"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

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terça-feira, 30 de abril de 2013

Como Educar a Criança



...Eu sei que você não pode converter seu filho. Sei muito bem que aqueles que são nascidos de novo são nascidos, não da vontade do homem, mas de Deus. Mas também estou ciente de que Deus diz expressamente, “criai-os na doutrina e admoestação do Senhor” (Ef 6:4), e Ele nunca deu ao homem uma ordem sem prover também a graça para que fosse capaz de cumpri-Ia. O caminho de obediência é o caminho de bênção. Temos tão somente que fazer como fizeram os servos na festa de casamento em Caná, ou seja, encher os vasos com água; e podemos seguramente deixar que o Senhor transforme a água em vinho."...

"...Um cristão fiel não pode ser escravo da moda, se quiser educar seu filho para o Senhor. Ele não deve se contentar em fazer as coisas meramente por serem o costume do mundo, principalmente no que diz respeito ao mundo religioso com suas tradições populares, mas não autorizadas biblicamente, como é o caso do “Dia das Bruxas” e da “Páscoa” (Gl 4:10Rm 12:2). Você tampouco os estará protegendo se permitir que leiam as vãs revistas em quadrinhos e livros de qualidade questionável, simplesmente porque todo mundo os lê. E o que mais pode introduzir tanto o mundo no lar além da televisão? Pais cristãos não devem se envergonhar se chamarem seu método de educar estranho e excêntrico. E se for, o que importa? O tempo é curto ― a moda deste mundo passa logo. Aqueles que têm educado seus filhos para o céu ao invés de educá-los para a terra ― para Deus ao invés de fazê-lo para os homens ― são pais que no final serão chamados sábios. “Aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre” (1 Jo 2:17).".

- por J. C. Ryle (1816-1900)

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Novo Nascimento, Nova Criatura


O Espírito Santo testifica: “Se alguém está em Cristo, é nova criatura” (2 Co 5.17). 

Esse testemunho é verdade, pois:

Em primeiro lugar, aquele que está em Cristo ama e adora um novo Deus. O homem natural é um deus para si mesmo; além disso, possui muitos outros deuses. Quer seja a justiça própria, o agradar a si mesmo, o mundo, as riquezas, a família, em qualquer forma que tudo isso apareça, “outros senhores têm exercido domínio sobre ele”, exceto o Deus vivo e verdadeiro. A mente humana possui tal natureza que deve amar e adorar algum objeto. Em seu estado de inocência, a criatura tinha o Senhor como seu único objeto de amor e adoração. Caídos desse estado de afeição simples e suprema, mediante a promessa do tentador (a promessa de que, se comessem do fruto da árvore proibida, seriam como Deus - Gn 3.5), lançaram fora, num momento, sua dedicação ao Senhor, rejeitaram-No como objeto de seu amor supremo, como o centro de suas afeições mais santas e tornaram-se deuses para si mesmos. O templo foi arruinado, o altar, derrubado, a chama pura, apagada. Deus afastou-se, e “outros senhores” entraram e tomaram posse da alma do ser humano.

Mas, que admirável mudança a graça produz! Ela repara o templo, reconstrói o altar, reacende a chama e traz a Deus de volta ao homem! Deus em Cristo é agora o principal objeto do amor, da adoração e do culto do homem. O ídolo do eu foi subjugado, a justiça própria, renunciada, a auto-exaltação, crucificada. O “valente, bem armado” entrou, expulsou o usurpador e, “fazendo novas todas as coisas”, recuperou a supremacia que, por direito, era dEle mesmo. As afeições, livres de sua falsa deidade e renovadas pelo Espírito, agora voltam-se para Deus e descansam nEle. Deus em Cristo! Quão glorioso Ele se mostra agora! De fato, a alma é levada a conhecer e amar um novo Deus. Ela nunca tinha visto em Deus tanta beleza, excelência e bem-aventurança como vê agora. Qualquer outra glória fenece e morre perante a insuperável glória do caráter, dos atributos, da autoridade e da lei de Deus. Agora, a alma se vê reconciliada com Deus, em Cristo; a inimizade cessa, o ódio desaparece, a hostilidade abandona suas armas, bem como os pensamentos injustos sobre a lei dEle; findam-se os sentimentos rebeldes contra a autoridade de Deus, e o amor surge na alma. E, no precioso Cristo, o único Mediador, Deus e o pecador se encontram, recebem um ao outro e passam a viver em harmonia. Verdadeiramente, eles se tornam um. Deus diz à alma: “Tu és minha”. Esta responde: “Tu és o meu Deus — outros deuses tiveram domínio sobre mim, mas, daqui por diante, servirei somente a Ti, amarei somente a Ti . ‘A minha alma apega-se a ti; a tua destra me ampara’ (Sl 63.8). ‘Uma coisa peço ao Senhor, e a buscarei: que eu possa morar na Casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do Senhor e meditar no seu templo’ (Sl 27.4)”.

Agora, Deus é o Pai daquele que está em Cristo. “Levantar-me-ei, e irei ter com o meu pai” (Lc 15.18) - esse é o primeiro impulso de uma alma renovada. “Pai, pequei contra... ti” é a primeira confissão que surge do coração quebrantado. O Pai apressa-se a encontrar e abraçar seu filho; e, apertando-o ao peito, exclama: “Este meu filho estava morto e reviveu” (Lc 15.24). Reconciliado, agora o filho olha para Deus como seu Pai. “Porque vós sois filhos, enviou Deus ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai!” (Gl 4.6). “Pai me chamarás e de mim não te desviarás” (Jr 3.19). Deus fala? É a voz de um Pai que o nascido de novo escuta. Deus disciplina e repreende? É de seu Pai que ele sente que vêm essas correções. As esperanças dele são frustradas, seus planos, impedidos, suas cisternas, destruídas, e seus frutos murcham? “Meu Pai fez tudo isso!”, ele exclama. Abençoado Espírito de adoção! Tu és doce penhor e testemunho da nova criatura! 

Agora, Deus é o objeto de segurança e confiança daquele que está em Cristo. A confiança em um Deus e Pai reconciliado não caracterizava nem constituía o estado anterior da pessoa nascida de novo. Naquele tempo, ele confiava em si mesmo, em sua suposta sabedoria, força e bondade. Confiava no braço de carne, em causas inferiores. Agora, aquele que está em Cristo confia em Deus - a todo instante, em todas as circunstâncias. Confia em Deus nas horas mais difíceis, nas obrigações mais deprimentes; confia nEle quando a providência divina parece sombria e ameaçadora e quando Deus parece esconder-se. Confia em Deus, ainda que Ele o mate (Jó 13.15 - RC)... Oh! quão segura a pessoa nascida de novo se sente, agora, nas mãos de Deus e sob sua autoridade! Sua alma, seu corpo, sua família, seus negócios e seus cuidados foram completamente renunciados, e Deus é tudo. Leitor, isto é o que significa ser nascido de novo.

Em segundo lugar, a alma regenerada possui e confessa um novo Salvador. Quão glorioso, agradável e precioso é Jesus para ela agora! Não era assim antes, quando tinha seus salvadores, seus refúgios de mentiras (Is 28.17), suas muitas convicções trágicas. Antes, para esta pessoa Jesus era “como raiz de uma terra seca; não tinha aparência nem formosura” (Is 53.2). Talvez ela tenha negado a divindade de Jesus, rejeitado a sua redenção, desdenhado sua graça e desprezado seu perdão e seu amor. Cristo é tudo para ela agora. A pessoa nascida de novo adora Jesus como o “Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Is 9.6); como Aquele que “é sobre todos, Deus bendito para todo o sempre” (Rm 9.5); como Deus “manifestado na carne” (1 Tm 3.16); como Aquele que se humilhou, assumindo a natureza humana, tornando-se osso de nossos ossos, e carne de nossa carne; como Aquele que se ofereceu por “propiciação pelos nossos pecados” (1 Jo 2.2); como Aquele que morreu, “o justo pelos injustos” (1 Pe 3.18). Sua justiça é gloriosa por ser justificadora de todo os pecados (At 13.39); seu sangue é precioso como meio de purificar todo pecado (1 Jo 1.7). Sua plenitude de graça é estimada como capaz de suprir todas as necessidades. Oh! quão infinitamente glorioso, quão incomparavelmente amável, quão indescritivelmente precioso é Jesus para a alma nascida de novo!

Verdadeiramente, um novo Salvador! O nascido de novo renunciou “outros senhores”; virou as costas para “o refúgio da mentira”; não segue mais os “falsos cristos”. Encontrou um Salvador melhor - Jesus, o Deus forte, o Redentor dos pecadores, “o fim da lei... para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10.4). Tudo é novo para a visão restaurada da pessoa regenerada; um mundo novo de glória paira em sua mente. Jesus, o Cordeiro, é a luz e a glória desse mundo. A pessoa nascida de novo jamais imaginou que houvesse tanta beleza na pessoa de Jesus, tanto amor em seu coração, tanta perfeição em sua obra, tanto poder e tanta disposição para salvar. Aquele sangue que antes era desprezado agora é precioso. Aquela justiça que era desdenhada agora é gloriosa. Aquele nome que era insultado agora é como música para a alma, um “nome que está acima de todo nome” (Fp 2.9).

