] deseja, portanto, que suas roupas [das mulheres] sejam reguladas pela modéstia e sobriedade; para [mostrar] que o luxo e os gastos imoderados surgem do desejo de aparecer, quer por causa do orgulho, ou por se apartarem da pureza e simplicidade. E, portanto, é daí que deriva-se nosso dever de regular a moderação, pois desde que o vestir-se é uma questão indiferente (assim como todas as questões exteriores o são), é difícil estabelecer um limite fixo sobre o quão longe se pode ir. Os magistrados [governantes] podem de fato estabelecer leis pelas quais a vontade de se exceder em gastos supérfulos seja em alguma medida contida, mas mestres piedosos cuja trabalho é guiar as consciências, devem sempre manter em vista a finalidade pretendida pela lei. Isso, pelo menos, será concorde sem qualquer controvérsia, que tudo aquilo que no vestir-se não esteja de acordo com a modéstia e sobriedade, é certamente desapropriado.

No entanto, devemos sempre começar com as disposições, pois onde reina a devassidão, não haverá pureza, e onde reina a ambição, ali não haverá modéstia no vestir-se exteriormente. Mas porque muitos hipócritas comumente aproveitam-se sobre todo tipo de desculpa que eles podem encontrar para ocultar suas disposições ímpias, nós temos a necessidade de tornar claro e comentarmos sobre aquilo que nossos olhos podem ver. Seria infâmia [vileza] negar a adequação da modéstia como sendo o ornamento virtuoso e peculiar das mulheres modestas ou o dever de todas observarem essa conduta - tudo que se opõe a essas virtudes é vã desculpa. Ele [o apóstolo] expressamente censura certos tipos de excesso [que vão além da modéstia], como cabelos ondulados, jóias e anéis de ouro; não que o uso de ouro ou de joias seja expressamente proibido, mas que, onde quer que estas coisas estejam em proeminência, elas geralmente estão juntas e contornam-a [a mulher] das outras coisas malignas que eu mencionei, e surgem da ambição e falta de pureza.

10. Como convém às mulheres; é sem sombra de dúvidas que o vestir-se das virtuosas e piedosas mulheres deva diferir daquelas devassas prostitutas. O que ele [o apóstolo] estabeleceu como marcas de distinção e piedade, devem ser testemunhados nas obras e no vestir-se com pureza.

Fonte: CALVIN, John, Commentary on The First Epistle to Timothy, BakerBooks, pgs. 65, 66 - tradução livre.

terça-feira, 13 de março de 2012

"Salvar-se-á, porém, dando à luz filhos" - João Calvino


14. E Adão não foi enganado. Ele alude à punição infligida sobre a mulher: "Porquanto obedecestes a voz da serpente, tu serás sujeita à autoridade de teu marido, e o seu desejo será para ele." (Gn 3.16) Porque ela havia dado tal conselho fatal, era certo que deveria aprender que estava sobre o poder e autoridade de outro; e porque ela levou seu marido para além do mandamento de Deus, era certo de que ela deveria ser privada de toda liberdade e deveria ser colocada sob o seu jugo. Além disso, o Apóstolo não cessa totalmente ou absolutamente seu argumento na causa da transgressão, mas acha-a também na sentença pronunciada por Deus.

Ainda que essas duas declarações possam aparentar alguma contradição, de que a submissão da mulher é a punição por sua transgressão e que ela assim está desde a criação, para daí seguir que ela estava fadada à servitude antes de haver pecado, eu respondo que não há nada que impeça a condição de obediência ser natural a partir do início e que depois que a condição acidental de servir vem à existência, então a sujeição é agora menos voluntária e agradável do que havia sido anteriormente.

Essa passagem também tem dado para algumas pessoas a ocasião de afirmarem que Adão não caiu por meio de erro, mas que apenas foi superado pelas seduções de sua esposa. Portanto, eles pensam que a mulher foi somente enganada pelas astúcias do maligno, a fim de acreditar que ela e seu marido poderiam ser como deuses, mas que Adão não foi totalmente persuadido por isso, mas provou do fruto a fim de agradar sua esposa. Mas essa opinião é fácil de refutar, porque se Adão não deu crédito à falsidade de Satanás, Deus não teria censurado-o: "Eis que o homem é como um de nós" (Gn 3.22). Há também outras razões pela qual não devo dizer coisa alguma, pois elas não precisam de uma longa refutação cujo erro não descansa em qualquer conjectura provável. Essas palavras de Paulo não significavam que ele não foi enredado pela mesma dissimulação do maligno, mas que a causa ou fonte da transgressão procedeu de Eva.

15. Salvar-se-á, porém. A fraqueza do sexo [feminino] torna as mulheres mais desconfiadas e tímidas, e a declaração anterior certamente pode aterrorizar até as mentes mais fortes. São por essas razões que ele modifica o que disse ao acrescentar a consolação; para que o Espírito de Deus não nos acuse ou reprove e triunfe sobre nós, quando estamos cobertos de vergonha, mas, quando fomos derrubados, ele imediatamente nos levanta. Isso talvez tenha o efeito (conforme já tenho dito) de um impressionante terror nas mentes das mulheres, quando são informadas que a destruição de toda a raça humana é atribuída a elas; mas qual será essa condenação, especialmente quando a sua sujeição, como um testemunho da ira de Deus, está constantemente colocada diante de seus olhos? Portanto, Paulo, com o propósito de confortá-las e tornar sua condição suportável, informa-as de que continuem a se regozijar na esperança da salvação, apesar de sofrerem uma punição temporal. Nisso é próprio observar que o bom efeito da consolação é duplo. Primeiro, que a esperança da salvação se estendeu a elas, prevenindo-as de cair no desespero através da menção alarmosa de sua culpa. Em segundo lugar, elas se tornam aptas a suportar calmamente e pacientemente a necessidade da servidão, se submetendo assim de bom grado aos seus maridos, quando são informadas que esse tipo de obediência é lucrativo para si mesmas e aceitável a Deus. Se essa passagem é torturante, como os papistas estão acostumados a fazer para suportar uma justiça de obras, é fácil responder. Aqui, o apóstolo não argue sobre a causa da salvação, e, portanto, não podemos ou devemos inferir a partir dessas palavras o que as obras merecem, pois ele somente [o apóstolo] manifesta sob que caminhos Deus nos conduz à salvação, para o qual Ele apontou-a através de Sua graça.

Dando à luz filhos. Para os homens severos isso pode parecer absurdo, pois o apóstolo não somente exortou as mulheres a dar atenção ao nascimento de sua descendência, mas colocou esse trabalho como religioso e santo, de tal forma a representar isso à luz dos meios de obter a salvação. Mais ainda, nós temos visto como o leito conjugal foi caluniado por hipócritas que desejaram pensar serem mais santos do que todos os outros homens - mas aqui não reside nenhuma dificuldade em refutar a zombaria dos ímpios. Primeiro, o apóstolo não fala simplesmente sobre ter filhos, mas sobre suportar toda angústia que é múltipla e severa, tanto no nascimento quando na educação dos filhos. Em segundo lugar, quaisquer hipócritas ou homens sábios do mundo podem pensar isso, quando uma mulher, considerando sua vocação, submete-se na  condição a qual Deus colocou-a e não se recusa  suportar a dor, ou melhor, o medo da angústia, do parto ou da ansiedade sobre sua descendência, ou qualquer outra coisa que lhe pertença como dever - Deus valoriza essa obediência mais do que se noutras formas ela realizasse grandes virtudes heróicas, enquanto se recusa a obedecer o mandamento do Senhor. Para isso deve ser adicionado que nenhuma consolação pode ser mais apropriada e mais efetiva para manifestar-se que os próprios meios (por assim dizer) de adquirir-se a salvação, são encontrados na própria punição.

