terça-feira, 14 de maio de 2013

A falsa "unidade" e o dever da separação



Em tempos antigos, quando algumas das Igrejas de Cristo começaram a livrar-se do jugo do Papado que pesava sobre seus pescoços, o argumento usado contra a reforma era a necessidade de manter a unidade. “Você precisa ser paciente com esta ou aquela cerimônia e com este ou aquele dogma; não importa quão anticristão e profano. Você precisa ser paciente quanto a isso, ‘esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz‘“.

Assim falou a velha serpente naqueles dias antigos: “A Igreja é una; ai daqueles que semeiam o cisma! Pode até ser verdade que Maria tenha sido posta no lugar de Cristo, que as imagens são adoradas, que vestimentas e trapos podres são reverenciados, e que o perdão é comprado e vendido para crimes de todo tipo; pode ser que a assim chamada igreja tenha se tornado uma abominação e uma moléstia sobre a face da terra; mas ainda assim, ‘ esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz ‘, você deve curvar-se, reprimir o testemunho do Espírito de Deus dentro de você, esconder a Sua verdade sob um alqueire, e deixar a mentira prevalecer.“

Este foi o grande sofisma da Igreja de Roma. Porém, quando ela não pôde mais seduzir os homens falando de amor e união, ela passou a usar o seu tom mais natural de voz, e amaldiçoou diretamente, a torto e a direito, de todo coração: e manteve a maldição até que ela mesma expire!

Irmãos, não havia nenhuma força no argumento dos Papistas. Efésios 4:3 insta para que nos esforcemos em manter a unidade do Espírito, mas não nos diz para manter a unidade do mal, a unidade da superstição, ou a unidade da tirania espiritual. A unidade do erro, da falsa doutrina, da tirania dos bispos, pode incluir o espírito de Satanás; não temos nenhuma dúvida disso; mas que esta seja a unidade do Espírito de Deus nós negamos veementemente. A unidade do mal nós devemos demolir com todas as armas que nossas mãos puderem agarrar. A unidade do Espírito, a qual devemos manter e nutrir, é outra coisa completamente diferente.

Lembrem-se que somos proibidos de fazer o mal para que venha o bem. Mas conter o testemunho do Espírito de Deus dentro de nós, esconder qualquer verdade que tenhamos aprendido pela revelação de Deus, refrear-nos de testemunhar pela verdade de Deus e da Sua Palavra contra o pecado e a tolice das invenções dos homens, todos estes seriam pecados dos mais imundos. Não ousamos cometer o pecado de extinguir o Espírito Santo, ainda que seja com a intenção de promover a unidade.

Certamente a unidade do Espírito nunca requer algum apoio pecaminoso; ela não é mantida suprimindo a verdade, e sim apregoando-a por toda parte. A unidade do Espírito tem como sustentação, dentre outras coisas, o testemunho de santos espiritualmente iluminados com relação à fé que Deus revelou em Sua Palavra. Aquela unidade, é uma unidade totalmente diferente que amordaçaria nossas bocas e nos transformaria em gado imbecilmente dirigido, para ser alimentado e depois abatido ao bel prazer de mestres sacerdotais.

O Dr. McNeil disse, acertadamente, que dificilmente um homem pode ser um Cristão sério em nossos dias sem ser um controversista. Somos enviados hoje como ovelhas para o meio de lobos. Pode haver acordo? Somos acesos como luminares no meio da escuridão. Poder haver conciliação? Não foi o próprio Cristo que disse, “Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada“? Vocês compreendem como esse é o mais verdadeiro método de esforçar-se para manter a unidade do Espírito; porque Cristo o homem de guerra, é Jesus o Pacificador; mas para a criação de paz duradoura, espiritual, as falanges do mal devem ser destruídas, e a unidade das trevas arrojada em tremor.

Peço sempre a Deus que nos preserve de uma unidade na qual a verdade seja considerada sem valor, na qual princípios deem lugar à políticas, na qual as virtudes nobres e varonis que adornam o herói Cristão tenham que ser completadas por uma afetação efeminada de amor. Que o Senhor possa nos livrar da indiferença para com a Sua Palavra e vontade; porque isso cria a unidade fria de massas de gelo unidas em um iceberg, esfriando o ar por milhas ao redor, a unidade dos mortos enquanto dormem nas sepulturas, lutando por nada, porque não têm parte nem herança em tudo aquilo que pertence aos viventes. Há uma unidade que raramente é quebrada: a unidade dos demônios que, sob o serviço do seu grande mestre e senhor, nunca discordam nem disputam. Protege-nos desta terrível unidade, ó Deus dos céus! A unidade dos gafanhotos que têm um objetivo comum, com a sua glutonaria que arruína tudo ao seu redor; a unidade das ondas de fogo de Tofete, que arrasta miríades para a miséria mais profunda. Disso também, ó Rei dos céus, livra-nos para sempre!

Que Deus perpetuamente nos envie algum profeta que clame em alta voz para o mundo: “Sua aliança com a morte será anulada, e seu acordo com inferno não permanecerá“. Que sempre tenhamos alguns homens, mesmo que sejam ásperos como Amós, ou austeros como Ageu, que denunciem sempre de novo qualquer associação com o erro e qualquer acordo com o pecado, e declarem que estas coisas são abomináveis para Deus.

Nunca imaginem que a contenda santa seja uma violação de Efésios 4:3. A destruição de todo tipo de unidade que não está baseada na verdade é uma preliminar necessária à edificação da unidade do Espírito. Precisamos primeiro derrubar estas paredes feitas de argamassa ruim – estes muros cambaleantes construídos pelo homem – para que possa haver espaço para as excelentes rochas dos muros de Jerusalém colocadas umas sobre as outras para uma permanente e duradoura prosperidade.

- por Charles H. Spurgeon (1834-1892). Sermão nº 603.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Os cristãos podem comer alimento com sangue e carne sufocada?


Muitos crentes sinceros se deparam com dificuldades durante a leitura bíblica. Todavia, como dizia o Dr. Martyn Lloyd Jones, "dúvidas não são incompatíveis com a fé". Deveras vezes, todos nós, nos deparamos com versículos e situações da vida onde não encontramos alguma solução imediata para a dúvida. 

