"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

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sexta-feira, 1 de junho de 2012

Um Auto-Exame Honesto


Creio que o nosso medo de um auto exame obsessivo, manteve muitos de nós de círculos reformados afastados de um auto exame bíblico honesto. O que eu quero dizer com auto exame bíblico é uma obediência simples a tais passagens como 2 Co 13.5: “Examinai-vos a vós mesmos se realmente estais na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não reconheceis que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados”. Obediência à exortação de II Pedro 1.10: “Procurai com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e eleição; porquanto, procedendo assim, não tropeçareis em tempo algum”. Outras passagens semelhantes podem ser encontradas pelo Novo testamento afora – “Não vos enganeis; não vos deixeis enganar; não se enganem”. Eu falo da prática dessa obrigação bíblica.

Fica óbvio, portanto, como isso se encaixa na implicação do conceito calvinista de Salvação. Visto que as Escrituras declaram que todos aqueles que são verdadeiramente salvos são feitura de Deus (Ef. 2;10), então a pergunta que eu tenho de fazer é: “Será que eu fui o sujeito desta feitura?” A pergunta não diz respeito à sinceridade da minha decisão, ou da minha resolução, ou seja lá o que for que eu queira chamá-la. A pergunta não é: “O que é que eu fiz com relação a Cristo e a Sua salvação?” A pergunta essencial é a seguinte: “Fez Deus algo em mim?”. A interrogação não deve ser, “Eu aceitei a Cristo?”, mas sim, “Cristo aceitou-me?”. A questão não é, “Encontrei ao Senhor?”, mas antes, “Ele me achou?”.

Um dos anciãos mestres em Israel costumava fazer duas perguntas àqueles que almejavam ser admitidos à Santa Ceia do Senhor, ou ao rol de membros da igreja. Primeiro: “O que fez Cristo por você?” Ele queria ver se eles entendiam a base objetiva sobre a qual Deus recebe pecadores. Ele queria ver se eles haviam entendido que os homens são aceitos perante Deus com base na obra de Jesus Cristo e mais nada. E, se ficasse claro para ele que eles não pensavam de nenhuma forma diferente, que eram aceitos por suas virtudes, pelo seu arrependimento, suas lágrimas, suas obras, porém somente com base nos méritos de Cristo, então ele lhes fazia a segunda pergunta: “O que é que Cristo operou em você?” Você sabe o que Ele fez por você, agora a minha pergunta é, o que Ele operou em você? Ele fazia esta pergunta porque entendia a existência da terrível possibilidade de uma pessoa vir a ter uma compreensão intelectual do que Cristo fez pelos pecadores, e ainda assim ser totalmente estranho à obra poderosa que Ele realizou nos pecadores.

Eu gostaria de propor algumas perguntas para que cada um avalie sua própria consciência.

Primeiro: “Você foi trazido ao ponto de enxergar sua própria corrupção no pecado, de modo que as primeiras duas bem-aventuranças são verdades para você?”. As únicas pessoas no mundo que são verdadeiramente abençoadas são aquelas que foram trabalhadas pelo Espírito, de forma que essas proposições não lhe são mais estranhas: “Bem-aventurados são os pobres de espírito, pois deles é o reino dos céus. Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados”. Como é que Deus faz os homens serem verdadeiramente bem-aventurados, verdadeiramente felizes? Em primeiro lugar, Ele faz com que eles sintam tristeza ao terem um senso de seu próprio empobrecimento num estado de pecado. O que é pobreza de espírito? Seria algum tipo de tentativa pseudo-pietista de convencer a mim mesmo que eu sou um verme miserável e um trapo? De jeito nenhum! Pobreza de espírito é o resultado de apenas ter tido um vislumbre daquilo que você realmente é, e ver que você não é nada e não tem nada e não pode fazer nada, só isso pode recomendá-lo à graça e ao poder salvador de Deus; é o resultado da convicção de que Ele poderia fazer de você um monumento eterno da Sua ira justa, e deixar você perecer no fogo eterno. Você foi trazido a um conhecimento experimental disso? Se não foi, eu duvido que você afirme ser Cristo o seu Salvador, pois Ele disse que não veio para chamar o justo, mas sim pecadores ao arrependimento. Os pobres de espírito foram feitos conscientes de sua depravação e pecado.

