sexta-feira, 19 de julho de 2013

O cristão pode ser um 'modelo' da moda?


Antes de tudo, esta breve reflexão não tem por intento atacar qualquer pessoa em específica, embora seja motivada por uma situação real. Faço esta ressalva, de modo que ninguém credite intensão alheia ao que me propus. O objetivo é somente um: verificar, se de acordo com 1Co 10.31 - "Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus" -, é possível ser um modelo para a glória de Deus.

É preciso notar um ponto sumário: "Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?" (Jr 17.9). Terríveis coisas maquinamos em nosso coração, de maneira que precisamos ser cuidadosos em nossos apontamentos, a fim de não extravasarmos o ideal bíblico e inferirmos erroneamente sobre o próximo.

Para se entender sobre a licitude ou não de um cristão ser participante no mundo da moda, figurando como "modelo", algumas proposições precisam ser lançadas. Não são afirmações, somente perguntas, para que o leitor, por si mesmo e mediante as Escrituras, chegue à correta conclusão. São elas:

1. A Bíblia nos diz: "A candeia do corpo é o olho. Sendo, pois, o teu olho simples, também todo o teu corpo será luminoso; mas, se for mau, também o teu corpo será tenebroso" (Lc 11.34). Diante disso, precisamos nos perguntar: qual a motivação para alguém desejar ser "modelo"? Seria, porventura, o desejo de ser olhado, cobiçado e quase que venerado por sua forma ou peculiaridade física? Nos homens, ser visto por causa de algum traço marcante e na mulher devido às formas corporais? Seria lícito levar inúmeras pessoas a serem tentadas?

2. Está escrito: "Enganosa é a beleza e vã a formosura, mas a mulher que teme ao SENHOR, essa sim será louvada" (Pv 31.30). Quais são as intenções do coração de um aspirante ou já "modelo"? Acaso seria fixar-se na enganosa beleza e vã formosura, as quais passam apressadamente? Acaso os pressupostos da "moda" não são a exaltação do corpo, em detrimento do coração?

3. "O solteiro cuida das coisas do Senhor, em como há de agradar ao Senhor; Mas o que é casado cuida das coisas do mundo, em como há de agradar à mulher. Há diferença entre a mulher casada e a virgem. A solteira cuida das coisas do Senhor para ser santa, tanto no corpo como no espírito; porém, a casada cuida das coisas do mundo, em como há de agradar ao marido" (1Co 7.32-24 - grifos acrescentados). A Palavra de Deus prescreve que tanto homem como a mulher, sendo solteiros ou casados, possuem pontos importantes a serem praticados e tudo diz respeito ao Senhor. Todavia, Deus preceitua (enfatizando o lado feminino, mas não descartando o masculino) que a mulher deve ser "santa, tanto no corpo como no espírito". Poderia, então, alguém figurar de "modelo" sem violar o aspecto bíblico de que o corpo pertence somente ao Senhor e ao cônjuge? Como seria possível vestir-se adequadamente segundo os padrões bíblicos? (Acerca das vestimentas, clique aqui para ler um estudo sobre a modéstia cristã no vestir.)

4. "Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo" (Êx 20.17). Toda afirmação contém, em si mesma, a negativa daquilo que afirma, isto é, ao se afirmar alguma coisa, tudo o que é contrário é implicitamente proibido. Seria plausível alguém ser modelo e não ser alvo de cobiça? Bem é verdade que não se cobiça apenas os/as "modelos", mas esta profissão não inclui uma exacerbação deste pecado? O que é levado em conta nesta profissão: a estética ou a lealdade ao Senhor e um espírito santo?

5. "Não dirás falso testemunho contra o teu próximo" (Êx 20.16). Este puro mandamento do Senhor não inclui somente a mentira objetiva, e sim proíbe toda sorte de maledicências que visem ludibriar o alheio, levando outrem a ser persuadido de algo que não é verdadeiro. Quantas pessoas conhecemos que são atraídas à luxúria e glamour devido às propagandas? Quantos são levados à falsa sensação de que são "feios", "gordos", "magros" ou qualquer outro adjetivo por causa da indústria da moda? Quantas mulheres se sentem "deprimidas" porque não possuem o corpo idealizado pelos preponentes da moda?

Diante disso, caro leitor, algumas respostas podem ser dadas e você mesmo pode aferir quais são. 

Desta forma, compreendemos não ser pecado tirar fotos (todos nós tiramos, não é mesmo?) ou vestir uma roupa para que alguém veja se ela está no tamanho correto (alguém do mesmo sexo ou o cônjuge). Até mesmo não é pecado tirar fotos para algum catálogo com roupas modestas e de acordo com os princípios da Escritura (leia o estudo acima elencado). A questão que estamos tratando é da não licitude de se desfilar (salvo se você puder fornecer justa e adequada razão sobre como isso glorifica a Deus - me escreva, por favor, pois posso estar errado), vestir roupas que marquem o corpo e, literalmente, se fantasiar para agradar os olhos da carne.

Talvez alguém exclame: "Mas, se a 'moda' acabar e os/as 'modelos' cessarem suas carreiras, a economia entrará em colapso e muitas pessoas estarão desempregadas!". Responderei triplamente: a uma, que não é verdade que a economia entrará em declínio; a duas, que a moda é passageira e podemos fazer algo melhor que este mercado pervertido; a três, que é falaciosa a ideia de que ficarão sem emprego, pois existem muitas outras frentes de trabalho.

Possamos, segundo a graça de Deus, prosseguir no ideal bíblico, sem, contudo, esmagar a cana quebrada e apagar o pavio que fumega (Mt 12.20 - donde aprendemos a ser gentis e buscar a restauração, em vez da destruição): "Mais importa obedecer a Deus do que aos homens" (At 5.29).

Que Deus nos abençoe e leve Seu povo a uma vida cada vez mais santa.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Por Que a Mulher Adúltera Não Morreu?


Citamos o exemplo do adultério e sua respectiva pena com a morte, pois frequentemente há uma noção errada de sua não validade no Novo Testamento.

