"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

A Poligamia era Pecado no Antigo Testamento?


Entendo que o ponto de partida não está no AT, mas no NT - mais especificamente em Mateus 19. Vemos que os fariseus estão questionando Jesus sobre a licitude de se dar carta divórcio em toda e qualquer situação; isto é, eles desejavam "saber" se o Mestre era de acordo com repudir a esposa por qualquer motivo (v. 3). Jesus então lhes responde: "Não tendes lido que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez, E disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e serão dois numa só carne? Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem" (vs. 4-6).

Jesus proclama o primeiro pressuposto: uma vez unidos, não se separem; uma vez casados, o homem não deve se apartar de sua mulher. Porém, vai mais além, diz também que os dois serão "uma só carne". Aqui, visualiza-se, então, uma pequena luz quanto ao entendimento, pois se 2 serão 1, então não é possível que 3, 4 ou 5 sejam também 1. 

Talvez, abismados quanto a isso, os judeus perguntam a Cristo: "Então, por que mandou Moisés dar-lhe carta de divórcio, e repudiá-la?" (v. 7). O Messias então responde: "Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres; mas ao princípio não foi assim" (v. 8).

Notemos, portanto, que a causa de poder haver divórcio era devido "a dureza dos vossos corações", no entanto, em outras palavras, nem sempre foi assim (ou: não foi esse o mandamento do Senhor - no que concerne à responsabilidade humana). 

O resumo ficaria assim:

1. Jesus afirma que o Senhor criou macho e fêmea (v. 4);
2. Jesus afirma que o homem, isto é, ainda que falasse do gênero, da passagem claramente se deduz que refere-se a também o singular, deve sair de sua casa (deixar de ser sustentado) e se unir a sua mulher (passar a ser o sustentador) (v. 5);
3. Uma vez unidos, esses dois já não são duas pessoas solteiras vivendo debaixo de um novo teto, mas sim apenas um (v. 6a)
4. Tendo uma vez duas pessoas (e tão somente duas! - um homem e uma mulher) se ajuntado e constituído família, não devem se apartar um do outro - exceto pelas cláusulas "permissivas" para o divórcio (mas que não entra no escopo do presente tópico) (v. 6b).

Se, então, é um homem e uma mulher que devem se ajuntar e nos tempos antigos se dava carta de divórcio por qualquer motivo (v. 3) e Jesus repudiou tal atitude, compreendemos que a união com mais de um cônjuge também foi fruto "da dureza dos vossos corações" (v. 8). Uma vez, por fim, que Cristo veio restaurar e lhes ensinar sobre a licitude e o correto relacionamento entre homem e mulher, cessa-se essa prática que desde sempre foi errada, pois o próprio Cristo a sanciona de uma vez por todas. Se Moisés anteriormente assim permitiu (com a devida permissão do Senhor - para suas vergonhas), agora Cristo restaura todas as coisas aos primórdios de como intentara o Senhor.

- "Assim também vós, cada um em particular, ame a sua própria mulher como a si mesmo, e a mulher reverencie o marido" (Ef 5.33).
- "Os diáconos sejam maridos de uma só mulher, e governem bem a seus filhos e suas próprias casas" (1Tm 3.12).
- "Aquele que for irrepreensível, marido de uma mulher, que tenha filhos fiéis, que não possam ser acusados de dissolução nem são desobedientes" (Tt 1.6).

O puritano Matthew Henry comenta: "A poligamia dos patriarcas era, em certa medida, perdoável a eles, pois, embora não houvesse uma razão [declaração] tão antiga como o casamento de Adão (Malaquias 2.15), ainda não havia ordem expressa contra ela; era-lhes um pecado de ignorância. Não era produto de qualquer desejo pecaminoso, mas sim para o crescimento da igreja, que foi o bem que a providência trouxe; mas isso não tem mais como ser justificado agora, quando a vontade de Deus é plenamente conhecida, que somente um homem e uma mulher devem se unir juntos, 1 Coríntios 7.2."

Nesse sentido, porém, importa-nos recordar as palavras de Moisés: "E disse o SENHOR Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele... Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne" (Gn 2.18, 24).

Assim, juntando o visto até aqui, vemos que foi um pecado de ignorância, isto é, não tinham uma proibição expressa condenando a poligamia. Entretanto, continuava sendo um pecado e uma ofensa contra o Senhor, pois haja vista que as Escrituras - em especial a narrativa de Moisés - eram conhecidas do povo veterotestamentário (no mínimo o pentateuco) e, portanto, sabiam que o Senhor havia criado homem e mulher e os feito um para o outro (e tão somente), não tinham escusas para a não obediência.

João Calvino, ao comentar sobre Gn 1.27 ("E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou"), corrobora com o que eu disse. Ele comenta: "Para ele há um tratar de fidelidade conjugal, que os judeus estavam a violar por sua poligamia. Com a finalidade de corrigir esse falta, ele chama esse par, consistindo de homem e mulher que Deus, no início, havia unido concomitantemente, um homem, a fim de que cada um possa aprender a se contentar com sua própria esposa."

*minha resposta à pergunta feita em um grupo do Facebook no dia 15.05.2012

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