"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Sétimo elemento constitutivo do culto público: Cântico de Salmos (parte 4 - A Bênção do Cântico Ordenado) - Sermão pregado dia 29.01.2012



Sétimo elemento constitutivo do culto público: 
Cântico de Salmos (parte 4 - A Bênção do Cântico Ordenado) - 
Sermão pregado dia 29.01.2012

"E as ensinarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te e levantando-te" (Dt 6.7). A palavra do Senhor foi clara ao povo de Israel: ensine seus filhos sobre a minha lei e não os deixem órfãos de sua história.

É lamentável que um número sem fim de professos da fé cristã não saibam de onde vieram, o que fizeram seus ancestrais, quais as músicas eram cantadas e como dava-se o culto daqueles antigos. Creio que parte desse desserviço ao evangelho é feito porque as pessoas não conseguem olhar para determinada doutrina e desvencilhá-la de seu tempo histórico (como se a doutrina fosse fruto do mero historicismo), quer dizer, dizer ser edificante ler sobre as doutrinas expostas pelos reformadores, é entusiasmante ler sobre os puritanos, mas - conforme dizem - não é agradável segui-los em suas práticas. Essa dicotomia é algo maligno à sã doutrina; não que devamos copiar elementos característicos das épocas (tais como vestimenta - porém sua modéstia deve ser seguida -, empregos, passatempos...), mas quando falamos sobre "seguir os reformados e puritanos", sempre o que vem à mente dos desavisados é que não estamos tentando trilhar o mesmo caminho, mas que temos - quase que - um amor por antiguidades e velharias, como se os reformados e puritanos tivessem cantado os salmos apenas por causa de sua época, e que hoje, nós - os "modernos" - devemos nos ater ao tempo em que vivemos. Aliás, dentro desse extenso número que desconhece sua história, ainda há aqueles que não somente são ignorantes para com ela, mas também negam-a, e mais, desprezam todo testemunho proferido por aqueles que o antecederam. 

Conforme vimos na semana retrasada, nós ainda estamos obrigados à observância da lei cerimonial, mas não mais em seus tipos físicos, e sim espirituais e concretizados em Cristo Jesus. Também notamos posteriormente que os únicos autorizados a comporem hinos ao Senhor em seu templo eram os sacerdotes da tribo de Levi e todos eles sob a sublime inspiração do Senhor. Desses dois pontos concluímos que, ainda que não tenhamos mais levitas e profetas, contudo isso não nos dá autorização para entender que agora temos o aval para instituirmos nossas próprias músicas ao Senhor em Seu culto público, pois conforme já apontado, o ofício de sacerdotes e compositores musicais era algo estritamente ligado à revelação de Deus, ou seja, não podemos desejar ter a prerrogativa de instituirmos novas formas de louvor aceitável ao Senhor, pois tudo que Lhe aprouve revelar ao nosso canto, assim já o fez por meio dos profetas do Antigo Testamento.

Se ainda temos um templo (que é nosso Senhor Jesus Cristo), ainda precisamos cantar as músicas utilizadas no templo do Antigo Testamento (e também no Novo Testamento - por Jesus e pelos apóstolos), pois o hinário deixado pelo Senhor (nosso livro conhecido como Salmos) foi estritamente autorizado e inspirado por Ele mesmo, não devendo homem algum achar que está livre para oferecer qualquer coisa contrária ao que Ele instituiu. Se ainda temos um templo, ainda temos um hinário.

Calvino expressou sua convicção dizendo: "Porque o que Santo Agostinho disse é verdade, que ninguém pode cantar nada digno a Deus excepto o que tem recebido de Deus. Portanto, onde quer que olhemos procurando ao longe e ao largo, não vamos encontrar nenhumas músicas melhores, nem mais adequadas para esse efeito do que os Salmos de David, que o Espírito Santo fez e transmitiu a ele. Assim, cantando-os, poderemos ter a certeza de que nossas palavras vêm de Deus como se Ele viesse a cantar em nós para a Sua própria exaltação". [1]

Alguns outros testemunhos são úteis:

"Constituição Apostólica (atribuída a Clemente de Roma [c.90-100] e compilada no final do quarto século): 'As mulheres, as crianças e os trabalhadores mais humildes, podem repetir os Salmos de Davi; cantem-no em casa e fora dela: tomem os Salmos para exercício de sua piedade e refrigério de suas almas. Assim terão respostas prontas à tentação, e estarão sempre preparados para orar a Deus, e louvá-lo, em qualquer circunstância, com suas próprias palavras...".

