"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Quinto elemento constitutivo do culto público (parte 3): Administração dos Sacramentos (batismo - segunda parte) - Sermão pregado dia 04.12.2011



Quinto elemento constitutivo do culto público (parte 3):
Administração dos Sacramentos (batismo - segunda parte) -
Sermão pregado dia 04.12.2011


Queridos e preciosos irmãos, dando seguimento e já em entrando na reta final de nossa série, hoje veremos alguns pormenores que não tivemos a oportunidade de visualizarmos na semana passada (clique aqui para ler), a saber, a validade do batismo e o porquê de João ter batizado os já circuncisos.

Conforme temos aprendido, o batismo foi o substituto da circuncisão, pois o próprio Cristo além de ser circuncidado, foi posteriormente batizado, confirmando assim que o selo da aliança não era mais confirmado com a circuncisão, mas com o batismo.

Quando olhamos para as Escrituras, observamos - conforme vimos na semana passada - que há dois tipos de batismo: o de infantes e o de adultos. O de infantes é aquele administrado pelo pastor que é investido do poder de Deus para - assim como pregar, ministrar a ceia, ensinar... - executar o sacramento divino em favor da criança, selando-a de acordo com a prescrição de Deus dada a Abraão - "E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa" (Gl 3.29). Já o batismo de adultos é aquele também ministrado pelo pastor, mas que é feito em pessoas que não cresceram num lar cristão e nem foram batizadas quando crianças (ou que foram batizadas em nome de outra deidade que não em nome do Deus Pai, Filho e Espírito Santo), mas que no tempo oportuno aprouve ao Senhor chamá-las ao arrependimento e então lhe ser ministrado o batismo. 

De acordo com o que vimos, a circuncisão era algo de suma importância para o povo de Deus. Tamanho era o zelo que o Senhor tinha por essa prática que todo menino que nascesse e não fosse circuncidado, deveria ser morto: "E o macho com prepúcio, cuja carne do prepúcio não estiver circuncidada, aquela alma será extirpada dos seus povos; quebrantou o meu concerto” (Gn. 17:14). Em Cristo Jesus, temos a confirmação de que o batismo - o substituto da circuncisão - de infantes é a certificação da promessa dada aos pais: "Digo, pois, que Jesus Cristo foi ministro da circuncisão, por causa da verdade de Deus, para que confirmasse as promessas feitas aos pais" (Rm 15:8). Dito isso, é necessário atentarmos para a importância de entendermos que a validade do batismo não está na igreja, no ministro ou na água, mas no poder de Deus.

Há um erro muito grande dentro da igreja que é conferir - ainda que de forma subjetiva - o poder da ministração ao ministrante, isto é, muitos entendem que se o batismo não for operado por determinada pessoa ou em determinada igreja, ele não é válido, contudo, esse não é o ensino bíblico, como veremos a seguir:

A narrativa bíblica mostra-nos que a circuncisão por vezes era feita pelo sacerdote e por vezes pelos pais da criança (Js 5.2, Gn 17.23) - assim também muito provavelmente deve ter acontecido com nosso Senhor Jesus Cristo que foi circuncidado nos ao redores da manjedoura por seu pai. Porém, em lugar algum a Bíblia nos diz que a validade desse sacramento encontra-se no sacerdote, nos pais ou ainda em quem quer que seja o ministrante, pois se assim fosse, o poder não estaria no Nome, mas dependeria de um homem vil e pecador para que o selo de Deus tivesse efeito sobre os seus.

Para entendermos esse ponto é importante recorrermos ao Antigo Testamento e vermos que são inúmeras as vezes em que os sacerdotes, reis, juízes e todo o povo se desviava dos caminhos do Senhor: "E o SENHOR me disse: Levanta-te, desce depressa daqui, porque o teu povo, que tiraste do Egito, já se tem corrompido; cedo se desviaram do caminho que eu lhes tinha ordenado; fizeram para si uma imagem de fundição" (Dt 9.12). "E foi também congregada toda aquela geração a seus pais, e outra geração após ela se levantou, que não conhecia ao SENHOR, nem tampouco a obra que ele fizera a Israel. Então fizeram os filhos de Israel o que era mau aos olhos do SENHOR; e serviram aos baalins" (Jz 2:10-11). "E os filhos de Israel fizeram o que era mau aos olhos do SENHOR, e se esqueceram do SENHOR seu Deus; e serviram aos baalins e a Astarote" (Jz 3:7). "Porém seus filhos não andaram pelos caminhos dele, antes se inclinaram à avareza, e aceitaram suborno, e perverteram o direito" (1 Sm 8.3). Portanto, observamos que a inclinação para os caminhos contrários ao Senhor era constante no povo de Israel. Contudo, não se faz qualquer ressalva sobre a importância de se re-circuncidar a criança que havia nascido debaixo daquela idolatria.