"Também o homem que adulterar com a mulher de outro, havendo adulterado com a mulher do seu próximo, certamente morrerá o adúltero e a adúltera" (Lv 20.10). Não somente o adultério era condenado à pena capital, mas também o assassinato (Êx 21.12), sequestro (Êx 21.16), ter relação sexual com animais (Êx 22.19), homossexualismo (Lv 20.13), ser um falso profeta (Dt 13.5), prostituição e estupro (Dt 22.26). Aqui, já de imediato, pontuamos sobre a importância de se reconhecer que a pena de morte na Bíblia nunca visou incitar o ódio e "alegria" por ver a morte alheia, mas sim a preservação da vida. Ao se punir o malfeitor da sociedade, algo fica clarividente aos demais: não se deve cometer aquele mesmo ato, caso contrário poder-se-á também ser punido. A pena capital, portanto, tem duplo sentido: punir o ofensor e alertar os demais para que não procedam de tal modo.

Paulo, em Romanos 13.1-8 (veremos mais minuciosamente, adiante), afirma que de fato as autoridades civis podem e devem executar tais pessoas – não pelo desejo de sangue, mas de justiça e autorização divina para tal. O apóstolo também deixou este ponto claro ao declarar que ele mesmo estava disposto a sofrer tal sanção penal, caso fosse verdadeiramente culpado: "Se fiz algum agravo, ou cometi alguma coisa digna de morte, não recuso morrer; mas, se nada há das coisas de que estes me acusam, ninguém me pode entregar a eles; apelo para César" (At 25.11 - grifo do autor).

Muitos estranham o fato de se punir um adúltero com a morte, mas poucas pessoas sabem que até o ano de 2005, nosso ordenamento jurídico contemplava o adultério como crime. Isto mesmo, cometer adultério era crime e resultava em possível detenção (ainda que ínfima) de 15 dias até 6 meses. Todavia, este artigo foi revogado pela Lei nº 11.106, de 2005 – fazendo com que tal prática entrasse na "adequação social", isto é, deixou de ser crime por passar a ser considerado, "normal".

Ainda há aqueles que desconhecem que nosso Código Penal Militar (apenas para exemplificar como ainda estes desvios morais são punidos), no seu artigo 235, prevê a sanção de detenção de 6 meses a 1 ano por quem pratique pederastia (práticas homossexuais): "Pederastia ou outro ato de libidinagem - Praticar, ou permitir o militar que com ele se pratique ato libidinoso, homossexual ou não, em lugar sujeito a administração militar".

Precisamos informar que nosso país também adota a pena de morte, ainda que não seja muito divulgada e em apenas caso de guerra (traição, espionagem, roubo...).

Lê-se, assim, na Constituição Federal:

"Art. 5º (...)
- XLVII - não haverá penas:
a) de morte, salvo em caso de guerra declarada, nos termos do art. 84, XIX (...)"

Nosso Código Penal Militar complementa:

"Art. 55. As penas principais são:
a) morte (...)
Art. 56. A pena de morte é executada por fuzilamento."

Deste modo, se depreende que a pena de morte pelo adultério, bem como demais situações acima descritas, não é de toda alienígena, afinal, em nosso próprio país ainda temos certas sanções por fatos desta natureza.

Por prezarmos pelo princípio da unidade das Escrituras, não podemos colocar a palavra do Senhor contra Ele mesmo, ou seja, se no Antigo Testamento havia a penalidade e o pagamento respectivo com a própria vida (o que não excluía a salvação; lembremos do ladrão da cruz que, apesar de morto, foi salvo – Lc 23.39-43) e o próprio apóstolo concordou com tal lei aplicada pelos romanos, então, antes de recusarmos a Lei de Deus, devemos – no mínimo – procurar algum ensinamento bíblico que nos diga o contrário.

Muitos procuram driblar o ensino do Antigo Testamento contra a pena de morte e frequentemente citam o caso da mulher adúltera trazida até Jesus, buscando solucionar o problema e afirmar que, sob a égide de Cristo, não há mais morte: "E os escribas e fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério; E, pondo-a no meio, disseram-lhe: Mestre, esta mulher foi apanhada, no próprio ato, adulterando. E na lei nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes? Isto diziam eles, tentando-o, para que tivessem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia com o dedo na terra. E, como insistissem, perguntando-lhe, endireitou-se, e disse-lhes: Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela. E, tornando a inclinar-se, escrevia na terra. Quando ouviram isto, redargüidos da consciência, saíram um a um, a começar pelos mais velhos até aos últimos; ficou só Jesus e a mulher que estava no meio. E, endireitando-se Jesus, e não vendo ninguém mais do que a mulher, disse-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? E ela disse: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais. Falou-lhes, pois, Jesus outra vez, dizendo: Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida" (Jo 8.3-12).

Embora o presente relato possa nos ensinar muitas coisas, uma certamente não nos ensina: a abolição da pena de morte.

Notemos como o ocorrido difere do mandamento específico de Deus do Antigo Testamento, pois onde estava o homem pego juntamente com a mulher? Levítico 20.10 prescrevia que "morrerá o adúltero e a adúltera". Os escribas agiram de modo parcialmente correto, pois a adúltera havia sido pega - "esta mulher foi apanhada, no próprio ato, adulterando", disseram eles. Porém, em um julgamento parcial e de acordo com seus próprios interesses, os escribas e fariseus (recorde quantas vezes o Senhor os censurou durante Seu ministério) tentaram persuadir a Jesus e colocá-lO em uma situação aparentemente sem saída, pois Lhe trouxeram somente a mulher; ao passo que Cristo agiu de acordo com a reta justiça e não violou de modo algum a Lei, pois seria uma desobediência à Lei o condenar a mulher e não assim o fazer com o homem – pois Ele não poderia tropeçar em qualquer ponto da mesma, "Porque qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos" (Tg 2.10). Ademais, como se verá nos próximos capítulos, Cristo não era um magistrado da época e, portanto, não era investido de poder para decretar a morte de outrem.