"Eusébio: (admirável historiador, chamado 'O Pai da História da Igreja'): 'Antigamente, no tempo em que aqueles da circuncisão estavam adorando com símbolos e tipos, não era inapropriado elevar hinos a Deus acompanhados com o saltério e a cítara, e fazê-lo nos dias de sábado... Hoje, porém nós os cristãos oferecemos nossos hinos com um saltério vivo e uma cítara viva, e com cânticos espirituais. As vozes dos cristãos, em uníssono, são mais aceitáveis a Deus do que qualquer instrumento musical. É de acordo com isto que, em TODAS as igrejas de Deus, unidas em alma e atitude, com um só pensar e em concordância de fé e piedade, nós enviamos ao céu uma melodia em uníssono, com as PALAVRAS dos Salmos sem instrumentos'.". [2]

"Atanásio [c.296-373) bispo de Alexandria, campeão da ortodoxia contra o Arianismo: 'Não creio que um homem possa encontrar algo mais glorioso do que estes Salmos; porque eles abarcam a vida inteira do homem, as afeições de sua mente, e os impulsos de sua alma. Para louvor e glorificar a Deus, ele pode selecionar um salmo útil a cada ocasião, e assim verá que ele fora escrito para ele. Atanásio se refere aos Salmos como a 'síntese da Escritura inteira'.".

"Ambrósio (c.339-397) bispo de Milão: 'A lei instrui, a história informa, a profecia prediz, a correção censura, a moral exorta. No livro dos Salmos você encontra o fruto disto tudo, bem como o remédio para toda a salvação da alma. O saltério merece ser chamado o louvor de Deus, a glória do homem, a voz da Igreja, e a mais proveitosa confissão de fé. Com os Salmos aprendo a odiar o pecado, e desaprendo a me envergonhar do arrependimento. Nos Salmos deleite e instrução competem entre si: os cantamos por prazer e os lemos para aprender'.".

"Agostinho (354-430) bispo de Hipona, Doutor da Graça: 'Oh! Quanto suspiro por ti, meu Deus, quando leio os Salmos de Davi, esses fiéis hinos e cântico de devoção, que não permitem qualquer altivez de espírito! Oh! Quanto suspiro por ti interiormente nestes salmos! E quanto por eles sou elevado em direção a ti, ardendo orquestrá-los, se possível, através do mundo inteiro, contra o orgulho da raça humana! E embora eles não sejam cantados através do mundo inteiro, ninguém pode se esquivar da tua presença'.".

"Richard Hooker (1554-1600) da igreja da Inglaterra: 'O que é que um homem precisa saber que os Salmos não possam ensinar? Eles são para os iniciantes uma introdução fácil e familiar, numa poderosa argumentação de toda virtude e conhecimento de que devem estar inteirados e uma forte confirmação para o mais perfeito entre outros. Magnanimidade heróica, primorosa justiça, grave moderação, sabedoria exata, sincero arrependimento, paciência incansável, os mistérios de Deus, os sofrimentos de Cristo, os terrores da ira, os confortos da graça, as obras da providência sobre este mundo, e as alegrias prometidas daquele mundo que virá, todo bem a ser necessariamente conhecido, ou obtido, ou executado, jorra desta fonte celestial'.".

"William Perkins (1558-1602) o 'pai do puritanismo inglês: [O livro dos] Salmos contêm os cânticos sagrados apropriados para cada condição da igreja e de seus membros, compostos para serem cantados com graça no coração (Cl 3.16)'.". [3]


Jonathan Edwards (1703-1758): "Neles [nos Salmos] vemos um amor humilde e fervoroso a Deus, admiração por Sua perfeição gloriosa e feitos maravilhosos, desejos e sede da alma para com Ele. Encontramos alegria e felicidade em Deus, uma gratidão doce e comovente por Sua grande bondade, e um regozijo santo pelo Seu favor, suficiência e fidelidade. Vemos amor para com o povo de Deus e encanto nele, grande deleite na Palavra de Deus e suas ordenanças, tristeza pelos pecados do próprio Davi e de outros, e zelo fervoroso por Deus - como também contra os inimigos de Deus. Essas expressões de emoção santa nos salmos são especialmente relevantes para nós. Os Salmos não exprimem somente a religião de um santo da estatura do rei Davi, mas o Espírito Santo também os inspirou para que os crentes os cantassem em culto público, no tempo de Davi e para sempre". [4]

Notamos, portanto, que os autores supracitados - e muitos além deles - reconhecem a magnificência e suficiência dos Salmos para o canto público.

Certamente que alguns desavisados poderiam achar que esse assunto me é fácil, pois acham que não sou músico ou que não sei tocar qualquer instrumento. Aqueles que me conhecem sabem que não somente sei tocar um instrumento, mas já fui participante de bandas de igreja. Quer dizer, a questão não é se me é agradável de aceitar ou não, mas se é bíblico e requerido por Deus - aliás, pouco importa minha opinião sobre isso, pois a Palavra de Deus a supera sem fim. Também muitos outros autores de livros e artigos expressam sua dificuldade que tiveram em voltar ao canto bíblico genuíno, contudo, essa dificuldade não passou por cima de sua musicalidade, mas o contrário, isto é, sua vocação para a música foi ordenada de forma a não se misturar com o preceito dado pelo Senhor durante o culto público; não que fossem homens de pouca firmeza em suas opiniões, mas porque foram moldados pelo Senhor e seguiram aquilo que a Santa palavra de Deus ordenara.

