"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

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segunda-feira, 11 de julho de 2011

"Vede, pois, como ouvis" - Sermão pregado dia 10.07.2011


"Vede, pois, como ouvis" -

Sermão pregado dia 10.07.2011

Nosso texto: "Vede, pois, como ouvis" (Lc 8.18).

Amados, essa pequena parte da fala de Jesus nos é por demais valiosa, tão valiosa que devemos até mesmo para com ela sermos prudentes, reverentes e atenciosos.

O presente versículo está inserido no contexto da parábola do semeador. Nesta parábola, o nosso Senhor e salvador Jesus Cristo proclama às multidões sobre os quatro tipos de lugar onde a semente - que é a palavra de Deus - é lançada. Jesus então explica aos seus discípulos dizendo que a semente é a palavra de Deus (v.11) e o que significam os outros elementos da mesma parábola (v.12-15).

É importante notarmos que se a semente do semeador é a palavra Deus e a palavra de Deus é perfeita e soberana, logo - pela inferência lógica - deduzimos que a palavra de Deus não é jogada em vão - ainda que possa vir a não frutificar - mas jamais é desperdiçada.

Quando os discípulos perguntam a Jesus que parábola era esta, ele lhes responde dizendo: "A vós vos é dado conhecer os mistérios do reino de Deus, mas aos outros por parábolas, para que vendo, não vejam, e ouvindo, não entendam" (v.10). Jesus queria dizer-lhes que aquela - e tantas outras - parábola era proclamada, mas o povo não podia entendê-la, não podia aceitá-la, pois esse era o propósito da proclamação naquele momento. Jesus constantemente criticava o povo judeu por acrescentarem às coisas de Deus suas tradições - "E dizia-lhes: Bem invalidais o mandamento de Deus para guardardes a vossa tradição" (Mc 7.9) - e por colocarem suas suposições acima da palavra de Deus.

Um evento bastante curioso dessa natureza é quando Jesus é pego com seus discípulos supostamente violando o quarto mandamento - "Lembra-te do dia do sábado, para o santificar" (Êx 20.8) - pois estavam apanhando espigas enquanto passavam por um campo - "Naquele tempo passou Jesus pelas searas, em um sábado; e os seus discípulos, tendo fome, começaram a colher espigas, e a comer" (Mt 12.1). O problema daqueles fariseus que buscavam apanhar Jesus não era o seu zelo pela lei do Senhor, mas sim que o seu zelo estava baseado nos seus acréscimos à lei do Senhor!

Vejamos que a lei do Senhor dada a Moisés não proibia que em caso de necessidade se colhessem espigas - "Quando entrares na seara do teu próximo, com a tua mão arrancarás as espigas; porém não porás a foice na seara do teu próximo" (Dt 23.25). "Muitos erradamente presumem com os fariseus que os discípulos estivessem violando o sábado. Mas os discípulos não estavam quebrando nenhuma lei do sábado do Antigo Testamento. Estavam quebrando só as leis de criação humana dos judeus." [1]

Quando Jesus então profere tais palavras (v.10), ele não está tratando com desdém aquele povo, mas explica aos seus discípulos o porquê do povo não conseguir entender suas palavras.

Após Jesus lhes explicar a parábola, ele diz: "E ninguém, acendendo uma candeia, a cobre com algum vaso, ou a põe debaixo da cama; mas põe-na no velador, para que os que entram vejam a luz. Porque não há coisa oculta que não haja de manifestar-se, nem escondida que não haja de saber-se e vir à luz" (V.16,17). Aqui Ele lhes diz que a luz deve ser exposta à todas as pessoas, para que vejam essa luz e percebam em que situação deplorável estão. Constantemente os evangelhos registram a importância da palavra de Deus como sendo luz para esse mundo - Mt 5.14; Jo 3.19; Jo 11;9, Jo 8.12; - não devendo qualquer um dos seus seguidores negligenciar esta luz que porta consigo.

Para então finalizar seus discurso, Jesus diz: "Vede, pois, como ouvis; porque a qualquer que tiver lhe será dado, e a qualquer que não tiver até o que parece ter lhe será tirado" (v.18 - ênfase acrescentada).

É grandioso dever do cristão o guardar dessas palavras em seu coração. Jesus aqui expõe aos seus dizendo e exortando para que sejam extremamente cuidadosos para como ouvem aquilo que Ele lhes fala.

Lemos na pergunta 160 do Catecismo Maior de Westminster: "Pergunta 160: Que se exige dos que ouvem a Palavra de Deus pregada?”

