terça-feira, 18 de maio de 2010

"Concedeste porque tu ordenaste, e ordenaste o que tu desejaste"

Texto por John Piper
-----

A oração de Agostinho -- "Concedeste porque tu ordenaste, e ordenaste o que tu desejaste" -- ofendeu profundamente Pelágio, seu adversário. Isso implicava que Deus não apenas disse ao ser humano o que ele devia fazer, em que crer e a quem obedecer, mas também concedeu-nos a habilidade para fazer o que ele ordena. Isso parecia, para Pelágio, minar a responsabilidade humana e dar diretamente a Deus a decisão prévia de quem creria e não creria.

Em 2Crônicas 30.1-12, temos um exemplo marcante do tipo de Escritura que formou a visão de Agostinho sobre como Deus opera. Ezequias se tornara rei num trono que fora ocupado por muitos outros reis perversos. "Fez ele o que era reto perante o Senhor" (2Cr 29.2). A restituição da Páscoa for um exemplo disso. Ela deixara de ser celebrada muito tempo. No capítulo 30, Ezequias envia mensageiros "por todo o Israel e Judá", incluindo Efraim e Manassés, conclamando o povo a ir ao Tempo do Senhor, em Jerusalém, para comemorar a Páscoa (30.1). Nas cartas que Ezequias enviou às tribos, a bênção de Deus está estritamente condicionada a como as pessoas respondem. Aqui está o que as cartas dizem:

"Partiram os correios com as cartas do rei e dos seus príncipes, por todo o Israel e Judá, segundo o mandado do rei, dizendo: Filhos de Israel, voltai-vos ao Senhor, Deus de Abraão, de Isaque e de Israel, para que ele se volte para o restante que escapou do poder dos reis da Assíria. Não sejais como vossos pais e como vossos irmãos, que prevaricaram contra o Senhor, Deus de seus pais, pelo que os entregou à desolação, como estais vendo. Não endureçais, agora, a vossa cerviz, como vossos pais; confiai-vos ao Senhor, e vindo ao seu santuário que ele santificou para sempre, e servi ao Senhor, vosso Deus, para que o ardor da sua ira se desvie de vós. Porque, se vós vos converterdes ao Senhor, vossos irmãos e vossos filhos acharão misericórdia perante os que os levaram cativos e tornarão a esta terra; porque o Senhor, vosso Deus, é misericordioso e compassivo e não desviará de vós o rosto, se vos converterdes a ele" 2Crônicas 30.6-9 (grifo do autor)

Observe cuidadosamente como as palavras em itálico dessa passagem condicionam a bênção de Deus à resposta humana: "se vós vos converterdes ao Senhor... Se vos converterdes a ele". Muitas pessoas lêem esse tipo de exigência divina e concluem claramente que Deus condiciona as bênçãos a nossa autodeterminação. Alguns admitirão que Deus pode oferecer-nos alguma ajuda para nos encorajar a obedecer-lhe, uma medida de "graça preventiva" (graça que precede nossa obediência). Elas dizem: "Essas condições nos versículo 9 (se vós vos converterdes ao Senhor, Se vos converterdes a ele), não podem ser reais, já que decididamente o próprio Deus gera as condições que devem ser cumpridas" (alguns, como os teístas abertos, diriam que as condições não são reais, se o próprio Deus sabe previamente o que vamos fazer).

Isso parece razoável para muitas pessoas. Quando Deus diz: "Se você fizer isso, então eu o abençoarei", parece razoável que ele espere ver o que faremos através de nosso poder de decisão. Assim, ele poderá agir baseado não no que ele faz, mas naquilo que fazemos independentemente de seu controle decisivo. Entretanto, o problema com essa conclusão aparentemente "razoável" é que ela contradiz os versículos seguintes. Quando a carta de Ezequias chega ao povo de Israel e Judá, eis o que acontece:

"Os correios foram passando de cidade em cidade, pela terra de Efraim e Manassés até Zebulom; porém riram-se e zombaram deles. Todavia, alguns de Aser, de Manassés e de Sebulom se humilharam e foram a Jerusalém. Também em Judá se fez sentir a mão de Deus, dando-lhes um só coração, para cumprirem o mandado do rei e dos príncipes, segundo a palavra do Senhor" 1Crônicas 30.10-12

O versículo 12 é chocante para a mente "razoável" que conclui dos versículos 6 a 9 que as condições dadas por Deus implicam que ele esperaria e observaria se as pessoas satisfazem tais condições por seu poder de decisão. O versículo 12 diz que a mão de Deus está sobre Judá para lhes dar um coração que fizesse o que o rei Ezequias estava ordenando pelo Senhor. A palavra "também", na frase "Também em Judá se fez sentir a mão de Deus", implica que a obediência humilde de Aser, Manassés e Zebulom (e não apenas Judá) se devia também à mão do Senhor. O interessante aqui é que o escritor bíblico não sente nenhuma inconsistência ou contradição em dizer que a obediência é uma condição que as pessoas devem cumprir e que essa obediência é uma obra que Deus produz no coração delas.

Isso é o tipo de coisa que Agostinho viu em muitos lugares da Bíblia, e por que ele orou: "Concedeste porque tu ordenaste, e ordenaste o que tu desejaste". Significa que você não pode simplesmente tomar todas as condições da Bíblia, juntá-las e usá-las como argumento de que cabe apenas ao homem, através de seu poder de autodeterminação, dar um veto definitivo à vontade soberana de Deus. Devemos afirmar as condições expressas na Palavra tão veemente quanto a Bíblia o faz (se você retornar ao Senhor, então ele o salvará). Entretanto, devemos também nos recusar a admitir a aparente conclusão de que a pessoa tem total auto-suficiência para cumprir tais condições. A Bíblia ensina duas coisas: muitas das bênçãos de Deus dependem de nossa resposta de fé; e o próprio Deus é que finalmente nos capacita a responder com fé e obediência.

Oramos a Deus, portanto, para obter capacitação naquilo que ele nos chama, e a outros, a fazer. De fato, eis exatamente por que a oração é necessária. Somente Deus pode fazer realizar o necessário. Somos tão pecadores e rebeldes, tão difíceis e relutantes, que se deixarmos tais coisas por nossa conta, cairemos exatamente no mesmo erro das pessoas de 2Crônicas 30.10: "riram-se e zombaram" deles. É sabido que devemos operar nossa salvação com tais esforços, e isso é dom da graça de Deus, que nos mantém constantes em nosso clamor pela graça capacitadora e vigorosos em nossa obra (Fp 2.12,13). Quanto mais poderíamos dizer com o apóstolo Paulo:

"Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo" (1Co 15.10). Trabalhei duro, mas não eu. É isso que 2Crônicas e Agostinho têm a nos ensinar.

Fonte: A vida é como a neblina - meditações para revigorar a fé - por John Piper

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Nem neste monte, nem em Jerusalém, mas em todo o tempo!

Texto por
Filipe Luiz C. Machado
-----

Ao visualizarmos e analisarmos o cenário cristão atual, vemos que existem diferentes tipos de reuniões, músicas, ministérios e outras coisas mais que diferenciam uma comunidade da outra. Embora haja uma pluralidade de estilos e gostos (o que não é ruim), há algo em comum (que é muito ruim e perigoso) em quase todos: o misticismo travestido de cristianismo.
---

Desde os tempos dos relatos bíblicos, vemos que o povo não gosta de quebrar paradigmas e repensar suas ideias e práticas. Insistem em praticar as mesmas coisas ao longo do tempo, apenas porque seus pais faziam e diziam que assim era a maneira correta de se proceder, e portanto, agora assim eles o fazem. O povo hebreu tinha grandes dificuldades com mudanças, não gostava de ser exigido e confrontado, preferia a monotonia em vez da mudança. Igualmente , o povo judeu teve dificuldades para entender o que Jesus veio fazer e que mudanças promoveria.