Por: Filipe Luiz C. Machado
Fonte: Armas, Defesa Pessoal e a Bíblia, págs. 35-39
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quarta-feira, 17 de julho de 2013

Deus e o Livre-Arbítrio


Não devemos nos deixar influenciar preconceituosamente pela ideia NÃO bíblica, mas popular, de que Deus nunca predestina as nossas decisões livres. 

Como seria possível que tamanho envolvimento divino na nossa vida não acabasse por influenciar profundamente as nossas decisões? Deus nos fez, por dentro e por fora. Para nos fazer como somos, Ele precisou controlar a nossa hereditariedade. Assim sendo, ele nos deu os pais que temos, e os seus pais e os pais deles. E para nos dar nossos pais, Deus precisou controlar muitas de suas decisões livres (como a decisão 'livre' dos pais de Jeremias em se casarem) e os seus pais e avós, etc. 

Além disso, vimos que Deus nos colocou no nosso ambiente, em situações que requerem de nós certas decisões. Ele decide quanto tempo iremos viver e faz acontecer nossos sucessos e fracassos, mesmo que esses acontecimentos dependam habitualmente de nossas livres decisões, em acréscimo a fatores externos. Visto que Deus havia planejado levar José ao Egito, e os seus irmãos não estavam, num sentido importante, livres para o matar, mesmo tendo a certa altura planejado faze-lo. Golias também não podia matar Davi, nem Jeremias poderia não ter existido. Os soldados romanos também não poderiam quebrar as pernas de Jesus quando ele estava pendurado naquela cruz, pois os profetas de Deus haviam declarado algo diferente.

As Escrituras nos ensinam diretamente que Deus causa nossas livres decisões. E não somente predestina o que acontece conosco, como também o que escolhemos fazer. A origem da decisão humana é o coração (Lc 6:45). Porem este coração está sobre o controle de Deus: "Como ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do Senhor; este, segundo o SEU querer, o inclina" (Pv 21:1). É isso que Deus fez como Ciro. Isso também é o que ele fez com Faraó do Êxodo (Rm 9:17; Êx 9:16). 

(...)

Deus controla as nossas decisões e atitudes livres, predizendo frequentemente essas decisões muito antes de acontecerem. Durante o exílio, Deus "fez" um chefe oficial babilônico, "conceder a Daniel misericórdia e compreensão" (Dn 1:9). Depois do exílio, o Senhor "os tinha alegrado, mudado o coração do rei da Assíria a favor deles (Israel)" (Ed 6:22). Frequentemente, e por vezes muito antes de o acontecimento ocorrer, Deus nos diz o que um ser humano decidirá livremente o que vai fazer. O ponto aqui NÃO é meramente que Deus tem conhecimento antecipado de um acontecimento, mas que Ele está cumprindo o Seu propósito por meio dele.

- por John Frame
Retirado de: Não há outro Deus
Fonte: Cinco Solas

terça-feira, 16 de julho de 2013

O Mal dos Males ou A Excessiva Pecaminosidade do Pecado


"
Pois isso preferes à tua miséria
" (Jó 36.21b).
CAPÍTULO 1
É um verdadeiro mal escolher o pecado em vez da aflição.
Nessas palavras Eliú está lançando um falso desafio contra o santo Jó, com o qual de forma vergonhosa escandalizou esse homem de Deus, em relação ao qual o próprio Deus dá em sua carta um testemunho no sentido de que ele era homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal (Jó 1.1). E Eliú ainda afirma que Jó escolheu a iniquidade em vez da aflição; que ele via menos mal no pecado do que na aflição; que por sua aflição ele era perturbado, mas por seu pecado não era afligido; que o fardo da sua aflição pesava sobre ele como um talento de chumbo, mas o seu pecado era mais leve que uma pluma. Ou então, “você tem escolhido a iniquidade em vez da aflição, ao passo que Deus exige que você o glorifique em sua humilde submissão a Ele em ser paciente sob a Sua poderosa mão. Você tem se comportado de forma obstinada e contumaz, e tem se negado a dar a Deus a glória da Sua soberania, majestade, santidade, justiça e pureza; e você tem escolhido isso em vez de estar contente em repousar sob a aflição oriunda da mão de Deus”.
De qualquer modo, o desafio foi lançado; e foi um pesado desafio e também verdadeiro em princípio. De tal modo que, se ele for alegado contra qualquer alma, que ela escolhe a iniquidade em vez da aflição, é um grande e pesado desafio.
A verdade doutrinária que surge das palavras do texto é a seguinte: Que é um verdadeiro mal que qualquer alma escolha o menor pecado em vez de escolher a maior aflição. Melhor é estar sob a maior aflição do que sob a culpa ou o poder de algum pecado. É verdade que nem o pecado nem a aflição devem ser escolhidos. A aflição em si mesma é um mal, e o pecado é um mal, porém, o objeto da vontade é bom e a escolha é da vontade. Por isso, nenhum (dificilmente considerados em si mesmos) pode ser escolhido; mas, por causa de alguns males, o menor em comparação com o maior pode trazer uma noção do que é bom, e então pode ser escolhido em algumas ocasiões. A vontade não pode escolher coisa alguma mas, sob a noção de bem, seja real ou aparentemente; e, embora a aflição seja em si mesma um mal, ainda em consideração do pecado, pode trazer a noção de bem, e deve ser escolhida em vez do pecado. Agora essa é a obra que eu tenho de fazer, levar essa conclusão a você: que qualquer aflição deve ser escolhida em vez de qualquer pecado; que existe mais mal em qualquer pecado, no menor pecado, do que na maior aflição.
Meu principal objetivo é desafiar as consciências dos homens com o mal do seu pecado e mostrar-lhes como existe um grande mal no pecado. Todos os homens são amedrontados pelas aflições e perturbados por elas, mas onde está o homem ou a mulher que teme o pecado e foge dele como de uma serpente, e é perturbado pelo pecado mais do que por qualquer aflição? Que há mais vileza no pecado do que na aflição, em geral (eu suponho), é garantido por tudo. Ninguém pode negar isso; mas, porque eles não podem ver como é isso, eles não são convencidos por argumentos para trazer essa verdade às suas almas com poder. Mas eu espero, diante do que tenho feito com esse ponto, que eu possa tornar claro à consciência de todas as pessoas. Há mais mal no pecado do que em todos os problemas visíveis do mundo; mais mal no pecado do que em todas as misérias e tormentos do próprio inferno.
Suponha que Deus leve qualquer de vocês à beira daquele abismo sem fundo e o abra diante de você, e ali veja aquelas criaturas amaldiçoadas desfalecendo sob a ira do Deus infinito, e ali você possa ouvir terríveis e hediondos choros e gritos estridentes daqueles que estão sob tal espanto de alma e afundando em tormentos sob a ira do Todo-Poderoso. No entanto, eu digo, existe mais mal em um pensamento pecaminoso do que em todas essas chamas eternas, e eu devo me esforçar para deixar claro e provar à consciência de todo homem, que escolher o pecado em vez da aflição não apenas é uma escolha doentia, mas também (se isso é uma competição) escolher o pecado em vez de todas as torturas e tormentos do inferno. Porém, muitos de vocês dão ao pecado termos muito fáceis. Ainda, a verdade é que, se se deve estabelecer uma competição, suportaríamos todos os tormentos do inferno por toda a eternidade em vez de cometer um único pecado. Eu digo que, se nossos espíritos estivessem como deveriam estar, preferiríamos estar dispostos a suportar todos esses tormentos a cometer o menor pecado.
E, irmãos, não pensem que isso é um alto esforço, pois eu que falo em nome de Deus não o faço por meio de hipérbole, para despertar expressões mais altas do que essas coisas são na realidade. Não, eu não venho com esse objetivo, e tomaria o nome de Deus em vão se assim fizesse. Portanto, não me atrevo a sustentar as coisas além do que elas realmente são. Por conseguinte, saibam, tudo o que eu vos disse a este respeito não é apenas em palavras ou expressões, mas falo como em nome de Deus, como se eu estivesse falando à minha própria consciência, tendo que lidar com Deus e vocês nessa grande obra, e nesse lugar entregar essa verdade, que há mais mal no menor pecado do que em todas as misérias que uma criatura é capaz de suportar, aqui ou no inferno. Espero que ao fazer isso, você então acredite que ainda não tem compreendido a pecaminosidade do pecado, para que o peso do pecado não seja colocado sobre você. Agora, para que possa convencê-lo plenamente, há mais mal no menor pecado do que em qualquer aflição.”