Se permanecer em fé. Em consequência da antiga versão ter usado a expressão "o nascimento de filhos", isso comumente tem sido entendido como se essa cláusula se referisse a filhos. Mas o termo usado por Paulo para denotar "fértil" é uma palavra no singular, τεκνογονία, e, portanto, isso precisa se referir à mulher. Estando o verbo no plural e o substantivo no singular, isso não envolve qualquer dificuldade; por um substantivo indefinido, pelo menos quando denota um grande número, tem a força dum substantivo coletivo, e, portanto, facilmente admite uma mudança do singular para o número plural. 

Além disso, como ele pode não representar todas as virtudes das mulheres como incluídas nos deveres do casamento, logo a seguir ele acrescenta grandes virtudes, as quais são próprias às mulheres piedosas que devem se sobressair, sendo diferente das mulheres não religiosas. Mesmo que "fértil" seja a obediência aceita por Deus, estará muito longe do reto proceder se não tiver fé e amor. Para esses dois ele acrescenta santificação, que inclui toda pureza de vida da mulher cristã. Por fim, seguido de modéstia, que ele mencionou anteriormente, enquanto estava falando sobre o vestido; mas agora ele estende mais amplamente para as outras partes da vida.

Por João Calvino
Fonte: John Calvin commentary, The First Epistle to Timothy, Chapter II, 14, 15 - Baker Books, pgs. 69-72. Tradução Livre.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Entendendo e Aplicando a História do Jovem Rico



Entendendo e Aplicando a História do Jovem Rico -
por Filipe Luiz C. Machado

Nosso texto: Mateus 19.16-23

"E eis que, aproximando-se dele um jovem, disse-lhe: Bom Mestre, que bem farei para conseguir a vida eterna? E ele disse-lhe: Por que me chamas bom? Não há bom senão um só, que é Deus. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos. Disse-lhe ele: Quais? E Jesus disse: Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho; Honra teu pai e tua mãe, e amarás o teu próximo como a ti mesmo. Disse-lhe o jovem: Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade; que me falta ainda? Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me. E o jovem, ouvindo esta palavra, retirou-se triste, porque possuía muitas propriedades. Disse então Jesus aos seus discípulos: Em verdade vos digo que é difícil entrar um rico no reino dos céus"

Nosso texto de hoje é uma narrativa bem conhecida de todos os crentes. Muitos de nós já devem ter ouvido esse relato bíblico uma dezena de vezes - talvez você seja um desses. No entanto, pode ser também que você apenas a ouviu uma única vez, mas já crê que conhece todo ensinamento que tais palavras querem ensinar ao coração. Não importando em qual das qualificações você se encaixe, a palavra de Deus nos é sempre útil e necessária para nossa transformação à imagem e semelhança do Senhor (2 Tm 3.16,17), visto que somos pecadores e somente em Cristo precisamos buscar nossa conformidade com Seus preceitos.

No texto que acabamos de ler, Mateus é bastante específico com relação à pessoa que conversava com o Senhor; enquanto o evangelho de Marcos o chama apenas de "homem" (Mc 10.17), e Lucas, de "príncipe", o evangelista Mateus dá uma característica importante para tal indivíduo: ele era um jovem. Não nos é dito qual a idade de tal homem, talvez pudesse ser bastante jovem, ou talvez nem tanto. Não somos informados da onde viera para se encontrar com Jesus, porém, nos é dito que era um jovem. Não sabemos quem são seus pais, se era casado e/ou se possuía filhos, no entanto, era um jovem. Se assim é a descrição de Mateus, então precisamos dar valor para essa qualificação, pois todo cristão precisa entender que não há sequer uma palavra sem sentido nas Escrituras, absolutamente todas elas, desde a mais "bela" até a mais "estranha", todas tem um significado especial e que contribui para nosso crescimento. A palavra de hoje de Mateus nos informa: um jovem veio falar com o Senhor Jesus, o Messias salvador.

Os versículos anteriores à nossa narrativa descrevem Jesus dizendo: "Deixai os meninos, e não os estorveis de vir a mim; porque dos tais é o reino dos céus" (Mt 19.14). Todos os três evangelistas parecem desejar ligar um acontecimento ao outro. Marcos é enfático ao registrar que logo após essas palavras de Jesus, "correu para ele um homem, o qual se ajoelhou diante dele, e lhe perguntou: Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?" (Mc 10.17) - um homem jovem correu até o Senhor. Esse jovem talvez estivesse vendo e ouvindo Jesus tomando as crianças em seu colo e as abençoando pelo Seu poder soberano. Esse jovem muito provavelmente estava nesse local, observava as atitudes do Mestre, via-o proferir palavras de bênção à crianças tão pequenas e aparentemente indefesas. Então esse jovem deve ter pensado: "Esse homem que dizem ser o Messias, o libertador de Israel, está abençoando criancinhas que sequer sabem talvez falar e precisam ser levadas por seus pais até Jesus... creio que também chegará a minha vez, pois logo os jovens devem ir até Ele". Porém, se o jovem assim pensou, logo viu-se em frustração, pois tão logo Jesus acabara de abençoar os pequeninos, "partiu dali" (Mt 19.15).

Mas o nosso personagem da narrativa não era um senhor idoso ou alguém com problemas de saúde: ele era um jovem. Como bom jovem, logo se pôs a correr em direção a Jesus que estava deixado o local, afinal, muito provavelmente estava nos ao redores enquanto Jesus tinha as crianças consigo e as tratava de forma muito bondosa e carinhosa. Alcançando a Jesus, nosso jovem pergunta: "Bom Mestre, que bem farei para conseguir a vida eterna?" (Mt 19.16). Talvez, perplexo por ter Jesus abençoado somente as crianças e não ter chamado também os mais crescidos, nosso jovem pergunta o que ele deve fazer para também ter a vida eterna assim como Ele havia-a dado àquelas crianças de pequena idade (a palavra em grego para crianças, nessa narrativa, denota crianças de colo, gente de muita pouca idade). Jesus então lhe responde: "Por que me chamas bom? Não há bom senão um só, que é Deus" (Mt 19.17), como querendo dizer: "Por que achas que eu sou bom? Eu não afirmo constantemente que sou o enviado de Deus? Não lhes digo que sou o Filho do Pai? Também já não sabem vocês que Eu e o Pai somos um? Por que então dizes que sou bom? Acaso achas que Eu sou diferente de meu Pai que está nos céus? Meu jovem, Eu sou Deus, não sou um homem pecador - quem vê a mim, vê a Deus (Jo 14.9); você está vendo e falando com o próprio Senhor". Jesus então continua dizendo ao jovem: "Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos." Nosso Salvador comunica ao jovem que caso quisesse ter a vida eterna - conforme havia questionado-o - deveria guardar os mandamentos do Senhor. Esse é um ponto muito importante, pois Jesus poderia ter dito que bastaria a "fé" n'Ele e tudo estaria resolvido; que para herdar o reino dos céus precisaria somente de algumas boas obras na terra e viver de maneira politicamente correta; que sendo uma pessoa na sociedade (ou nas palavras de Lucas, um bom "príncipe") e agindo conforma a moralidade da época exige, já se estaria satisfazendo os requisitos para a salvação. No entanto, Jesus afirma que é preciso guardar os seus mandamentos.

