"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Sétimo elemento constitutivo do culto público: Cântico de Salmos (parte 7 - Respondendo as Objeções) - Sermão pregado dia 19.02.2012



Sétimo elemento constitutivo do culto público:
Cântico de Salmos (parte 7 - Respondendo as Objeções) - 
Sermão pregado dia 19.02.2012

Certamente que todos nós somos testemunhas vivas de como o Senhor tem sido bondoso para conosco, a ponto de transformar nossas mentes e corações e nos levar a uma melhor compreensão de Sua magnitude e de como o Seu culto deve ser conduzido.

Desejo hoje lhes expor algumas respostas às objeções comuns que são levantadas quanto à salmodia exclusiva e outras poucas quanto ao uso de instrumentos. Certamente que o tempo não nos proporciona elasticidade adequada para verificarmos todas as objeções e nuances que perpassam esses quesitos, mas penso que podemos fazer grande proveito em analisarmos e respondermos as principais delas.

Quanto à Salmodia Exclusiva:

1. A linguagem usada é difícil de entender.

"Porém tu exaltarás o meu poder, como o do boi selvagem. Serei ungido com óleo fresco" (Sl 92.10), "É como o óleo precioso sobre a cabeça, que desce sobre a barba, a barba de Arão, e que desce à orla das suas vestes" (Sl 133.2).

Nenhum dos advogados da salmodia exclusiva alega que todos os Salmos sejam de igual compreensão ou ainda que não haja dificuldade em os cantarem, contudo todos defendem de que assim como existem partes de difícil compreensão na Lei, no Evangelho e nas Doutrinas, também nos Salmos residem pontos que exigem uma melhor explanação antes de serem cantados. Quer dizer, ninguém deixa de ler as epístolas de Paulo só porque não consegue entender determinada parte. Também é preciso notar que os Salmos foram escritos para um povo sem conhecimento das letras, isto é, iletrado, de origem quase que rural, com pouca instrução "acadêmica" (segundo nosso ponto de vista).

Tal qual quando se prega sobre algum texto, assim também é necessário que por vezes o pastor explique qual o significado do Salmo que será cantado para que a congregação possa cantar em uníssono e com entendimento no coração (assim como deve receber a palavra pregada com entendimento).

2. Jesus não está representado nos Salmos.

Essa é uma grande mentira proclamada pelos não adeptos da salmodia exclusiva - mas poderia ser verdade? A dúvida logo encerra-se com as próprias palavras de Cristo: "E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas e nos Salmos" (Lc 24.44). 

James R. Hughes comenta: "A única parte da acusação que está correta é quanto à semântica, pois o nome 'Jesus' de fato não aparece nos Salmos. [Contudo] A pessoa e obra de Jesus aparecem através dos Salmos... Traição (Sl 41.9 [Jo 13.18]), Agonia no Jardim (Sl 22.2 [Hb 5.7]), Julgamento (Sl 35.11 [Mt 26.59, 60]), Rejeição (Sl 22.6 [Mt 27.21-23; Lc 23.18-23]), Crucificação (Sl 22, 69), Sepultamento e Ressurreição (Sl 16.8-11 [At 2.25-31], Ascensão e Retorno (Sl 47.5 [At 1.11; 1Ts 4.16]; 24.7-10 [Ap 5.6-14])... Jesus [também] aparece nos Salmos em forma dos nomes: 'Senhor' (Sl 2.4; 110.1), 'Ungido' (Sl 2.2), 'Rei' (Sl 2.6; 24.8; 98.6) e 'Salvador' (Sl 25.2; 42.5). [1]

3. A Trindade não está explícita nos Salmos

É lamentável que muitos ainda precisem achar "versículos prova" para tudo, isto é, tais pessoas são como caçadoras de versículos isolados; para estas, se não houver um versículo específico e que descreva literalmente o que devemos fazer, então toda a argumentação será infundada. Contudo, tais homens não percebem que muitas doutrinas bíblicas não estão apoiadas em "versículos prova", tais como o batismo infantil, o participar da ceia pelas mulheres, o cantar da congregação pelas mulheres...

