"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Efésios 1.4 (parte 2) - Exposição em Efésios - Sermão pregado dia 26.02.2012



Efésios 1.4 (parte 2) - Reprovação
Exposição em Efésios - 
Sermão pregado dia 26.02.2012

"Como também nos elegeu nele" (Ef 1.4a).

Se de um lado temos o dever de compreender que a eleição de Deus e fruto de sua eterna misericórdia, por outro viés precisamos atentar que "Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo" (Hb 10.31), pois as Escrituras nos exortam do começo ao fim ao buscarmos o Senhor e a nos deleitarmos em Sua justiça e verdade. Como temos visto, muita da dificuldade encontrada pelos homens em entenderem a doutrina da eleição, é sua consequência lógica, contudo, não é plausível (nem seguro, muito menos bíblico) afirmarmos que o Senhor elegeria potencialmente todos os homens para a salvação, mas que só a encontraria aqueles que assim desejassem - daí um pouco da dureza encontrada em certos corações, pois a eleição necessariamente implica na doutrina da reprovação.

"Reprovado, anulado, cancelado, afastado, rejeitado..." todas essas palavras naturalmente nos causam desconforto devido a ser latente no ser humano o desejar ser amado por outrem, desejado por aqueles a quem estima, fazendo todo possível para manter a paz com todos. No entanto, a Bíblia revela-nos que o homem natural esta sob a ira de Deus, "Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus" (Rm 3.23). Se todos de fato pecaram e por isso estão com a imagem de Deus manchada em suas vidas, ou Deus relegaria todos os homens ao mais profundo e denso inferno, ou afirmaria que Seu excelso amor é mais sublime que Sua justiça e por isso salvará a todos os homens. Mas já temos visto e isso deve ser muito claro, que a Bíblia não nos ensina que todos se perderão, mas nem que todos se salvarão, e sim é firme e mais do que clarividente em afirmar que apenas aqueles que seguem ao Senhor serão levados para Sua glória nos céus. Contudo, aqui não devemos presumir que reside no homem qualquer livre arbítrio, pois tal faculdade é destinada a seres puros, santos e verdadeiros - o que não inclui qualquer vivente nessa terra, daí a conclusão de que apenas o Senhor é dono se ser arbítrio (vontade) e faz e/ou deixa de fazer aquilo que bem Lhe apraz à vontade.

Que reprovação e eleição são fruto do decreto divino, isso precisa ser notório em nossas vidas (e está longe de ser o propósito maior de nosso estudo). Ainda que logo abaixo veremos ser a reprovação fruto da desobediência e pecado humano, e mais adiante vejamos sobre o determinismo bíblico, devemos destacar rapidamente sobre a necessidade de entendermos que tudo o que ocorreu, se passa no presente momento e se fará no futuro sobre a terra, já está planejado e firmemente estabelecido pelo Senhor. Se assim é quanto às atividades na natureza, como o raiar do sol, o descer da chuva e o cantar dos pássaros, não menos arquitetado é o plano da salvação à raça humana - uns para salvação e outros para condenação (Rm 9).

Calvino expressou da seguinte maneira: "Se alguém cai nas garras de assaltantes, ou de animais ferozes; se do vento a surgir de repente sofre naufrágio no mar; se é soterrado pela queda da casa ou de uma árvore; se outro, vagando por lugares desertos, encontra provisão para sua fome; arrastado pelas ondas, chega ao porto; escapa milagrosamente à morte pela distância de apenas um dedo; todas essas ocorrências, tanto prósperas, quanto adversas, a razão carnal as atribui à sorte. Contudo, todo aquele que foi ensinado pelos lábios de Cristo de que todos os cabelos da cabeça lhe estão contados [Mt 10.30], buscará causa mais remota e terá por certo que todo e qualquer evento é governado pelo conselho secreto de Deus". [1]

No entanto, que ninguém presuma ser a reprovação e eleição causas ligadas à presciência de Deus, como se o Eterno houvesse apenas por determinar linhas gerais, tivesse então visualizado como se desdobrariam as consequências de seus decretos base e, então, baseado no que conseguiu prever, elegeu alguns e condenou a outros. Ambas as doutrinas (reprovação e eleição) não estão baseadas no conhecimento prévio de Deus ou em qualquer benfeitoria humana que tenha "chamado a atenção de Deus", mas simplesmente estão alicerçadas na finalidade de todo ato Divino, a saber, render glórias ao Seu nome.