Agora, depois de ouvir tais palavras de Jesus, nosso jovem questiona: "Disse-lhe ele: Quais?" (Mt 19.18). O jovem sabia quais eram mandamentos, ele conhecia as ordenanças de Jesus - não era um ignorante. Como sei disso? Veja que após Jesus enumerar os mandamentos, nosso jovem diz que "Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade" (Mt 19.20). Ninguém consegue guardar (obedecer) um mandamento que não conhece, não há quem possa buscar viver uma vida reta diante do Senhor se não conhece a Lei do Senhor - certamente esse jovem as conhecia. Agora, Jesus passa a lhe apresentar os 6 mandamentos referentes ao próximo: "Não matarás [Êx 20.13], não cometerás adultério [Êx 20.14], não furtarás [Êx 20.15], não dirás falso testemunho [Êx 20.16]; Honra teu pai e tua mãe [Êx 20.12], e amarás o teu próximo como a ti mesmo [Êx 20.17]" (Mt 19.18, 19). Como vimos, o jovem responde afirmativamente a esses mandamentos, dizendo que a todos eles havia cumprido; que vivia de modo diligente e centrado em seu propósito de não ferir os mandamentos do Senhor; que era piedoso em suas tarefas, afinal, jamais havia matado, adulterado, furtador, dado falso testemunho, deixado de honrar pai e mãe e sempre sendo amoroso para com o próximo - aqui,  aparentemente temos o relato de um jovem puro, íntegro; um exemplo para a sociedade israelita. Mas, como que não entendendo as palavras de Jesus, após afirmar ser exímio cumpridor dos mandamentos, pergunta: "que me falta ainda?". Essas palavras ecoam o seguinte pensamento de nosso jovem: "Mas Mestre, quando eu fui ter com o Senhor, lhe havia perguntado como ter a vida eterna; lembro-me então que foi apresentado os mandamentos. Pois bem, aqui estou a professar que pratico todos eles e que de fato tenho-os guardados desde a mais tenra idade - o que me falta então para ter a vida eterna, haja vista que já sou cumpridor dos mandamentos? Acaso o Senhor está querendo dizer que já tenho a vida eterna?" Jesus então lhe responde: "Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me" (Mt 19.21).

Ao contrário do que o jovem esperava, Jesus lhe dá 4 diretrizes de como deveria proceder caso quisesse de fato cumprir todo o requerido pelo Senhor e então ter a vida eterna. 

Em primeiro lugar, a ordem foi: "vai, vende tudo o que tens". Jesus sequer questionou aquele jovem se ele estaria de acordo em vender tudo o que possuía ou se teria condições de viver sem as posses que havia adquirido (ou ganho por herança). Jesus simplesmente não questiona, não argumenta, não senta com o pecador e tenta firmar um contrato bom para ambas as partes - Jesus não é esse tipo de pessoa. O chamado "bom Mestre" tão somente coloca as cartas na mesa e diz: "Meu jovem, desejas ser perfeito? Se sim, comece vendendo tudo o que tens". Observemos que esse é o padrão de Jesus: justo, direto, certeiro - mas com amor. A maioria das palavras de Jesus são registradas como sendo "direto ao ponto", sem rodeios ou desculpas esfarrapadas; Ele simplesmente diz o que deve ser feito e pronto - não há diálogo para poder questionar o decreto divino. 

Em segundo lugar, após ouvir sobre que deveria vender seus bens, o jovem ouviu: "e dá-o aos pobres". Não é uma regra, mas a maioria dos ricos e possuidores de muita posse trata com desdém os pobres - ou quando muito, veem neles apenas um potencial para lucrarem ainda mais. Entretanto, independente dessa regra ter sido válida para nosso jovem, o Senhor o admoesta a entregar tudo o que tem. Para quem deveria entregar? Ao sumo sacerdote? Aos levitas? Aos administradores da época? A algum fundo de investimento para que gere rendimentos futuros? Não. Dever-se-ia ser entre aos pobres, àqueles que estão à margem da sociedade e padecem de todo tipo de dificuldade financeira. É nesse momento que o jovem toma um tiro em sua consciência; pois como pode ser "justo", pensa ele, "trabalhar durante algum tempo ou ainda receber como herança muitas propriedades e altas quantias em dinheiro e da noite para o dia ter de entregar tudo aos pobres e miseráveis que não fizeram coisa alguma para ganhar o que lhes estou dando?" Jesus nem ao menos disse que deveria dar sua riqueza a um único pobre, para talvez alegrar o jovem rico fazendo-o pensar que ao menos algum ficaria rico em seu lugar e daria continuidade à sua riqueza, mas sim, mando-o dar aos pobres, isto é, dividir com quem encontrasse e que fosse necessitado. 

Em terceiro lugar, caso fizesse tudo isso, Jesus lhe afirma: "e terás um tesouro no céu". O jovem agora ouve um consolo e percebe que há esperança para ele. Apesar de ter de vender seus bens e dá-los aos pobres, ouve que terá um tesouro nos céus - isso certamente chamou-lhe a atenção. Não é incomum que ao falarmos com pessoas sobre os tesouros no céu, a cidade celestial feita de ouro, os diamantes mais belos e formosos refletindo a luz que a todos ilumina, elas não ficarem encantadas. Não há quem fique indiferente à essa visão de João em Apocalipse, pois todos, de algum modo, são atraídos por algum tipo de riqueza e regalia. Assim também se deu com nosso jovem. Vocês conhecem o final da história - ele irá negar a Cristo; mas por quê? Porque não entendeu o significado das palavras de Jesus. Quem sabe ao medir suas riquezas de terras, contar as somas gigantescas de sua fortuna e as comparar com "um tesouro no céu", isto mesmo, apenas um, seu coração já deve ter-se posto em tristeza e lamentação, pois não entendia como poderia ser mais benéfico trocar "tudo" o que tinha, por apenas "um" tesouro, e que ainda não estava na terra, mas sim nos céus, um lugar inalcançável pelas mãos.

Em quarto lugar, não bastasse tudo o que o jovem já tinha ouvido e pensado, o Senhor se pronuncia com a sentença final: "e vem, e segue-me". Aquele jovem completamente estarrecido em seu coração, que talvez a poucos minutos atrás (antes de ir falar com Jesus) pensava que poderia ter a vida eterna numa breve conversa com o "bom mestre", e continuaria então a poder desfrutar da beleza e o sustento que suas riquezas lhe proporcionavam, agora se vê obrigado, além de vender, doar tudo aos pobres e ter ouvido que teria um único tesouro num lugar supostamente inalcançável, também é inquirido para que passe a seguir Jesus por onde quer que ele fosse. Em outra narrativa e ocasião de Mateus, Jesus havia dito: "As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça" (Mt 8.20). O que levaria um jovem a largar toda sua riqueza e seguir um homem que sequer tinha uma casa própria ou um lugar adequado para banhar-se? As faculdades mentais do jovem lhe diziam: "Não siga esse conselho, ele não é bom e lhe levará a perder tudo o que você tem". Por outro lado, lembremos que o jovem era desejoso de ter a vida eterna, o que também deve tê-lo levado a pensar: "Mas ainda que eu perca tudo, o 'bom Mestre' ofereceu-me a vida eterna e era justamente isso que eu queria!" - nosso jovem estava confuso. 

A narrativa bíblica então encerra com as lamentáveis palavras do jovem e também com um aviso do Senhor: "E o jovem, ouvindo esta palavra, retirou-se triste, porque possuía muitas propriedades. Disse então Jesus aos seus discípulos: Em verdade vos digo que é difícil entrar um rico no reino dos céus" (Mt 19.22, 23). Por fim, desejo-lhes expor algumas verdades e aplicações dessa passagem para nossas vidas.

