"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Efésios 1.4 (parte 1) - Exposição em Efésios - Sermão pregado dia 19.02.2012



Efésios 1.4 (parte 1) - Eleição
Exposição em Efésios - 
Sermão pregado dia 19.02.2012

"Como também nos elegeu nele" (Ef 1:4a).

Neste ponto, Paulo se põe a dar mais um argumento de peso para mais adiante (vs. 5-23) explicar quais são as implicações da salvação na vida dos crentes de Éfeso. O intento do apóstolo não parece ser de apenas explicar mais algumas questões, mas sim de embasar e firmar a fé daqueles crentes em Cristo Jesus.

Quando falamos de eleição precisamos ter em mente que essa doutrina é de profunda necessidade para a Igreja de Cristo, pois é dela que emanam muitos entendimentos da Escritura. A Bíblia nos revela desde o seu início (Gn 1.1) que desde o princípio de todas as coisas, isto é, antes de criação alguma vir a lume, Deus já era e já existia em si mesmo, não necessitando de cousa alguma para sua subsistência - e é por isso que bem sabemos que todas as coisas na terra servem à glória do Senhor, "E, depois destas coisas ouvi no céu como que uma grande voz de uma grande multidão, que dizia: Aleluia! Salvação, e glória, e honra, e poder pertencem ao Senhor nosso Deus (Ap 19.1), afinal, tudo foi criado a partir d'Ele e para Ele.

Sendo Ele o criador de tudo o que existe, diferentemente do subordinado que presta contas aos seus superiores, o Altíssimo não se reporta a ninguém, nem deve explicações a outrem como se homem fosse. A revelação de Deus é muito clara ao nos ensinar que "Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra. Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer" (Rm 9:17-18) - a eleição é fruto da vontade de Deus e tão somente compete ao Senhor responder por seus atos.  

Para muitos crentes que se deparam com essa "nova" doutrina, a dificuldade de aceitá-la não reside na eleição em si, quer dizer, a barreira que encontram em seus corações não é quanto ao amor de Deus e à Sua benevolência em eleger certos homens para salvação, mas sim a consequência lógica desse pensamento, ou seja, a reprovação. Para esses, Deus não pode ao mesmo ter criado todas as criaturas e ter destinado somente algumas delas para a vida eterna. Pensam também que seria "injusto" se Deus escolhesse alguns e condenasse outros. Porém, não há homem que possa se esquivar das Sagradas Letras que nos ensinam que  se possuímos algo de bom em nós, é porque o recebemos de Cristo. Precisamos ter em mente que eleição e reprovação são duas doutrinas que não podem ser desconexas (veremos adiante sobre a reprovação, mas por ora basta-nos a eleição), pois tal qual o mar está contido pelos limites da terra, assim também a reprovação de Deus está contida pelo número de Seus eleitos - quanto a isso, as Escrituras são fartas em referências:

- "E a vontade do Pai que me enviou é esta: Que nenhum de todos aqueles que me deu se perca, mas que o ressuscite no último dia" (Jo 6.39);
- "Mas vós não credes porque não sois das minhas ovelhas, como já vo-lo tenho dito" (Jo 10.26);
- "E os gentios, ouvindo isto, alegraram-se, e glorificavam a palavra do Senhor; e creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna" (At 13:48);
- "Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores" (Rm 5:8);
- "Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), Foi-lhe dito a ela: O maior servirá o menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú" (Rm 9:11-13);
- "Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra. Logo, pois, compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer" (Rm 9:17-18);
- "E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados" (Ef 2.1)...

Em nenhum momento a Bíblia nos dá razão para acreditar que todos os homens do mundo inteiro serão salvos - isso seria crer na heresia chamada Universalismo. [1] Contudo, ela também não nos deixa sem amparo e alento, pois ao contrário do que muitos têm pregado, a eleição não é uma forma de nos tornar orgulhosos e prepotentes, e sim justamente o contrário, a saber, uma guia para nossa humilde gratidão ao Senhor por compreender que apesar de acumularmos pecado sobre pecado e ira sobre ira em nossas cabeças, o Altíssimo - "segundo o beneplácito de sua vontade" (Ef 1.5) - nos escolheu para si, ainda que não houvesse qualquer mérito que nos diferenciasse do restante do mundo. Mas por que existe eleição?

