segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Efésios 3.1 - Prisioneiro de Jesus Cristo - Exposição em Efésios - Sermão pregado dia 11.08.2013


Efésios 3.1 - Prisioneiro de Jesus Cristo
Exposição em Efésios -
Sermão pregado dia 11.08.2013

Veja a pregação em vídeo, realizada na Igreja Cristã Reformada de Blumenau.
Link: http://www.youtube.com/watch?v=jnsz3pgJ0ig&feature=youtu.be

"Por esta causa eu, Paulo, sou o prisioneiro de Jesus Cristo por vós, os gentios" (Ef 3.1).

Tendo estabelecido a doutrina de que era apóstolo pela vontade de Deus (Ef 1.1) e acerca da salvação pela graça dada aos gentios, agora escreve aos irmãos dizendo que isso lhe custou algo caríssimo: sua prisão. O homem que outrora perseguia os cristãos e possuía satisfação ao prendê-los (At 9.21), agora está em cadeiras por causa de sua fé - "Aquele que já nos perseguiu anuncia agora a fé que antes destruía" (Gl 1.23). Que grande mudança!

A vida de um cristão é, à semelhança do que ocorreu com Paulo e os gentios aos quais ele se dirigia, de transformação visível e notária aos homens. Os homens uma vez convertidos, não são transformados simplesmente quanto as suas convicções e filosofias, e sim às atitudes e desdobramentos da vida. Paulo não pôde continuar com suas velhas práticas carnais, pois o evangelho lhe transformou por completo. Os gentios em Éfeso não podiam continuar cultuando a deusa Diana (At 19), pois tinham se despido do velho homem. A palavra do Senhor, uma vez incrustada na vida do homem, ensina a melhor maneira de viver e concede a mais nobre transformação da mente.

No entanto, o apóstolo não se fixa somente na transformação, mas vai além, exultando em Cristo por estar preso. O apóstolo nada reclama sobre sua prisão. Não temos qualquer registro de Paulo murmurando por estar acorrentado e impedido de pregar o evangelho. Pelo contrário, vemos o quanto ele jubilava estar preso pela causa de Cristo e em como isso não era tido como um empecilho para falar de Cristo, pois nestes mesmos lugares ele anunciava o senhorio de Jesus, de modo que muitos, até mesmo do palácio de César, se converteram (Fp 4.22).

Vamos analisar o que aprendemos desta passagem:

1. Há um motivo para todas as coisas

Muitíssimos anos antes já havia escrito o pregador: "Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu" (Ec 3.1). Houve o tempo em que Paulo fora predestinado para perseguir o cristianismo - agora chegara a hora de ser perseguido.

Paulo não fora preso arbitrariamente - que ninguém pense tal coisa. A Escritura nos diz: "O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito" (Jo 3.8). Mas por que assim é? "Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade" (Fp 2.13). Deus foi quem levou o apóstolo até a prisão, pois anteriormente havia dito sobre ele a Ananias: "eu lhe mostrarei quanto deve padecer pelo meu nome" (At 9.16). O apóstolo foi guiado segundo o conselho da única e perfeita vontade do Soberano, de modo que não sem motivo foi a prisão do santo homem, mas para magnificar a glória do Senhor.

A Escritura nos diz que antes do apóstolo saber o que lhe sucederia, pois ficara cego por três dias (At 9.9), o Senhor já havia determinado um propósito para ele: "este é para mim um vaso escolhido, para levar o meu nome diante dos gentios, e dos reis e dos filhos de Israel" (At 9.15). Talvez a última coisa que Paulo pudesse estar pensando ao ter visto o resplendor da glória de Cristo (At 9.5), era que seria uma testemunha d'Aquele a quem perseguia. No entanto, o Senhor havia, antes da fundação do mundo, escolhido o apóstolo para esse ministério - "Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo" (Ef 1.4 - grifo meu). O apóstolo não estava em cadeias porque havia desobedecido ao Senhor, e sim o inverso, a saber, porque havia sido chamado por Ele.

Isto nos ensina que o chamado cristão pode envolver duras penas e labutas por esta terra, no entanto, tudo ocorrendo com um precioso propósito, "Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo" (Ef 4.13).

O Senhor jamais prometeu que os Seus não seriam afligidos por causa do Seu nome - em verdade, asseverou por meio de Jesus: "E de todos sereis odiados por causa do meu nome" (Lc 21.17). E estes "todos" incluiria até mesmo os mais íntimos: "E até pelos pais, e irmãos, e parentes, e amigos sereis entregues; e matarão alguns de vós" (Lc 21.16). "Ide; eis que vos mando como cordeiros ao meio de lobos" (Lc 10.3). Enquanto cristãos neste mundo, somos chamados a viver como àqueles primeiros mártires neotestamentários, que mesmo sob o rugido dos leões e o brandir da espada, permaneciam firmes e inabaláveis. Não fomos enviados como crianças ao parque de diversões, e sim como homens ao cadafalso, para morrermos pelo Senhor.

Somente os nobres podem morrer pelo Rei. Impuros, fracos e débeis não estão aptos para serem os provadores do cálice de reis, a fim de evitar que eles venham a tomar bebida envenenada. É preciso que homens escolhidos sejam dignos de padecerem pelo Rei dos reis. Porém, estes homens, os cristãos, não são dignos por algo intrínseco a eles mesmos, mas em Cristo Jesus são considerados filhos do Altíssimo e por isso são chamados à mesa do banquete, ainda que sejam pobres e fracos por natureza - "Sai depressa pelas ruas e bairros da cidade, e traze aqui os pobres, e aleijados, e mancos e cegos" (Lc 14.21).

Os homens do mundo, aqueles não regenerados, são como o ímpio Hamã que planejava matar o judeu Mardoqueu (Ester 3.5; 7.9). Seguem os passos daquele ímpio e planejam enforcar todos os que dizem seguir o Senhor. Juntamente com este ímpio Hamã, mas sob a égide do Novo Testamento, estava o apóstolo Paulo. Ainda que não desejasse a morte dos judeus por si só, odiava mortalmente todos os que seguiam "o Caminho". Mas ao contrário de Hamã, que foi morto na própria forca que mandara fazer a Mardoqueu (Ester 8.7), Paulo fora liberto e passou a ser um propagador do Reino dos céus.

Oh! Que grande mistério! Em pensar que o Senhor escolheu as coisas loucas deste mundo para serem a glória de Seu reino (1Co 1.27)! Em meditarmos na transformação gloriosa que Deus arquitetou e planejou antes de qualquer coisa ter sido criada, de modo que cada evento ocorrido na terra está sob Sua completa regência e soberania! Em crermos que ovelhas podem sair vivas do meio de lobos terríveis e até mesmo os transformarem por meio de sua mensagem de vida! Que glorioso evangelho é este, que não é limitado por forças naturais e não segue um padrão determinado por homens! Enquanto humanos intentam destruir incessantemente o evangelho, o Senhor preparou todas as coisas de antemão para que glorificassem ao Seu nome!

2. A conversão não anula os efeitos dos pecados passados

Não obstante a glória obtida com sua transformação pelo evangelho, o Senhor haveria de ensinar o apóstolo que a conversão, além de ser uma obra sobrenatural de Deus na vida do homem - pois foi o Senhor quem apareceu a Paulo, e não ele que desejou O ver -, não deixa impune os pecados do passado. Não que Deus se vingue dos pecados em Seus filhos, pois isto já o fez definitivamente na pessoa de Cristo, mas Ele ensina, por meio da disciplina, que haverão dificuldades e tentações a serem superadas durante a vida cristã.

Assim como Paulo teve de enfrentar prisões, perigos de morte, naufrágios e toda sorte de impetuosidades, também os demais cristãos precisam estar cientes de que a salvação não os leva a uma redoma de vida espiritual. Uma vez convertido, o sangue do cristão se torna ainda mais desejável ao inimigo que "anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar" (1Pe 5.8). A figura bíblica para o pecado não é de um homem bondoso ou de alguma criatura mística aparentemente amigável, mas, sim, de um leão faminto, sedento de fome e firmemente determinado a tragar todo aquele a quem puder abocanhar.

Enquanto o homem está envolto às trevas do pecado, Satanás parece não distinguir os seus filhos, pois todos são como lobos, idênticos. Ele olha para a terra e conhece os seus, sabendo quem lhe pertence, mas sem distinguir. Entretanto, uma vez que o evangelho purificador banha com o sangue do cordeiro o outrora lobo, Satanás muito se ira e por isso ordena que todas as suas feras saiam em busca daquele pequeno cordeiro, não medindo forças para o alcançar e não desistindo em quando a vida da ovelha não expirar.

