segunda-feira, 18 de junho de 2012

Série: Homem e Mulher os criou - parte 12 - Homem e Mulher no Jardim - A Expulsão do Jardim e Sua Consequência - Sermão pregado dia 17.06.2012



Série: Homem e Mulher os criou - parte 12 -
Homem e Mulher no Jardim - A Expulsão do Jardim e Sua Consequência
Sermão pregado dia 17.06.2012


Este estudo bíblico que tivemos foi gravado em vídeo - clique no link para assistir: http://twitcam.livestream.com/ahsla

Tendo uma vez recebidos a sentença condenatória, Adão e Eva não podiam mais realizar coisa alguma - a justa punição de Deus havia se estabelecido sobre eles. Observamos que o último ato de Adão foi um ato quase que de misericórdia própria, pois não intentou fuga ou desejou morrer, e sim se consolou dando o nome que denota "vida" para sua esposa e, assim, recebendo alento em meio a miséria que agora os cercava. Todavia, como já nos é sabido, apesar do Senhor não ter eliminado suas vidas para sempre, também não permitiu que o casal ficasse com sua primeira tentativa de remediar o pecado - para isso, então, o Senhor lhes proveu novas vestimentas: "E fez o SENHOR Deus a Adão e à sua mulher túnicas de peles, e os vestiu" (Gn 3.21).

Diferentemente das folhas de figueira que anteriormente haviam cosido para si mesmos (Gn 3.7), agora o Senhor lhes reveste com uma cobertura de acordo com o estado pecaminoso, mas que também os livrasse dos impropérios da vida do pecado e prefigurasse a semente da mulher que esmagaria a serpente (Gn 3.15). O puritano Matthew Henry comenta:

"Quando Deus fez roupas para nossos primeiros pais, Ele as fez quentes e fortes, mas grosseiras e muito simples; não mantos de escarlate, mas casacos de pele. Que aqueles que são pobremente vestidos, aprendam daqui para não reclamar. Tendo alimento e uma cobertura, que estejam contentes, pois estão como Adão e Eva. E que os que estão finamente vestidos, que aprendam a não fazer do vestuário o seu adorno. Os animais, de cujas peles eles foram vestidos, o que se supõe que foram mortos, não para o alimento do homem, mas para sacrifício, a fim de tipificar a Cristo, o grande Sacrifício. Adão e Eva fizeram para si aventais de folhas de figueira, uma cobertura muito estreita para os cobrir, como em Isaías 28.20 - tais são os trapos de nossa própria justiça. Mas Deus fez  túnicas de pele, grandes, fortes, duráveis e aptas para eles: esta é a justiça de Cristo, portanto, os revestiu do Senhor Jesus Cristo." [1]

Entretanto, não foi apenas em sentido positivo que as roupas foram dadas, mas também para exemplificar a miséria em que homem e mulher se encontravam. Assim comentou o reformador João Calvino:

"A razão porque o Senhor os vestiu com roupas de pele, parece-me ser essa:  porque as roupas feitas desse material teriam aparência mais degradante do que as feitas de linho ou lã. Deus, portanto, designou que nossos primeiros pais carregassem em seu vestir a sua própria vileza - da mesma forma como haviam visto anteriormente a sua nudez - e deveriam, portanto, serem relembrados de seu pecado. Entretanto, não é para ser negado que Ele propôs para nós um exemplo, pelo qual nos habituou a um simples e não luxuoso modo de vestir. E eu desejo que pessoas sensíveis reflitam nisso, que pensam que os ornamentos nunca são suficientes, exceto se excederem em magnificência. Não que todo tipo de ornamento seja expressamente condenado, mas porque quando a elegância e esplendor imoderados são buscados, não somente o Mestre é desprezado - aquele que destinou as roupas para serem um sinal de vergonha -, mas a luta é, também, em certo sentido, realizada contra a natureza [estabelecida por Deus]." [2]

Há ainda um terceiro sentido dessa passagem, mas o veremos posteriormente. [3]

O relato segue-nos dizendo: "Então disse o SENHOR Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal;" (Gn 3.22). A forma como Deus se expressara para Adão e Eva, em certo sentido parece-nos ser na forma de uma ironia divina; não a ironia na forma comumente entendida pelos homens, mas sim  um expressar divino, como que dizendo: "O homem intentou ser como Deus, desejou conhecer o bem e o mal e ser dono de suas próprias escolhas - então, já que desejou conhecer o bem e o mal, agora será destinado ao fim que desejou: conhecerá verdadeiramente o mal. Se antes desobedecera Minha ordem e desejara vislumbrar o mal, agora o poremos num lugar que reflete esse seu desejo." Esse entendimento é corroborado com a continuação do versículo que diz: "ora, para que não estenda a sua mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente, O SENHOR Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden, para lavrar a terra de que fora tomado" (Gn 3.22-23)

Aqui, a não ser que alguém seja tão perverso e destituído das faculdades mais simples do homem regenerado, penso que todos entenderão que o Senhor cancelou, de uma vez por todas, o acesso do homem à árvore da vida. Agora, por causa do pecado, de modo algum o homem pode encontrar a árvore da vida, dela se alimentar e possuir a vida eterna. Assim como um homem que tem sua visão plena em um dia, mas no dia seguinte é acometido de grandes trevas diante de si, de igual modo homem e mulher estavam privados de achar àquela doce e agradável árvore da vida. Nunca mais o homem poderia ter a salvação, nem sob o mais sublime e clemente desejo do coração o homem poderia alçar voo e voltar por si só ao relacionamento com o Senhor. O autor de Eclesiastes compreendeu muito bem esse ensino: "Eis aqui, o que tão-somente achei: que Deus fez ao homem reto, porém eles buscaram muitas astúcias" (Ec 7.29). Isto é, embora Adão tenha sido criado em completa pureza, buscou meios contrários ao Senhor e, por isso, agora estava privado para todo o sempre do pacto de obras, pois já não podia o cumprir - dependeria apenas da graça do Senhor.

Portanto, chamo a atenção de todo leitor e questiono: que é esse o ensinamento, então, senão como que mil sóis juntos a iluminar-nos a compreensão e nos bradar em alta voz: "Homem, não tens livre arbítrio (Rm 9.15-16)! Tu estás morto em delitos e pecados (Cl 2.13)! A árvore da vida não é mais possível para ti (Gn 3.22-23)! Te resta apenas a graça de Deus (Ef 2.8)! Abandone teu querer e renuncie tuas pretensões (Gl 2.20)! Se renda a Cristo (1Pe 5.6)!"? Penso que nenhum homem sincero, após atentar para esse capítulo das Escrituras, pode continuar com suas vãs pretensões e ainda crer que seja livre para ir até Cristo; pois o que seria mais claro do que a própria voz do Senhor ressoando sobre toda a terra e condenando Adão e Eva e toda sua posterioridade?

No tocante a esse ensino bíblico, é ainda preciso salientar que em hipótese alguma o Senhor foi injusto com Adão e Eva, pois assim havia sido estabelecido o pacto de obras: "E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás" (Gn 2.16-17 - grifo meu). A ordem era clara: se comessem do que o Senhor ordenou, teriam vida; se violassem o preceito, haveria morte. Portanto, a privação de chegarem à árvore da vida nada mais foi do que parte da justa condenação do Eterno, pois haja vista que Ele não pode mudar (Ml 3.6) e nem sofrer sombra de variação (Tg 1.17), era preciso que executasse a sentença condenatória sobre Adão e Eva - Deus é amor, mas também é justiça.

Porém, pelas graças sem medida que têm sido derramadas desde a eternidade, o Senhor não jogou o homem no inferno ou o torturou para todo o sempre. Sobre a sentença, "O SENHOR Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden, para lavrar a terra de que fora tomado", novamente as palavras piedosas de Matthew Henry nos são uteis: "Deus lançou o homem para fora, disse que ele não deveria mais ocupar e se aproveitar do jardim: mas o homem gostava do lugar e não estava disposto a deixá-lo, portanto, Deus o fez sair. Isso significou o desligamento para com Ele e toda a sua raça [de Adão] da comunhão com Deus, que era a felicidade e glória do paraíso. Mas o homem somente foi enviado para lavrar a terra de que fora tomado. Ele foi enviado a um lugar de trabalho, e não um lugar de tormento." [4]

Neste ponto, se demonstra de maneira ímpar a bondade do Senhor, pois, embora homem e mulher pudessem e devessem(!) ser condenados ao tormento eterno - e se assim Deus procedesse estaria sendo completamente justo -, aprouve ao Artífice abundar em misericórdia para com o homem vil e pecador, sendo, portanto, absolutamente necessário que levemos cativo em nossos corações o grande ensino divino: "As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim" (Lm 3.22).