No cenário atual, vemos uma crescente busca pelo misticismo bíblico. Mas que misticismo? Poderíamos falar de inúmeras práticas ditas "espirituais", que na verdade nada mais são do que misticismos travestidos de cristianismo, porém, quero me ater a apenas uma: o local de adoração.

Em João capítulo 4, versículos 1 a 26, vemos Jesus conversando com uma mulher samaritana, uma história cheia de grandes detalhes e riquezas, porém quero dar atenção aos últimos momentos da conversa. São nestes últimos momentos que Jesus quebra a religiosidade daquela mulher e de todo o seu povo. Nos versículos 20,21, lemos: "Nossos antepassados adoraram neste monte, mas vocês, judeus, dizem que Jerusalém é o lugar onde se deve adorar. Jesus declarou: 'Creia em mim, mulher: está próxima a hora em que vocês não adorarão o Pai nem neste monte, nem em Jerusalém'." Não bastasse o fato de Jesus passar por Samaria (local que os judeus evitavam), conversar com uma mulher e pedir-lhe algo, ele vai em frente e diz a mulher que em breve ela perderá o seu local de culto e adoração. A mulher que estava acostumada a sempre se dirigir a um determinado monte, como sendo ali o seu local de adoração, agora se vê perplexa diante da breve remoção de seu local sagrado.

Algum tempo depois de o reino do Norte cair sob a Assíria (721 a.C.), uma ruptura surgiu entre os judeus, em Jerusalém, e os israelitas que viviam em Samaria. Estes samaritanos, posteriormente, construíram um templo no Monte Gerizim, que foi destruído em cerca de 130 a.C. Nota de rodapé - Bíblia de Estudo de Genebra

Após a mulher ser avisada de que perderia seu local de adoração, no versículo 23, lemos Jesus dizendo: "No entanto, está chegando a hora, e de fato já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade. São estes os adoradores que o Pai procura." É mister notarmos que Jesus quebra com toda a esperança que ainda pudesse haver no coração daquela mulher. Talvez ela pensasse que pudesse continuar escolhendo adorar apenas naquele monte, mas as palavras de Jesus não permitiam tal pensamento, pois ele havia dito que somente aqueles que adoram em espírito e em verdade são os que o Pai procura. Não há lugar para a religiosidade nas palavras de Jesus!

No versículo 24, Jesus diz a mulher: "Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade". Jesus não diz a mulher que ela tem a opção de ir regularmente ao monte, prestar sua adoração, voltar para casa, continuar seus afazeres, cuidar das crianças, dar atenção ao marido e esperar o próximo dia para ir ao monte. Não! Jesus diz que é necessário adorar em espírito e em verdade. Algo necessário não é algo que pode vir a ser útil, mas sim que precisa acontecer, precisar ser realizado, precisa fazer parte do cotidiano e da vida como um todo. J. I. Paker comenta dizendo: "Espírito contrasta com carne. A ideia central de Cristo era que o homem, sendo 'carne' só pode estar presente em um lugar de cada vez. Deus porém, sendo espírito, não é assim limitado. Deus não é material, não tem corpo, portanto, não fica confinado a um lugar."

Diante desta conversa entre Jesus e a mulher Samaritana, fico me perguntando o que ainda leva milhares de evangélicos a "Cidade Santa". Ora, não podemos negar que uma visita a cidade e região onde Jesus viveu nos traga uma melhor visualização geográfica e certamente apazigua nossa curiosidade quanto a questões sociais, estruturais e tantas outras; mas é apenas isso! Quão errados estão aqueles que vão até lá para se batizarem no Rio Jordão, comerem pães asmos e verem o monte das Oliveiras, achando que sairão mais puros, santificados e espirituais do que aqueles que ficam em suas cidades!