Jesus é seu único salvador. A pessoa nascida de novo não se permite confiar em nada além de Cristo. Renunciou o pacto das “obras mortas”. Livrando-a desse pacto, o Espírito a conduz à aliança da graça, da qual Jesus é a essência, a estabilidade e a glória. Sobre a base ampla da obra completa e redentora de Emanuel, o nascido de novo descansa sua alma. E, quanto mais ele pressiona o alicerce, tanto mais se apóia na pedra angular e tanto mais ele percebe que o alicerce é forte e capaz de sustentá-lo. É verdade que o nascido de novo sente um princípio de justiça própria a segui-lo de perto durante toda a sua jornada através do deserto. Quando ele ora, a justiça própria encontra-se por perto; quando fala, ela está ali; quando trabalha, ela está ali; quando pensa, ela o assedia. Ele a detecta quando a suspeita de sua existência está quieta. Contudo, nos momentos prudentes de seu discernimento, quando o nascido de novo está prostrado aos pés da cruz e olha para Deus, mediante Jesus Cristo, ele descobre esse princípio, detesta-o, confessa-o e lamenta-o. Com os olhos da fé voltados para o Salvador que sofreu, a linguagem de seu coração é: “Outro refúgio não tenho... Sustenta em Ti a minha alma desamparada?”

Em terceiro, compreensões novas e mais profundas a respeito do Espírito Santo caracterizam a mente nascida de novo. Após receber o Espírito Santo como aquele que vivifica, a pessoa convertida sente a necessidade de tê-Lo como Mestre, Santificador, Consolador e Penhor. Como Professor, o Espírito Santo revela ao nascido de novo mais sobre a maldade oculta do coração e dá-lhe mais conhecimento de Deus, de sua Palavra e de seu Filho. Como Santificador, o Espírito Santo dá continuidade à obra da graça na alma, gravando mais profundamente no coração a imagem de Deus e transformando cada pensamento, sentimento e palavra numa agradável, santa e filial obediência à lei de Jesus. Como Consolador, nos momentos de forte provação, o Espírito Santo leva o nascido de novo a Cristo, confortando-o ao mostrar a compaixão e a ternura de Jesus, bem como a conveniência peculiar das promessas abundantes da Palavra da verdade, para consolação dos aflitos do Senhor. Como Penhor, o Espírito Santo grava no coração o senso de perdão, aceitação e adoção. Ele mesmo entra no coração como “penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade” (Ef 1.14).

Oh! que compreensão elevada o nascido de novo tem agora sobre o eterno e bendito Espírito Santo - sobre a sua glória pessoal, a sua obra, as suas funções, influências, amor, ternura e fidelidade! O ouvido está aberto para o mais brando sussurro da voz do Espírito; o coração dilata-se à mais gentil impressão de sua influência que sela e santifica. O nascido de novo, por lembrar que é “santuário do Espírito Santo” (1 Co 6.19), deseja andar como tal — em humildade, gentileza, vigilância e oração. Ele evita tudo que entristeceria o Espírito, renunciando cada pecado que percebe ter em si, que desonraria o Espírito e o faria retirar-se. O único objetivo de sua vida é andar de maneira agradável a Deus, “para que, em todas as coisas, seja Deus glorificado, por meio de Jesus Cristo” (1 Pe 4.11). 

Não teríamos uma lista correta de algumas das características da nova criatura, se excluíssemos a natureza e a tendência crescente do princípio vital da graça implantado no coração do regenerado. Nenhuma outra coisa prova de modo tão surpreendente e verdadeiro a realidade, poderíamos dizer, a divindade, da obra interna do Espírito Santo, além da força crescente e da disposição santa que sempre acompanha essa obra. Ela é a propriedade que faz a vida em si mesma crescer e se multiplicar. A semente lançada na terra germina, e logo surge o delicado rebento, que se desenvolve num arbusto novo e, depois, torna-se uma árvore gigantesca, com galhos que produzem sombra, ricamente carregados de frutos. Obedecendo a lei de sua natureza, o nascido de novo aspira a perfeição que lhe pertence. 

A vida em Cristo deve crescer. Nada pode impedi-la, exceto um ferimento que prejudique seu princípio vital ou sua derrubada por completo. A vida de Deus na vida de um homem inclui o princípio de crescimento. Aquele que não está se desenvolvendo — crescendo em graça e força; sendo frutífero em cada boa palavra e ação; crescendo no conhecimento de Deus, de seu próprio coração, da preciosidade, plenitude e completa suficiência de Jesus; e crescendo em Cristo, em todas as coisas (Ef 4.15), tem grande razão para suspeitar da ausência da vida divina em sua alma... Mas o espírito que ora consideramos é o de um homem verdadeiramente “nascido de novo”. “Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus. Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado; mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo” (Fp 3.12-14). Oh! santa decisão de um homem regenerado! Isto é o que jorra da fonte da água viva no coração. Este é o retorno da alma para Deus. Veja como a fonte sobe! Veja como a chama se eleva! É a imensa força de Deus, o Espírito Santo, atraindo a alma para cima, em direção ao céu, para Deus!

Que o leitor cristão não encerre este capítulo com o coração oprimido. Que nenhum querido filho de Deus escreva coisas severas e tristes contra si mesmo, enquanto lê estas últimas palavras. Que ele não chegue a conclusões precipitadas, incrédulas, duvidosas, que desonrem a Deus!

Como você vê a si mesmo - indigno, vil, vazio? Quem é Jesus para você - alguém precioso, amável, é toda a sua salvação e tudo que você deseja? O que é pecado para você -  coisa mais odiosa do mundo? E o que é santidade - coisa mais agradável, aquilo que você mais anela? O que é o trono da graça para você - lugar mais atraente? E a cruz - mais doce lugar de descanso do universo? Quem é Deus para você - seu Deus e Pai, a fonte de todas as suas alegrias, o manancial de toda a sua felicidade, o centro de suas afeições? É isso? Então, você nasceu de novo; é filho de Deus e nunca morrerá eternamente. Alegre-se, alma preciosa! O dia de sua redenção se aproxima. Aquela opinião degradante de si mesmo - quele desânimo, aquele luto interior, a confissão secreta, o desejo por mais espiritualidade, mais graça, mais zelo e mais amor provam a existência, a realidade e o crescimento da obra de Deus em você. Deus, o Espírito Santo, está ali... Então, leitor, levante a cabeça e deixe este pensamento alegrá-lo: nunca perece a alma que sente sua vileza e a preciosidade de Jesus.

- por Octavius Winslow (1808-1878)

domingo, 28 de abril de 2013

Eu Sou Só Um… [Complete a Lacuna]


“Eu sou  um encanador”. “Eu sou  uma dona de casa”. “Eu sou  uma secretária”. “Eu sou  um vendedor”. “Eu sou  um contador”.
As pessoas dizem  o tempo todo esse tipo de coisa para pastores.
O que está implícito nessas afirmações?
  • Seu trabalho é um chamado divino, mas o meu não.
  • Meu trabalho não é tão importante quanto o seu.
  • Você é mais valioso para Deus que eu.
  • Eu queria poder servir a Deus mais de uma vez por semana.
O que está na raiz de tudo isso é uma visão antibíblica da vocação, a ideia errônea de que apenas chamados ministeriais são chamados divinos, de que somente trabalho ministerial é trabalho de verdade, de que somente trabalho notoriamente cristão é um trabalho digno.
Como o trabalho ocupa a maior parte do nosso tempo, essas mentiras têm efeitos altamente destrutivos e negativos sobre nós.
Se você já disse ou pensou tais coisas, eu te encorajo a começar a enxergar seu trabalho pelas lentes de Romanos 11.36:
“Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, [seja] a ele eternamente.  Amém”.
TODAS AS COISAS, sim, até mesmo seu trabalho:
  • É de Deus: Seu trabalho vem de Deus, é chamado dEle. Ele te deu o trabalho, Ele te planejou para isso, e Ele chamou você para realizá-lo hoje.
  • É por Deus: Você faz seu trabalho na dependência de Deus, buscando somente nEle orientação, proteção, força e bênçãos. E se fizer isso, você pode estar fazendo seu trabalho com mais fé que alguns homens em seus púlpitos!
  • É para Deus: você faz seu trabalho para a glória de Deus. Você trabalha como se Ele fosse seu patrão, seu gerente, seu chefe. Você lava pratos como se Ele fosse comer neles. Você desobstrui ralos como se estivesse na casa dEle, etc.
Isso não transforma positivamente a maneira como você enxerga seu trabalho e mesmo a si mesmo?
  • Quando você corta grama: “DEle, por Ele, para Ele”.
  • Quando você troca fraldas: “DEle, por Ele, para Ele”.
  • Quando você estuda álgebra: “DEle, por Ele, para Ele”.
O ministério não é o chamado mais elevado. O trabalho que Deus te deu é o chamado mais elevado. 
O ministério é o chamado mais elevado apenas para aqueles que Deus chamou ao ministério (e, como Paulo disse, Deus normalmente chama os menores de todos os santos para esse trabalho). Mas se Deus chamou você para outro tipo de trabalho, então esse é o Seu chamado para você.
Algo menos que essa igualdade de chamados é retornar à elevação pré-Reforma do trabalho “sagrado” acima do trabalho “secular”.
Martinho Lutero escreveu: “O trabalho dos monges e sacerdotes [podemos acrescentar: "pastores e missionários”], tão santo e árduo quanto é, não difere nem um pouco à vista de Deus do trabalho do lavrador rústico no campo ou da mulher cuidando de suas tarefas domésticas, mas todas as obras são julgadas diante de Deus pela fé somente”.
William Perkins, o puritano inglês, disse: “O ato de um pastor cuidando das ovelhas… é uma obra tão boa diante de Deus quanto os atos de um juiz em dar sentença, ou de um magistrado em governar, ou de um ministro em pregar”.
Isso não é diminuir o ministério, ou rebaixá-lo. É erguer todos os outros chamados à elevada e santa posição de dignidade e importância que Deus lhes deu.
Você não é “só” algo ou nada. Você é o que Deus fez você ser e hoje você está fazendo o que Deus te chamou para fazer.  E isso muda tudo.
- por David Murray
Fonte: iPródigo

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Graça Comum: Uma Doutrina Carregada de Perigo


Resumindo, a questão não é se os cristãos têm uma tarefa neste mundo ou não, mas em que esta tarefa consiste e quais são as bases escriturísticas para ela. Kuyper, como vimos, encontrou base na doutrina da graça comum. Esta doutrina, ou pelo menos a forma como ele a formulou, é passível de sérios questionamentos. Se ele quer somente significar por graça comum aquilo que a Igreja sempre compreendeu, ou seja, que Deus graciosamente dispõe, a todos os homens, o brilho do sol e o cair a chuva, sobre justos e injustos, poucos na comunidade Reformada teriam problema com isso. E mais, se graça comum para ele significa que Deus deseja que Seu Evangelho seja pregado a todo o mundo e oferecer Sua graça a todos, a maioria vai concordar de coração. Mas a versão de Kuyper para essa doutrina inclui muito mais que isso. Para ele, graça comum é primariamente uma graça direcionada à redenção do cosmo e da cultura.

