"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Sétimo elemento constitutivo do culto público: Cântico de Salmos (parte 3 - O Cântico aceitável ao Senhor) - Sermão pregado dia 22.01.2012



Sétimo elemento constitutivo do culto público: 
Cântico de Salmos (parte 3 - O Cântico aceitável ao Senhor) - 
Sermão pregado dia 22.01.2012

Tendo em vista o que já vimos até o momento, é preciso que entendamos qual o cântico aceitável a Deus, isto é, o que Deus recebe como aroma agradável, "um holocausto para o SENHOR, cheiro suave; uma oferta queimada ao SENHOR" (Êx 29.18), pois se nosso sincero desejo é de "[Louvar] o nome de Deus com um cântico, e engrandecê-lo-ei com ação de graças. [E] Isto será mais agradável ao SENHOR do que boi, ou bezerro que tem chifres e unhas" (Sl 69:30-31), precisamos compreender o que o Senhor requer de seus adoradores.

Como já temos visto, tudo o que o crente deve fazer precisa visar a glória de Deus (1Co 10.31), mas também já observamos na parte 1 (clique aqui) que nem tudo o que fazemos é aceitável a Deus, ainda que seja feito todo coração e com toda boa intenção desse mundo (conforme exemplo de Saul).

"E pela manhã cedo se levantaram e saíram ao deserto de Tecoa; e, ao saírem, Jeosafá pôs-se em pé, e disse: Ouvi-me, ó Judá, e vós, moradores de Jerusalém: Crede no SENHOR vosso Deus, e estareis seguros; crede nos seus profetas, e prosperareis; E aconselhou-se com o povo, e ordenou cantores para o SENHOR, que louvassem à Majestade santa, saindo diante dos armados, e dizendo: Louvai ao SENHOR porque a sua benignidade dura para sempre" (2 Cr 20:20-21 - grifo meu).

O povo do Antigo Testamento bem sabia que a palavra do Senhor se manifestava por meio de Seus profetas e mestres que guiavam o povo rumo à cidade prometida e posteriormente instruíam-no por meio de leis positivadas (escritas, registradas) e que visavam sua estruturação diante de Deus de Israel. O escritor de Crônicas lembra ao povo sobre a importância de ouvirem e crerem "nos seus profetas", pois aprouvera ao Senhor que naquele tempo se comunicasse com o povo mediante o ofício de profeta e também tivesse homens que representavam o povo diante d'Ele.

"E os levitas, que eram cantores, todos eles, de Asafe, de Hemã, de Jedutum, de seus filhos e de seus irmãos, vestidos de linho fino, com címbalos, com saltérios e com harpas, estavam em pé para o oriente do altar; e com eles até cento e vinte sacerdotes, que tocavam as trombetas) [esse parêntese vem do v.11]. E aconteceu que, quando eles uniformemente tocavam as trombetas, e cantavam, para fazerem ouvir uma só voz, bendizendo e louvando ao SENHOR; e levantando eles a voz com trombetas, címbalos, e outros instrumentos musicais, e louvando ao SENHOR, dizendo: Porque ele é bom, porque a sua benignidade dura para sempre, então a casa se encheu de uma nuvem, a saber, a casa do SENHOR" (2 Cr 5:12-13).

A palavra do Senhor era clara quanto ao mandamento: apenas os sacerdotes da ordem levítica deveriam cantar e tocar os instrumentos diante do Senhor. Qualquer homem que não fosse dessa linhagem específica não deveria se aproximar e muitíssimo menos tentar entoar louvores ao Senhor no Seu santo lugar, pois eram somente os levitas que tinham o ofício de render glórias ao Senhor em seu santo templo (1Cr 6.33; 25.6). Porém, não somente isso, esses eram os únicos compositores autorizados, únicos mestres autorizados e únicos executores autorizados, ninguém de fora poderia vir e ajudar a tocar os símbalos ou outro instrumento, ou ainda querer ajudar a compor determinado hino ao Senhor, pois esse ofício era estritamente destinado aos levitas. Também notamos que Davi e Salomão escrevam vários dos Salmos, mas ainda que não fossem sacerdotes levíticos, eram tipos de Cristo e profetas da Igreja/Estado do Senhor - por isso tinham autorização para comporem tais cânticos.

"E ministravam [todos os nomes mencionados nos versículos anteriores] diante do tabernáculo da tenda da congregação com cantares, até que Salomão edificou a casa do SENHOR em Jerusalém; e estiveram, segundo o seu costume, no seu ministério" (1Cr 6:32).

