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Entendendo um pouco sobre a oração


O reconhecimento de todas as perfeições de Deus, e o exercício de todas as virtudes para com Deus se unem em oração – que é um necessário, proveitoso, santo e santificador dever de um cristão. Por conseguinte, o exercício da religião é compreensivamente expresso como orar e clamar a Deus: “daí se começou a invocar o nome do SENHOR” (Gn 4.26).

Desde que a oração procede de uma variedade de movimentos da alma, ela também é referida por várias designações, como (teffila), que significa oração (Salmo 4.2); (techinna), que significa súplica (Salmo 6.10); (siach), que quer dizer queixa (Salmo 64.1); (tse’naqah), que significa clamar ou chorar (Salmo 9.13); (deesis), que significa oração (Tiago 5.16) ou súplica (1 Timóteo 2.1); (hiketeria), que quer dizer súplica (Hebreus 5.7); (enteuksis) (1 Timóteo 4.5), (euchomai) (Tiago 5.16), e (proseuche) (Colossenses 4.2), todas significando oração; e (proskuneo), que significa cultuar (Mateus 4.10).

As várias formas de oração na Escritura

 
Primeiro, há a adoração. Isso ocorre quando, ao ver e reconhecer as perfeições de Deus, reverentemente, curvamo-nos diante do Senhor e rendemos-Lhe honra e glória, e se – seja sem palavras, com pensamentos interiores, ou por meio de palavras externas – nós – falamos da gloriosa honra de Sua majestade, e de Suas maravilhosas obras (Salmo 145.5). Este é também o trabalho dos anjos em relação a Cristo: “E todos os anjos de Deus o adorem” (Hebreus 1.6).

Segundo, há a invocação. Isso ocorre quando pedimos alguma coisa a Deus, seja a libertação de algum mal opressor ou iminente, ou o recebimento de algum benefício para o corpo e a alma.“Invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei” (Salmo 50.15); “Ele me invocará, e eu lhe responderei... Saciá-lo-ei com longevidade e lhe mostrarei a minha salvação” (Salmo 91.15,16).

Em terceiro lugar, há a súplica. Isso ocorre quando, com muita humildade e por apresentar muitos argumentos, perseveramos em oração: “Não obstante, ouviste a minha súplice voz, quando clamei por teu socorro” (Salmo 31.22); “chorou e lhe pediu mercê” (Oséias 12.4).

Em quarto lugar, há o gemido. Isso ocorre quando não podemos achar palavras para expressar nossos desejos ou os assuntos nobres que temos em vista e desejamos ardentemente. O apóstolo os chama “gemidos inexprimíveis” (Romanos 8.26), e o salmista diz: “Na tua presença, Senhor, estão os meus desejos todos, e a minha ansiedade não te é oculta”(Salmo 38.9).

Em quinto lugar, há as orações públicas ou comuns. Isso ocorre quando a congregação apela a Deus em qualquer lugar de reunião pública ou em uma casa privada, onde alguém ora de forma audível: “mas havia oração incessante a Deus por parte da Igreja a favor dele” (Atos 12.5). Orações que são oferecidas quando alguns se reúnem para orar em conjunto, são também consideradas orações comuns: “Em verdade também vos digo que, se dois dentre vós, sobre a terra, concordarem a respeito de qualquer coisa que, porventura, pedirem, ser-lhes-á concedida por meu Pai, que está nos céus. Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (Mateus 18.19,20).

Em sexto lugar, há as orações privadas. Isso ocorre quando levamos nossos desejos particulares diante de Deus. São elas:

(1) Orações jaculatórias, que são enviadas ao céu, a Deus, durante o nosso trabalho, enquanto caminhamos, ou durante uma conversa com pessoas. Dessa forma, Neemias orou a Deus, enquanto falava com o rei (Neemias 2.4), e Moisés, que orou enquanto estava diante do Mar Vermelho com Israel (Êxodo 14.13);

(2) Orações sazonais, que por sua vez, são de caráter ocasional, quando um incidente em particular nos leva a procurar a solitude, a fim de orar; ou orações regulares, isto é, nossos tempos devocionais designados pela manhã, ao meio-dia, e à noite. Ambas, jaculatórias bem como sazonais são:

[a] Mentais, quando levamos nossos desejos diante de Deus por nos exercitarmos mentalmente, e por meio da reflexão e da contemplação. Isso ocorre sem palavras, como observado nos exemplos de Neemias e Moisés.