1. Ele era um jovem. Essa qualidade já comentada no início precisa ficar clara para nós. Marcos nos diz que era um homem, e Lucas, que era um príncipe - daí entendermos que ele era um homem, príncipe e jovem. Grave muito bem essa qualificação, pois dela depende muito do entendimento dessa passagem. Não nos é dito que era um idoso, ele era jovem; não recebemos a informação de que era uma criança de colo, era um jovem; não estava doente ou passava por dificuldades físicas, era um jovem saudável, disposto e que buscava andar na direção daquilo que desejava. No entanto, atente para isso: mesmo sendo jovem, ele morreu. Não morreu fisicamente, não é isso que o texto nos diz, porém, morreu prematuro, pois decidiu seguir os prazeres desse mundo em lugar do tesouro nos céus. Algum de vocês já se identificou com nosso jovem? Você já teve atitudes semelhantes a dele? Já parou, ficou ouvindo o Senhor falar às crianças e então correu até Ele? Se isso lhe é familiar, como você recebeu as palavras de Jesus, "vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me"? Se você é um jovem, sua responsabilidade é dupla nesse dia. Primeiro porque nossa narrativa fala de um jovem, e assim você o é. Segundo, porque Cristo censurou nosso jovem, o que deveria levar você a temer por sua idade, pois apesar de jovem, você pode perecer e morrer afastado de Cristo.

2. O jovem correu. Nosso jovem expressou o vigor que é característico de sua idade: ele correu. E notemos nesse momento: ele correu até Jesus. O texto nos informa que quando Jesus saiu daquele lugar, o jovem correu, pois queria saber como poderia obter a vida eterna; no entanto, ouviu as duras palavras de Jesus. Note ainda outro detalhe: a Bíblia não nos revela que ele voltou correndo para o mundo, mas sim que "retirou-se triste, porque possuía muitas propriedades" (Mt 19.22). Um homem triste não corre mais, não vai atrás daquilo que lhe dá prazer, suas forças logo acabam, sua esperança é atacada pelos ladrões do desespero e em breve o máximo que você irá desejar é a morte. Meus amados, vocês podem correr muito nessa vida. Podem ir a muitos retiros "cristãos", podem sair com seus amigos cristãos e ficar até a alta madrugada conversando sobre qualquer assunto. Assim como nosso jovem da história, você pode correr, mas também pode perder a vida eterna. Não nos é sem motivo que as Escrituras descrevem esse homem como uma pessoa que correu, mas que, no entanto, retornou chorando. Quantos são os homens e mulheres que num primeiro momento vão até Cristo, correm até Ele, dizem ter entregado suas vidas ao Salvador, leem a Bíblia, oram, buscar estar com os irmãos da Igreja, mas nunca "venderam tudo o que tinham e seguiram o Senhor". Nosso jovem é bastante semelhante ao filho pródigo - foi para a cidade distante com grande alegria, jubiloso de que iria encontrar a verdadeira felicidade, mas tão logo acabaram suas economias e o "fogo do momento", que se viu obrigado a trabalhar com porcos e até mesmo ser alimentado como um deles. Ou ainda, se posso dar outro exemplo, lembre-se de Judas: provavelmente um homem de meia idade, saudável, responsável pelas ofertas recebidas, participante das atividades juntamente com Cristo e seus discípulos, mas que considerou suas 30 moedas de prata (Mt 26.15) mais valorosas que o "tesouro nos céus" descrito e prometido pelo Senhor.

3. Ele era rico. Você já percebeu: nosso jovem, além de disposto, era rico. Isso é importante para nós, pois a riqueza na vida de um jovem é um faca de dois gumes. De um lado ele tem diante de si toda força, energia e disposição para serem gastas, do outro, uma enorme riqueza que pode lhe trazer sucesso, fama e ainda mais dinheiro. Nosso jovem não cuidou, não raciocinou conforme os mandamentos que Jesus lhe havia dito. Talvez para ele, suas riquezas eram sinônimo da bênção de Deus, pois ao mesmo tempo em que obedecia ao Senhor em todos os mandamentos apresentados, também enriquecia e de nada tinha falta. Mas atente para isso: não nos é informado a quantia de sua riqueza e de que espécie ela era. Talvez nosso jovem tivesse grandes quantias de terra e muitos barcos pesqueiros, ou talvez fosse dono de grandes quantias em moeda, de modo que as comercializava e dali retirava seu lucro. Mas, independente disso, o Senhor lhe disse: "vende tudo o que tens". Aqui, as palavras de Jesus não nos ensinam a vender literalmente tudo o que temos, mas, no entanto, nos alertam para um grande perigo: pode ser que até mesmo suas pequenas moedas estejam lhe fazendo errar o alvo e seguir o caminho largo. Nenhum de nós é como esse jovem rico em sua riqueza, no entanto, todos nós temos alguma riqueza e Cristo nos chama a "vendê-las" e não mais nos apegarmos a elas. Se a presente narrativa se fizesse presente em nossos, talvez Cristo diria: "Venda sua casa luxuosa que lhe traz uma falsa sensação de segurança, compre uma menor, distribua parte do dinheiro entre os pobres e siga-me; venda seu carro da última geração, pois vejo que ele o está levando a largos passos em direção ao inferno, e então, siga-me; venda aquele instrumento musical que tira seu tempo de oração, leitura e até mesmo toma grande quantia de seu dinheiro mensal, e siga-me; largue sua banda que o faz ficar orgulhoso e não ter tempo para mim, e siga-me; deixe seu computador e seu videogame de lado, e siga-me; pare de ser um mau mordomo do tempo que Deus lhe deu, aplique todo ele nas obras do Senhor, e siga-me". Meus queridos, ao escutar essas supostas palavras de Cristo, você resistiu a alguma delas? Talvez você tenha pensado que foram um pouco exageradas. Pois bem, lembre-se que o jovem rico também pensou o mesmo que você. Ele achou que Jesus havia dito algo "muito pesado", difícil de ser digerido, que foi além da prudência racional, que desejou tirar a sua "liberdade" e juventude, que desejou ceifar sua alegria da terra, que quis apenas lhe trazer alguns desprazes, que intentou levá-lo a ser ridicularizado por seus amigos... em meio a esses pensamentos de rebeldia, tema e lembre-se de nosso jovem e de qual foi o seu fim.

4. Ele era pobre. Não, não pense que há contradição. De fato a Bíblia nos revela que o jovem era rico, mas não pense você que Deus via-o dessa maneira - "porque o SENHOR não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração" (1 Sm 16.7). Nosso jovem achava-se que era muito rico, mas Jesus se pronunciou dizendo que era muito pobre. Era muito pobre porque quando admoestado a deixar tudo nesse mundo e seguir a Cristo, teve por bem que suas riquezas eram mais satisfatórias e poderiam comprar um bem maior que a cidade celestial - este jovem era muito pobre. Uma pessoa que não troca suas bijuterias por ouro puro, é alguém muito tolo; aquele que está diante do Mestre e tem à sua frente um "tesouro no céu", mas prefere agarrar-se ao esterco da vida à largar tudo o que julga possuir, é o mais tolo e miserável de todos os homens. Esse jovem trocou a riqueza pela pobreza; a saúde pela doença; a eternidade ao lado de Cristo pela eternidade de tormento; a felicidade pela tristeza; o amor pelo ódio; o tesouro por uma porção de terra. Mesmo o próprio Messias estando diante dele e testificando de que deveria ter poucas posses nessa terra caso quisesse adquirir a maior de todas as riquezas que um homem poderia alcançar, o jovem não captou a mensagem. E você, já a entendeu? Você entendeu que o sentido das palavras de Jesus eram para que o jovem entendesse sua pobreza espiritual, mesmo em face da sua riqueza material? Você compreende que, ou Cristo vem em primeiro lugar na sua vida e você cessa de gastar o tempo nesse mundo com festas, idas inúteis a casas de amigos mundanos (e até mesmo supostos crentes), pára de bisbilhotar a vida de seus amigos na internet (levando-o a quebrar o décimo mandamento [sim, esse mesmo que o jovem rico deveria também cumprir] que diz: "Não cobiçarás a casa do teu próximo... nem coisa alguma do teu próximo" (Êx 20.17)) e dedica sua vida inteira, cada minuto e segundo na obra do Senhor ou em breve você se retirará como nosso jovem, triste, pesaroso, sem mais esperança de ter a vida eterna, tudo porque julgava que as paixões materiais lhe eram mais prazerosas do que o Senhor? Você realmente compreendeu isso?