Por fim, para que nenhum homem intentasse - apesar de já ser de uma clarividência solar - que mesmo após a queda ele pode ir até Cristo apenas por seu desejo e querer, temos ainda registrado: "E havendo lançado fora o homem, pôs querubins ao oriente do jardim do Éden, e uma espada inflamada que andava ao redor, para guardar o caminho da árvore da vida" (Gn 3.24). Essa sentença escriturística nos salta aos olhos e ecoa em nossa mente, de modo que ficamos atônicos e "paralisados" diante da ruína espiritual em que nossos primeiros pais se encontraram e também nós agora estamos.

Conforme descreveu Henry, o Senhor precisou lançar "fora o homem" do jardim, pois se tão somente "pedisse gentilmente" que ele se retirasse, além de estar se submetendo à soberania humana (o que só de imaginar já é horroroso), também estar pedindo algo completamente impossível para o homem, afinal, qual de nós trocaria um jardim glorioso por um país de guerra e um lugar onde a santidade habitava, por um território hostil e dificultoso? Também nos espanta e causa-nos um medo santo, pois não somente o homem foi lançado para fora, mas também a entrada para o jardim foi fechada - não por um simples mortal, mas pelo Senhor do Exércitos e por "querubins".

Que pode um homem fazer contra o Senhor de toda terra? Como pode um homem de carne e osso querer desafiar um ser celestial, cujo calor da espada flamejante já nos põe em fuga? Nessa grande e preciosa narrativa da queda do homem, visualizamos de modo especial qual é a situação do homem diante do Senhor: completamente incapaz de realizar coisa alguma. O caminho da vida é guardado pelo Senhor, por Sua espada e por Seus querubins. Isto nos ensina o grandioso cuidado que devemos ter em afirmar que desejamos, por nossa suposta autonomia, nos achegarmos ao trono do Altíssimo. Há um Deus amoro que cuidou e ainda cuida do homem, mas Ele também é irado - "Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus" (Rm 11.22).

O leitor que recordar de toda a beleza que anteriormente havia e a ruína que agora há, penso que se considerar diligentemente o favor de Deus no cuidado do homem, de modo algum desejará acrescentar ou diminuir qualquer palavra das Escrituras (Dt 12.32), intentará afirmar que ainda possui algo de bom (Rm 3.23), mas sim dobrará seus joelhos e com lágrimas nos olhos agradecerá ao Senhor, "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus" (Ef 2.8).

Ao contemplar a malignidade em que esse mundo se encontra, olhe para Cristo e Sua cruz que levou os pecados de todos os Seus filhos. Não deseje conquistar sua própria salvação, justificação, regeneração, santificação... "Tendo por certo isto mesmo, que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo" (Fp 1.6). Reconheçamos que a partir da expulsão do Éden, precisamos tão somente nos pautar pelas Escrituras, porque já não conversamos face a face com o Senhor, pois o pecado fez separação entre Deus e o homem (Ef 2.14). Se confiamos que o Senhor é misericordioso e grandemente benigno para conosco, então, apesar de muitas coisas nos serem difíceis de aceitar, oremos para que o Senhor nos conceda graça e nos permita compreender a aplicar Sua palavra, de modo que não ultrajemos os Seus preceitos e nem tentamos avançar contra seus querubins e Sua espada flamígera que está irada contra o pecado.

Olhemos, portanto, como deve ser a vida - após o pecado - em alguns aspectos específicos. [5]

Notas:
[1] HENRY, Matthew. Concise Commentary on Genesis (disponível na internet) - tradução livre.
[2] CALVIN, John. Commentaries on Genesis, Baker Books, págs. 181-182 - tradução livre.
[3] Mais adiante veremos o padrão de modéstia (no vestir-se) que o Senhor estabeleceu para o homem e mulher.
[4] HENRY, Op. Cit. - tradução livre.
[5] Já consideramos o papel do homem e da mulher na família, por isso não nos deteremos novamente nele.

sábado, 16 de junho de 2012

Como Lidar com Controvérsias e Debates Sobre o Evangelho? (parte 2)


Você encontrará uma terceira classe de leitores, que, pensando como nós, aprovarão prontamente o que você dirá e, talvez, serão estabelecidos e firmados em seus pontos de vista sobre as doutrinas das Escrituras, por meio de uma elucidação clara e magistral do assunto. Você pode ser um instrumento para a edificação deles, se a lei da bondade, bem como a da verdade, regularem sua caneta, pois, de outro modo, você lhes causará danos.

Existe um princípio do “eu” que nos leva a desprezar todos aqueles que discordam de nós. E geralmente nos encontramos sob a influência deste princípio, quando pensamos estar apenas mostrando um zelo conveniente na causa do Senhor. Creio prontamente que os principais argumentos do arminianismo surgem do orgulho humano — e são nutridos por tal orgulho. Todavia, devo me alegrar se o contrário sempre foi verdadeiro. Também creio que aceitar o que é chamado de doutrinas calvinistas consiste em um sinal infalível de uma mentalidade humilde.

Tenho conhecido alguns arminianos — ou seja, pessoas que, por falta de mais iluminação, têm se mostrado receosas de abraçar as doutrinas da graça gratuita — que têm dado evidências de que seus corações estavam em profunda humildade diante do Senhor. E temo que haja calvinistas que, enquanto tomam como prova de sua humildade o fato de que estão dispostos a degradar, em palavras, a criatura e dar toda a glória da salvação ao Senhor, desconhecem o tipo de espírito que possuem.

Aquilo que nos faz ter confiança de que, em nós mesmos, somos comparativamente sábios ou bons, a ponto de tratar com desprezo aqueles que não subscrevem nossas doutrinas ou seguem o nosso grupo, é uma prova e um fruto do espírito de justiça própria. A justiça própria pode se alimentar de doutrinas, bem como de obras. Um homem pode ter o coração de um fariseu, enquanto a sua mente está repleta de conceitos ortodoxos sobre a indignidade da criatura e as riquezas da graça gratuita. Sim, eu poderia acrescentar: os melhores dos homens não estão completamente livres deste fermento. Por isso, eles estão propensos a se satisfazerem com apresentações que podem levar os nossos adversários ao ridículo e, por conseqüência, bajular as nossas opiniões superiores.

Controvérsias, em sua maioria, são administradas de modo a favorecer, e não a reprimir, esta disposição errada. Portanto, falando de modo geral, as controvérsias produzem pouquíssimo bem. Elas provocam aqueles aos quais deveriam convencer e envaidecem aqueles que elas deveriam edificar. Espero que seu empreendimento tenha o sabor de um espírito de humildade e seja um meio de promovê-la em outros.

Isto me leva, em último lugar, a considerar nosso interesse em seu atual empreendimento. Parece um serviço louvável defender a fé que uma vez foi entregue aos santos. Somos ordenados a batalhar diligentemente por esta fé e convencer os que se opõem. Se tais defesas foram convenientes e oportunas em tempos passados, parecem que elas também o são em nossos dias, quando erros abundam por todos os lados e cada verdade do evangelho é negada de modo direto ou apresentada de modo grotesco.

Além disso, encontramos poucos escritores de controvérsia que não têm sido claramente prejudicados por ela — ou por desenvolverem um senso de importância pessoal, ou por absorverem um espírito de contenção irada, ou por afastarem insensivelmente sua atenção das coisas que constituem o alimento e a sustentação imediata da vida de fé e gastarem seu tempo e forças em assuntos que, em sua maioria, são apenas de valor secundário. Isto nos mostra que, se o serviço é louvável, ele é também perigoso. Que benefício um homem pode ter em ganhar a sua causa, silenciar o adversário, se, ao mesmo tempo, ele perde aquele espírito de humildade e contrição que deleita o Senhor e conta com a promessa de sua presença?

Sem dúvida alguma, o seu alvo é bom, mas você tem necessidade de vigilância e oração, pois Satanás estará à sua mão direita para opor-se a você. Ele tentará destruir suas opiniões. E, embora você se levante em defesa da causa de Deus, ela pode tornar-se sua própria causa, se você não estiver olhando continuamente para o Senhor, a fim de ser guardado e alertado por Ele, naquelas disposições que são incoerentes com a verdadeira paz de espírito; isto certamente obstruirá a comunhão com Deus. Esteja alerta contra o permitir que alguma coisa pessoal entre no debate. Se você acha que foi injuriado, terá a oportunidade de mostrar que é um discípulo de Cristo, pois Ele, “quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças” (1 Pe 2.23). Este é o nosso padrão; por isso, temos de escrever e falar por Deus, “não pagando mal por mal ou injúria por injúria; antes, pelo contrário, bendizendo, pois para isto mesmo fostes chamados” (1 Pe 3.9).