Quando falamos de louvor ao Senhor, devemos fazer a seguinte distinção: o que devemos cantar? E ainda: devemos tocar algum instrumento? Note que a pergunta é o que devemos fazer e não o que podemos, pois aí reside o grande trunfo da teologia reformada, isto é, de que a Bíblia nos ordena certas práticas, sendo negligência de nossa parte quando nos baseamos em subterfúgios humanos para explicar a própria Escritura. Precisamos então responder a pergunta: o que devemos cantar?

Antes de iniciarmos a solução desse problema, precisamos analisar algumas questões. Muitas variáveis poderiam ser postas aqui, ou seja, se podemos cantar qualquer música ou apenas músicas de acordo com a reta doutrina, se apenas a própria Bíblia ou apenas as músicas da Bíblia, se apenas os salmos das Escrituras... Para tanto, é preciso que nos foquemos no que já vimos na parte 1, quer dizer, de nada adiantaria sustentar que podemos cantar qualquer música, se não temos base bíblica para isso. Também será inútil toda opinião para qualquer outra visão que não tenha respaldo bíblico - daí nos focarmos hoje no cântico exclusivo de salmos (as objeções quanto à essa prática - e suas respectivas respostas - eu deixarei para o final dessa série de pregações). 

"Louvai ao SENHOR. Cantai ao SENHOR um cântico novo, e o seu louvor na congregação dos santos" (Sl 149:1). Essa citação é muito clara em nos ensinar que na "congregação dos santos", isto é, no culto público, devemos louvar ao Senhor. Cantar ao Senhor não é mera questão de conveniência, mas de ordem divina. Contudo, o que aqueles santos homens cantavam na congregação do santos?

"Louvai ao SENHOR, e invocai o seu nome; fazei conhecidas as suas obras entre os povos. Cantai-lhe, cantai-lhe salmos; falai de todas as suas maravilhas" (Sl 105:1, 2; Sl 47:6; Sl 68:4; Sl 98:5). Como vimos acima, apenas os levitas foram autorizados a comporem as músicas e tocarem instrumentos ao Senhor. Esse precisa ser um ponto de grande importância para nós, pois se naquele tempo somente os levitas tinham a autorização do Altíssimo para compor as músicas que seriam cantadas no templo, precisamos compreender que, haja vista o ofício de levita ter cessado e também o de profecia, não temos mais autorização bíblica para compormos novos hinos de louvor. Certamente que isso não é um empecilho ou proibição para algum cantor cristão compor suas músicas, mas no que diz repeito ao canto público durante o culto, nenhum homem pode igualar sua composição àquela feita pela inspiração divina e revelada nos Salmos. [1]

"Ao tratar acerca do culto com os coríntios, Paulo lhes disse: “Que fazer, pois, irmãos? Quando vos reunis, um tem salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação. Seja tudo feito para edificação” (1 Coríntios 14:26 RA). Aqui o apóstolo estava abordando sobre as divisões que havia na igreja coríntia com respeito aos dons espirituais, divisões estas que se manifestavam no culto. Então, ele lhes lembra que cada um tinha com o que contribuir para a edificação, e, claramente, fala sobre dons revelacionais, tais como 'doutrina', 'revelação', 'outra língua' e 'interpretação'. Neste rol, Paulo aludiu a 'salmo', com referência a um cântico inspirado, haja vista que todos os outros termos subtendem comunicação inspirada da Palavra de Deus. O contexto não deixa dúvidas de que tal cântico era inspirado". [2]

Já tivemos a oportunidade de vermos em outra ocasião (clique aqui) a magnitude e suficiência das Escrituras para nós (2Tm 3.16, 17) - e agora acrescento: se as Sagradas Escrituras são suficientes para nos tornar "perfeitamente habilitados" quanto à doutrina e à pratica cristã, por quê não seriam capazes de também nos serem perfeitas para nosso cântico ao Senhor? Quer dizer, muitos homens reconhecem - na teoria - que a Bíblia é sua regra de fé e conduta, porém acham cantar aquilo que a Bíblia nos ensina é ser "ultrapassado" ou ainda, "neo-puritano". [3]

Todo problema em torno dessa questão surge sobre a licitude de se cantar apenas os salmos ou poder-se cantar outros hinos escritos por homens. O problema, contudo, é que os defensores do cântico de hinos não inspirados, além de passarem por cima das Escrituras, "esmagam" também os grandes exegetas bíblicos que já pisaram nessa terra - onde na sua grandiosa maioria eram árduos defensores da salmodia exclusiva. 