Oh! Que pudéssemos ter essa visão mais forte em nossas vidas! Como viveríamos diferentemente se sustentássemos a correta noção de que somos enviados como ovelhas ao matadouro! Como cordeiros aos lobos! Ainda que poupados pela soberana proteção do Senhor, vivendo e sentido perigos terríveis!

É necessário que entendamos que o viver no mundo é um viver de atalaia: vigilante, ativo e sem demora. E por que precisamos ser vigilantes? Porque ainda sofremos os efeitos do pecado. No entanto, agora estas consequências não são mais um peso, mas uma glória! Assim como as amarras de Paulo não eram um peso, também as dificuldades cristãs devem ser encarados como meios que o Senhor se utiliza para fortalecer os Seus - e "aquele que perseverar até ao fim, esse será salvo" (Mt 10.22).

3. Há uma glória em ser perseguido

Como dissemos, há uma glória em ser perseguido. Esta glória e louvor se estabelecem pelo precioso fundamento: nada pode ser mais nobre do que ser um representante de Deus na terra. A Bíblia nos diz que em Adão todos pecaram, porém, "assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo" (1Co 15.22).

Notemos que a transposição do cristão é de morto no pecado para vivo em Cristo (Ef 2.1). Um morto não sofre, não possui sentimentos e não nada tem para reclamar - assim são os não regenerados pelo Senhor. Eles não podem lamentar de coisa alguma, pois nada possuem! Eles não têm qualquer direito de reivindicar melhorias e desejarem que o Senhor lhes seja propício, pois estão mortos! Suas vidas já são uma completa destruição, de maneira que tudo o que julgam sofrer, nada mais é do que sua própria naturalidade! Todavia, aos cristãos é dito que agora foram "vivificados em Cristo". Porque foram feitos nova criatura, agora eles sentem os desprazeres deste mundo. Eles agora odeiam este mundo mal e a recíproca é verdeira, ainda que reconheçam a bondosa mão de Deus os sustentando e ordenando a toda criação. Porque são vivos, podem ter a honra de perecer pelo Senhor.

Notemos como o apóstolo expressa esta glória: "Por esta causa eu, Paulo, sou o prisioneiro de Jesus Cristo". O escolhido do Senhor faz questão de dizer que está preso por causa de Jesus Cristo. Noutras palavras, ele não omite que isto lhe é devido e creditado em sua conta como honra, pois afirma que a causa que o levou ao aprisionamento foi Jesus Cristo. Ainda mais: ele diz ser prisioneiro de Jesus Cristo. Paulo não se reportou aos irmãos em Éfeso como prisioneiro de homens, mas de Cristo Jesus. Adiante ele escreverá novamente, dizendo ser "preso do Senhor" (Ef. 4.1).

Ao olharmos para nossa vida, temos tido a santa atitude do apóstolo em confirmar que somos também como que presos do Senhor? Podemos afirmar que somos "servo[s] de Jesus Cristo" (Rm 1.1)? A palavra que o apóstolo se utiliza para "servo", é a mesma palavra usada para escravo (doulos), levando os crentes a pensarem se uma vez confessando a Jesus como Senhor e Salvador, estavam sendo realmente escravos de Cristo. Em lugar "do jugo da servidão" (Gl 5.1) do pecado, agora os cristãos se encontram sob o jugo de Cristo: "Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve" (Mt 11.30).

Os cristãos são levados pelo jugo, espécie de objeto que ata um boi ao outro pelo pescoço, de maneira que não andem para lugares distintos - isto é o que Cristo usa para dizer aos cristãos. Ele se utiliza de uma expressão belíssima, mostrando como o jugo que Ele coloca, em oposição ao que pecado propõe, é infinitamente mais suave e a carga a ser carregada é leve.

Cristo não nos diz que O seguir é um peso, e sim uma gratidão, uma glória, algo belo, formoso e digno de apreciação? E por quê? "Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor" (Rm 6.23).

4. O homem natural nada pode fazer para deter o evangelho

Esta passagem também nos ensina que o homem natural não pode coisa alguma contra a determinação de Deus em fazer com que Sua palavra avance. Ainda que os filhos do Senhor sejam "reputados como ovelhas para o matadouro" (Rm 8.36), somos informados de inabalável certeza que possuía o apóstolo, estando certo "de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, Nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor" (Rm 8.38-39).

Se o homem natural nada pode fazer para barrar o evangelho, isto implica em dizer que coisa alguma nesta vida pode retirar um homem das mãos de Cristo. Ainda que sejamos alertados sobre o pecado imperdoável (Mt 12.31; Mc 3.29; Lc 12.10), ele não será praticado por nenhum dos eleitos do Senhor, pois uma vez que somos instados a confiar no sacrifício substitutivo e imputado eficazmente sobre todos os Seus, tal pecado jamais será praticado pelos genuínos cristãos.

Nem mesmo as cadeias puderam separar o apóstolo do Senhor. Parece-nos que quanto mais o apóstolo sofria, mas digno do evangelho se considerava. Quanto mais padecia na mão de homens iníquos, mais glorificava ao Senhor, pois era cônscio de que homem algum impediria o avançar do evangelho, ainda que o matassem e o esquartejassem.

Os cristãos, "da fraqueza tiraram forças, na batalha se esforçaram" (Hb 11.34). Nas duras perseguições, revela o autor de Hebreus, os santos do Antigo Testamento haviam sido "apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, desamparados, aflitos e maltratados (Dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, e montes, e pelas covas e cavernas da terra" (Hb 11.37-38). Mesmo com essa quantidade sem par de sangue cristão derramado, o cristianismo crescia cada vez mais - e assim haverá de ser, até que "encha-se toda a terra da sua glória" (Sl 72.19) e "a minha casa se encha" (Lc 14.23).

5. Anunciar o evangelho poderá custar nossa liberdade

Por fim, mas não de somenos importância, é mister notarmos que o cristianismo, ainda que não necessariamente se suceda em prisões físicas, nos coloca como que em prisões neste mundo. Aqui estamos como que presos pelas correntes dos homens "que detêm a verdade em injustiça" (Rm 1.18). Eles intentam nos aprisionar, limitando o nosso agir e pregar do evangelho. O terrível leão ruge mui perto de nossos ouvidos, nos levando a tremer de pavor. No entanto, não temamos aos homens! "Não temais os que matam o corpo e, depois, não têm mais que fazer. Mas eu vos mostrarei a quem deveis temer; temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno; sim, vos digo, a esse temei" (Lc 12.4-5).

O evangelho deve, necessariamente, nos aprisionar neste mundo, fazendo com que sintamos incômodo enquanto vivemos. É verdadeiro o fato de mesmo diante de tantas vicissitudes, o Eterno nos dar uma miríade de graças e misericórdias, concedendo, "o vinho que alegra o coração do homem, e o azeite que faz reluzir o seu rosto, e o pão que fortalece o coração do homem" (Sl 104.15), mas o evangelho precisa ser sentido no mundo - e quando ele for sensivelmente tocado por ele, se insurgirá e tentará nos reprimir.

O cristão não possui nenhuma promessa de que será bem recebido pelos povos da terra, com exceção dos últimos tempos onde o evangelho será maciçamente pregado e aceito pelas nações (Mt 24.14). Não possuímos nenhum estímulo para esperar o louvor dos homens. Possuímos, sim, estímulo para continuar lutando e destruindo as hostes infernais pelo poder do Senhor, "Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais" (Ef 6.12).

Que nesta manhã, segundo a poderosa e eficaz graça do Senhor, saiamos resolutos em prosseguir na caminhada cristã, não amando o mundo e crendo, que assim como Paulo foi preso e chegou a desesperar pela própria vida, mas por fim compreendeu que suas dificuldades enfrentadas eram para que não confiasse em si mesmo e passasse a confiar totalmente em Cristo, também possa ser em nossas vidas: "Porque não queremos, irmãos, que ignoreis a tribulação que nos sobreveio na Ásia, pois que fomos sobremaneira agravados mais do que podíamos suportar, de modo tal que até da vida desesperamos. Mas já em nós mesmos tínhamos a sentença de morte, para que não confiássemos em nós, mas em Deus, que ressuscita os mortos" (2Co 1.8-9 - grifo meu).

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

O "amém" é coisa séria!

