terça-feira, 17 de abril de 2012

Efésios 1.7 - "Temos a redenção pelo Seu sangue" - Exposição em Efésios - Sermão pregado dia 15.04.2012



Efésios 1.7 - "Temos a redenção pelo Seu sangue"
Exposição em Efésios - 
Sermão pregado dia 15.04.2012

"Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça" (Ef 1.7).

Paulo nos tem ensinado acerca de que tudo o que ocorre sobre o Universo - e isso inclui a vida dos crentes - acontece para "louvor e glória da sua graça" (v.6), de modo que homem algum pode intentar desvendar os mistérios dessa obra divina, devendo, então, somente render glórias ao Senhor e a Ele somente cantar louvores (Sl 47.6), pois é o único digno de ser adorado e reverenciado, uma vez que é o grande Artífice e sustentador de todas as coisas que sub-existem por causa de Sua grande soberania e excelso poder sublime acima de todo céu e toda terra, levando cada um dos homens à máxima glorificação do Seu Nome e render-Lhe gratidão eterna.

Após Paulo ter escrito aos irmãos de Éfeso acerca da grandiosa obra da graça que Ele havia operado no meio deles, agora o apóstolo dize-lhe algo de salutar importância, a saber, que os crentes no Senhor foram salvos pelo sangue de Cristo Jesus - "Em quem temos a redenção pelo seu sangue".

O escritor de Hebreus revela-nos alguns pontos importantes para entendermos essa afirmação de Paulo.

- "Que não necessitasse, como os sumos sacerdotes, de oferecer cada dia sacrifícios, primeiramente por seus próprios pecados, e depois pelos do povo; porque isto fez ele, uma vez, oferecendo-se a si mesmo" (Hb 7.27);
- "De sorte que era bem necessário que as figuras das coisas que estão no céu assim se purificassem; mas as próprias coisas celestiais com sacrifícios melhores do que estes" (Hb 9.23);
- "Porque tendo a lei a sombra dos bens futuros, e não a imagem exata das coisas, nunca, pelos mesmos sacrifícios que continuamente se oferecem cada ano, pode aperfeiçoar os que a eles se chegam" (Hb 10.1);
- "E assim todo o sacerdote aparece cada dia, ministrando e oferecendo muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca podem tirar os pecados" (Hb 10.11). 

Nos é mister atentar para o grandioso ensino que o autor da carta aos Hebreus afirma: os sacrifícios do Antigo Testamento não eram o fim em si mesmo, pois apontavam para um sacrifício superior, imaculado e que de uma vez por todas removeria o pecado de Seus filhos. Entretanto, antes de partirmos para a análise do texto em voga, importa-nos observar outro ponto: o que o pecado fez entre nós e Deus.

"Mas as vossas iniqüidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça... Ninguém há que clame pela justiça, nem ninguém que compareça em juízo pela verdade; confiam na vaidade, e falam mentiras; concebem o mal, e dão à luz a iniqüidade" (Is 59.2, 4).

O profeta é enfático: O Senhor "ouve" (atende) somente o clamor de Seus filhos, pois uma vez que as iniquidades dos homens separam-os de Deus, Ele só abençoará e trará graça e misericórdia àqueles cuja vida foram lavadas pelo Sangue de Cristo, de modo que é impossível para o descrente achegar-se a Deus, e, até mesmo, conseguir o Seu favor. O profeta Isaías não é manso em suas em suas palavras, não tergiversa (se exime do dever) em falar a santa e coerente palavra do Senhor, como que desejando agradar ao povo de Israel e não lhes parecer por demais incisivo e autoritário. O arauto do Senhor é claro: "os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça". Não há a menor razão para acreditarmos que todas as "orações "do mundo inteiro chegam ao Senhor como incenso suave (Ap 8.3-4) e que Ele se agrade de tudo que lhe é pedido em Seu nome. O próprio Tiago escreve-nos dizendo que "Pedis, e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites" (Tg 4.3). A causa de Deus não "ouvir" e atender o clamor desse mundo vil que constantemente "suplica" ao "Senhor" por mais justiça, retidão, a fim de possam viver num "mundo melhor", é devido ao fato de que eles não se convertem de seus maus caminhos, não se desviam da iniquidade, nem se apartam da injustiça, fazendo assim com que o Senhor, em vez de ouvir-lhe as súplicas, os castigue ainda mais, pois uma vez que não renderam graças a Ele e nem chamaram Sua misericórdia, ao contrário, desejaram usar-Lhe como que na figura de um "senhor mágico", então "do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça" (Rm 1.18), levando cada qual a sucumbir pelo peso de Seu pecado e reconhecendo que, diante do Senhor, impureza alguma pode habitar, de modo que todos, de uma forma ou outra, reconhecem ser o Senhor justo e íntegro em tudo o que faz, até mesmo quando executa Sua ira e aos homens condena (Sl 7.11).

Olhemos, agora, algumas nuances do versículo que nos foi proposto.

1. "Em quem temos a redenção pelo seu sangue" (grifo meu). Paulo oferece-nos a causa da redenção dos filhos de Deus: Seu Filho Jesus. Notemos que não é sem motivo que nos foi legado o ensinamento de que "nele" (Ef 1.4) temos a redenção, pois conforme vimos acima, o auto de Hebreus explica-nos a causa dos sacrifícios do Antigo Testamento, isto é, que constantemente apontavam para o Senhor Jesus Cristo, consumador e vivificador de nossa fé. No entanto, o apóstolo Paulo não quis que os crentes compreendessem de modo errôneo acerca de quem seriam os beneficiados pela morte vicária (substitutiva), por isso fez questão de escrever: "temos". Ora, quem seriam os integrantes do verbo ter, se não os filhos de Deus? Aqui, de modo sublime e belo, o apóstolo revela-nos a quem foi estendia a morte de Cristo: aos Seus filhos que foram lavados pelo Seu sangue.

Essa declaração apostólica (e inspirada!) remete-nos a, quem sabe, um examinar de nossas convicções, pois quantos foram os anos nos quais - talvez - pensávamos que a morte de Cristo havia sido por toda a humanidade, fazendo com que todos os seres humanos tivessem sido cobertos pelo sangue do Cordeiro e que deles dependeria o aceitar ou não o Seu favor? Paulo de modo algum deseja transmitir que o sangue de Cristo tenha sido derramado sobre toda a terra, pois afirmar tal coisa seria diminuir a eficácia do sacrifício de Cristo, afinal, como coadunaríamos a salvação pelo sangue de Cristo, e, ao mesmo tempo, afirmaríamos que pessoas que [supostamente] foram alcançadas pelo sangue, por fim pereceriam?  "E ouvi uma grande voz no céu, que dizia: Agora é chegada a salvação, e a força, e o reino do nosso Deus, e o poder do seu Cristo; porque já o acusador de nossos irmãos é derrubado, o qual diante do nosso Deus os acusava de dia e de noite. E eles o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho; e não amaram as suas vidas até à morte" (Ap 12.10-11).

Até mesmo o texto de Apocalipse (escrito pelo apóstolo João) corrobora com esse entendimento, pois também é claro ao dizer-nos que "E eles o venceram pelo sangue do Cordeiro". Ou seja, se a vitória é conquistada por meio do sangue do Cordeiro, como também pode ser possível que ao mesmo tempo, o mesmo sangue não seja capaz de salvar todos os - supostamente - lavados? É preciso, então, que nos desvencilhemos de malignas doutrinas que enfraquecem o sacrífico de Cristo e que O legam a subjetividade do coração humano, como se dependesse do homem operar "tanto o querer como o efetuar" (Fp 2.13).

2. "a remissão das ofensas". Depois de haver proclamado aos amados crentes de Éfeso a importância de reconhecerem que em Cristo eles têm a redenção (perdão) de seus pecados e que tão somente os filhos de Deus é que são agraciados com essa maravilhosa obra, passa então a reforçar esse ensino ao dizer quase a mesma coisa, mas de forma diversa, isto é, que uma vez tendo sido alcançados pelo Seu precioso sangue, isso também implica em dizer que tiveram suas ofensas perdoadas, já não se achando mais como inimigos da cruz, mas amigos de Cristo, conforme lemos: "Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer" (Jo 15.15 - grifo meu). 