A grande divisão entre os defensores da salmodia exclusiva e os dos hinos nos inspirados, diz - também - respeito a duas passagens do apóstolo Paulo (Ef 5.18,19 e Cl 3.16).

- "E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito; Falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais; cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração" (Ef 5:18-19).
- "A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao Senhor com graça em vosso coração" (Cl 3:16).

"Em ambas as passagens Paulo usou os termos salmos (gr. ψαλμος - psalmos), hinos (gr. υμνος – humnos) e cânticos (ωδη - ode)". [4] Os adeptos dos cânticos extra bíblicos entendem essas três palavras paulinas como se ele estivesse nos orientando a cantar além dos salmos, também "hinos e cânticos espirituais" - estes últimos como sendo canções feitas por homens após a era apostólica. Para eles, apenas se cantar os salmos seria restringir a liberdade do homem de oferecer seu louvor ao Senhor por meio de suas composições. Já para aqueles que defendem a salmodia exclusiva (daqui em diante designada por S.E.), Paulo não está falando de três coisas distintas, e sim tão somente de uma.

Ora, já dever-nos-ia ser conhecido que muitas vezes a literatura bíblica nos fala a mesma coisa através de sinônimos, tipificando assim a ênfase que deseja dar ao ensino. "Por exemplo, Moisés ao clamar a Deus na ocasião da segunda doação das tábuas da Lei inscrita em pedra, após o pecado de idolatria do povo, referiu-se ao Senhor como aquele '... que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado...' (Êxodo 34:7 RA). Tal constatação pode ser vislumbrada também no Novo Testamento, onde a mentalidade hebraica é expressa no idioma grego. Ao responder sobre qual é o maior dos mandamentos, Jesus disse: '... Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento' (Mateus 22:37 RA)". [5]

É a partir desse fato que os defensores da S.E. nos dizem que Paulo não estava a dizer sobre três coisas distintas, mas apenas sobre uma. 

O grandioso puritano John Gill (1697 - 1771) expressou sua exegese dessa forma: "Pelo nome Salmos, é referido aos Salmos de Davi e outros que compõem o livro que assim chamamos; para os outros salmos não. Por hinos entendemos não como se fossem feitos por um bom homem mas sem a inspiração do Espírito Santo e elevado ao mesmo nível daquele e para ser cantado com eles para a edificação das igrejas, mas estes são apenas um outro nome para o Livro de Salmos; o título em execução pode também ser chamado de O Livro dos Hinos conforme entende Ainsworth; e o salmo que nosso Senhor cantou com seus discípulos após a ceia é chamado de hino; e então os salmos geralmente são chamados de hinos por Philo, o judeu, e cânticos e hinos por Josefo [historiador da igreja 37 – 100 d.C]; e... 'cânticos e louvores', ou 'hinos' no Talmude [documento importante para judeus]; e por 'cânticos espirituais' entende-se também os Salmos de Davi, Asafe e os títulos de muitos de seus cânticos, e as vezes um salmo e cântico, e cântico e salmo, um cântico de graus junto com todos os cânticos escriturísticos escritos por homens inspirados e que são chamados de “espirituais” porque são iniciados pelo Espírito de Deus, consistindo de questão espiritual e designado para a edificação espiritual e estão em oposição com tudo que é profano, músicas soltas e devassas. Essas três palavras respondem... aos muitos títulos dos Salmos de Davi – de onde parece ser essa a intenção do apóstolo, de que isso dever-se-ia cantar nas Igrejas Cristãs; daí ele dizer na próxima cláusula:

cantando e fazendo melodias em seus corações ao Senhor”. Cantar é algo diferente da oração, então a partir do agradecer a Deus que é mencionado em Efésios 5.20, isso também é um dever – não um louvor mental a Deus - por isso é que é chamada de língua e ensino, e admoestação -, mas um louvor a Deus com o movimento da voz, e isso é justamente realizado quando o coração e a voz concordam; quando há uma melodia no coração, bem como na língua, porque cantando e louvando de coração é cantar com, ou a partir do coração, ou de coração...". [6]

"Em primeiro lugar, perceba que estas palavras, 'salmos, hinos, cânticos espirituais,' todas se referem aos Salmos na Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento que é comumente citada no Novo Testamento. Nela, 67 Salmos são chamados 'salmos', 34 são chamados 'cânticos', e 6 são chamados 'hinos'. Treze tem o título duplo, 'salmo e cântico,' três tem o título duplo, 'salmo e hino,' e um (Salmo 76) tem os três termos no título.