Em primeiro lugar, a Palavra do Senhor revela-nos que todos morreram com o primeiro Adão, porém, somos feito novas criaturas em Jesus - "Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo" (1Co 15.22). Isso implica em dizer que com a queda de Adão e Eva (Gn 3), todos os homens e mulheres foram afetados pela malignidade do pecado, ou seja, não há um ser vivente sequer que possa nascer destituído de pecado. Com isso desdobra-se o entendimento de que por natureza somos filhos da Ira de Deus, pois sendo Ele santo (Lv 20.7; 1Pe 1.16), não pode suportar qualquer que seja a vileza das criaturas - "Ninguém vos engane com palavras vãs; porque por estas coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência" (Ef 5.6). 

Em segundo lugar, se não existisse eleição, todos os homens seriam destinados à morte eterna e ao inferno, "Porque o salário do pecado é a morte" (Rm 6.23a). Contudo, Deus que é grande em misericórdia, nos estendeu sua mão graciosa e nos deu "o dom gratuito de Deus [que] é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor" (Rm 6.23b). Aqui, porém, não estamos a dizer que a Bíblia nos ensine uma mera possibilidade de salvação, uma expectativa de mudança de vida ou uma conjectura para se fazer nova criatura, e sim o oposto, a saber, que Ele "compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer" (Rm 9.18), o que se traduz em dizer que quando alguém é chamado à vida com Cristo, não é devido à sua faculdade intelectual ou afeições do coração, mas tão somente porque o Senhor tomou-a para Si e lhe deu o dom da Vida.

Em terceiro lugar, a eleição não anula nossa responsabilidade diante do Senhor - "E vos tenho enviado todos os meus servos, os profetas, madrugando, e insistindo, e dizendo: Convertei-vos, agora, cada um do seu mau caminho, e fazei boas as vossas ações, e não sigais a outros deuses para servi-los; e assim ficareis na terra que vos dei a vós e a vossos pais; porém não inclinastes o vosso ouvido, nem me obedecestes a mim" (Jr 35:15). Não somente o profeta Jeremias, mas também muitos outros (praticamente todos!) ofereceram a mensagem do Senhor ao povo descrente, contudo, embora constantemente eles lhes virassem a face e seguissem seus próprios desígnios e intentos do coração, os profetas permaneciam firmes: "Porém, se vos parece mal aos vossos olhos servir ao SENHOR, escolhei hoje a quem sirvais; se aos deuses a quem serviram vossos pais, que estavam além do rio, ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra habitais; porém eu e a minha casa serviremos ao SENHOR" (Js 24.15 - grifo meu). Isso nos ensina que apesar de toda revolta, ira e rebeldia contra os preceitos do Senhor, o Artífice da criação sempre teve o seu remanescente fiel e que "não se dobraram a Baal, e toda a boca que não o beijou" (1Rs 19.18). Ainda mais: a palavra do Senhor nos exorta constantemente a odiarmos o pecado e buscarmos a face do Senhor, nos ensinando que apesar dos crentes serem eleitos no e para o Senhor, eles precisam ainda mortificar sua carne - "Porque, se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras do corpo, vivereis" (Rm 8:13) -, não que o Senhor não seja a causa primária dessa força que passa a habitar em nós e que nos habilita a vencer as tentações (1Co 10.13), mas sim porque ainda somos responsáveis por combater o nosso pecado, "Se bem fizeres, não é certo que serás aceito? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar" (Gn 4.7) - apesar de não devermos achar que por nós  mesmos conseguimos algum triunfo.