Outro apóstolo também contribui para esse entendimento ao dizer-nos sobre a preciosidade do sangue de Cristo, como que sendo desejoso de transmitir a magnitude salvífica e redentora que é encontrada no sangue do Cordeiro: "Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que por tradição recebestes dos vossos pais, Mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado" (1 Pe 1.18-19). Observemos que as coisas mais preciosas da terra, tal qual o ouro e a prata, quando comparadas ao precioso sangue de Cristo, são chamadas de "coisas corruptíveis", que podem perder seu valor, que a tudo não podem comprar e não trazem segurança alguma para a alma enferma e necessitada da graça do Senhor.

Quando olhamos para o sacrifício de Cristo pelos Seus filhos, e ao afirmar que estamos n'Ele e em contínuo seguimos crescendo em conhecimento e graça de Sua parte, dever-nos-ia aumentar continuamente o amor que temos por Sua palavra e pelas infinitas misericórdias que tem vindo sobre nossos corações, pois quantas são as vezes que deliberadamente ultrajamos os preceitos do Senhor, Lhe cuspimos na face com nossos pecados; mediante nossas atitudes desconformes com a sã doutrina O negamos muito mais que três vezes durante um só dia; num momento rendemos-Lhe louvores, mas no seguinte nos deixamos levar pelos vão desejos da carne... Quantas, quantas são as vezes que isso nos acontecem?! Frequentemente oscilamos entre a justiça e a iniquidade; tal qual Lutero deixou registrado, o pecado é crescente em nós assim como a barba o é em  um homem - absolutamente todos os dias de nossas vidas o pecado está desejando tragar-nos e levar-nos de volta para o seu domínio; o maligno não se dá por vencido e diariamente bate-nos porta (Gn 4.7) e deseja nos persuadir assim como o fez com Adão e Eva ao dizer-lhes: "Certamente não morrereis" (Gn 3.4).

3. "segundo as riquezas da sua graça". É então nesse prisma que o apóstolo - como que - exclama: "segundo as riquezas da sua graça"! Uma vez tendo sido resgatados pelo Seu sangue e tendo sido perdoados de nossas ofensas, tudo isso só poderia se dar mediante a graça abundante segundo Jesus Cristo, pois "onde o pecado abundou, superabundou a graça" (Rm 5.20).

Creio não ser demais lembrar-nos que o Antigo Testamento também prescreve-nos que já naquele tempo o povo do Senhor era salvo pelo sangue de Cristo. Ao olharmos para a última praga desferida contra o povo egípcio notamos claramente qual seria o sinal que faria com o que povo do Senhor fosse salvo e seus primogênitos lhe fossem poupados: "E aquele sangue vos será por sinal nas casas em que estiverdes; vendo eu sangue, passarei por cima de vós, e não haverá entre vós praga de mortandade, quando eu ferir a terra do Egito" (Êx 12.13). Assim como hoje os cristãos são salvos pelo sangue Cristo, os judeus convertidos ao Senhor também eram salvos pelo mesmo Cristo! A diferença que havia entre aquele sangue e o que nos salva, é tão somente de perspectiva temporal, isto é, os judeus eram salvos pelo sangue de Cristo que haveria de ser vertido por cada um de Seus eleitos e que naquele tempo foi representado pelo sangue do cordeiro nas casas (e todos os sacrifícios posteriores que foram instituídos por Deus), no entanto, para nós, hoje o sangue de Cristo já foi derramado na cruz, de modo que enquanto os judeus eram salvos por aquele que haveria de vir, nós o somos por Aquele que já veio.

Precisamos a cada dia buscar mais discernimento da parte do Senhor, pois não são poucas as vezes em que nos vemos sendo atacados por toda sorte de ensinamentos contrários a Lei pura e justa do Senhor e que desejam minar-nos a fé, tudo a fim de que nos desviemos do caminho que lhe foi proposto. O apóstolo escreve aos efésios justamente com o intuito de assegurar-lhe as riquezas da graça que estão presente em Cristo Jesus, mas não somente em Cristo, mas também por causa d'Ele, pois qual dos homens haveria de se achegar ao Eterno mediante vãs filosofias e tentando oferecer algum ouro, prata ou pedras preciosas, sendo que diante de Sua eterna magnitude e sapiência tudo isso lhe é como restolho? 

Que o Senhor seja misericordioso conosco e a cada dia faça-nos mais cônscios do Seu sangue precioso, de modo que assim como Adão e Eva foram vestidos de pele de animal, prefigurando o filho de Deus que seria morto e cobrir-nos-ia da vergonha do pecado, nós também expressemos em palavras e ações a cobertura do Senhor que está sobre nós, tudo a fim de magnificar a redenção do Senhor e fazer Seu nome conhecido sobre a terra.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

O Deus Perfeito descrito por Agostinho de Hipona


Quem pois és tu, Deus meu, e a quem dirijo minhas orações senão a meu Deus e Senhor? E que outro deus há fora o Senhor nosso Deus! Tu és sumo excelente e altíssimo e teu poder não tem limites. Infinitamente misericordioso e justo, ao mesmo tempo inacessivelmente secreto e onipresente, de imensa força e formosura, estável e incompreensível, um imutável que tudo move. Nunca novo, nunca velho, tudo renovas, mas envelhece aos soberbos sem que eles dêem conta. Sempre ativo, porém calmo, tudo buscando, mas nada te faz falta. Tudo o que cria, sustenta, e leva a perfeição. És um Deus que busca, porém nada necessita. Ardes de amor, mas não queima, és zeloso, porém seguro, nunca está pobre, porém te alegras com o que recebe de nós. Que falta de posse, que já não é teu? Pois pagas dívidas quando nada deves, e perdoa o que devemos, sem perder. Que diremos pois de ti, Deus meu, vida minha, e santa doçura. E quem de ti pode falar. Mas ai daqueles que estão em silêncio, porque podendo muito falar, tornaram-se mudos.

Las Confesiones por San Agustín Libro I, IV  -  Traduzida e Adaptada por Carlos Reghine

Série: Homem e Mulher os criou - parte 4 - Homem e Mulher no Jardim, A Questão dos Filhos (Uma Bênção) - Sermão pregado dia 15.04.2012



Série: Homem e Mulher os criou - parte 4 - 
Homem e Mulher no Jardim, A Questão dos Filhos (Uma Bênção) -
Sermão pregado dia 15.04.2012

"E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra" (Gn 1:27-28 - grifo meu).

Após termos analisado algumas questões referentes à criação do homem, da mulher e de seu matrimônio, agora importa-nos notar uma das finalidades dessa união, ou seja, uma vez que o homem deveria deixar pai e mãe e se unir a sua mulher, qual seria o fruto desse novo relacionamento íntimo? A Bíblia nos responde: os filhos.

Em Ezequiel 33.1-9 temos o relato acerca da importância do atalaia (vigia) em meio ao povo de Israel. O Senhor proclama ao Seu profeta de que se o atalaia avistar o inimigo se aproximando e tocar a trombeta para avisar a Israel, então, caso alguém do povo venha a perecer, o sangue não será requerido do atalaia, pois tocou a trombeta e avisou-os do perigo iminente (vs. 3-5). Contudo, se o atalaia ver que a espada se aproxima do povo, mas não tocar a trombeta e alguém perecer, então será réu diante de Deus, pois por não ter avisado o povo é que tal desgraça aconteceu (v. 6). Esse ensinamento nos é por demais importante, pois assim como Ezequiel foi posto por atalaia sobre o povo de Israel (v. 7), também os pastores e mestres são vigias e proclamadores da verdade ao povo de Deus. Assim como foi dito ao profeta (vs. 8-9), o Senhor também requererá o sangue daqueles que velam pelas almas que lhe foram confiadas, de modo que todo aquele que conhece a Verdade, mas não a proclama, será tido por culpado diante do Altíssimo.

É por essa (e outras) razões que ao analisarmos e proclamarmos a questão dos filhos, não devemos nos escusar da obediência, pois se foi do agrado do Senhor nos legar tal registro bíblico, então dever-nos-ia ser grandioso privilégio entender que, apesar do mundo conspirar contra o Senhor e contra o Seu Ungido (Sl 2), "bem-aventurados todos aqueles que nele confiam" (Sl 2.12).

Comecemos a analisar esse ensinamento à luz do Salmo 127.

"Se o SENHOR não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o SENHOR não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela. Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão de dores, pois assim dá ele aos seus amados o sono. Eis que os filhos são herança do SENHOR, e o fruto do ventre o seu galardão. Como flechas na mão de um homem poderoso, assim são os filhos da mocidade. Bem-aventurado o homem que enche deles a sua aljava; não serão confundidos, mas falarão com os seus inimigos à porta" (Sl 127.1-5).