A sabedoria que vem do alto não é somente pura, mas também pacífica e cordial. A falta destas qualidades, à semelhança da mosca morta em uma vasilha de ungüento, estragará o sabor e a eficácia de nossos labores. Se agirmos com espírito errado, traremos pouca glória para Deus, faremos pouco bem ao nosso próximo e não obteremos nem descanso nem honra para nós mesmos.

Se você puder se contentar com o expressar a sua opinião e, assim, conquistar o sorriso de seu oponente, isto será uma tarefa fácil. Mas espero que você tenha outro alvo mais nobre e que, estando sensível à solene importância das verdades do evangelho e à compaixão pelas almas dos homens, você preferirá ser um meio de remover preconceitos em uma única ocasião a obter os aplausos inúteis de milhares. Portanto, vá em frente, no nome e na força do Senhor dos Exércitos, falando a verdade em amor. E que o próprio Senhor dê em muitos corações um testemunho de que você é ensinado por Ele e favorecido com a unção do Espírito Santo.

por John Newton

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Como Lidar com Controvérsias e Debates Sobre o Evangelho? (parte 1)


Visto que você está envolvido em controvérsia e que o seu amor pela verdade está unido a um entusiasmo natural de temperamento, um amigo me deixou apreensivo a seu respeito. Você está do lado mais forte, porque a verdade é poderosa e tem de prevalecer. Assim, mesmo uma pessoa de habilidades inferiores pode entrar na batalha confiante na vitória.

Por essa razão, não estou ansioso pelo acontecimento da batalha. Mas desejo que você seja mais do que vencedor e triunfe, não somente sobre o seu adversário, como também sobre você mesmo. Se você não pode ser vencido, pode ser ferido. A fim de preservá-lo de tais feridas, que lhe poderiam dar motivo de chorar por suas conquistas, quero presenteá-lo com algumas considerações, que, devidamente atendidas, lhe servirão de cota de malha, um tipo de armadura do qual você não precisará queixar-se, como o fez Davi em relação à armadura de Saul, a qual era incômoda e inútil. Você perceberá que esta cota de malha foi extraída do grande manual dado ao soldado cristão, a Palavra de Deus.

Estou certo de que você não espera qualquer desculpa por minha liberdade; por isso, não oferecerei nenhuma. Por amor ao método, reduzirei meu conselho a três assuntos: o seu adversário, o público e você mesmo.

Quanto ao seu oponente, desejo que, antes de começar a escrever contra ele e durante todo o tempo em que estiver preparando a sua resposta, você o confie, por meio da oração sincera, ao ensino e à bênção do Senhor. Esta atitude terá a tendência imediata de conciliar seu coração ao amor e à compaixão por seu adversário; e tal disposição exercerá boa influência sobre tudo o que você escrever. 

Se você acha que seu adversário é um crente, embora esteja grandemente errado no assunto debatido entre vocês, as palavras de Davi a Joabe, a respeito de Absalão, lhe são bastante aplicáveis: “Tratai com brandura... por amor de mim” (2 Sm 18.5). O Senhor ama e tolera o seu oponente; portanto, você não deve menosprezá-lo ou tratá-lo com aspereza. O Senhor tolera igualmente a você e espera que demonstre ternura para com os outros, motivado pelo senso de perdão de que você mesmo tanto necessita.

Em breve, vocês se encontrarão no céu. Ali, ele lhe será mais querido do que o amigo mais íntimo que você tem agora neste mundo. Em seus pensamentos, antecipe aquele tempo. E, embora você julgue necessário opor-se aos erros dele, encare-o pessoalmente como um irmão, com quem você será feliz, em Cristo, para sempre. Mas, se você o considera uma pessoa não-convertida, em um estado de inimizade contra Deus e a graça dEle (esta é uma suposição que, sem boas evidências, você não deve se mostrar disposto a admitir), ele é mais um objeto de sua compaixão do que de sua ira.

Infelizmente, “ele não sabe o que está fazendo”. Mas você sabe quem o tornou diferente. Se Deus, em seu soberano prazer, assim o tivesse determinado, você poderia ser o que o seu adversário é agora; e ele, em seu lugar, estaria defendendo o evangelho. Por natureza, vocês eram igualmente cegos. Se você atentar a este fato, não censurará nem odiará o seu oponente, porque o Senhor se agradou em abrir os seus olhos e não os olhos dele.
De todas as pessoas que se envolvem em controvérsia, nós, que somos chamados calvinistas, estamos especialmente obrigados, por nossos princípios, a exercer gentileza e moderação. Se aqueles que diferem de nós têm capacidade de mudar a si mesmos, podem abrir seus próprios olhos e amolecer seus próprios corações, então, nós podemos, com menor incoerência, ser ofendidos pela obstinação deles. Contudo, se cremos no contrário disso, nosso dever é não contender, mas instruir, com mansidão, aqueles que se opõem, “na expectativa de que Deus lhes conceda... o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade” (2 Tm 2.25).

Se você escrever com o desejo de ser um instrumento de corrigir erros, é claro que terá cautela para não ser uma pedra de tropeço no caminho dos cegos, nem utilizar expressões que podem incendiar as paixões deles, confirmá-los em seus preconceitos e, por meio disso, tornar mais impraticável (do ponto de vista humano) o convencimento deles.

Por meio da página impressa, você apela ao público; e seus leitores podem ser classificados em três grupos. Primeiramente, aqueles que discordam de você em princípio. Sobre estes posso reportar-lhe o que já disse antes. Embora você tenha em vista, principalmente, um único indivíduo, há muitos com opinião idêntica à dele; portanto, a mesma argumentação poderá atingir uma só pessoa ou milhares.

Também haverá muitos que darão pouquíssima consideração ao cristianismo, bem como à idéia de pertencerem a um sistema religioso estabelecido, e que estão engajados na luta em favor daqueles sentimentos que são, no mínimo, repugnantes às boas opiniões que os homens naturalmente possuem a respeito de si mesmos. Estes são incompetentes para julgar doutrinas, mas podem formular uma opinião tolerável a respeito do espírito de um escritor. Eles sabem que mansidão, humildade e amor são as características do temperamento de um crente. E, embora tais leitores finjam considerar as doutrinas da graça como meras opiniões e especulações que, supondo fossem adotadas por eles, não teriam qualquer influência saudável sobre seu comportamento, eles sempre esperaram de nós, que professamos estes princípios, que tais disposições correspondam com os preceitos do evangelho. Eles discernem imediatamente quando nos afastamos de tal espírito, considerando isso um motivo para justificar o menosprezo deles para com os nossos argumentos.

A máxima das Escrituras: “A ira do homem não produz a justiça de Deus” (Tg 1.20) é confirmada pela observação diária. Se tornamos amargo o nosso zelo, por utilizarmos expressões de ira, injúria, zombaria, podemos pensar que estamos fazendo um serviço à causa da verdade, quando, na realidade, estamos apenas lhe trazendo descrédito.

As armas de nossa milícia, que sozinhas podem destruir as fortalezas do erro, não são carnais e sim espirituais; são argumentos extraídos corretamente das Escrituras, bem como da experiência, e reforçados por uma aplicação compassiva, capaz de convencer nossos leitores. Estes argumentos (quer convençamos os leitores, quer não) mostram que almejamos o bem da alma deles e estamos contendendo tão-somente por amor à verdade. Se pudermos convencê-los de que agimos com estes motivos, nosso objetivo está parcialmente alcançado. Eles se mostrarão mais dispostos a ponderar, com calma, aquilo que lhes oferecemos. E, se ainda discordarem de nossas opiniões, serão constrangidos a aprovar nossas intenções.

por John Newton

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Oração na Adversidade – Salmo 13.1-2


"Até quando, ó Deus? esquecer-te-ás de mim para sempre? Até quando ocultarás de mim teu rosto? Até quando consultarei minha alma, tendo tristeza em meu coração cada dia? Até quando meu inimigo se exaltará sobre mim?" (Sl 13.1-2).

1. Até quando, ó Deus? É plenamente indiscutível que Davi era grandemente odiado pela maioria do povo, em razão das calamidades e más notícias que circulavam contra ele, ao ponto de quase todos os homens julgarem que Deus não nutria menos hostilidade por ele do que Saul e seus outros inimigos.

