"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

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segunda-feira, 23 de abril de 2012

Série: Homem e Mulher os criou - parte 5 - Homem e Mulher no Jardim, A Questão dos Filhos (Uma Ordem) - Sermão pregado dia 22.04.2012



Série: Homem e Mulher os criou - parte 5 - 
Homem e Mulher no Jardim, A Questão dos Filhos (Uma Ordem) -
Sermão pregado dia 22.04.2012


Após termos sido ensinados mediante a exposição do Salmo 127 onde visualizamos com que beleza e bênção o salmista trata a questão dos filhos, agora importa-nos verificar de que forma isso deve ser colocado em prática, isto é, uma vez casados, como o homem e a mulher devem interpretar o mandamento "frutificai e multiplicai-vos"? Há basicamente três interpretações: 

A primeira afirma que esse mandamento já foi cumprido por Adão e Eva e sua posterioridade, de forma que o intuito de Deus seria povoar a terra com seres humanos; como isso já ocorreu, os casais de hoje (e de tempos passados), se quiserem, não precisam ter filhos, haja vista a terra já ter sido povoada. Por não precisarem ter filhos, os métodos anticoncepcionais seriam aceitos e lícitos diante do Senhor. A segunda trabalha com sendo uma boa sugestão vinda da parte de Deus, isto é, como se o Senhor dissesse: "lhes será bom ter filhos, mas não é uma ordem". Para os que assim interpretam, eles veem os filhos como sendo uma bênção a se buscar, mas que ao mesmo tempo pode-se evitar e ter-se a liberdade de limitar o número dos seus, de modo que esses também aceitam os métodos anticoncepcionais, pois segundo entendem, cada casal tem a autonomia de planejar sua vida conforme bem lhe apraz. Já a terceira, diz que o mesmo mandamento que foi colocado sobre Adão e Eva, é também válido para nós. A mesma sentença que eles receberam para multiplicarem-se, aplica-se diretamente a nós, o que se traduz em dizer que, uma vez sendo dado o imperativo "multiplicai e frutificai-vos", isto é, uma ordem, os casais não têm autorização para a utilização de métodos contraceptivos, pois o Senhor não ordenou tal coisa.

Para nos desvencilharmos desse problema, é necessário que tenhamos em mente alguns pressupostos.

1. Homem e mulher não são donos de seus próprios corpos. A palavra do Senhor nos é clara o suficiente para que não intentemos contra Sua soberania. Isto implica em afirmar que se "No princípio criou Deus os céus e a terra" (Gn 1.1), então Ele é o detentor de absolutamente tudo que sub-existe por causa de seu poder criador e sustentador de todas as coisas. Sendo ele o Ser Supremo e completamente sábio em seu querer e realizar, então o desdobramento lógico dessa assertiva é de que Ele tem o direito de legislar sobre nossas vidas, desde a forma que escrevemos até a forma de nos vestirmos, passando pelo modo adequado de se educar um filho e indo até ter-se um casamento para a glória do Seu nome. 

Por toda a Escritura nos são abundantes os relatos de que o Senhor é soberano sobre tudo o que ocorre na terra, de modo que absolutamente coisa alguma pode-Lhe escapar às mãos. Esse ensino é bastante visível no fato de Adão e Eva serem colocados no Éden e não terem roupas para si; eles andavam nus e não se envergonhavam (Gn 2.25). Desde os tempos primórdios o Senhor deseja ensinar-nos que "do pó viemos e ao pó voltaremos" (Gn 3.19), pois assim como nossos primeiros pais foram colocados de forma desnuda sobre a terra, assim também somos diante do Senhor - nada escapa-lhe aos olhos.

Não sendo, portanto, o homem soberano sobre seu próprio corpo, lhe é por dever o tão somente obedecer àquilo que o Senhor prescreveu em Sua palavra, de forma que isso certamente redunda em glórias ao Seu nome e também, como já nos é sabido, faz bem ao homem, pois já disse o salmista: "Bendize, ó minha alma, ao SENHOR, e não te esqueças de nenhum de seus benefícios" (Sl 103.2).