- por 
Jeremiah Burroughs (1600-1646)
Fonte: IPRBSP

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Veja os vídeos da 1ª Conferência Reforma Hoje!


Amados, segue o link para visualização de 4 palestras proferidas na 1ª Conferência Reforma Hoje, realizada dia 13 de julho em Blumenau, SC. 

A Conferência foi uma realização da Igreja Cristã Reformada de Blumenau, em união com Igreja Puritana Reforma no Brasil.

Em breve postarei os áudios para download.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

O Calvinismo e a Ética


“Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus” (I Cor 10:31).

1- DEFININDO TERMOS:

Muitos não sabem, mas a ÉTICA é um objeto de estudo específico da FILOSOFIA. Não é da psicologia, não é da antropologia, não é da Sociologia, nem de qualquer outra área do saber. Esse é um tema indispensável dentro do estudo de qualquer cosmovisão.

Existe muita confusão acerca do que vem a ser Ética. Até mesmo os dicionários acabam por confundir Ética com Moral e Moral com Ética. De forma que não é raro você estar lendo um verbete sobre Ética, mas seu conteúdo trata sobre moral. Isso acontece exatamente por conta do distanciamento que temos com a Filosofia. Isso só não ocorre em dicionários técnicos de Filosofia ou ainda algum de renome e tradição mundial.

Mas, em síntese: o que Ética e o que é Moral?

A palavra ÉTICA vem do grego ÉTHOS. E a palavra MORAL? Também vem do grego ÊTHOS. É a mesma palavra, mesma grafia, porém com pronúncia e significados diferentes. Ou seja, ÉTICA não é a mesma coisa de MORAL, nem vice-versa, como muitos pensam. Não são palavras sinônimas.

Pronunciada com um som de “Ê” fechado e curto (ÊTHOS), pode ser traduzida por costume, norma, hábito. Serviu de base para a tradução latina de “morales”, de onde vem nossa palavra Moral.

Pronunciada com um som de “É” aberto e mais longo (ÉTHOS), significa em sua origem mais remota, essência de um ser (aquilo que, de fato, é essencial ao ser), habitat, local onde o indivíduo se sente protegido. Metaforicamente indica que a Ética irá trabalhar para proteger a vida do ser humano.

A Moral, referindo-se aos costumes dos povos, conjunto de hábitos, de regras, normas, leis que regulam a conduta de um povo, nas diversas épocas, é mais abrangente e divergente e variante de cultura para cultura.

O livro “Costumes e Culturas” traz alguns exemplos interessantes de moral:  Na África do Sul as mulheres se cumprimentam beijando-se na boca. Na Rússia são os homens. Na Tailândia os amigos andam de mãos dadas. Note: nenhum desses preceitos possui status de universalidade. 

A Ética diz respeito a preceitos invariantes. Isto é, que não variam nem de cultura para cultura nem de tempo para tempo. Por exemplo: as necessidades elementares dos seres humanos. A necessidade de alimentação, de sobrevivência. Portanto, a Ética só diz respeito às necessidades elementares dos homens. Ela não se ocupa com questões periféricas e circunstanciais.

A Moral é normativa.  Ética e Moral distinguem-se, essencialmente, pela especulação da Lei. É moral cumprir a “lei”. É ético questioná-la e não cumprir se seu fundamento não for justo. A Ética é especulativa, característica herdada da Filosofia.