1. "Se o SENHOR não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o SENHOR não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela."

A preciosa palavra de Deus inicia dando-nos uma negativa acerca da vida cristã - "não edificar a casa" -, e para isso utiliza-se de uma linguagem figurada para transmitir-nos a mensagem do Senhor. A revelação de Deus (a Bíblia) começa falando-nos que se o Senhor não for o "mestre de obras" em nossas vidas, em vão será o nosso trabalho (de servos), pois é sempre primordial que o artífice seja excelentemente dotado de bom saber e juízo adequado para executar aquilo que lhe é por soberania. Tal qual nessa figura de construção usada pelo salmista, Deus também intenta transmitir-nos a deveras importância que é reconhecermos a necessidade de clamarmos ao Senhor e não desejarmos tirar-Lhe a guarda edificatória de nossa casa, como se por nós mesmos pudéssemos decidir qual a melhor maneira de a sustentarmos.

Notemos também que o salmista reclama para si (sob inspiração divina) o direito de dizer que se o Senhor "não edificar a casa". O escritor não nos diz que os servos trabalharão em vão se o Senhor nãos lhes for o arquiteto, mestre de pintura ou encanador; pelo contrário, afirma que o Senhor deve ser aquele que cuida da edificação de nossas vidas, de nossas casas e de nossas cidades (ampliando a abrangência), de modo que ainda que cogitemos e planejemos um número sem fim de possibilidades e desejos para nossa vida, se não tivermos o Senhor como edificador, isto é, o sustentador e firme embasador de nossas vidas, de modo algum poderemos crescer à estatura de Seu Filho (Ef 4.13) e nos portarmos no edifício de Deus (2 Co 5.1).

O Senhor ainda proclama por meio do salmista que não basta haver o Senhor edificado a casa de maneira correta, é necessário também que ele guarde a cidade, pois se assim não fizer, "em vão vigia a sentinela". Todo atalaia do Senhor é chamado a vigiar e tocar a trombeta quando vê o mau se aproximando e visualiza uma futura (ou já presente!) situação de perigo para si e para seu povo. O Senhor precisa ser constantemente nosso chefe da guarda da cidade (onde atuamos como seus servos), pois assim como a Adão foi dito que lhe era honroso obedecer ao Senhor e por isso deveria esmerar-se em lavrar e guardar a terra (Gn 2.15), assim também o Senhor ensina-nos que Ele próprio, quando for constituído por edificador de nossas vidas, haverá necessariamente também de ser o guardador de nossas vidas e relacionamento, de modo que a cidade (o coração) será resguardada do perigo e a sentinela executará bem seu trabalho, pois já não depende de si mesmo para a defesa de seu povo, mas conta com a provisão do Senhor e Seu favor para com os Seus.

2. "Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão de dores, pois assim dá ele aos seus amados o sono".

Após proclamar que ao Senhor é somente devida a glória, poder e capacidade de edificar a vida do crente, o salmista nos apresenta uma razão muito importante para que não nos desviemos do ensinamento proferido, a saber, que se desejarmos desconstituir o Senhor como mestre de nossas vidas e intentarmos achar o melhor caminho aos nossos próprios olhos, certamente tudo nos será inútil. Vemos também o eco desse ensinamento nas palavras do profeta Isaías: "Ai dos que são sábios a seus próprios olhos, e prudentes diante de si mesmos!" (Is 5.21). O salmista desejava ensinar seu povo que apesar de toda labuta incansável, do sair de madrugada para ir trabalhar e voltar já tarde da noite para casa, tudo seria-lhes inútil caso não se prostrassem diante do Eterno e a Ele rendessem toda soberania por ser o único habilitado para edificar Sua própria casa.

Assim como a Adão foi dito que, "No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás" (Gn 3.19), também o Senhor proclama que, embora os homens se esforcem para viver uma vida digna aos olhos de outrem (e, quem sabe, de Deus), levantando-se cedo para sustentar a família e voltando tarde - o que indica o muito trabalho que devem executar pelo bem dos seus -, e ainda que comam o pão de dores, isto é, que com muita dificuldade conseguem adquirir o sustento necessário e por vezes não veem nada mais do que dores, tristezas e cansaço ao seu redor, tudo isso lhes será como que "estender-se a rede ante os olhos de qualquer ave" (Pv 1.17), ou seja, tentar captura uma ave, mas sem ser sensato e prudente no escolher e na maneira de se executar a manobra captural.

3. "Eis que os filhos são herança do SENHOR, e o fruto do ventre o seu galardão".

Aqui, o salmista inicia o desdobramento do que vem a ser uma vida edificada pelo Senhor, isto é, o que é uma vida cujo Deus é o Senhor e o que acontece com a sentinela que vigia bem a sua cidade e nela esmera-se sem cessar: os filhos.

Poderíamos inverter as palavras do salmista (colocando-as no positivo) para entendermos o que ele inicia no presente versículo: "Se o SENHOR edificar a casa, não em vão trabalham os que a edificam; se o SENHOR guardar a cidade, não em vão vigia a sentinela. Não vos será inútil levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão do Senhor, pois assim dá ele aos seus amados o sono. [Então] Eis que os filhos são herança do SENHOR, e o fruto do ventre o seu galardão". Para os piedosos no Senhor, o deixar edificar-se pelo Artífice, o guardar da cidade, o vigiar noite e dia, o muito trabalho trabalhar e o comer do pão do Senhor (ainda que com dificuldade, conforme Gn 3.19), resultam muitas vezes na bênção advinda de Deus por meio de " filhos são herança do SENHOR".

Atentemos cuidadosamente para o fato de que, uma vez que filhos só são possíveis mediante a união de homem e mulher - o que nitidamente revela-nos que o salmista também está falando da família em Cristo -, compreende-se melhor e claramente a explicação do salmista ao dizer que o fruto dessa união entre macho e fêmea, isto é, o galardão, a recompensa por seu ajuntamento, é "o fruto do ventre". Para o Senhor, o fruto do ajuntamento entre homem e mulher não é a riqueza material, o status social ou tão somente o deleite mútuo, mas sim o(s) filho(s) dado pelo Senhor. Esse ensinamento certamente nos faz lembrar das palavras de Jesus que nos dizem: "Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam; Mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam" (Mt 6.19, 20). Ora, assim como nos é prometido um galardão nos céus, também o Senhor preconiza (adianta) que já na terra haveremos de receber parte de nossa recompensa e aqui mesmo iniciaremos um pequeno desfrutar das bênçãos celestiais - e uma das dessas formas é os filhos dados por Ele.

Lembremos também da condição (emocional) miserável em que se encontrava o patriarca Abrão antes de ter seu amado filho Isaque: "Então disse Abrão: Senhor DEUS, que me hás de dar, pois ando sem filhos, e o mordomo da minha casa é o damasceno Eliézer?" (Gn 15.2). Para um homem hebreu, o não deixar filhos era-lhe algo vergonhoso, pois como haveria de perpetuar seu nome e de seus antepassados por sobre a terra? A quem relegaria todas as suas posses? Quem continuaria sua peregrinação por sobre a terra e faria seu nome conhecido entre as nações? É nessa triste situação que Abrão encontrava-se, pois o Senhor não havia dado-lhe filhos; contudo, que aqui jamais nos esqueçamos de que esse filho prometido é fruto da promessa de Deus e que também visava o cuidado de Abrão e Sarai (posteriormente tiveram seus nomes mudados para Abraão e Sara): "Não temas, Abrão, eu sou o teu escudo, o teu grandíssimo galardão" (Gn 15.1). É, então, nesse viés que o Senhor decreta a bênção sobre a vida de Abrão e lhe diz: "E eis que veio a palavra do SENHOR a ele dizendo: Este não será o teu herdeiro; mas aquele que de tuas entranhas sair, este será o teu herdeiro. Então o levou fora, e disse: Olha agora para os céus, e conta as estrelas, se as podes contar. E disse-lhe: Assim será a tua descendência" (Gn 15.4-5).