2. Deve-se casar somente após ter condições de se sustentar uma família. A ordem do Senhor foi clara ao homem de Deus: "Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne" (Gn 2.24). O homem só deveria (e só deve) deixar seus pais e irmãos quando tivesse condições suficientes de sustentar [no mínimo] a si próprio e sua esposa. Deixar a casa de pai e mãe é relacionado diretamente com deixar-se de ser sustentando e passar a ser o sustentador. O homem que teme a Deus jamais se lançará a um relacionamento que ele próprio não possa sustentar - isso seria um ultraje ao mandamento divino. Nenhum menino ou garoto deve sequer cogitar a possibilidade de "namorar" sua "amiguinha", pois assim como lemos no livro do profeta Isaías que a maldição do Senhor vem sobre àqueles que colocam meninos no lugar de príncipes (Is 3.4), de igual modo o Senhor castiga aqueles que contraem matrimônio sem estarem preparados para guiar esse relacionamento que foi ordenado para [também] ser um antegozo do céu - onde de uma vez por todas estarão "casados" com o Senhor, pois pecado já não fará mais separação entre o santo e o profano - "Regozijemo-nos, e alegremo-nos, e demos-lhe glória; porque vindas são as bodas do Cordeiro, e já a sua esposa se aprontou" (Ap 19.7).

3. Os filhos são instrumentos do Senhor para a proclamação e avanço do Seu reino. Que nenhum homem ouse ir além da doutrina bíblica e comece a intentar que, devido à soberania de Deus, "se Ele quiser", pode salvar seus eleitos sem a "ajuda" de homens. Ora, creio estar para muito além da dúvida, que o Senhor, embora soberano e detentor de todo o "querer e realizar" (Fp 2.13), ordenou-nos para que fossemos por todo o mundo e pregássemos o evangelho a toda criatura (Mt 28.19), o que necessariamente significa que, ainda que Ele seja soberano, aprouve por Sua boa vontade realizar Seu propósito através de agentes do Seu reino. 

Todo bom intérprete da Bíblia, por mais que tente ser persuadido por homens contrários ao mandamento de Deus, sabe muito bem que mesmo que o mandamento para Adão e Eva completou-se quando eles assim fizeram, isso não esenja autorização para os casais (posteriores a eles) acharem que essa ordem foi apenas para Adão e Eva, pois se assim foi, acaso também achar-se-á que as promessas ditas a eles nos excluem? Se foi apenas para Adão e Eva, por que também lemos que a Noé foi dito a mesma coisa (Gn 9.1)? Portanto, logo em primeira instância já descartamos a primeira possibilidade acima aventada, pois é impossível - biblicamente falando - sustentar que tal ordenança tenha se restringido somente aos primeiros pais.

Para avançarmos rumo ao desempate entre a segunda e terceira interpretação, ou seja, entre àquela que diz que os filhos são uma "boa sugestão" vinda do Senhor e a que diz serem os filhos algo ordenado por Deus, de forma que deve-se tê-los, ou melhor, não deve-se evitá-los, é preciso analisarmos o pecado de Onã.

Esse caso pouco conhecido ou cuja importância não é notável em nossas igrejas, está registrado em Gn 38.1-10. Esse relato bíblico conta-nos sobre um dos filhos de Jacó (Judá) que conheceu a filha de um homem cananeu e a tomou por mulher (vs. 1-2). Desse relacionamento resultaram os filhos Er, Onã e Selá (vs. 3-5). Judá então escolheu uma mulher para seu filho Er, cujo nome era Tamar (v. 6). No entanto, conta-nos a narrativa que Er, embora primogênito de Judá - o que implicava em grandes bênçãos para ele -, "era mau aos olhos do SENHOR, por isso o SENHOR o matou" (v. 7). Então, para que seu filho primogênito não ficasse sem descendência, "disse Judá a Onã: Toma a mulher do teu irmão [isto é, sua cunhada], e casa-te com ela, e suscita descendência a teu irmão" (v. 8). Vemos, então, como Onã agiu para com essa ordenança: "Onã, porém, soube que esta descendência não havia de ser para ele; e aconteceu que, quando possuía a mulher de seu irmão, derramava o sêmen na terra, para não dar descendência a seu irmão. E o que fazia era mau aos olhos do SENHOR, pelo que também o matou" (vs. 9-10).

Nos é clarividente que Onã de fato obedeceu à lei do Levirato (Dt 25.5-10), isto é, conforme a lei do Senhor prescrevia que quando um dos irmãos morresse sem deixar descendentes, o outro deveria tomar a viúva para si e suscitar herdeiros para seu irmão, de forma que sua linhagem não se perdesse - "E o primogênito que ela lhe der será sucessor do nome do seu irmão falecido, para que o seu nome não se apague em Israel" (Dt 25.6). Aqui, mais uma vez, há divergência quanto ao motivo da morte de Onã. De um lado temos aqueles que dizem que a morte foi apenas devido ao fato de Onã não ter desejado suscitar descendentes ao seu irmão falecido. Para outros, o fato de Onã ter morrido não se deu somente por causa da não suscitação da descendência, mas sim porque "fazia era mau aos olhos do SENHOR" (Gn 38.10). Surge então a pergunta: o que era mau diante do Senhor? O próprio texto nos responde: "soube que esta descendência não havia de ser para ele [motivo]... quando possuía a mulher de seu irmão, derramava o sêmen na terra, [ação] para não dar descendência a seu irmão [motivação]. E o que fazia era mau aos olhos do SENHOR [condenação]". A própria narrativa fala-nos que Onã não somente não desejava dar descendência, mas que para isso utilizou-se de meio não prescrito pelo Senhor. Contudo, o pecado de Onã não está somente ligado ao levirato.