É comum ouvirmos a afirmação que o significado das palavras hebraica e grega traduzidas como “amém” é “que assim seja”. Ouvimos, por exemplo, que devemos finalizar nossas orações com um convicto “amém”, a fim de expressar nosso forte e sincero desejo de que Deus atenda nossas petições. E, de fato, a palavra pode ser entendida dessa forma. Edward Robinson diz que a palavra aparece “usualmente no final de uma oração, onde serve para confirmar as palavras que precedem” (Léxico Grego do Novo Testamento.Rio de Janeiro: CPAD, 2012. p. 46). Isso pode ser visto, por exemplo, em Neemias 5.13: “Também sacudi o meu regaço e disse: Assim o faça Deus, sacuda de sua casa e de seu trabalho a todo homem que não cumprir esta promessa; seja sacudido e despojado. E toda a congregação respondeu: Amém! E louvaram o SENHOR; e o povo fez segundo a sua promessa” (cf. Deuteronômio 27.15-26; 1Reis 1.36; 1Coríntios 14.16). Não é incorreto afirmar que dizer “amém” é uma expressão de desejo pela consecução daquilo que é pedido ou uma confirmação do que foi afirmado.

Entretanto, a palavra “amém” possui um significado mais solene. O estudioso Hans Bietenhard afirma: “Através do ‘amém’, aquilo que foi falado é afirmado como certo, positivo, válido e obrigatório” (Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vol. 1. São Paulo: Vida Nova, 2007. p. 110). Trata-se, portanto, de uma afirmação de veracidade. Dizer “amém” é jurar que aquilo que foi afirmado na oração é expressão da verdade. Nesse sentido, quando suplicamos algo a Deus e dizemos “amém”, estamos expressando diante do Senhor que o nosso desejo é sincero e verdadeiro. Quando louvamos a Deus e finalizamos com “amém” estamos afirmando diante dAquele que sonda o nosso coração, que verdadeiramente o valorizamos e o consideramos como supremamente valioso.

Esse significado pode ser visto, por exemplo, em Isaías 65.16: “de sorte que aquele que se abençoar na terra, pelo Deus DA VERDADE é que se abençoará; e aquele que jurar na terra, pelo Deus DA VERDADE é que jurará”. A palavra hebraica traduzida pela Almeida Revista e Atualizada como “da verdade” é 'amên. Literalmente, o texto diz: “aquele que se abençoar na terra, pelo Deus DO AMÉM é que se abençoará; e aquele que jurar na terra, pelo Deus DO AMÉM é que jurará”. A ideia é que toda bênção e todo juramento terão a Deus como sua testemunha, Aquele que é a própria verdade, devendo, assim, serem feitos segundo a verdade e por coisas lícitas. Em Apocalipse 3.14, Jesus se identifica para o anjo da igreja de Laodiceia da seguinte forma: “Ao anjo da igreja em Laodiceia escreve: Estas coisas diz o AMÉM, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus”. Ao identificar-se como o “Amém”, Jesus está afirmando que o diagnóstico que ele apresentará a seguir é a mais pura expressão da verdade. Tudo o que ele tem a dizer é verdadeiro e, portanto, digno de crédito e de submissão da parte daqueles que ouvem. Gregory K. Beale diz que, “as três descrições ‘o Amém, a testemunha fiel e verdadeira’ não são distintas, mas geralmente se sobrepõem para sublinhar a ideia da fidelidade de Jesus ao testemunhar diante de seu Pai durante seu ministério terreno e sua continuidade como tal testemunha” (The Book of Revelation. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1999. p. 296). Simon Kistemaker, outro estudioso do Novo Testamento diz que, “o ‘Amém’ comunica a ideia daquilo que é verdadeiro, solidamente estabelecido e fidedigno”. (Comentário do Novo Testamento: Apocalipse. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. p. 225).

De igual modo, quando desejava expressar de forma mais contundente a veracidade do seu ensinamento e como ele deveria ser levado a sério por seus discípulos, Jesus introduzia seus ditos no Evangelho de João com um duplo “amém”, que na nossa tradução aparece como “em verdade, em verdade vos digo”: “E acrescentou: Em verdade, em verdade vos digo que vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem” (1.51; cf. 3.3,5,11; 5.19,24,25; 6.26,32,47,53; 8.34,51,58; 10.1,7; 12.24; 13.16,20,21,38; 14.12; 16.20,23; 21.18). Todo o seu testemunho é verdadeiro. Nele não há engano. Nas suas declarações não existem mentiras. Ele é a verdade e tudo o que Jesus afirma é verdadeiro.

Isto posto, devemos compreender que quando fazemos nossas orações a Deus, louvando-o, bendizendo-o, fazendo súplicas e intercessões, e respondemos com o “amém”, estamos dizendo ao Deus da Verdade, ao Deus do Amém, que nossos desejos são sinceros, que nosso coração está tomado de santas afeições por suas perfeições, majestade e glória. Quando oramos e concluímos com o “amém”, dizemos ao Deus que sonda os nossos corações que tudo o que expressamos é verdadeiro. Por esta razão, devemos levar muito a sério o dever da oração. Devemos nos aproximar de Deus sabendo que ele não vê como vê o homem. Ele vê o coração. Ele sabe quando nossos desejos estão direcionados para outras coisas. Ele conhece a insinceridade dos nossos corações. Quando não somos sinceros ou quando somos indiferentes em nossas orações, o “amém” é uma mentira dita ao Deus que tudo sabe. Por isso, que ele nos guarde de toda mentira e nos preserve no caminho da verdade, para que nossas orações sejam, de fato e de verdade, nas palavras de Wilhelmus à Brakel, “a expressão de santos desejos a Deus, em nome de Cristo, que, por meio da operação do Espírito Santo, procede de um coração regenerado, junto com o pedido do cumprimento desses desejos” (The Christian’s Reasonable Service. Vol. 3. Grand Rapids, MI: Reformation Heritage Books, 1997. p. 446).

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O que dizer dos sonhos e visões?


Há alguns, e estes geralmente são os mais iletrados, que têm a expectativa de experimentar sonhos notáveis ou de ter visões singulares.

Eu às vezes fico surpreso de que ainda persista no meio do nosso povo uma noção de que certo tipo de sonho, especialmente se repetir-se várias vezes, e se for tão vívido que permaneça na imaginação por um longo período, é um sinal do favor divino. Nada poderia ser mais completamente falso, nada pode ser mais infundado e sem a menor sombra de evidência; e ainda assim muitos imaginam que se eles sofressem dolorosamente de indigestão de forma que seu sono fosse estragado por sonhos vívidos, então eles finalmente poderiam pôr sua confiança em Jesus Cristo.

A noção é tão absurda que se ela fosse tão somente mencionada a homens racionais, eles necessariamente teriam que ridiculariza-la. Ainda assim, conheço muitos que foram, e ainda são, escravos dessa ilusão.

"Eu não podia flertar com uma superstição tão ridícula."

Há pouco tempo, depois de pregar em uma distante vila do interior, fui procurado insistentemente como conselheiro espiritual por uma carta importuna de uma mulher que atribuiu a mim uma sabedoria que eu nunca reivindiquei possuir. Eu desejei saber qual era a dificuldade espiritual que ela tinha, e quando fui até a casa dela e a encontrei muito doente, fiquei entristecido ao ver que ela era vítima de uma superstição na qual temo que seu pastor a tinha confortado e, desta forma, confirmado. Ela me informou solenemente que ela tinha visto algo se levantando à noite do pé da sua cama. Ela estava esperançosa de que se tratasse do nosso abençoado Senhor, mas infelizmente ela não tinha conseguido ver a cabeça dele. Como eu conhecia tanto a respeito das coisas espirituais, será que eu poderia lhe dizer quem era?

Eu disse que eu achava que ela devia ter pendurado o vestido dela em um gancho na parede, ao pé da cama, e na escuridão tinha confundindo-o com uma aparição.

É claro que isso não a satisfez. Eu caí imediatamente a zero no conceito dela, ao nível de um homem de mente extremamente carnal, se não um escarnecedor, mas eu nada pude fazer a respeito. Eu não podia flertar com uma superstição tão ridícula. Fui obrigado a lhe dizer que era bobagem ela ter esperança de salvação porque ela era tola o bastante para imaginar que tinha visto Jesus com seus olhos carnais, enquanto a visão salvífica sempre é espiritual.

Podem ter havido sonhos, e até mesmo aparições, que despertaram a consciência e assim conduziram ao princípio da vida espiritual em alguns raros casos em que Deus escolheu interferir de maneira especial. Mas que estes venham a ser procurados, e até aguardados, é uma coisa tão distante da verdade quanto o oriente do ocidente.

Sobre a pergunta quanto ao fato da suposta aparição ter uma cabeça ou não, eu lhe disse que se ela usasse mais a sua própria cabeça e o seu coração, meditando na Palavra de Deus, ela estaria em uma condição bem mais esperançosa.

E se você visse qualquer coisa, ou sonhasse qualquer coisa, o que isso prova? Ora, não prova absolutamente nada a não ser que você estava mal de saúde, e que sua imaginação encontrava-se morbidamente ativa.