Mas aqui ele fala não tanto segundo a opinião de outros, mas de acordo com a angústia de sua própria mente, queixando-se de ser negligenciado por Deus. Não que a persuasão da veracidade das promessas de Deus estivesse extinta de seu coração, ou que ele não descansasse em sua graça; mas quando nos vemos por muito tempo sobrecarregados com calamidades, e quando não mais divisamos qualquer sinal do auxílio divino, este pensamento inevitavelmente se nos impõe, ou seja: Deus se esqueceu de mim! Reconhecer em meio às nossas aflições que ele realmente se preocupa conosco não é muito próprio dos homens nem é o que a própria natureza nos induz a fazer; mas é pela fé que tomamos posse de sua providência invisível. Portanto, Davi, aparentemente, até onde possa ser julgado à luz do real estado de suas atividades, estava de fato esquecido por Deus. Ao mesmo tempo, contudo, os olhos de sua mente, guiados pela luz da fé, penetraram até mesmo a graça de Deus, ainda que estivesse ela envolta em trevas. Quando ele disse que nem sequer um único raio de esperança havia em qualquer direção para a qual se voltasse, até onde a razão humana pudesse julgar, constrangido pela tristeza, ele clama, dizendo que Deus não o levara em conta; e no entanto por sua própria queixa ele fornece evidência de que a fé o capacitara a pôr-se em lugar mais alto, e chega à conclusão de que, ao contrário do juízo da carne, seu bem-estar estava seguro nas mãos divinas. Do contrário, como era possível que tivesse dirigido a Deus seus gemidos e orações? Seguindo este exemplo, devemos então contender contra as tentações, protegidos pela certeza de fé, mesmo submersos no mais emaranhado dos conflitos [cotidianos], confessando que as calamidades que nos induzem ao desespero têm de ser vencidas; justamente como vemos que a fraqueza da carne não podia impedir Davi de recorrer a Deus e de encontrar nele seus recursos. E assim ele associa em seus exercícios, com muita beleza, os sentimentos que aparentemente são contraditórios. As palavras, Até quando, para sempre?, são uma forma defectiva de expressão; mas são muito mais enfáticas do que se ele houvera posto a pergunta segundo o modo usual de falar: Por que demoras tanto?Ao falar assim, ele nos dá a entender que, com o propósito de nutrir sua esperança e encorajar-se no exercício da paciência, ele estendeu sua vista para um horizonte longínquo, e portanto não se queixa de uma calamidade que durava apenas uns poucos dias, como os efeminados e os covardes costumam fazer, os quais só vêem o que está diante de seu nariz, e imediatamente sucumbem ao primeiro assalto. Davi nos ensina, pois, mediante seu exemplo, a estender nossa vista, o máximo possível, para o futuro, a fim de que nossa presente tristeza não consiga privar-nos inteiramente da visão da esperança.

2. Até quando consultarei minha alma? Sabemos que na adversidade os homens se entregam ao descontentamento, volvem seus olhos em torno de si, numa direção, noutra direção, em busca de remédios. Especialmente quando se vêem destituídos de todos os recursos, atormentam-se profundamente e sentem-se confusos ante a confusa multidão de seus pensamentos. E, em meio aos grandes perigos, ansiedade e temor, são compelidos a mudar seus propósitos com muita freqüência, quando não encontram plano algum sobre o qual possam firmar-se com segurança. Davi, portanto, se queixa de que, enquanto pondera sobre os diferentes métodos de obter lenitivo, deliberando consigo mesmo ora de um modo, ora de outro, sente-se exausto sem sequer alcançar um alvo concreto, entre a infinidade de sugestões que percorrem sua mente. E ao juntar a essa queixa a dor que sentia diariamente, ele põe em relevo a fonte de sua inquietude. Quanto mais severa é a indisposição que os enfermos sentem e desejam mudar de posição a cada momento, e quanto mais agudas são as dores que os atormentam, mais agitados e nervosos se tornam, procurando reverter a situação. Portanto, quando a dor se apodera dos corações dos homens, suas miseráveis vítimas são violentamente agitadas em seu íntimo, acham mais tolerável atormentar-se sem obter alívio do que suportar suas aflições com serenidade e com mentes tranqüilas. Na verdade o Senhor promete conceder ao fiel "o espírito de conselho" [Is 11.2]; mas nem sempre lhos dá bem no início de um problema em que se acham envolvidos, senão que os deixa por algum tempo embaraçados, deliberadamente, sem chegar a uma determinada decisão,  ou os mantém perplexos, como se estivessem emaranhados por espinheiros, sem saber se voltam,  ou que rumo tomam. Alguns explicam a palavra, yomam, como significando todos os longos dias. A meu ver, porém, ela significa, antes, outro tipo de prosseguimento, ou seja, que sua dor se revolvia e se renovava a cada dia. No final do versículo ele deplora outro mal, a saber, que seus adversários triunfam sobre ele de uma forma muito ousada, ao perceberem sua total debilidade e, por assim dizer, consumido por 
contínuo langor. Ora, esse é um argumento de muito valor em nossas orações; pois não há nada que desgoste mais a Deus, e que ele menos suportará, do que a cruel insolência que nossos inimigos demonstram, quando não só se alegram em nos ver em miséria, mas também se erguem acima de nós e nos ameaçam o mais desdenhosamente possível, à medida que vêem crescer nossa opressão e desespero.

por João Calvino
Fonte: OCalvinista

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Efésios 1.13 - Também Somos Glória do Senhor (parte 3) - Sou Um Verdadeiro Cristão? - Exposição em Efésios - Sermão pregado dia 10.06.2012


Efésios 1.13 - 
Também Somos Glória do Senhor (parte 3) - 
Sou Um Verdadeiro Cristão? -
Exposição em Efésios - 
Sermão pregado dia 10.06.2012

"Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa" (Ef 1.13 - grifo meu).

O apóstolo tem nos mostrado a importância de compreendermos que uma vez ouvido a palavra da verdade e tendo sido selados com o Espírito Santo, de modo algum o crente verdadeiro pode decair da graça, pois é sustentado pelo poder selador do Eterno, levando o crente a perseverar continuamente (apesar de continuar tendo pecados) e a sempre confiar no Senhor em meio às dificuldades e tribulações. No entanto, para que não insurgissem vozes malignas e deturpadoras da Verdade, o apóstolo acrescenta que selo do Espírito Santo é "da promessa", isto é, de acordo com o próximo versículo que veremos, o guardador fiel de todos os Seus santos. Surge-nos, então, a pergunta: como se pode saber que alguém salvo? Ou ainda: quais os fatos distintivos de um verdadeiro crente?

Vejamos algumas considerações com relação ao exame que devemos realizar em nossos corações a fim de verificarmos se de fato temos o Espírito Santo do Senhor.

1. Regeneração

As Escrituras nos são abundantes em afirmar que o verdadeiro cristão é regenerado pelo Espírito Santo de Deus. De modo algum os homens devem presumir que se pode ser um servo do Alto sem estar ligado a Ele por Seu Espírito. A regeneração, como muitos pensam, não se trata de transformar o homem pecador num homem completamente sem pecado. Entretanto, também não significa que deixará o homem vivendo de acordo com seus próprios caminhos e trilhar uma vida semelhante a que possuía antes da nova vida. É preciso que os crentes compreendam a necessidade de nascerem novamente, ou seja, de terem novas afeições em suas vidas por amor e transformação vinda do Deus soberano.

Nenhum homem, por mais piedoso e moralmente prudente que possa ser, consegue comprar sua regeneração - foi isso que Jesus disse ao fariseu (mestre da lei) Nicodemos: "E havia entre os fariseus um homem, chamado Nicodemos, príncipe dos judeus. Este foi ter de noite com Jesus, e disse-lhe: Rabi, bem sabemos que és Mestre, vindo de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele. Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus" (Jo 3.1-3). Apesar de ser homem notável na sociedade e possuir grande reputação, era descrente e afastado da graça de Deus. Isto nos mostra de modo grandioso e temeroso como que a salvação muitas vezes pode ser apenas uma influência na vida de muitas pessoas. Explico:

Há, quem sabe, milhares de miríades de professos da fé cristã sobre a terra (tenha misericórdia, Senhor!), mas que na verdade recebem apenas uma influência moral do cristianismo, um simples imitar das boas ações compartilhadas por todo homem médio. Para estes, o "verdadeiro cristianismo" se resume em boas ações, atos heróicos e amor para com todos; entendem que uma vida cristã não é aquela pautada pelo estrito ensino bíblico, mas sim aquela que apenas olha para as Escrituras e dela retira "boas lições de vida", como se a Bíblia fosse uma manual exemplificativo e ilustrativo de como se deve viver moralmente - contrariando assim, a clara afirmação bíblica: "Tudo o que eu te ordeno, observarás para fazer; nada lhe acrescentarás nem diminuirás" (Dt 12.32).

Em sentido diametralmente oposto a essa visão, as Sagradas Letras afirmam que não é possível ser salvo se não houver verdadeiro nascer do Espírito de Deus. Esse fato foi claramente visível na vida do faraó egípcio na ocasião em que o Senhor enviou uma grande e terrível saraiva sobre a terra, ao passo que enquanto o reino do Egito era fortemente castigado, faraó disse: "Esta vez pequei; o SENHOR é justo, mas eu e o meu povo ímpios. Orai ao SENHOR (pois que basta) para que não haja mais trovões de Deus nem saraiva; e eu vos deixarei ir, e não ficareis mais aqui" (Êx 9.27-28). Todavia, Moisés que era conhecedor do verdadeiro arrependimento e transformação divina, afirmou: "eu sei que ainda não temereis diante do SENHOR Deus" (Êx 9.30).

