"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

"Porém, além da voz, não vistes figura alguma" - Sermão pregado dia 21.08.2011




"Porém, além da voz, não vistes figura alguma" - 
Sermão pregado dia 21.08.2011

Nosso texto: "Então o SENHOR vos falou do meio do fogo; a voz das palavras ouvistes; porém, além da voz, não vistes figura alguma" (Dt 4.12).

Moisés, servo do Senhor, havia iniciado uma proclamação ao povo de Israel relembrando-os de onde haviam vindo e o quê o Senhor já lhes havia feito até o presente momento. Moisés também lhes expõe uma série de desobediências em que haviam incorrido e que, contudo, Deus ainda os preservava vivos e os sustentava grandemente.

Então, Moisés proclama o versículo chave do conhecido lema da Reforma Protestante - Sola Scriptura - "Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do SENHOR vosso Deus, que eu vos mando" (Dt 4.2). Moisés estava mostrando ao povo que a forma como Deus deve ser recebido, adorado, reverenciado e glorificado em nossas vidas foi prescrito por Ele mesmo, não devendo homem algum acrescentar ou diminuir qualquer elemento da vida aos pés da cruz por qualquer coisa feita por mão humanas, simplesmente por não concordar com tal afirmação bíblica.

Moisés também exorta o povo sobre a grandiosa bênção que pairava sobre eles, haja vista o próprio Senhor criador dos céus e da terra, ter iniciado um relacionamento com eles e lhes vir ao auxílio todas as vezes que precisavam. "Pois, que nação há tão grande, que tenha deuses tão chegados como o SENHOR nosso Deus, todas as vezes que o invocamos?" (Dt 4.7). Mas não somente isso. Moisés conclama ao povo a perceber que a lei, os estatutos, os mandamentos e as revelações vindas da parte d'Ele eram a única justiça verdadeira, devendo o homem rejeitar qualquer juízo de valor baseado na vã sabedoria humana - "E que nação há tão grande, que tenha estatutos e juízos tão justos como toda esta lei que hoje ponho perante vós?" (Dt 4.8).

Antes de chegar no versículo dessa manhã, vemos que Moisés lhes esclarece dizendo que não precisavam de qualquer revelação extra da parte do Senhor, de que eles não necessitariam ir a povos vizinhos em busca de conhecimento, mas tão somente que deveriam guardar em seus corações e ensinar aos seus descendentes àquilo que haviam ouvido e visto até o momento: "Tão-somente guarda-te a ti mesmo, e guarda bem a tua alma, que não te esqueças daquelas coisas que os teus olhos têm visto, e não se apartem do teu coração todos os dias da tua vida; e as farás saber a teus filhos, e aos filhos de teus filhos" (Dt 4.9)

Depois dessas palavras, Moisés declara ao povo qual foi o objetivo de Deus em reuni-los anteriormente aos pés do monte Sinai: "O dia em que estiveste perante o SENHOR teu Deus em Horebe, quando o SENHOR me disse: Ajunta-me este povo, e os farei ouvir as minhas palavras, e aprendê-las-ão, para me temerem todos os dias que na terra viverem, e as ensinarão a seus filhos" (Dt 4.10). O propósito de Deus ter se revelado àquele povo era para que eles soubessem o que o Senhor requeria deles, para que soubessem quem era o Senhor e passassem a temê-lo.

Moisés também relembra-os que quando o Senhor lhes apareceu, não foi como homem qualquer ou à semelhança de algum ser vivente, mas Sua presença divina trazia consigo um alto nível de fenômenos que conferiam àquele momento uma requerida reverência por parte de seu povo: "E vós vos chegastes, e vos pusestes ao pé do monte; e o monte ardia em fogo até ao meio dos céus, e havia trevas, e nuvens e escuridão" (Dt 4.11).

Finalmente, Moisés proclama ao povo: "Então o SENHOR vos falou do meio do fogo; a voz das palavras ouvistes; porém, além da voz, não vistes figura alguma" (Dt 4.12).

Certamente que esse último versículo tem muitas coisas a nos dizer e veremos três aplicações nessa manhã.

1. Qual a fonte de nossa revelação? Deus em sua soberania.

Moisés disse ao povo que quando o Senhor se manifestou diante deles, eles não viram "figura alguma", ensinando-lhes o caráter da transcendência de Deus. Aquele povo israelita precisava a cada dia ser lembrado que eles viviam diante de um Deus soberano e que Ele outorgava (decretava) aquilo que lhe bem aprazia (vide Paulo em Romanos). O povo de Israel ouviria e faria tão somente aquilo que Deus lhes havia ordenado.

Deus estava no alto do monte, sua presença acompanhava fogo, nuvens e escuridão. O povo, por sua vez, não estava nem sequer no meio do monte, mas em baixo, aguardando e esperando para fazer tão somente aquilo que o Senhor lhes ordenasse. Diante de fogo, nuvens e escuridão vindas da parte de Deus, homem algum deveria ficar brincando de ser povo do Senhor. 