"O saltério [nome dado ao conjunto de Salmos] foi o hinário de louvor usado por Jesus e seus apóstolos - isso, portanto, deve provar a forma de se louvar com respeito à Trindade e que Deus requer e se agrada... [no Antigo Testamento] 'O Espírito Santo trabalha de forma anônima no plano de fundo, não falando ou trazendo glória para si mesmo, mas testificando de Cristo, o Filho'... Jesus, na oração ensinada aos seus discípulos (Mt 6.9-13), nos deu um exemplo de como devemos nos aproximar em adoração com respeito à Trindade. Nessa oração Ele não falou em orar ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Nós também nunca O encontraremos tratando em oração ao Espírito Santo, embora ensine para nós que o dirigir a oração em nome de Jesus seja válido (Mt 14.33; Mc 9.24; Jo 9.38; At 2.21; 7.59; 22.16; 1Co 1.2). Onde Deus deseja ser reconhecido explicitamente como uma Trindade, Ele o faz de maneira clara através dos ensinamentos e exemplos de Jesus Cristo e dos Apóstolos - i.e., na formulação do batismo (Mt 28.19) e nos tempos de bênção (2Co 13.14). Afirmar que usar apenas os Salmos impede a adoração, é acusar Deus de não saber como Ele deseja ser tratado e adorado nas canções de louvor. [2]

4. Nos Salmos não há menção aos atributos de Deus.

Talvez essa seja uma das afirmações mais inverídicas que alguém possa levantar, pois os Salmos estão recheados de dizeres que magnificam e engrandecem o nome do Senhor. Eles falam sobre a "auto existência (Sl 33.11; 115.3), onipotência (Sl 115.3; 145.3; 146.6), onipresença (Sl 139.7-10), onisciência (Sl 1.6; 94.9; 119.168; 139.1-4), sabedoria (Sl 19; 104), soberania (Sl 2; 47; 50; 95; 98), poder criador (19; 33; 136; 104; 146), providência (Sl Sl 22.28; 104.14 [específico]; 104 [em geral]), bondade (Sl 36.6, 9; 104.21; 145.9, 15, 16), amor (Sl 6.4; 103.8), ódio pelo pecado (Sl 5.4; 11.5), justiça (Sl 1.7; 7.9; 119.137), julgamento e punição do ímpio (Sl 1.4, 5; 7.11; 9.16; 11.6; 59.13; 98.9)... [3]

5. Os Salmos não são adequados à musicalidade do século XXI.

Não desejando ser ríspido ou com aparência rude, mas a Bíblia não se importa com a musicalidade de hoje, dos tempos passados ou ainda dos anos que virão. As Escrituras nos ensinam firmemente que "Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação" (Tg 1.17), isto é, as Escrituras - por advirem do Eterno - têm caráter imutável, atemporal e não condicionado, sejam por novas "modas musicais" ou por homens vis e perversos que não tenham prazer em cantar as Escrituras. Em nenhum momento a Bíblia nos dá a liberdade para moldarmos Sua palavra de acordo com o tempo em que vivemos - essa foi a crítica de Jesus aos fariseus ao dizer: "E assim invalidastes, pela vossa tradição, o mandamento de Deus" (Mt 15.6; Mc 7.9). Gostemos ou não do "estilo dos salmos" (isto é, a cappella), o mandamento do Senhor não deixará de existir.

6. Os Salmos contêm uma linguagem de ódio e guerra contra os inimigos.

"Ele faz cessar as guerras até ao fim da terra; quebra o arco e corta a lança; queima os carros no fogo" (Sl 46.9), "E por tua misericórdia desarraiga os meus inimigos, e destrói a todos os que angustiam a minha alma; pois sou teu servo" (Sl 143.12).

É verdade que muita da literatura salmódica é expressa em forma de guerra e batalhas reais; e isso não deveria nos espantar, pois muitos dos Salmos foram escritos justamente em tempos de aflição e de batalhas físicas, aonde o reino de Israel ia à peleja contra seus inimigos e rogava ao Senhor que os protegesse e desse vitória. Porém, essa também não é uma objeção válida, pois se anteriormente o inimigo era "físico", isto é, os povos alheios ao pacto do Senhor eram sinônimos de inimigo - nações cuja ira do Senhor não era branda -, agora nos tempos do Novo Testamento somos informados de que "não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais" (Ef 6.12). Logicamente que o apóstolo Paulo não está a nos instruir de que não existiam mais inimigos físicos a serem combatidos, e sim de que já não vivemos mais naqueles tempos de Israel, onde agora devemos amar o próximo e todo aquele que não faz parte de nossa "etnia cristã". Também lembramos que embora não tenhamos mais guerras físicas, ainda temos uma guerra a ser travada constantemente contra o pecado.