Corretamente sustentou Calvino quando disse: "[qualquer que seja o ministrante] é apenas ministro do sinal exterior; Cristo é o autor da graça interior; como por toda parte ensinam esses mesmos antigos, sobretudo Agostinho... seja qual for a natureza daquele que batiza, não obstante quem preside é Cristo somente." [1] Ainda em outro lugar, Calvino comenta: "Com estas considerações refuta-se esplendidamente o erro dos donatistas [2], os quais medem a eficácia e o valor de um sacramento pela dignidade do ministro. Tais são hoje nossos anabatistas, os quais negam terminantemente que somos corretamente batizados, uma vez que fomos batizados por ímpios e idólatras no reino papal, e em consequência insistem furiosamente que sejamos batizados novamente; contra cujos despautérios nos serve de sólido argumento considerar que não somos batizados no nome de um mortal, mas no nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt 28.19); e por isso o batismo não é de homem, mas de Deus, não importa por quem haja sido ministrado. Por mais ignorantes ou desprezadores de Deus e de toda piedade que sejam aqueles que nos batizavam, contudo não o fizeram na comunhão de sua ignorância ou sacrilégio, mas da fé em Jesus Cristo; porque não invocaram seu próprio nome, mas o nome de Deus; nem nos batizaram em qualquer outro nome. Ora. se era um batismo de Deus, sem dúvida nele teve inclusa a promessa quanto à remissão dos pecados, à mortificação da carne, à vivificação espiritual, à participação de Cristo. Assim, os judeus não tiveram nenhum prejuízo por haverem sido circuncidados por sacerdotes impuros e apóstatas; tampouco em decorrência disso o sinal se fez inútil, de modo que fosse necessário repetir-se, senão que lhes bastou volver à sua origem genuína". [3]

A partir desse ponto compreendemos que a validade do batismo não encontra-se nas mãos do ministrante, mas na validade do Nome que é invocado - "Pois quê? Se alguns foram incrédulos, a sua incredulidade aniquilará a fidelidade de Deus? De maneira nenhuma; sempre seja Deus verdadeiro, e todo o homem mentiroso" (Rm 3:3-4). Certamente que o ensino de Paulo harmoniza-se claramente com nossa conclusão, pois embora Paulo dissesse que era somente para os crentes batizarem seus filhos (1 Co 7.13,14) - ficando vedada essa prática aos ímpios, pois não estão debaixo da bênção do Senhor -, aqui estamos tratando da validade do batismo. Portanto, uma coisa é como os crentes devem proceder, outra é o que fazer caso o batismo já tenha sido ministrado, ainda que por um ímpio (desde que satisfaça-se o requisito de ter sido feito tão somente no nome de Deus Pai, Filho e Espírito Santo - sendo vedada a validade de qualquer batismo de acrescente alguma deidade ao rito ou ainda batize em nome de outrem).

Outra questão importante para entendermos a validade do batismo, é verificarmos nas Escrituras o que elas nos dizem acerca do batismo daqueles que já haviam sido circuncidados.

Muitas pessoas interpretam o batismo de João (descrito no evangelho que leva seu nome) como sendo uma prova de que agora não deve-se mais batizar os infantes, pois João batizava apenas os adultos. Porém, esse é um argumento fraquíssimo, pois o motivo pelo qual João batizava os já circuncidados era porquê o rito externo havia mudado, ou seja, se o batismo foi o substituto da circuncisão, necessário era que aqueles já circuncidados e que eram cônscios de seus pecados, fossem uma vez batizados, pois o antigo sinal da promessa havia chegado à realidade, sendo necessário que o novo viesse a substituir o antigo.

Ainda outro ponto que causa grande discussão é o fato de Paulo ter batizado alguns daqueles que já haviam sido batizados por João: "E sucedeu que, enquanto Apolo estava em Corinto, Paulo, tendo passado por todas as regiões superiores, chegou a Éfeso; e achando ali alguns discípulos, Disse-lhes: Recebestes vós já o Espírito Santo quando crestes? E eles disseram-lhe: Nós nem ainda ouvimos que haja Espírito Santo. Perguntou-lhes, então: Em que sois batizados então? E eles disseram: No batismo de João. Mas Paulo disse: Certamente João batizou com o batismo do arrependimento, dizendo ao povo que cresse no que após ele havia de vir, isto é, em Jesus Cristo. E os que ouviram foram batizados em nome do Senhor Jesus. E, impondo-lhes Paulo as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo; e falavam línguas, e profetizavam. E estes eram, ao todo, uns doze homens" (At 19:1-7). 