Dentre todas as incertezas, está aquela que diz respeito a licitude ou não de se comer alimentos com sangue e carne sufocada. Alguns são os versículos que suscitam tal ponto de interrogação:

- "Toda a pessoa que comer algum sangue, aquela pessoa será extirpada do seu povo" (Lv 7.27);
- "Portanto tenho dito aos filhos de Israel: Nenhum dentre vós comerá sangue, nem o estrangeiro, que peregrine entre vós, comerá sangue" (Lv 17.12);
- "Tão-somente o sangue não comereis; sobre a terra o derramareis como água" (Dt 12.16);
- "Somente esforça-te para que não comas o sangue; pois o sangue é vida; pelo que não comerás a vida com a carne" (Dt 12.23).

Antes de entendermos tal questão, é preciso fazer uma ressalva que, confesso, me deixa intrigado. Permita-me, o leitor, um brevíssimo desabafo.

Comumente os evangélicos cometem o grave pecado de afirmar que a Lei de Deus, isto é, as leis civis do povo de Israel do Antigo Testamento, não são mais válidas para nós - quando, no entanto, Cristo foi cristalino em dizer: "Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir" (Mt 5.17). Ele mesmo disse que era a Lei e os verdadeiros profetas eram Sua boca: "E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas e nos Salmos" (Lc 24.44). Porém, embora tais pessoas digam que a Lei não está mais em vigor (somente porque não conseguem vê-la sendo aplicada), frequentemente fazem proibições aos membros e à igreja usando a própria Lei! Ora, isto é um disparate profundo! Ou a Lei é válida, dentro do correto entendimento, ou não é!

Bem, exposto o que me deixa intrigado (mas sei que não somente a mim), destrinchemos a questão.

O Antigo Testamento trabalha com formas visíveis que expressam realidades invisíveis. Por exemplo, o tabernáculo e o templo eram Cristo prefigurado, a saber, apontavam para o Cristo que viria (Mt 26.61); as leis de separação de animais, sementes e tipos de tecidos (Lv 19.19), ensinavam ao povo que eles deveriam ser separados ao Senhor (Lv 26.12); o ano do jubileu, tempo em que se restituía a terra àqueles que a haviam vendido para pagar dívidas (Lv 25.13), era uma demonstração do perdão dado por Cristo e do amor que une os irmãos (Jo 13.35). Assim, seguindo esta mesma sequência, temos as referências ao não comer sangue.

O primeiro fato que devemos notar é o sangue não ser o mal em si mesmo. O sangue não poderia ser a malignidade por si só, pois se assim fosse, os sacerdotes não seriam instados a aspergir sangue no templo (Lv 7.14) de Deus. Se a substância "sangue" fosse pecaminosa, de modo algum o Senhor a requereria de Seu povo.

O segundo fato é o sangue ser uma figura que indica vida: "Somente esforça-te para que não comas o sangue; pois o sangue é vida; pelo que não comerás a vida com a carne" (Dt 12.23 - grifo meu). Notemos que é uma "figura", algo que remete à vida. Bem sabemos que a vida não está somente no sangue. Uma gota de sangue na estrada não indica que há um ser humano, literal e completo, na partícula. Nosso corpo é formado de muitas "juntas e medulas" (Hb 4.12), "De pele e carne" (Jó 10.11a), "de ossos e nervos" (Jó 10.11b)...

O terceiro fato diz respeito à necessidade, assim como nas leis de separação de sementes e demais coisas, do povo ser instruído a valorizar o sacrifício. Lembremos que o povo de Israel convivia constantemente oferecendo holocaustos (ofertas totalmente queimadas), os sacerdotes degolavam animais (Lv 4.15) e criaturas eram frequentemente oferecidas em sacrifícios ao Senhor.

Assim, Deus havia proibido o comer/beber do sangue, não por uma propriedade intrinsecamente má no sangue, mas, sim, por causa da necessidade do povo aprender a não confundir e se perder na leviandade. 

Este fato pode ser provado com os elementos da ceia sob a luz do Novo Testamento (leia 1 Coríntios 11). Nenhum cristão, durante a ceia, crê que os elementos sejam literalmente o sangue de Cristo [1], mas nem por isso é displicente com eles - não se põe a ficar "fazendo bolinha" com o pão ou erguendo o cálice para admirar a textura do vinho contra a luz. Por que assim não se procede? Porque o momento é diferente; mesmo que os elementos sejam os mesmos usados nas casas, para os jantares e confraternizações, naquele momento eles representam algo mais importante. Cuida-se para não banalizar o significado, não o elemento.

Desta forma, quando lemos na Escritura que não dever-se-ia comer sangue, o propósito era ensinar os judeus sobre a necessidade de serem santos (que significa ser separado) ao Senhor, não ingerindo o líquido que o Senhor requeria para apontar o perdão dos pecados em Cristo Jesus (Hb 10).

Portanto, hoje, nós cristãos do Novo Testamento, podemos livremente comer qualquer coisa com sangue (uma carne "mal passada" ou galinha ao molho pardo, por exemplo), pois não mais vivemos nas sombras do que os elementos tipificavam, e sim na luz, às asas do Altíssimo. O sangue, sim, para sempre continuará a significar "vida" (tanto que somos instados a somente o utilizar na ceia, a fim de seguirmos o padrão bíblico), mas não mais como motivo de separação. Pelo sangue de Cristo estamos unidos a Ele, de modo que o sangue, o líquido, não deve ser proibido aos cristãos.

O que dizer, por fim, do versículo, "Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da prostituição, das quais coisas bem fazeis se vos guardardes" (At 15.29; 21.15)? Para entendermos, é preciso analisar o porquê da recomendação apostólica.

No início do capítulo 15 é relatado que, "alguns que tinham descido da Judéia ensinavam assim os irmãos: Se não vos circuncidardes conforme o uso de Moisés, não podeis salvar-vos" (At 15.1). Aqueles cristãos advindos do judaísmo não se conformavam com o fato de não haver mais necessidade de circuncisão física, pois agora ela se dava no coração (Rm 2.29). Havendo, então, esta dificuldade para conciliar a vida de judeus convertidos com gentios convertidos, "Congregaram-se, pois, os apóstolos e os anciãos para considerar este assunto" (At 15.16).