De forma semelhante, somos nós diante de Deus. Ele não está mais naquele monte físico, nem em tabernáculo feito por mãos humanas, nem tampouco acompanha o seu povo com uma nuvem durante o dia e com fogo durante a noite, contudo, está nos céus, reina de modo soberano e nos comunica através de Sua palavra e de Seu santo Espírito. 

Vemos que tal qual àquele povo de Israel, os cristãos de hoje precisam urgentemente aprender a viver sabendo que Deus é soberano. Digo aprender a viver pois uma boa parte sabe - em teoria - que Deus é soberano, porém, vive de maneira desordeira e cria novas regras de adoração e formas "alternativas" de obedecer a sua palavra. Por vezes, até mesmo os mais ortodoxos caem nessa armadilha.

A grande distinção entre os reformados e o restante dos professos da fé cristã, é que esses tentam viver norteados pela seguinte pergunta: "Tenho base bíblica para isso?". Os reformados e seu "Somente a Escritura", nos ensinam que a forma correta de adoração e louvor a Deus foi instituído por Ele mesmo e não pelo homem. O homem não deve conjecturar novas formas de adoração e louvor, mas deve-se submeter humildemente às Escrituras.

Quando Deus estava acima do monte, Ele não desceu e fez um plebiscito para saber o que o povo queria que Ele escrevesse nas duas tábuas da lei - e ainda bem que Ele não fez isso. Deus também não perguntou ao representante do povo, isto é, Moisés, sobre o que ele achava mais interessante para o povo naquele momento. Não houve uma mesa redonda com Deus, Moisés e o povo, mas tão somente uma voz ativa que ditava as regras.

O escritor de Eclesiastes também escreveu acerca de nossa posição diante de Deus: "Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu estás sobre a terra; assim sejam poucas as tuas palavras" (Ec 5.2).

Receio que muitos hoje, muitos vivam diante de Deus como se estivessem diante de um atirador de elite que está pronto para atirar e que nunca errou um tiro sequer e mesmo assim tais homens vivem a fazer gracinhas, piadas e levam a vida de qualquer maneira, crendo que aquele atirador certamente nunca os acertará.

2. Qual nossa posição diante da revelação? Atenção e reverência.

O povo não deveria subir ao monte e isso eles sabiam muito bem. Não deveriam sugerir novas ideias ao Senhor, nem tampouco lhes dar conselhos acerca do que deveria ser feito. O povo de Deus deveria permanecer aguardando a volta de Moisés, não devendo sequer cogitar a possibilidade de dar "espiada" no acontecimento: "E marcarás limites ao povo em redor, dizendo: Guardai-vos, não subais ao monte, nem toqueis o seu termo; todo aquele que tocar o monte, certamente morrerá" (Êx 19.12).

O povo de Israel foi instruído a não passar dos limites da palavra de Deus. De forma igualmente verdadeira, nós também não devemos nos apressar para "subir no monte", mas sim permanecermos firmes diante da manifestação do Senhor através de Sua palavra.

É com tristeza que olhamos para os arraiais evangélicos e percebemos como o povo - que se diz do Senhor - tem se prostituído e ultrapassado todos os limites estabelecidos pela lei de Deus. Homens e mulheres perderam a reverência devida ao santo e sumo sacerdote Jesus Cristo. Ele que está sentado à destra do pai (At 2.33) reina de forma magnífica e altíssima, de sorte que ser vivo algum deveria viver a vida com menor temor e tremor do que àqueles israelitas.

Infelizmente, assim como aquele povo israelita se corrompeu tão facilmente - "Mas vendo o povo que Moisés tardava em descer do monte, acercou-se de Arão, e disse-lhe: Levanta-te, faze-nos deuses, que vão adiante de nós; porque quanto a este Moisés, o homem que nos tirou da terra do Egito, não sabemos o que lhe sucedeu" (Êx 32.1) - também nós muitas vezes não agimos com o devido respeito ao nosso Senhor.

Como vimos semana passada (clique aqui para ler), muitas vezes nos assemelhamos a Davi e somos extremamente rápidos em julgar e proferir veredictos acerca do próximo. Mas não somente isso; somos por demais rápidos em querer "melhorar" o culto ao Senhor. Não que esse desejo não possa ser legítimo, contudo, deve ser sempre baseado naquilo que o Senhor nos revelou. Se por "melhorar" o culto ao Senhor signifique investigar de forma mais profunda os Seus preceitos, então devemos lutar por essa finalidade. Porém, se por "melhorar" queremos dizer que o culto prescrito por Deus está ultrapassado e que precisa e pode ser segundo nossa vontade e nosso querer - ainda que falsamente baseado nas Escrituras – então devemos nos prostrar diante do Senhor e clamarmos por misericórdia, pois estamos perdidos.

O salmista escreveu acerca de nossa vida diante do Senhor, dizendo: "Servi ao SENHOR com temor, e alegrai-vos com tremor" (Sl 2.11). De igual maneira, Paulo também escreveu aos filipenses dizendo: "Operai a vossa salvação com temor e tremor" (Fp 2.12).