É possível ter a doutrina da depravação total como um conceito teológico, e continuar sendo tão mau, orgulhoso e auto-justificado quanto o diabo. Você já experimentou um despojamento interior que o levou à pobreza de espírito? Foi levado a um lamento santo? A um reconhecimento de que o seu pecado é contra o Deus soberano? Você já foi trazido ao ponto em que você odeia tanto o seu pecado a ponto de largá-lo e juntar-se a Cristo? Um antigo escritor colocou essa questão de uma forma muito bela: “Quando o espírito Santo inicia o acorde da graça na vida de um homem, ele sempre orienta aquele acorde para a nota mais baixa”. Ele começa com a nota mais baixa da convicção, a revelação da nossa necessidade do Salvador. Será que eu já enxerguei que, a menos que Ele inicie a obra, ela jamais será feita?

A próxima pergunta que eu faria é a seguinte: “Eu dou evidência do fruto da Sua obra?”. E qual seria a evidência positiva e inegável de que Deus tem trabalhado em mim? Eu diria sem medo algum de contradição, à luz das Santas Escrituras, que essa evidência é santidade bíblica. O que conhecemos como os Cinco Pontos do Calvinismo estão revestidos de uma forma negativa e podem ser enganosos de uma certa maneira. No entanto, nós não podemos mudar o curso da história, e assim os Cinco Pontos do Calvinismo chegaram a nós e temos que aprender a conviver com eles. Tome como exemplo os quatro últimos pontos — eleição incondicional, expiação limitada, chamada eficaz de Deus e a perseverança dos santos, de todos aqueles que Ele chamou para se unirem ao Seu Filho: Qual é o ponto focal de todos eles? Em última análise, o ponto focal de todos eles, evidentemente, é a demonstração da glória de Deus, da graça de Deus sobre a qual lemos em Efésios 1; mas olhando o foco imediato, como é que essa glória é demonstrada? Por quais meios? Quando Deus toma criaturas totalmente depravadas e faz delas homens e mulheres santas em cujas pessoas se pode ver a exata semelhança do Filho de Deus, qual é o alvo da eleição? Efésios 1:4 nos diz: “assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele”. Ele nos elegeu para que nos gloriássemos em nossa eleição? Não! Antes “... devemos ser santos e irrepreensíveis perante Ele”. É uma eleição para santidade! Qual é o alvo da obra redentora de Cristo? Ouça o testemunho de Tito 2:14: “o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniqüidade e purificar para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras”. Ele morreu para ter um povo santo “zeloso de boas obras”.

Isso também ocorre com a chamada eficaz de Deus, “Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados à comunhão de Seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor” (I Cor. 1:9). “Chamados a uma vida de compartilhar uma comunhão viva e real com Cristo!” “Porquanto Deus não nos chamou para impureza e sim para santificação” (I Tess.4.7).

E ainda há a preservação e perseverança dos santos. É uma perseverança nos caminhos da santidade e obediência, pois as Escrituras dizem: “Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Heb.12.14). “Se vós permanecerdes na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:31,32). Assim, onde quer que toquemos qualquer parte da estrutura da sotereologia calvinista, tocamos na veia viva do propósito de Deus de ter um povo santo.

