"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

Se inscreva no meu canal do YouTube!

terça-feira, 18 de maio de 2010

"Concedeste porque tu ordenaste, e ordenaste o que tu desejaste"

Texto por John Piper
-----

A oração de Agostinho -- "Concedeste porque tu ordenaste, e ordenaste o que tu desejaste" -- ofendeu profundamente Pelágio, seu adversário. Isso implicava que Deus não apenas disse ao ser humano o que ele devia fazer, em que crer e a quem obedecer, mas também concedeu-nos a habilidade para fazer o que ele ordena. Isso parecia, para Pelágio, minar a responsabilidade humana e dar diretamente a Deus a decisão prévia de quem creria e não creria.

Em 2Crônicas 30.1-12, temos um exemplo marcante do tipo de Escritura que formou a visão de Agostinho sobre como Deus opera. Ezequias se tornara rei num trono que fora ocupado por muitos outros reis perversos. "Fez ele o que era reto perante o Senhor" (2Cr 29.2). A restituição da Páscoa for um exemplo disso. Ela deixara de ser celebrada muito tempo. No capítulo 30, Ezequias envia mensageiros "por todo o Israel e Judá", incluindo Efraim e Manassés, conclamando o povo a ir ao Tempo do Senhor, em Jerusalém, para comemorar a Páscoa (30.1). Nas cartas que Ezequias enviou às tribos, a bênção de Deus está estritamente condicionada a como as pessoas respondem. Aqui está o que as cartas dizem:

"Partiram os correios com as cartas do rei e dos seus príncipes, por todo o Israel e Judá, segundo o mandado do rei, dizendo: Filhos de Israel, voltai-vos ao Senhor, Deus de Abraão, de Isaque e de Israel, para que ele se volte para o restante que escapou do poder dos reis da Assíria. Não sejais como vossos pais e como vossos irmãos, que prevaricaram contra o Senhor, Deus de seus pais, pelo que os entregou à desolação, como estais vendo. Não endureçais, agora, a vossa cerviz, como vossos pais; confiai-vos ao Senhor, e vindo ao seu santuário que ele santificou para sempre, e servi ao Senhor, vosso Deus, para que o ardor da sua ira se desvie de vós. Porque, se vós vos converterdes ao Senhor, vossos irmãos e vossos filhos acharão misericórdia perante os que os levaram cativos e tornarão a esta terra; porque o Senhor, vosso Deus, é misericordioso e compassivo e não desviará de vós o rosto, se vos converterdes a ele" 2Crônicas 30.6-9 (grifo do autor)

Observe cuidadosamente como as palavras em itálico dessa passagem condicionam a bênção de Deus à resposta humana: "se vós vos converterdes ao Senhor... Se vos converterdes a ele". Muitas pessoas lêem esse tipo de exigência divina e concluem claramente que Deus condiciona as bênçãos a nossa autodeterminação. Alguns admitirão que Deus pode oferecer-nos alguma ajuda para nos encorajar a obedecer-lhe, uma medida de "graça preventiva" (graça que precede nossa obediência). Elas dizem: "Essas condições nos versículo 9 (se vós vos converterdes ao Senhor, Se vos converterdes a ele), não podem ser reais, já que decididamente o próprio Deus gera as condições que devem ser cumpridas" (alguns, como os teístas abertos, diriam que as condições não são reais, se o próprio Deus sabe previamente o que vamos fazer).