Então, quando Paulo escreve aos efésios, é necessário que notemos em que se baseia a eleição do Senhor, quer dizer, onde é que os crentes estão alicerçados para que possam suportar as tribulações e alcançar a coroa da vida (1Co 9.25); daí ele dizer agora e posteriormente: "nele". "Nele temos a redenção por meio de seu sangue, o perdão dos pecados, de acordo com as riquezas da graça de Deus" (Ef 1.7).

- "Ele os trará para a terra dos seus antepassados, e vocês tomarão posse dela. Ele fará com que vocês sejam mais prósperos e mais numerosos do que os seus antepassados" (Dt 30.5);
- "O justo nunca jamais será abalado, mas os perversos não habitarão a terra" (Pv 10.30);
- "Porque o rei confia no SENHOR, e pela misericórdia do Altíssimo nunca vacilará" (Sl 21.7);
- "Por isso diz o Soberano Senhor: "Eis que ponho em Sião uma pedra, uma pedra já experimentada, uma preciosa pedra angular para alicerce seguro; aquele que confia, jamais será abalado" (Is 28:16);
- "A respeito dele, disse Davi: ‘Eu sempre via o Senhor diante de mim. Porque ele está à minha direita, não serei abalado" (At 2.25);
- "pois é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar, de acordo com a boa vontade dele" (Fp 2.13).

Se todos os crentes foram eleitos "nele" antes da fundação do mundo, depreende-se de que não há nada que possa afastar um filho do Senhor de Suas mãos, pois assim lemos em Tg 1.17: "Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes, que não muda como sombras inconstantes". Se um dos atributos do Senhor é sua imutabilidade, e isso significa que todos os Seus intentos e objetivos para nós certamente serão concluídos e não falharão de modo algum, então não pode haver demônio algum (ou até mesmo o príncipe de todos eles!) ou coisa alguma que possa frustrar os planos do Senhor, conforme nos está revelado: "Sei que podes fazer todas as coisas; nenhum dos teus planos pode ser frustrado" (Jó 42.2).

Crer na eleição não é crer num Deus desprovido de amor, rancoroso e que tem prazer na morte do ímpio - pois lemos justamente o contrário: "Diga-lhes: ‘Juro pela minha vida, palavra do Soberano Senhor, que não tenho prazer na morte dos ímpios, antes tenho prazer em que eles se desviem dos seus caminhos e vivam. Voltem! Voltem-se dos seus maus caminhos! Por que iriam morrer, ó nação de Israel?" (Ez 33:11). Crer na eleição é crer num Deus dotado do mais grande amor para conosco, a ponto de mandar seu único filho para morrer por seus eleitos. Contudo, como já disse certo autor [2], "eleição é uma doutrina difícil". É difícil, pois desafia nosso senso de justiça própria e vai de encontro àquilo que muitas vezes pensamos sobre Deus, isto 
é, que Seu atributo de amor seja maior que Sua retidão e verdade. É difícil porque nos desafia a tão somente aceitar o ensinamento bíblico, em vez de ficarmos conjecturando "mil teorias" e porquês de Deus assim fazer. É difícil porque muitas vezes - devido ao pecado que ainda reside em nós - somos tentados a não fazer determinadas coisas ao Senhor (buscar a santidade, evangelizar...), como se a eleição nos deixasse sem qualquer responsabilidade e vivêssemos num mero fatalismo.

As palavras do apóstolo - "antes da fundação do mundo" - são também por demais importantes e salutares para nossas vidas, pois tal qual lemos em Hebreus 13.14 - "Porque não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura" -, compreendemos que antes de todas as coisas existirem, antes de qualquer partícula ser formada nessa terra, os crentes já haviam sido destinados para a vida eterna, não devendo sequer um deles olhar para trás (Lc 9.62), e sim tão somente seguir o caminho que lhes foi proposto, porque não há nada que aqui possa se aproveitar para a vida eterna, assim como não há nada mais desejoso e belo do que a Jerusalém celestial. Contudo, há uma heresia [3] corrente no meio que se diz evangélico que ensina que ora temos nosso nome escrito no livro da vida, ora já não temos; ora o Espírito Santo habita em nós, ora se retira; por vezes somos guiados em santidade, ao passo que as vezes somos abandonados; que frequentemente o Senhor nos guia por Sua mão, mas que as vezes nos deixa sozinhos e desamparados... Esse é um ensinamento por demais pernicioso e que invalida toda a palavra de Deus, pois não há quem possa ler a Bíblia e não encontrar abundantes referências quanto à eleição e soberania Eterna sobre todos os acontecimentos nesse mundo. 