Sobre a passagem, o puritano Matthew Henry comenta: "Paulo achou em Éfeso algumas pessoas religiosas que consideravam a Jesus como o Messias. Não tinham sido levados a esperar os poderes miraculosos do Espírito Santo, nem os haviam informado que o evangelho era, especialmente, a ministração do Espírito. Contudo, pareciam dispostos a receber bem esta notícia. Paulo lhes demonstra que João nunca pretendeu que aqueles aos quais ele batizava ficassem ali, senão que lhes dizia que deviam crer n'Aquele que viria depois dele, isto é, em Cristo Jesus. Eles aceitaram, agradecidos, essa revelação e foram batizados no nome do Senhor Jesus. O Espírito Santo desceu a eles de modo surpreendente e arrepiante: falaram em línguas e profetizaram, como faziam os apóstolos e os primeiros convertidos gentios. Embora agora não esperamos poderes miraculosos, todos os que professam ser discípulos de Cristo devem ser chamados a examinar se têm recebido o selo do Espírito Santo com suas influências santificadoras, para a sinceridade de sua fé. Muitos não parecem ter ouvido que há um Espírito Santo, e muitos consideram que é uma ilusão todo o que se diz de sua graça e de suas consolações. Dos tais pode perguntar-se com propriedade: "Em que, pois, fostes batizados?". Porque, evidentemente, desconhecem o significado deste sinal externo do qual tanto dependem." [4]

Também sobre essa mesma passagem, Calvino comenta: "Portanto, sua resposta de que nada sabem da existência do Espírito precisa ser entendida como se dissessem que não ouviram dizer que as graças do Espírito, acerca das quais Paulo lhes inquiria, eram outorgadas aos discípulos de Cristo. Quanto a mim, porém, admito que foram batizados no genuíno batismo de João, o qual era idêntico ao de Cristo, porém, nego que fossem batizados de novo. O que, pois, significam estas palavras: 'Foram batizados em nome de Jesus?' Há quem as interprete no sentido em que eles só foram instruídos por Paulo na doutrina genuína. Prefiro, porém, entender mais simplesmente como o batismo do Espírito Santo, isto é, as graças visíveis do Espírito dadas pela imposição das mãos; não é nenhuma novidade que essas graças eram frequentemente significadas pelo termo batismo. Assim, no dia de Pentecoste, se diz que os apóstolos se lembraram das palavras do Senhor acerca do batismo de fogo e do Espírito (At 1.5). E Pedro relata que as mesmas coisas lhe vieram à memória quando vira aquelas graças derramadas sobre Cornélio, sua família e parentela. (At 1.16). Tampouco está em conflito o que depois (At 19.6) se acrescenta: 'E, impondo-lhes as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo'. Ora, Lucas não está narrando duas coisas diversas, mas está seguindo a forma de narração familiar aos hebreus, que primeiro propõem a síntese da matéria, então a expõem mais amplamente. Qualquer um pode notar isto pela própria correlação das palavras. Pois ele diz: 'Ouvidas estas coisas, foram batizados no nome de Jesus. E à medida que Paulo lhes impunha as mãos, o Espírito Santo descia sobre eles'. Com esta última cláusula se descreve de que natureza foi esse batismo. Porque, se o primeiro batismo é viciado pela ignorância, de tal maneira que ela tenha de ser corrigida por outro batismo, antes de todos se teria que rebatizar os apóstolos, os quais, por todo um triênio após seu batismo mal haviam degustado reduzida parcela de doutrina mais pura. E entre nós, que rios bastariam para lavar tanta ignorância quanta pela misericórdia do Senhor se corrige cada dia?". [5]

Feitas essas considerações, compreendemos que o batismo de forma alguma foi mudado para ser apenas ministrado aos professos e conscientes da fé cristã, pois em momento algum lemos que o batismo de crianças foi abolido, mas sim que somos herança de Abraão por meio das promessas feitas a ele. Se assim é, por quê haveríamos de mudar os marcos estabelecidos pelo Senhor e cairmos em total ruína por ultrajarmos conscientemente sua lei? 

Que Deus possa nos conceder intrepidez para seguirmos sempre em sua reta doutrina, não nos desviando nem para esquerda nem para a direita, mas seguindo a piedade, cujas veredas são retas e levam ao Bom Caminho.

Amém.

Nota:
[1] CALVINO, João. As Institutas - Edição Clássica. Ed. Cultura Cristã, pág. 298
[2] Os donatistas eram rigorosos, e sustentavam que a Igreja não devia perdoar e admitir pecadores, e que os sacramentos, como o batismo, administrados pelos traditores (cristãos que negaram sua fé durante a perseguição de Diocleciano em 303-305 e posteriormente foram perdoados e readmitidos na Igreja) eram inválidos. Este pensamento era bastante similar ao de Cipriano de Cartago, martirizado meio século antes em perseguições anteriores. Em oposição, a crença da Igreja na época era de que os traditores poderiam voltar ao corpo da Igreja e ministrar os sacramentos, desde que o fizessem seguindo o ritual correto, sem a necessidade de re-batismo ou da re-ordenação. Fonte: Wikipédia
[3] CALVINO, João. As Institutas - Edição Clássica. Ed. Cultura Cristã, pág. 304
[4] Material disponível via internet.
[5] CALVINO, João. As Institutas - Edição Clássica. Ed. Cultura Cristã, pág. 306

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