Embora Onã tenha pecado em não suscitar descendente(s) ao seu irmão, o pecado não está necessariamente atrelado ao levirato, pois se quisesse desobedecer tal lei, não seria morto pelo Senhor - seria humilhado. Certo autor comenta: "Qualquer pessoa que pesquise sobre o incidente ocorrido com Onã, logo irá perceber que a única passagem que trata desse costume incomum do casamento levirato, encontra-se em Deuteronômio 25.5-10 e que essa passagem diz que quem se recusa a levantar [continuar] descendência a seu irmão, somente será humilhado. Portanto, é prudente [lógico] concluir que Onã não foi morto meramente por violar o Levirato, mas sim que foi morto por algo muito pior. E o que diferencia o caso de Onã do caso em Deuteronômio? Foi Onã ter desperdiçado (literalmente, destruído, matado) sua descendência no chão... [Também] Onã não foi morto por ter tido relações com sua cunhada, pois a penalidade para esse crime não era a morte, e sim o não [poder] ter filhos (Lv 18.16; 20.21)."[1] Isso explica-nos que o Senhor não somente matou a Onã por causa de sua desobediência em não desejar dar filhos à viúva (e que se tornara sua esposa), mas também porque utilizou-se de um método contraceptivo. Aqui, ninguém deveria afirmar que esse era o único "método" contraceptivo que Onã poderia ter adotado, afinal, em primeiro lugar, a questão principal não é essa, e, também, embora tivesse que se casar com a viúva de seu irmão, o não contrair matrimônio não era razão para sua morte, mas sim somente para humilhação (cf. Dt 25.5-10). Em outras palavras: se não quisesse ter filhos, que optasse pelo "menos pior" [2] e não se casasse com a viúva. 

Notamos também um ponto terrível na atitude de Onã: ele foi orgulhoso. "Onã, porém, soube que esta descendência não havia de ser para ele" (v. 9). O problema de Onã, portanto, foi triplo: 1. Não desejou dar descendência ao irmão; 2. utilizou-se do que tinha ao seu dispor para conseguir seu objetivo (derramar o sêmen no chão - método contraceptivo); 3. violou o mandamento do Senhor que era para toda descendência de Israel: "frutificai e multiplicai-vos".

Três grandes teólogos comentaram sobre esse ocorrido:

"O Pecado de Onã - Martinho Lutero. Onã deve ter sido um canalha malicioso e incorrigível. Pois este é um pecado excessivamente vergonhoso. É muito mais atroz do que o incesto ou o adultério. É correto chamar isto de prostituição, sim, de um pecado de Sodomia. Porque Onã vai até ela; ou seja, ele se deita com ela e copula, e quando chega ao ponto da inseminação, ele derrama o sêmen, evitando que a mulher conceba. Certamente, neste momento, a ordem da natureza estabelecida por Deus na procriação deveria ser seguida... Mas Onã foi inflamado com o mais vil rancor e ódio... Consequentemente, ele mereceu ser morto por Deus. Ele cometeu um ato maligno. Então Deus o puniu... Este homem sem valor se recusou a exercer o amor. Ele preferiu contaminar-se com um pecado mais vergonhoso em lugar de trazer descendência para seu irmão. Portanto, Onã, indisposto a cumprir esta obrigação, lançou sua semente fora. Este é um pecado muito maior do que o adultério ou o incesto, e provocou tal feroz ira em Deus que Ele o destruiu imediatamente.

O Pecado de Onã - Matthew Henry. Onã, embora concordasse em se casar com a viúva, contudo, como um grande abuso de seu próprio corpo, da mulher que ele havia casado, e da memória de seu irmão que se fora, ele se recusou a trazer uma descendência para seu irmão, como estava comprometido pelo seu dever... Note que estes pecados que desonram o corpo e o contaminam são grandemente reprovados por Deus, sendo também evidências de infames sentimentos.

