"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

terça-feira, 28 de junho de 2011

"Fazei tudo para glória de Deus" - Sermão pregado dia 19.06.2011


"Fazei tudo para glória de Deus" -
Sermão pregado dia 19.06.2011


Nosso texto: "Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus" (1Co 10.31).

A carta de Paulo aos coríntios é certamente uma daquelas cartas que poderia se encaixar no quesito "tarefa ingrata", tamanha foi a repreensão que aquela igreja precisou receber de Paulo. Assim como Paulo, nós muitas vezes não gostamos de confrontar as pessoas com a verdade e dizer à elas que estão vivendo de maneira equivocada, mas era justamente essa a tarefa de Paulo. Vemos que Paulo tem que até mesmo criticar severamente as reuniões da igreja e o momento de tomarem a ceia: "Nisto, porém, que vou dizer-vos não vos louvo; porquanto vos ajuntais, não para melhor, senão para pior" (1Co 11.17).

Já tivemos a oportunidade de repetidas vezes meditarmos e conversarmos sobre nosso texto bíblico de hoje e sua respectiva aplicação para nossas vidas, contudo, penso que poderíamos ponderar ainda um ponto pouco vislumbrado - ou para ser mais sincero, um ponto que muitos cristãos não gostam de enxergar: "Ninguém busque o proveito próprio; antes cada um o que é de outrem" (1Co 10.24).

À primeira vista, podemos pensar que temos aqui uma aparente contradição nas palavras de Paulo, pois como pode ele mesmo dizer que ninguém deve buscar o seu próprio prazer (1Co 10.24) - dando-nos o suposto entendimento de que devemos respeitar os outros independente do que fizerem - e logo em seguida passa a criticar duramente a reunião daquela igreja (1Co 11.17)? Importante se faz analisarmos essas duas preposições para que possamos ter uma imagem correta daquilo que Paulo estava ensinando aos coríntios.

Indo pela ordem do texto, vemos que a partir do capítulo oito, Paulo passa a tratar das comidas sacrificadas aos ídolos e de como o povo devia portar-se diante de Deus e dos homens neste quesito. Ele escreve dizendo que, "quanto ao comer das coisas sacrificadas aos ídolos, sabemos que o ídolo nada é no mundo, e que não há outro Deus, senão um só" (1Co 8.4), pois "para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós por ele" (1Co 8.6). Também lhes fala da importância de não serem pedra de tropeço para qualquer pessoa, "porque, se alguém te vir a ti, que tens ciência, sentado à mesa no templo dos ídolos, não será a consciência do que é fraco induzida a comer das coisas sacrificadas aos ídolos? E pela tua ciência perecerá o irmão fraco, pelo qual Cristo morreu. Ora, pecando assim contra os irmãos, e ferindo a sua fraca consciência, pecais contra Cristo. Por isso, se a comida escandalizar a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que meu irmão não se escandalize" (1Co 8.10).

Para entendermos melhor o que Paulo está dizendo, é necessário que atentemos para o que ele escreve em 1Coríntios 10.25,26: "Comei de tudo quanto se vende no açougue, sem perguntar nada, por causa da consciência. Porque a terra é do Senhor e toda a sua plenitude". Aqui, Paulo expressa que todas as coisas advém do Senhor, não podendo aqueles cristão primitivos considerarem uma carne sacrificada à ídolos como impura, pois "a terra é do Senhor e toda a sua plenitude". Também percebemos que "apesar de empregar expressões fortes contra a participação em cerimônias idólatras, Paulo não desejava que os coríntios tivessem zelo excessivo. O fato de um alimento ter sido oferecido a um ídolo não altera a natureza da substância em si mesma e nem a contamina com espíritos maus". [1]