7. Se fazemos nossas orações, por que não podemos fazer canções?

É preciso entender que cada área da Escritura tem um "campo de atuação". O que quero dizer com isso é que não podemos usar sempre o mesmo argumento para diferentes situações. Conforme já explanado em outro lugar (clique aqui para ler), vemos o seguinte exemplo dessa distinção: enquanto para ser ministro do Senhor se faz necessário não ser neófito (novo na fé), para a carreira civil isso não é requerido (ainda que possa ser aconselhável - caso seja um crente que venha a assumir o posto); enquanto o governo eclesiástico é formado por crentes em Cristo Jesus, o governo civil muitas vezes é praticado por homens não tementes a Deus; o governo eclesiástico pode e deve aplicar a disciplina àqueles membros que não se sujeitam à sã doutrina, mas o governo civil não tem parte nesse assunto, pois essa disciplina compete à igreja do Senhor; o fato do governo eclesiástico não ter autorização para eliminar o malfeitor da sociedade, não significa que o governo civil também não tenha essa autorização e incentivo para que erradique o malfeitor da sociedade. 

A Bíblia não nos legou um livro de orações - ainda que nos tenha dado modelos de várias orações de seus servos -, porém nos deixou registrado o livro de canções (o hinário) da Igreja primitiva. Muitos homens têm argumentado que tanto as orações como as canções são constituídas de palavras, sendo assim (segundo eles) o uso de hinos não inspirados é permitido no culto público ao Senhor. Contudo, "orações e canções são similares do mesmo modo que elefantes e camundongos o são (isto é, eles são cinzas, eles têm quatro patas, eles têm uma cauda, eles são mamíferos, etc), embora sejam tipos diferentes de animais... Paulo diz que a mulher não deve ensinar num ambiente de adoração (1Co 14.33-35; 1Tm 2.11-12). Se pregar, cantar e orar são nada mais que modos diferentes de 'palavra' na adoração - conforme alguns dizem -, então à mulher não deve ser permitida o orar ou cantar [isto é, se deve ficar calada, não há exceção, ainda que seja para orar consigo mesma - segundo essa lógica]. Muitos daqueles que concordam com os princípios Presbiterianos e Reformados sustentam a visão de que às mulheres não é permitido pregar, mas eu não conheço um só que não as permita cantar os Salmos". [4]

8. A Bíblia contém outras canções além dos Salmos.

"Toda a Escritura é inspirada por Deus (2Tm 3.16). Contudo, algumas porções foram dadas através de extraordinária revelação em vez de serem escritas por homens 'impelidos pelo Espírito Santo' (2Pe 2.21; Hb 1.1) [o autor não está a dizer que essas partes não foram inspiradas, apenas que foram "fora do padrão", isto é, de modo extraordinário, acontecido em casos isolados...]. Nós não temos meios de determinar quais partes das Escrituras devem ser cantadas. Seriam somente as seções poéticas, ou apenas as poéticas das quais gostamos? Por exemplo, deveríamos cantar as palavras de Balaão? Ele não foi um verdadeiro profeta de Deus, mas as palavras que ele falou foram inspiradas por Deus (Nm 23.12). O critério para se selecionar quais porções da Bíblia podem ser cantadas no louvor é fruto da mera subjetividade. Isso é contrário ao princípio primordial que estamos considerando - que Deus regula a sua própria adoração.... Em Sua providência superintendente, Deus preparou os Profetas e Apóstolos para entregar e montar Suas palavras escritas. Quando o Saltério estava sendo montado, nem os cânticos de Moisés no Êxodo, nem a canção de Miriã (se é que ela escreveu alguma), nem a canção de Débora ou Habacuque foram inclusas. Embora sejam partes partes da Escritura, essas canções não foram inclusas durante o desenvolvimento do hinário que foi usado na adoração do Templo e provavelmente [também] na Sinagoga. Era Deus quem por fim iria determinar quais canções estariam inclusas no Saltério, e não os judeus piedosos... Sob a economia do Novo Testamento, nós somos explicitamente e claramente ensinados pelos Apóstolos e Profetas neotestamentários a cantar as canções encontradas no Saltério (Ef 5.19; Cl 3.16; Tg 5.13) e nos é dado o exemplo de Jesus cantando-os (Mt 26.30). Nós não somos ensinados a cantar a canção de Moisés registrada em Deuteronômio 32 ou a de Habacuque (capítulo 3)". [5]