Tal assunto não foi facilmente resolvido, de modo que lemos haver ocorrido "grande contenda" (At 15.7) até mesmo entre os apóstolos e anciãos (demais presbíteros reunidos). Pedro se levanta em meio à assembleia e relembra aos irmãos, "que já há muito tempo Deus me elegeu dentre nós, para que os gentios ouvissem da minha boca a palavra do evangelho, e cressem... dando-lhes o Espírito Santo, assim como também a nós; E não fez diferença alguma entre eles e nós, purificando os seus corações pela fé. Agora, pois, por que tentais a Deus, pondo sobre a cerviz dos discípulos um jugo que nem nossos pais nem nós pudemos suportar?" (At 15.7-10). A razão para isso era a referência à Lei, que nos dizeres do escritor de Hebreus: "(Pois a lei nenhuma coisa aperfeiçoou)" (Hb 7.19). Os judaizantes estavam tentando persuadir aos convertidos de que a observância da Lei, por si mesma, seria a causa da salvação - e nisto estavam errados.

Com isso em mente e a discussão em pauta, "tomou Tiago a palavra, dizendo: Simão relatou como primeiramente Deus visitou os gentios, para tomar deles um povo para o seu nome... Por isso julgo que não se deve perturbar aqueles, dentre os gentios, que se convertem a Deus. Mas escrever-lhes que se abstenham das contaminações dos ídolos, da prostituição, do que é sufocado e do sangue" (At 15.13-14, 19-20).

Qual é, pois, a solução para nosso problema? Muito simples. Uma vez que a Igreja de Deus florescia com judeus e gentios vivendo conjuntamente, era necessário estabelecer um padrão, de modo que os judeus não se escandalizassem pela não prática de certos ritos da Lei que haviam cessado em Cristo e, também, de maneira a não levar os gentios (todos os outros povos que não eram judeus) a viverem licenciosamente, como se nada devessem observar.

Este mesmo princípio, a saber, o de não ser escândalo para o próximo, foi aventado pelo apóstolo: "Por isso, se a comida escandalizar a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que meu irmão não se escandalize" (1Co 8.13). Ora, uma vez que a Bíblia não pode se contradizer e notro lugar lemos, "Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, Que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo" (Cl 2.16-17), o entendimento só pode ser um: que o motivo pelo qual os crentes do início do Novo Testamento deveriam se abster de sangue e carne sufocada, não era pela natureza em si dos elementos ou pela forma como ela era obtida, e sim para evitar o escândalo e promover a unidade. Tal qual Paulo estava disposto a nunca mais comer carne (sacrificada a ídolos [veja os versículos anteriores de 1Co 8.13)], caso isto trouxesse consequências na vida dos irmãos mais fracos na fé, bem faremos se de igual modo procedermos.

Que este breve estudo, pela graça e misericórdia de Cristo, o salvador de todos os Filhos de Deus, no qual as cerimônias sangrentas (assim chamadas devido ao sangue) e todas as outras que envolviam prefigurações, foram encerradas e definitivamente substituídas pelo novo Adão, possa, longe de nos levar à devassidão, acima de tudo, nos instar a amar a Deus e ao próximo nos laços fraternais de Jesus.

Louvemos ao Senhor pelo precioso Sangue de Cristo e não temamos o comer e o beber.

"Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus" (1Co 10.31).

Editado em 17/02/2016: em verdade, o que escorre da carne mal passada, por exemplo, sequer chega a ser sangue, conforme pode ser visto neste link.

Nota:
[1] Esta heresia se chama transubstanciação (católica romana) ou numa hipótese tão ruim quanto, a consubstanciação (luterana).   

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Jogos de Azar - Pode ou Não?



Já me fizeram esta pergunta várias vezes. Sou contra jogos de azar, mas este é o tipo de posição que admite revisão se me aparecerem argumentos melhores e mais coerentes do que aqueles que vou colocar aqui.

Entre os jogos de azar estão aqueles jogos permitidos por lei, que são as várias modalidades de loteria, os bingos - este último, muito usado até por igrejas cristãs e instituições - e os sorteios pelo telefone valendo dinheiro, carros e outros prêmios. Quem explora este tipo de jogo tem licença de órgão público competente. Mas nem por isso quer dizer que sejam jogos que convêm ao crente.

Temos também os jogos ilícitos, cujo mais popular é o Jogo do Bicho. Os cassinos são mais uma modalidade de jogos de azar cuja legalidade e implantação oficial está sendo discutida no Brasil. Para o cristão, o que realmente importa é se estas modalidades de jogo acabam por afetar algum princípio bíblico.

A Bíblia não proíbe de forma explícita os jogos de azar. Entretanto, nossa ética é elaborada não somente com aquilo que a Bíblia ensina explicitamente como também com aquilo que pode ser legitimamente derivado e inferido das Escrituras. Existem diversos princípios bíblicos que deveriam fazer o crente hesitar antes de jogar:

1. O trabalho é o caminho normal que a Bíblia nos apresenta para ganharmos o dinheiro que precisamos, Ef 4:28; 2Ts 3:12; Pv. 31. Quando uma pessoa não pode trabalhar, por motivos diversos, desde desemprego até incapacidade, ela deve procurar outros meios  de sustento e depender de Deus pela oração (Fp 4.6, 19). A probabilidade da situação do desempregado piorar ainda mais se ele gastar seu pouco dinheiro em jogo é muito grande.

2. Tudo que ganho pertence a Deus (Sl 24.1), e como mordomo, não sou livre para usar o dinheiro do jeito que quiser, mas sim para atingir os propósitos de Deus. E quais são estes propósitos? Aqui vão alguns mencionados na Palavra: (1) Suprir as necessidades da minha família (1Tm 5.8), o que pode incluir, além de sustento e educação, lazer e outras atividades que contribuam para a vida familiar; (2) compartilhar com os irmãos que têm necessidades e sustentar a obra do Evangelho (2Co 8-9; Gl 6:6-10; 3 João; Ml 3.10).

3. Deus usa o dinheiro para realizar alguns importantes propósitos em minha vida: suprir minhas necessidades básicas (Mt 6:11; 1Tm 6:8); modelar meu caráter (Filip 4:10-13); guiar-me em determinadas decisões pela falta ou suficiência de recursos; ajudar outros por meu intermédio; mostrar seu poder provendo miraculosamente as minhas necessidades. Jogar na loteria não contribui para qualquer destes objetivos.