Lance fora essas coisas, elas são superstições adequadas a povos não-civilizados, mas não são aceitáveis para cristãos do século dezenove. Eu apenas estou mencionando-as, não porque penso que qualquer de vocês tenha caído nelas, mas para que vocês sempre lidem com elas de forma extremamente rígida onde quer que se deparem com elas. Elas são superstições que não podem ser toleradas por homens cristãos. Entretanto há alguns que, de fato, não acreditarão no simples evangelho de Cristo a menos que algum absurdo desse tipo possa ser juntado a Ele.

Que Deus os livre de tal incredulidade.

- por Charles Haddon Spurgeon (1834-1892)
Fonte: Bereianos

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Sobre o Culto Familiar


Considere primeiro o exemplo de Abraão, o pai da fé e o amigo de Deus. Foi por sua piedade doméstica que recebeu bênção do próprio Jeová, "Porque eu o tenho conhecido, e sei que ele há de ordenar a seus filhos e à sua casa depois dele, para que guardem o caminho do Senhor, para agir com justiça e juízo; para que o Senhor faça vir sobre Abraão o que acerca dele tem falado (Gênesis 18:19). O patriarca é elogiado, aqui, por instruir seus filhos e servos dos deveres mais importantes, "o Caminho do Senhor" - a verdade sobre Sua pessoa gloriosa, Seu direito absoluto sobre nós, o que Ele requer de nós. Note bem as palavras "ele vai comandar-los", ou seja, ele usaria a autoridade que Deus lhe dera como pai e chefe de sua casa, para fazer cumprir os deveres de piedade familiar. Abraão também orou com, bem como instruiu sua família - onde quer que ele armou a sua tenda, lá ele "edificou um altar ao Senhor", (Gênesis 12:7; 13:4). Agora, meus leitores, podemos bem perguntar-nos: Somos nós da "descendência de Abraão" (Gálatas 3:29) - se, "não fazemos as obras de Abraão" (João 8:39) e negligenciamos o grave dever do culto em família?

Os exemplos de outros homens santos são semelhantes ao de Abraão. Considere a piedosa determinação de Josué, que declarou a Israel, "porém eu e a minha casa serviremos ao Senhor" (Josué 24:15). Nem a elevada posição que ocupou, nem a urgência dos deveres públicos que ele desenvolveu, nem a multidão impediu sua atenção para o bem-estar espiritual de sua família. Novamente, quando Davi trouxe a arca de Deus para Jerusalém com alegria e ação de graças, após o exercício de seus deveres públicos, ele "voltou para casa para abençoar sua família" (2 Samuel 6:20). Além destes eminentes exemplos, podemos citar os casos de Jó (1:5) e Daniel (6:10). Limitando-nos a única no Novo Testamento, pensamos na história de Timóteo, que foi criado em um lar piedoso. Paulo chamou à memória a "fé sincera", que estava nele, e acrescentou: "a qual habitou primeiro em tua avó Lóide, e em tua mãe Eunice". Há de se admirar, então, que o apóstolo podia dizer "E que desde a tua meninice sabes as sagradas Escrituras" (2 Timóteo 3:15).

- por A. W. Pink (1886-1952)
Fonte: http://gracegems.org/Pink2/family_worship.htm (tradução de Fábio Martins)

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Efésios 2.22 - Para Morada de Deus em Espírito - Exposição em Efésios - Sermão pregado dia 04.08.2013


Efésios 2.22 - Para Morada de Deus em Espírito
Exposição em Efésios -
Sermão pregado dia 04.08.2013

Veja a pregação em vídeo, realizada na Igreja Cristã Reformada de Blumenau.
Link: http://www.youtube.com/watch?v=tt2G-vivnxM

"No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito" (Ef 2.22).

O majestoso e insondável Deus tem nos ensinado acerca de Suas ricas e maravilhosas bênçãos sob todo o Seu povo. Anteriormente, fomos instados a O louvar, porque à semelhança do santo templo do Antigo Testamento, agora, sob a dispensação da plenitude de Sua graça (Ef 1.10), a Igreja do Senhor cresce firmemente enraizada e calcada na "principal pedra da esquina" (Ef 1.20), que é o próprio Deus, na pessoa de Cristo Jesus. Esta Igreja santa e universal, tal qual o templo construído outrora por mãos humanas, é alvo da multiforme graça do Senhor, não mais sendo levantada com pedras naturais, e sim rochas melhores, porque "como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo" (1Pe 2.5).

Nosso texto de hoje é sublime e requer sensatez, a fim de não tratarmos com leviandade a Palavra de Deus. Ao mesmo tempo, requer ousadia, para que entremos no santuário do Senhor, pelo sangue poderoso do Cordeiro (Hb 10.19), para que sejamos animados à prosseguir na carreira da fé.

Vemos que o apóstolo segue explicando aos gentios que eles eram participantes, pela graça do evangelho que os alcançara, no edifício e corpo de Cristo. Enquanto em momento pretérito ele escreva dizendo que "noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo" (Ef 2.2) e que devido a este fato eram "filhos da ira" (Ef 2.3), agora os insta para que compreendam ainda outra vez que foram transpostos da escuridão para à luz da aurora - ou como se lê com referência aos judeus, "O povo, que estava assentado em trevas, Viu uma grande luz; aos que estavam assentados na região e sombra da morte, A luz raiou" (Mt 4.16). Os gentios na cidade de Éfeso agora recebiam, novamente, uma afirmação divina de que são, "juntamente", edificados para morada de Deus.

Tal fato é deveras importante para nossa compreensão e certamente trouxe grande júbilo sobre àquela igreja em Éfeso, pois não muito antes, o apóstolo comentara sobre a hostilidade natural que pairava entre eles e os judeus - "lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne, e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão feita pela mão dos homens" (Ef 2.11). Havia uma barreira não somente espiritual, devido à plenitude dos tempos ainda não ter raiado com a morte e ascensão de Cristo (e a grande comissão de Mateus 28), mas, sim, de ordem étnica (que anteriormente representava a divisão espiritual, ainda que muitos gentios se convertessem, como a cidade de Nínive, com a pregação de Jonas, por exemplo), trazendo grandes males e desavenças entre os povos, pois nada de supremo e maior os podia unir; não havia qualquer característica ou bem mais excelente que pudesse fazer com que as diferenças de culturas, línguas, ordem sociais e meios de vida fossem igualados. Todavia, Cristo é super abundantemente superior a todas estas coisas, a ponto do apóstolo afirmar: "Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto" (Ef 2.13).

Vamos considerar o que nosso texto deseja nos ensinar e admoestar.

1. Em Cristo não há judeu ou gentil - "No qual também vós juntamente sois edificados"

Algo que a Escritura ensina mui cristalinamente, é o fato de não haver mérito algum em se nascer em qualquer povo específico. É verdade que o apóstolo asseverou a graça do Senhor para com o povo judeu (Rm 1.16), entretanto, também deixou evidente que "pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie" (Ef 2.8-9). Se não é por obras e a finalidade é para que nenhum homem creia ter algo inerente para que possa ser alvo da graça do Senhor, a salvação não pode ser condicionada à qualquer raça, como se intrinsecamente com ela fosse transmitida a salvação. Assim escreveu o apóstolo aos irmãos em Colosso: "Não mintais uns aos outros, pois que já vos despistes do velho homem com os seus feitos, E vos vestistes do novo, que se renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou; Onde não há grego, nem judeu, circuncisão, nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre; mas Cristo é tudo, e em todos" (Cl 3.9-11).

Isto dever-nos-ia recordar da sumária importância de cada professo da fé cristã averiguar seu coração mediante o Espírito Santo e Sua Palavra. Se com o sangue de um povo não há transmissão da bênção (o que não significa que Deus abandonou o povo judeu - vide Rm 11.25), muito menos com o nascer em berço evangélico. Plenamente verdadeiro que pelo batismo infantil, os filhos são enxertados na comunidade do pacto (1Co 7.14 - clique aqui e aqui para ler um estudo sobre isso), mas tal aliança é a realidade da antiga sombra veterotestamentária, devendo ser confirmada pela fé e boas obras, de maneira que se isso não ocorrer, não pode haver salvação.

Porém, embora em Cristo não haja distinção entre judeus e gentios, a igreja primitiva vivia momentos nunca antes experimentados, porque até a vinda de Cristo, a igreja era judaizante e com o advento do Messias, surgira uma dúvida dupla: gentilizar os judeus ou judaizar os gentios? Em outras palavras, os judeus deveriam se despojar de suas tradições para seguir não mais a sombra, e sim a realidade ou os gentios é que deveriam se conformar aos preceitos judaicos? Tal discussão foi problemática aos apóstolos e demais presbíteros, tendo eles que se reunirem em concílio, para averiguar o que deveria ser feito (At 15).

