"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Erros a Respeito da Conversão - Joseph Alleine (1634 - 1668)




O diabo tem produzido muitas imitações de conversão, iludindo as pessoas, ora com isto, ora com aquilo. Ele possui tamanha habilidade e astúcia que, se possível fosse, enganaria até os próprios eleitos. Agora, para que eu possa curar o erro devastador de alguns que pensam que são convertidos quando não são, bem como remover as inquietações e os temores de outros que pensam que não são convertidos quando na verdade o são, mostrarei a natureza da conversão — tanto o que ela não é quanto o que ela é. Vamos começar com o aspecto negativo.

Conversão não é professar o cristianismo. O cristianismo é mais que um nome. Se dermos ouvidos a Paulo, veremos que o cristianismo não se fundamenta na palavra, mas no poder (I Coríntios 4:20). Se o fato de deixar de ser judeu ou pagão e professar o cristianismo significasse conversão verdadeira — visto que isso é tudo o que alguns dão a entender a respeito dela — quem poderia ser melhores cristãos senão os de Sardo ou Laodicéa? Eram todos cristãos professos, porém apenas de nome; e por serem cristãos só de nome, são condenados por Cristo e ameaçados de serem rejeitados (Apocalipse 3:14-16). Quantos há que invocam o nome do Senhor Jesus mas não se apartam da iniqüidade (II Timóteo 2:19), professando que conhecem a Deus, mas negando-o com suas obras? (Tito 1:16). Será que Deus vai recebê-los como verdadeiros convertidos? O quê? Convertidos do pecado enquanto eles ainda vivem em pecado? É uma visível contradição! É claro que se o óleo das lâmpadas da fé não houvesse faltado, as virgens loucas jamais teriam sido impedidas de entrar (Mateus 25:12). Encontramos não apenas cristãos professos rejeitados, mas inclusive pregadores de Cristo e milagreiros,  pois são maus obreiros  (Mateus 7:22-23).

Conversão não é revestir-se das insígnias de Cristo no batismo. Ananias, Safira e Simão Mago foram batizados, assim como as demais pessoas. Quantos caem em erro neste ponto, enganando e sendo enganado; imaginando que a graça eficaz está necessariamente ligada à administração externa do batismo, de modo que toda pessoa batizada é regenerada, não apenas por observar a ordenação, mas também no sentido real e literal da palavra. Assim, os homens imaginam que por haverem sido regenerados por ocasião do batismo, não necessitam de nenhuma outra obra. Mas se fosse assim, então todos os que tivessem sido batizados seriam, necessariamente, salvos, pois a promessa de perdão e salvação é feita em referência à conversão e à regeneração (Atos 3:19; Mateus 19:28). E, de fato, se a conversão e o batismo fossem idênticos, então seria conveniente que os homens levassem um certificado de seu batismo quando morressem, e mediante a apresentação dele não haveria dúvidas quanto à sua admissão no céu.

Em suma, se não há nada mais a acrescentar à salvação ou à regeneração, senão o fato da pessoa ser batizada, isto vai frontalmente contra o que dizem as Escrituras em Mateus 7:13-14, bem como contra muitas outras passagens. Se isto for verdade, não deveremos mais dizer: "Estreita é a porta, e apertado o caminho", porque se todos os que são batizados são salvos, a porta é excessivamente larga e nós, daqui em diante, deveremos dizer: "Larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à vida". Se isto é verdade, milhares podem entrar lado a lado; e nós não ensinaremos mais que os justos dificilmente serão salvos ou que há necessidade de tanto empenho para apoderar-se do reino dos céus pela violência e de tanto esforço para entrar nele. (I Pedro 4:18; Mateus 11:12; Lucas 13:24). Sem dúvida alguma, se o caminho é tão fácil como muitos supõem, ou seja, que é necessário pouco mais que simplesmente ser batizado e clamar: "Senhor, tem misericórdia", não  precisamos nos empenhar em buscar, bater e lutar, como requer a Palavra de Deus, a fim de obtermos a salvação. Reafirmamos que se isto é verdadeiro, não diremos mais: "Poucos há que a encontram"; será melhor dizermos: "Poucos a perderão". Não diremos mais que, dos muitos que são chamados, "somente alguns são escolhidos" (Mateus 22:14), e que, mesmo do Israel professo, somente um remanescente será salvo (Romanos 9:27). Se esta doutrina é verdadeira, não mais faremos coro com os discípulos: "Quem, então, será salvo?", mas ao invés disso: "Quem, então, não será salvo?". Assim, se alguém for batizado — mesmo que seja um fornicário, ou escarnecedor, ou avarento, ou beberrão — herdará o reino de Deus! (I Corintios 5:11 e 6:9-10).

Alguns irão alegar: aqueles que pecaram depois de terem recebido a graça regeneradora no batismo precisam ser renovados; caso contrário não poderão ser salvos.