Também temos o exemplo do maligno Balaão, que após proferir palavras inspiradas pelo Senhor e abençoar o Seu povo, desceu do monte e os incitou contra o Altíssimo (vide livro de Números). Que diríamos ainda de Judas o traidor? Aquele que andou com Cristo e Seus discípulos, tomou da ceia com  o Mestre, presenciou vários milagres e feitos extraordinários do Senhor, mas jamais foi um verdadeiro santo (isto é, um separado para o Senhor)?

É mister que todo cristão entenda a prioridade que é a regeneração no coração do homem pecador. Homens e mulheres - infelizmente - muitas vezes nascem, crescem e morrem dentro de círculos evangélicos, mas nunca foram realmente regenerados, nunca houve em suas vidas uma real transformação e uma verdadeira e ativa nova vida pulsando em seus seres. "Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou" (1Jo 2.6). Professos da fé cristã que não andam conforme Cristo andou, de modo algum podem ser reputados como verdadeiros filhos de Deus; caso não sejam transformados pelo Senhor e se arrependam de seus pecados, continuarão a ser filhos da ira divina, ainda que habitem em berços evangélicos.

2. Transformação da mente

Quando alguém é um verdadeiro regenerado e trazido das trevas para a luz, não somente tem novos pensamentos, mas também passa a viver de maneira adequada e em regularidade com aquilo que o Senhor lhe ensinou por meio da nova vida. O apóstolo Paulo escreve aos romanos e lhes deixa clarividente qual deve ser o padrão cristão de transformação: "E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus" (Rm 12.2). Um cristão verdadeiro tem sua mente transformada, mas não somente isso - há uma quinada para longe do pecado e um avanço à vontade de Deus revelada nas Escrituras.

Nos será completamente inútil tentar conciliar a transformação da mente e um viver indigno diante do Artífice, pois toda transformação de vida implica em conhecer verdadeiramente ao Senhor. Assim como o homem casado tem sua mente transformada e já não se porta mais como se solteiro fosse, de igual modo o cristão  verdadeiro inicia desejos que anteriormente nunca teve, passa a repudiar coisas que outrora lhe eram agradáveis, já não afirma que é dono de sua própria alma, mas diz: "e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim" (Gl 2.20). Tal declaração paulina certamente não se coaduna com muitas profissões de fé feitas em nossos arraiais ditos evangélicos, pois quantas são almas que dizem ser salvas, mas cujos frutos em suas vidas não são dignos de qualquer menção?

Jesus afirmou: "toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus" (Mt 7.17). Aqui, pontuamos que não são poucas as vezes em que somos tentados a imaginar o contrário dessa afirmação divina ou ainda crer que o "bom" e "mau" são adjetivos variáveis de acordo com a geração em que se vive e o momento em que se está inserido. Contra essas tentações e homens que assim procedem, o profeta Isaías já advertiu: "Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo!" (Is 5.20). Os frutos verdadeiros da árvore boa não são subjetivos, mas sim objetivos e positivados (registrados) na própria Escritura: "Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança" (Gl 5.22).

Porém, aqui é necessário ressalvar que todos esses frutos não são de natureza meramente social e que dizem que o homem cristão é alguém somente moralmente educado, amoroso e benigno. Esse é um conceito completamente maligno das Escrituras, pois, embora Cristo tenha sempre sido bondoso, certas atitudes suas escandalizavam as pessoas: "Então, acercando-se dele os seus discípulos, disseram-lhe: Sabes que os fariseus, ouvindo essas palavras, se escandalizaram?" (Mt 15.12). O escândalo que o Messias causava não era por causa de seu jeito de se expressar, mas sim porque não admitia a falta de coerência entre o professar e o viver. Em outras palavras, assim como aqueles fariseus se achavam grandemente eruditos e dignos de toda bênção do Eterno, semelhantemente somos tentados pelo pecado e tendemos a imaginar que uma vida desconexa com a Palavra pode obter misericórdia da parte de Deus.

Também escrevendo aos romanos, o apóstolo afirma: "Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas para contigo, benignidade, se permaneceres na sua benignidade; de outra maneira também tu serás cortado" (Rm 11.22). Uma mente transformada, além de frutificar de acordo com a palavra de Deus (e tão somente!), também compreende que embora Deus seja amor (1Jo 4.8), o seu amor é justo, verdadeiro e justiceiro. Jamais devemos interpretar as Escrituras e tentar compreender a vida cristã sem entendermos e considerarmos "a bondade e a severidade de Deus". No Senhor, bondade e severidade andam juntas e são inseparáveis, pois uma vez que Deus é completo em si mesmo, tentar desmembrá-lo é retirar-lhe parte de Sua soberania e onipotência, fazendo com que desça do trono celestial e passe a trabalhar nos campos como lacaio do ser humano vil e pecador.

O cristão que teve sua mente transformada, agora passa a atentar para a ira de Deus e compreende que Ele é reto e justo em todo o Seu decreto divino, afinal, "Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus" (Rm 3.23), de modo que ser vivo algum tem o direito de se achegar diante de Deus e questioná-lO sobre Seu proceder - "Que diremos pois? que há injustiça da parte de Deus? De maneira nenhuma. Pois diz a Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece" (Rm 9.14-16). O verdadeiro e cristão não despreza a ira celestial e não faz pouco caso de seus pecados, na verdade, quanto mais visualiza a obra de Cristo na cruz, mais teme por sua vida, ao passo que também mais estima a graça de Deus, pois é consciente tanto da bondade como da severidade do Alto.

3. Contrição e ódio pelo pecado


Aqui, é preciso ainda atentar para esse importante quesito de um verdadeiro cristão: ele odeia profundamente o pecado. Ainda que ande por caminhos contrários à Lei de Deus, mesmo que continue e morra cometendo atos contrários à Palavra (pois não há alguém que possa alcançar a plena santificação na vida presente), ele se torna intolerante para com o pecado e, tal qual o salmista, é resoluto em dizer: "Não porei coisa má diante dos meus olhos. Odeio a obra daqueles que se desviam; não se me pegará a mim" (Sl 101.3). Também é como Jó e diz: "Fiz aliança com os meus olhos" (Jó 31.1).

O filho verdadeiro do Senhor muitas vezes - literalmente - odeia as obras daqueles que se desviam. O problema de muitos professos da fé cristã não é a falta de amor a Deus, mas o ódio pelo pecado. Assim como não se pode afirmar que se ama ao Senhor que está nos céus, mas que se odeia ao irmão que está próximo (1Jo 4.20), também é preciso compreender o ponto de partida bíblico: se digo que amo a Deus, então devo ter um ódio mortal por tudo que representa o pecado e fere a santidade de Deus. Se ainda não odeio o pecado, então pode ser que ainda não ame verdadeiramente ao Senhor.

Odiar o pecado é parte da luta diária que o crente tem consigo mesmo. Nosso Mestre afirmou categoricamente que o ódio pelo pecado deve ser tão grande e profundo, que por vezes a dor em arrancá-lo pode ser comparada à mutilação de um membro do corpo: "Portanto, se a tua mão ou o teu pé te escandalizar, corta-o, e atira-o para longe de ti; melhor te é entrar na vida coxo, ou aleijado, do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno" (Mt 18.8; Mc 9.43). Observemos igualmente como o Senhor trata o pecado: algo que muitas vezes nos parece ser útil e necessário ao desenvolvimento humano, assim como as mãos ou os pés - mas que não deve ser alvo de nossa misericórdia. Por mais que muitas vezes o pecado faça com que tenhamos sucesso, enriqueçamos, tenhamos boa reputação e estima social, diante do grande Trono, é melhor ir à bancarrota, ter a família na miséria, perecer a ignomínia dos homens e ter a vida eterna, do que entrar no inferno com a conta bancária em muitas cifras e várias coroas de flores sobre o caixão.

A atitude do homem piedoso no Senhor deve ser, portanto, de constante batalha, choro e ira em face do pecado. O salmista e apóstolo nos dizem: "Perturbai-vos e não pequeis" (Sl 4.4), "Mortificai, pois, os vossos membros" (Cl 3.5). Deve haver uma revolta santa dentro do crente que o leva a se perturbar por causa de suas faltas e, ao mesmo tempo, a se lembrar que essa revolta contra o pecado deve ser constante, pois enquanto estamos presos ao corpo dessa morte, devemos mortificar o pecado, isto é, a cada dia devem haver mortes internas e externas por causa de Cristo Jesus.

