"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

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domingo, 15 de maio de 2011

O Filho Pródigo (parte final) - Sermão pregado dia 03.04.2011


O Filho Pródigo (parte final) -
Sermão pregado dia 03.04.2011

Nosso texto: Lucas 15.25-32

A parte final de nossa narrativa reflete a ação do filho mais velho - o filho que havia permanecido na casa de seu pai. Conforme já havíamos visto anteriormente (clique aqui para ler a parte 1, parte 2 e parte 3 da pregação), o filho mais novo motivou-se para sair de casa em busca da saciação de seus prazeres e desejos, e "ajuntando tudo, partiu para uma terra longínqua" (v.13) - não percebendo as inúmeras bênçãos que já desfrutava na casa de seu pai e sequer imaginando que um dia viria "a padecer necessidades" (v.14).

Nos é dito que este filho mais velho estava no campo quando seu irmão se aproximou. Ao ouvir o barulho da música e da dança, não conseguiu entender o que estava acontecendo. Ele não se lembrou de alguma festa que estava para acontecer ou algo que pudesse lhe trazer à memória o motivo de tal feito. Perguntando então para seu servo o que estava ocorrendo, obteve a resposta: "Veio teu irmão; e teu pai matou o bezerro cevado, porque o recebeu são e salvo" (v.27). O texto então nos mostra que este filho mais velho não se agradou da resposta e por isso "se indignou, e não queria entrar" (v.28).

Este filho mais velho achava que o valor de uma pessoa estava naquilo que ela fazia para o seu senhor e não no que ela representava para ele. Este filho não conseguia compreender o motivo de tamanha festa para seu irmão mais novo - lembremos que em regra eram os filhos mais velhos que desfrutavam das primícias e obtinham maior regalia - haja vista que em seu juízo seu pai estava sendo injusto e negligente para com ele.

O filho então passa a defender sua causa diante de seu pai dizendo: "Eis que te sirvo há tantos anos, sem nunca transgredir o teu mandamento, e nunca me deste um cabrito para alegrar-me com os meus amigos" (v.29). Aqui e mais adiante o filho demonstra seu desprezo pela atitude de seu pai fazendo comparação entre aquilo que ele sequer havia ganho - "nunca me deste um cabrito" (v.29 - um animal bem mais barato que o novilho) - e o que seu irmão havia ganho - "vindo, porém, este teu filho... mataste-lhe o bezerro cevado" (v.30 animal preparado para ocasiões especiais e mais caro) - tornando-se um filho descontente para com seu pai.

O filho mais velho ao olhar para trás e ver todo o sacrifício que havia feito em prol de seu pai, ver que havia trabalhado e o servido por tanto tempo "sem nunca transgredir o teu mandamento", agora se depara com uma grande festa para seu irmão pródigo - que havia gasto seus bens com prostitutas - e vê que o seu pai se alegra com isso! Este filho mais velho encheu-se de inveja para com seu irmão mais novo e não apenas isso, ele nem considerava-o mais seu irmão, pois disse: "Vindo, porém, este teu filho" (v.30). Vemos que a aparente injusta está posta diante de seus olhos - ele não conseguia compreender o senso de justiça de seu pai.

Mister é também notarmos que a volta do filho pródigo havia sido motivada pela noção de desespero vivencial e por aquilo que o seu pai tinha para lhe oferecer: "Quantos jornaleiros de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome!" (v.17). Tal como o pai demonstrou amor para com o seu filho indigno, a salvação não é uma recompensa por boas obras, mas sim verdadeiramente um dom gracioso de Deus [1]. O filho pródigo embora tivesse reconhecido o estado lastimável em que se encontrava, voltou para a a casa de seu pai em busca de benefícios que poderia obter. Mas é nesse momento que a graça de Deus se revela (na figura do pai) na vida desse pródigo. Lemos que esse filho não se sentia digno de ter sua comunhão restaurada com o pai - "Já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus jornaleiros" (v.19) - mas para sua surpresa é recebido de volta.

Para o filho mais velho, a relação com seu pai era vista a partir do mérito: "Eis que te sirvo há tantos anos" (v.29). Este filho olhava-se como que num espelho, via suas mãos calejadas e pensava ser muito mais digno de aceitação do que seu irmão, pois "te sirvo há tantos anos"! Este filho mais velho deixou-se levar pelo sutil engano do orgulho e mérito. Tal cena certamente nos lembra dos trabalhadores da vinha descrito em Mt 20.1-16. Assim como os primeiros trabalhadores não entenderam o porquê do dono da vinha pagar o mesmo tanto para diferentes pessoas que trabalharam diferentes quantias de hora, este filho mais velho achava que seu pai estava equivocando-se em seu julgamento.

Mas este pai não deixa seu filho falando sozinho, ele lhe responde dizendo: "Filho, tu sempre estás comigo, e todas as minhas coisas são tuas; mas era justo alegrarmo-nos e folgarmos, porque este teu irmão estava morto, e reviveu; e tinha-se perdido, e achou-se" (vs.31,32). Por estar sempre ao lado de seu pai, o filho mais velho havia perdido a sensibilidade para com tudo que o cercava. De igual modo, muitas vezes nos assemelhamos a este filho mais velho quando nos esquecemos de que estamos sempre com o pai e passamos a ter inveja de certas pessoas por aparentarem ser mais abençoadas e prósperas em tudo o que fazem.

Queridos, enquanto não entendermos que tudo o que temos é dom de Deus para conosco, não teremos conhecido verdadeiramente a Cristo e seu evangelho. Enquanto não aceitarmos que é Deus que nos chama e nos aceita, continuaremos a confiar em nossa suposta soberania e pleno pseudo-controle sobre tudo e todos. Urge com grande importância entendermos que "todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus" (Rm 3.23) e por isso, por nossas forças não conseguimos sequer ir ao encontro de Jesus e obtermos a salvação (já escrevi sobre isso - clique aqui para ler). Assim como Jó tentou-se explicar a Deus e não obteve êxito, assim somos nós quando intentamos interpretar a palavra de Deus a nosso bel-prazer. O pródigo sabia que não era coisa alguma diante de seu pai e também o filho mais velho sabia que nada tinha para oferecer - a não ser desculpas descabidas.

Esta parábola (dentre muitíssimas coisas que poderíamos salientar) nos mostra que "a salvação pertence ao Senhor" (Jonas 2.9). Vemos também que a atitude do filho pródigo foi semelhante àquele Israel obstinado e revoltado contra o Senhor no deserto, que de nada se agradava e constantente he virava as costas. Assim como o povo de Israel estava cego para com as bênçãos recebidas de Deus - e mesmo assim em misericórdia o Senhor os guiava rumo a terra prometida - o filho pródigo achou graça diante dos olhos de seu pai, embora tenha vivido por algum tempo longe e tenha se embrenhado em uma multidão de pecados - "Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)" (Ef 2.4,5).

Que possamos cravar em nossos corações as palavras de Hebreus 4.16 que dizem: "Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno."

Amém.

Nota:
[1]Bíblia de Estudo de Genebra

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