5. Podemos ser ainda piores que o jovem rico. Se você até aqui tem se identificado com nosso jovem, deixarei abaixo uma exortação a você. No entanto, se você julga estar vivendo de maneira mais superior que nosso jovem, preciso lhe orientar e dizer que talvez você esteja sendo pior do que ele. Observe essas palavras: "E Jesus disse: Não matarás, não cometerás adultério... Disse-lhe o jovem: Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade" (grifo meu). Quem sabe você até aqui se vangloriou e pensou: "Obrigado, Senhor, pois não sou como esse jovem - amo mais a Tua palavra do que as riquezas desse mundo". Porém, o texto de hoje lhe faz uma última pergunta: você tem obedecido aos mandamentos do Senhor? Em nossos dias o professar do cristianismo se tornou algo normal e corriqueiro. Já não é incomum encontrarmos alguém "de repente" e ouvirmos que recentemente passou a frequentar uma igreja ou que iniciou a leitura de um novo livro religioso. Todavia, assim como nosso jovem foi advertido de seu proceder, nós também o somos, pois lemos: "Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus" (Mt 7.21 - grifo). Note a ligação: obedecer aos mandamentos, fazer a vontade de meu Pai e então ter um tesouro nos céus. Você que julgou-se superior ao nosso jovem, avalie em seu coração se fato você pode dizer como ele: "Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade". Você talvez afirmou confiar no Senhor e agradeceu a Ele por não ser semelhante ao jovem, mas você segue os mandamentos? Nosso jovem rico ao menos cumpria todos os mandamentos com relação ao próximo - você o imita ao menos nessa conduta? Sua vida ecoa as palavras do salmista que afirma ter, "o seu prazer na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite" (Sl 1.2)?

Nosso texto de hoje nos mostrou que não há idade para nos afastarmos do Senhor. Até mesmo o mais disposto dos homens da terra pode escutar o Senhor, correr até Ele e ouvir as severas palavras de reprovação. Se há alguém que tem vivido semelhante ao nosso jovem, isto é, achando-se rico, tendo a presunção de que está cumprindo os mandamentos, crê ser um crente fiel e desejoso da vida eterna, mas que na verdade nunca renunciou suas "riquezas" e desejos, lhe digo: olhe para a cruz - sim, para a cruz. Aquela armação grotesca de madeira sustentou o salvador de Seus filhos. A cruz que foi escândalo para os judeus, pode ser vida para você. Não julgue ser tão sábio como nosso jovem achou ser. Não creia, assim como ele fez, que as riquezas desse mundo são mais agradáveis que o tesouro eterno, por favor, não faça isso. Olhe somente para Cristo e deixe essas palavras cravarem em seu coração: "Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruze siga-me" (Mt 16.24). Jesus afirma: é uma cruz, é um peso muitas vezes nada confortável, é doloroso, é difícil, mas é glorioso.

"Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me" (Mt 19.21).

Cristo vos abençoe.
Amém.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Cultos Agradáveis aos Incrédulos


Um amigo me contou o que aconteceu à sua esposa, quando se vestia em determinada manhã. Ele observou que ela abotoou o casaco colocando o primeiro dos botões na segunda casa e assim sucessiva- mente, por treze vezes. Por fim, descobrindo que um dos botões havia sobrado, ela percebeu o que estivera fazendo. “Quantos erros ela tinha cometido?”, ele se perguntou. “Um ou treze? Treze, porque ela tinha co-metido um erro fundamental no começo.”

Este mesmo princípio é verdadeiro no que se refere à adoração: os crentes cometem o erro fundamental de crer que o propósito de reunirem-se aos domingos é a evangelização. Em seguida, os crentes avaliam tudo que compõe nosso culto à luz dos incrédulos que podem estar por acaso em nosso templo ou por terem sido convidados. Nada deve intimidá-los, ameaçá-los ou iludi-los. E, visto que eles não conhecem o sentido das palavras ou as melodias de nossos hinos [1], é recomendável a adoração na forma de cânticos de grupos musicais. O conceito de leitura pública de um livro que desconhecem é totalmente estranho para eles. Portanto, se houver leitura, tem de ser bem curta. Igrejas mudam a Ceia do Senhor para uma reunião particular no domingo pela manhã ou na quarta-feira à noite. As orações devem ser curtas e simplistas, bem como o sermão, que deve abordar assuntos que interessam aos incrédulos, tais como: solidão, maridos ausentes, falta de esperança, falta de contentamento, mágoas, dificuldade de criar adolescentes, e como lidar com tais problemas. A partir desta reunião de domingo, os incrédulos devem sentir-se encorajados a participar de pequenos grupos de estudo e de um curso sobre as doutrinas em que nós cremos. E somos fortemente encorajados a acabar com a forma de adoração a Deus que temos praticado por muitos anos.

No entanto, todas estas idéias mudarão, se cremos que nossa adoração está centralizada em Deus, que se revelou através da Bíblia. Nossa preocupação será agradar este grande Deus. Como devemos nos aproximar dEle? Somente por intermédio do nome do Senhor Jesus Cristo (temos de deixar isso bem claro); somente por meio de seu sangue e sua justiça; depois, com confiança exultante, mas também com reverência e piedoso temor. Quando o Filho de Deus orou, Ele mesmo se ajoelhou na presença do Deus que é fogo consumidor. Se alguém tinha direito de ser informal e casual com seu Pai, este alguém era Jesus de Nazaré. O Senhor Jesus nunca magoou seu Pai, mas se prostrava quando falava com Ele. Tudo o que fazemos e dizemos tem de ser agradável a Deus, ou seja, o Senhor Deus está ciente até do que se passa no íntimo daqueles que ofertam pequenas moedas; Ele se deleita com a alegria que demonstramos na administração de nossos talentos e em tudo o que fazemos. Nosso louvor e orações precisam estar de acordo com as Escrituras, e, acima de tudo, a Palavra pregada tem de servir ao propósito de agradar a Deus, porque o sermão é o aspecto mais importante da adoração, visto que através dele o Criador do universo fala a seres insignificantes. A mensagem, tanto em seu conteúdo quanto em seu significado, deve proporcionar aos in- crédulos que foram atraídos ao culto o conceito exato a respeito de quão glorioso Ser é o Deus vivo — Pai, Filho e Espírito Santo — terrível em seu poder, incomparável em sua glória e extraordinariamente gracioso.

Não existe qualquer indício de que a Igreja tem uma chamada para afagar as emoções dos incrédulos. Os líderes da adoração [2] não podem dizer: “Bem, sabemos que vocês não estão interessados na vida e na morte do Senhor Jesus Cristo. Por isso, temos algo mais para vocês”. Na verdade, não temos algo mais, além de Cristo. Temos de ser absolutamente claros e unânimes sobre isso, na congregação e no púlpito. Se eles não querem nosso Salvador, não podemos substituir a mensagem com maneiras de temperarem seu casamento, assim como não podemos utilizar um culto musical, coreografia ou regras de procedimento, para tornar mais agradável o seu trabalho no escritório, ou oferecer um curso sobre a vida de solteiros. Tudo o que temos a oferecer-lhes é um Profeta que os ensinará, um Cordeiro que removerá a culpa deles e um Pastor que os guiará e os protegerá.