Todavia, o cristão não somente odeia o pecado, mas também se aflige profundamente quando o comete, a tal ponto de muitas vezes sentir-se totalmente vazio da alegria que outrora já tivera experimentado: "Torna a dar-me a alegria da tua salvação, e sustém-me com um espírito voluntário" (Sl 51.12). Assim como o salmista estava resoluto em clamar ao Senhor para que lhe desse nova estima e espírito inclinado para Ele, também precisamos clamar como os doentes que vinham até Cristo e tão somente suplicavam: "Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim" (Lc 18.38).

É preciso que fixemos em nosso entendimento que o mero amargurar-se pelo pecado não finda o dever cristão, é preciso ir diariamente para a cruz de Cristo e nela encontrar refúgio, alívio e fortaleza. O mesmo Salmo 51 nos revela novamente essa atitude: "Purifica-me com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e ficarei mais branco do que a neve. Faze-me ouvir júbilo e alegria, para que gozem os ossos que tu quebraste" (Sl 51.7-8). Se a vida cristã fosse apenas ódio, batalha e dificuldades, em brevíssimo tempo todos os crentes se fadigariam e desistiriam da caminhada. No entanto, porque pela graça e soberania de Deus constantemente buscam clemência aos pés do Senhor, ficam puros, limpos e podem seguir também com "júbilo e alegria" - apesar de sempre estarem odiando o pecado.

4. Se dedicar a Cristo Jesus conforme ensinam as Escrituras


Portanto, uma vez que são regenerados, tem suas mentes transformadas e passam a odiar o pecado,  também se inclinam diariamente ao senhorio de Cristo. Assim como o exército de Gideão afirmou, "Espada do SENHOR, e de Gideão" (Jz 7.20), semelhantemente o crente precisa bradar com o apóstolo: "Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim" (Gl 2.20).

Para o crente, não basta apenas odiar o pecado, ele precisa se esmerar no trabalho da obra do Eterno. Aqui, friso também a importância ímpar que é conhecer a Cristo Jesus verdadeiramente para, então, poder ser um fiel seguidor e peregrino por sobre esse mundo. Embora muitos afirmem odiar o pecado, estão em contradição consigo mesmos, pois muito do que pensam ser pecado, na verdade não é; ao passo que o que imaginam não ser, por vezes é. A dedicação a Cristo envolve iniciar uma leitura em Gênesis 1 e acabar em Apocalipse 22 - mas não apenas uma vez, e sim reiteradas vezes; e mais: incessantemente com súplicas por misericórdia, crendo que o Senhor é bondoso para com aquele que se achega ao trono da graça. O próprio Cristo, como já temos notado por diversas vezes, afirma ser Ele mesmo as sombras do AT (Lc 24.44), o que nos ensina com grande clareza que todo crente precisa se dedicar também ao estudo do Antigo Testamento, caso contrário poderá declinar para heresias perniciosas e destruidora de almas despreparadas para a caminhada cristã.

Viver para o Senhor implica conhecê-lO de acordo e literalmente como afirmam as Escrituras. E, para que nenhum espírito altivo ouse afirmar que o que aqui é dito é fantasia humana ou "puritanismo exacerbado", afirmamos que temos o aval do próprio Cristo que disse: "Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu ventre" (Jo 7.38 - grifo meu). Sob nenhuma hipótese é possível crer em Cristo e não conhecer as Escrituras. Aquele que afirma ser um professo e devoto da fé em Jesus Cristo, deve ler constantemente a Bíblia e nela se banhar diariamente, pois é um disparate sem igual o afirmar-se crer em alguém que não se conhece. É mister que o cristão verdadeiro busque entender o Antigo Testamento, o sistema sacrificial, a Lei, os profetas, o povo judeu, as ordenanças, castigos, ira divina... para, então, entender quem é Cristo Jesus.

Notemos que o Salvador aplica também uma bênção àqueles que se dedicam ao estudo da palavra (e isto vale para todos os crentes, sem exceção! Não caia no ensinamento perverso que diz que o estudo é somente para teólogos e pastores): "rios de água viva correrão do seu ventre". Essa sentença esta diretamente ligada àquela anterior, "Quem crê em mim, como diz a Escritura", isto é, só teremos a vida eterna do Senhor correndo em nossas vidas, se compreendermos e sermos vivificados pelo verdadeiro Cristo descrito e ativo nas Escrituras. Como já disse alguém, "pode-se adorar um ídolo chamado Jesus".

Muitos, porém, afirmam que não é preciso todo esse conhecimento detalhado, afinal, muitos assim não procedem. Mas, em contraposição a isso, afirmamos com o apóstolo Paulo: "Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra" (2Tm 3.16-17 - grifo meu). Paulo não menciona que apenas as palavras literais de Jesus (registradas nos evangelhos) sejam úteis ou que somente a vida após a ressurreição de Cristo seja interessante e necessária para o crente. Muitos não se apercebem, mas o apóstolo está justamente falando do Antigo Testamento que já era corrente naqueles dias e, portanto, que nenhuma alma pense que pode viver verdadeiramente para o Senhor, se não o conhece conforme dizem as Escrituras - o Antigo e Novo Testamento.

Assim, verificando essas quatro diretrizes, penso que já podemos avaliar se de fato temos o Espírito Santo prometido a todos os Seus filhos.

"Que Deus tenha misericórdia de nós e nos abençoe, e faça resplandecer o seu rosto sobre nós" (Sl 67.1).

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Série: Homem e Mulher os criou - parte 11 - Homem e Mulher no Jardim - A Sentença Condenatória - Sermão pregado dia 10.06.2012



Série: Homem e Mulher os criou - parte 11 -
Homem e Mulher no Jardim - A Sentença Condenatória
Sermão pregado dia 10.06.2012

A narrativa descrita no Éden nos tem mostrado o quão belo e glorioso era o mundo que Deus havia criado. Cada parte correspondia ao exato desígnio do Mestre, as plantas floresciam com grande esplendor e beleza, os rios forneciam constante água límpida e pronta para o uso, as árvores de todo tipo eram magníficas e muitíssimas davam seus frutos para o deleite das criaturas feitas pelo Senhor. Homem e mulher, cada qual com seu papel, eram firmemente cônscios de seus deveres, de modo que amavelmente o homem guiava sua esposa e ela, por sua vez, se submetia ao seu reinado. Absolutamente tudo era imaculado e não havia sequer uma aparição de trevas ou algo não agradável aos olhos da criação. No entanto, como vimos, homem e mulher desobedeceram e caíram – "e foi grande a sua queda" (Mt 7.27).

Como já apontado anteriormente, a queda de nossos primeiros pais estava dentro da soberania divina, de modo que o Senhor não foi surpreendido pela atitude humana, pois tudo estava dentro de Seu decreto. Portanto, vejamos de maneira breve o evento subsequente à queda: Gn 3.7-20.


As Escrituras nos relatam que o primeiro ato após a queda do casal, foi a visualização de sua nudez: "Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais" (Gn 3.7). Nos é clarividente a narrativa, de forma que de imediato entendemos que antes da queda não havia sensibilidade para com a falta de vestes, isto é, homem e mulher não tinham vergonha de seus corpos, não havia verdadeira nudez, pois ainda a completa imagem e semelhança do Senhor estava em seus corpos. Uma vez tendo caídos do estado glorioso, passaram a visualizar sobre própria nudez - tanto de um para com o outro como para o Senhor. A queda de Adão e Eva nos revela que o pecado nos desnuda diante do Altíssimo, nos expõe perante Deus e nos faz conscientes de quão indignos e desprovidos de qualquer bem inerente somos.

O presente versículo também nos exorta sobre o quão "natural" é para o homem caído e embrenhado no pecado o tentar consertar por si mesmo a situação. Note que "e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais", mas, posteriormente "fez o SENHOR Deus a Adão e à sua mulher túnicas de peles, e os vestiu" (Gn 3.21). [1] O Senhor não se agradou e ainda hoje não se agrada de nossos feitos em prol da remediação do pecado, pois ainda que pudéssemos coser os mais belos e perfeitos aventais que um ser humano pudesse confeccionar, ainda assim, diante do Senhor, não estaríamos completamente e decentemente cobertos, afinal, uma vez tendo pecado e transgredido o mandamento do Artífice, somente Ele é quem pode nos libertar da malignidade e vileza em que nos encontramos, de modo que toda obra de nossas mãos nada mais são do que vis cavilações e subterfúgios inúteis com finalidade de nos justificar ante ao Senhor.