Tal ponto nos ensina o que vimos anteriormente, a saber, que "todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor" (Ef 2.21). Judeus e gentios cresciam unidos e eram ensinados por aqueles que o Senhor colocou como guias de Seu povo: os presbíteros (Hb 13.17). Vemos, então, como os gentios receberam as palavras sobre o que deveriam se abster para andar em unidade: "E, quando a leram, alegraram-se pela exortação" (At 15.31). Por que se alegraram? Porque sabiam que também eram herdeiros da promessa, o que os levava a não buscar qualquer vantagem sobre outrem.

2. A Igreja do Senhor é Sua morada - "para morada de Deus"

Quando o Senhor se revelou a Moisés no deserto do Sinai, no monte Horebe (que é Sinai), nos diz a Escritura que "todo o monte Sinai fumegava, porque o Senhor descera sobre ele em fogo; e a sua fumaça subiu como fumaça de uma fornalha, e todo o monte tremia grandemente" (Êx 19.18). A glória e poder do Senhor se manifestavam de uma maneira ímpar, sendo claramente visível aos homens e mulheres israelitas, quem sabe, também, por outros povos que pudessem avistar, ao longe, o santo monte. Mas toda esta demonstração deveria ser acompanhada de um santo temor e tremor: "E estejam prontos para o terceiro dia; porquanto no terceiro dia o Senhor descerá diante dos olhos de todo o povo sobre o monte Sinai. E marcarás limites ao povo em redor, dizendo: Guardai-vos, não subais ao monte, nem toqueis o seu termo; todo aquele que tocar o monte, certamente morrerá. Nenhuma mão tocará nele; porque certamente será apedrejado ou asseteado; quer seja animal, quer seja homem, não viverá; soando a buzina longamente, então subirão ao monte" (Êx 19.11-13).

Enquanto o Senhor se revelava ao Seu servo, o povo deveria aguardar, cuidando para não tocar no monte, porque "todo aquele que tocar o monte, certamente morrerá". A santidade de Deus era vista, ouvida e sentida pelos sensores corporais que o Criador fizera ao ser humano. Os judeus podiam ver a fumaça, contemplar com certo horror o tremor do monte, todavia, nada podiam ver além disso, conforme nos é declarado: "Então o Senhor vos falou do meio do fogo; a voz das palavras ouvistes; porém, além da voz, não vistes figura alguma" (Dt 4.12). Embora não tivessem visto o Soberano (o que claramente nos ensina sobre a ilicitude de se representar a Deus em figuras humanas - clique aqui , aqui e aqui para ler mais), deveriam o temer por aquilo que Ele é e tinha por bem demonstrar.

Busquemos, segundo nossa limitação, imaginar a situação do povo diante daquele magnífico espetáculo divino. O alto monte fumegando "e a sua fumaça subiu como fumaça de uma fornalha". O "monte tremia grandemente" e o povo deveria aguardar a volta de Moisés com a Palavra do Senhor. Estavam temerosos e ansiosos para o que receberiam da parte de Deus. Tal ansiedade, porém, deveria ser controlada, pois não deveriam ousar tocar no monte, à semelhança de Uzá que à arca tocou e morreu (1Cr 13.9-10). A glória do Senhor cobria aquele lugar, mas mesmo assim o povo descreu no Senhor, murmurando a Arão, conforme lemos: "vendo o povo que Moisés tardava em descer do monte, acercou-se de Arão, e disse-lhe: Levanta-te, faze-nos deuses, que vão adiante de nós; porque quanto a este Moisés, o homem que nos tirou da terra do Egito, não sabemos o que lhe sucedeu" (Êx 32.1). Embora o povo soubesse que Deus havia os tirado do Egito, confiaram no homem Moisés, crendo que ele os havia tirado - quando isso fizeram, se decepcionaram.

Mas ainda devemos considerar a Moisés, o homem que estava envolto por toda esta glória e terror. Ainda que o Senhor falasse com Seu servo, como quem fala com seu amigo (Êx 33.11), certamente isto não retirava o santo tremor daquele homem. Sabendo que a qualquer momento podia, se fosse da vontade do Altíssimo, ser fulminado e ao pó voltar. Era cônscio de sua grandiosa responsabilidade em como que representar o povo ao Senhor, se elevando até Ele para receber os mandamentos e ordens sobre o povo.

Em resumo, a glória do Senhor era santa, séria e reverente. O profeta Isaías expressou esta seriedade no conviver com o Senhor: "No ano em que morreu o rei Uzias, eu vi também ao Senhor assentado sobre um alto e sublime trono [...] Então disse eu: Ai de mim! Pois estou perdido; porque sou um homem de lábios impuros, e habito no meio de um povo de impuros lábios; os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos" (Is 6.1, 5)

Sob o Novo Testamento, lemos: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez [...] E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade" (Jo 1.1-3, 14). O santíssimo Senhor que fazia o monte fumegar, desceu à terra para habitar entre os homens. O excelso e inefável Soberano, teve por bem enviar Seu filho, para viver entre os homens, "a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos" (Rm 8.29).

Agora notemos com quão grande seriedade deveríamos tratar a vida cristã e Sua Igreja. O mesmíssimo Senhor que estremecera o monte e realizara incontáveis maravilhas e proezas sob a égide do Antigo Testamento, agora afirma aos gentios que também com eles está. O Deus que criou os céus e a terra, habita no meio de Sua Igreja com não menos poder e força do que quando se revelou de modo mais notável aos homens. O Senhor que é "forte em poder" (Jó 9.4), está com Sua Igreja e com todos os Seus.

Ao refletirmos que "sois edificados para morada de Deus", aquela glória que enchia o santo templo do Senhor, deveria preencher nossos corações. Deveria nos encher de intrepidez, de modo que sirvamos "ao Senhor com temor, e alegrai-vos com tremor" (Sl 2.11; Fp 2.12), sabendo, sempre, da graça do Senhor, sendo entendidos de "que Deus fala com o homem, e que este permanece vivo" (Dt 5.24).

Amados irmãos, isto é mais do que podemos conceber. Em pensarmos que a glória do Senhor repousa sobre Sua Igreja, é um bem inestimável que temos. Em crermos que o mesmo Senhor dos Exércitos cavalga à frente de Seus eleitos, extirpando todo o mal e fazendo que Sua Igreja seja triunfante e cresça para templo santo no Senhor, conforme já aprendemos, é algo divino.

Há que se lembrar, porém, de quantas são as vezes em que nos esquecemos desta verdade. A santidade do Senhor deveria nos atingir como um petardo vai de encontro às muralhas do inimigo, fazendo com que toda sorte de vãos pensamentos e meios humanos utilizados para agradar ao Senhor, sejam derribados e lançados ao longe. Incontáveis são os momentos em que os professos da fé cristã brincam com o Senhor, como se fosse homem passível de gracejos e vidas inconsequentes.

Assim como "a glória do Senhor enchera a casa do Senhor" (1Rs 8.11), isto é, Seu santo templo, igualmente hoje enche Sua Igreja - isto é tremendo e deveras significativo.

3. Uma Igreja em Espírito - "em Espírito"

A Igreja do Senhor, não obstante seja comparada ao templo do Antigo Testamento, é morada do Senhor "em Espírito". Paulo expressou este mesmo entendimento às igrejas na Galácia, quando disse: "Digo, porém: Andai em Espírito, e não cumprireis a concupiscência da carne" (Gl 5.16).

Como viver, então, em Espírito?

Em primeiro lugar, nos despojando das coisas para trás ficaram: "Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado" (Rm 6.6). Para que a Igreja ande em Espírito, ela precisa não ser mais escrava do pecado, pois para isso Cristo a comprou, afinal, "Ninguém pode servir a dois senhores" (Mt 6.24). Como cristãos, para andarmos segundo o beneplácito de Sua vontade mediante o Espírito Santo, precisamos abandonar, pela graça e misericórdia de Deus, as obras infrutíferas da carne - "E não comuniqueis com as obras infrutuosas das trevas, mas antes condenai-as" (Ef 5.11).

Em segundo lugar, tendo a correta transformação da mente, "para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus" (Rm 12.2). Notemos como o apóstolo evidencia o fato de que "pela renovação do vosso entendimento" é que se chega a experimentar a vontade de Deus. No entanto, há algo mais a ser feito e que, em verdade, é o estopim da transformação: "não sede conformados com este mundo". Mas como o homem pode ser inconformado com este mundo? Paulo já nos respondeu: "nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade" (Ef 1.4-5). Porque todos os genuínos cristãos foram eleitos "antes da fundação do mundo", todos passaram a experimentar a "a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus", vivendo graciosamente não mais na carne, isto é, no pecado, e sim "em Espírito".