De grande desesperança e desonra que abatia-lhe o coração, Abrão passa agora a ver no Senhor uma esperança! Sim, mesmo contra toda "lógica humana" e até contrariando a "lei da natureza", o Senhor felicita-o dizendo que não morrerá só, e sim que "irás a teus pais em paz; em boa velhice serás sepultado" (Gn 15.15). Mas como um homem idoso poderia morrer em paz e em boa velhice ser sepultado? Vemos, portanto, mais uma bênção do Senhor sendo dada a esse grandioso patriarca, a saber, que além do seu filho ser-lhe uma recompensa, também o ajudaria nos afazeres da casa e o sustentaria e sua velhice, de modo que uma vez trabalhado arduamente na terra e na devoção ao Senhor, poderia passar os últimos tempos de sua vida sendo cuidado e assistido por aquele que lhe veio como galardão.

4. "Como flechas na mão de um homem poderoso, assim são os filhos da mocidade".

O salmista prossegue afirmando que, uma vez os filhos sendo um galardão vindo do Senhor, também são como "flechas na mão de um homem poderoso". Todo bom arqueiro que se preze estuda a arte do combate a média e longa distância na luta homem a homem, de modo que sem dúvida alguma não demora-se em esmera-se em fabricar e/ou comprar a melhor flecha que conseguir, tudo visando o bom desempenho e a devida segurança para o dia da batalha. Entretanto, nos é igualmente mister a visualização de que com a palavra "flechas", o escritor está a passar a mensagem sub-entendida de que se há flechas, há um arco e alguém para utilizá-los. De proveito algum teriam as flechas sem o arco; inútil também se seria se ambos não fossem utilizados por alguém dotado de seu manuseio. É, portanto, nessa seara que o Senhor deseja ensinar-nos a verdade bíblica sobre os filhos, ou seja, de que de modo algum eles são um estorvo e pedra de tropeçar, mas sim que são poderosas "armas" nas mãos de um homem poderoso. Essa declaração suscita-nos uma pergunta: quem é o homem poderoso? A própria Escritura revela-nos que esse homem poderoso é o Senhor dos Exércitos: "Quem é este Rei da Glória? O SENHOR forte e poderoso, o SENHOR poderoso na guerra" (Sl 24.8). Em outras palavras, o que o salmista está proclamando é que homens e mulheres, isto é, os filhos, são flechas em Suas mãos. Ele, o Senhor, completamente capaz de utilizar-se do arco, lança suas criaturas e os faz derrotar o inimigo; não pela força da flecha, mas pela destreza do mestre e conhecedor das táticas militares.

Visualizamos também que, embora seja certo que os filhos são flechas nas mãos do Altíssimo, são também bênção protetoras e animadoras para seus pais. Ao descrever que "assim são os filhos da mocidade", o Senhor ensina-nos que esse precioso galardão é também o modo pelo qual o Senhor sustenta sua família. Especialmente em regiões agrárias (mas não somente), os filhos são vistos como uma mão de obra para ajudar no provimento e administração das terras. Porém, aqui parece-nos que a intenção primordial do salmista não é dar ênfase no sustento, mas na vitória, porque - diz ele - os filhos são como flechas, e não como carros de boi. A vitória é dada aos pais por meio dos filhos, pois quem poderia ser mais habilitado a triunfar sobre as dificuldades da família durante a velhice do que os filhos gerados pelo Senhor durante sua mocidade? Qual dos homens, em lugar da flecha pontiaguda, escolheria o escudo antigo de couro (ou outra coisa) como instrumento de guerra para si, cuja finalidade é somente de cobertura e defesa e pouco poderio tem em arrebatar o inimigo de diante de si?

5. "Bem-aventurado o homem que enche deles a sua aljava; não serão confundidos, mas falarão com os seus inimigos à porta".

Em vias de finalização de sua exaltação à criação do Artífice, o salmista declara o quão feliz é o homem que tem sua aljava (lugar onde guardam-se as flechas - geralmente nas costas ou na cintura do arqueiro) cheia. Aqui, continuando sua explanação anterior, o escritor fala-nos da beleza que é ter um depósito cheio, de modo que no momento da batalha, o homem sempre terá ao que recorrer, pois o suprimento necessário estará constantemente junto de seu corpo. Também ensina-nos o Mestre Supremo acerca da importância de ter-se filhos, pois uma vez que Sua Igreja vai-se enchendo de crentes no Senhor e as flechas "começam a crescer", o "homem poderoso" não as abandonará em porão qualquer, mas sim as levará consigo para que possa torná-las em "louvor da sua glória" (Ef 1.6).

Os filhos de Deus que não se privam de encher suas aljavas com as flechas galardoárias do Senhor, têm para si a profunda e maravilhosa promessa de que "não serão confundidos", a saber, não serão abatidos pela guerra e nem dela fugirão; não serão como o exército inexperiente e que nada sabe sobre a arte de militar; não serão como os midianitas despreparados e que a tornaram "a espada de um contra o outro" (Jz 7.22); não serão como as viúvas sem filhos e que não podem-se consolar junto à sua posterioridade... mas serão vencedores, pois sendo o Senhor com eles, "não serão confundidos".

Por fim, o salmista finaliza com o brado de vitória, mostrando que longe de ser qualquer obstáculo ou atravanco para o avanço da vida a dois, os filhos vêm como que por de flores a adornar o jardim do matrimônio e os fazer certeiros da bênção divina, pois "falarão com os seus inimigos à porta", ou seja, vencerão a batalha no lugar de combate, de modo que glorificarão ao Senhor no dia da Sua visitação (1 Pe 2.12) e a Ele renderão graças por tudo que tem feito - filhos que preenchem a vida e alegram o coração.

Se a esposa vem do Senhor e é uma das maiores bênçãos que o homem pode ter nessa terra, então, sem sombra de dúvidas, essa união não é o fim em si mesmo, mas tem sua continuidade na bênção dos filhos da herança concedidos pelo Senhor.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Dois sinais claros da autenticidade de seu cristianismo


O apóstolo Pedro diz, sobre a relação entre cristãos e Cristo: "a quem, não havendo visto, amais; no qual, não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria indizível e cheia de glória." (1Ped. 1:8).Como os versículos anteriores deixam claro, os crentes a quem Pedro escreveu sofriam perseguição. Aqui, ele observa como seu cristianismo os afetou durante essas perseguições. Ele menciona dois sinais claros da autenticidade de seu cristianismo.

(I) - Amor por Cristo. "A quem, não havendo visto, amais." Os que não eram cristãos maravilhavam-se da prontidão dos cristãos em se expor a tais sofrimentos, renunciando às alegrias e confortos deste mundo. Para seus vizinhos incrédulos, estes cristãos pareciam loucos; pareciam agir como se detestassem a si mesmos. Os incrédulos não viam nenhuma fonte de inspiração para tal sofrimento. De fato, os cristãos não viam coisa alguma com seus olhos físicos. Amavam alguém a quem não podiam ver! Amavam a Jesus Cristo, pois viam-nO espiritualmente, mesmo sem poder vê-lO fisicamente.

(II) - Alegria em Cristo. Embora seu sofrimento exterior fosse terrível, suas alegrias espirituais internas eram maiores que seus sofrimentos. Essas alegrias os fortaleciam, possibilitando que sofressem alegremente.

Pedro nota duas coisas sobre essa alegria. Primeiro, ele nos fala da origem dela. Ela resultou da fé. "Não vendo agora, mas crendo, exultais."

Segundo, ele descreve a natureza dessa alegria: "alegria indizível e cheia de glória." Era alegria indizível, por ser tão diferente das alegrias do mundo. Era pura e celeste; não havia palavras para descrever sua excelência e doçura. Era também inexprimível quanto à sua extensão, pois Deus havia derramado tão livremente essa alegria sobre Seu povo sofredor.

Depois, Pedro descreve essa alegria como sendo "cheia de glória." Essa alegria enchia as mentes dos cristãos, ao que parecia, com um brilho glorioso. Não corrompia a mente, como fazem muitas alegrias mundanas; pelo contrário, deu-lhe glória e dignidade. Os cristãos sofredores partilhavam das alegrias celestes. Essa alegria enchia suas mentes com a luz da glória de Deus, fazendo-os brilhar com aquela glória.

A doutrina que Pedro nos está ensinando é a seguinte: A RELIGIÃO VERDADEIRA CONSISTE PRINCIPALMENTE EM AFEIÇÕES SANTAS.

Pedro destaca as emoções espirituais de amor e alegria quando descreve a experiência desses cristãos. Lembrem-se que ele está falando sobre fiéis que estavam sendo perseguidos.