"E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo" (Ap 20.15). A palavra do Senhor é muito séria ao dizer-nos que ou temos nosso nome escrito no livro da vida (dada à graciosa obra salvífica do Senhor em nós) ou estamos completamente perdidos e "destituídos... da glória de Deus" (Rm 3.23). É um erro muito comum acharmos que "todos são filhos de Deus", como que denotando que o Senhor irá salvar a todos, ou que no mínimo ama a todos de igual maneira. É acertadamente que entendemos que foi o Senhor quem criou a ambos, porém isso não invalida Suas palavras inspiradas que dizem: "Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também" (Ef 2.3 - grifo meu). Aqui, o apóstolo é clarividente em expor que enquanto o homem anda fazendo os desejos e pensamentos próprios da carne (quebrando assim o primeiro mandamento - Êx 20.3), ele está sob a ira de Deus, isto é, segundo ele mesmo já informou em Rm 8.28, apenas a vida do cristão é guiada segundo um propósito mais excelente e que visa a salvação de sua alma - já para os ímpios, nesta vida, nada lhes vai bem e coisa algum coopera para sua salvação; pois são indesculpáveis diante da grandiosa revelação do Senhor (Rm 1.20).

Portanto, precisamos pedir ao Senhor que neste dia (mais uma vez!) nos dê graça para examinar nossos corações, a fim de vermos se de fato estamos em Cristo, se realmente os frutos do Espírito (Gl 5.22) se manifestam em nós, se estamos vivendo uma vida de piedade baseada em nossas próprias forças ou se buscamos nos aperfeiçoar "nele". O ensinamento acerca da eleição deve nos levar a um profundo deter-se e avaliar se a graça do Senhor tem se manifestado durante nosso viver diário e se temos exalado o bom perfume de Cristo (2Co 2.15) àqueles que estão ao nosso redor. O Senhor nos conclama a examinar se de fato estamos vivendo no Espírito (Gl 5.25) e se Ele realmente habita em nós (Rm 8.9). 

Que possamos ser cheios do Senhor e termos nossas paixões inflamadas pelo sincero desejo de O agradar, não porque somos dignos de mérito ou de coisa alguma, mas porque "nele", temos a redenção dos pecados e a certeza da vida eterna.

Amém.

Notas:
[1] Para os universalistas, o amor de Deus é maior que Sua ira e justiça, e que portanto, Ele não poderia mandar ao inferno alguém que é criado à Sua imagem e semelhança. No entanto, pois mais que pareça "fazer sentido" essa argumentação, ela não consegue ser sustentada biblicamente.
[2] Pink, A. W. - clique aqui.
[3] Arminianismo - sistema de doutrina criado por Jacobus Arminius, onde ele pretendeu ensinar que o Senhor tão somente oferece a possibilidade de salvação para os homens, ficando a cabo de cada ser humano aceitar ou não ao Senhor. Porém, como aceitaremos se estamos mortos em nossos delitos e pecados (Ef 2.1)? Para Arminius, a salvação "vai e vem", isto é, depende do homem manter sua santidade e retidão diante do Senhor; e embora isso pareça ser coerente, pois certamente que temos nossa responsabilidade, contudo "Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade" (Fp 2.13), significando que apesar de  sermos responsáveis (e muito!) e condenados por nossas próprias faltas, a causa primeira de nossa filiação com o Senhor é fruto de Sua graciosa eleição, e não de nosso livre querer achegar-se a Ele.

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