Após a visualização de sua nudez e a tentativa frustrada de consertarem sua exposição diante de Deus, "ouviram a voz do SENHOR Deus, que passeava no jardim pela viração do dia; e esconderam-se Adão e sua mulher da presença do SENHOR Deus, entre as árvores do jardim" (Gn 3.8). Agora já não mais havia paz entre o casal e o seu criador. O Senhor que estava junto deles em momentos anteriores à queda [2], agora é visto como um estranho, um intruso, alguém que não é bem-vindo, como se de Criador e Sustentador, passasse a ser usurpador e salteador. O modo de viver anterior a queda era belo, formoso e singelo, ao passo que após a queda, já não mais observavam o Senhor de forma gloriosa - Ele passou-lhes a ser um ente estranho, alguém cuja presença já não era adorável, mas tão somente temível por causa de seus pecados e afrontas mortais.

Observemos como o pecado desgraçou a inocência da consciência. Se anteriormente podiam livremente andar nus diante do Eterno - representando assim [também] a contínua dependência que tinham do Senhor e a insuficiência em si mesmos -, agora, apenas o ouvir da voz do Senhor em meio à criação já era motivo para alarme, desconfiança e medo: "E chamou o SENHOR Deus a Adão, e disse-lhe: Onde estás? E ele disse: Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me" (Gn 3.9-10). Assim como as crianças se escondem de seus pais após o desobedecerem conscientemente, também nos parece que tal atitude se deu com Adão e Eva. A voz do Senhor havia deixado de lhes ser graciosa, já não tinham mais prazer na beleza da santidade (Sl 96.9) do Alto; pelo contrário, sequer conseguiam entender quem era o Senhor.

A ênfase que Moisés destaca também é importante, pois não apenas Adão temeu ao Senhor, mas também tentou se refugiar em meio a natureza. Contudo, notemos que atitude errônea foi essa e completamente desprovida de sensibilidade divina, afinal, como Jó afirmou - "Porque ele vê as extremidades da terra; e vê tudo o que há debaixo dos céus" (Jó 28.24) -, de que forma seria possível ao homem o esconder-se na própria criação do Senhor soberano? O esconder-se do Senhor nos revela também a vontade natural do homem - o tentar afastar-se para o mais distante que conseguir da presença Eterna. Porém, o Senhor bem sabia para onde Adão havia ido e o que havia feito. Como que nunca pergunta soberanamente cônscia da resposta, o Senhor diz: "Quem te mostrou que estavas nu? Comeste tu da árvore de que te ordenei que não comesses?" (Gn 3.11). Deus não desejava saber a resposta, pois uma vez que reside nele toda soberania e controle da criação, não havia - e não há - coisa alguma que lhe fugisse à vista. A pergunta, portanto, visava apenas a incriminação do homem e sua insuficiência em responder.

Aqui, então, começamos a notar outro ponto crítico da Queda: o não reconhecer dos próprios erros (Sl 19.12) e passar a culpa adiante. "Então disse Adão: A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi" (Gn 3.12). Ao contrário do que lhe havia sido incumbido, por ocasião do pecado, Adão não compreende o seu papel na Queda, não compreende que ele também havia caído e maculado a glória do Senhor em seu ser, não percebera em quão lamentável situação se encontrava - preferia se achar digno de alguma clemência e por isso apontou o culpado: "A mulher que me deste por companheira". Da mesma forma se passa com a mulher: "E disse o SENHOR Deus à mulher: Por que fizeste isto? E disse a mulher: A serpente me enganou, e eu comi" (Gn 3.13). Não bastasse o homem haver negligenciado seu dever, agora a mulher também se escusa da responsabilidade e aponta a razão de sua queda:  "[a] serpente me enganou". Mas, diferente do homem e da mulher, à serpente não foi dada autorização para falar - a ela restava apenas a condenação.

No entanto, que não nos passe despercebido o seguinte detalhe: embora tenham tentado se esquivar da responsabilidade, tinham consciência de que eram transgressores e pecadores, pois ambos disseram "e comi" (vs. 12-13). Adão e Eva sabiam que haviam violado a ordenança do Senhor e que estavam aliados à serpente, eram cientes de que foram descumpridores do pacto de obras, entretanto, ainda assim buscaram apontar um culpado, como que não aceitando o fato de haverem falhado. Fazemos então a brevíssima reflexão: não é isso que ainda hoje costumamos fazer? Não é dessa exata maneira que muitas vezes se dá o nosso proceder? Visualizamos a chance de pecar, pecamos, passamos o pecado adiante, mas dizemos resolutamente: "A culpa não e minha! A tentação foi maior que do eu podia suportar!". Quando assim procedemos, violamos o ensinamento divino que afirma: "o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar" (Gn 4.7).

Importa-nos, então, observarmos a primeira condenação que o Senhor profere: "Então o SENHOR Deus disse à serpente: Porquanto fizeste isto, maldita serás mais que toda a fera, e mais que todos os animais do campo; sobre o teu ventre andarás, e pó comerás todos os dias da tua vida" (Gn 3.14). Até o presente momento da narrativa não havia sido proclamada nenhuma maldição da parte do Senhor. Apesar de já terem cometido pecado, o Eterno ainda não havia lhes castigado diretamente e proferido as duras e penosas consequências da Queda.

Ao contrário do que pode nos parecer justo, o Senhor não imputada sobre Adão ou Eva a maldição primeira, mas sim castiga o estopim do pecado, a saber, a serpente perversa. O castigo recaiu sobre a serpente como animal, mas também como representante do Diabo que era (Ap 20.2). Porém, não somente o animal rastejador foi atingido pelo decreto irado do Senhor, e sim todo o restante dos animais. Se anteriormente o homem e mulher deveriam apenas se alimentar das árvores frutíferas (Gn 2.16), após a queda "Tudo quanto se move, que é vivente, será para vosso mantimento; tudo vos tenho dado como a erva verde" (Gn 9.3) - o ato de se matar a criação (os animais, seres com vida) é fruto do pecado. Agora, já não mais havia paz entre os animais e os seres humanos; se iniciava uma cadeia alimentar onde o mais forte venceria o mais fraco - não haveria piedade ou misericórdia sobre a face da terra.

O Senhor prossegue: "E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar" (Gn 3.15). [3] Apesar de anteriormente a serpente haver prometido que a mulher seria como Deus - e consequentemente se igualaria ao Seu ser -, nada disso aconteceu; na verdade, não somente ficou sem a promessa da serpente, mas também passou a ter a própria serpente como um inimigo diário. A Bíblia não nos releva se a ocasião da queda foi a primeira vez em que a serpente havia se aparecido aos seres humanos, porém, independente disso, antes da queda a serpente não feria o calcanhar da mulher. Portanto, o Senhor sentencia que uma vez embrenhados em meio ao pecado, constantemente a serpente castigaria a criação de Deus, de modo que se não houvesse um libertador (louvado seja o Senhor!), o fim da vida humana já estaria decretado: a morte e tormento eterno - a picada mortífera da víbora.

Tal qual como um juiz togado, o Senhor continua sua sentença condenatória: "E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará" (Gn 3.16). Ainda que muitos tentem desvirtuar o ensino bíblico e sejam como vozes da própria serpente enganadora, a firme, reta e sempre soberana Palavra do Senhor nos afirma que, se anteriormente à queda a mulher era uma ajudadora idônea (Gn 2.18), agora sua idoneidade havia findado, lhe restando somente dores, tanto na concepção dos filhos, como no obedecer ao marido. Desse ponto em diante, a mulher já não está mais obrigada por amor à obediência marital, e sim por imposição, isto é, deve obedecer ao marido, sendo isso agradável ou não - "ele te dominará". [4]

Agora, o Senhor chama o terceiro réu e profere: "E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida" (Gn 3.17). A primeira parte da condenação diz respeito a um gravíssimo erro que Adão havia cometido: "Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher". Adão, como líder e responsável por sua casa, não deveria dar ouvidos a sua mulher. [5] Lhe havia sido dado o dever de lavrar, cuidar da terra e, por implicação, obedecer somente ao Senhor e seus desígnios. [6] A segunda parte da condenação é com respeito a sua atitude para com o Criador: "e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela". Em lugar da obediência e reverência devida, Adão resolveu ir além e mover as linhas limítrofes estabelecidas pelo Senhor. Mesmo sendo cônscio de seu dever de não comer da árvore proibida, ultrajou o mandamento do Senhor e desejou ser dono de suas próprias escolhas. Porém, há ainda uma terceira parte: "maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida".