Em terceiro lugar, para vivermos em união com o Espírito Santo, precisamos ter a certeza de que todo "Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou" (1Jo 2.6). Mas este andar como Ele andou, conforme já vimos, é de acordo e por causa dos méritos de Cristo Jesus, o autor e consumador da herança! É porque Jesus, o sumo sacerdote, já venceu o pecado por todos os Seus filhos (Mt 4.1-11)!

Possa o Senhor, segundo Sua graça, nos conceder uma firme convicção de que somos parte de Sua Igreja. Uma forte impressão divina seja gravada sobre nossas vidas, para que entendamos que a Igreja do Senhor não será morada de Deus, mas, sim, que já é morada do Eterno. Apraze-se o Artífice, a nos levar a fixar esta bela e excelente bênção: "E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre" (Jo 14.16 - grifo do autor).
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Cristo

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Uma Palavra aos Maridos Reformados que têm Esposas Não-Reformadas


É uma alegria descobrir a Fé Reformada. É uma alegria descobrir que o Deus Criador e Triúno planejou nossa Salvação desde a Eternidade. Como é gratificante o descobrir os Cinco Sola da Reforma – Sola Scriptura, Sola Gratia, Sola Fides, Solus Christus, Soli Deo Gloria. Em ver a beleza da “Cadeia de Ouro” do TULIP – acróstico para a Soteriologia Reformada: Depravação Radical da natureza humana; Eleição Incondicional; Expiação Particular; Graça Irresistível e Perseverança dos Santos, que eu prefiro chamar de Perseverança do Salvador. Como é bom descobrir os escritos de Calvino, dos Puritanos, de ler John Owen, Jonathan Edwards, Richard Baxter, os sermões de fogo de Spurgeon. É impressionante ver a harmonia das Confissões de Fé e Catecismos, a beleza da Confissão Belga, a robustez da Confissão de Fé de Westminster, a sistematização das Helvéticas e Savoy (esta, bem parecida com a CFW!), a didática piedosa do Catecismo de Heidelberg, a solidez prática dos Catecismos de Westminster. Ao saber que autores de um passado não tão distante foram gigantes da fé, tais como o Dr. Martin Lloyd-Jones, considerado um dos últimos puritanos e exímio expositor bíblico; a firmeza teológica do Rev. James I. Paker; a fina apologética dos Dr. Cornelius Van Til e Dr. Gordon H. Clark; a sagacidade teológica dos Hodges, Dabney e Bavinck. É como ficar como os que sonhaam...

Porém, não tem sido incomum a aqueles que, anteriormente em outra tradição teológica, normalmente Arminiana Tradicional ou Arminiana Pentecostal, ao descobrirem a Fé Reformada, passam à arrogância e desprezo pelos que não compartilham de sua tradição recém-descoberta. Até entendo que haja lá os seus gracejos, como aquele do “evangelismo arminiano”, onde se apresenta um homem tentando ressuscitar um esqueleto.

Mas confesso que não são as brincadeiras que me preocupam. O caso é mais sério. É caso de família e família é a coisa mais séria neste caso. É o caso dos que se convertem à tradição Reformada, mas têm esposas que continuam em suas tradições, especialmente Pentecostais.

A reclamação parece ser geral: os maridos se tornam insuportáveis, ranzinzas, chauvinistas, intolerantes e, para proselitar suas esposas, não poupam palavras duras e humilhantes – travestidas de piedade, claro –, não apenas contra sua fé, mas até mesmo contra sua pessoa. Agora, ela é a insubmissa por não aceitar imediatamente o “novo e vivo caminho” da fé de seu marido. Agora ela é a herege por não aceitar os cinco pontos. Agora o seu culto é idólatra por desprezar o princípio regulador do Culto e não aceitar acompanhá-lo imediatamente aos Cultos Reformados com Pregações Expositivas, coisas que ela, possivelmente, totalmente ignora. Ela é culpada por resistir e não aceitar os Sola da Reforma e não ir muito com a cara dos Puritanos. O resultado final não é proselitismo, mas sectarismo, porque ele não se importa de causar a divisão com aquela que Deus mesmo uniu a ele.

Aos meus irmãos casados, não resta senão achar-se sob o fardo da providência de ter uma esposa não-Reformada. Talvez algumas palavras a tais maridos reformados sejam necessárias e, assim, eles fujam da caricatura reformada que podem transmitir às suas esposas. Se quiserem ganhar as suas esposas, certamente não será pela força (Zc. 4.6).

Primeiramente, lembre-se de que ela é a sua esposa. Antes de ser reformada, arminiana, pentecostal etc., aquela que está com você sob o laço da aliança é a sua esposa. E, neste relacionamento, segundo as Escrituras, ela é a parte mais frágil, exigindo de você entendimento no convívio do lar, tendo-a em honra (1Ped. 3.7). Como você, a fim de forçá-la a acompanhá-lo na nova fé, costuma lembrá-la da submissão devida, não custa nada lembrar a você, querido irmão, que há uma submissão de sua parte a ela (Ef. 5.21). Como sei que você gosta dos Puritanos, leia o que disse um deles, antigo membro da Assembleia de Westminster (1643), o Rev. Wiiliam Gouge (1575 – 1653). Este irmão escreveu um tratado com cerca de 600 páginas cujo título nos faz pensar: Of Domestical Duties (1622). Ali, no primeiro volume, ao expor o texto de Efésios 5.21 – “Sujeitando-vos uns aos outros no temor de Deus” – o distinto puritano disse sobre a vocação particular, em que se encontra a relação marido e esposa, que a submissão do Marido à Esposa “é por morar com ela com entendimento, dando honra à esposa como vaso mais frágil” e isto deve ser feito sob a direção do “temor do Senhor”. Ainda diz o velho puritano: “como uma esposa deve saber sua responsabilidade, seu marido deve saber muito mais a sua própria, porque ele é para ser um guia, um bom exemplo para sua esposa, ele deve viver com ela com entendimento [...] negligenciar sua responsabilidade é mais desonroso a Deus, porque pela virtude de sua posição, você [marido] é a imagem e a glória de Deus (1Co 11.7). De fato, parafraseando o autor, negligenciar esta responsabilidade é pernicioso, pois não é apenas a esposa que será atingida, mas toda a família, pois, estando o marido em tal posição de cabeça, pode cometer abuso de autoridade sem ter alguém sobre si que contenha sua fúria.

Segundo, antes de ela ser sua esposa, ela é imagem de Deus. Eu preferi dizer que ela é imagem de Deus, pois é possível que algum marido reformado tenha esposa que “não-cristã”. Sendo assim, se o marido reformado entender a sua grande responsabilidade com aquela que não compartilha da mesma fé com ele, muito mais deverá compreender a sua imensa obrigação para com aquela que é a sua irmã em Cristo.

Outro Puritano, Isaac Ambrose (1604-1664) também um dos Divines, escreveu Prima: The First Things. Este compêndio trata sobre a “doutrina da regeneração, do novo nascimento e o real começo da vida piedosa”. Ali, comentando o Quinto Mandamento, cujo título “Os Pecados contra o Quinto Mandamento”, acerca dos “Deveres Exigidos”, o primeiro ponto que o Divine Isaac expõe é a responsabilidade familiar. Mas, você sabe sobre a responsabilidade de quem ele apresenta primeiro? Sobre a responsabilidade do marido. “Se tu és marido, tenha amado sempre a tua esposa”. E ainda, “se tu és marido, não tens por vezes maltratado tua esposa, ou a ferido, ou a ofendido em pensamento, palavras ou atos?” Como texto-prova para a primeira declaração, o Rev. Isaac cita 1Pe. 3.7. Parece haver uma predileção dos Puritanos por este texto quando exortam aos maridos. Marido, pondere ainda nas palavras deste mesmo puritano: O marido, acerca de sua esposa, “deve amá-la em todo tempo; ele deve amá-la em todas as coisas; o amor deve temperar e adoçar sua linguagem, seu cuidado, suas ações para com ela; o amor deve ser mostrado em seu governo, censura, admoestações, instruções, autoridade, familiaridade com ela; o aumento de tal amor não deve ser por sua beleza, ou notabilidade, mas especialmente porque ela é sua irmãna Religião Cristã; e uma co-herdeira com ele no reino do céu; por causa de suas graças e virtudes, porque ela deu à luz aos seus filhos, os herdeiros de seu nome e natureza, e por causa da união e conjunção do casamento” (The Works of Isaac Ambrose, vol. 1, Of Families Duties, Of of the Duties of the Husband and Wife, p. 187).