A. W. Pink escreveu assim: "Do que foi posto diante de nós... concernente ao decreto de alguns para salvação, deve-se inevitavelmente seguir, mesmo se a Escritura tivesse se silenciado sobre isso, que deve haver uma rejeição de outros. Cada escolha, evidente e necessariamente, implica uma rejeição, porque onde não há um deixar de lado, não pode haver nenhuma escolha. Se há aqueles a quem Deus escolheu para salvação (2 Tessalonicenses 2:13), deve haver outros que não foram escolhidos para salvação. Se há alguns que o Pai deu a Cristo (João 6:37), deve haver outros que Ele não deu a Cristo. Se há alguns cujos nomes estão escritos no livro da Vida do Cordeiro (Apocalipse 21:27), deve haver outros cujos nomes não estão escritos lá. Que este é o caso, será completamente provado abaixo.Visto que todos reconhecem que desde a fundação do mundo Deus certamente pré-conheceu e previu quem receberia e quem não receberia a Cristo como o seu Salvador, portanto, ao dar a existência e o nascimento àqueles que Ele sabia que rejeitariam a Cristo, Ele necessariamente os criou para condenação. Tudo o que pode ser dito em réplica a isto é: Não, embora Deus tenha previsto que estes rejeitariam a Cristo, todavia, Ele não decretou que eles deveriam assim fazer. Mas isto é evitar a real questão do assunto. Deus tinha uma razão definida pela qual criou o homem, um propósito específico pelo qual criou este ou aquele indivíduo, e em vista da eterna destinação de Suas criaturas, Ele propôs que alguns destes passariam a eternidade no Céu e que outros a passariam no Lago de Fogo. Se Ele, então, previu, ao criar certa pessoa, que esta pessoa desprezaria e rejeitaria o Salvador, e mesmo sabendo isto de antemão, Ele, não obstante, trouxe tal pessoa à existência, então, é claro que Ele designou e ordenou que esta pessoa deveria ser eternamente perdida. Novamente; fé é um dom de Deus, e o propósito de dá-la somente a alguns, envolve o propósito de não dá-la a outros. Sem fé não há salvação - 'Quem crê nele não é condenado' - portanto, se há alguns descendentes de Adão aos quais Ele propôs não dar fé, deve ser porque Ele ordenou que eles deveriam ser condenados". [2]

A reprovação glorifica ao Senhor. Pode soar um tanto quanto contraditório o afirmar que Deus condenar alguns redunde em glórias ao Seu nome, porém, aqueles que se escusam de tal afirmação precisarão negar a soberania plena de Deus para então lançarem as bases feitas com palha de seus argumentos. Paulo foi muito claro ao dizer que "Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra" (Rm 9.17), sendo o intento do Senhor ao endurecer o coração de Faraó a fim de que Seu "nome seja anunciado em toda a terra".

Deus é glorificado em absolutamente toda as coisas e por isso não nos alonguemos aqui, pois é claramente notável na afirmação de Paulo: "Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém" (Rm 11.36).

A reprovação e o pecado. Em Adão todos pecaram. Não há um homem sequer que possa-se escusar da ira e justiça divina que estão a pairar sobre os pecadores. Jonathan Edwards, em seu famoso sermão intitulado "Pecadores nas mãos de um Deus irado", exorta os ímpios presentes na congregação (e aqueles que assim o são, mas que se veem crentes) para que não pensem que o Senhor está alegre e jubiloso com suas atitudes. Não, o Senhor está muito irado contra todos os impenitentes e em breve os castigará furiosamente por seu pecado. Mas não é debalde lembrar também que já no tempo presente os ímpios são castigados pelo Senhor, pois se "todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito" (Rm 8.28), logo, para ímpios, nada lhes vai bem e constantemente são afligidos por seus pecados que levam à morte.

"o salário do pecado é a morte" (Rm 6.23). As Escrituras evidentemente nos afirmam que pelo pecado residente em nós, deveríamos receber como pagamento a morte física e eterna. Foi assim que se deu com Adão e Eva, pois disse o Senhor: "Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás" (Gn 2.17). Até o momento da queda de nossos pais, a paz, santidade, justiça e verdade governavam seus corações. Se quisessem (dentro de seus juízos lógicos) viveriam eternamente, procriaram e não sentiriam sequer o cheiro da morte e do horror das consequências de suas desobediências. No entanto, assim não quiseram e o pecado passou a habitar o mundo. [3]

Notemos que o pecado é fruto da desobediência aos mandamentos do Senhor. Adão e Eva tinham diante de si, de um lado, a responsabilidade de permanecer firmes e não darem lugar à curiosidade excessiva, sendo abençoados eternamente se assim procedessem; do outro, o alerta e decreto da maldição, que se caso viessem a ultrajar os preceitos e limites traçados pelo Eterno, certamente morreriam. Dando lugar à demasiada curiosidade e achando que os intentos do maligno eram mais verdadeiros que o do Senhor, o pecado então criou forma no homem e os removeu da santidade, lançando-lhes no imediato desespero e destituindo-os do reto proceder, pois nos é dito que coseram roupas inadequadas para si, vindo então o Senhor e posteriormente dando-lhe as vestes dignas do pecado (Gn 3.21).