Quando Paulo se refere ao que "se vende no açougue", é importante notarmos algumas questões: "'Como é possível haver qualquer dano em comer diante de um bloco de madeira ou de pedra? Que diferença pode fazer, se a comida foi oferecida a uma divindade inexistente?' Em segundo lugar, a maior parte do alimento vendido nos armazéns [ou açougues - nota minha], primeiro tinha sido oferecida em sacrifício. Parte da vítima era sempre oferecida sobre o altar ao deus, parte ia para os sacerdotes, e geralmente uma parte ia para os cultuadores. Os sacerdotes costumeiramente vendiam o que não podiam utilizar. Muitas vezes era muito difícil saber com certeza se a comida de determinado armazém fizera parte de um sacrifício ou não. Note-se que há duas questões distintas: o tomar parte em festividades idólatras, e o comer comida comprada nos armazéns, mas previamente parte de uma sacrifício. Muitas coisas poderiam ser ditas. Paulo começa com as obrigações do amor cristão". [2]

Deste breve comentário depreende-se de que nem todas as coisas são permitidas aos cristãos - por mais lícitas que possam aparentar - devendo eles estarem em contínua oração para que não sejam levados para enganos sutis provindos do inimigo, "porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar" (1Pe 5.8).

Após Paulo explicitar àqueles cristãos que o fato de comprarem carne naqueles locais não era em si mesmo errado - "porque a terra é do Senhor e toda a sua plenitude" - contudo, ele lhes faz uma ressalva dizendo: "Mas, se alguém vos disser: Isto foi sacrificado aos ídolos, não comais, por causa daquele que vos advertiu e por causa da consciência; porque a terra é do Senhor, e toda a sua plenitude. Digo, porém, a consciência, não a tua, mas a do outro" (1Co 10.28,29).

É interessante notarmos como o conselho de Paulo diverge com os nossos dias. Dias esses em que não vemos um constante labutar para não ser "de alguma maneira escândalo para os fracos" (1Co 8.9), mas justamente o contrário, onde defende-se que a liberdade do cristão está acima de tudo e todos. Seria mais ou menos como dizer: "Danem-se os outros! Minha consciência não me culpa, por isso não me importo com eles".

Paulo também não está advogando que os coríntios deveriam ficar trancafiados em suas casas, pois qualquer coisa poderia servir de pedra de tropeço ao irmão, mas referia-se à sublime importância de cuidarmos da saúde espiritual de nossos irmãos, não lhes desejando mal algum - pois o servir de pedra de tropeço já é parte desgostosa da vida cristã - mas lutando em pról da unidade (alicerçada na verdade!) entre os verdadeiros filhos de Deus.

A primeira preposição - "Ninguém busque o proveito próprio; antes cada um o que é de outrem" (1Co 10.24) - nos diz então, que, embora sejamos livres para muitas coisas, devemos levar em séria consideração aquele(a) irmão(ã) mais fraco(a) que ainda não compreende as doutrinas da graça e de que tudo fôra criado para honra e glória de Deus. Penso ainda ser importante ressaltarmos que essa liberdade cristã está plenamente alicerçada nos princípios e nas leis divinamente estabelecidas pelo nosso Senhor (já escrevi sobre isso, clique aqui para ler), caso contrário descambar-se-á para o liberalismo e flexibilidade total para com os preceitos divinos.

Então, depois de explicar aos coríntios que deveriam respeitar seus irmãos mais fracos, Paulo passa-lhes a advertir sobre como eles tem conduzido suas reuniões e de que maneira desordeira tem levado o momento da ceia do Senhor - conferindo-lhes também ao entendimento de que não poderiam simplesmente aceitar qualquer coisa por causa do irmão mais fraco, mas que todos os seus atos (desde o simples comer até o cultuar) deveriam ser regidos por preceitos advindos do seu Senhor e salvador Jesus Cristo.

Nesse ínterim, vemos ainda que Paulo escreve dizendo que não haveria porquê os coríntios vilipendiarem-no pelo que estava fazendo e dizendo, pois se "com graça participo, por que sou blasfemado naquilo por que dou graças?" (1Co 10.30).