Seu sofrimento purificava sua fé, resultando em que "redunde em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo" (v.7). Estavam, assim, em condição espiritualmente saudável, e Pedro ressalta seu amor e alegria como evidência de sua saúde espiritual.

Por Jonathan Edwards (1703-1758)

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Comunhão com Cristo


“A doutrina de Calvino referente à união com Cristo, se não é o ensino mais importante que inspira todo o seu pen­samento e sua vida, é uma das características mais influentes de sua teologia e ética", escreveu David Willis-Watkins.1

A RAIZ PROFUNDA DA PIEDADE: A UNIÃO MÍSTICA

Calvino não tencionava apresentar teologia como se esta fosse uma doutrina única. Seus sermões, comentários e obras teológicas es­tão repletos da doutrina da união com Cristo, a ponto de que esta se toma o foco da fé e da prática cristã.2 Calvino disse: ''A união da Cabeça com os membros, a habitação de Cristo em nós - em resumo, a união mística - são tratadas por nós com o mais elevado grau de importân­cia, de modo que Cristo, tomando-se nosso, nos faz, juntamente com Ele, participantes dos dons com os quais Ele foi dotado". 3

Para Calvino, a piedade está arraigada na união mística (unia mystica) do crente com Cristo; assim, essa união tem de ser nos­so ponto de partida.4 Essa união se torna possível porque Cristo assumiu nossa natureza humana, enchendo-a com suas virtudes. A união com Cristo em sua humanidade é histórica, ética e pessoal, mas não essencial. Não há qualquer mistura grotesca de subs­tâncias humanas entre Cristo e nós. No entanto, Calvino afirma: "Cristo não somente se une a nós por meio de um laço indivisível de comunhão, mas também cresce mais e mais em um corpo, conosco, por meio de uma comunhão maravilhosa, até que se torna com­pletamente um conosco".5 Essa união é um dos grandes mistérios do evangelho.6Por causa da fonte da perfeição de Cristo em nossa natureza, os piedosos podem extrair, pela fé, o que necessitarem para sua santificação. A carne de Cristo é a fonte da qual seu povo deriva sua vida e poder.7

Se Cristo tivesse morrido e ressuscitado, mas não houvesse aplicado sua salvação aos crentes, visando à regeneração e à san­tificação deles, a sua obra teria sido ineficaz. A piedade mostra que o Espírito de Cristo está realizando em nós aquilo que já foi realizado em Cristo. Cristo ministra sua santificação à igreja por meio de seu sacerdócio real, de modo que a igreja possa viver pie­dosamente para Ele.8

O pulso da teologia prática e da piedade de Calvino era a co­munhão (communio) com Cristo. Isso envolve participação (par­ticipatio) nos benefícios de Cristo, que são inseparáveis da união com Ele.9 Essa ênfase já se achava evidente na Confessio Fidei de Eucharistia (1537), assinada por Calvino, Martin Bucer e Wolfgang Capito.1o Todavia, a comunhão com Cristo, para Calvino, não era moldada pela sua doutrina sobre a Ceia do Senhor. Pelo contrário, a sua ênfase na comunhão espiritual com Cristo ajudava-o a moldar o conceito a respeito desta ordenança.

De modo semelhante, os conceitos de communio participatio ajudavam Calvino a moldar o seu entendimento quanto à regene­ração, à fé, à justificação, à santificação, à segurança de salvação, à eleição e à igreja, visto que ele não podia falar sobre qualquer dou­trina à parte da comunhão com Cristo. Esse é o âmago do sistema de teologia de Calvino.

O DUPLO VÍNCULO DA PIEDADE: O ESPÍRITO E A FÉ

A comunhão com Cristo se realiza tão-somente por meio da fé produzida pelo Espírito. É uma comunhão real, não porque os crentes participam da essência da natureza de Cristo, e sim porque o Espírito de Cristo une os crentes tão intimamente a Cristo, que eles se tornam carne de sua carne e osso de seus ossos. Do ponto de vista de Deus, o Espírito é o vínculo entre Cristo e os crentes. De nosso ponto de vista, a fé é o vínculo. Esses pontos de vista não se chocam, uma vez que uma das principais realizações do Espírito é produzir a fé em um pecador. 11

Somente o Espírito pode unir Cristo, no céu, com o crente, na terra. Assim como na encarnação, o Espírito uniu o céu e a terra, assim também na regeneração o Espírito faz o eleito elevar-se da terra à comunhão com Cristo no céu, trazendo-O ao coração e à vida dos eleitos na terra.12 A comunhão com Cristo é sempre o resultado da obra do Espírito - uma obra maravilhosa e experiencial, mas incompreensível.13 O Espírito Santo é o vínculo que une o crente a Cristo, bem como o instrumento por meio do qual Cristo é comunicado ao crente.14 Conforme Calvino disse a Pietro Martire: "Cresce­mos juntamente com Cristo em um corpo. Ele compartilha conosco o seu Espírito; e, por meio das operações invisíveis do Espírito, Cris­to se torna nosso. Os crentes recebem essa comunhão com Cristo ao mesmo tempo em que recebem o seu chamado, No entanto, dia a dia, eles crescem mais e mais nesta comunhão, à proporção que Cristo cresce no íntimo deles",15

Calvino vai além de Lutero nesta ênfase sobre a comunhão com Cristo. Pois, ele enfatiza que, pelo Espírito, Cristo dá poder àqueles que estão unidos com Ele pela fé. Sendo "enxertados na morte de Cristo, derivamos dessa morte uma energia secreta, assim como o ramo extrai energia da raiz", escreveu Calvino. O crente "é energiza­do pelo poder íntimo de Cristo, de modo que podemos afirmar que Cristo vive e cresce nele, pois, assim como a alma dá vida ao corpo, assim também Cristo transmite vida aos seus membros".16

À semelhança de Lutero, Calvino acreditava que o conhecimen­to é fundamental à fé. Esse conhecimento inclui a Palavra de Deus, bem como a proclamação do evangelho17 Uma vez que a Palavra escrita é exemplificada na Palavra viva, Jesus Cristo, em quem se cumprem todas as promessas de Deus, a fé não pode ser separada de Cristo.18 A obra do Espírito não suplementa nem substitui a re­velação das Escrituras, e sim a confirma. "Retire a Palavra, e não permanecerá fé alguma", disse Calvino.19

A fé une o crente a Cristo por meio da Palavra, capacitando-o a receber Cristo, revelado no evangelho e oferecido graciosamente pelo Pai.20 Pela fé, Deus também habita no crente. Conseqüente­mente, Calvino disse: "Não devemos separar Cristo de nós mesmos ou nós mesmos de Cristo", e sim participarmos dEle pela fé, pois isso "nos desperta da morte e nos torna uma nova criatura"²¹

Pela fé, o crente possui a Cristo e cresce nEle. Além disso, o grau de sua fé, exercido mediante a Palavra, determina seu grau de co­munhão com Cristo.22 "Tudo o que a fé deve contemplar é-nos reve­lado em Cristo", Calvino escreveu.23 Embora Cristo permaneça no céu, o crente que se distingue em piedade aprende, pela fé, a reter a Cristo tão firmemente, que Ele habita no íntimo desse crente.24 Pela fé, os piedosos vivem por aquilo que acham em Cristo, e não pelo que acham em si mesmos.25

Para Calvino, a comunhão com Cristo flui da união com Cristo.

Olhar para Cristo, a fim de obter segurança, significa ver a nós mes­mos em Cristo. Como escreveu David Willis-Watkins: "A segurança de salvação é um conhecimento derivado, cujo foco permanece em Cristo unido ao seu corpo, a igreja, da qual somos membros".26


DUPLA PURIFICAÇÃO DA PIEDADE: JUSTIFICAÇÃO E SANTIFICAÇÃO

De acordo com Calvino, os crentes recebem de Cristo, pela fé, a "graça dupla" da justificação e da santificação, que juntas proporcionam uma purificação dupla.27 A justificação oferece pureza im­putada, e a santificação, pureza atual.28

Calvino define a justificação como "a aceitação com a qual Deus nos recebe ao seu favor como homens justoS".29 Ele prossegue, afir­mando: "Visto que Deus nos justifica por meio da intercessão de Cristo, Ele nos absolve pela imputação da justiça de Cristo, de modo que, não sendo justos em nós mesmos, somos reputados como jus­tos em Cristo".30 A justificação inclui a remissão dos pecados e o direto à vida eterna.
Calvino considerava a justificação como uma doutrina central da fé cristã. Ele a chamou de "a coluna principal que sustenta o cris­tianismo", o solo do qual se desenvolve a vida cristã e a substância da piedade.31 A justificação não somente honra a Deus, por satisfa­zer as condições para a salvação, mas também oferece à consciência do crente "descanso pacífico e tranqüilidade serena".32 Conforme diz Romanos 5.1: "Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo". Isto é o âmago e a vida da piedade. Visto que os crentes são justificados pela fé, eles não precisam se preocupar com sua posição diante de Deus. Podem renunciar voluntariamente a glória pessoal e aceitar, dia a dia, a sua vida como um dom procedente das mãos do Criador e Redentor. Algumas batalhas diárias podem ser perdidas para o inimigo, mas Jesus Cristo venceu a guerra para os crentes.