Assim como Adão e Eva não tinham discernimento de como cobrir seus corpos adequadamente, nós também não sabemos (e não podemos!) como nos adornar da reta e justa palavra de Deus, pois todos os homens e mulheres carregam o fruto da desobediência de nossos pais. É disso que depreende-se que não há como falarmos em eleição se não lembrarmos que a reprovação é a consequência do decreto de Deus, pois se graciosamente escolhe alguns para salvação, nada há que Lhe questionarmos sobre os porquês de haver deixado a outrem na reprovação, haja vista apenas os ter deixado em sua condição natural, a saber, a pecaminosa e destinada ao tormento.

A reprovação como expressão de Sua justiça. A palavra do Altíssimo é "Lâmpada para os meus pés é tua palavra, e luz para o meu caminho" (Sl 119.105), querendo nos ensinar que não cabe aos homens o delimitar o melhor trajeto, nem tampouco iluminar veredas alheias àquelas fixadas na eternidade, pois nosso ser natural é como o corpo de Judas, o traidor do Mestre, que ao comprar o campo com sua paga, foi, enforcou-se e partiu em pedaços. [4

"O teu trono, ó Deus, é eterno e perpétuo; o cetro do teu reino é um cetro de eqüidade" (Sl 45.6; Hb 1.8). Não devemos dar lugar a pensamentos iníquos e digladiarmos conosco mesmo sobre a razão de Deus haver salvo uns e condenado outros. Não é lícito nem recomendável o aceitar e buscar um racionalismo demasiado em nossa vida. Como já disse certo homem, "A Bíblia não nos foi dada para aumentar nosso conhecimento, mas para transformar nossas vidas". [5] Enquanto a palavra do Senhor nos informa que Seu cetro julga com verdade e justiça, devemos ficar satisfeitos com isso, pois não há o que possamos oferecer ao Senhor que lhe mudará os intentos ou que O fará deixar a nosso encargo o dar vazão às Suas diretrizes. O próprio apóstolo Paulo nos alerta a que não fiquemos a contender com o Artífice sobre tal razão - "Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim?" (Rm 9.20).

"Minha é a vingança e a recompensa, ao tempo que resvalar o seu pé; porque o dia da sua ruína está próximo, e as coisas que lhes hão de suceder, se apressam a chegar" (Dt 32.35). O Senhor dos Exércitos não leva esse nome inutilmente, mas o tem para si porque é detentor de todo poder, tanto para salvar como para condenar. O arsenal bélico e poder do Senhor é por demais surpreende, pois nos informa que nem ao menos necessita fazer-se valer das grandes e poderosas armas da natureza para eliminar o malfeitor e pecador da sociedade, e sim, dize-nos que tão somente o pisar em falso já é causa de nossa ruína. Para o incrédulo e pecador impenitente, um dia comum e com atividades cotidianas a se fazer, pode ser o dia da sua desgraça, pois basta-lhe que Deus tenha decretado que tal dia será o último de sua vida e que encherá a medida de sua iniquidade (Gn 15.16), que ao resvalar do seu pé das ordens eternas, tal homem será lançado nos abismos destinados àqueles que não ouviram o chamado do Senhor.

A justiça eterna não deve ser analisada à luz de nossos corações, pois não há nada mais maligno do que o senso de retidão e verdade humana, pois quantas são as vezes que num minuto temos o desejo de eliminar todos os que cruzam nossos olhares, ao passo que no segundo seguinte oramos com o firme desejo de que todos se convertam e vão a Cristo? Nossa inconstância nos acusa e nos alerta sobre o perigo de desejarmos instilar ao Senhor nossas suposições de bondade e justiça terrena. A justiça de Deus está tão intimamente à Sua santidade, que tal ligação dever-nos-ia levar à compreensão de que não podemos entender todos os feitios do Eterno, pois nem santo somos, nem poder algum reside em nossas mãos.

Notas:
[1] CALVINO, João, Institutas, Livro I, Cáp. XVI, pág. 193.
[2] PINK, A. W, A Soberania de Deus na Reprovação, disponível em: http://www.monergismo.com/textos/soberania_divina/soberania_reprovacao_pink.htm - acessado dia 26.02.2012 às 12:27.
[3] Para mais, veja o Capítulo XV do Livro I das Institutas de João Calvino.
[4] Esse parece ser o entendimento quanto as narrativas bíblicas. Pois somos informados de que Judas de fato comprou um campo e que suas entranhas se derramaram (At 1.18). Mas também temos a narrativa de que houve por se enforcar (Mt 27:5). Daí entendermos parecer ser plausível juntar os acontecimentos e entender que primeiro Judas comprou o campo, após isso se enforcou e devido ao longo tempo que provavelmente ficou pendurado, veio a ser rasgada sua carne (pelo peso do corpo morto) e então partiu-se no chão.
[5] Frase atribuída a D. L. Moody.

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