O Pecado de Onã - João Calvino. Além disso, não só Onã defraudou seu irmão ferindo o direito que devidamente lhe pertencia, mas também preferiu que seu sêmen putrificasse no chão, do que gerar um filho em nome de seu irmão... O derramamento voluntário do sêmen fora do devido intercurso entre homem e mulher é uma coisa monstruosa. Deliberadamente retirar-se do coito de modo que o sêmen caia no chão é duplamente monstruoso. Pois assim se extingue a esperança da continuidade da raça e se mata, antes do nascimento, a esperada prole. Esta impiedade é especialmente condenada, agora pelo Espírito através da boca de Moisés, de tal forma que Onã, como se fosse por um violento aborto, não menos cruel e imundamente lança na terra o fruto do seu irmão, como se arrancado do ventre materno. Ainda, com isto tentou, tanto quanto era capaz, eliminar uma parte da raça humana. Se uma mulher expulsa o feto de seu ventre com drogas, tal ação é contada como um crime sem expiação e, merecidamente, Onã recebe sobre si a mesma pena, contaminando a terra com seu sêmen, para que Tamar não concebesse um futuro ser humano como habitante da terra." [3]

Duas aplicações imediatas:


1. Em outras palavras, a ordem é: "não evitem ter filhos". É preciso deixar esse ponto bastante claro, pois, caso contrário, algum casal poderia se ver pecando contra o Senhor caso não fossem abençoados com filhos dado pelo Altíssimo. Toda ordem positiva do Senhor tem subentendida a negação de tudo que for contrário à afirmação. Por exemplo: "Observem o Dia do Senhor". Acaso o Eterno precisaria também dizer, "Não profanem o Dia do Senhor"? Ora, certamente que não, pois isso é algo bastante óbvio. Da mesma forma, quando o Senhor diz "frutificai e multiplicai-vos", está naturalmente entendido que é um pecado ler o versículo dessa forma: "não frutificai e não multiplicai-vos". É necessário que entendamos esse ponto, pois a ordem primeira [4] é para que deixemos o Senhor ser o guia de nossas vidas, de forma que quando um casal ajunta-se em matrimônio, também ajuntam-se para a glória de Deus (1 Co 10.31), o que significa que eles não devem colocar "obstáculos" à vontade divina, pois se a ordem foi deixar pai e mãe, se unir à sua mulher e frutificar e multiplicar, então, assim como é contrário à palavra do Senhor o não sustentar da sua casa e cuidar devidamente da esposa (e vice-versa), também tal atividade é perniciosa e acarreta em desobediência ao mandamento expresso ditado pelo Altíssimo.

2. Métodos anticoncepcionais são contrários à palavra de Deus. Uma vez que a ordem do Senhor é para que não se evite ter filhos, então todo e qualquer meio que se interponha com o objetivo de "burlar" a ordenança de Deus, deve ser rejeitado como profano e não digno de apreciação. Conforme vimos anteriormente, os filhos são bênçãos vindas do Senhor e que, ao contrário do que somos ensinados, não enfraquecem o casamento ou empobrecem o casal, mas são como "flechas na mão de um homem poderoso" (Sl 127.4). Se os filhos são uma bênção sem medida vinda do Senhor, por que alguém desejaria evitá-los? Não seria uma grandiosa imprudência (e violação do mandamento) ter uma bênção a seu dispor e dizer, "não, obrigado"?

Na semana que vem responderei algumas perguntas sinceras e que são bastante frequentes, tais como: "Em caso de doença, pode-se usar métodos contraceptivos?", "O que faz um casal com pouca renda financeira?", "Usar contraceptivos é razão para não ser aceito na igreja ou dela ser excluído?", "Não conseguimos colocar em prática, pois o mundo de hoje é muito perigoso", "Já temos X filhos, não podemos ter outros mais", "O casamento não foi feito para o prazer mútuo?", "Preciso ter o máximo de filhos que conseguir?"...

Que o Senhor continue guiando-nos em Sua reta e Santa palavra.

Notas:
[1]http://www.reformed.org/webfiles/antithesis/index.html?mainframe=/webfiles/antithesis/v1n4/ant_v1n4_issue2.html (acessado dia 18.04.2012 às 11:00) - tradução livre.
[2] Toda desobediência para com o Senhor é grave - usei a expressão "menos pior" apenas para dizer que se não desejasse ter filhos, que se eximisse do dever de ter para si a viúva.
[3]http://calvinismoexperimental.blogspot.com/search/label/Contra%20o%20uso%20de%20Contraceptivos (acessado dia 31 de Janeiro de 2012).
[4] Aqui, falo em ordem primeira porque o apóstolo Paulo em 1 Co 7 nos diz que pode-se permanecer solteiro, e até, que assim é melhor. Se a ordem fosse para todo homem e mulher procriasse, então não poderia haver a condição de solteiro.

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