A santificação se refere ao processo pelo qual o crente é confor­mado, cada vez mais, a Cristo, em seu coração, comportamento e devoção a Deus. A santificação é um refazer contínuo do crente, por meio do Espírito Santo; é a permanente consagração do corpo e da alma a Deus.33 Na santificação, o crente oferece-se a si mesmo como sacrifício a Deus. Isso não ocorre sem grandes lutas e progresso len­to. Exige a limpeza da corrupção da carne e a renúncia do mundo.34 Exige arrependimento, mortificação e conversão diária.

A justificação e a santificação são inseparáveis, disse Calvino. Separar uma da outra é o mesmo que despedaçar a Cristo35 ou ten­tar separar a luz solar do calor que ela produz.36 Os crentes são jus­tificados para adorar a Deus em santidade de vida.37

Por Dr. Joel Beek
Extraído do livro Vencendo o Mundo, Dr. Joel Beeke, Editora Fiel, pgs 45-52

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NOTAS
1.THE UNIO Mystica and the Assurance of Faith. In: SPIJKER, Willem van't (Ed.) Calvin: erbe und auftrag: festschrift für Wilhelm HeinrichNeuserzum 65, Geburtstag. Kampen: Kok, 1991. p. 78.
2.Ver, por exemplo:
- PARTEE, Charles. Calvin's Central Dogma Again. Sixteen century journal. 18.2 (1987): 184. 
- GRÜNDLER, OUo. John Calvin: Ingrafting in Christ. In: ELDER, Rozanne (Ed.). The spirituality of western Christendom. Kalamazoo, Mich.: Cistercian, 1976. p.172-187.
- ARMSTRONG, Brian G. The Nature and Structure of Calvin's Thought according to the Institutes: Another Look. In: John Calvin's magnum opus. Potchefstroom, South Africa: Institute for Reformation Studies, 1986. p. 55-82.
- HAAS, Guenther. The concept of equity in Calvin's ethics. Waterloo, Ont.: Wílfrid Laurier University Press, 1997.
3.Institutes. 3.11.9. Ver também C0. 15:722.
4.HAGEMAN, Howard G. Reformed Spirituality. In: SENN, Frank C. (Ed.). Protestant spiritual traditions. New York: Paulist Press, 1986. p. 61.
5.Institutes. 3.2.24.
6.Dennis Tamburello ressalta que há "pelo menos sete ocasiões em que, nas Institutas, Calvino usa a palavra arcanus ou incomprehensibilis para descrever a união com Cristo" (2.12.7; 3.11.5;4.17.1,9,31,33;4.19.35). UnionwithChrist:JohnCalvin and the Mysticism of St. Bernard. Lousville: Westminsterl John Knox Press, 1984. p. 89, 144.
Ver também EVANS, William B. Imputation and impartations: the problem of union with Christ in nineteenth-century american reformed theology.1996. f. 6-68. Dissertação (Ph. D). VanderbUt University, 1996.
7.Commentary, João 6.51.
8.Institutes. 2.16.16.
9. SPIJKER, Willem van't. "Extra nos" "in nos" por Calvino em A Pneumatological Light. In: DEKLERK, Peter (Ed.). Calvin and the Holy Spirit. Grand Rapids: Calvin Studies Society, 1989. p. 39-62. - JOHNSON, Merwyn S. Calvin's Ethical Legacy. In: FOXGROVER,
David (Ed.). The legacy of John Calvin. Grand Rapids: Calvin Studies Society, 2000. p. 63-83
10.    OS. 1:435-436; SPIJKER, Willem van't. Extra nos and in nos by Calvin in a Pneumatological Light. p. 44.
11.    Institutes. 3.1.4.
12.    Institutes. 4.17.6. Commentary, Atos 15.9.
13.    Commentary, Efésios 5.32.
14.    Institutes. 3.1.1; 4.17.12.
15.    Calvinus Vermilio (# 2266, 8 agosto 1555). CO. 15:723-724.
16.    CO. 50:199. Ver também PITKIN, Barbara. What pure eyes could not see: Calvin's doctrine of faith in its exegetical contexto New York: Oxford University Press, 1999.
17.    Institutes. 2.9.2. Commentary, 1 Pedro 1.25. Ver também FOXGROVER, David. John Calvin's Understanding of Conscience. 1978.407 f. Dissertação (Ph. D). Claremont, 1978.
18.    THE COMMENTARIES of John Calvin on lhe Old Testament. 30 v. Edinburgh: Calvin Translation Society, 1843-1848. Comentário sobe Gênesis 15.6. Daqui para frente, a nota dirá apenasCommentary e citará o texto bíblico. Ver também Commentary, Lucas 2.21.
19.    Institutes. 3.2.6.
20.    Institutes. 3.2.30-32.
21.    Institutes. 3.2.24. Commentary, 1 João 2.12.
22.    Sermons on the Epistle to the Ephesians. Arthur Golding (Trad).
Reimpressão. Edinburgh: Banner of Truth Trust, 1973. 1.17­18. Daqui para frente, a nota dirá apenasSermon e citará o texto de Efésios.
23.    Commentary, Efésios 3.12.
24.    Sermon, Efésios 3.14-19.
25.    Commentary, Habacuque 2.4.
26.    The Third Part of Christian Freedom Misplaced. In: GRAHAM, W. Fred (Ed.). Later calvinism:international perspectives. Kirksville, Mo.: Sixteen Century Journal, 1994. p. 484-485.
27.    Institutes. 3.11.1.
28.    Sermons on Galatians. Kathy Childress (Trad.). Edimburg:
Banner ofTruth Trust, 1997.2.17-18. Daqui para frente, a nota dirá Sermon e citará o texto de Gálatas.
29.    Institutes. 3.11.2.
30.    Ibid.
31.    Institutes. 3.11.1; 3.15.7.
32.    Institutes. 3.13.1.
33.    Institutes. 1.7.5.
34.    Commentary, João 17.17-19.
35.    Institutes. 3.11.6.
36.    Sermon, Gálatas 2.17-18.
37.    Commentary, Romanos 6.2.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Efésios 1.6 - "Para louvor e glória da sua graça" - Exposição em Efésios - Sermão pregado dia 08.04.2012


Efésios 1.6 - "Para louvor e glória da sua graça"
Exposição em Efésios - 
Sermão pregado dia 08.04.2012

"Para louvor e glória da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado" (Ef 1.6).

Sempre nos é mister atentar para o fato de que todas as coisas redundam inevitavelmente no louvor e glória do nome do Deus Altíssimo, pois visto que uma vez Ele é o criador e sustentador de tudo, nada resta às criaturas do que se vangloriar em qualquer vã esperança que possam cogitar ter em si mesmas.

O apóstolo Paulo tem nos levado por caminhos maravilhosos mediante o desenrolar da narrativa aos efésios, donde aprendemos deveras doutrinas e apontamos importantes para nossa vida. Um dos pontos cruciais que o apóstolo deseja cravar em nossos corações, na presente epístola, é o ensinamento de que Deus é o sustentador e guardador de toda Sua obra, de modo que reiteradamente nos apresenta palavras como eleiçãopredestinaçãodesde a fundação do mundoadoçãopara sua glória, mostrando-nos sempre qual deve ser o ponto de partida para todo e qualquer entendimento acerca da palavra do Eterno: Sua revelação dada a nós, isto é, a Bíblia.

Após o santo apóstolo ter nos dito que todos os crentes são eleitos antes da fundação e que tal eleição passa pela via da predestinação graciosa de Deus, proferida e culminada em nosso Senhor Jesus Cristo, ele agora nos apresenta outra nuance dessa graciosa obra realizada em favor de nós, a saber, que todo o povo de Deus foi escolhido "Para louvor e glória da sua graça". 