Enraizando esta doutrina no decreto divino da predestinação ele foi capaz de construir um sistema onde o plano de Deus para Sua criação é realizado através de um duplo caminho: os eleitos são trazidos à salvação por Cristo como Mediador da redenção (graça particular) e o cosmo, com todo o seu potencial para a cultura, é redimido por Cristo como Mediador da criação (graça comum).

Tal concepção tem levado essencialmente a uma visão otimista da cultura e do mundo. Não que Kuyper mesmo tenha perdido sua visão do pecado e suas terríveis consequências para a raça humana e para o cosmo. Ele acreditava piamente na antítese, portanto, na diferença entre graça comum e particular.

No entanto, o mesmo não pode ser dito dos seus discípulos. Se alguns tiveram problemas com a teoria da graça comum porque viram nela uma ameaça para a graça particular ou salvadora, outros ficaram felizes com ela, porque oferece um escape do que eles consideram uma visão muito rígida de separação dos cristãos e o mundo. Desse modo a graça comum abriu a porta para o mundanismo.

O Neocalvinismo é diferente do velho e clássico Calvinismo? Sim, em muitos aspectos. W. Aalders, um erudito de renome nos Países Baixos, que tem estudado este assunto integralmente, não hesita em se referir à Kuyper e a todo movimento neocalvinista como “o grande descarrilamento”. Em seu ponto de vista, Kuyper com sua ênfase exagerada na cultura e envolvimento social, contribuiu grandemente para o que ele chama de a externalização das doutrinas da graça, especialmente justificação e regeneração. Nos círculos neocalvinistas, diz ele, a Justificação não é condenada, mas não é mais experimentada como foi por Lutero, Calvino e todos que vivem pela Palavra de Deus, mas é algo que qualquer humano pode experimentar como uma filosofia cristã. O que sabe um neocalvinista sobre a Justificação, como uma ocorrência interna, em que a Palavra viva, em união com o Espírito, introduz um pecador na realidade espiritual de Cristo e Seu reino? Pensamentos especulativos, abstratos e filosóficos têm eliminado a obra soberana, espiritual e interna da Palavra, tornando-a um conceito cerebral e intelectual. Uma ideia abstrata, orgânica da regeneração como uma maturação vagarosa da semente tem tomado lugar da regeneração e justificação pela Palavra de Deus e Seu Espírito.

O zelo de Kuyper pela realeza de Cristo no mundo levou a uma aceleração do processo de secularização dos valores espirituais. Através de um aumento cada vez maior do contacto com o mundo e uma exposição ao espírito do mundo, a fé Reformada se tornou mais e mais estereotipada ou vazia. Alguns dos amigos mais chegados de Kuyper ficaram alarmados por essa crescente onda nos círculos Reformados. J. C. Aalders, mesmo um neocalvinista, alertou seus colegas numa conferência para ministros em 1916 com estas palavras:

“Nosso povo Reformado, tendo gradualmente entrado em contacto com a cultura do mundo, está em grande perigo de ser influenciado pelo humanismo. Na mesma proporção em que o misticismo e o anabatismo tem sido superado, o povo de Deus tem reconhecido seu chamado terreno. Mas agora nós enfrentamos um perigo de contaminação pelo espírito deste século. A doutrina da graça comum, crida e colocada em prática pelo nosso povo, abre a porta para o mundo como também para o perigo da conformação com o mundo. Não temos escapado de um desequilíbrio em nosso alimento espiritual. Nem suficiente atenção tem sido dado às necessidade do coração e da alma. Obediência externalizada não é suficiente para a salvação”.

Cerca de uma década antes, H. Bavinck escreveu uma introdução para uma tradução holandesa dos sermões dos grandes pastores escoceses Ralph e Ebenezer Erskine:

“Aqui temos um elemento importante que tem faltado largamente entre nós. Falta-nos este conhecimento espiritual da alma. Parece que não sabemos mais o que é pecado e graça, culpa e perdão, regeneração e conversão. Conhecemos estas coisas em teoria, mas não as conhecemos na terrível realidade da vida”


É sabido que Bavinck ficou muito desiludido com certos aspectos do movimento neocalvinista, no fim de sua vida, pelo que observou resultar dele, ainda que não intencionalmente, mundanismo, superficialidade e orgulho.

Em que o neocalvinismo tem ultimamente contribuído e levado, pode ser visto na apostasia que tomou conta da maioria das igrejas que Kuyper lutou tanto para estabelecer a Gereformeerde Kerken in Nederland — a Igreja Reformada na Holanda — e de uma forma mais branda nas igrejas irmãs da América do Norte — a Igreja Cristã Reformada. Possa Deus nos ajudar a evitar cometer os mesmos erros e que Ele nos preserve na fé que uma vez foi dada aos santos pelos apóstolos, redescoberta e estabelecida pelos Reformadores e seus sucessores os Puritanos. O que precisamos não é neocalvinismo, mas a antiga e clássica fé Reformada, que é Escriturística, confessional e experimental.

- por Cornelis Pronk
- retirado de: Neocalvinismo - Uma Avaliação Crítica (págs. 19-21)

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Reflexão Bíblica em Lamentações 3:7-8


"Cercou-me de uma sebe, e não posso sair; agravou os meus grilhões. Ainda quando clamo e grito, ele exclui a minha oração" (Lm 3.7-8).

Aqui, o profeta Jeremias se põe a lamentar o fato de estar cercado. Notemos, porém, que não indica o inimigo, Satanás e suas hostes, como os responsáveis por sua privação e de Seu povo que estava sob pesado jugo. O homem de Deus afirma que o Senhor foi quem o cercou com uma cerca e agravou os grilhões. Relata que nem mesmo seu grito e sua oração era ouvida, tamanha é sua privação. Ainda que exclamasse com toda força e fé que lhe fosse possível, aparentemente seus gemidos não conseguiam transpor o limite que Deus havia estabelecido.

Aprendamos, desta magnânima passagem, que o Senhor castiga aos que ama (Hb 12.8).

Ao relatar a amargura que o povo passava por ocasião da destruição de Jerusalém por Nabucodonosor em 582 a.C (2Rs 25.1-21), razão pela qual havia sido levado ao exílio babilônico, a palavra de Deus nos insta a considerar a bondade e severidade de Deus (Rm 11.22). Não é de somenos importância o relembrar que o Senhor, em Sua soberania, muitas vezes tem por bem afligir duramente o Seu povo.

Notemos, igualmente, que a aflição passada pelo povo de Deus não era sem motivo. Durante os cinco capítulos em que lamenta o profeta, nenhuma vez sequer é levantado objeções contra o Altíssimo. Jamais se lê qualquer murmúrio justo, pois o povo era cônscio de que haviam pecado contra o Senhor e que recebiam a justa punição por seus pecados.

O motivo do povo de Deus ter sido cercado e impedido de sair à liberdade de voltar a Jerusalém e viver a paz gloriosa de outrora, também era bênção divina. Somos conscientes da necessidade de correção, deveras vezes, como o salmista, somente na aflição (Sl 119.71). Se o Senhor não punisse os seus, seriam como a novilha rebelde descrita por Oséias (Os 4.16). Era-lhes e ainda nos é necessário ser privado e estar devidamente cercado pelo Senhor, pois não são poucas as tentativas de nosso coração se desvencilhar da ordenança e santidade de Deus.

Meditemos hoje, segundo a graça de Deus, em agradecimento a Jesus Cristo, por Sua morte substitutiva na rude cruz. Relembremos com gratidão a importância da correção de Deus.

"E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela" (Hb 12.11).

quarta-feira, 24 de abril de 2013

O Espírito que Dá Vida!


"O espírito é o que vivifica" (João 6.63).

Ao explicar a obra de Deus, você perceberá que começamos pelo primeiro ato gracioso e divino do Espírito - o sopro de vida espiritual na alma. Esta ação deve ser considerada como uma ação que precede todas as outras. A obra do Espírito como vivificador sempre deve preceder sua obra como santificador e consolador.

Se O buscamos em qualquer de suas funções, antes de O recebermos como o Autor da vida divina na alma, invertemos sua própria ordem e nos revestimos de desapontamento.  Iniciaremos a discussão deste assunto com a maior presteza, fundamentados na convicção de que as opiniões atuais acerca da doutrina da regeneração, defendidas e pregadas por muitos, não somente são muito diferentes dos antigos padrões de verdade doutrinária, mas também, o que é mais sério e profundamente lamentável, é que essas opiniões são do tipo que a Palavra de Deus repudia claramente e sobre as quais jaz tremenda escuridão.

A regeneração, conforme ensinada por muitos nos dias de hoje, difere muito da doutrina pregada nos dias dos apóstolos e dos reformadores. Nos escritos e nos discursos deles, a base era lançada ampla e profundamente sobre a depravação original e total do homem. Na atualidade, esta doutrina é muito modificada por várias pessoas, quando não é absolutamente negada. Nos dias da igreja primitiva, a completa incapacidade da criatura e a absoluta e indispensável necessidade da ação do Espírito Santo na regeneração da alma eram distinta e rigidamente estabelecidas.

