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Um Cristianismo Inútil


Ninguém se engane quanto ao sentido das minhas declarações. Não estou examinando quanto custa salvar uma alma cristã. Sei muito bem que isso custa nada menos do que o sangue do próprio Filho de Deus, que proveu expiação e remiu homens da condenação ao inferno. O preço pago pela nossa redenção foi nada menos do que a morte de Jesus Cristo, no Calvário. "Porque fostes comprados por preço!' "...Cristo Jesus, homem. O qual a si mesmo se deu em resgate por todos..." (I Co. 6:20; I Tm. 2:5,6). Tudo isso, entretanto, desvia-se inteiramente da nossa questão central. O ponto que desejo considerar é inteiramente diferente. Falo sobre o que um homem deve estar pronto a abandonar, se quiser ser salvo. Está em pauta o montante de sacrifício a que um homem precisa submeter-se, se realmente tenciona servir a Cristo. É nesse sentido que levanto a indagação: "Qual é o preço?" E acredito firmemente que essa indagação é importantíssima.

Admito prontamente que custa pouco alguém manter a aparência de um cristão. Uma pessoa que apenas frequente algum lugar de adoração duas vezes a cada domingo, e mostre-se razoavelmente moral durante os dias da semana, já terá feito o que milhares de outras pessoas ao seu redor fazem com o cristianismo. Tudo isso é trabalho fácil e barato; não requer qualquer autonegação ou auto-sacrifício. Se isso é o cristianismo que salva e que nos conduzirá ao céu quando morrermos, então, convém que alteremos a descrição sobre o caminho da vida, escrevendo: "Larga é a porta e espaçoso é o caminho que conduz ao céu!"

Não obstante, custa bastante ser um crente verdadeiro, se os padrões da Bíblia tiverem de ser seguidos. Há inimigos que terão de ser vencidos, batalhas que terão de ser travadas, sacrifícios que terão de ser feitos, um Egito que precisará ser esquecido, um deserto que precisará ser atravessado, uma cruz que deverá ser carregada, uma carreira que terá de ser corrida. A conversão não se assemelha a colocar um homem em uma poltrona, levando-o assim, em conforto, para o céu. Quando alguém torna-se crente, dá início a um imenso conflito pelo qual custa muito obter a vitória. Daí origina-se a indizível importância de "calcular o preço".

Permita-me tentar mostrar precisa e particularmente quanto custa ser um crente autêntico. Suponhamos que um homem se disponha a servir a Cristo, sentindo-se atraído e inclinado a segui-Lo. Suponhamos também que alguma aflição, ou uma morte repentina, ou um sermão abalador lhe venha despertar a consciência, fazendo-o sentir o valor da sua própria alma e levando-o a desejar ser um verdadeiro crente. Sem dúvida, muito coisa haverá para encorajá-lo. Os seus pecados poderão ser gratuitamente perdoados, por muitos e grandes que eles sejam. O seu coração poderá ser totalmente modificado, sem importar quão frio e duro ele seja. Cristo e o Espírito Santo, a misericórdia e a graça, estão todos à sua disposição. Apesar de tudo, convém que ele calcule o preço.

Examinemos particularmente, uma por uma, as coisas que a sua religião cristã haverá de custar-lhe.

1. Antes de mais nada, isso lhe custará a sua justiça própria. Ele terá de desfazer-se de todo o orgulho, de todos os pensamentos altivos e de toda a presunção acerca de sua própria bondade. Terá de contentar-se em ir para o céu como um pobre pecador, salvo exclusivamente pela graça gratuita, devendo tudo aos méritos e à retidão de Outrem. Cumpre-lhe realmente sentir aquilo que diz o livro de oração de nossa igreja: ele tem "errado e se desviado como uma ovelha perdida", tendo deixado de fazer "o que lhe competia, e tendo feito o que não lhe competia fazer, não havendo nele qualquer saúde espiritual". Ele terá de dispor-se a desistir de toda a confiança em sua própria moralidade, respeitabilidade, orações, leituras da Bíblia, frequência à igreja, participação nas ordenanças, não confiando em outra coisa e em outra pessoa senão em Jesus Cristo.

Ora, para alguns isso poderá parecer difícil. E não me admiro disso. Disse um piedoso lavrador ao bem conhecido James Hervey: "Senhor, é mais difícil negar o orgulho próprio do que negar o próprio pecado. Mas isso é algo absolutamente necessário". Em nosso cálculo do custo, que esse seja o nosso primeiro item. Para que um homem seja um verdadeiro crente, ele terá de desistir de sua justiça-própria.