Nossa própria vida tem de ser tão semelhante à de Cristo quanto possível, especialmente quando nos reunimos. Nós nos reunimos para encorajar uns aos outros a viver como imitadores de Deus. Precisamos ser irrepreensíveis em nosso vestir, nossa linguagem, nosso uso do tempo, nossos relacionamentos ou mesmo em nosso humor, a fim de sermos conhecidos como aqueles que desejam agradar o Jeová Jesus em todas as coisas; e nosso evangelismo está fazendo com que o mundo perceba isto e saiba por que cremos nisto. Os incrédulos descobrem que estão na companhia daqueles que têm como objetivo principal o glorificar a Cristo.

Odiamos qualquer coisa que não deixe isto bastante claro para eles; como, por exemplo, uma forma de adoração vazia que não tem qualquer significado. Queremos que nossas palavras sejam cheias de sentimentos e de afeições de temor a Deus. Linguagem popular e simplista é menos importante do que uma linguagem com elementos mais profundos e eficazes. Sempre ficamos comovidos quando as pessoas nos falam, de modo tão amável e trans- parente, a respeito do Salvador e de seu amor por elas, o que demonstra que abandonaram sua maneira frívola e irreverente de falar. Apreciamos muito isso; e trememos no que diz respeito a quaisquer tentativas que insistem em que nossa maneira de expressão no culto deve ser a linguagem comum de nosso dia-a-dia. Essa linguagem pode ser correta para a comunicação corriqueira com os outros, mas não para expressar as maravilhas de tão grande salvação. Se o estilo e a maneira de nos expressarmos, quando nos reunimos na presença de Deus, são aqueles mesmos que os incrédulos ouvem entre eles, no escritório ou em seu ambiente educacional, então, falhamos em alcançá-los. Nós, aqueles a quem o Senhor buscou e salvou, somos sensíveis às verdadeiras necessidades dos incrédulos. Portanto, se empregarmos qualquer coisa vulgar e superficial, estaremos cometendo o pecado de sugerir-lhes uma deidade indigna da atenção deles. Conseqüentemente, nossa adoração tem de ser simples, espiritual, calorosa, reverente, substancial, caracterizada por orações espontâneas, com hinos de mensagem profunda; uma adoração que terá como clímax a pregação expositiva; uma adoração apoiada em formas que rapidamente obtêm familiaridade com o que é divino; então, estes se tornam os melhores meios de conduzir as pessoas a Deus, a quem servimos, e de impedir que a atenção delas se prenda na observação de um pregador engenhoso que lhes esteja falando.

Por Geoffrey Thomas
Imagem: Exemplificando o incrédulo que tem o [suposto] poder de controlar o culto conforme lhe apraz.

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Nota do autor do Blog: [1] Conforme já escrevi (veja as pregações sobre o Cântico de Salmos), o cântico instituído pelo Senhor são os Salmos bíblicos - hinos extrabíblicos não são autorizados por Deus em Seu culto público. [2] Não há como sustentar biblicamente o uso de bandas na Igreja e muito menos a nomenclatura de "líderes de louvor" - pois não há mais levitas específicos, todo os crentes agora o são; não há mais alguém que medie o louvor ao Senhor, pois somos "liras e cítaras vivas" nas mãos de Deus. Como o canto bíblico deve ser a cappella, certamente que não devemos ter qualquer distinção desse cunho, afinal, todos cantam em uníssono, e, portanto, sem a necessidade de "líderes".

quarta-feira, 7 de março de 2012

O que é um Missionário?



“Na igreja que estava em Antioquia havia alguns profetas e doutores, a saber: Barnabé, e Simeão, chamado Níger, e Lúcio, cireneu, e Manaém, que fora criado com Herodes, o tetrarca, e Saulo. E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, jejuando, e orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram” (Atos 13:1-3).

A palavra “missionário” não é usada na Palavra de Deus. Mas este fato não significa que ela seja uma palavra anti bíblica ou não-bíblica. A palavra “trindade” não é usada na Bíblia também. Mas a doutrina da trindade é ensinada explicitamente (1 João 5:7). Um missionário é alguém que é enviado, particularmente alguém que é enviado numa missão. E isto é o que Lucas descreve em Atos 13:1-3. Paulo e Barnabé eram missionários da Igreja em Antioquia, enviados para pregar o evangelho aos gentios.

O termo preciso e bíblico para missionário é “evangelista”. Um evangelista é um arauto do evangelho, um pregador de boas novas. Mas ele não é um pastor ou presbítero. E ele certamente não é um pregador itinerante ou autônomo! Um evangelista é um missionário. Filipe, o evangelista, era um missionário (Atos 21:8). Todos os pastores fazem a obra de um evangelista (2 Timóteo 4:5), mas o nosso Senhor deu alguns à Sua igreja que foram chamados especificamente para serem evangelistas ou missionários (Efésios 4:11), os quais devem ser sustentados e mantidos em sua obra pelas igrejas. 

O que é um missionário?

Primeiro, UM MISSIONÁRIO É UM HOMEM. Nenhuma mulher pode servir como um missionário, não mais do que uma mulher pode servir como um pastor! Deus não chamou mulheres para pregarem o evangelho, nunca! (1 Coríntios 14:35; 1 Timóteo 2:11-12). E ser uma esposa de missionário não faz de uma mulher uma missionária, não mais do que ser uma esposa de pastor faz de uma mulher uma pastora. Deus chama homens para fazer a Sua obra e dirige suas esposas para acompanhá-los. Segundo, UM MISSIONÁRIO É UM HOMEM COM A MENSAGEM DE DEUS. Missionários são pregadores. Se um homem não foi dotado por Deus para pregar o evangelho, não importa quão sincero ele seja, o mesmo não serve como um missionário. E a mensagem que ele prega é, e deve ser, o evangelho da livre e soberana graça de Deus em Cristo, o Substituto do pecador. Terceiro, UM MISSIONÁRIO É UM HOMEM COM A MISSÃO DE DEUS. Ele é um homem chamado e dotado por Deus para estabelecer igrejas, treinar pastores e ajudar para estabelecer aqueles pastores e igrejas no evangelho da graça de Deus, de forma que eles possam continuar a obra do evangelho para as gerações vindouras. “Médicos missionários”, “missionários ligados a questões educacionais”, “missionários ligados a questões culturais” e “missionários ligados a projetos de construção” não são missionários! Missionários são homens enviados ao mundo para pregar o evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, para reunir na colheita os eleitos de Deus espalhados pelo mundo.

Por Don Fortner
Fonte: Monergismo.com

Nota do autor do blog: Apenas saliento que quando o autor diz que as mulheres não foram chamadas para pregar o evangelho, é no sentido da pregação e exposição pública da palavra - pessoas pararem para a ouvir e serem ensinadas. E não que a mulher não deva falar do evangelho no dia-a-dia e para aqueles que estão a sua volta.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Efésios 1.4 (parte 3) - Determinismo Bíblico - Exposição em Efésios - Sermão pregado dia 04.03.2012



Efésios 1.4 (parte 3) - Determinismo Bíblico
Exposição em Efésios - 
Sermão pregado dia 04.03.2012

"Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo" (Ef 1.4 - grifo meu).

As Escrituras são claras: "antes da fundação do mundo". Não há quem possa negar esse termo, seja por vã pretensão ou por ignorância. Mas visto que os homens esquecem-se facilmente daquilo que leem, ouvem e por vezes até mesmo aprendem, o Senhor proveu ainda outros testemunhos de como esse entendimento é de suma importância para a vida cristã:

- "Conhecidas são a Deus, desde o princípio do mundo, todas as suas obras" (At 15.18 - grifo meu).
- "Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo" (Mt 25.34 - grifo meu).
- "Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste antes da fundação do mundo" (Jo 17.24 - grifo meu).
- "O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós" (1 Pe 1.20 - grifo meu).
- "E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo" (Ap 13.8 - grifo meu).