Terceiro, antes de pensar em sua autoridade como marido, e na submissão de sua esposa como esposa, procure ver que você é como Cristo nesta relação. Por dizer que você é como Cristo, lembre-se que é apenas em semelhança. E nesta semelhança, não esqueça que sua esposa é como a Igreja de Cristo. O Senhor Jesus Cristo mantém um relacionamento com sua Noiva que chegou a assumir a responsabilidade da própria Igreja. Há um princípio da masculinidade bíblica, reflexo da masculinidade do Verdadeiro Homem Jesus, que o marido deve ser o “primeiro a amar, o primeiro a perdoar e o primeiro a sofrer [...] assumindo a responsabilidade pelo pecado não importando se a ‘culpa’ é dele ou não” (PATRICK, Darrin. O Plantador de Igreja. São Paulo: Vida Nova, 2013, p. 19). Se você, marido cristão, olhar no mesmo texto que facilmente você usa contra sua esposa, logo em seguida ao falar sobre a submissão dela, fala das responsabilidades de suas responsabilidades. Você já reparou a desproporção de versículos para sua esposa e para você? É que você é mais perigoso e mais rebelde em assumir a sua submissão para com ela, do que ela para com você.

Você, como Cristo, deve entregar-se por sua esposa (Ef. 5.25), deve santificá-la e purificá-la pela palavra (v.23), fazê-la para si (v. 27). Você deve sustentá-la, alimentá-la, cuidá-la, protegê-la (inclusive de você!) (v. 29, 30). Quero que você veja que, ao compará-la com a Igreja, deveria ficar claro para o marido que o seu desmando para com a esposa torna-se algo pessoal com o Senhor delas. Cristo olha para as esposas como sinais de sua Igreja.

O Puritano Isaac Ambrose comentou: “Os maridos deveriam amar suas esposas, mesmo que não existisse nada em suas esposas que o movessem, mas simplesmente porque elas são suas esposas. Cristo amou a igreja antes que a igreja pudesse amá-lo” (idem). A última frase, “Cristo amou a igreja antes que a igreja pudesse amá-lo”, deveria levar o marido reformado a lembrar de todos os Pontos dos Cinco: Cristo escolheu sua Igreja, não foi escolhido por Ela e Sua Igreja ainda não era Igreja, não era povo (Dt. 7.7; 1Pe. 2.10; Rm. 9.25). Jesus Cristo entregou-se por ela, ainda quando ela não o amava; o Senhor Jesus, como amor eterno a atraiu, não colocou nela um cabresto (Jr. 31.3); o Seu amor por ela é perseverante, mesmo diante dos tropeços e tropicões de sua amada. É o Amor de Cristo que sustenta a Noiva, não o inverso. Por que a Igreja ama a Cristo? Porque é, primeiramente, amada por Ele. Por que a Igreja se submete a Cristo? Porque Cristo a lidera em Amor.

Caro irmão, antes de ganhar sua esposa para a “nova fé” que você abraçou, tente ganhá-la para o seu coração. Antes de ela ser reformado na fé, reforme-se no amor por ela. Se a nova fé que você abraçou não o fizer amá-la cada vez mais, a sua fé é vã e inútil (Tg. 2.26). Se a nova fé apenas fornecer a você amor de palavras, mas não ação, você é um mentiroso, pois não ama de verdade (1Jo 3.18). Certo reformado moderno, Rev. Joyce Álvarez Léon, faz um brilhante comentário sobre o amor e a fé no matrimônio: “O amor segue a fé. Sem fé não pode haver amor. Quando falo de amor, não estou me referindo somente ao amor romântico, ou o amor emocional, ou o amor que diz: se me trata bem, então amarei você; se me trata mal, não amarei você. O amor do qual estou falando é um amor que se dá sem esperar nada em troca, um amor que ainda que receba uma tapa, continua amando. Um amor que não busca outra coisa senão o bem da pessoa amada, mesmo que isso requeira um grande sacrifício por parte da pessoa que ama. Este é o tipo de amor que revoluciona qualquer lar. É o amor de Deus. Este é o tipo de amor que o mundo não conhece porque provém de Deus e tem sido derramado sobre os que têm recebido a Cristo pelo Espírito Santo que nos foi dado” (La Familia Cristiana como Luz e Sal e su Vencidario, 2008, p. 8).

Marido Reformado, por mau trato com sua esposa, você pode colocar abaixo todo trabalho de Reformadores Piedosos, dando testemunho mentiroso sobre eles pelo modo como você vive com ela. Como o Puritano Richard Baxter havia dito: “A paz e a prosperidade das nossas Igrejas depende grandemente de umas boas relações familiares [...] Portanto, se quiseres que a obra do Evangelho floresça, recomendo-te que faças tudo o que possas para promover a piedade no lar.”

Conforme Leland Ryken (Santos no Mundo) comentou sobre o caráter da liderança do marido: “Senhorio, para os Puritanos, não significava tirania. Era liderança baseada no amor. Benjamin Wadsworth escreveu que um bom marido fará ‘seu governo sobre ela tão fácil e suave quanto possível, e lutará mais para ser amado que temido’. De acordo com Samuel Willard, um bom marido reinará de tal forma ‘que sua mulher possa deleitar-se na [sua liderança], e não tê-la como escravidão mas, como liberdade e privilégio’”.

Por que não falei da submissão da esposa ao marido? Porque isso, Marido, você já sabe.

- por Gaspar de Souza

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Toda doença é fruto de pecado cometido?


Inúmeras vezes, dentro da vida cristã, os professos e seguidores do verdadeiro e único Deus, sofrem dificuldades financeiras e doenças físicas, bem como emocionais e espirituais - muitíssimos homens e mulheres passam por isso. Para ser ainda mais exato, todos já passaram, passam e irão passar por tais situações.

A Bíblia nos diz que a queda dos primeiros pais foi a razão pela qual o mundo sofre o que vemos e experimentamos em nossas vidas. Não tivesse havido, estaríamos naquele mesmo belo, formoso e agradável jardim, desfrutando constantemente da presença magistral do Senhor, tal qual Adão e Eva usufruíam (Gn 3.8).

 O Senhor nos ensina, através do apóstolo, que "todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus" (Rm 3.23). Em Adão, todos os homens e mulheres estavam inclusos, de maneira que ninguém pode se escusar do pecado, exceto pelo novo Adão, Cristo Jesus: "O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante" (1Co 15.45).

Isso significa dizer que, embora os cristãos tenham sido regenerados pelo sangue de Cristo (Ef 1.7), ainda carregam os efeitos do pecado. Paulo expressou esta angústia: "Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?" (Rm 7.24). Ele reconhecia, por meio do Espírito Santo, que era um santo, isto é, separado para o Senhor; no entanto, era cônscio das mazelas ainda atuantes em sua vida: "Dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor. Assim que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado" (Rm 7.25). O apóstolo tinha ciência de ter sido salvo e que seria sustentado até o fim de sua vida, pois "aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo" (Fp 1.6), entretanto, jamais afirmou que os santos deixam de pecar enquanto nesta vida estão. 

Noutras palavras, o cristão não mais peca (1Jo 3.6), porque o pecado lhe foi extirpado e a morte já não tem mais poder sobre os Seus (1Co 15.55), assim com não é mais escravo dele, mas ainda comete pecados, conforme lemos: "nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo" (Rm 8.23).

Sintetizando, na teologia se diz que os cristãos vivem entre o já e o ainda não. Quer dizer, os cristãos já foram libertos da escravidão do pecado, mas ainda não foram libertos completamente, pois passam por dificuldades sem par; já estão com Cristo nos céus (Cl 3.1; Rm 8.30), mas ainda não experimentam essa plenitude, devendo completar a carreira da fé (2Tm 4.7).

O que isso tem a ver com o propósito deste artigo? A verdade é que para entendermos a Escritura, precisamos dos pressupostos corretos. Uma vez estabelecido que o cristão ainda comete pecados (tal qual os não cristãos, diferindo que entre os crentes os pecados estão perdoados, ao passo que os ímpios estão sob a ira de Deus - Sl 7.11-3; Ef 5.6), podemos analisar que relação há entre doença e pecado. Por doença, entenda o leitor toda dificuldade passada pelos cristãos, incluindo as finanças, o corpo físico, as emoções...

Muitos versículos poderiam ser postados para serem analisados, todavia, nos limitaremos a três exemplos de cada Testamento.

Antigo Testamento

Todo cristão genuíno reconhece o Antigo Testamento como vera palavra de Deus (2Tm 3.16-17). Existem, então, alguns versículos que demonstram a relação entre doença e pecado.