Geralmente as pessoas classificam como alguém Ético aquele que cumpre as leis, que segue as normas estabelecidas em sua sociedade. Mas, em algumas situações, para ser Ético o indivíduo precisa quebrar as normas, descumprir a lei.

Por exemplo, o índio que vive numa aldeia cuja a convenção coletiva define como norma o infanticídio de gêmeos. Se ele resolve ser Moral (cumprir as normas e leis estabelecidas em sua comunidade) ele estará optando por matar seus próprios filhos. Se, do contrário ele resolve não matar as crianças, estará, necessariamente, em uma espécie de desobediência civil. Suponhamos que opte por não matar seus filhos gêmeos.

O índio, foi Ético ou Moral? Mais: É possível ser Ético e I-Moral ao mesmo tempo? Ele foi. Foi I-moral porque quebrou as Leis de sua sociedade. Foi Ético porque priorizou o que há de mais essencial no ser humano: a vida.

2- A ÉTICA CALVINISTA NA VISÃO DE UM ATEU: ANÁLISE DA OBRA “ÉTICA PROTESTANTE E O ESPÍRITO DO CAPITALISMO”, DE MAX WEBER.

Depois dessa parte mais conceitual, vamos entrar na questão da chamada “Ética Calvinista”, propriamente dita. Essa particularização da Ética, que é por natureza universal, não segue o rigor terminológico exigido pela filosofia. Evidentemente que não existem vários tipos de Ética. Ela é única e universal. Não existe uma Ética especifica dos Calvinistas, nem dos médicos, nem dos advogados. Porém iremos continuar adotando essa terminologia para não contrapor a obra que trabalharemos e que citaremos mais adiante.

Para isso, iremos nos basear, quase que exclusivamente, nas pesquisas e nas observações de um ateu. Sim, de um ateu.

É claro que tem muito Calvinista que escreve e fala sobre a chamada “Ética Calvinista”. E, claro, também, sempre “puxando a brasa para a sardinha” dos Calvinistas.

Escolhi fazer essa abordagem a partir de um ateu por conta de sua análise desapaixonada e isenta.

O nome dele é Max Weber, um sociólogo ateu que intuiu que os problemas e os acertos econômicos poderiam  ter uma causa completamente diferente daquelas apontadas por Karl Marx, que  acreditava que o povo de um país vivia bem ou vivia mal dependendo da relação de fatores puramente econômico, como a relação Patrão X Empregado.

Expressões do tipo “o povo sofre porque os burgueses só sabem explorar”, “somos pobres porque as elites dominantes não nos deixam crescer economicamente” dão o tom do pensamento de Karl Marx.

Interessante que nessa onda de protestos que tivemos recentemente essas expressões eram constantemente repetidas, inclusive por crentes. Crentes que são “comunistas” sem saber. Ou que, pelo menos, são simpatizantes dessa causa.

Marx Weber, então, começa a desconfiar que a causa da pobreza e da falta de desenvolvimento intelectual, social e até econômico de muitos países  poderia ter outros fatores. É certo que alguns pensadores tiveram essa desconfiança, antes de Weber, mas nenhum deles conseguiu avançar nesse sentido.

Weber queria entender o que faz uma nação ser próspera e desenvolvida e outra subdesenvolvida e seu povo intelectualmente desprovido e limitado.

Pra saber isso só tinha um jeito: era preciso fazer uma análise comparativa entre as nações;

E foi o que ele fez. Tendo como pano de fundo a Europa Moderna, Weber avaliou e investigou diversos países, diversas nações para tentar trazer luz a essa problemática, utilizando, para isso, os métodos comparativos das ciências sociais. Ele chega, então, a uma descoberta surpreendente, jamais percebida antes.

Depois de uma vasta pesquisa, Weber começa a cruzar os dados colhidos de vários países. Ele constatou que nos países bem sucedidos, em todos os aspectos, havia uma característica muito interessante, que ele não conseguiu identificar nos países decadentes. Vejamos suas premissas:

a) Homens de negócios e grandes capitalistas [1];
b) Operários qualificados de alto nível e pessoal especializado (tecnologicamente e comercialmente);
c) Premissas 1 e 2 têm em comum o fato de conter majoritariamente protestantes de linha Calvinista.

Diz Weber:

“Um simples olhar às estatísticas ocupacionais de qualquer país de composição mista mostrará, com notável freqüência, uma situação que muitas vezes provocou discussões na imprensa e literatura católicas. O fato de que os homens de negócios e donos do capital, assim como os trabalhadores mais especializados e o pessoal mais habilitado técnica e comercialmente das modernas empresas é predominantemente protestante’ (WEBER, 2002. p.37).

Essa constatação intrigou bastante Max Weber. Então ele passou a investigar o que havia de diferente nesses protestantes que produzia uma “ética” diferenciada; esse estilo de vida peculiar a ponto de mudar a realidade de um país.

E mais uma vez sua constatação foi surpreendente:

De forma bastante clara, Weber atribui ao Calvinismo a produção dessa ética particular, principalmente aos efeitos psicológicos causados pela doutrina da eleição ou da predestinação.

A antropologia bíblica enxergada por Calvino e tantos outros expoentes, como Agostinho de Hipona, que tira do homem o tão requerido e postulado “livre arbítrio”, é peça fundamental no entendimento da doutrina da predestinação ou eleição.

Segundo Calvino, o homem, em seu estado natural, está morto (Efésios 2:1), restando-lhe apenas a certeza do inferno eterno.

Para um homem nesse estado de morte espiritual e de “nulidade” total e absoluta, um verdadeiro agente passivo da condição espiritual pós-pecado, quando há a perda do livre-arbítrio - pois que vontade (espiritual) pode ter um morto?  - só existe uma possibilidade de salvação: o favor não merecido de Deus para salvá-lo, a graça de Deus.