Quanto ao Uso de Instrumentos:

1. Os instrumentos fazem parte das "coisas indiferentes".


Muitos têm argumentado que os instrumentos dizem respeito às adiaforias [6] (do grego, adiaphora - coisas indiferentes), como que sugerindo que assim como a Bíblia deixa "livre" o usar banco ou cadeira, púlpito de madeira ou acrílico, tapetes marrons ou cinzas - pois essas coisas são indiferentes, isto é, variam conforme a localidade e gosto -, também temos a liberdade de usar ou não instrumentos, pois seria uma simples questão de conveniência.

Devemos lembrar que para algo ser indiferente no Novo Testamento, ele também deve assim o ser no Antigo. Quer dizer, o Antigo Testamento não prescreve sobre a necessidade de se usar casacos em dia de frio, ou ainda sobre a necessidade de manter-se alimentado, pois essas coisas são comuns a todos os seres humanos. Contudo, conforme já vimos anteriormente, o Senhor prescreveu o uso de instrumentos no Seu Santo Templo, nos indicando que essa não uma questão adiafórica, isto é, assim com não era lícito aos levitas tocarem algo não ordenado pelo Senhor, e visto que o Novo Testamento é silencioso quanto ao uso dos instrumentos (mas não quanto à mudança dos elementos - de visíveis para espirituais, das sombras para a realidade), compreendemos que os Instrumentos estavam ligados à revelação e ordem dada pelo Senhor - e não como sendo parte de algo indiferente.

2. Os instrumentos servem apenas para acompanhar o cantar.


Quando ensinamos sobre a proibição de se usar instrumentos, ainda que falemos que eles muitas vezes servem quase que como para intermediar o povo com o Senhor (como se servissem para essa "ajuda" de fazer o louvor "subir"), a argumentação primordial não é de que eles possam distrair, atrapalhar ou ajudar o cântico. A ordem para não se usá-los é baseada nas prescrições dadas pelo Senhor.

"Então no mês sétimo, aos dez do mês, farás passar a trombeta do jubileu; no dia da expiação fareis passar a trombeta por toda a vossa terra" (Lv 25.9). A ordem do Senhor foi clara: "farás passar a trombeta do jubileu" (grifo meu). A Escritura nos diz que o instrumento a ser tocado era a trombeta, isto é, não era dada a possibilidade se tocar outro ou ainda inventar-se uma nova maneira de "fazem barulho". A Bíblia não nos informa, mas seria muito provável que se o portador da trombeta em vez de tocá-la resolvesse gritar bem alto, seria eliminado pelo Senhor [7] - mas por quê? Porque foi o Senhor quem proclamou e instituiu o tocar da trombeta (assim como durante os sacrifícios no templo). Ele ordenando, devemos tão somente obedecê-Lo.

3. Talvez a igreja primitiva tenha usado instrumentos.


Talvez a igreja primitiva tenha usado instrumentos. Talvez Moisés tenha comido um ensopado de peixe. Talvez Balaão tenha tido mais de uma mula. Talvez o apóstolo Paulo tenha ajudado a construir um barco... São muitos os "talvez" que poderiam surgir das Escrituras, e é justamente por isso que não somos autorizados a nos pautar pela mera possibilidade, pois se assim fosse, que autoridade a Bíblia teria se pudéssemos ficar nos guiando por aquilo que achamos que supostamente tenha acontecido? Certamente que se aprouve ao Senhor inspirar toda Escritura (2Tm 3.16), é somente do que nela está contido que devemos nos deixar ensinar. A curiosidade é para os irresponsáveis e desejosos de sobrepujaram a palavra do Senhor; não nos pautamos por conjecturas, mas pela palavra do Senhor - "À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles" (Is 8.20).

Notas:
[1] HUGHES, James R. - In Spirit and Truth: Worship as God Requires (Understanding and Applying he Regulative Principle of Worship), pág. 64 - tradução livre.
[2] Ibid, pág. 65 - tradução livre.
[3] Ibid, pág 66 - tradução livre.
[4] Ibid, pág 74 - tradução livre.
[5] Ibid, pág 77 - tradução livre.
[6] Para mais, veja o artigo escrito por Ian Murray - clique aqui
[7] Exemplo dado pelo irmão e Rev. Ademir Moreira - em conversa via e-mail.

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