Opiniões opostas a estas, subversivas da doutrina bíblica da regeneração e destruidoras dos melhores interesses da alma, são zelosa e amplamente divulgadas hoje. Sem dúvida, isto é motivo para profunda humilhação perante Deus. Que Ele restaure em seus ministros e em seu povo uma linguagem pura e, de forma amável, renove as verdades preciosas que humilham a alma e honram a Cristo, as verdades que uma vez foram a proteção e a glória de nossa nação.

Propomos... uma descrição simples e bíblica da doutrina da regeneração, a obra do Espírito Santo em produzi-la e alguns dos efeitos verificados na vida de um crente. Que a unção daquele que é Santo venha sobre o leitor e que a verdade limpe, santifique e conforte o coração.

A regeneração é uma obra autônoma e distinta de todas as outras ações do Espírito Divino. Ela deve ser cuidadosamente diferenciada da conversão, (1) da adoção, (2) da justificação, (3) e da santificação; (4) e tem de ser entendida como a base e a fonte destas. Por exemplo, não pode haver conversão sem um fundamento de vida na alma, pois a conversão é o exercício de um poder espiritual inserido no homem. Não há senso de adoção à parte de uma natureza renovada, pois a adoção concede apenas o privilégio, e não a natureza, de ser filho. Não existe o reconfortante senso de aceitação no Amado, enquanto a mente não passa da morte para a vida; também não existe o menor progresso numa conformidade da vontade e das afeições à imagem de Deus, se falta na alma a raiz de santidade. A fé é uma graça purificadora, mas ela se encontra apenas no coração criado de novo em Cristo Jesus. É necessário existir uma renovação espiritual do homem, por completo, antes que a alma passe ao estado de adotada, justificada e santificada.

Leitor, medite seriamente sobre esta verdade solene.

- por Octavius Winslow (1808-1878)
Fonte: O Calvinista

terça-feira, 23 de abril de 2013

Calvinismo e Capitalismo: Qual é Mesmo a Sua Relação?



A questão de como se relacionam o calvinismo e o capitalismo tem sido objeto de enorme controvérsia, estando longe de produzir um consenso entre os estudiosos. O tema popularizou-se a partir do estudo do sociólogo alemão Max Weber (1864-1920) intitulado A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, publicado em 1904-1905. Numa tese oposta à de Karl Marx, Weber concluiu que a religião exerce uma profunda influência sobre a vida econômica. Mais especificamente, ele afirmou que a teologia e a ética do calvinismo foram fatores essenciais no desenvolvimento do capitalismo do norte da Europa e dos Estados Unidos.

Weber partiu da constatação de que em certos países da Europa um número desproporcional de protestantes estavam envolvidos com ocupações ligadas ao capital, à indústria e ao comércio. Além disso, algumas regiões de fé calvinista ou reformada estavam entre aquelas onde mais floresceu o capitalismo. Na sua pesquisa, ele baseou-se principalmente nos puritanos e em grupos influenciados por eles. Ao analisar os dados, Weber concluiu que entre os puritanos surgiu um "espírito capitalista" que fez do lucro e do ganho um dever. Ele argumenta que esse espírito resultou do sentido cristão de vocação dado pelos protestantes ao trabalho e do conceito de predestinação, tido como central na teologia calvinista. Isso gerou o individualismo e um novo tipo de ascetismo "no mundo" caracterizado por uma vida disciplinada, apego ao trabalho e valorização da poupança. Finalmente, a secularização do espírito protestante gerou a mentalidade burguesa e as realidades cruéis do mundo dos negócios.

Calvino de fato interessou-se vivamente por questões econômicas e existem elementos na sua teologia que certamente contribuíram para uma nova atitude em relação ao trabalho e aos bens materiais. A sua aceitação da posse de riquezas e da propriedade privada, a sua doutrina da vocação e a sua insistência no trabalho e na frugalidade foram alguns dos fatores que colaboraram para o eventual surgimento do capitalismo. Mesmo um crítico contundente da tese de Weber como André Biéler admite: "Calvino e o calvinismo de origem contribuíram, certamente, para tornar muito mais fáceis, no seio das populações reformadas, o desenvolvimento da vida econômica e o surto do capitalismo nascente" (O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 661).

Todavia, esse e outros autores têm ressaltado como a ética e a teologia do reformador divergem radicalmente dos excessos do capitalismo moderno. Por causa das difíceis realidades econômicas e sociais de Genebra, Calvino escreveu amplamente sobre o assunto. Ele condenou a usura e procurou limitar as taxas de juros, insistindo que os empréstimos aos pobres fossem isentos de qualquer encargo. Ele defendeu a justa remuneração dos trabalhadores e combateu a especulação financeira e a manipulação dos preços, principalmente de alimentos. Embora considerasse a prosperidade um sinal da bondade de Deus, ele valorizou a pessoa do pobre, considerando-o um instrumento de Deus para estimular os mais afortunados à prática da generosidade. A tese de que as riquezas são sinais de eleição e a pobreza é sinal de reprovação é uma caricatura da ética calvinista. Para Calvino, a propriedade, o lucro e o trabalho deviam ser utilizados para o bem comum e para o serviço ao próximo.

Em conclusão, existe uma relação entre o calvinismo e o capitalismo, mas não necessariamente uma relação de causa e efeito. Provavelmente, mesmo sem o calvinismo teria surgido alguma forma de capitalismo. Se é verdade que a teologia e a ética reformadas se adequavam às novas realidades econômicas e as estimularam, todavia, o tipo de calvinismo que mais contribuiu para fortalecer o capitalismo foi um calvinismo secularizado, que havia perdido de vista os seus princípios básicos. Entre esses princípios está a noção de que Deus é o Senhor de toda a vida, inclusive da atividade econômica, e, portanto, esta atividade deve refletir uma ética baseada na justiça, compaixão e solidariedade social.

- por Alderi Souza de Matos
Fonte: Monergismo

segunda-feira, 22 de abril de 2013

A Angústia do Inferno



“Ele, Jesus, nos dias da sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte e tendo sido ouvido por causa da sua piedade, embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem” (Hb 5: 7-9).

Este texto se refere ao sofrimento e angústia de Jesus no Jardim do Getsêmani. Ali Sua agonia e horror são indescritíveis. Jesus antes de orar ao Pai, disse a Pedro, Tiago e João: “A minha alma está profundamente triste até à morte” (MT 26:38). Não podemos penetrar com profundidade nestas palavras, mas podemos imaginar que o Senhor Jesus teve uma visão antecipada do seu terrível sofrimento e sua indescritível agonia na cruz do Calvário que se aproximavam, quando seria abandonado por todos e pelo próprio Pai a ponto de perguntar: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”. Naquela cruz maldita Jesus sofreu as angústias do inferno. No Getsêmani Jesus sofreu antecipadamente as tristezas de sua morte, não apenas a morte física, mas a morte eterna em lugar das suas ovelhas. Ondas e vagalhões passaram sobre Ele: “... todas as tuas ondas e vagas passaram sobre mim” (Sl 42:7b).

Jesus não apenas sabia que Judas o trairia ― “Até o meu amigo íntimo, em quem eu confiava, que comia do meu pão, levantou contra mim o calcanhar” (Sl 41:9) ―, não apenas sabia que Pedro o negaria, que o Sinédrio o condenaria de forma injusta, que Pilatos o sentenciaria dizendo “... crucificai-o”, que seus inimigos zombariam dele dizendo: “Profetiza, quem é que te feriu?”; Jesus não apenas sabia que seria cravado e levantado pelos soldados em uma cruz infame, mas também que ficaria cada vez mais sozinho, que seus discípulos o abandonariam e que Seu Pai lhe viraria as costas e lhe derramaria o cálice de Sua ira santa até a última gota; Ele sabia que Satanás e suas hostes o assaltariam para fazê-lo se desviar do caminho da obediência ao Pai: “Muitos touros me cercam, fortes touros de Basã me rodeiam. Contra mim abrem a boca, como faz o leão que despedaça e ruge” (Sl 22:12-13).

Jesus em toda sua vida carregara sob Si o peso da humilhação, mas agora o clímax deste seu estado de humilhação se aproximava. Não é de estranhar que Jesus “levando consigo a Pedro e aos dois filhos de Zebedeu” começasse a “entristecer-se e a angustiar-se”, e lhes dissesse: ”A minha alma está profundamente triste até à morte; ficai aqui e vigiai comigo” (MT 26:37-38). “Velem comigo”, disse Jesus. Não é estranho vê-lo desejar ajuda, conforto e encorajamento naquela hora. Mas, estranho é ver tamanha tristeza, tristeza de morte e humilhação, que fez com que o Pai naquela hora, ao vê-lo prostrado sobre o seu rosto e dizendo “Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres”, enviar-lhe um anjo para confortá-lo. Que angústia!: “... o seu suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra”! Que humilhação!: Quem é este tão fraco que necessita de uma criatura para confortá-lo e encorajá-lo? Não é Ele o próprio criador do mundo? — “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez” (Jo 1:3).

Olhando para este quadro o escritor de Hebreus diz: “Ele, Jesus, nos dias da sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte”. Jesus orando e suplicando nos aponta para seu ofício sacerdotal, sua obra sacrificial. Essas orações e súplicas revelam a profundidade da agonia espiritual e física de Jesus: “gotas de sangue caindo sobre a terra”. Jesus carregou nossos pecados e bebeu o cálice da ira de Deus contra o pecado — “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Co 5:21). Jesus morreu por pecadores e se colocou diante de Deus como o mais ímpio dos pecadores. Ele ficou sozinho, orou sozinho, bebeu até a última gota do cálice da ira de Deus sozinho, suportou, sofreu, sangrou, e morreu sozinho, para salvar suas ovelhas (Jo 10:11).