4. Cobiça e inveja são pecado (Ex 20:18; 1Tm 6:9; Heb 13:5), e são a motivação para os jogos de azar na grande maioria das vezes. A atração de ganhar dinheiro fácil tem fascinado a muitos evangélicos.

5. Existem várias advertências no livro de Provérbios sobre ganhar dinheiro que podem se aplicar aos jogos de azar: o desejo de enriquecer rapidamente traz castigo (Pv 28.20,22); o dinheiro que se ganha facilmente vai embora da mesma forma (Pv 13.11); e riqueza acumulada da forma errada prejudica a família (Pv 15.27).

Uma palavra aos presbiterianos do Brasil: o Catecismo Maior da Igreja Presbiteriana do Brasil enquadra os jogos de azar como quebra do oitavo mandamento, “não furtarás”. Após fazer a pergunta, “Quais são os pecados proibidos no oitavo mandamento?” (P. 142), inclui na reposta “o jogo dissipador e todos os outros modos pelos quais indevidamente prejudicamos o nosso próprio estado exterior, e o ato de defraudar a nós mesmos do devido uso e conforto da posição em que Deus nos colocou”. É claro que esta posição oficial da IPB vale para seus membros, mas não deixa de ser interessante verificar os argumentos usados e sua aplicabilidade para os cristãos em geral.

É importante lembrar, ainda, que os jogos de azar são responsáveis por muitos males sociais, emocionais e jurídicos no povo, tanto de crentes como de não crentes. Menciono alguns deles:

1. O empobrecimento. Há pessoas que são cativadas pelo vício de jogar e, diariamente estão jogando. E, como só um ou poucos ganham, há pessoas que passam a vida toda jogando sem nunca ganhar. Não poucos perderam tudo o que tinham em jogos. Muitos pais de família pobres gastam o dinheiro da feira no jogo.

2. O vício de jogar apostando dinheiro. A tentação para jogar começa desde cedo a estimular uma compulsão entre crianças e jovens que começam a adquirir o hábito de “tentar a sorte”. Há milhares de jovens que já são viciados no jogo, especialmente com a vinda da internet e a possibilidade de jogos online com apostas.

3. Arruinar vidas e carreiras. Não são poucas as histórias de pessoas que se arruinaram financeiramente jogando na bolsa de valores (nota do autor deste blog: discordo veemente deste ponto levantado pelo autor do texto, pois bolsa de valores não é jogo, e sim investimento. Bolsa de valores possui estudo e não pode, sob qualquer circunstância, ser relacionado com jogos de azar, vez que se isso for feito, então também não poderíamos, por exemplo, ter dinheiro em banco, pois se "ganha" com os juros pagos pelo banco. Ademais, bolsa de valores é regulada pelo mercado interno e externo, isto é, não possui nenhuma relação com a mera aleatoriedade de números, como é o caso de roletas, "raspadinhas" e tudo o mais.) – conheço pelo menos uma pessoa nesta condição – ou apostando em outros tipos de jogo.

4. Jogar dinheiro fora. As chances de se ganhar na loteria são piores do que se pensa. Para efeito de comparação, a probabilidade de uma pessoa morrer em um atentado terrorista durante uma viagem ao exterior é de 1 em 650 mil e atingida por um raio é de 1 em 30 mil. Se uma pessoa compra 50 bilhetes a cada semana, ela irá ganhar o prêmio principal uma vez a cada 5 mil anos.

Outra pergunta frequente é se as igrejas deveriam receber ofertas e dízimos de dinheiro ganho em loteria. Minha tendência é dizer que não deveriam. Guardadas as devidas proporções, lembro que no Antigo Testamento o sacerdote era proibido de receber oferta de dinheiro ganho na prostituição (Dt 23:18) e que no Novo, Pedro recusou o dinheiro de Ananias e Safira (At 5) e de Simão Mago (At 8:18-20).

Alguém pode dizer que o valor gasto nas apostas em casas lotéricas é muito pequeno. Concordo. Mas é uma questão de princípio e não de quantidade. Quando o que está em jogo são princípios, um centavo vale tanto quanto um milhão.

- por Augustus Nicodemus Lopes

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Não Há Desculpa para a Murmuração



Às vezes ocorre que os cristãos não conseguem servir a Deus como gostariam devido às circunstâncias que enfrentam. É bom querermos servir a Deus, e é natural ficarmos tristes quando não conseguimos isso. Mas isso não é desculpa para murmuração. Somos membros do corpo de Cristo. É melhor ser um membro inexpressivo do corpo de Cristo do que ser uma pessoa importante, a qual não é membro desse corpo. Todos os cristãos têm um chamado espiritual para cumprir, não importa quão insignificantes eles pensem que sejam. Deus Se alegra mais com os atos mais simples de um cristão humilde do que com todas as obras mais famosas da história. O que Ele exige não é fama ou realizações brilhantes, e sim fidelidade e paciência. Os que demonstram tais qualidades serão recompensados no céu. Quando cristãos humildes vêem isso, percebem que não têm razões para resmungar.

- por John Flavel - (1628-1691)

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Como Estudar Teologia? (parte 2 - O que é Teologia?)


Clique para ler: parte 1, parte 2, parte 3, parte 4, parte 5, parte 6

Uma vez compreendido os pressupostos lançados anteriormente, se faz necessário perguntar: o que é teologia?

O modo padrão de se definir teologia é afirmando que, em grego (transliterado), theo significa Deus e logia, estudo - ou seja, o estudo de Deus. Todavia, parece-nos demasiadamente genérica tal afirmação. Assim, é preciso fazer uma interpretação extensiva acerca do que se está afirmando por estudo e Deus.

1. Quando falamos sobre "estudar Deus", de modo algum se está afirmando que Deus seja matéria de estudo comum

Não estamos tratando de um estudo onde meramente se enche estantes com livros, comentários, exegeses e toda sorte de material. Estudar a Deus, antes de tudo, é se submeter à Sua soberania e compreender que Ele é acima de tudo e todos.