A posição do homem pecador diante de Deus resume-se em duas maneiras. A primeira é que ele deve se portar e viver com extrema cautela em tudo o que faz, pois vive diante do Deus todo poderoso, o único a quem devemos temer (já preguei sobre isso, clique aqui para ler). A segunda diz respeito à grandiosa alegria que deve pulsar em seu coração, pois estava morto em seus delitos e pecados (Ef 2.1), mas agora foi feito justiça de Deus (2Co 5.21) e está prestes a receber a vida eterna.

Muitas vezes podemos nos perguntar: "Por que é que Deus determinou e exigiu tantas coisas para os sacrifícios do Antigo Testamento?". O próprio Moisés nos dá a resposta: "Porque o SENHOR teu Deus é um fogo que consome, um Deus zeloso" (Dt 4.24). Ou ainda: "Por que o Novo Testamento não nos é mais claro quanto ao que devemos fazer no culto público?". Nesse ponto, o próprio Jesus nos dá a resposta: "O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar" (Mt 24.35).

Ou seja, se o Senhor é um fogo que consume e um Deus zeloso e se a Sua palavra permanecerá - ou seja, desde sempre ela é - para sempre, concluímos que devemos buscar conhecer todo o conselho de Deus, pois somente assim poderemos adorá-lo e vivermos dignos de nossa vocação.

3. Como se dá essa revelação até nós? Por meio de sua palavra.

O povo apenas ouviu a voz de Deus. Nosso texto nos diz que "a voz das palavras ouvistes; porém, além da voz, não vistes figura alguma" (Dt 4.12).

O povo não havia visto o Senhor, o povo não havia sido tocado fisicamente pelo Senhor, o povo não havia visto algum vulto semelhante ao Senhor, o povo não havia estado no monte enquanto Moisés recebia as tábuas da lei e por esse mesmo motivo é que eles não deveriam fazer "[nenhuma] imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra" (Êx 20.4). O povo não sabia como era "fisicamente" o Senhor e por isso mesmo não deveriam tentar humanizá-lo.

Quem sabe, muitas vezes acusamos os católicos romanos de venerarem imagens e santos sem fins, mas não nos apercebemos com que falta de cuidado estamos vivendo para com a palavra de Deus.

Deus, em seu santo monte, revelou-se a Moisés e veio a exigir que ele ensinasse todas aquelas coisas ao seu povo. O povo, por sua vez, deveria apenas executar àquilo que Moisés havia lhes dito. Nós não temos mais um monte onde Deus se revela, nem temos alguém que media nossa relação com o Soberano - exceto o Jesus Cristo - contudo, temos onde buscar as palavras do próprio Deus, a saber, na Bíblia.

O Espírito Santo nos guia em toda a verdade, assim como Jesus havia prometido: "Mas, quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir" (Jo 16.13). Porém, algo que muitas vezes nos passa despercebido é o fato de que o Espírito Santo - do próprio Deus trino - revela-se e guia-nos tão somente nos trilhos estabelecidos pelas Sagradas Escrituras. Ele jamais não guiará para longe dos mandamentos e ordenanças de Deus e caso alguém alegue que isso por ser feito, que seja anátema, conforme Paulo escrevera aos gálatas.

Os puritanos tinham algo magnífico com relação à revelação de Deus ao homem: uma imensa alegria em poder ouvir a palavra de Deus. Para eles, dois cultos por domingo não eram demais - lembrando que eles não tinham carros, ônibus nem coisa semelhante - ou enfadonhos, mas eram duas oportunidades de escutar Deus lhes falando ao coração.

Para esses santos no mundo, a revelação de Deus dava-se tão somente através daquilo que viam e liam a partir das Escrituras. Não havia questionamento quanto à praticas contrárias àquilo que estava revelado. Eles simplesmente liam, meditavam e buscavam aplicar as doutrinas às suas vidas, mesmo que lhes fosse extremamente doloroso - conforme disse Jesus: "Portanto, se o teu olho direito te escandalizar, arranca-o e atira-o para longe de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno" (Mt 5.29).

Tal qual os israelitas no Antigo Testamento, nós não vimos "figura alguma". Diferentemente dos crentes dos tempos de Jesus, nós não o vimos - "E quem me vê a mim, vê aquele que me enviou" (Jo 12.45). Contudo, temos muito mais revelação do Senhor do que todos esses, pois temos todos os registros de Deus ao seu povo, de sorte que "Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra" (2Tm 3.16,17).

Que nessa manhã possamos atentar para quem somos diante do Altíssimo. Que Deus nos liberte de todo misticismo e de "boas intenções" que estão maculadas pelo pecado. Que tenhamos somente o Senhor como fonte de nossa revelação - e que o busquemos com afinco! Que sejamos reverentes diante de sua revelação - vivendo com temor, tremor e alegria. E por fim, que tenhamos Sua revelação no mais alto apreço, de forma a nos tornarmos atentos à Sua palavra.

Amém. 

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