Jesus falou ao Pai “com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas”. Sua voz se fez ouvir. Ali Ele morria a segunda morte por nós, vis pecadores (Ap. 2:11). Não podemos compreender tal agonia — Por nós Jesus experimentou o próprio inferno. A quem Jesus se dirige em seus rogos? “... a quem o podia livrar da morte”. Este não foi um ato de ignorância da Sua missão, ou um ato de covardia do Senhor, pois que sabia que fora para morrer por miseráveis pecadores que havia nascido; Ele sabia do pacto feito com o Pai desde a eternidade. Mas Jesus via e sentia a agonia e os horrores de experimentar o abandono do Pai. Jesus orou para que a vontade de Deus fosse feita: “Pai, se queres... todavia, não se faça a minha vontade, mas a tua” (Lc 22:42). Jesus sabia que havia sido comissionado para redimir os eleitos.

Teria sido ouvida a oração de Jesus? Um anjo é enviado para confortá-lo; era um mensageiro do Pai, mas não lhe é retirada a agonia. O escritor de Hebreus diz “tendo sido ouvido por causa da sua piedade”. Aqui está e resposta. Jesus pediu que a vontade do Pai prevalecesse; o Pai aponta-lhe a cruz e, em reverente obediência, o Filho se submete à Sua vontade.

Que maravilhosa obediência, que gracioso amor do Redentor, que “tendo sido ouvido por causa da sua piedade, embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem”.

Glória ao Redentor!

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Também Quero Ser Discriminado!



Todo mundo agora quer direitos. Não são suficientes aqueles - e não poucos - já previstos no arcabouço jurídico nacional*; exigem direitos específicos. Basta haver algum traço distintivo em algum grupo qualquer, que este grupo acredita que merece proteção especial. São leis para os gays, para religiosos, para os negros e tantas mais diferenciações possíveis nesta diversidade infinita que é a natureza humana.

Ocorre que uma lei com direitos especiais, para ser eficaz, precisa conceder privilégios. Os beneficiados de leis especiais devem ter direitos que as pessoas, em geral, não têm. E isso por um reconhecimento de suas fragilidades. Se não fizer isso, é inócua; será apenas uma repetição do que já existe. Assim, uma lei com direitos especiais é a afirmação de que determinados tipos de pessoas merecem ser vistas de uma maneira diferente pela sociedade, com mais compaixão, mais piedade.

Por isso, uma lei com direitos especiais já é um tipo de discriminação. Ela já pressupõe que o tipo de pessoa protegida é diferente da coletividade. Não necessariamente uma distinção negativa, mas é, sim, uma distinção. É um reconhecimento, no mínimo, de que ela merece cuidado diferenciado.

O problema é definir quem são essas pessoas, quem merece tratamento distinto que corrobore a feitura de leis protetivas especiais.

E, claramente, está havendo um abuso na busca desses direitos. Qualquer distinção, ainda que não torne o indivíduo mais fragilizado que as outras pessoas, tem servido de pretexto para o requerimento de lei especial. Somos todos, assim, potenciais discriminados, que clamam por uma justiça feita aos berros

Você é negro, clame por seus direitos! É mulher, grite mais alto! (...) mostre ao mundo o quanto você merece proteção. Por que não, vocês, gordos, discriminados ininterruptamente? Loiras, tidas como uma espécie intelectualmente inferior? Crentes, sempre vistos como ignorantes? Baixinhos, relegados como menos aptos? Não há limites para quem pode reclamar pelo aconchego do colo estatal.

Apenas não esqueçam de um detalhe: enquanto a lei lhes protege, ao mesmo tempo afirma a inferioridade de vocês. Quando defende uma raça, pressupõe sua inferioridade social; quando protege a mulher, reconhece sua inferioridade física; ao criar mecanismos em favor dos deficientes físicos, sua óbvia inferioridade motora é realçada; quando toma a defesa dos doentes mentais, o faz por causa de sua inferioridade intelectual mesma.

Dessa forma, parece óbvio que se alguém deseja privilégios discrimina-se a si mesmo. Proclama que necessita de cuidados. Reconhece que, de alguma forma, por alguma circunstância, encontra dificuldades que precisam ser compensadas. Em suma, os grupos que buscam as benesses especiais da lei, consciente ou inconscientemente, declaram-se fragilizados.

Por tudo isso, quem quiser direitos, faça o seguinte: afirme-se um fraco, um inútil, alguém sem força para defender-se, que não produz, que não cresce, que não pode trabalhar. Com isso, se encaixará perfeitamente no perfil do excluído e, assim, receberá os olhares benevolentes do Estado. Ainda que, na prática, seus pares estejam colocados nos melhores postos da nação, dominando os meios de comunicação, as artes, a literatura, envolvidos em todas as atividades relevantes da sociedade. Ainda que, para defender esses mesmos direitos dos mais fracos, agridam, gritem e recebam milhões e milhões de reais, as mãos públicas sempre estarão estendidas para eles.

Por outro lado, se você for independente, auto-suficiente, alguém que produz, que emprega, que gera renda, que não onera o país, que não reclama por proteção aí, sim, aquele mesmo Estado lhe terá como uma potencial ameaça para a segurança da nação.

* Desde minha faculdade de Direito, gosto desta expressão: arcabouço jurídico. Ela me remete exatamente ao que parece uma descrição fiel da realidade: uma infinidade de normas inconciliáveis e incompreensíveis em seu conjunto.

- por Flavio Blanco

quinta-feira, 18 de abril de 2013

É Impossível o Homem ter Criado o Cristianismo


Frequentemente os sociólogos, antropólogos e toda sorte de "ólogos", afirma que o cristianismo (se referem à religião de um modo geral) foi fruto da gene humana. Dizem que no intento do homem sempre necessitar idolatrar e reverenciar alguém ou alguma coisa, ele criou para si um sistema de crenças - tão poderoso que perpetuou o tempo e atravessou gerações.

Tais comentários, porém, imerecem prosperar. Apresento 10 motivos pelos quais é impossível que o homem natural tenha criado o cristianismo:

1. O homem natural não busca a Deus. A palavra de Deus prescreve cristalinamente: "Não há ninguém que busque a Deus" (Rm 3.11). Ainda: "Assim diz o SENHOR: Ponde-vos nos caminhos, e vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos nele" (Jr 6.16 - grifo meu). Desta forma, não há qualquer lógica em se ponderar que o homem tenha criado o cristianismo, pois se a criatura faz algo que ela mesmo não está de acordo, no mínimo é um contra senso; para não dizer, uma estupidez.

2. O cristianismo humilha o homem. A Bíblia é clarividente com relação ao homem: "No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás" (Gn 3.19 - grifo meu). Ademais: "Ponha a sua boca no pó; talvez ainda haja esperança" (Lm 3.29). Nenhum racional criaria um "sistema religioso" para se auto humilhar - isso seria uma atitude nefasta. O orgulho é o que move o homem sem Deus (Tg 4.16).

3. O cristianismo se opõe ao desejo natural homem. O apóstolo Paulo evidencia grandemente a luta que o cristianismo causa ao homem interior: "Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo" (Rm 7.18-21). É absolutamente descabida a assertiva com respeito que o cristianismo foi criado para o homem ter um "norte" ou uma direção. No mínimo, se assim fosse, esse "norte" apontaria para seus desejos naturais e, não, criaria outros.

4. O cristianismo afirma que Deus é irado. Assim diz o salmista: "Deus é juiz justo, um Deus que se ira todos os dias. Se o homem não se converter, Deus afiará a sua espada; já tem armado o seu arco, e está aparelhado. E já para ele preparou armas mortais; e porá em ação as suas setas inflamadas contra os perseguidores" (Sl 7.11-13). Qual homem espúrio iria maquinar uma crença que afirma ser o "Supremo" um Senhor irado contra sua criatura? Seria o mesmo que desenvolver uma bomba para se suicidar.

5. O cristianismo exige abnegação e santidade. Prescreve a Lei de Deus: "Portanto santificai-vos, e sede santos, pois eu sou o SENHOR vosso Deus" (Lv 20.7). Também Pedro: "como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver" (1Pe 1.15). Buscar a santidade é algo oposto à natureza do homem, pois desta forma se lê: "E viu o SENHOR que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente" (Gn 6.5). Inverídica toda e qualquer movimentação no sentido de creditar ao homem a "criação" da perfeita e única crença.

6. O cristianismo demonstra a impossibilidade do homem crer em Deus. Registra o evangelista as palavras de Cristo: "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha os seus pintos debaixo das asas, e não quiseste?" (Lc 13.34 - grifo meu). Somente um desvairado de mente e coração para crer que este versículo ensina o livre arbítrio. Paulo esclarece a questão: "E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados, Em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência. Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também" (Ef 2.1-3). É evidente o arrazoado do apóstolo, demonstrando que, não fosse a mão graciosa e misericordiosa de Deus (Ef 1.4), o homem para sempre estaria morto em seus pecados. Se o homem houvesse criado tal cristianismo, plausível seria que houvesse articulado sua religião de maneira a lhe dar condições de alcançá-la.

7. O cristianismo fala de um salvador que foi morto. Categoricamente está escrito: "Homens israelitas, escutai estas palavras: A Jesus Nazareno, homem aprovado por Deus entre vós com maravilhas, prodígios e sinais, que Deus por ele fez no meio de vós, como vós mesmos bem sabeis; A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos" (At 2.22-23 - grifo meu) O homem natural odeia todo aquele que diz ser o salvador, pois o orgulho não lhe permite dobrar-se diante de outrem. A natureza humana se inclina para a morte, jamais para a vida. Se o cristianismo fosse criação de homens, no mínimo o salvador seria ele próprio.