É preciso lembrar, conforme o autor de Hebreus escreve aos judeus convertidos, que o estudo da Bíblia deve, sempre, ser acompanhado de fé: "mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fé naqueles que a ouviram" (Hb 4.2 - grifo do autor). Este ponto é de vital importância, pois não poucas vezes o árduo estudo tende a levar os estudantes à crença de que devem, pela mera racionalidade, compreender o Altíssimo e Sua Escritura.

O cristão genuíno, embora seja racional e, por isso, pensante - tal atributo faz parte da imagem e semelhança de Deus -, é também alguém que anda e vive pela fé. Poder-se-ia dizer que todas as doutrinas somente podem ser aceitam pela fé, afinal, a fé é um dom de Deus (Ef 2.8). Esteja, portanto, ciente da necessidade imperiosa de não ser demasiadamente racionalista. Estude sobre o criacionismo, por exemplo, mas compreenda que ao fim de todo o labor, você precisa aceitar que, "No princípio... Deus" (Gn 1.1). Se você entender este versículo pela fé, poderá entender todo o restante.

2. Deus não é matéria que se possa compreender na plenitude do saber

No estudo bíblico se afirma: finitum non capax infinitum, isto é, o finito não pode compreender o infinito; o infinito não é possível de ser enquadrado dentro do finito. A Escritura evidencia este fato: "Porque quem compreendeu a mente do Senhor? ou quem foi seu conselheiro?" (Rm 11.34). O homem natural, criatura de Deus, ainda que se esmere com grande afinco e trabalhe arduamente na seara estudiosa, jamais poderá afirmar que conhece a Deus como conhece seu melhor amigo - ademais, nem mesmo podemos afirmar que conhecemos alguém em seu completo ser, pois "Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?" (Jr 17.9). Se não podemos conhecer ao homem, ser de poucos dias por essa terra, como intentaríamos decretar que somos cônscios de tudo sobre o grande e perfeito Criador? Tamanha é a distância, devido ao pecado, que temos naturalmente de Deus, que dispõe a Palavra: "SENHOR, quem habitará no teu tabernáculo? Quem morará no teu santo monte?" (Sl 15.1).

3. Deus não é um conceito ou uma junção de boas ideias

Muitos têm se perdido pelo caminho e, à semelhança do filho pródigo, têm gastado todos os bens e tempo em terras longínquas e afastadas da santa Lei de Deus.

Para se lançar no estudo teológico é preciso rejeitar todo sistema plural de ideias e conceitos. É absolutamente uma completa insanidade desejar aprender sobre Deus, como se ele fosse passível de muitas interpretações. Isto é, é necessário partir do pressuposto de que Deus, em Sua Bíblia, possui uma única verdade - sim, tão somente uma verdade. Os homens podem desejar que Deus seja uma junção de preposições, pensamentos positivos e algum poder superior, mas o fiel cristão se porá em linha completamente oposta e desejará compreender qual é, genuinamente, a verdade acerca de Deus.

4. Mantenha sempre vivo um santo temor

"Guarda o teu pé, quando entrares na casa de Deus; porque chegar-se para ouvir é melhor do que oferecer sacrifícios de tolos, pois não sabem que fazem mal. Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu estás sobre a terra; assim sejam poucas as tuas palavras" (Ec 5.1-2).

Tal qual os crentes devem ter cautela, ainda que devam, com ousadia, "entrar no santuário, pelo sangue de Jesus, Pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne" (Hb 10.19-20), também é necessário que ao estudar a palavra de Deus se acheguem com temor. Abrir a Escritura é, se corretamente analisado, fonte de bênção e, não corretamente prudente, fonte de ira e condenação. Certifique-se de que está estudando para glorificar a Deus acima de tudo e faça isso diligentemente. Lembre-se das palavras do apóstolo: "Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus" (Rm 11.22).

5. Estudar teologia não é sinônimo de erudição

Conta-se que o grande puritano John Owen (1616-1683), dizia ser desejoso de trocar suas habilidades pela sensibilidade com que o pobre latoeiro John Bunyan (1628-1688) possuía em tocar os corações [1]. Owen, embora fosse extremamente versado na Escritura, ocupando até mesmo um cargo notório na Universidade de Oxford, se sentia tocado pela maneira como Bunyan discorria pelas Escrituras, mostrando que o conhecimento acadêmico, embora muito importante e desejado, vem em segundo plano quando comparado com a piedade de coração, pois "a piedade para tudo é proveitosa, tendo a promessa da vida presente e da que há de vir" (1Tm 4.8).

Ore para que o Eterno lhe traga, antes e acima de tudo, o coração desejoso de amar ao Senhor. Evidente que o conhecimento da Escritura inflama os corações dos cristãos, mas lembre-se do inimigo, "o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar" (1Pe 5.8). A muitos o inimigo tem enganado, fornecendo falsa esperança de salvação, engrupindo o coração com sensação de que o mero saber se traduz em garantia de vida eterna.

6. Não creia que a teologia lhe servirá para sempre ter opinião contrária

Lembro-me da primeira vez que iniciei um seminário e tão logo me pus em uma confraternização com demais estudantes, desejei contrariar as pessoas o máximo de vezes possível. Pensava, em completa ignorância, que o sinônimo de conhecimento era sempre desafiar a opinião contrária - ledo, grasso e terrível engano.

Você precisará entender e talvez somente aprenderá após fraquejar algumas vezes, que "Melhor é ouvir a repreensão do sábio, do que ouvir alguém a canção do tolo" (Ec 7.5). Muitos serão os momentos nos quais você desejará se insurgir quanto à determinada matéria, mas tenha paciência e lembre-se da sincera e prudente admoestação: "cada um considere os outros superiores a si mesmo" (Fp 2.3). Não queria ser o tolo a cantar; seja prudente e ouça o sábio falar. Se não houver algum sábio, então se certifique de que suas palavras possuem amparo bíblico e forte base exegética, caso contrário você expressará o quão despreparado é e o quanto está enrilhado em filosofias e vãs sutilezas deste mundo (Cl 2.8).