Quando a Bíblia declara a sentença que estamos vendo, de modo algum ela pretende ser abstrata ou uma mera conjectura do que pudesse ser a realidade. Homem algum tem o direito ou poder de dar outra interpretação àquela mesma fornecida pela Escritura, isto é, de que mesmo antes da fundação do mundo o Senhor já havia decretado invariavelmente todas as coisas que haveriam e deixariam de acontecer. Um Deus soberano não poderia decretar o Seu querer e simplesmente aguardar passivamente a atitude de seus criados. Um Deus soberano não poderia dar vida à uma massa caótica e em seguida iniciar o seu descanso sabático. A soberania de Deus não poderia ser passiva de controvérsia ou rebeldia humana, pois tal feito anularia Seu pleno poder e decretos eternos. Por isso é que na teologia bíblica e verdadeira se diz crer no chamado determinismo bíblico.

Enfatizo o bíblico porque muitos homens incautos têm ultrajado essa bela e magnífica doutrina legada pelo Senhor a todos os Seus santos, levando muitos a crer num mero fatalismo sob o pretexto de "o que quer que deva ocorrer, certamente ocorrerá, por isso não faremos coisa alguma". O determinismo bíblico é o entendimento de que nada que nos vem nesse mundo ou deixa de ocorrer, escapa à mão soberana e completa do Senhor - os pássaros nascem por ordem decretada pelo Senhor, antes da fundação do mundo; os rios deságuam no mar, e, contudo, ele não se enche - por meio do decreto divino; os animais procuram e encontram comida em meio à terra seca, devido ao decreto do Senhor; a natureza reúne suas nuvens e trovões e desgarra sua força sobre a terra, pois assim foi do agrado do Senhor; o infante que nasce com algum problema genético incurável, nasce sob a soberania plena de Deus; até mesmo a mais forte e equipada aeronave cai sobre o mar com a determinação de Deus -, contudo, também tem muito firme em seu corpo de doutrina que apesar do Senhor ter-nos ensinado que todos os eventos - tanto bons como maus - ocorrem por Seu firme propósito, Ele também nos ensinou que somos responsáveis por nossos atos. O homem é responsável e instruído a não construir sua casa em barrancos que podem escorregar, o construtor de navios deve ter toda cautela e prudência ao fixar as juntas e soldá-las ao casco do navio, o atirador de elite tem o dever de ser bem treinado a fim de executar o malfeitor e não a vítima. Já para o determinismo fatalista, embora ecoe nosso primeiro ponto, nega veementemente o segundo, isto é, crê na soberania plena de Deus, mas dispensa a responsabilidade humana, pois diz ser contraditório afirmar que Deus ordena todos os feitos e ao mesmo tempo nos tornarmos responsáveis diante d'Ele.

Quando falamos em determinismo bíblico, precisamos ter muito claro em nossos corações que o Senhor não é homem para que fale falsidades: "Deus não é homem, para que minta; nem filho do homem, para que se arrependa; porventura diria ele, e não o faria? Ou falaria, e não o confirmaria?" (Nm 23.19); nem tampouco é inconstante em Seus feitos: "Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação" (Tg 1.17 - grifo meu). A Bíblia claramente nos ensina que não há nada que se faça debaixo do sol que não tenha sido previamente determinado pela vontade secreta e soberana do Senhor. Por algum motivo - que nos é desconhecido - o Senhor teve por bem decretar absolutamente tudo o que iria acontecer aos homens. Para o Senhor, o tempo não é marcado em séculos, décadas, anos, meses, horas, minutos ou segundos, mas sim por uma determinação que se estende até o final do universo. Deixe-me explicar melhor:

O Eterno não controla o universo por meio da presciência, pois isso seria dizer que o Senhor criou o universo, colocou o homem, "congelou" a criação, isto é, fez com que tudo cessasse de funcionar sobre a terra e então apertou "play" para ter uma prévia do que aconteceria: viu então que o homem estava no jardim, nomeava os animais e com eles interagia, mas, de repente viu que o homem estava sozinho; pensou então o Senhor: "Não é bom que o homem esteja só" - apertou "stop" e resolveu que também deveria criar uma mulher, pois conseguiu visualizar que no futuro, caso o homem estivesse sozinho, não lhe seria benéfico tal situação. Ora, não é preciso se alongar em tal exemplo simplório, pois se o Senhor raciocinasse dessa forma, Ele seria a menor criatura de todo o universo, não sendo sequer capaz de ordenar e orquestrar de forma plenamente correta e adequada aquilo que Ele mesmo criara. Se Deus não houvesse determinado cada momento de nossas vidas, seria o mesmo que ao dar vida a uma invenção, não saber como colocá-la para funcionar. O determinismo está de mãos dadas com a total soberania do Senhor. Determinar os acontecimentos no mundo é um desdobramento natural da essência pura, santa e plenamente capaz do Senhor, pois se n'Ele reside toda sabedoria, quem melhor para arquitetar tudo o que se passa conosco e com a natureza?

No entanto, reconheço que o determinismo está sujeito a ofender muitas pessoas, pois um dos primeiros pensamentos que lhes veem a mente é: "Então quer dizer que tudo o que eu faço é porque Deus quis que eu fizesse?". Respondo: Exatamente. "Então até mesmo o meu pecado está dentro dos decretos divinos?". Respondo novamente: Certamente. Porém, ressalvo usando as palavras de Paulo: "Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde? De modo nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?" (Rm 6.1,2). Ou seja, já nos é claro que temos nossa responsabilidade diante do Senhor, que devemos buscar viver uma vida santa e piedosa diante do Altíssimo, que o pecado habita em nós e que temos o dever de dominá-lo pelas forças dadas mediante o Senhor - "Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar" (Gn 4.7) -, que conforme também lemos no relato de Gênesis, o pecado foi fruto da maldade humana e rebeldia contra o Senhor; ainda que tudo isso estivesse nos Seus planos eternos e insondáveis. É dado a esse fato de ambas as doutrinas serem apresentadas na Bíblia que devemos compreender que: precisamos orar, planejar e executar tudo nessa vida como se dependêssemos de nós mesmos, sabendo, contudo, que tudo depende de Deus (Rm 11.36). Isto é, a determinação eterna do Senhor não nos deve ser desculpa para não realizar as suas ordenanças nesse mundo, ao mesmo tempo que quando as executamos, não devemos nos esquecer de que é Ele quem efetua em nós tanto o querer como o realizar (Fp 2.13).

"Porque quem compreendeu a mente do Senhor? ou quem foi seu conselheiro?" (Rm 11.34). Paulo é enfático ao fazer a pergunta retórica aos romanos. Paulo questiona-lhes acerca de que vã pretensão o homem poderia  partir para questionar os intentos de Deus. O apóstolo indaga aos romanos: "Quem foi seu conselheiro?" - quer dizer, quem de vós esteve junto na eternidade e definiu e traços planos juntamente com o Deus trino? Qual dentre vós desejou sobrepujar a sabedoria divina, santa e imaculada do Senhor, a ponto de querer Lhe orientar sobre como os eventos deveriam ser regidos? "Porque, quem conheceu a mente do Senhor, para que possa instruí-lo?" (1 Co 2.16). Não há homem nessa terra que saiba o que o Senhor tem planejado desde os tempos primórdios. As perguntas de Paulo são por demais claras para nós: não há ninguém que possa conhecer a vontade secreta do Senhor; e mais: não há ninguém que possa mudar tal vontade.