Louvor. Nos é necessário apontar o fato de que quando Deus proclama - através de Paulo - que todas coisas convergem em Cristo Jesus, isso tem por objetivo nos ensinar que tudo o que Deus faz é bom, pois  ao criar a terra viu que tudo era bom, o homem foi criado à Sua imagem e semelhança e isso foi bom, Seu Filho Jesus é bom, Sua obra na cruz é boa... de modo que levou o profeta a dizer: "E direis naquele dia: Dai graças ao SENHOR, invocai o seu nome, fazei notório os seus feitos entre os povos, contai quão excelso é o seu nome" (Is 12.4 - grifo meu). O profeta era consciente do quão grande era o nome do Senhor, de quantas maravilhas Ele havia efetuado em meio ao Seu povo. Contudo, essa não é uma peculiaridade do profeta, pois quantas são as vezes que nos deparamos com magníficos louvores de gratidão, honra e exaltação ao Rei dos Reis? Não nos é incomum encontrar, mesmo na leitura diária, diversas vezes o nome do Senhor sendo engrandecido em meio ao povo de Israel e também mediante a expansão do evangelho que chegou até os gentios. Uma vez que todas as coisas foram criadas para o Seu louvor, resta-nos apenas nos deleitar nas maravilhas eternas e contemplar graciosamente a obra do Amado em quem somos adotados mediante Seu amor.

Graça. Aqui também reside um dos grandes baluartes da fé cristã. Não há homem que possa esquivar-se da verificação de que o Senhor está sempre presente com Sua graça em nossas vidas. Em outro lugar (Rm 1.20) o apóstolo mesmo nos diz que a própria natureza revela a soberania e o caráter criativo do Senhor, de modo que ninguém será livre por não ter "ouvido a mensagem da salvação", pois embora não tenham ouvido literalmente, pela dureza dos seus corações não renderam graças ao Artífice - por meio da natureza - e por isso serão condenados. No entanto, parece-nos que o apóstolo deseja transmitir-nos não somente um ensino de que todas as coisas culminam na obra de Cristo, mas que também todas as coisas nos advém mediante a Sua graça atuante em nossos corações. Para entendermos melhor esse fato, nos é necessário fazer uma breve distinção entre graça e misericórdia.

Quando falamos da graça de Deus estamos nos referindo àquele favor completamente imerecido de nossa parte, àquele feito que de modo algum poderia ser alcançado pelo homem vil e pecador. A graça de Deus é o entendimento correto de que se fazemos algo moralmente bom, se temos algo do que podemos nos alegrar nessa vida, e mais, principalmente a salvação que atua em nós, tudo é provindo da graça soberana do Senhor em nossas vidas, pois o que mais poderíamos desejar de um Deus soberano que até mesmo sabe o número de cabelos de nossa cabeça e ordena que cada um deles caia no tempo adequado (Mt 10.30)? Já a misericórdia de Deus é frequentemente representada como aquilo que deveríamos receber, mas não recebemos - isto é, a morte instantânea por nosso pecado e violações dos preceitos divinos. O conhecido versículo nos diz que "As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim" (Lm 3.22). Enquanto a graça do Senhor nos dá tudo àquilo que não merecíamos, a misericórdia do Senhor é causa de não sermos punidos por nossos pecados, de modo que constantemente deveríamos render louvores ao Senhor e magnificar Seu santo Nome entre as nações, pois foi do agrado do Senhor fazer conhecida a Sua graça e misericórdia na vida de todos os eleitos. Porém, para que alguém não insurja-se e alegue que os ímpios também são agraciados pela Sua graça e misericórdia, faço dois apontamos: Em primeiro lugar, se a graça é tudo aquilo que recebemos por bondade do Senhor e, conforme Rm 8.28, tudo que acontece aos crentes é para o seu próprio bem, deduz-se claramente que a graça do Senhor não atinge a todos os homens de igual maneira. A doutrina comumente conhecida como "graça comum" deve ser cuidadosamente analisada (para não cairmos em erro), pois haja vista que o Senhor não pode contradizer-se por meio de Sua própria palavra (o que O levaria a anular Sua soberania), Ele não pode ao mesmo tempo agraciar o ímpio e depois mandá-lo para a perdição eterna; da onde retiramos a conclusão de que, embora o ímpio receba o sustento e cuidado do Senhor (seus filhos nascem e crescem, sua empresa não vai à falência, sua família se reúne constantemente...), sua paga se restringe à essa terra, não podendo em hipótese alguma crer assim como o cristão de que "todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus", porque seu coração é obstinado e rebelde contra o Senhor, o que invariavelmente o torna excluso da graça salvadora do Eterno. Em segundo lugar, a misericórdia do Senhor, de acordo com Thomas Watson, possui duas finalidades: salvar o crente e condenar o descrente. A misericórdia do Senhor é salvífica na vida do crente porque ele foi transformado pelo Senhor e a cada novo amanhecer ele reconhece que depende de Sua misericórdia, pois seus pecados são muitos e não há nada que consiga oferecer ao Senhor para que aplaque Sua ira, exceto o apegar-se constantemente no Seu único Filho e somente a Ele devotar louvores. Para o descrente, entretanto, a misericórdia do Senhor tem a finalidade de culpá-los ainda mais devido a rebeldia presente em seus corações. "Então disse a Abrão: Sabes, de certo, que peregrina será a tua descendência em terra alheia, e será reduzida à escravidão, e será afligida por quatrocentos anos, Mas também eu julgarei a nação, à qual ela tem de servir, e depois sairá com grande riqueza. E tu irás a teus pais em paz; em boa velhice serás sepultado. E a quarta geração tornará para cá; porque a medida da injustiça dos amorreus não está ainda cheia" (Gn 15.13-16 - grifo meu). 

É também sempre importante salientar que a graça e misericórdia do Senhor sempre estiveram presente na história redentora do povo de Israel. Infelizmente não são poucos os homens que pregam acerca de que a graça do Senhor (e mesmo Seu Espírito Santo!) não estava presente no Antigo Testamento. Contudo, se não estava presente, o que foi a arca de Noé que livrou esse santo e sua família da perdição? O que foi a abertura do Mar Vermelho e o livramento da escravidão do Egito? O que foi o maná vindo do céu e as codornizes enviadas pelo Eterno? Acaso alguém ousará afirmar que todas as coisas aconteceram por obra do acaso? E ainda mais: o que foram as vitórias na guerra, as bênçãos do Senhor em meio ao deserto da obstinação e revolta contra o Seu nome, a visitação do Seu Espírito e instrução acerca da vida civil, moral e espiritual? Algum louco cogita que tudo isso não se deu devido à Sua rica e abundante misericórdia estendida ao povo, mesmo em face de tamanha ousadia em ultrajar os intentos do Mestre? Que ninguém, em hipótese alguma, ouse afirmar que o Senhor não se fazia presente nos tempos pretéritos.

Parece-nos também que o apóstolo deseja afirmar que sendo todas as coisas fruto de Deus e tendo como finalidade primeira o "louvor e glória da sua graça", nenhum homem pode desejar arquitetar uma forma de Deus guiar o Seu povo; conforme lemos: "O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito" (Jo 3.8). Para a tristeza dos homens infrutíferos e que dizem não ser o Senhor soberano sobre todas as coisas, essa declaração é como uma bomba explodindo perto de suas faces e que logo deteriorará todo o seu senso de justiça própria e pseudo-entendimento-teológico-frustrado.

Então, sendo tudo feito para o louvor e glória da graça do Senhor, apóstolo acrescenta ainda outro entendimento importante, isto é, que mediante essas coisas "nos fez agradáveis a si no Amado".

Quando anteriormente o apóstolo exortou-nos sobre a importância de reconhecermos que todos os crentes são predestinados "para filhos de adoção por Jesus Cristo", ele o fez como que num desdobramento de sua sentença ainda anterior, isto é, de que uma vez eleitos somos também predestinados e isso culmina - no caso dos crentes - na nossa adoção por Jesus Cristo. Nesse ponto nos é mui benigno atentar para a salutar questão acerca de que uma vez adotados em Cristo, agora somos agradáveis ao Amado, isto é, ao Senhor nosso Deus.