7. Teologia implica, necessariamente, em mudança de vida

O apóstolo explicitou esta grande verdade: "sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus" (Rm 12.2). Vemos que a Bíblia não nos apresenta uma carta de intenções ou algum conjunto de bons indicativos quanto ao que deveríamos realizar. A Palavra é incisava em seu imperativo: "sede transformados pela renovação do vosso entendimento". Noutras palavras, a Escritura afirma que todo cristão é alguém transformado através do entendimento.

Todavia, tal transformação não concerne meramente à razão, ao intelecto, às faculdades mentais. No versículo anterior preceitua o versículo: "Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional" (Rm 12.1). É fato que se impõe, portanto, os cristãos aprenderem a viver em "sacrifício vivo". O ideal que Paulo tem em mente diz respeito à maneira correta dos crentes viverem como "um só corpo em Cristo" (Rm 12.5).

Vigie atentamente para não cairmos no enredo do pecado, tendo somente seu entendimento mudado, mas continuando a praticar as mesmas devassidões de outrora.

8. Estudar teologia não significa facilidade no estudo

Verdadeiro é que, o "Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas" (Jo 14.26), mas isto não exclui a responsabilidade do árduo trabalho. Não pense o querido leitor que o Espírito Santo lhe sussurrará todo entendimento, ainda que o estudo seja displicente. O nobre apóstolo chegou a escrever para Timóteo: "Quando vieres, traze... os livros, principalmente os pergaminhos" (2Tm 4.13). Como Paulo lia livros, os estudava e andava com eles, faremos bem se perseguirmos este ideal.

9. Teologia envolve renúncia

Quando se estuda para uma prova, um curso ou novo emprego, frequentemente se tem de abdicar de certos passatempos e vontades pessoais. De forma muito semelhante será o estudo teológico. Fortes dúvidas abaterão sua alma e esteja avisado de que é melhor a sanar primeiro, para depois partir para outros afazeres.

Cito-me novamente, quando ouvi pela primeira vez sobre o livre arbítrio e sua falácia. Aprendi sobre a soberania de Deus e que Ele está sob o controle de todas as Suas criaturas - isto me levou, por um fim de semana inteiro, a pensar somente nisto. Fiquei completamente desesperado por não saber mais o que fazer, pois pensava que o Senhor apenas "observava" Suas criaturas, e não que as controlasse. Por fim, comecei a achar alento nas palavras: "Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade" (Fp 2.13).

Caso você, homem, venha a ser um pregador do evangelho ou um professor de escola bíblica, certifique-se de ter tempo suficiente para estudar e preparar sermões e aulas. Atente para a instrução: "Pois qual de vós, querendo edificar uma torre, não se assenta primeiro a fazer as contas dos gastos, para ver se tem com que a acabar? Para que não aconteça que, depois de haver posto os alicerces, e não a podendo acabar, todos os que a virem comecem a escarnecer dele, Dizendo: Este homem começou a edificar e não pôde acabar" (Lc 14.28-30).

10. Teologia sem oração é exercício vão

Costuma-se dizer que muitos cristãos entram no seminário cheio de amor a Deus e vazios de conhecimento; saem, porém, cheios de conhecimento e vazios de amor a Deus. Por que isto acontece? Acaso poderíamos imputar a culpa ao conhecimento, como se ele fosse antagônico ao Senhor? Certamente não. O motivo de muitos estudantes estarem - supostamente - cheios de conhecimento e vazios de Deus, é porque este conhecimento não foi acompanhado de constante oração. Não é sem motivo que preceitua a Escritura: "Orai sem cessar" (1Ts 5.17).

Muitas vezes o estudante percebe que vem fazendo bom progresso no conhecimento e tende, infelizmente, a menosprezar o tempo a sós com Deus. Pensa que somente ler e escrever artigos, ter um blog e publicar textos interessantes, seja suficiente.

O Senhor prometeu abençoar e responder a oração dos justos (Tg 5.16); faríamos bem se lembrássemos disto.

Nota:
[1] http://www.reformationtheology.com/2008/04/john_owen_john_bunyan.php (acessado dia 05.05.2013 às 23:50).

terça-feira, 7 de maio de 2013

Bem-aventurados os humildes de espírito


Gostaríamos de saber que tipo de pessoa deveria ser o crente? Gostaríamos de saber que caráter cristão deveria ser o nosso alvo? Gostaríamos de saber qual a conduta e os hábito mentais que deveríamos cultivar como seguidores de Jesus?... 

Jesus chamou de bem-aventurados aos humildes de espírito. Referia-se aos humildes, modestos quanto quanto a seu auto-conceito, auto-rebaixados. Apontava para os que estão profundamente convictos de sua própria pecaminosidade diante de Deus. Aqueles que não "são sábios aos seus próprios olhos, e prudentes em seu próprio conceito" (Is 5.21). Esses não se consideram "ricos e abastados" (Ap 3.17); não ficam fantasiando de que nada precisam. Todos esses são bem-aventurados! No alfabeto do cristianismo, a humildade é a primeira letra. Devemos começar bem por baixo, se quisermos atingir grandes alturas espirituais. 

- por J. C. Ryle (1816-1900)
Fonte: Meditações no Evangelho de Mateus, Ed. Fiel, pág. 26

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Como Estudar Teologia? (parte 1 - O que você Precisa Saber)


Clique para ler: parte 1, parte 2, parte 3, parte 4, parte 5, parte 6

Esta é uma pergunta que, com certa frequência, me fazem. Não exatamente nestas mesmas palavras, mas o sentido é bastante semelhante. O objetivo da indagação é justamente buscar um "norte", um caminho, uma espécie de apontamento sobre por onde começar e o que fazer para não se perder em meio aos estudos.

Lembre-se de que antes de começar, é preciso saber sobre o porquê assim fazer.

Diante disso, de maneira sucinta, deixo abaixo algumas preposições para você meditar.

1. Tenha em mente que todos precisam estudar teologia

Infelizmente, tem se pregado que teologia é somente um estudo para pastores, mestres e doutores. Dizem que estudar teologia é obrigação somente para os que aspiram o presbitério ou às poucas exceções de pessoas que se deleitam em ler livros velhos e empoeirados. Nada mais, porém, está tão longe da verdade.

Estudar teologia é um dever de todos. Começando pelos pastores e passando pelos diáconos, o estudo sério das Escrituras deve chegar até à casa do mais simples homem. Todos, homens e mulheres, devem estudar teologia.