2. Em segundo lugar, um homem terá de desistir dos seus pecados Ele deverá estar disposto a abandonar cada hábito e prática errados aos olhos de Deus. Terá de voltar o rosto contra tais práticas, lutando contra elas, rompendo com elas, crucificando-se para elas e esforçando-se por mantê-las sob o seu controle, sem importar o que o mundo ao seu redor possa pensar ou dizer a respeito. Ele terá de fazer isso de maneira honesta e justa. Não poderá haver tréguas com qualquer pecado especial que ele ame. Ele terá de considerar todos os pecados como seus inimigos mortais, odiando cada caminho de iniquidade. Sem importar se pequenos ou grandes, públicos ou secretos, ele terá de renunciar terminantemente a todos os seus pecados. Talvez esses pecados lutem diariamente contra ele, e as vezes quase haverão de derrotá-lo. Porém, ele nunca poderá ceder diante deles. Cumpre-lhe manter uma guerra perpétua contra os seus pecados. Está escrito: "Lançai de vós todas as vossas transgressões..." "...põe termo em teus pecados pela justiça, e às tuas iniquidades.." "...cessai de fazer o mal" (Ez. 18:31; Dn. 4:27; Is. 1:16).

Isso também parece difícil, e não me admiro. Geralmente os nossos pecados são tão queridos por nós como os nossos filhos: nós os amamos, abraçamos, apegamo-nos a eles, deleitamo-nos neles. Romper com eles é algo tão difícil quanto decepar a mão direita ou arrancar da órbita o olho direito. Mas isso tem de ser feito. O rompimento é inevitável. "Ainda que o mal lhe seja doce na boca, e ele o esconda debaixo da língua, e o saboreie, e o não deixe...", contudo, o pecado terá de ser abandonado, se ele quiser ser salvo. (Jó 20:12,13). O crente e o pecado têm de estar em luta, se o crente e Deus tiverem de ser amigos. Cristo está disposto a acolher a qualquer pecador. Mas Ele não receberá a quem não se disponha a separar-se dos seus pecados. Anotemos esse item em segundo lugar, em nosso cálculo do custo. Ser crente é algo que custará a um homem os seus pecados.

3. Em último lugar, ser crente custará a um homem a aprovação do mundo. Se um crente quiser agradar a Deus, terá de contentar-se em ser mal acolhido pelos homens. Não deverá considerar estranho se for vilipendiado, ridicularizado, caluniado, perseguido e até mesmo odiado. Não poderá ficar surpreendido se as suas opiniões e práticas religiosas forem consideradas com desprezo. Terá de aceitar que muitos o tomem por insensato, entusiasta ou fanático — de tal maneira que as suas palavras sejam pervertidas e as suas ações sejam mal interpretadas. De fato, não terá de maravilhar-se se alguém vier a chamá-lo de louco. Disse o Senhor: "Lembrai-vos da palavra que eu vos disse: Não é o servo maior do que seu senhor. Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa" (João 15:20).

Ouso dizer que essa condição também parece muito difícil. Naturalmente, somos avessos a um tratamento injusto e a falsas acusações, e julgamos ser muito difícil tolerar as acusações sem causa. Não seríamos feitos de carne e sangue, se não desejássemos contar com a boa opinião das pessoas ao nosso redor. Sempre será desagradável ser alvo de calúnias, de mentiras, e viver solitário e incompreendido. Porém, não há como evitar. O cálice que nosso Senhor bebeu também deve ser sorvido pelos Seus discípulos. Cristo "era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens" (Is. 53:3), e outro tanto acontecerá a eles. Que esse item também seja alistado. Ser um crente custará a um homem a aprovação do mundo. Esse é o cálculo do que custa a uma pessoa ser um crente verdadeiro. Admito que essa lista é pesada. Mas, qual desses diversos itens pode ser removido? Temerário seria, realmente, o homem que ousasse dizer que podemos conservar a nossa justiça-própria, a nossa preguiça e o nosso amor ao mundo, e, ainda sermos salvos!

Reconheço que custa muito ser um verdadeiro crente. Porém, quem, em seu bom juízo, poderia duvidar que vale a pena pagar qualquer preço, contanto que a sua alma seja salva? Quando um navio corre o risco de naufragar, a tripulação não pensa que é um sacrifício muito grande lançar borda fora qualquer carga, por mais preciosa que seja. Quando um membro do corpo chega a grangrenar, um homem submete-se a qualquer operação, até mesmo a amputação daquele membro, contanto que a sua vida seja salva. Não há dúvida que um crente deve estar disposto a desistir de qualquer coisa que se interponha entre ele e o céu. Uma religião que nada custa, nada vale! Um cristianismo barato, destituído de cruz, mostrará ser um cristianismo inútil, que não pode obter a coroa.

Por J. C. Ryle

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