Predestinados para qual fim? “Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu filho” (Romanos 8:29). Se é assim, então eu tenho que fazer uma pergunta sobre mim mesmo: o propósito eletivo de Deus está sendo realizado em mim? Ele me escolheu em Cristo a fim de que, tendo sido comprado no tempo e chamado no tempo, possa começar a ser santo no tempo, e ter esta obra aperfeiçoada na eternidade. A única certeza que eu tenho de que fui comprado para ser santo, e serei aperfeiçoado em santidade, é que eu esteja buscando a santidade, e a esteja buscando aqui e agora. Em essência, santidade é conformidade à vontade revelada de Deus em pensamento, palavra e ação, pelo poder do Espírito Santo e através da união com Jesus Cristo. Santidade, piedade, estas são as evidências de que o Seu propósito eletivo veio a existir e a frutificar e se expressa na obediência. É por isso que João pode dizer em I João 2:5: “Aquele, entretanto, que guarda a Sua Palavra, nele, verdadeiramente tem sido aperfeiçoado o amor de Deus”. O propósito para o qual as pessoas foram designadas é preenchido naquelas que guardam a Palavra de Deus. Existe clara evidência de que estou experimentando comunhão com Jesus Cristo através da Sua Palavra? Porque Ele me chamou à comunhão com Ele, e se eu fui chamado eficazmente então já não sou estranho a um conhecimento experimental do Senhor.

Eu confesso que estou sendo preservado pelo poder mantenedor de Deus? Então a Sua preservação deve transparecer na minha perseverança. É a única prova que eu tenho de que ele me preserva e que por Sua graça eu sou capacitado a perseverar.

Esta é a implicação prática da soteriologia calvinista. Ela coloca perguntas tais que me trazem ao contexto inteiro de um honesto auto-exame baseado na Palavra. John Bunyan não poderia estar mais certo quando escreveu aquela parte na sua obra imortal, O Peregrino, onde descreve como Cristão e Fiel entram em contato com um homem chamado Tagarela (Loquaz). Eu faço um apelo intenso para que leiam cuidadosamente aquele diálogo. Ele mostra o reconhecimento que Bunyan possuía sobre a existência da convicção intelectual de que somente Deus pode salvar pecadores, e que a salvação é uma obra em que Deus salva pecadores, mas a questão real é a seguinte: Será que houve uma aplicação experimental dessa verdade, com poder, ao meu próprio coração e à minha própria vida?

Há mais ou menos um ano, um jovem formando de um Seminário veio conversar comigo sobre algumas questões que o estavam perturbando a respeito do meu próprio ministério. Ele me fez a seguinte pergunta: “Sr. Martin, eu quero lhe fazer uma pergunta simples. O Sr. crê que tem um chamado para viajar ao redor do país transtornando as pessoas?” Eu respondi: “O meu chamado não é para sair pelo país afora transtornando as pessoas, todavia eu sou chamado a declarar todo conselho de Deus; um aspecto a ser considerado é o princípio de que não é impossível ter forma de piedade no uso das palavras corretas e ainda assim se estar perdido e arruinado e ser um estranho à graça; pois a Escritura diz: ‘Porque o reino de Deus não consiste de palavras, mas de poder’. Paulo disse: ‘O nosso Evangelho não foi pregado em palavra somente, mas em poder e no Espírito Santo e com muita ousadia’. Enquanto Mateus 7:21-23 estiver nas Sagradas Escrituras, e enquanto eu tiver voz, eu continuarei a proclamar aos ministros e aos ministros em potencial, e a cristãos professos que muitos dirão naquele dia ‘Senhor, Senhor’, aos quais Cristo dirá, ‘Apartai-vos de mim. Nunca vos conheci’”.

Eu jamais vou querer ser um instrumento inconsciente do diabo a fim de desestabilizar a fé de um verdadeiro filho de Deus, que pode ser como os seguintes personagens de Bunyan: o Sr. Prestes a Tropeçar, o Sr. Timidez, ou o Sr. Consciência Fraca – homens que têm problemas com a certeza da salvação e que estão em dúvida e têm falhado. Eu jamais gostaria de ser um acusador de irmãos, para destruir ou ferir a fé de um verdadeiro cristão. Mas eu também não seria um cachorro mudo, que se cala sobre a questão de que não basta se ter herdado uma forma de doutrina, seja ela calvinista ou arminiana. A questão é a seguinte: Se a salvação vem do Senhor, será que Ele começou uma obra em mim? Eu afirmo que estas doutrinas aplicadas ao coração levarão a um auto-exame bíblico, honesto.

por Albert N. Martin
Do livro: As Implicações Práticas do Calvinismo

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