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Meditações para começar a orar - Lewis Bayly (1565-1631)



1. Se, quando você estiver quase começando a orar, satanás lhe insinuar que as suas orações são compridas demais e que, portanto, melhor será, ou deixar de orar, ou fazer orações mais curtas, medite e veja que a oração é um seu sacrifício espiritual que agrada a Deus (Hb 13.15-16). Por isso a prática da oração desagrada tanto ao diabo e é tão penosa para a carne. Incline, pois, os seus sentimentos, queiram eles ou não, impelindo-os a tão santo exercício. Esteja certo de que, quanto mais isso agradar a Deus, mais desagradará à sua carne.

2. Não se esqueça de que o Espírito Santo assinala como uma característica especial dos réprobos a seguinte: "Eles não invocam ao Senhor; eles não invocam a Deus" (Sl 14.4; 53.4). E quando Elifaz supôs que Jó tinha rejeitado o temor de Deus, e que Deus tinha rejeitado Jó privando-o do Seu favor, acusou Jó de diminuir suas orações diante de Deus (Jó 15.4), dizendo que um sinal certo daquele primeiro ato é causa suficiente do segundo. Não se esqueça de que, por outro lado, Deus prometeu que "todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo" (Rm 10.13). A verdade é que aquele que não toma consciência do dever de orar não tem em seu ser nenhuma graça do Espírito Santo, porquanto o Espírito de graça e o de oração são um só (Zc 12.10). Sucede, então, que a graça e a oração andam juntas. Mas aquele que, movido por um coração penitente, ora a Deus de manhã e de noite, pode estar certo de que possui sua porção de graça neste mundo, e de que terá sua porção de glória na vida por vir.

3. Lembre-se de que a repugnância por comida e uma penosa dificuldade para falar são dois sintomas de um corpo enfermo. Assim também, o aborrecimento pela oração quando você fala com Deus, e a negligência em ouvir, quando Deus, por Sua Palavra, fala com você, são dois sinais seguros de uma alma enferma.

4. Chame à sua memória as zelosas devoções dos cristãos da Igreja Primitiva. Eles passavam muitas noites e vigílias velando e orando pelo perdão dos seus pecados, e para que fossem encontrados preparados para a Vinda de Cristo. Também Davi não se contentava em orar de tarde, de manhã e ao meio-dia (Sl 55.16-17), mas também costumava levantar-se à meia-noite para orar a Deus (Sl 119.62). E se Cristo repreendeu o Seus discípulos porque não se dispuseram a vigiar com Ele em oração "nem uma hora" (Mt 26.40), que repreensão você pensa que merece, sendo que acha que é tempo demais ficar orando meramente um quarto de hora? Se você passou várias horas num fútil baile ou jogo; sim, na verdade, dias e noites completos em jogos de cartas e dados, para agradar a sua carne, tenha vergonha de achar que orar durante um quarto de hora é um exercício demasiado longo para o serviço de Deus.

5. Os papistas, em sua cega superstição, usando uma língua desconhecida e, portanto, própria somente para os filhos da Babilônia mística (1Co 14.14; Gn 11.7-9; Ap 17.5), murmuram sobre as contas do rosário todas as manhãs e as noites, muitas dezenas de aves-marias, padre-nossos e orações idolátricas. Considere, então, como eles, com sua devoção supersticiosa, hão de levantar-se no juízo contra você, que se proclama verdadeiro adorador de Cristo. Talvez você pense que essas orações são um trabalho demasiado longo, e que as orações que você faz são mais curtas que as deles, mas muito mais proveitosas pela qualidade e por visarem somente a glória de Deus e o benefício da Sua Pessoa, bastando formular as orações com frases compiladas das Escrituras, alegando que pode falar com Deus tão bem com as Suas santas palavras como com a sua língua nativa. Envergonhe-se com o que fazem os papistas que, em sua supersticiosa adoração de criaturas, mostram-se mais devotos do que você em sua sincera adoração do Deus único e verdadeiro (Jo 17.3). E, na verdade, uma oração feita em devoção privada deve ser uma fala continuada, e não muitos fragmentos quebrados.

6. Por último, quando lhe ocorrem pensamentos que o induzam a abster-se de orar ou a distrair-se na oração, lembre-se de que esses pensamentos são aves que o maligno envia para devorarem a boa semente e os cadáveres dos seus sacrifícios espirituais. Esforce-se, porém, para, com Abraão, expulsá-las (Gn 15.11). Não obstante, se vez por outra você perceber que o seu espírito está embotado e a sua mente não está apta para a oração e para uma santa devoção, não lute demais dessa vez. O que você deve fazer, nesse caso, é humilhar-se, conscientizando-se da sua fraqueza e do seu embotamento, sabendo que Deus aceita a mente desejosa, apesar de oprimida pelo peso da carne (Mt 26.41; 2Co 8.12). Na próxima vez, esforce-se para compensar esse embotamento, redobrando o seu zelo.

Fonte: Lewis Bayly (1565-1631), "A Prática da Piedade", Ed. PES, págs. 173-175.

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