Ainda que em alguns milhares de anos posteriores a queda, o apóstolo ainda expressa essa realidade: "Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora" (Rm 8.22). Por causa do pecado de Adão, maldita se tornou toda a terra - tudo, absolutamente todas as coisas seriam obtidas "com dor" e dificuldades. Da maravilhosa presença do Senhor, do mais belo Jardim que se podia encontrar e do sustento diário provido bondosamente pelo Senhor (pois a terra dava seu fruto no tempo certo, as sementes germinavam sem falta, as águas fluíam no curso correto), o homem passa a ter sobre si a dor, quem sabe, de um modo geral, seja a mais terrível e temida sensação que alguém pode experimentar, tipificando assim a grandiosa malignidade em que haviam incorrido. Entretanto, para que o homem não pensasse que porventura apenas o sustento lhe seria dificultoso, o Senhor ainda lhe diz: "Espinhos, e cardos também, te produzirá; e comerás a erva do campo. No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás" (Gn 3.18-19). A terra já não seria frutífera como outrora - haveriam pragas por toda ela.

Observemos mais um detalhe salutar: anteriormente havia sido dito: "E o SENHOR Deus fez brotar da terra toda a árvore agradável à vista, e boa para comida... E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente" (Gn 2.9). A provisão para o homem vinha diretamente da própria natureza criada pelo Senhor. As árvores já estavam postas e davam toda sorte de frutos, de modo que o homem e a mulher retiravam seu sustento diretamente da criação providencial. Parece-nos que as Escrituras estão a nos informar sobre que Adão não necessitaria incrementar elementos e benfeitorias humanas a terra, pois a própria natureza do Senhor lhe proveria todos os nutrientes e formas adequadas de sustenta. Todavia, agora o veredito é outro: "e comerás a erva do campo". Tal qual o animal que tem de se dobrar ao chão para obter alimento e tem de se esforçar grandemente para achar comida, assim também estaria o homem diante da terra. Já não mais apanharia das frutas gloriosas dadas pelo Senhor, pois teria de comer da erva do campo. E não bastasse toda essa infelicidade e terrível maldição, como vimos, ainda teria de comer da erva do campo em meio a "Espinhos, e cardos" - No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra. A razão para toda essa maldição era clara: "porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás". Para que o homem não se gloriasse perante o Senhor e não aviltasse a divindade outra vez, o Senhor lhe sentencia que assim como do pó havia sido formado, agora também ao pó voltaria e veria a morte - "Porque eu sei que me levarás à morte e à casa do ajuntamento determinada a todos os viventes" (Jó 30.23).

Por fim, lemos: "E chamou Adão o nome de sua mulher Eva; porquanto era a mãe de todos os viventes" (Gn 3.20). Moisés não nos fornece maiores explicações do porquê desse ato de Adão, mas, conforme pensaram certos homens piedosos [7], pode-se conjecturar que por o nome de Adão significar "[da] terra vermelha" e Eva ter o sentido de "vida", por uma perspectiva futura, talvez Adão tenha dado tal nome a sua esposa por haver recebido a sentença da morte e então cria que apesar dela (a morte), poderia em Eva encontrar a vida para sua posterioridade - filhos. Já em uma perspectiva pretérita, pode Adão ter crido que por a Eva ter sido dada a promessa de que sua posterioridade haveria de esmagar a cabeça da serpente (Gn 3.15), tenha ele dado tal nome devido à semente que dela descenderia, significando que a tomava como parte integrante de seu ser e que era esperançoso de que tal promessa se cumprisse. De qualquer modo, nos parece que como num ato de consolação, dá a sua mulher um nome que denota "vida", tendo, então, certo alento próprio e/ou matrimonial, apesar da sentença de morte já estar sobre si.

Para a tristeza, choro e lamentação de todo ser vivente, a maldição do Senhor estava findada - homem e mulher tiveram a imagem e semelhança de Deus manchada em seus seres e, desse ponto diante, não fosse a misericórdia e graça do Alto, estariam fadados à ruína eterna.

Notas:
[1] Veremos esse ponto mais detidamente quando comentarmos sobre a modéstia e decência no se vestir.
[2] A narrativa bíblica nos parece fornecer a impressão de que houve, durante algo tempo (que não podemos precisar a quantidade), a perfeição no Jardim - daí o relato da Queda ser posterior a esse tempo e não imediatamente a colocação de ambos no Éden.
[3] Posteriormente analisaremos como Jesus Cristo está inserido nesse contexto e versículo.
[4] Não se deve interpretar equivocadamente tal maldição. Para tal entendimento de acordo com a Palavra, leia novamente o estudo 7 e 8.
[5] O Senhor não condena Adão porque simplesmente ouviu sua mulher, afinal, certamente que eles conversavam e, como ajudadora que era, Eva certamente tinha papel deveras importante na relação, mas sim o condena em face do pecado de dar ouvidos à mulher, em vez de atentar para o Senhor.
[6] Para uma explanação mais detalhada sobre esse fato, ver o capítulo 11 do livro "Vivendo Para a Glória de Deus, Uma Introdução à Fé Reformada", Ed. FIEL - do autor Dr. Joel R. Beeke.
[7] Vide comentários de João Calvino e Matthew Henry.

sábado, 9 de junho de 2012

A Piedade no Saltério (Livro de Salmos Cantados)


Calvino entendia o Livro de Salmos como o manual canônico da piedade. No prefácio de seu comentário de Salmos, constituído de quatro volumes - sua maior exposição de um dos livros da Bíblia -, Calvino escreveu: "Não há nenhum outro livro em que somos mais perfeitamente ensinados quanto à maneira correta de louvar a Deus ou em que somos mais poderosamente estimulados à realização desse exercício da piedade". O interesse de Calvino pelo Saltério era motivado por sua crença de que o livro de Salmos ensina e inspira a genuína piedade por (1) ensinar-nos a nossa necessidade de Deus; (2) servir como nosso credo cantado; (3) demonstrar a maravilhosa bondade de Deus; (4) fomentar a oração; (5) prover um meio para a adoração coletiva; (6) mostrar a profundidade da comunhão que podemos gozar com Deus; (7) abranger todo o espectro de experiência espiritual, incluindo a fé e a incredulidade, a alegria de Deus e a tristeza pelo pecado, a presença e a deserção divina. Como disse Calvino, os salmos são "uma anatomia de todas aspartes da alma".

Calvino se imergiu no livro de Salmos por vinte e quatro anos, como comentador, pregador, erudito bíblico e líder de adoração. Bem cedo, ele começou a obra de versões métricas dos salmos para serem usadas no culto público. Posteriormente, ele recrutou os talentos de homens como Clement Marot, Louis Bourgeois e Theodore Beza para produzirem o Saltério de Genebra. Dois anos antes de sua morte, Calvino se deleitou em ver a primeira edição completa desse Saltério.

O Saltério de Genebra, uma coleção notável de 125 melodias, expressa claramente as convicções de Calvino de que a piedade é mais bem promovida quando se dá prioridade ao texto e não à melodia, enquanto se reconhece que os salmos merecem sua própria música. Uma vez que a música deve ajudar na recepção da Palavra de Deus, Calvino disse que ela de ser "séria, dignificada, majestosa e modesta" - qualidades convenientes para o benefício de uma criatura pecaminosa na presença de Deus. Isso protege a soberania de Deus no culto e promove a conformidade apropriada entre a disposição interior do crente e a sua confissão exterior.

Cantar salmos é um dos quatro principais atos de culto na igreja, acreditava Calvino. Ele o entendia como uma extensão da oração. Além disso, Calvino pensava que o cantar coletivo subjugava o coração caído e treinava as afeições íntimas no caminho do piedade. Asim como a pregação e as ordenanças, o cantar salmos disciplina as afeições do coração na escola da fé e eleva o crente até Deus. Também amplifica o efeito da Palavra sobre o coração e aumenta o vigor espiritual da igreja. Com a direção do Espírito, o cantar salmos harmoniza o coração dos crentes para a glória.

Durante séculos, o Saltério de Genebra foi uma parte integral do culto calvinista. Estabeleceu o padrão para os livros posteriores de salmos reformados franceses, bem como para os ingleses, holandeses, alemães e húngaros. Como livro devocional, o saltério acalentava os corações de milhares, mas as pessoas que o cantavam entendiam que seu poder não estava no livro, e sim no Espírito que gravava as palavras no coração delas.

O Saltério de Genebra promovia a piedade por estimular uma espiritualidade da Palavra que era coletiva e litúrgica; e isso anulava a distinção entre a liturgia e a vida. Os reformados cantavam salmos espontaneamente, em suas igrejas, no lar no local de trabalho, nas ruas e nos campos. O cantar salmos se tornou um "meio de auto-identificação dos huguenotes". De fato, esse exercício piedoso se tornou um símbolo cultural. T. Hartley Hall escreveu: "Nas versões métricas ou bíblicas, os Salmos, juntamente com as melodias em que foram colocados, são o coração e a alma da piedade reformada".

por Joel R. Beeke
Fonte: Vivendo Para a Glória de Deus, págs. 200-202

O culto online e a tentação do Diabo

Você conhece o plano de fundo deste texto olhando no retrovisor da história recente: pandemia, COVID-19... todos em casa e você se dá conta ...