"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

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terça-feira, 8 de novembro de 2011

A Improcedência do Voto de Pobreza como Expressão Cristã, à Luz de Mateus 19.21


Com efeito, apresentam outro argumento de sua perfeição que acreditam ser-lhes bem sólido. Ora, disse o Senhor ao jovem que indagava a respeito da perfeição da justiça: "Se queres ser perfeito, vende tudo o que tens e dá aos pobres" (Mt 19.21). Ainda não estou discutindo se porventura eles fazem isto, concedamos-lhes isto no presente. Portanto, vangloriam-se de que já se tornaram perfeitos abrindo mão de todas as suas coisas. Se nisto está situada a suma da perfeição, que significa o que Paulo ensina: que aquele que distribuiu todas as suas coisas aos pobres nada é, se não tiver amor? (1Co 13.3). Que natureza de perfeição é esta que, se o amor estiver ausente, é reduzida a nada, juntamente com a pessoa que a pratica? Aqui se faz necessário que respondam que certamente esta é a perfeição suprema, contudo não a expressão única dela. Mas aqui Paulo também brada em contrário, o qual não hesita em fazer do amor, sem renúncia deste gênero, o vínculo da perfeição (Cl 3.14).

Se é certo que não há nenhuma discrepância entre o Mestre e o discípulo, mas um deles nega claramente que a perfeição do homem consiste em que renuncie a todas as suas coisas, e por outro lado afirma que ela subsiste sem isso, é preciso ver como se haverá de receber esta declaração de Cristo: "Se queres ser perfeito, vende tudo o que tens" (Mt 19.21).  Com efeito, o sentido longe está de ser obscuro, se ponderarmos (o que em todos os discursos de Cristo convém sempre observar) a quem estas palavras são dirigidas. O jovem pergunta que tipo de obras ele precisa fazer para poder entrar na vida eterna (Mt 19.16; Mc 10.17; Lc 18.18). Uma vez que era interrogado acerca de obras, Cristo o remete à lei (Mt 19.17-19; Mc 10.18,19; Lc 18,19,20). E com razão, pois se for considerada em si mesma, ela é o caminho da vida eterna; e sua incapacidade de garantir-nos a salvação a nada mais se deve senão à nossa depravação. Com esta resposta Cristo declarou que não estava ensinando outra forma de governar nossa vida senão aquela que havia sido antigamente ensinada outrora na lei do Senhor. Assim sendo, não só testificava que a lei divina é a doutrina da justiça perfeita, mas também prevenia ao mesmo tempo as calúnias, para que não parecesse estar, com alguma nova regra de viver, incitando o povo à apostasia da lei.

De fato o jovem, não movido por um espírito indisposto, mas cheio de vã confiança pessoal, responde que guardava todos os preceitos da lei desde menino (Mt 19.20 - sem adjunto temporal - Mc 10.20; Lc 18.21). De fato, mais que certo é que ele estava muitíssimo afastado daquilo de que se gabava haver atingido. E se sua vanglória fosse verdadeira, nada lhe teria faltado para a suma perfeição. Ora, já foi demonstrado previamente que a lei em si contém a perfeita justiça, e desse mesmo fato se faz patente que ele chama a observância o caminho da eterna salvação. Para que fosse ensinado quão pouco avançara nessa justiça, que mui ousadamente respondera haver cumprido, era preciso que sua deficiência íntima fosse perscrutada com proveito. Como, porém abundava em riquezas, havia fixado nelas o coração. Portanto, visto que não sentia esta chaga secreta, é ela espetada por Cristo. "Vai", diz ele, "vende tudo o que tens" (Mt 19.21). Se fora tão bom observador da lei quanto pensava, não se retiraria triste ao som desta palavra (Mc 19.21; Mc 10.22). Pois quem ama a Deus de todo o coração não só tem por esterco, mas até mesmo abomina como uma peste, a tudo quanto se põe em conflito com sua afeição. Portanto, o fato de que Cristo manda ao rico avarento abrir mão de tudo o que tem, é exatamente como se ao ambicioso ordenasse renunciar a todas as honras; ao voluptuoso, a todos os prazeres; ao impudico, a todos o instrumentos de lascívia. Daí, é que preciso induzir as consciências ao senso particular de seu mal, quando não se deixam comover por nenhum senso de advertência geral.

Portanto, em vão tomam este preceito num sentido geral, como se Cristo estabelecesse que a perfeição do homem está na renúncia dos bens, quando com este dito ele não quis dizer outra coisa senão forçar o jovem, que alentava seu egoísmo além da medida, a sentir sua chaga, para que entendesse que havia ainda uma longa distância da perfeita obediência da lei, a qual, aliás falsamente, para si reivindicava. Confesso que essa passagem foi mal entendida por alguns dentre os pais; e daí nasceu a afetação de pobreza voluntária, pela qual, enfim, se reputavam bem-aventurados aqueles que, abdicando todos os bens terrenos, se devotassem a Cristo despidos de tudo. Confio, porém, que todos os bons doutores, que fogem de toda contenda, haverão de ficar satisfeitos com esta minha explicação, para que não ponham em dúvida a mente de Cristo.

Texto por João Calvino.
Fonte: CALVINO, João. As institutas - Edição Clássica, Volume 4. Ed. Cultura Cristã, págs 259 e 260.

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Um comentário :

  1. Onde está o tesouro do homem ali está seu coração. O que é seu tesouro? Vc morreria porque ou por quem? Simples assim.

    Abraço

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