A crença nessa sistematização doutrinária calvinista leva o “eleito” a um imenso sentimento de gratidão a Deus, uma vez que, mesmo sem merecer, recebe esta graça extraordinária.

Como consequência e em gratidão, passa a viver e a dedicar todos os seus momentos, inclusive atividades seculares, para a “glória de Deus”.

Isso simplesmente acaba com o binômio Sagrado X Profano. Para o Calvinista tudo passa a ser sagrado; tudo deve ser servir para a glória de Deus

Veja o que Weber diz:

“Dessa forma, coube aos puritanos, que se consideravam eleitos, viver a santificação da vida cotidiana. Pois o caráter sectário – a consciência de ser minoria e a motivação de ser eleito de Deus – fazia de cada membro dessas comunidades não mero adepto do rebanho mas, mas um vocacionado que se dedicava simultaneamente ao aprimoramento ético, intelectual e profissional” (WEBER, 2002. p.21).

O importante Catecismo calvinista, Catecismo Maior de Westminster, dá o tom dos objetivos dessa nova vida outorgada pela graça, já na pergunta inicial:

“Qual é o Fim supremo e principal do homem? O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus” (CATECISMO MAIOR, 2007. p.31).

Esse novo modelo de vida, essa “ética” calvinista, segundo Weber, é a causa evidente do desenvolvimento dos países por ele pesquisado.

Diz Weber:

O Deus de Calvino exigia de seus crentes não boas ações isoladas, mas uma vida de boas ações combinadas em um sistema unificado (WEBER, 2002. p.91).

Isso é seguir a orientação Apostólica de Paulo. Os Calvinistas procuram “fazer todas as coisas como se estivessem fazendo para Deus” (Col 3:23).

3- O PENTECOSTALISMO E A ÉTICA DA VANTAGEM

Seguindo o modelo de investigação de Weber, iremos tentar entender um fenômeno recorrente que pode ser observado desde meados do século passado e que tem crescido mais ainda ultimamente:

O envolvimento de crentes em escândalos de ordem moral e em  casos de corrupção.

Só pra lembrar alguns: O caso de Sônia e Estevam Hernandes. A máfia dos sanguessugas, protagonizada por grande parte da bancada evangélica. O caso da oração de gratidão pela propina recebida de Leonardo Prudente e Rubens Brunelli.

Quem são esses crentes e o que os levou a trilhar por esse caminho?

Todos esses casos e tantos outros que não temos espaço para dizê-los aqui, têm algo em comum: a presença “predominante”, para usar uma expressão weberiana, de Pentecostais envolvidos.

Isso é fato. É estatística. Você não vai encontrar, de forma “predominante”, crentes que têm uma proximidade maior com os preceitos da Reforma Protestante, envolvidos nesse tipo de coisa.

Então, o que tem os Pentecostais que os fazem propícios a esse tipo de atitude peculiar?

Será que o arcabouço doutrinário, assemelhando o que identificou Weber, tem alguma ligação com esse estilo de vida? Penso que sim.

A ideia de um contato, de uma comunicação direta com Deus, via “novas revelações”, produz, no Pentecostal, o efeito contrário que a doutrina da eleição Depravação Total produz no Calvinista. Faz dele uma espécie de “super-crente”, alguém que tem “poder”, alguém que tem um relacionamento diferenciado com Deus, o que o acaba tornando, inconscientemente, um “crente soberbo”.

Enquanto a Eleição Incondicional, consequência direta da doutrina da Depravação Total do Homem, humilha o homem e o deixa consciente de sua inutilidade, comprovando que tudo que possui advém do favor divino, a doutrina pentecostal da 2ª bênção, aliada a um quase "semi-Pelagianismo”, ao contrário, exalta o homem deixando-o prepotente e orgulhoso de si.

O resultado disso tudo não poderia ser outro: o Pentecostal entende que o mundo deve girar ao seu redor. Todas as coisas devem orbitar em sua volta. O pentecostal tem “o rei na barriga”. Mais que isso: o pentecostal se acha o próprio rei. E, por isso mesmo, ele não consegue enxergar o outro, respeitar o direito do outro, mas apenas seu alvo, que é conquistar o melhor, que é ter o melhor, aquilo que lhe é, supostamente, de “direito”. Afinal, rei é rei!

Kenneth Hagin, muito embora não seja um legítimo representante do Pentecostalismo da primeira onda, apesar de ter tido dela toda a influência doutrinária, traduz de forma explícita e irrefutante o sentimento que paira no coração do Pentecostal que não teve nenhuma contato com a doutrina humilhante da Depravação Total do homem:

“Você não tem um deus no seu interior, você é um Deus. Uma réplica perfeita de Deus! Diga isso em alto e bom som, “eu sou uma réplica perfeita de Deus”! (A congregação repete um tanto insegura e sem jeito)...vamos digam isto! (Ele conduz a congregação em uníssono). Digam de novo! “Eu sou uma réplica de Deus!”- A congregação começa a se animar e o entusiasmo e o barulho aumentam cada vez que eles repetem a frase” (NODA, 1997. p.23).

Por isso Pentecostal não respeita filas. Por isso Pentecostal acha que pode comprar e contratar serviços e não pagar. Por isso Pentecostal é péssimo empregado. Por isso Pentecostal é péssimo Patrão. Por isso Pentecostal é Péssimo vizinho. Por isso Pentecostal é péssimo marido. Por isso Pentecostal é péssima esposa. Por isso é cada vez maior o número de pessoas que repetem a já famosa frase “não faço negócio com crente”. Por isso Pentecostal não assiste socialmente os membros de sua igreja, levando muitos a terem que esmolar na porta da igreja dos outros.

Mas é verdade também que nem sempre os Pentecostais conseguem o que querem, mesmo usando todos os meios espúrios que usam. Pensam que eles se dão por vencidos? Na “Ética da vantagem Pentecostal” não tem espaço para derrotas. Eles continuam tentando. São incansáveis. Por isso os hospícios e sanatórios estão lotados de Pentecostais. Acha que estou exagerando de novo? Então visite um.