Por "teologia", quero expressar o conhecer a Deus através e somente da Bíblia. Não estou ignorando os bons livros, mas, sim, pontuando que todo conhecimento tem que ser embasado pela Palavra de Deus, caso contrário será, "vaidade de vaidades".

2. Deus pode e dever ser conhecido até o limite revelado em Sua Palavra

É preciso entender que Deus pode ser conhecido, pois se afirmarmos que Deus não pode ser conhecido, logo, é inútil estarmos lendo a Bíblia, orando, indo à igreja e tendo comunhão com os irmãos. 

Entretanto, o limite para se conhecer a Deus é Sua Palavra. Será exercício intelectualmente inútil tentarmos descobrir como será, literalmente, o céu e o inferno, por exemplo; igualmente, não somente inútil, será pecaminoso (pois se está indo além do que Deus revelou) tentar restringir Deus à nossa limitada compreensão - se cai neste pecado quando se diz que "já se conhece tudo sobre Deus".

Não confie em livros que revelam fatos não revelados pela Escritura.

3. É impossível ser um cristão sem estudar teologia

Uma vez que a teologia busca conhecer ao Senhor e os filhos de Deus são chamados de cristãos, isto é, seguidores de Cristo, então é necessário que o crente faça, diariamente, uso da teologia.

Se faz e estuda teologia a todo instante: diante de um chefe que pede para mentir, analisamos e pedido e o comparamos com o que diz a Escritura; nossos colegas de trabalho e faculdades nos perguntam sobre porque o "deus" do cristianismo é o único e nos pomos a respondê-los de acordo com a Bíblia; nossos parentes nos perguntam se o falecido "amigo" ou "amiga" irá para o céu e lhes damos uma resposta segundo a Palavra; no trânsito e sua chateação peculiar, lembramos de que a Bíblia nos diz para não ficarmos irados e, se ficarmos, que não pequemos (Salmo 4).

Em absolutamente todas as situações da vida o cristão precisa saber o que diz a Bíblia. Sendo isso verdade, como poderíamos desprezar o estudo?

4. O estudo é o meio que visa atingir uma finalidade

O propósito de se estudar teologia não é o conhecimento - disto os fariseus estavam cheios. Simplesmente "saber" explicar a soberania de Deus, apenas para ilustrar, não se traduz em dizer que a pessoa seja alguém piedosa. Até mesmo um pastor pode pregar belas e impactantes mensagens sobre a santidade, discorrendo grandes interpretações e aplicações benditas, no entanto, sendo uma vaso inútil e tendo sua vida despedaçada.

Estuda-se teologia para crescer na vida com o Senhor. Compra-se livros não para debater e verborragizar na internet e em círculos de amigos, mas, sim, para se devotar mui excelentemente bem ao Senhor. 

Assim como vamos à faculdade para aprender a como exercer nossa futura profissão, também vamos ao estudo para saber como viver diante Deus. 

O jovem rico perguntou ao Senhor: "Bom Mestre, que hei de fazer para herdar a vida eterna?" (Lc 18.18), todavia, após ouvir sobre o que deveria fazer, "ficou muito triste, porque era muito rico" (Lc 18.23). De modo diferente, então, deve ser o agir do homem ao estudar a Palavra. 

Ao levarmos o estudo a sério, precisamos estar cientes de que estamos estudando para matar a carne pecaminosa e crescer em graça diante de Deus. A evidência de algum estudo estar sendo corretamente exercido e gerando bons frutos, talvez possa ser melhor verificado pela vida com que o indivíduo leva, do que por seus escritos e livros - "pelos seus frutos os conhecereis" (Mt 7.20).

5. O pecado cegou o entendimento e obscureceu a verdade

Tão logo você comece a estudar, perceberá um dos frutos do pecado de Adão: a grandiosa dificuldade para se compreender determinados assuntos.

Converse com algum cristão experimentado no estudo e prática cristão e ele lhe dirá, com absoluta certeza, o qual difícil lhe foi entender o modo correto de se adorar ao Senhor. Não preciso citar outrem, podendo relatar ao querido leitor meu próprio caso, onde após "criar" uma "igreja" totalmente fora dos padrões de Deus (mas que agradava aos meus desejos), fui agraciado pela Verdade - no entanto, com dores e sofrimentos, em particular no que tange ao reconhecer que, embora estivesse corretamente motivado, como o rei Saul ao trazer os despojos da guerra para sacrificar ao Senhor (o que lhe tinha sido proibido - leia 1 Samuel 15), não bastava somente um coração disposto: era preciso agir conforme a vontade determinada por Deus (1Cr 15.13).

Deste modo, esteja certo de que diversas vezes você encontrará aparentes incongruências na Bíblia. Faço questão de frisar: aparentes. Você verá que determinadas doutrinas parecem conflitar umas coisas as outras: se Deus é totalmente soberano, como pode dizer que os homens são responsáveis por suas ações? Se Deus é quem elege e salva, como os homens devem se arrepender?

Fixe-se, desta forma, e tome a resolução de John Newton (1725-1807): "Irei atribuir todas as aparentes incoerências da Bíblia à minha própria ignorância."

6. Esteja pronto para ser ignorado, contrariado e outras tantas coisas

Tendo em vista que são poucos os estudiosos sérios da Palavra de Deus, frequentemente você exporá a doutrina correta e será liberalmente ignorado e "taxado" de fundamentalista, pois "só crê no que a Bíblia diz".

Jamais se esqueça, entretanto, que você deve ter justo motivo para ser tratado desta maneira. Muitos se utilizam do versículo, "Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus" (Mt 5.10) para justificarem que a perseguição é justa por si mesma. Note, porém, que nos é dito, igualmente: "Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa" (Mt 5.11 - grifo do autor). Os cristãos sofrem perseguição quando são acusados falsamente - nada tem a ver, portanto, com alguém ser acusado justamente em virtude de heresia e desvio moral.

Para ser enquadrado em tal bem aventurança, o cristão deve saber provar biblicamente que sua posição encontra lastro escriturístico e também histórico. De nada adiantará defender o pastorado feminino, ser "taxado" de liberal e dizer que está sendo perseguido pela causa de Cristo. Esteja certo de que se isso acontecer, seu estudo não está sendo aproveitável e de modo algum você está sofrendo "por causa da justiça".