8. O cristianismo fala de um céu com lugares contados. Firmemente está estabelecido: "Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste antes da fundação do mundo" (João 17.24). Em Paulo: "Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor" (Ef 1.4). Pedro: "O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós" (1Pe 1.20). João finaliza em Apocalipse: "E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo... A besta que viste foi e já não é, e há de subir do abismo, e irá à perdição; e os que habitam na terra (cujos nomes não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo) se admirarão, vendo a besta que era e já não é, mas que virá" (Ap 13.8; 17.8 - grifo meu). Por que os homens arquitetariam uma religião (no melhor sentido da palavra) onde os predestinados para a salvação já estariam contados? Certamente que o número dos eleitos é incalculável (Ap 5.11), mas jamais esse número pode ser incontável a Deus, pois cada verdadeiro filho de Deus já tem seu nome escrito.

9. O cristianismo prescreve um árduo e penoso remédio. Conquanto está escrito: "Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me" (Mt 16.24; Mc 8.34; Lc 9.23). Este, no entanto, não é o desejo do homem. O homem natural é bem expresso por Tiago: "dizeis: Hoje, ou amanhã, iremos a tal cidade, e lá passaremos um ano, e contrataremos, e ganharemos" (Tg 4.13). Não é do interesse do homem o tomar a cruz. Jamais o homem deseja sacrifícios. Pelo contrário, seu desejo é sempre de dizer: "Paz, paz; quando não há paz" (Jr 8.11).

10. O cristianismo prescreve duras punições aos falsos líderes. Salta aos olhos com nitidez: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia" (Mt 23.27). Novamente Cristo afirma a punição: "Virá o senhor daquele servo num dia em que o não espera, e à hora em que ele não sabe, E separá-lo-á, e destinará a sua parte com os hipócritas; ali haverá pranto e ranger de dentes" (Mt 24.50-51). Até mesmo aos bons mestres é advertido: "Meus irmãos, muitos de vós não sejam mestres, sabendo que receberemos mais duro juízo" (Tg 3.1). Não é crível que o homem tenha criado o cristianismo para poder manipular as massas, pois estaria agindo contrário ao seu propósito principal, afinal, estaria criando mecanismos de também ser condenado!

Impossível, portanto, o homem ter criado o cristianismo.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Rapazes Revoltados - Meninos Precisam de Pais


Recentemente, li um artigo extraordinário sobre o assunto do motivo por que tantos rapazes estão revoltados, chateados e rebeldes. A escritora desse artigo (Tiffani) tem cinco filhos, inclusive dois meninos com as idades de 14 e 2 anos. No laboratório de uma vida familiar feliz, estável e caótica, ela criou essa louca teoria: de que os meninos precisam de homens para lhes ensinar a ser homens. Loucura, não é?

À medida que Tiffani observava os padrões morais, atitudes, ética profissional e senso de responsabilidade da sociedade se deteriorarem, ela não conseguia deixar de especular se a falta de um homem forte na vida dos meninos os transforma de “doces, amorosos menininhos corados” em adolescentes monstruosos. E ela ficou pensando… será que a rebelião na adolescência é uma fase natural da vida, ou será que é causada por algo de que os meninos têm falta?

A premissa da teoria de Tiffani é que as mães precisam saber quando se retirar e deixar seus filhos do sexo masculino aprenderem a ser homens sob a tutela de seus pais (ou figuras paternas). Como todas as mães, Tiffani quer proteger seus meninos de ferimentos. Mas isso é bom a longo prazo? Talvez não. Tiffani está aprendendo quando afastar-se e deixar seu marido assumir a orientação de seus meninos.

À medida que amadurecem, os meninos nem sempre vão querer — ou precisar — proteção. Eles precisam de desafios, aventuras e atos de cavalheirismo. Os pais — os pais fortes — sabem quando afastar a proteção das mães e começar a treinar seus filhos a serem homens. A palavra-chave é treinamento.

O treinamento é decisivo. Meninos sem treinamento crescem e se tornam monstruosos: fora de controle, predatórios em cima das mulheres, irresponsáveis, incapazes ou indispostos a limitar seus impulsos movidos à testosterona para agressão ou sexo. Nossa atual sociedade está toda encardida com os prejuízos que sobraram dos meninos que nunca aprenderam o que é necessário para ser um homem. Lamentavelmente, esses “meninos adultos” muitas vezes procriam indiscriminadamente e despreocupadamente, então se recusam a ser pai para os filhos que eles produzem.

Mas homens treinados transformam a sociedade. Eles trabalham duro. Eles movem coisas pesadas. Eles constroem abrigos. Eles protegem, defendem e resgatam. Eles providenciam provisão para suas famílias. Eles fazem todas as coisas assustadoras, feias e sujas que as mulheres não conseguem (ou não querem) fazer. Homens treinados são, nas palavras do colunista Dennis Prager, a glória da civilização.

Conforme aponta Tiffani, os meninos precisam de homens para ajudá-los a estabelecer sua masculinidade de modo apropriado. Os homens entendem que os meninos precisam de experiências e desafios definidores para cumprir seus papéis biologicamente programados. As mulheres não entendem isso, mas não tem problema. Pais fortes (ou figuras paternas fortes) instintivamente intervirão e começarão a treinar os meninos como domar a testosterona, como trabalhar, como respeitar as mulheres, como liderar e defender e como eliminar ameaças.

O problema começa quando não há um modelo de papel masculino para um menino imitar. Se os homens estão ausentes, enfraquecidos ou indispostos a ensinar os meninos como se conduzir, então os meninos não aprendem como ser homens. É simples assim.

As mães não têm a capacidade de ensinar os meninos a ser homens. Não importa quanto amemos nossos filhos do sexo masculino, não temos essa capacidade. As mães querem ser mães porque, afinal, é o que fazemos. Protegemos, cuidamos e beijamos as feridas dos nossos meninos. Mas chega uma hora na vida de todo menino em que ele precisa se erguer acima dos beijos nas feridas e ser um homem.

Os homens não dão beijos nas feridas. É assim que eles se tornam guerreiros e protetores.

Lembro-me de quando o filho de 13 anos de nosso vizinho andou de bicicleta até nossa casa, uma distância de um quilometro e meio em difícil estrada de terra. Ele levou um tombo desagradável e chegou coberto de arranhões e sangue. Quando lhe perguntei o que havia acontecido, ele explicou sobre o tombo… então acrescentou um sorriso radiante: “Mas não tem problema. Sou menino”. Não é preciso dizer mais nada.

Se eu tivesse me descabelado com a situação dele, falando carinhosamente, agindo de forma excessivamente preocupada e beijando seus machucados, eu teria roubado dele a aventura de ter sobrevivido de seu acidente. Ele se orgulhou das cicatrizes de sua batalha, e a última coisa que ele queria era cobri-las com ataduras infantis.

O que acontece quando os meninos não têm um homem forte para lhes ensinar? Os resultados variam de indivíduos fracos e covardes a totais brigões. Dou um exemplo em meu blog sobre uma mulher dominadora com um marido fraco criando dois filhos do sexo masculino. Esses meninos estão crescendo num lar torcido e desordenado que vai contra a natureza humana e a programação biológica, e os meninos vão virar homens abrutalhados.

Meninos que crescem com nada senão a “proteção” de suas mães — sem nenhum homem forte para lhes dar a chance de acabarem com as ameaças — se tornam revoltados e cheios de amargura. Eles sabem que algo está errado. Eles sabem que têm de defender as mulheres, mas eles guardam tanto ressentimento de suas mães por “protegerem” a eles de todos os desafios que o modo como eles veem as mulheres fica distorcido.

Se o marido dessa mulher tivesse desempenhando seu papel como cabeça da casa, esses meninos poderiam ter se tornado homens diferentes. Se ele tivesse resgatado seus filhos do perpétuo amor protetor de sua esposa, seus filhos poderiam ser Homens em Treinamento em vez de Futuros Abrutalhados. Mas temo que seja tarde demais.

Creio que uma parte de criar filhos fortes e equilibrados vem de meninos observando suas mães honrarem seu pai. O lar em que a mãe e o pai respeitam um ao outro por suas várias forças biológicas cria os filhos da forma mais estável e equilibrada possível.

Meu marido e eu não temos filhos para criar e se tornarem homens. Mas nossas meninas estão aprendendo a admirar a verdadeira masculinidade, não potenciais abrutalhados ou fracos e covardes. Ajuda tremendamente que, em nossa vizinhança, estejamos cercados de pais responsáveis que estão criando excelentes rapazes — fortes, prontos para ajudar, protetores das mulheres, ansiando serem heróis.

Com que tipo de homem você pensa que quero que minhas filhas casem algum dia? O Homem de Verdade que assume seu papel biológico de protetor e guerreiro? Ou o Rapaz Revoltado que xinga a mãe e despreza o pai? Qual lhe parece o homem mais equilibrado e firme?

Nada disso é difícil demais de entender — ou, pelo menos, não devia. Infelizmente na cultura andrógina feminista de hoje, esse conceito se tornou motivo de desprezo e zombaria.

- por Patrice Lewis
Fonte: Facebook

terça-feira, 16 de abril de 2013

A Tragédia Social Gerada Pela Democracia


A democracia pode até ter começado com o grande ideal para conceder poder às pessoas; porém, depois de 150 anos de prática, os resultados estão aí e eles não são positivos.  Está mais do que claro que a democracia está mais para um arranjo tirânico do que para uma força libertadora. As democracias ocidentais estão seguindo o mesmo caminho já percorrido pelos países socialistas e, como era inevitável, se tornaram estagnadas, corruptas, opressoras e burocratizadas. Isto não aconteceu porque o ideal democrático foi subvertido, mas sim, e ao contrário, porque esta é exatamente a natureza inerente ao ideal democrático. Trata-se de uma natureza coletivista.