Nota de Esclarecimento: Esse artigo, bem como os outros da série Pentecostalismo e Reforma Protestante não está se referindo a indivíduos Pentecostais. É evidente que existem muitos Pentecostais, mas não a maioria, que são pessoas de bem e que têm um testemunho digno. Pessoalmente conheço alguns. Infelizmente não muitos. Da mesma forma não estamos querendo advogar que todo Calvinista tem uma postura ética e moral ilibada. Evidentemente que existem alguns Calvinistas que são uma vergonha. Contudo, estamos tratando de uma visão macro dessas relações religiosas. De forma que, de uma maneira geral e abrangente, por tudo que foi argumentado aqui, podemos afirmar: o Calvinismo produz no seu crente uma postura ética e moral invejável e digna do registro até de ateus, como  é o caso de Max Weber, enquanto que o Pentecostalismo produz no seu crente o que chamamos aqui de “Ética da vantagem”.

Nota:
[1] De capitalismo não devemos entender, aqui, como a busca desregrada pelo Lucro, como diz o próprio Weber : “O impulso pelo ganho, a perseguição do lucro, do dinheiro, da maior quantidade possível de dinheiro, não tem, em si mesmo, nada que ver com o capitalismo. Tal impulso existe e sempre existiram entre garçons, médicos, cocheiros, artistas, prostitutas [...]. Pode-se dizer que tem sido comum a toda sorte de condições humanas em todos os tempos e em todos os países da terra [...]. A ganância ilimitada de ganho não se identifica nem de longe com o capitalismo, e menos ainda com o seu “espírito” (WEBER, 2002. p.26). Ao que concorda Biéler: “Não se trata mais, de modo algum, da paixão pelo ganho que caracterizava outrora alguns comerciantes à vida de riquezas” (BIÉLER, 1999. p.624). E ainda: Calvino, sabe-se, é o primeiro dos teólogos cristãos a exonerar o empréstimo a juros do opróbrio moral e teológico que a igreja havia feito sobre ele, até então; não é justo, entretanto, atribuir-lhe a justificação integral do capitalismo liberal (BIÉLER, 1999. p.20).

- por Filósofo Calvinista

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Podemos Legislar a Moralidade?



Muitas vezes é dito que não podemos legislar a moralidade. Nos dizem que é fútil e até errôneo promulgar certos tipos de leis, pois, é fazer com que as pessoas sejam morais por causa da lei, e isto, insistem, é impossível. Quando vários grupos tratam de implementar reformas, encontram-se com aquilo de que “não se pode legislar a moralidade”.

Temos que reconhecer que algo de verdadeiro em tal declaração. Se fosse possível conseguir que as pessoais fossem morais pela lei bastaria que a junta de supervisores ou o Congresso decretassem que todos os norte-americanos fossem morais. Isso seria salvação pela lei. Os homem e as nações, frequentemente, recorreram à salvação pela lei. Mas somente resultou em maiores problemas e caos social.

Podemos, então, estar de acordo que as pessoas não podem obter salvação pela lei, mas uma coisa é tratar de salvar as pessoas pela lei e outra é que exista uma legislação moral, ou seja, leis sobre a moralidade. Dizer “Não se pode legislar a moralidade” é uma meia verdade e até uma mentira, pois toda legislação tem a ver com moralidade. Qualquer lei nos livros de regulamentações de qualquer governo civil é um exemplo de moralidade decretada ou é um instrumento importante para isto. Nossas leis são leis morais que representam um sistema de moralidade. As leis contra o homicídio involuntário e o assassinato são leis morais, um eco do mandamento “não matarás”. As leis contra o apoderamento do que não é nosso são mandamentos contra o roubo. As leis sobre a difamação e a calúnia, contra o perjúrio, estabelecem o mandamento de “Não dirás contra o seu próximo falso testemunho”. As leis de trânsito  são, também, leis morais; seus propósitos são proteger a vida e propriedades; uma vez mais refletem os Dez Mandamentos. As leis concernentes à atuação da polícia e os tribunais também tem um propósito moral: proteger a lei e a ordem. Cada lei no livro de direito tem a ver com moralidade ou com procedimentos para a aplicação da lei, e toda lei tem relação com a moralidade. Podemos não estar de acordo com a moralidade de uma lei, mas não podemos negar o propósito moral da mesma. A lei tem a ver com o correto e o incorreto; castiga e restringe o mal e protege o bem, e isso é moralidade. É impossível ter lei sem ter uma moralidade que a respalde, pois toda lei não é senão moralidade decretada.

Mas há diferentes tipos de moralidades. A moralidade bíblica, é uma coisa, e a moralidade budista, hindu e muçulmana são sistemas morais radicalmente diferentes. Algumas leis morais proíbem comer carne de porco, pois consideram pecado, por exemplo, o hinduísmo; e outras declaram que matar infiéis pode ser uma virtude, como na moralidade muçulmana. Para a moralidade de Platão, certos atos de perversão eram formas nobres de amar, enquanto que a Bíblia considera que quem os praticam merecem a pena de morte.

A questão é esta: toda lei é moralidade decretada e pressupõe um sistema moral, uma lei moral, e toda moralidade pressupõe uma religião como fundamento. A lei descansa sobre a moralidade, e a moralidade sobre a religião. Em qualquer momento ou lugar em que se debilitem os fundamentos religiosos de um pais ou povo, será debilitada, também, a moralidade, e minam-se os alicerces  de suas leis. O resultado é um colapso progressivo da lei e da ordem, e a decomposição da sociedade.

Isto é o que estamos experimentando hoje. A lei e a ordem estão se deteriorando, pois, os fundamentos religiosos, os tribunais e o povo, estão rejeitando os fundamentos bíblicos. Nosso sistema de leis descansaram nos alicerces das leis bíblicas, na moralidade bíblica, e agora estamos mudando os fundamentos bíblicos por fundamentos humanistas. Desde os tempos coloniais até o presente, a lei norte-americana defendeu a fé e a moralidade bíblica. Como eram bíblicas, nossa lei não tratou de salvar as pessoas por meio da lei, mas estabelecer e manter esse sistema de lei e ordem que é o melhor condutor para uma sociedade piedosa.