Isso parece razoável para muitas pessoas. Quando Deus diz: "Se você fizer isso, então eu o abençoarei", parece razoável que ele espere ver o que faremos através de nosso poder de decisão. Assim, ele poderá agir baseado não no que ele faz, mas naquilo que fazemos independentemente de seu controle decisivo. Entretanto, o problema com essa conclusão aparentemente "razoável" é que ela contradiz os versículos seguintes. Quando a carta de Ezequias chega ao povo de Israel e Judá, eis o que acontece:

"Os correios foram passando de cidade em cidade, pela terra de Efraim e Manassés até Zebulom; porém riram-se e zombaram deles. Todavia, alguns de Aser, de Manassés e de Sebulom se humilharam e foram a Jerusalém. Também em Judá se fez sentir a mão de Deus, dando-lhes um só coração, para cumprirem o mandado do rei e dos príncipes, segundo a palavra do Senhor" 1Crônicas 30.10-12

O versículo 12 é chocante para a mente "razoável" que conclui dos versículos 6 a 9 que as condições dadas por Deus implicam que ele esperaria e observaria se as pessoas satisfazem tais condições por seu poder de decisão. O versículo 12 diz que a mão de Deus está sobre Judá para lhes dar um coração que fizesse o que o rei Ezequias estava ordenando pelo Senhor. A palavra "também", na frase "Também em Judá se fez sentir a mão de Deus", implica que a obediência humilde de Aser, Manassés e Zebulom (e não apenas Judá) se devia também à mão do Senhor. O interessante aqui é que o escritor bíblico não sente nenhuma inconsistência ou contradição em dizer que a obediência é uma condição que as pessoas devem cumprir e que essa obediência é uma obra que Deus produz no coração delas.

Isso é o tipo de coisa que Agostinho viu em muitos lugares da Bíblia, e por que ele orou: "Concedeste porque tu ordenaste, e ordenaste o que tu desejaste". Significa que você não pode simplesmente tomar todas as condições da Bíblia, juntá-las e usá-las como argumento de que cabe apenas ao homem, através de seu poder de autodeterminação, dar um veto definitivo à vontade soberana de Deus. Devemos afirmar as condições expressas na Palavra tão veemente quanto a Bíblia o faz (se você retornar ao Senhor, então ele o salvará). Entretanto, devemos também nos recusar a admitir a aparente conclusão de que a pessoa tem total auto-suficiência para cumprir tais condições. A Bíblia ensina duas coisas: muitas das bênçãos de Deus dependem de nossa resposta de fé; e o próprio Deus é que finalmente nos capacita a responder com fé e obediência.

Oramos a Deus, portanto, para obter capacitação naquilo que ele nos chama, e a outros, a fazer. De fato, eis exatamente por que a oração é necessária. Somente Deus pode fazer realizar o necessário. Somos tão pecadores e rebeldes, tão difíceis e relutantes, que se deixarmos tais coisas por nossa conta, cairemos exatamente no mesmo erro das pessoas de 2Crônicas 30.10: "riram-se e zombaram" deles. É sabido que devemos operar nossa salvação com tais esforços, e isso é dom da graça de Deus, que nos mantém constantes em nosso clamor pela graça capacitadora e vigorosos em nossa obra (Fp 2.12,13). Quanto mais poderíamos dizer com o apóstolo Paulo:

"Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo" (1Co 15.10). Trabalhei duro, mas não eu. É isso que 2Crônicas e Agostinho têm a nos ensinar.

Fonte: A vida é como a neblina - meditações para revigorar a fé - por John Piper

Comente com o Facebook:

Um comentário :

  1. Filipe,

    Excelente texto, aliás, como todos do John Piper. Confesso que nunca antes havia observado o texto colocado à lume, em 2 Cronicas.

    O que se comprova é que tudo que fazemos de bom e que envolva a fé vem do próprio Deus (Ef 2:8-9; Fl 2:13). Nós somos apenas os agentes, ou vasos, como queiram. É muito bom ser barro nas mãos do Oleiro.

    A minha oração é efetivamente que Deus me capacite e me faça sensível para fazer obedientemente aquilo que ele determinou para mim na eternidade. Toda glória a Ele!

    Abraços!

    Ricardo

    ResponderExcluir

Por favor, comente este texto. Suas críticas e sugestões serão úteis para o crescimento e amadurecimendo dos assuntos aqui propostos.

Compartilhe

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails

pop-up LIKE

Plugin