Se você quer saber como a democracia realmente funciona, considere este exemplo. George Papandreou, o político grego socialista, ganhou as eleições em seu país em 2009, com um slogan simples: "Há dinheiro!" Seus oponentes conservadores haviam reduzido os salários dos funcionários públicos e outras despesas públicas.  Papandreou disse que isso não era necessário. "Lefta yparchoun" era seu grito de guerra — há dinheiro.  Ele ganhou as eleições sem problemas.  Na realidade, não havia dinheiro nenhum, é claro — ou melhor, o dinheiro teve de ser fornecido pelos pagadores de impostos de outros países da União Europeia.  Mas, na democracia, a maioria está sempre certa e, quando tal maioria descobre que pode, por meio do voto, confiscar a riqueza alheia para si própria, ela inevitavelmente fará isso. Esperar que não o faça seria ingenuidade.

O que o exemplo grego mostra também é que as pessoas em uma democracia naturalmente se voltam para o estado para que este cuide delas.  Governo democrático significa ser governado pelo estado.  Como resultado, as pessoas irão sempre fazer exigências ao estado.  Elas irão se tornar cada vez mais dependentes do governo, para resolver seus problemas e orientar suas vidas. Qualquer problema que elas encontrem, elas esperarão que o governo os corrija.  Obesidade, abuso de drogas, desemprego, falta de professores ou enfermeiros, uma queda no número de visitas a museus, o que seja — o estado está lá para fazer algo que resolva isso.

Aconteça o que acontecer — um incêndio em um teatro, um acidente de avião, uma briga de bar —, elas esperam que o governo vá atrás dos culpados e garanta que nada semelhante aconteça novamente.  Se as pessoas estão desempregadas, elas esperam que o governo 'crie empregos'.  Se os preços da gasolina sobem, elas querem que o governo faça algo sobre isso.  No Youtube, há um vídeo de uma entrevista com uma mulher que acabou de ouvir um discurso do presidente Obama.  Quase chorando de alegria e emoção, ela exclama: "Eu não mais terei de me preocupar com o pagamento da gasolina para o meu carro ou da minha hipoteca". Esse é o tipo de mentalidade que a democracia cria.

E os políticos estão sempre dispostos a fornecer o que as pessoas exigem deles.  Eles são como o homem daquele provérbio: para quem tem apenas um martelo, tudo se parece com um prego.  Para cada problema da sociedade, eles se veem como os únicos capazes de solucionar esses problemas.  Afinal, é para isso que foram eleitos. Eles prometem que irão 'criar empregos', reduzir as taxas de juros, aumentar o poder de compra das pessoas, fazer com que a aquisição de casas seja acessível até para os mais pobres, melhorar a educação, construir parques infantis e campos desportivos para os nossos filhos, se certificar de que todos os produtos e locais de trabalho são seguros, fornecer serviços de saúde de qualidade e acessíveis para todos, acabar com os engarrafamentos, varrer a criminalidade das ruas, livrar os bairros de vandalismo, defender os interesses 'nacionais' perante o resto do mundo, promover a emancipação e lutar contra a discriminação em todos os lugares, verificar se os alimentos são seguros e se a água é limpa, 'salvar o clima', tornar o país o mais limpo, o mais verde e o mais inovador do mundo e banir a fome da face da terra.

Eles irão realizar todos os nossos sonhos e exigências, cuidar de nós desde o berço até o túmulo, e se certificar de que estamos felizes e contentes desde o início da manhã até o final da noite — e, claro, farão tudo isso sem elevar os gastos e ainda reduzindo impostos.

Tais são os sonhos que constituem a democracia.

Os pecados da democracia

Obviamente, a verdade é que isto simplesmente não tem como funcionar.  O governo não pode alcançar tudo isso.  No final, os políticos sempre irão fazer as únicas coisas que eles realmente sabem fazer:

1. Desperdiçar enormes quantias de dinheiro em problemas que são ou insolúveis ou transitórios;

2. Criar novas leis e regulações;

3. Criar comissões para supervisionar a implantação das suas leis.

Não há realmente nada mais que eles possam fazer, como políticos.  Eles não podem sequer pagar as contas de suas atividades, cuja fatura é enviada para os pagadores de impostos.

É possível ver as consequências desse sistema ao seu redor, diariamente:

Burocracia

A democracia gerou, em todo o mundo, um enorme inchaço burocrático.  A burocracia nos cerca e reina sobre nossas vidas com um poder cada vez mais arbitrário. Dado que tal aparato burocrático é ele próprio o governo, ele é capaz de assegurar que seus integrantes estejam bem protegidos contra as duras realidades econômicas que o resto de nós enfrenta.

Nenhuma burocracia jamais vai à falência; os próprios burocratas não podem ser demitidos e eles raramente entram em conflito com a lei, uma vez que eles são a lei.  Ao mesmo tempo em que gozam de impunidade, eles jogam um enorme fardo sobre o resto de nós, com as suas regras e regulamentos.  A abertura de novas empresas é impedida e desestimulada por uma imensidão de leis e de custos burocráticos que lhes são impostas.  Empresas já existentes também sofrem sob o peso da burocracia.  Os custos burocráticos para se empreender — por menor que seja o empreendimento — são aviltantes.

Os pobres e os que têm menos educação são os que mais sofrem com esse sistema.  Em primeiro lugar porque o custo adicional gerado pela burocracia encarece sobremaneira o valor final de qualquer empreendimento, fazendo com que o uso de uma mão-de-obra pouco produtiva seja muito custoso.  O resultado é um achatamento salarial.  Em segundo, porque os pobres também têm de arcar com o financiamento do aparato burocrático, e isso se dá por meio de encargos sociais e trabalhistas que encarecem o valor final do seu salário.  O resultado é um novo achatamento salarial.  E terceiro, porque é muito difícil para eles estabelecerem o seu próprio negócio, uma vez que eles não têm como enfrentar a selva burocrática; pobre não pode se dar ao luxo de gastar dinheiro com propina.

Parasitismo

Além dos burocratas, funcionários públicos e políticos, há um outro grupo de pessoas que se safa muito bem no sistema democrático: aquelas pessoas que comandam empresas e instituições que devem sua existência à generosidade do governo ou a privilégios especiais.  Pense nos gestores de grandes empresas nacionais que são protegidas pelo governo contra a concorrência, tanto por meio de tarifas de importação quanto por agências reguladoras que cartelizam o mercado e impedem a entrada de empresas concorrentes.  Pense naqueles setores industriais e agrícolas recebedores de fartos subsídios.  Pense nos grandes bancos e nas grandes instituições financeiras que são protegidas pelo Banco Central.

E há também as organizações sociais — sindicatos, movimentos raciais e sexuais, instituições culturais, a televisão pública, as agências assistenciais, os grupos ambientais e assim por diante — que recebem dinheiro diretamente do governo.  Muitas das pessoas que comandam tais organizações não apenas têm empregos lucrativos e estáveis, como também possuem ligações íntimas com a burocracia estatal e com políticos, algo que garante vários privilégios e muito poder a estas organizações.  Esta é uma forma de parasitismo institucionalizado, com a cumplicidade de nosso sistema democrático.

Megalomania

Frustrado por sua incapacidade de realmente mudar a sociedade, o governo lança regularmente megaprojetos para ajudar a recuperar um setor industrial decadente ou para servir a um outro propósito nobre. Invariavelmente, essas ações só aumentam os problemas e elas sempre custam muito mais do que o planejado.

Pense nas reformas educacionais, na reforma da saúde, nos projetos de infraestruturas e seus vários elefantes brancos da energia (o programa de etanol nos EUA e os projetos de energia eólica costeira na Europa são bons exemplos que mostram que a incompetência estatal independe da riqueza da nação).  As guerras também podem ser vistas como 'projetos públicos', realizados pelo governo para desviar a atenção de problemas internos, angariar apoio público, criar empregos para as classes desprivilegiadas e enormes lucros diretos para empresas favorecidas, as quais, por sua vez, patrocinam as campanhas eleitorais dos políticos e lhes oferecem empregos quando eles saem da vida pública. (Nem é preciso dizer que os políticos nunca lutam nas guerras que eles iniciam.)

Assistencialismo

Os políticos, que são eleitos para combater a pobreza e a desigualdade, naturalmente sentem que é seu dever sagrado continuar a introduzir novos programas sociais (e novos impostos para pagá-los).  Isso serve não só aos seus próprios interesses, mas também aos interesses dos burocratas responsáveis pela execução dos programas. O estado assistencialista ocupa hoje uma parte substancial dos gastos do governo, na maioria dos países democráticos.

Na Grã-Bretanha, o governo gasta um terço de seu orçamento com o estado assistencialista.  Na Itália e na França, esse número se aproxima de 40%.  Muitas organizações sociais (sindicatos, fundos de pensão de estatais, agências governamentais de emprego) têm interesse em preservar e expandir o estado assistencialista.  Típico da maneira como o governo democrático funciona, o estado não oferece nenhuma opção e não celebra contratos com os seus cidadãos. Todo mundo é obrigado a arcar com os enormes gastos do seguro-desemprego e pagar elevadas taxas para a Previdência Social, mas ninguém sabe os benefícios que terá no futuro.  O dinheiro que tiveram de entregar ao governo já foi gasto.  O inevitável colapso da Previdência Social que se aproxima é o exemplo mais notório desse tipo de libertinagem.