Hoje em dia, nossos decretos, tribunais e legisladores, cada vez mais humanistas, estão nos dando uma nova moralidade. Dizem-nos, a medida que cancelam leis que se apoiam em fundamentos bíblicos, que a moralidade não pode ser legislada, entretanto oferecem, não somente a legislação da moralidade, mas a salvação pela lei, e nenhum cristão pode aceitá-lo. Onde quer que olhemos, seja com respeito à pobreza, educação, direitos civis, direitos humanos, paz e todo o restante, vemos leis promulgadas para salvar o homem. Creem que estas leis vão conduzir uma sociedade livre de prejuízos, ignorância, enfermidades, pobreza, crimes, guerras e todo o restante que consideramos mau. Estes programas legislativos equivalem a uma coisa: salvação pela lei.

Isto nos leva a uma diferença determinante entre a lei bíblica e a lei humanista. A lei que se apoia na Bíblia não trata de salvar ao homem nem de iniciar um novo mundo ousado, uma grande sociedade, paz mundial, um mundo livre da pobreza, nem outro ideal. O propósito da lei bíblica, e de todas as leis fundamentadas em uma fé bíblica, é castigar e freiar o mal, proteger a vida e a propriedade e que tenha justiça para todos.  O propósito do estado e da lei não é mudar o homem. Essa é uma questão espiritual e corresponde à religião. O homem sozinho pode mudar pela graça de Deus através do ministério da Bíblia. Ao homem não é possível ser mudado com leis de governo; não se pode decretar que seu caráter mude. A perversa vontade ou razão de um homem pode ser restringido com leis, pois este teme as consequências da desobediência. Todos nos retardamos a velocidade quando vemos uma patrulha rodoviária, e sempre temos em mente os limites de velocidade. O fato da existência da lei e a aplicação estrita da mesma freiam as inclinações pecaminosas.Mas se você pode parar o homem com uma lei e ordem rigorosas, não se pode mudá-lo com uma lei; não se pode salvar alguém com uma lei. O homem, somente, pode ser salvo pela graça de Deus através de Jesus Cristo.

A lei humanista tem um propósito diferente. Aspira salvar o homem e restabelecer a sociedade. Para o humanismo, a salvação é pela ação do estado. É o governo civil o que regenera ao homem e a sociedade e coloca ao homem em um paraíso terreno. Por isso, para o humanismo a ação social é tudo. O homem deve estabelecer leis corretas, pois sua salvação depende disso. Qualquer que se oponha ao humanista em seu plano de salvação pela lei, de salvação pela ação do governo civil, é por definição um homem mal que conspiração contra o bem da sociedade. Hoje a maioria dos homens no poder são intensamente morais e religiosos, muito interessados em salvar o homem mediante a lei. A partir uma perspectiva bíblia, a partir de uma perspectiva cristã, seu programa é imoral e ímpio, mas desde sua perspectiva humanista, não são somente homens de grande dedicação, mas de uma fé séria e de moralidade humanista.

Como resultado, hoje nosso problema básico é que temos duas religiões em conflito, o humanismo e o cristianismo, cada uma com sua própria moralidade e leis dessa moralidade. Quando o humanista nos diz que “não podemos legislar a moralidade”, o que quer dizer é que não devemos legislar uma moralidade bíblica, pois quer legislar uma moralidade humanista. A Bíblia esta rigorosamente proibida nas escolas, pois estas tem outra religião: o humanismo. Os tribunais não reconhecem o cristianismo como o fundamento do direito comum na vida norte-americana e o governo civil, pois já estabeleceram o humanismo como o alicerce da vida no país. Porque o humanismo é uma religião, ainda que não creia em Deus. Não é necessário que uma religião creia em Deus para ser uma religião. E mais, a maioria das religiões do mundo são essencialmente humanistas e ateístas.

Os novos Estados Unidos da América, que está tomando forma em torno de nós, são bem religiosos, mas sua religião é o humanismo e não o cristianismo. É uma nação com intenções morais, mas sua ética é a nova moralidade, que para o cristão não é mais que a velha imoralidade. Este Estados Unidos novo, revolucionário humanista, tem também uma mentalidade missionária. O humanismo crê na salvação pelas obras da lei; como resultado, estamos tratando como nação de salvar o mundo com leis. Com vastas concessões de dinheiro e trabalhando com afinco estamos tratando de salvar todas as nações e raças, a toda a humanidade de todo problema, na esperança de criar um paraíso na terra. Estamos tentando trazer a paz na terra e a boa vontade entre os homens pela intervenção do estado e das leis, não por Jesus Cristo. Mas São Paulo escreveu aos Gálatas 2:16: ” sabemos que ninguém é justificado pela prática da Lei, mas mediante a fé em Jesus Cristo. Assim, nós também cremos em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pela prática da Lei, porque pela prática da Lei ninguém será justificado.”

A lei é boa, correta e importante em seu devido lugar, mas não pode salvar o homem nem refazer o homem ou a sociedade. A função básica da lei é refrear (Romanos 13:1-4), não regenerar, e quando se faz que a função da lei deixe de ser refrear a maldade e passe a ser regenerar e reformar ao homem e a sociedade, a lei começa a se quebrar, pois um incrível fardo está sendo colocado em cima dela. Hoje, porque se espera demais da lei, cada vez que obtemos menos resultados da lei, é porque foi-lhe dado um uso indevido. Somente quando voltamos a ter à Bíblia como fundamento da lei, voltamos a ver justiça e ordem sob a lei. “Se Jeová não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam” (Salmo 127:1).

- por R.J. Rushdoony (1916-2001)

O culto online e a tentação do Diabo

Você conhece o plano de fundo deste texto olhando no retrovisor da história recente: pandemia, COVID-19... todos em casa e você se dá conta ...