Devemos ser francos conosco mesmos e admitirmos: "O profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!" (Rm 11.33). E também: "E quão preciosos me são, ó Deus, os teus pensamentos! Quão grandes são as somas deles!" (Sl 139.17). Não sabemos o que porquê do Senhor haver decretado todas as coisas nesse mundo e ao mesmo tempo ter dito que somos responsáveis por elas. Não entendemos como pode ter sido Adão um homem livre e ao mesmo tempo escravo da determinação de Deus. Não compreendemos como podemos dominar o pecado e ao mesmo tempo ter a ciência de que todas as coisas acontecem por meio do decreto de Deus. Simplesmente não sabemos, não nos "entra" na mente essa aparente dualidade conflitante de doutrinas; e essa  é, portanto, uma das razões porque devemos rejeitar um racionalismo demasiado, isto é, buscar compreender todas as coisas por meio da mera razão, pois se assim procedermos, estaremos negando que o pecado corrompeu até mesmo a razão e lógica humana. Em nosso ser decaído e  manchado pelo pecado, não conseguimos adentrar a mente divina e captarmos o sentido de tudo o que faz, no entanto, como já temos visto, o apóstolo Paulo nos diz que o Senhor já "nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo" (Ef 1.3), ensinando-nos de que mesmo contra nossa lógica e argumentação, o Senhor decretou que havemos de ser grandemente abençoados por nossa união salvífica em Cristo, afinal, "todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito" (Rm 8.28).

Alguns argumentam que no Senhor não reside qualquer determinismo, pois segundo pensam, o seguinte versículo - "Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também" (Jo 5.17) - abona a ideia de que o Senhor ainda "trabalha", ainda está executando seus propósitos de acordo com o que a situação requer. Ainda que tal argumento seja parcialmente válido, o intento dessas palavras santas de Jesus são de que, apesar de ter criado o mundo, não o deixou (o mundo) livre para para ver o que acontecia, mas sim que, além da criação, também nos proveu o Seu sustento, de forma a entendermos que o Senhor trabalha até agora em nossa providência e bênção, mas jamais como intentando nos dizer que o Senhor está trabalhando hoje sem que isso tenha sido decretado na eternidade. Deus trabalha pelos Seus, mas nunca baseado na situação momentânea, e sim tão somente devido ao Seu próprio decreto eterno ter firmado que dia-a-dia nos susteria mediante Sua mão graciosa.

Diante disso nos perguntamos qual vem a ser a validade e bênçãos que decorrem dum decreto estabelecido desde a eternidade e que certamente não falhou, falha ou falhará nos tempos vindouros.

Em primeiro lugar, o determinismo bíblico nos ensina a confiar na mão poderosa do Senhor e render-Lhe glórias e louvores por tudo o que temos recebido, pois não há nada melhor do que confiar em Sua onipotência, afinal, quem é tão grande e excelso em poder a ponto de poder afirmar que "até mesmo os cabelos da vossa cabeça estão todos contados" (Mt 10.30) e que por isso nos diz, "Não temais, pois"?

Em segundo lugar, o determinismo bíblico instrui-nos a não confiar em nossas próprias forças, pois apesar de termos de lutar contra toda adversidade, tentação e pecado presente em nossas vidas, o Senhor nos instruiu: "Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer" (Jo 15.5 - grifo meu). Nosso bom mestre nos ensina que devemos estar firmemente arraigados n'Ele, presos, unidos, alicerçados na Sua palavra e em Sua justiça, pois Ele é a videira, Ele é o canal principal, a fonte que possui as raízes para nos nutrir e dar o devido crescimento - A glória do fruto não está em si mesmo, mas naquele em que está firmado.

Em terceiro lugar, o determinismo bíblico nos ensina a baixar nossas cabeças e ser reverentes diante do Senhor: "Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu estás sobre a terra; assim sejam poucas as tuas palavras" (Ec 5.2). O autor é claro: " porque Deus está nos céus, e tu estás sobre a terra". Como constantemente nos esquecemos dessa realidade e queremos contender com o Senhor sobre os "porquês" de Suas obras e os motivos de muitas vezes não nos ter sustentado da maneira como achávamos que deveria ter operado! Jó quis argumentar com o Senhor, mas em vez de fazer sua sustentação oral e persuadir o Eterno, ouviu-O diretamente dizer: "Onde estavas tu, quando eu fundava a terra? Faze-mo saber, se tens inteligência" (Jó 38.4).

Por fim, o determinismo bíblico deve-nos estimular a oração, vida santa, evangelismo e tudo o mais quanto o Senhor requer de Seus filhos. A determinação eterna de Deus dever-nos-ia impulsionar na oração, pois embora não saibamos como orar, deixou registrado: "E da mesma maneira também o Espírito ajuda as nossas fraquezas; porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis" (Rm 8.26) - ainda que sejamos falhos em nossas orações, a certeza de que tudo é ordenado por Deus necessita nos fazer alegres por saber que até mesmo em nossas fraquezas o Senhor está conosco. Do mesmo modo, o determinismo também precisa nos carregar à uma vida santa diante do altar do Senhor, pois mesmo diante de tantos percalços e vicissitudes da vida, temos a certeza de que o Senhor guiará todos os Seus filhos rumo à vida eterna: "Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo" (Fp 1.6) - mas essa não é uma promessa na qual devamos descansar de braços cruzados e vivermos de maneira devassa, e sim que apesar de estarmos na labuta pelo reino dos céus e pecarmos por diversas vezes, o Senhor nos leva ao arrependimento sincero e nos moldará gradativamente à estatura do varão perfeito (Ef 4.13). Assim também acontece no evangelismo, pois, embora devamos nos esforçar e nos preparar para apresentar a mensagem do evangelho com a mais firme e fiel postura, fazendo uso das melhores palavras a fim de persuadir os homens, o próprio apóstolo nos exorta dizendo que não são as palavras que convencem o homem do pecado, mas o poder do Espírito Santo e soberano do Senhor: "E eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não fui com sublimidade de palavras ou de sabedoria... A minha palavra, e a minha pregação, não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder" (1 Co 2.1,4).

Amém.

sábado, 3 de março de 2012

Santidade - Sem a Qual Ninguém Verá o Senhor


O pecado é a transgressão da lei. 
1 João 3.4 

Aquele que desejar ter pontos de vista corretos sobre a santidade cristã terá de começar examinando o vasto e solene assunto do pecado. Terá de cavar bem fundo, se quiser construir um edifício bem alto. Um equívoco quanto a esse particular é extremamente prejudicial. Conceitos errôneos sobre a santidade geralmente advêm de idéias distorcidas quanto à corrupção humana. Não me desculpo por começar estes estudos acerca da santidade com algumas firmes declarações a respeito do pecado. A verdade absoluta é que o correto conhecimento do pecado jaz à raiz de todo o cristianismo salvífico. Sem ele, doutrinas como justificação, conversão e santificação serão apenas “palavras e nomes” que não transmitem qualquer sentido à nossa mente. Portanto, a primeira coisa que Deus faz quando quer tornar alguém em uma nova criatura em Cristo é iluminar-lhe o coração, mostrando-lhe que ele é um pecador culpado. A criação material, segundo o livro de Gênesis, começou com a “luz”;isso também acontece no caso da criação espiritual. Deus mesmo “resplandeceu em nosso coração” mediante a obra do Espírito Santo, e então, a vida espiritual teve seu início (2 Co. 4.6). Pontos de vista mal definidos acerca do pecado são a origem da maioria dos erros, das heresias e das doutrinas falsas de nossos dias. Se um homem não percebe a natureza perigosa da doença de sua alma,ninguém poderá admirar-se de que ele se contente com remédios falsos ou imperfeitos. Acredito que uma das principais necessidades da igreja, neste nosso século, tem sido e continua sendo um ensino mais claro e completo sobre o pecado.

Por J. C. Ryle

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