E sempre tenha em mente que o assistencialismo não serve apenas os 'desprivilegiados'. Uma enorme fatia de 'assistência' vai para os ricos — por exemplo, para os bancos que foram socorridos com montantes na ordem de US$700 bilhões (depois de os executivos terem se auto-premiado com bônus consideráveis), para as grandes empresas que vivenciam dificuldades e que o governo decretou serem "grandes demais para falir" e, é claro, para toda a sorte de funcionários públicos, que se aposentam com valores magnânimos.

Comportamento antissocial e crime

O estado assistencialista democrático estimula a irresponsabilidade e o comportamento antissocial.  Em uma sociedade livre, as pessoas que se comportam mal, que não conseguem manter as suas promessas ou que agem sem preocupação com os outros, perdem a ajuda de amigos, da vizinhança e da família.  No entanto, no atual arranjo, nosso estado assistencialista lhes diz: se ninguém mais quer ajudá-lo mais, nós ajudamos!

Assim, pessoas imprudentes e imediatistas são recompensadas por comportamentos antissociais.  Como elas estão acostumadas que o governo lhes forneça tudo de que elas necessitam, elas desenvolvem a mentalidade dos aproveitadores, daqueles que não querem trabalhar para o seu próprio sustento.  Para piorar a situação, legislações trabalhistas rígidas (assim como leis anti-discriminação) tornam difícil para os empregadores se livrarem de funcionários incompetentes.  Da mesma forma, os regulamentos governamentais tornam quase impossível expulsar alunos ou despedir professores que se comportam mal ou têm mau desempenho.

Em programas públicos de habitação, é muito difícil despejar alguém que seja um incômodo para os vizinhos.  Os grupos que se comportam mal em centros de acolhimento noturnos não podem ter a entrada recusada por causa de leis anti-discriminação.  Para agravar ainda mais, o governo muitas vezes cria programas assistenciais para grupos antissociais, como vândalos.  Na Inglaterra, por exemplo, há programas de assistência para hooligans.  Desta forma, a delinquência é recompensada e encorajada.

Mediocridade e padrões mais baixos

Em qualquer sociedade, a maioria tende a ser constituída pelos mais pobres e não pelos membros mais bem sucedidos e competentes.  Sendo assim, em uma democracia, há inevitavelmente uma pressão sobre os políticos para redistribuírem riqueza — para tirar dos ricos e dar aos pobres.  Desta forma, o sucesso empreendedorial e a excelência são punidos por impostos progressivos.  Logo, na democracia, é de se esperar que haja um emburrecimento da população e uma diminuição de normas gerais de cultura e etiqueta.  Onde a maioria reina, a mediocridade torna-se a norma.

Cultura do descontentamento

Em uma democracia, as divergências privadas estão continuamente se transformando em conflitos sociais.  Isso ocorre porque o estado interfere em todas as relações pessoais e sociais.  Tudo o que acontece de errado em algum lugar, desde uma escola pública mal gerenciada a um tumulto local, logo se transforma em um problema nacional (ou mesmo internacional) para o qual os políticos têm de encontrar uma solução.  Todo mundo se sente impelido e encorajado a impor sua visão do mundo sobre os outros. Grupos que se sentem injustiçados organizam bloqueios, protestos ou fazem greve. Isso cria um sentimento geral de frustração e descontentamento.

Visão de curto prazo

Em uma democracia, o incentivo principal dos políticos é o desejo de serem reeleitos.  Portanto, seu horizonte temporal dificilmente vai além das próximas eleições.  Além disso, políticos eleitos democraticamente trabalham com recursos que não são deles e que estão apenas temporariamente à sua disposição.  Eles estão apenas gastando o dinheiro dos outros.  Isso significa que eles não têm que ter cuidado com o que fazem e nem têm de pensar no futuro.  Por estas razões, políticas de curto prazo e imediatistas prevalecem em uma democracia.

Um ex-ministro holandês dos Assuntos Sociais disse certa vez que "os líderes políticos deveriam governar como se não houvesse mais eleições.  Dessa forma, eles seriam capazes de tomar a visão de longo prazo das coisas". Mas isso é exatamente o que eles não podem fazer, é claro.  Como o autor americano Fareed Zakaria disse em uma entrevista: "Eu acho que estamos diante de uma crise real no mundo ocidental. O que você vê é a incapacidade fundamental em toda a sociedade ocidental de fazer uma coisa, que é a de impor algum tipo de sofrimento de curto prazo para ganhos em longo prazo. Sempre que um governo tenta propor algum tipo de sofrimento de curto prazo, há uma revolta.  E a revolta é quase sempre bem sucedida".

Como as pessoas são encorajadas a se comportar como aproveitadores em uma democracia, e como os políticos se comportam mais como inquilinos do que os proprietários de imóveis, pois eles estão apenas temporariamente no cargo, este resultado não deve surpreender ninguém. Alguém que aluga ou arrenda alguma coisa possui muito menos incentivos para ter cuidado e pensar no longo prazo do que um genuíno proprietário.

Por que tudo continua piorando

Teoricamente, as pessoas poderiam votar por um sistema diferente, menos burocrático e menos desperdiçador. Na prática, isso não é provável que aconteça, já que existem muitas pessoas que têm um grande interesse em preservar o sistema.  E como o governo lentamente cresce, esse grupo cresce com ele.

Como o grande economista austríaco Ludwig von Mises apontou, a burocracia, em particular, resiste com unhas e dentes a qualquer tipo de mudança. "O burocrata não é apenas um empregado do governo", escreveu Mises,

Ele é, sob uma constituição democrática, ao mesmo tempo, um eleitor e, como tal, uma parte do soberano, seu empregador.  Ele está em uma posição peculiar: ele é o empregador e o empregado. E seu interesse pecuniário, como funcionário, está acima de seu interesse como empregador, já que ele recebe muito mais dos recursos públicos do que contribui para eles. Esta dupla relação se torna mais importante à medida que o número de pessoas na folha de pagamento do governo aumenta.  O burocrata, como eleitor, está mais ansioso em obter um aumento do que em manter o orçamento equilibrado. Sua principal preocupação é fazer inchar a folha de pagamento.

O economista Milton Friedman descreveu quatro maneiras de se gastar dinheiro.  A primeira é quando você gasta o seu dinheiro com você mesmo.  Nesse caso, você tem um incentivo para buscar qualidade e gastar o dinheiro de forma eficiente.  Este é o modo como, geralmente, o dinheiro é gasto no setor privado.  A segunda maneira é gastar o seu dinheiro com outra pessoa — por exemplo, quando você compra jantar para alguém.  Nesse caso, você certamente se preocupa com a quantidade de dinheiro que você gasta, mas está menos interessado na qualidade.  A terceira maneira é quando você gasta o dinheiro de outra pessoa consigo mesmo, como quando você almoça à custa de sua empresa.  Nesse caso, você terá pouco incentivo para ser frugal, mas você vai se esforçar para escolher o melhor almoço.  A quarta maneira é quando você gasta o dinheiro de alguém com outra pessoa.  Nesse caso, você não tem motivos para se preocupar com a qualidade e nem com o custo.  Esta é a maneira como, geralmente, o governo gasta o dinheiro dos impostos.

Os políticos raramente são responsabilizados pelas medidas que implementam e que acabam sendo prejudiciais no longo prazo.  Eles recebem elogios por suas boas intenções e pelos resultados iniciais positivos de seus programas.  As consequências negativas, que surgem no longo prazo (por exemplo, dívidas que precisam ser reembolsadas), serão da responsabilidade de seus sucessores.  Por outro lado, os políticos têm pouco incentivo para executarem programas que gerem resultados somente depois que eles já deixaram o cargo, pois tais resultados serão creditados aos futuros líderes.


Assim, os governos democráticos, invariavelmente, gastam mais dinheiro do que recebem.  Eles resolvem esse problema aumentando impostos ou, ainda melhor — uma vez que as pessoas que têm de lhes pagar não ficarão nada satisfeitas —, tomando empréstimos ou simplesmente imprimindo o dinheiro. (Note que eles tendem a contrair empréstimos junto a seus bancos favoritos, os quais posteriormente serão resgatados pelo governo, caso tenham problemas).  Eles raramente cortam seu próprio orçamento. Quando eles falam em 'cortar', isso normalmente significa um crescimento mais lento dos gastos.
Imprimir dinheiro, é claro, leva à inflação, o que implica uma redução constante no valor da poupança das pessoas e no seu poder de compra.  Pedir dinheiro emprestado faz com que a dívida nacional aumente e, consequentemente, deixe para a geração futura o pagamento dos juros. Atualmente, as dívidas públicas de quase todas as democracias do mundo se tornaram tão altas, que é improvável que venham a ser quitadas algum dia.  O que é pior é que algumas instituições, como fundos de pensão, compraram maciçamente essa dívida pública, sob a suposição de que este seria um bom investimento de longo prazo.  Isso é uma piada cruel.  Muitas pessoas nunca irão receber a pensão com que contavam porque o dinheiro que colocaram em seus fundos de pensão já foi desperdiçado.

No entanto, apesar de todos esses problemas que a democracia nos traz, continuamos a esperar e a acreditar que, após as próximas eleições, tudo vai mudar.  Isso nos deixa presos em um círculo vicioso: o sistema não entrega o que promete, as pessoas se tornam frustradas, os políticos fazem cada vez mais promessas, as expectativas ficam ainda maiores, assim como os inevitáveis desapontamentos.  E tudo se reinicia.  Em uma democracia, os cidadãos são como alcoólatras que precisam beber cada vez mais para ficarem embriagados, resultando em uma ressaca ainda maior.  Em vez de concluírem que devem ficar longe do álcool, eles querem ainda mais. Eles esqueceram completamente de como cuidar de si mesmos e abrindo mão da responsabilidade própria e do comando de suas próprias vidas.

- por Frank Karsten & Karel Beckman
Fonte: Instituto Ludwig Von Mises Brasil

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