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Cristo e o Antigo Testamento



A relação entre o ensino de nosso Senhor e o ensino do Velho Testamento foi esclarecida por Jesus mediante uma sentença incisiva: “Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas; não vim para revogar, vim para cumprir”. Estas são palavras dignas de nota. Elas foram profundamente importantes quando proferidas, porquanto davam resposta à ansiedade natural dos judeus quanto a este assunto. São palavras que continuarão sendo tremendamente importantes, enquanto este mundo continuar, como um testemunho de que a religião do Antigo e Novo Testamento forma um todo harmônico.

O Senhor Jesus veio a este mundo a fim de cumprir as predições dos profetas, os quais desde os tempos antigos haviam profetizado que, um dia, viria ao mundo um Salvador. E Ele veio para cumprir a lei cerimonial, tornando-se o grande sacrifício pelo pecado, para o qual todas as oferendas da lei mosaica tinham sempre apontado. Ele veio para cumprir a lei moral, prestando-lhe obediência perfeita, o que nós mesmos jamais poderíamos ter feito. Ele também cumpriu a lei pagando com o seu sangue reconciliador a penalidade pela nossa quebra da lei, uma penalidade que nós jamais poderíamos ter pago. De todas essas maneiras, Ele exaltou a lei de Deus, e fez a sua importância ainda mais evidente. Em suma, Ele engrandeceu a lei e a fez gloriosa (Is 42.21).

Há profundas lições de sabedoria a serem aprendidas por meio destas palavras de nosso Senhor. Portanto, meditemos cuidadosamente sobre elas, entesourando-as em nosso coração.

Tomemos cuidado para não desprezar o Antigo Testamento, sob nenhum pretexto. Nunca demos ouvido àqueles que recomendam pôr de lado o Antigo Testamento, como se fosse um livro antiquado, obsoleto e inútil. A religião do Antigo Testamento é embrião do cristianismo. O Antigo Testamento é o evangelho em botão; o Novo Testamento é evangelho aberto em flor. O Antigo Testamento é o evangelho brotando; o Novo Testamento é o evangelho já em espiga formada. Os santos do Antigo Testamento enxergaram muitas coisas como que por um espelho, obscuramente. Porém, todos contemplavam pela fé o mesmo Salvador, e foram guiados pelo mesmo Espírito Santo que hoje nos guia. Estas não são questões de pouca importância. O ignorante desprezo pelo Antigo Testamento dá origem a muita infidelidade.

Também devemos acautelar-nos em não desprezar a lei dos dez mandamentos. Nem por um momento suponhamos que essa lei tenha sido posta de lado pelo evangelho, ou que os crentes não tem nada a ver com ela. A vinda de Cristo em nada alterou a posição dos dez mandamentos, nem mesmo a largura de um fio de cabelo. O que ela fez foi exaltar e destacar a sua autoridade (Rm 3.31). A lei dos dez mandamentos é a medida eterna de Deus para o que é certo e o que é errado. Através da lei é que vem o pleno conhecimento do pecado. Pela lei é que o Espírito mostra aos homens a sua necessidade de Cristo e os leva a Ele. Cristo deixou ao seu povo a lei dos dez mandamentos como norma e guia para uma vida santa. Em seu devido lugar, a lei dos dez mandamentos é tão importante quanto o “glorioso evangelho”. A lei não pode nos salvar. Não podemos ser justificados por ela. Porém, nunca jamais a desprezemos. O menosprezo pela lei dos dez mandamentos é um sintoma de ignorância e insanidade em nossa religião. O verdadeiro crente autêntico tem “prazer na lei de Deus” (Rm 7.22).

Em último lugar, cuidemos em não supor que o evangelho tenha rebaixado o padrão de santidade pessoal, ou que o cristão não deva ser tão estrito e cuidadoso em sua conduta diária quanto o eram os judeus. Este é um terrível engano, mas que, infelizmente, é muito comum. Bem ao contrário, os santos do Novo Testamento deveriam exceder em santidade aos santos dos tempos antigos, pois estes só tinham o Velho Testamento para lhes servir de orientação. Quanto mais luz temos, maior o nosso amor a Deus. Quanto mais claramente enxergamos nosso pleno perdão em Cristo, tanto mais devemos trabalhar de coração para a sua glória. Sabemos o quanto custou a nossa redenção, melhor do que os santos do Antigo Testamento souberam. Já lemos o que aconteceu no Getsêmani e no Calvário, mas eles só viram estas coisas indistinta e obscuramente, como algo que ainda estava por acontecer. Que jamais nos esqueçamos das nossas obrigações! O crente que se satisfaz com um baixo padrão de santidade pessoal ainda tem muito a aprender.        

Fonte: J. C. Ryle (1816-1900), “Meditações no Evangelho de Mateus”, Ed. Fiel, págs. 29-31.

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