- Jó

"Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó; e era este homem íntegro, reto e temente a Deus e desviava-se do mal" (Jó 1.1). O exemplo do nobre Jó é por demais valioso, pois nos ensina que nem sempre as doenças e dificuldades são uma retribuição da parte de Deus, devido a algum pecado cometido (embora todos sejam pecadores). Lemos que Jó sequer pecou depois de perder todos os seus bens, bem como seus filhos. Em verdade, a atitude de Jó foi ímpar: "Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o Senhor o deu, e o Senhor o tomou: bendito seja o nome do Senhor" (Jó 1.21) e "Em tudo isto Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma" (Jó 1.22). Jó reconheceu que todas as coisas que havia recebido foram vindas do Senhor. Nada que ele possuía havia sido adquirido por mérito próprio. Tudo fora graciosamente dado pelo Senhor.

Neste primeiro exemplo, aprendemos que as doenças não possuem, necessariamente, condenação por causa de algum pecado cometido.

- Coré e os seus

"E a terra abriu a sua boca, e os tragou com Coré, quando morreu aquele grupo; quando o fogo consumiu duzentos e cinqüenta homens, os quais serviram de advertência. Mas os filhos de Coré não morreram" (Nm 26.10-11).

O Senhor demonstra o que ocorreu a Coré e todo o seu grupo devido à desobediência ao Senhor. No capítulo 16 é narrado que Coré e mais "duzentos e cinqüenta homens dos filhos de Israel, príncipes da congregação" (Nm 16.2), se indignaram com o fato de somente alguns homens escolhidos poderem oferecer incenso ao Senhor (v.3). A penalidade para tal atitude foi a morte para todos eles. Todos aqueles homens morreram devido ao seu pecado. A morte dos tais, nos diz a palavra, serviu "de advertência".

Mas há um fato diverso, neste ponto: "Mas os filhos de Coré não morreram". Por algum motivo soberano e imperscrutável, o Senhor não se agradou de matar os filhos daquele rebelde.

Neste segundo exemplo, aprendemos que a desobediência ao Senhor tem graves consequências para os que a cometem e não se arrependem, não havendo, porém, necessária condenação sobre sua descendência.

- Jeorão e o povo

"E, subindo Jeorão ao reino de seu pai, e havendo-se fortificado, matou a todos os seus irmãos à espada, como também a alguns dos príncipes de Israel [...] E andou no caminho dos reis de Israel, como fazia a casa de Acabe; porque tinha a filha de Acabe por mulher; e fazia o que era mau aos olhos do Senhor [...] Então lhe veio um escrito da parte de Elias, o profeta, que dizia: [...] Eis que o Senhor ferirá com um grande flagelo ao teu povo, aos teus filhos, às tuas mulheres e a todas as tuas fazendas. Tu também terás grande enfermidade por causa de uma doença em tuas entranhas, até que elas saiam, de dia em dia, por causa do mal [...] E depois de tudo isto o Senhor o feriu nas suas entranhas com uma enfermidade incurável. E sucedeu que, depois de muito tempo, ao fim de dois anos, saíram-lhe as entranhas por causa da doença; e morreu daquela grave enfermidade" (2Cr 21.4, 6, 12, 14-15, 18-19).

Jeorão foi um rei terrível e maligno. Ele "fazia o que era mau aos olhos do Senhor". Aquele homem, em vez de andar nos caminhos do Senhor, preferiu andar no "no caminho dos reis de Israel". Ele, sendo rei de Judá, a tribo na qual nasceria o Salvador (Mt 2.6), não viveu de acordo com a sã doutrina. Pecou gravemente contra o Senhor e teve sua sentença: doenças e morte.

Vemos, também, que não somente Jeorão foi afligido com a doença, mas, sim, conforme diz o Senhor, "ferirá com um grande flagelo ao teu povo, aos teus filhos, às tuas mulheres e a todas as tuas fazendas". Toda a comunidade de Judá foi prejudicada pelo terrível seguimento de Jeorão - até suas fazendas (animais, agricultura) sofreram perdas incontáveis.

Aprendemos, então, que a doença pode também ser fruto da desobediência, alcançando, inclusive, aqueles que estão sob domínio daquele que pecou e instigou ao pecado, pois os tais não se desviaram do mal.

Novo Testamento

- O homem cego

"E, passando Jesus, viu um homem cego de nascença. E os seus discípulos lhe perguntaram, dizendo: Rabi, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego? Jesus respondeu: Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus" (Jo 9.1-3).

Aquele homem jazia às margens da sociedade, sendo por ela desprezado. A Bíblia nos diz que era cego de nascença. Ao olharem para ele, conhecendo o Antigo Testamento, os apóstolos inquirem o Mestre sobre quem havia pecado, pois pensavam que toda doença tinha relação com algum pecado específico. Cristo, porém, lhes afirma que a doença não era vinda de algum pecado (embora todos pequem) e, por isso, resultado do mesmo, senão "para que se manifestem nele as obras de Deus".

Aprendemos que nem toda doença é para morte. Assim como Jó, que após sofrer nas mãos de Deus, disse, "Com o ouvir dos meus ouvidos ouvi, mas agora te vêem os meus olhos" (Jó 42.5), também este homem havia sido criado cego por Deus, a fim de Seu nome ser glorificado.

- Ananias e Safira

"Disse então Pedro: Ananias, por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, e retivesses parte do preço da herdade? [...] E Ananias, ouvindo estas palavras, caiu e expirou. E um grande temor veio sobre todos os que isto ouviram [...] E, passando um espaço quase de três horas, entrou também sua mulher, não sabendo o que havia acontecido [...] Então Pedro lhe disse: Por que é que entre vós vos concertastes para tentar o Espírito do Senhor? Eis aí à porta os pés dos que sepultaram o teu marido, e também te levarão a ti. E logo caiu aos seus pés, e expirou. E, entrando os moços, acharam-na morta, e a sepultaram junto de seu marido. E houve um grande temor em toda a igreja, e em todos os que ouviram estas coisas" (At 5.3, 5, 7, 9-11).

O caso de Ananias e Safira é um dos mais conhecidos e assustadores exemplos de morte que temos sob o Novo Testamento. Este casal, no intento de reter para si uma parte do dinheiro que obtiveram com a venda de uma propriedade, mentiu ao Espírito Santo, tentando enganar os apóstolos do Senhor. Tentaram ao Senhor com mentiras diabólicas e ouviram o decreto: morte instantânea.

Aprendemos que o Senhor pode e tem poder para tanto, porque é Deus e soberano, retirar a vida de qualquer homem ou mulher. O Eterno e Onipotente já havia declarado: "Há tempo de nascer, e tempo de morrer" (Ec 3.2). Por causa de desobediência, Ananias e Safira viram a morte.

- A ceia do Senhor

"Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice. Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor. Por causa disto há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem" (1Co 11.28-30).

Esta passagem deveria aterrorizar todos os profanos e falsos seguidores do evangelho. A Escritura deixa evidente que se pode ser participante de uma igreja, ser membro da mesma, frequentar as atividades e ir assiduamente ao culto, participando, inclusive, da ceia do Senhor - entretanto, recebendo a condenação de morte, por blasfemar sobre o sacrifício vicário de Cristo, fazendo ignomínia de Sua morte.

Aprendemos o fato do Senhor punir até mesmo pessoas dentro da igreja, por não O tratarem com a devida seriedade, santidade, justiça e verdade que são devidas.

Resumindo

Para que o leitor possa ser devidamente edificado, eis o resumo, lembrando, sempre, que nada acontece alheia à vontade do Senhor (Lc 21.18).

1. Há doenças que não são vindas por causa do pecado. Para estas, o Senhor fornece Sua promessa: "O Senhor o sustentará no leito da enfermidade; tu o restaurarás da sua cama de doença" (Sl 41.3).

2. Há doenças que são vindas por causa do pecado e devem ser recebidas graciosamente por nós: "Porque o Senhor corrige o que ama, E açoita a qualquer que recebe por filho" (Hb 12.6). A razão para ele corrigir Seus filhos é porque os ama - "O que não faz uso da vara odeia seu filho, mas o que o ama, desde cedo o castiga" (Pv 13.24).

3. Há doenças que são vindas por causa do pecado, mas que não são acompanhadas de arrependimento. Tais doenças são para extirpar o pecado do meio de Sua Igreja e sociedade: "Quando no meio de ti, em alguma das tuas portas que te dá o Senhor teu Deus, se achar algum homem ou mulher que fizer mal aos olhos do Senhor teu Deus, transgredindo a sua aliança. Que se for, e servir a outros deuses, e se encurvar a eles ou ao sol, ou à lua, ou a todo o exército do céu, o que eu não ordenei [...] As mãos das testemunhas serão primeiro contra ele, para matá-lo; e depois as mãos de todo o povo; assim tirarás o mal do meio de ti" (Dt 17.2-3, 7).

Cristo vos abençoe.

O culto online e a tentação do Diabo

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