"(Pois a lei nenhuma coisa aperfeiçoou) e desta sorte é introduzida uma melhor esperança, pela qual chegamos a Deus" (Hb 7.19). Calvino corretamente apontou que na vida do crente a Lei serve-lhe como um chicote, no qual constantemente é chicoteado e vê-se completamente sem esperança, pois basta olhar para qualquer um dos mandamentos e já percebe-se que tem infringido-os, fazendo verdadeira as palavras de Tiago que dizem: "Porque qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos" (Tg 2.10). No entanto, esse "chicote" da Lei não é o fim em si mesmo, diz Calvino, e sim que serve-nos de guia até Cristo (cf. Gl 3.24), de modo que tenhamos alívio em nosso corpo e consciência por sabermos que quando estamos unidos no Senhor, a Lei já não nos chicoteia para a morte e perdição, mas sim para a vida, pois estamos sob a Cruz e nela toda ira de Deus já foi desferida contra Seu único filho, o que se traduz em dizer que de maneira magnífica os filhos do Senhor foram adotados pelo beneplácito de Sua vontade, levando cada um deles a um encontro com o salvador e os fazendo cônscios do quão pecadores são, conduzindo-os a cada dia em maior humildade diante do Eterno Artífice e Sustentador de todas as coisas; pois quem de nós, tal qual uma criança adotada, poderia gloriar-se em alguma vã prepotência de si mesmo, ao contrário, simplesmente não abraçaria graciosamente o Amado que a tem salvo?

Uma vez que os crentes proclamam a soberania plena de Deus, seria mister que todos bradassem em alta voz que suas adoções se deram graças ao Amado Senhor que sempre lhes é benigno e gracioso. Sendo Deus também de tamanha amabilidade para conosco, e sempre reconhecendo que o Pai enviou seu único Filho para morrer por nós, quem somos diante d'Ele para desejarmos buscar nos escusar de Suas ordens e estatutos divinos? Ora, como filhos adotados que somos, quem desejaria instruir ao Pai sobre qual a melhor forma de educar Seus filhos? Na adoção, glória, honra e respeito são sempre devidos ao pai, pois qual criança possui liberdade de sair do orfanato do pecado e ir à cidade buscar abrigo para sua alma?

Muitos homens incautos têm rejeitado a instrução do Senhor acerca de Sua soberania plena - que amavelmente culmina em nossa graciosa adoção. Ao lerem versículos como "Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade" (Gl 5.13), entendem - erroneamente - que Cristo os chamou para longe de Sua Lei, para afastarem-se de uma moralidade cristã, para irem onde seus corações desejarem, tudo como se ao tornarem-se cristãos, não tivessem de viver mais sobre um jugo, negando desse modo as palavras do próprio Cristo que dizem:  "Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve" (Mt 11.30). Nenhum homem deve imaginar que a Lei do Senhor foi abolida na vida dos crentes, pois uma vez que Cristo nunca proferiu qualquer sentença que nos dissesse que estamos livres da observância dela, naturalmente depreende-se de que ela ainda nos é útil e benéfica. Porém, deve-se observar, agora em Cristo, o bom uso da Lei na vida do crente, ou seja, que embora ela não nos condene, pois estamos em Cristo, ela serve-nos de estrada para cumprirmos nosso papel de crentes adotados por Cristo Jesus. Pois se tão somente houvéssemos sido adotados e não nos fosse dado qualquer parâmetro para viver, como saberíamos qual a forma correta de levarmos nosso novo viver sob o cuidado do Mestre? Acaso desejaríamos viver por conta própria e fazermos pouco caso do Senhor que comprou-nos com seu único Filho?

Portanto, é nessa seara que sempre devemos plantar nossas ações e agradecimentos ao Senhor, louvando-o diariamente pelos Seus feitos gloriosos, sempre cantando louvores em todas as ocasiões (cf. Sl 47), pois se há alguma coisa que podemos oferecer ao Altíssimo, é tão somente nosso louvor e gratidão por Sua obra vicária na cruz que resgatou-nos do domínio das trevas e nos fez ver grande luz (At 9.3), pois se assim não fosse, não seríamos adotados para o louvor da Sua glória, nunca receberíamos o deleite de Sua graça e jamais desfrutaríamos de uma comunhão com o Senhor, pois por natureza somos filhos bastardos e relegados à ira divina.

Louvado seja o Senhor por tudo que nos tem feito.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

A Jovem Puritana: Cortejando


Ao preparar-se para pensar em casamento, era típico ser dito à jovem puritana que afeição estável de ambos os lados em um relacionamento era geralmente um sinal de apoio divino ao casamento. Todavia, ela não devia necessariamente procurar por alguém a quem ela amasse naquele exato momento, mas por alguém a quem ela poderia amar de forma permanente. Esta é uma importante distinção (expandir-emoção vs. critério). A moça puritana era ensinada que o amor pelo Senhor devia vir primeiro e o amor humano devia alimentar esse amor e não desviá-la dele. Contudo, o amor marital, uma vez que o homem e a mulher estivessem unidos, devia ser igual ao da igreja por Cristo, embora subserviente ao amor dela pelo Senhor. Packer nos fala que o homem puritano típico oraria muito e pensaria bastante sobre uma companheira em potencial. Que ela fosse uma cristã séria era uma condição. (Faça uma pausa e considere isto.) Beleza de mente e caráter era enfatizado bem mais que beleza externa. Uma avaliação completa do caráter da moça precederia a corte. Como isso era feito? Ele tentaria descobrir sua reputação, observar como ela costumava agir na convivência com outras pessoas, como ela se vestia e conversava, e a quem ela selecionava para seus amigos. O puritano Robert Cleaver escreveu: “Escolhe uma companheira para tua vida como antes escolhestes companhias iguais a ti”. Os puritanos Dod e Cleaver em seu A Godly Form of Household Government (Uma Forma Piedosa de Governar a Família): “Vejam um ao outro comendo e acordando, trabalhando e brincando, conversando, rindo e desaprovando também; ou, caso contrário, pode ser que se tenha um para com o outro menos do que se procurava, ou mais do que desejassem”. Os puritanos usavam o modelo de cortejar bíblico, experimentado e verdadeiro, em preferência ao moderno, em preferência às práticas mundanas de namoro de hoje. Eles tinham pouca esperança para com aqueles casais cujas afeições se sobrepunham à razão. De forma típica, a razão era empregada em primeiro lugar na procura de um parceiro e as afeições deveriam segui-la obedientemente. Talvez seja uma surpresa para nós, mas eles freqüentemente conseguiam. Quando um certo Michael Wigglesworth desejou persuadir uma mulher piedosa a casar-se com ele, ele escreveu-lhe, não proclamando um amor violento por ela, mas, em vez disso, fez cuidadosamente uma lista de dez razões pelas quais ela deveria casar com ele e depois respondeu a duas objeções à união deles levantadas por ela. Embora a primeira das razões dele se assemelhe ao amor romântico com que todos nós estamos muito familiarizados – “meus pensamentos e coração têm sido somente por você desde” nosso primeiro encontro – as outras razões não foram produtos de paixão, mas de piedade. Na razão dois nós lemos que “mesmo buscando a Deus de forma séria, fervorosa e freqüente por orientação e direção em uma questão tão séria, meus pensamentos ainda têm sido determinados e fixos em você como a pessoa mais adequada para mim”. Razão três: “A isso eu não tenho sido levado por fantasias (como muitos são em casos assim), mas por um raciocínio e julgamento saudável, principalmente amando e desejando você por aqueles dons e graças que Deus lhe deu, e visando a glória de Deus, a beleza e promoção do evangelho. O bem espiritual, bem como o bem exterior de mim mesmo e de minha família, juntamente com o seu bem e de seus filhos, como meus objetivos, induzem-me a isso”. Para encurtar a história: a senhora casou com Wigglesworth. Que pai hoje não invejaria tal pretendente para sua filha? Nossa forma de aproximarmos uma relação em nossos dias atuais não está talvez nos afastando desta preparação séria para o casamento? Uma conclusão errada à qual não queremos que se chegue é dizer que os sentimentos do amor não são importantes. Os puritanos apenas não os consideravam de todo-importante. O amor tinha que ser precedido e temperado com considerações sérias, espirituais.

Por David Lipsy

O culto online e a tentação do Diabo

Você conhece o plano de fundo deste texto olhando no retrovisor da história recente: pandemia, COVID-19... todos em casa e você se dá conta ...