Eu respondo: em primeiro lugar, há uma conexão infalível entre regeneração e salvação, como já temos mostrado. Em segundo lugar, o homem precisa nascer de novo novamente — o que é um grande absurdo. Poderíamos, do mesmo modo, supor que o homem nascesse duas vezes fisicamente, bem como duas vezes espiritualmente. Mas, em terceiro lugar e acima de tudo, isso garante o que eu defendo, isto é, não importa o que os homens recebam ou aspirem receber no batismo, se depois disso forem considerados flagrantemente ignorantes, ou profanos, ou formais, ou destituídos de poder espiritual, "precisam nascer de novo" (João 3:7) ou, então, ficarão fora do reino de Deus. Assim, precisam ter mais a argumentar em seu favor do que simplesmente a regeneração batismal.

Bem, como podem ver, nisto todos concordam, isto é, seja o que for que se receba no batismo, se os homens não forem santificados precisam ser renovados por uma mudança total e poderosa ou não escaparão da condenação do inferno. "Não vos enganeis, Deus não se deixa escarnecer." Quer seja o seu batismo ou qua¬quer outra coisa que aspirem, digo-lhes, da parte de Deus, que se qualquer de vocês for uma pessoa ímpia, ou escarnecedora, ou amante de más companhias (Provérbios 13:20), em suma, se não for um cristão santo, cuidadoso, abnegado, não poderá ser salvo (Hebreus 12:14; Mateus 15:14).

A conversão não se fundamenta na justiça moral. Esta justiça não ultrapassa à dos escribas e fariseus, portanto, não pode conduzir-nos ao reino de Deus (Mateus 5:20). Antes de sua conversão, Paulo era irrepreensível segundo a justiça que há na lei (Filipenses 3:6). O fariseu poderia dizer: "Não sou roubador, injusto, adúltero" etc. (Lucas 18:11). Vocês precisam de alguma coisa além disso para apresentar, ou seja, como for que se justifiquem, Deus os condenará. Eu não condeno a moralidade; mas os aconselho a não descansarem nela. A piedade inclui a moralidade, assim como o cristianismo inclui a humanidade, e a graça inclui a razão; mas não devemos confundir as coisas.

A conversão não consiste numa conformidade exterior às normas de piedade. É certo que os homens podem ter uma aparência de piedade, mas sem eficácia (II Timóteo 3:5). Podem fazer longas orações (Mateus 23:14), jejuar freqüentemente (Lucas 18:12), ouvir de bom grado a Palavra de Deus (Marcos 6:20), e serem muito zelosos no serviço de Deus -— ainda que isso lhes seja caro e dispendioso (Isaías 1:11), e, mesmo assim, não serem convertidos. Devem ter alguma coisa a mais para argumentar em seu favor do que simplesmente o fato de ir à igreja, dar esmolas, e fazer uso da oração, para provar que são verdadeiramente convertidos. Não há serviço exterior que um hipócrita não possa fazer, até mesmo dar todos os seus bens para o sustento dos pobres e o seu corpo para ser queimado (I Coríntios 13:3).

A conversão não é apenas o aprisionamento da corrupção mediante a educação, mediante as leis humanas ou pela força da aflição. É comum e fácil confundir-se educação com graça; mas se isto fosse suficiente, que homem haveria melhor que Joás? Enquanto seu tio Jeoiada viveu, ele se mostrou muito dedicado ao serviço de Deus e tomou sobre si o encargo de reparar a casa do Senhor (II Reis 12:2, 7). Mas neste caso não foi nada mais senão o resultado de uma boa educação durante o tempo em que o seu bom tutor viveu, pois, quando ele morreu Joás revelou que era apenas um lobo enjaulado, logo depois caindo na idolatria.

Em suma, a conversão não consiste em iluminação, ou convicção, ou mudança superficial, ou reforma parcial. O apóstata pode ser um homem iluminado (Hebreus 6:4), e um Félix pode ficar espavorido sob condenação (Atos 24:25), e um Herodes pode fazer muitas coisas (Marcos 6:20). Uma coisa é alvoroçar o pecado somente por convicções; outra coisa é crucificá-lo pela graça da conversão. Pelo fato de terem a consciência atormentada pelos pecados, muitos têm em alta conta o seu caso, confundindo miseravelmente a convicção com a conversão. Entre estes inclui-se Caim, o qual poderia ter passado por convertido, andando pelo mundo, para cima e para baixo, como um homem enlouquecido, sob a fúria de uma consciência culpada, até que ele a sufocou, dedicando-se à construção e aos negócios. Outros imaginam que, devido haverem deixado seus caminhos devassos, as más companhias e alguns prazeres em particular, e havendo-se transformado em pessoas sóbrias e civilizadas, são agora verdadeiramente convertidos. Esquecem-se de que há uma enorme diferença entre ser santificado e civilizado. Esquecem-se de que muitos procuram entrar no reino dos céus — não estando longe dele e chegando bem perto do cristianismo — e, contudo, deixam finalmente de alcançá-lo. Enquanto são dominados pela consciência, muitos oram, ouvem, lêem e reprimem os pecados deleitáveis; mas tão logo que ela se aquieta eles voltam a pecar novamente. Quem poderia ser mais religioso que os judeus quando a mão do Senhor pesava sobre eles? No entanto, antes que passasse a aflição, já haviam se esquecido de Deus. Vocês podem ter abandonado um pecado incômodo e haver escapado da torpe corrupção do mundo, sem contudo haverem mudado a sua natureza carnal.