7. Não construa falsas expectativas

Qual é sua motivação para estudar teologia? Ser um grande doutor em alguma universidade cristã renomada? Ser preletor de simpósios internacionais evangélicos? Ser eminente pastor e prolífico escritor de livros? Se algum destes postos lhe estão na mente, gentileza os remover.

Diz a Escritura que "Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade" (Fp 2.13), o que significa dizer que não é você quem define onde, como e quando alcançará o que deseja.  Não que seja completamente errado fazer planos (na verdade, dentro do possível, eles são necessários), mas lembre-se do que diz a Escritura: "Do homem são as preparações do coração, mas do SENHOR a resposta da língua" (Pv 16.1).

Estude com o foco em viver para a glória de Deus, como deixa evidente o apóstolo. Como disse Lutero, se Seu chamado for para fazer sapatos, então estude teologia para ser um sapateiro para a glória de Deus, afinal, "quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus" (1Co 10.31). 

Jamais estude querendo ser reconhecido. Estude para ser um bom cristão e, se alcançar este objetivo pela graça de Deus, certamente serás bem aventurado.

8. Não construa a noção de que somente você possui a sã doutrina

Um erro comum no meio cristão e em especial nos centros de estudos, é presenciarmos espécies de "narcisismos teológicos". 

Como figura bem conhecida, o fictício personagem "Narciso" gostava de se olhar e dizer que não havia qualquer pessoa no mundo que se igualasse a ele. De forma muito semelhante, isto ocorre quando se estuda teologia. Muitos se perdem com a vã pretensão de que são os mais ilustres dentre todos os teólogos (ainda que tal pessoa não tenha lido mais do que alguns poucos livros). Muitos são aqueles que, em vez de clamarem como o nobre publicado, "Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!" (Lc 18.13), parecem se ver como os levitas do Antigo Testamento que levavam a Arca da Aliança.

Toda vez que o orgulho tocar em seu coração (e acredite: isso acontecerá uma miríade de vezes!), recorde das prudentes palavras: "A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda" (Pv 16.18). Se você der continuidade ao espírito maligno do pecado, verá que estava certa a Palavra: "Como o soltar das águas é o início da contenda, assim, antes que sejas envolvido afasta-te da questão" (Pv 17.14).

Por mais que sua teologia seja refinada, amparada nas línguas originais e tenha lastro histórico probatório, lembre-se de que do pó viemos e ao pó voltaremos (Gn 3.19). Se você afirmar que é o único detentor da verdade, esteja certo de que o laço do passarinheiro (Sl 91.3) já lhe alcançou e você precisa se arrepender.

Pontuo ainda outra vez para que você não erre por falta de amorosa admoestação: você é um pecador e, portanto, alguém falho. Tenha humildade para reconhecer que mesmo não encontrando uma falha sequer em seu sistema de doutrina, você tem que estar errado em alguma coisa e certamente está agindo errado em muitas outras, pois o único perfeito foi Cristo Jesus - queira se parecer com Ele, mas não por seus próprios méritos.

9. Tenha paciência com os mais fracos na fé

É preciso estabelecer que você, mui provavelmente, não nasceu em um berço com teologias sistemáticas ao seu redor e nem ouvia, ao fim de cada dia, seu pai ler a história de O Peregrino ou lhe contava as histórias sobre a Assembleia de Westminster. Se por acaso o leitor tiver tido tal bênção, aleluias - mas a maciça maioria não cresceu nestas condições. Por isso, não seja leviano ou áspero com aqueles que lhe perguntarem e indagarem um sem número de vezes os "porquês" e "porquês" de isso ser "assim" e "assim". Evidente, é claro, que você deve os estimular a também estudar, mas mantenha o foco na graça e rogue ao Senhor para que lhe dê paciência e amor.

Paciência não é sinônimo de enfado com falso sorriso. Muitas vezes as pessoas lhe perguntarão o que é certo fazer em determinada situação e posteriormente você as verá agindo contrário ao que lhes foi dito. Não se desespere - faz parte da vida pecaminosa e elas devem obedecer a Palavra, não a você. Use seu estudo e conhecimento e vá até o irmão e o admoeste, "para que nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado" (Hb 3.13).

Sempre tenha à memória: "Nós o amamos a ele porque ele nos amou primeiro" (1Jo 4.19). Se você deseja que o próximo compreenda a fé e cresça em conhecimento, leve cativo o fato de Cristo ter lhe amado primeiro. Você nada fez para merecer coisa alguma.

10. Você passará o restante de sua vida estudando

Longe desta preposição querer soterrar qualquer falta de ânimo, o intento é que você o recupere. É preciso não fugir do ideal bíblico: "E crescia Jesus em sabedoria, e em estatura, e em graça para com Deus e os homens" (Lc 2.52).

Se Cristo, na pessoa de homem (Fp 2.7), cresceu continuamente em sabedoria, não creia ser diferente com você. Esqueça o paradigma de que "aprendemos até X ou Y idade". O cristão vive na dependência do Senhor e para isso clama por mais sabedoria a cada dia: "Oh! quanto amo a tua lei! É a minha meditação em todo o dia" (Sl 119.97).

Tamanha é nossa necessidade, que dispõe a Escritura: "Se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá liberalmente, e o não lança em rosto, e ser-lhe-á dada" (Tg 1.5). A Bíblia e livros nunca podem ser demais para você. Um verdadeiro estudioso jamais dirá que "não precisa mais ler a Bíblia". Ainda que alguém possa saber toda a Palavra mentalmente, até mesmo versículo por versículo, o conhecimento destes versículos são maiores que sua literalidade. 

A palavra de Deus é como a profundeza do mar: aparentemente escura, mas basta um olhar atento sob à luz do Espírito Santo e os maravilhosos ensinamentos serão enxergados. Quanto mais fundo você for, mais agraciado será.

___________________

Estas são algumas preposições que devemos ter em mente antes de nos lançarmos ao estudo. A seguir, veremos: "O que é Teologia?"

O culto online e a tentação do Diabo

Você conhece o plano de fundo deste texto olhando no retrovisor da história recente: pandemia, COVID-19... todos em casa e você se dá conta ...