Mais uma vez vemos a importância de fazermos tudo para a glória de Deus, devendo levar os casais cristãos a fazerem sexo para glória de Deus; o pai sair para passear com o filho para a glória de Deus; a mãe instruir os filhos para a glória de Deus; os amigos cristãos se reunirem e irem para a praia para a glória de Deus; sentar-se à mesa e banquetear-se com os alimentos para a glória de Deus, sair para tomar uma boa cerveja para a glória de Deus; chegar em casa e tomar um banho quente para a glória de Deus; deitar e descansar para a glória de Deus. "Assim, eu traço esta conclusão sombria: é pecado comer ou beber ou fazer qualquer coisa que NÃO seja para a glória de Deus. Em outras palavras, pecado não é apenas uma lista de coisas nocivas (assassinato, roubo, etc.). Pecado é deixar Deus de lado nos assuntos ordinários de sua vida. Pecado é tudo o que você faz que você não faz para a glória de Deus". [3]

Notemos então que Paulo não traça uma dicotomia entre certos momentos em que ele está na presença do Senhor e outros em que não está. Devemos atentar para o grandioso erro que nossa geração comete em querer constantemente "entrar na presença do Senhor", como se nos momentos precedentes a pessoa estivesse fora da presença de Deus!

Ora, amados, quem está fora da presença de Deus é o ímpio, o idólatra, o corrupto, os filhos da ira não-regenarados, os caluniadores, os mentirosos, os orgulhosos e uma miríade de outros mais que poderíamos citar, menos os cristão verdadeiros! Acaso não foi isso que Jesus tencionou expressar em sua oração sacerdotal ao dizer, "Pai justo... eu lhes fiz conhecer o teu nome, e lho farei conhecer mais, para que o amor com que me tens amado esteja neles, e eu neles esteja" (João 17.25,26)? Se o próprio Jesus orou ao Pai para que assim como o seu amor para com ele estivesse conosco, por que é que ainda encontramos pessoas achando que em determinados locais e circunstâncias da vida Deus não está?

Após tal exposição, Paulo diz aos coríntios: "Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus" (1Co 10.31). Mister é notarmos o excelente trabalho de associarmos esse versículo com a primeira preposição - "Ninguém busque o proveito próprio; antes cada um o que é de outrem" (1Co 10.24) - e com a segunda - "Nisto, porém, que vou dizer-vos não vos louvo; porquanto vos ajuntais, não para melhor, senão para pior" (1Co 11.17) - levando-nos a entender que o simples fato de nos abstermos de determinado alimento ou conduta, deve ser para honra e glória do Senhor, assim como também nossas reuniões devem visar a glorificação suprema e absoluta de Deus sobre tudo e todos.

No Breve Catecismo de Westminster lemos sobre qual é finalidade do homem: "Pergunta 1: Qual é o fim principal do homem? Resposta: O fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre (1Co 10.31; Sl 73.24-26; Jo 17.22,24). Calvino nos diz que a 'glória de Deus é quando sabemos o que ele é'. Em seu sentido bíblico, é estar lutando para salientar uma coisa divina. Nós o glorificamos quando não buscamos nossa própria glória, e sim buscamos a ele primeiro em todas as coisas. Agostinho disse: 'Tu nos criaste para ti mesmo, ó Deus, e nosso coração está desassossegado até encontrar repouso em ti'. Glorificamos a Deus crendo nele, confessando-o diante dos homens, louvando-o, defendendo sua verdade, mostrando os frutos do Espírito em nossa vida, adorando-o". [4]

"Porque vale mais um dia nos teus átrios do que mil. Preferiria estar à porta da casa do meu Deus, a habitar nas tendas dos ímpios. Porque o SENHOR Deus é um sol e escudo; o SENHOR dará graça e glória; não retirará bem algum aos que andam na retidão" (Sl 84.10,11).

Amém.


Notas:
[1] Bíblia de Estudo de Genebra
[2] 1Coríntios, Introdução e comentário - Leon Morris, Ed. Vida Nova - pág. 99.
[3] Como Beber Suco de Laranja para a Glória de Deus
[4] Estudos no Breve Catecismo de Westminster - Leonard T. Van Horn, Ed. Os Puritanos - pág 07.

4 comentários :

  1. Gostei muito desse texto mano!

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  2. Glórias a Deus, Jeison.

    Fico feliz que o Senhor tenha agraciado-o com a pregação.

    Grande abraço!

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  3. muito abençoado esse texto me ajudou muito

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  4. é bom estarmos sempre na casa do senhor.

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