Resposta: Exige-se dos que ouvem a Palavra de Deus pregada que atendam a ela com diligência (Sl 84. 1,2,4), preparação (Lc 8. 18; I Pe 2. 1,2) e oração (Sl 119. 18; Ef 6. 17,18); que comparem com as Escrituras (At 17. 11) aquilo que ouvem; que recebam a verdade com fé (Hb 4. 12), amor (II Ts 2. 10), mansidão (Tg 1. 21; Sl 25. 9) e prontidão de espírito (At 17. 11), como Palavra de Deus (I Ts 2. 13); que meditem (Hb 2. 1) nela e conversem a seu respeito uns com os outros (Dt 6. 6,7); que a escondam nos seus corações (Sl 119. 11) e produzam os frutos devidos no seu procedimento (Lc 8. 15; Tg 1. 25)”. [2]

Vemos, portanto, que as palavras de Jesus - "Vede, pois, como ouvis" - não devem de maneira alguma serem negligenciadas por seus discípulos, pois se o próprio mestre instrui-nos a sermos vigilantes para com sua palavra, nada mais sensato do que buscarmos com diligência tal objetivo.

Algo que muito tem me deixado feliz é o poder testemunhar da mudança de vida e de pensamento que ocorre em nós quando atentamos para a santa e perfeita palavra do Senhor. Por outro lado, é com tristeza que olho para uma miríade de professos da fé cristã, mas que dão pouquíssimo valor para as coisas do Senhor - "Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração" (Mt 6.21).

É necessário que entendamos que todas as palavras - sejam elas ditas por Jesus ou por qualquer outro arauto bíblico seu - encontradas nas sagradas escrituras não constituem uma sugestão para seus discípulos. As palavras de Jesus, "Vede, pois, como ouvis", não são de maneira alguma algum conselho do mestre para nós, mas sim nos são uma ordenança perpétua! Ninguém, em lugar, algum deve olhar para as palavras bíblicas e tê-las como simples instruções para a vida, mas deve com grande ímpeto buscar se conformar à elas, mesmo que isso lhe custe tudo o que tem (Lc 18.18-22).

Algumas vezes nos deparamos com pessoas que quando confrontadas com algum ensino bíblico retrucam dizendo que aquele simples versículo pode não significar aquilo que estamos pensando. O problema de tais pessoas não é a dúvida, mas sim a incredulidade e falta de confiança nas palavras dignas de toda a aceitação. Quando estes se deparam com doutrinas bíblicas tais como, a soberania de Deus, a depravação humana, o homem como líder de sua casa, o homem como responsável pela igreja, a mulher como auxiliadora do homem e boa dona de casa, não conseguem se conformar simplesmente porque o texto assim os diz! Parecem não serem convencidas pelo simples fato de estar escrito! Certamente que devemos olhar para o texto bíblico e aplicar a ele uma boa interpretação - ela deve feita de acordo com um dos princípios básicos da interpretação bíblica que é: a escritura se auto-interpreta. Contudo, que grande ultraje fazemos ao nome do Senhor quando buscamos respostas em lugares alheios à sua palavra.

Muitíssimas vezes diferente dessas pessoas, eram os puritanos. Eles olhavam para a bíblia e enxergavam nela a única regra de conduta. Toda e qualquer atividade puritana era norteada pela pergunta: "Tenho base bíblica para fazer o que estou fazendo"? Suas perguntas não eram levianas como as de hoje, mas eram perguntas sinceras e que uma vez respondidas, eram aplicadas em suas vidas.

O texto de hoje nos leva a refletirmos sobre como temos levado nossa vida de leitura, oração e prática cristã. Ele nos leva a perguntarmos se estamos olhando a bíblia como a única - exatamente isso, a única - capaz de nos transmitir as ricas e belas palavras do salvador. Também insta-nos a refletir - e se necessário for, mudar - sobre o porquê de não estarmos atentando para tão grande riqueza espiritual. De forma semelhante, convém analisarmos nossos corações e orarmos a Deus como fez o salmista: "Vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno" (Sl 139.24). Não deixemos para amanhã o buscar a face do Salvador.

Neste dia do Senhor, novamente ele adverte-nos dizendo: "Vede, pois, como ouvis". Tais palavras emanam da própria boca do salvador - e isso devia causar-nos temor e tremor! - devendo nos levar somente a duas reações: extrema alegria por estarmos trilhando o bom e reto caminho e com isso sermos renovados pela paixão pelas escrituras, ou extremo e humilhante arrependimento por termos nos desviado dos seus caminhos.

Bem sabemos que não serão somente os assassinos, ladrões, estupradores e caluniadores que não herdarão o reino dos céus, mas todo aquele que não atentar para essas palavras: "Vede, pois, como ouvis".

Amém.

Notas:
[1] Pipa, Joseph A. - O Dia do Senhor, Ed. Os Puritanos - pág. 75.
[2] O Catecismo Maior de Westminster é fruto da Assembléia de Westminster que se reuniu durante cinco anos, seis meses e vinte e dois diase, celebrou 1163 reuniões, sendo que estas eram feitas das 9 às 16 horas, todos os dias úteis, exceto aos sábados e com 151 dos mais proeminentes teólogos, puritanos e membros do parlamento inglês. Fonte: Kerr, Guilherme - A Assembléia de Westminster, Ed. Fiel.

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