É preciso notar que muitíssimos benefícios nos são advindos do cântico de Salmos. O próprio Salmo 119, por exemplo, chamado de "O Alfabeto de Ouro" pelo Rev. Charles Spurgeon [pois as divisões desse salmo dizem respeito ao alfabeto hebraico, quer dizer, no texto original cada novo trecho é iniciado com a letra seguinte do alfabeto], nos demonstra o quão importante é atentarmos para a Lei do Senhor, não como via de salvação - pois quem nos salva é Cristo -, mas de vivência conforme àquilo que o Senhor prescreveu:

- "Tu ordenaste os teus mandamentos, para que diligentemente os observássemos" (Sl 119:4).
- "Abre tu os meus olhos, para que veja as maravilhas da tua lei" (Sl 119:18).
- "Também os teus testemunhos são o meu prazer e os meus conselheiros" (Sl 119:24).
- "Dá-me entendimento, e guardarei a tua lei, e observá-la-ei de todo o meu coração" (Sl 119:34).
- "Isto é a minha consolação na minha aflição, porque a tua palavra me vivificou" (Sl 119:50).
- "Os teus estatutos têm sido os meus cânticos na casa da minha peregrinação" (Sl 119:54).
- "Companheiro sou de todos os que te temem e dos que guardam os teus preceitos" (Sl 119:63).

O Salmo 1 também se revela grandioso a nós:

"Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes tem o seu prazer na lei do SENHOR, e na sua lei medita de dia e de noite. Pois será como a árvore plantada junto a ribeiros de águas, a qual dá o seu fruto no seu tempo; as suas folhas não cairão, e tudo quanto fizer prosperará. Não são assim os ímpios; mas são como a moinha que o vento espalha. Por isso os ímpios não subsistirão no juízo, nem os pecadores na congregação dos justos. Porque o SENHOR conhece o caminho dos justos; porém o caminho dos ímpios perecerá".

Tenho plena certeza de que se ao menos a reta e firme palavra de Deus fosse cantada nos cultos públicos, cairia vertiginosamente o número de heresias pregadas e disseminadas entre os professos da fé cristã, pois tal qual como uma placa visa orientar o visitante e uma cerca a delimitar a passagem, assim também o cantar a palavra do Senhor nos é fonte suficiente de sabedoria e nos permite não ultrapassar aquilo que foi ordenado, seja por descuido ou por vil vontade de sobrepujar o Eterno.

Os salmos do povo de Israel também nos mostram sobre a beleza de se confiar no Senhor no dia da angústia, ou em confiar-se no Altíssimo diante das incertezas, ou ainda apegar-se firmemente à fé legada a todos os santos... Os salmistas nos mostram também a sua humanidade, isto é, nos relembram que eram pecadores, homens cujo caráter precisava ser constantemente moldado pelo Senhor; pessoas que desejavam a morte de seus inimigos, sentiam o opróbrio do povo, viam-se cercado por todos os lados, a esperança pareciam-lhes fugir dentre as mãos... contudo, sempre bradavam em alta voz: "O SENHOR é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei? O SENHOR é a força da minha vida; de quem me recearei?" (Sl 27:1).

Os Salmos são a mais bela expressão poética do caráter de Deus sendo suscitado no coração de Seu povo. É preciso que retornemos à paixão pela beleza dos Salmos, não porque homens não possam compor belas músicas, mas porque quando comparadas à magnitude das palavras divinas - tal qual a disparidade que há entre um raio que corta o céu e uma candeia que acende-se numa noite frita -, os hinos celestiais sobrepujam de sobremaneira a beleza humana, de forma que nada resta, senão "o Alfa e o Omega, o princípio e o fim [e a] fonte da água da vida" (Ap 21.6).

Há aqueles que dizem: mas pode ser que a igreja primitiva de nosso Senhor tenha cantado outras músicas. 


Notas: 
[1] CALVINO, João. Citado em Covenant Protestand Reformed Church
[2] Eusébio - comentário no livro de salmos, salmo 91
[3] Exceto a de Eusébio, todas as citações foram retiradas de a Glória e Suficiência dos Salmos para o Cântico
[4] A Genuína Experiência espiritual - Jonathan Edwards (pág.27)

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Um comentário :

  1. Ao passar encontrei seu blog, li algumas coisas e fiquei ciente de que o autor é um vaso nas mãos de Jesus,creio que é algo importante ser-se rendido e submetido ao serviço do Mestre, é bom encontrar blogs onde o autor não tenha medo de desmascarar o pecado venha ele de onde vier.Sei que ninguém é perfeito, mas o que caminha para a perfeição deixa atrás de si o que impede de ser perfeito.
    Deixo a paz de Jesus e minhas saudações.
    Ps. Gostava que pertencesse aos meus amigos e seguidores na Verdade Que Liberta.

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