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sexta-feira, 26 de abril de 2013

Graça Comum: Uma Doutrina Carregada de Perigo


Resumindo, a questão não é se os cristãos têm uma tarefa neste mundo ou não, mas em que esta tarefa consiste e quais são as bases escriturísticas para ela. Kuyper, como vimos, encontrou base na doutrina da graça comum. Esta doutrina, ou pelo menos a forma como ele a formulou, é passível de sérios questionamentos. Se ele quer somente significar por graça comum aquilo que a Igreja sempre compreendeu, ou seja, que Deus graciosamente dispõe, a todos os homens, o brilho do sol e o cair a chuva, sobre justos e injustos, poucos na comunidade Reformada teriam problema com isso. E mais, se graça comum para ele significa que Deus deseja que Seu Evangelho seja pregado a todo o mundo e oferecer Sua graça a todos, a maioria vai concordar de coração. Mas a versão de Kuyper para essa doutrina inclui muito mais que isso. Para ele, graça comum é primariamente uma graça direcionada à redenção do cosmo e da cultura.

Enraizando esta doutrina no decreto divino da predestinação ele foi capaz de construir um sistema onde o plano de Deus para Sua criação é realizado através de um duplo caminho: os eleitos são trazidos à salvação por Cristo como Mediador da redenção (graça particular) e o cosmo, com todo o seu potencial para a cultura, é redimido por Cristo como Mediador da criação (graça comum).

Tal concepção tem levado essencialmente a uma visão otimista da cultura e do mundo. Não que Kuyper mesmo tenha perdido sua visão do pecado e suas terríveis consequências para a raça humana e para o cosmo. Ele acreditava piamente na antítese, portanto, na diferença entre graça comum e particular.

No entanto, o mesmo não pode ser dito dos seus discípulos. Se alguns tiveram problemas com a teoria da graça comum porque viram nela uma ameaça para a graça particular ou salvadora, outros ficaram felizes com ela, porque oferece um escape do que eles consideram uma visão muito rígida de separação dos cristãos e o mundo. Desse modo a graça comum abriu a porta para o mundanismo.

O Neocalvinismo é diferente do velho e clássico Calvinismo? Sim, em muitos aspectos. W. Aalders, um erudito de renome nos Países Baixos, que tem estudado este assunto integralmente, não hesita em se referir à Kuyper e a todo movimento neocalvinista como “o grande descarrilamento”. Em seu ponto de vista, Kuyper com sua ênfase exagerada na cultura e envolvimento social, contribuiu grandemente para o que ele chama de a externalização das doutrinas da graça, especialmente justificação e regeneração. Nos círculos neocalvinistas, diz ele, a Justificação não é condenada, mas não é mais experimentada como foi por Lutero, Calvino e todos que vivem pela Palavra de Deus, mas é algo que qualquer humano pode experimentar como uma filosofia cristã. O que sabe um neocalvinista sobre a Justificação, como uma ocorrência interna, em que a Palavra viva, em união com o Espírito, introduz um pecador na realidade espiritual de Cristo e Seu reino? Pensamentos especulativos, abstratos e filosóficos têm eliminado a obra soberana, espiritual e interna da Palavra, tornando-a um conceito cerebral e intelectual. Uma ideia abstrata, orgânica da regeneração como uma maturação vagarosa da semente tem tomado lugar da regeneração e justificação pela Palavra de Deus e Seu Espírito.

O zelo de Kuyper pela realeza de Cristo no mundo levou a uma aceleração do processo de secularização dos valores espirituais. Através de um aumento cada vez maior do contacto com o mundo e uma exposição ao espírito do mundo, a fé Reformada se tornou mais e mais estereotipada ou vazia. Alguns dos amigos mais chegados de Kuyper ficaram alarmados por essa crescente onda nos círculos Reformados. J. C. Aalders, mesmo um neocalvinista, alertou seus colegas numa conferência para ministros em 1916 com estas palavras:

“Nosso povo Reformado, tendo gradualmente entrado em contacto com a cultura do mundo, está em grande perigo de ser influenciado pelo humanismo. Na mesma proporção em que o misticismo e o anabatismo tem sido superado, o povo de Deus tem reconhecido seu chamado terreno. Mas agora nós enfrentamos um perigo de contaminação pelo espírito deste século. A doutrina da graça comum, crida e colocada em prática pelo nosso povo, abre a porta para o mundo como também para o perigo da conformação com o mundo. Não temos escapado de um desequilíbrio em nosso alimento espiritual. Nem suficiente atenção tem sido dado às necessidade do coração e da alma. Obediência externalizada não é suficiente para a salvação”.

Cerca de uma década antes, H. Bavinck escreveu uma introdução para uma tradução holandesa dos sermões dos grandes pastores escoceses Ralph e Ebenezer Erskine:

“Aqui temos um elemento importante que tem faltado largamente entre nós. Falta-nos este conhecimento espiritual da alma. Parece que não sabemos mais o que é pecado e graça, culpa e perdão, regeneração e conversão. Conhecemos estas coisas em teoria, mas não as conhecemos na terrível realidade da vida”


É sabido que Bavinck ficou muito desiludido com certos aspectos do movimento neocalvinista, no fim de sua vida, pelo que observou resultar dele, ainda que não intencionalmente, mundanismo, superficialidade e orgulho.

Em que o neocalvinismo tem ultimamente contribuído e levado, pode ser visto na apostasia que tomou conta da maioria das igrejas que Kuyper lutou tanto para estabelecer a Gereformeerde Kerken in Nederland — a Igreja Reformada na Holanda — e de uma forma mais branda nas igrejas irmãs da América do Norte — a Igreja Cristã Reformada. Possa Deus nos ajudar a evitar cometer os mesmos erros e que Ele nos preserve na fé que uma vez foi dada aos santos pelos apóstolos, redescoberta e estabelecida pelos Reformadores e seus sucessores os Puritanos. O que precisamos não é neocalvinismo, mas a antiga e clássica fé Reformada, que é Escriturística, confessional e experimental.

- por Cornelis Pronk
- retirado de: Neocalvinismo - Uma Avaliação Crítica (págs. 19-21)

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