Vocês podem pegar uma massa grosseira de chumbo e moldá-la na mais graciosa forma de uma planta, depois na forma de um animal, e então na forma e feições de um homem, mas continuará sendo chumbo o tempo todo. Assim, um homem pode passar por várias transformações — da ignorância ao conhecimento, da irreverência à delicadeza, e finalmente a uma aparência de religião — e durante esse tempo todo ser carnal, irregenerado, e sua natureza permanecer a mesma.

Ouçam então, pecadores, ouçam para que vivam. Porque se iludirem, fundamentando suas esperanças sobre a areia? Sei que será tarefa difícil àquele que tentar arrancar as suas esperanças infundadas. Só pode ser desagradável para vocês, como também o é para mim. Faço isso como um cirurgião que, com o coração pesado, tem que cortar o membro gangrenado de seu querido amigo, porque é necessário fazê-lo. Mas, entendam-me, amados, estou apenas derrubando a casa arruinada (pois, caso contrário, ela vai desmoronar-se rapidamente e soterrá-los sob suas ruínas) para que eu possa construí-la bela, forte e firme para sempre. 

A esperança do ímpio perecerá (Provérbios 11:7). Não seria melhor, ó pecador, deixar que a Palavra de Deus o convença agora enquanto é tempo, deixando de lado suas falsas e enganadoras esperanças, ao invés de permitir que a morte abra seus olhos tarde demais e você se ache no inferno antes que possa arrepender-se? Eu seria um pastor falso e infiel se não advertisse a vocês que se não tiverem edificado suas esperanças sobre terreno melhor que aqueles já mencionados, então ainda estão em pecado. Deixem falar a consciência. O que querem apresentar em sua defesa? É que usam a vestimenta de Cristo; que ostentam o nome de Cristo; que são membros da igreja visível; que têm conhecimento dos princípios religiosos; que são civilizados; que cumprem as tarefas religiosas; que são justos em seu procedimento; que têm a consciência atormentada pelos pecados? Declaro-lhes, da parte do Senhor, que tais argumentos jamais serão aceitos no tribunal de Deus. Tudo isso, embora seja bom em si mesmo, não vai provar que são convertidos, e, portanto, não será suficiente para sua salvação. Oh, atentem para isso e tomem a decisão de voltarem rápida e completamente. Examinem seus corações, não descansem até que Deus tenha completado a obra em vocês, pois devem ser pessoas diferentes ou estarão perdidos. Mas se essas pessoas não são convertidas, o que dizer dos profanos? Estes, talvez, dificilmente leiam ou escutem este discurso, mas se há algum deles que o esteja lendo ou ouvindo, precisa saber — da parte do Senhor que o fez — que está longe do reino de Deus. 

Se é possível que aquele que faz companhia às virgens prudentes ainda pode ficar de fora, não será, então, muito mais provável que aquele que faz companhia às loucas seja destruído? É possível alguém ser sincero em sua conduta e não ser justificado diante de Deus? O que será de você, então, ó homem miserável, cuja consciência lhe diz que é falso nas suas transações e na sua palavra? Se os homens podem ser iluminados e levados à prática externa dos deveres sagrados, e ainda assim se perderem por não serem convertidos, o que será de vocês, ó famílias miseráveis, que vivem sem Deus neste mundo? O que será de vocês, miseráveis pecadores, em cujos pensamentos Deus raramente está — vocês que são tão ignorantes que não podem orar, ou tão descuidados que nem se preocupam com isso? Oh, arrependam-se e sejam convertidos, afastando-se dos seus pecados pela justificação. Refugiem-se em Cristo, a fim de obterem a graça perdoadora e renovadora. Entreguem-se a Ele, para andarem com Ele em santidade, caso contrário jamais verão a Deus. Oh, se dessem atenção aos conselhos de Deus! Em nome dEle, admoesto-lhes mais uma vez. Atentem para a minha repreensão. Abandonem a insensatez e vivam. Sejam sóbrios, justos e piedosos. Lavem as mãos, pecadores; purifiquem os seus corações, ó vocês de duplo ânimo. Cessem de fazer o mal, aprendem a fazer o bem (Provérbios 1:23 e 9:6; Tito 2:12; Tiago 4:8; Isaías 1:16-17). Mas se continuarem, morrerão.

Foto: Flickr

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