Em segundo lugar, as outras referências a 'hinos' no Novo Testamento (Mt 26.30 e Mc 14.26) não se referem à composições humanas, mas ao assim chamado hallel - os Salmos de adoração que eram cantados durante e após a Páscoa (Salmos 113 - 118).

Em terceiro lugar, Colessenses 3.16 nos fala que é pelo cântico dos salmos, hinos e cânticos espirituais que nós temos a palavra de Cristo habitando em nós ricamente. É difícil ver como isto pode se referir a qualquer coisa além da própria Escritura". [7]

Por fim, vemos também que esse não foi um entendimento isolado de alguns homens, mas foi expresso pelos piedosos homens que fizeram a Confissão de Fé de Westminster (expresso no cap. XXI, seção V) e também o Diretório de Culto de Westminster (além do Breve e Maior Catecismo) - donde lemos: "É dever dos cristãos louvar a Deus publicamente cantando Salmos juntos na Igreja, e também em particular na família. Ao cantar os Salmos, a voz deverá ser afinada e ordenada com seriedade; mas o cuidado maior precisa ser o de cantar com o entendimento e com graça no coração, erguendo melodias ao Senhor. Para que toda a Igreja possa se unir no canto, todas as pessoas que sabem ler deverão ter um hinário dos Salmos; e os demais que não estejam incapacitados por idade ou outro motivo, são exortados a que aprendam a ler. Mas no momento, quando há muitos na Igreja que não sabem ler, é conveniente que o Ministro [Pastor], ou algum outro indivíduo apto por ele e os outros presbíteros leia os Salmos, cada verso por sua vez, antes de ser cantado" [8]

Infelizmente muitos argumentam que Ef 5.19 e Cl 3.16 não estão inseridos num contexto de culto público, mas questionamos tal esquiva de se seguir a S.E., pois "Se salmos, hinos e cânticos espirituais são os limites do material de cânticos para o louvor de Deus, nos atos menos formais de adoração, quanto mais eles serão limites no ato mais formal de adoração". [9] Isto é, é contra a lógica bíblica Deus instituir o cântico de seu próprio hinário durante as atividades do dia-a-dia e durante a "congregação do santos" (cf. Sl 149,1), onde louvamos corporativamente ao Senhor em "espírito e em verdade", termos a autorização de cantarmos apenas uma "boa e bela música". Ora, se o Altíssimo tivesse de fazer alguma diferença segundo a ordem de santidade, seria mais apropriado cantar os Salmos no culto público e nos deixar cantar nossas próprias músicas no cotidiano, não? Ou acaso o Senhor não tem prazer na reunião do santos?

Semana que vem veremos o testemunho da igreja primitiva sobre o uso de Salmos como único hinário autorizado e também as bênçãos que decorrem desse uso.

Notas:
[1] ISBELL, Sherman. Fonte: Westminster Confession. Em conversa via FaceBook com o professor Salomão Rod: "Ali [no livro] ele trata da necessidade de Inspiração Divina e Ordem Divina para composição dos Salmos, de modo que todos autores dos Salmos são profetas".
[2] LIMA, Célio. Extraído do blog do autor - Vox Reformata
[3] Neo-puritano foi um infeliz termo cunhado por alguns homens contrários à plena adesão da Confissão de Fé de Westminster (CFW) e dos princípios seguidos pelos reformadores e puritanos. Para eles, nós que defendemos a salmodia exclusiva somos inovadores, pois - segundo pensam - nem os reformadores, nem os puritanos chegaram a um consenso sobre isso. O problema todo é que eles negam o que sua própria confissão (CFW) diz! Isto é, que deve-se cantar os salmos no culto público (Cap. XXI, Seção V).
[4] Op. Cit. LIMA, Célio.
[5] Apud.
[6] GILL, John. Fonte: Bible Study Tools - tradução livre.
[7] HANKO, Ronald. Fonte: Monergismo
[8] Disponível na internet
[9] SCHWERTLEY, Brian - Salmodia Exclusiva: Uma Defesa Bíblica. Fonte: Reformed Online

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