[b] Orais, que ocorrem quando expressamos nossos desejos com palavras, mesmo se formarmos e pronunciarmos palavras sem usar a voz: “porquanto Ana só no coração falava; seus lábios se moviam, porém não se lhe ouvia voz nenhuma” (1 Samuel 1.13).

Pode ser também que expressemos nossos desejos com a voz, fazendo isso mais alto ou baixo, dependendo de quão longe ou perto estamos das pessoas: “De manhã, SENHOR, ouves a minha voz” (Salmo 5.3). Não é à toa que os romanistas elevam as orações mentais acima das orações orais, uma vez que suas orações não são nada por via oral, mas recitações de formas de orações, Pai Nosso e Ave Marias.

Em sétimo lugar, há a oração intercessória. Isso ocorre quando desejamos algo de Deus para os outros. Pode ocorrer para a igreja em geral: “Ó Deus, redime a Israel de todas as suas tribulações” (Salmo 25.22); “Faze bem a Sião, segundo a tua boa vontade; edifica os muros de Jerusalém” (Salmo 51.18); “Orai pela paz de Jerusalém!” (Salmo 122.6). Também ocorrer em lugar de indivíduos determinados: “Chame os presbíteros da igreja, e estes façam oração sobre ele” (Tiago 5.16); “Irmãos, orai por nós” (1 Tessalonicenses 5.25); “Orai uns pelos outros” (Tiago 5.16); “Orai pelos que vos perseguem” (Mateus 5.44); “Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade”(1 Timóteo 2.1,2).

Muitos, por diversas vezes, abusam dessa prática em nossos dias dizendo uns aos outros, em cima da despedida: “Recomendo-me às vossas orações”, “Lembre de mim em suas orações”, “Peço suas orações intercessórias”, ou “Ore por mim”. Comumente, fazem isso como expressão de saudação. Além do fato, que é impossível lembrarmos de todos aqueles que fazem esse pedido. É necessário sabermos especificamente que estamos orando em favor de outra pessoa. A pessoa que faz a solicitação deveria ser, em circunstâncias específicas, revelada àqueles cujas orações intercessórias são solicitadas. Só então, alguém pode solicitar interceder por outro, e aquele a quem o pedido tenha sido feito é obrigado a fazê-lo, para que Deus, sendo buscado por muitos, seja também agradecido por muitos. No entanto, a tendência de fazer esses pedidos é frequentemente não mais do que um costume, e isso pode fazer perder de vista a intercessão do Senhor Jesus.

Não pode haver intercessão pelos mortos, pois eles já estão onde estarão por toda a eternidade e continuarão a estar; purgatório nada mais é do o inferno em si mesmo. Também não pode haver intercessão por aqueles que cometeram o pecado contra o Espírito Santo: “Há pecado para a morte, e por esse não digo que rogue” (1 João 5.16).

Em oitavo lugar, há a oração imprecatória. Aqui devemos ser cautelosos e não ser levados por nossas próprias paixões, como ocorreu com os discípulos de Cristo, que desejaram orar para que o fogo consumisse os samaritanos que não os receberam (Lucas 9.54). Nunca devemos orar pela perdição eterna de alguém, nem pela destruição do corpo de alguém que é nosso inimigo pessoal. Também não podemos fazer isso em relação àqueles que ofendem a congregação do Senhor. No entanto, se o Senhor nos move a orar contra os que oprimem e perseguem a congregação de uma maneira extraordinária, então, podemos orar a Deus para que os converta, e se não for o caso, para que Deus os puna, para que não sejam capazes de oprimir a igreja. Seria, portanto, evidente, que o Senhor toma vingança contra o sangue de sua igreja e, além disso, Deus seria glorificado nisso: “Enche-lhes o rosto de ignomínia, para que busquem o teu nome, SENHOR. Sejam envergonhados e confundidos perpetuamente; perturbem-se e pereçam. E reconhecerão que só tu, cujo nome é SENHOR, és o Altíssimo sobre toda a terra” (Salmo 83.16-18).

Em nono lugar, há a ação de graças. Tal ocorre quando reconhecemos com alegria a bondade de Deus manifestada em todas as bênçãos temporais e espirituais concedidas a nós. Deve ser feita por bênçãos específicas. Este reconhecimento motivará o suplicante a orar fervorosamente por aquilo que, no presente, ele deseja. Foi o que Jacó fez em Gênesis 32.9-12, assim como a igreja, no Salmo 75.2-5. Portanto, ação de graças e oração estão frequentemente unidas: “em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças” (Filipenses 4.6); “Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens” (1 Timóteo 2.1).

por Wilhelmus À Brakel (1635-1711)

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