Tão errado quanto estes que gastam fortunas indo a Jerusalém, somos nós quando dizemos que "domingos a noite vamos ao culto". É claro que é a força do hábito que nos fazer dizer isso, mas quão infeliz é essa expressão! Acaso estamos querendo prender a presença de Deus em um espaço físico e limitado por tempo? Será que tal qual a mulher Samaritana, nós ainda achamos que nos domingos a noite há alguma magia especial, uma presença maior de Deus e uma necessidade maior de O adorar?

Ao contrário do que muitos pensam, não há nada de mais especial na cidade de Jerusalém, no Monte Gerizim ou em qualquer local que você se reúna com frequencia nos domingos a noite, do que o local em que você está agora. Sei que é necessário que congreguemos e disso também não abro mão, porém não podemos achar que pelo fato de termos um dia específico para nos reunirmos é que este deve ser o único momento ou talvez o maior momento de adoração; caso contrário nos assemelharemos a mulher Samaritana e ouviremos de Jesus: Nem neste monte, nem Jerusalém, mas em todo o tempo!

Deus abençoe!

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Nenhum dos Teus planos pode ser frustrado

Texto por
Filipe Luiz C. Machado
-----

Talvez uma das histórias mais conhecidas pelo povo cristão, seja a história da fornalha em chamas, onde milagrosamente Sadraque, Mesaque e Abede-Nego escaparam ilesos da morte eminente. Certamente este é um relato que nos deixa perplexos diante de tamanho livramento da parte de Deus para com seus filhos. Um ótimo relato da onde devemos tirar ricas lições para nossas vidas.

---

Em Daniel 3 lemos sobre a imagem de ouro que Nabucodonosor mandara erguer. A imagem foi feita após Daniel interpretar o sonho ao rei, que após isso, mandou erguer uma grande imagem de ouro, para que ao som da trombeta e de toda espécie da música, o povo se curvasse perante a imagem erguida. Havia um decreto severo sobre o povo. Todo aquele que não se prostrasse em terra ao som da trombeta, seria "imediatamente atirado numa fornalha de chamas" (3.6). Lemos então, que, após o primeiro toque da trombeta, todo o povo curvou-se e adorou a imagem feita pelo rei. Porém, achou-se alguns judeus que não se prostraram perante a imagem, e estes homens eram Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, todos nomeados administradores da província. (para maior entendimento, leia os capítulos 1-3). Visto que eles não adoraram a imagem, foram condenados a fornalha em chamas.

É importante atentarmos para alguns detalhes desta passagem. Nos versículos 13-15, vemos Nabucodonosor dando uma chance os 3 homens, para que se voltassem a imagem e a adorassem, pois segundo o rei, assim seria melhor para eles e não teriam de ser mortos na fornalha. Aqui vemos que Sadraque, Mesaque e Abede-Nego tiveram nova oportunidade para apostatar da fé e negar sua fidelidade ao Deus de Israel, tudo em troca da mordomia e regalia que usufruíam como administradores da Babilônia.

Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, ao contrário de todo incentivo e expectativa do rei, não se prostraram perante a imagem. Disseram eles: "Ó Nabucodonosor, não precisamos defender-nos diante de ti. Se formos atirados na fornalha em chamas, o Deus a quem prestamos culto pode livrar-nos, e ele nos livrará das tuas mãos, ó rei. Mas, se ele não nos livrar, saiba, ó rei, que não prestaremos culto aos teus deuses nem adoraremos a imagem de ouro que mandantes erguer." (3.16-18) Eles ousaram confiar que Deus poderia livrá-los, se assim desejasse! Mas entenderam que, caso esse não fosse o propósito divino, eles continuariam firmes e não se curvariam diante da imagem. É notório observarmos que os 3 homens não abusaram de suas credenciais como "filhos do Deus altíssimo" para decretar o livramento da condenação e receberem a benção do livramento, apenas confiaram que Deus poderia livrá-los.

"Nabucodonosor ficou tão furioso com Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, que o seu semblante mudou. Deu ordens para que a fornalha fosse aquecida sete vezes mais do que de costume." (3.19) Talvez nesta hora os homens de Deus pensassem que ali se encerrava toda esperança de um possível livramento. Poderiam ter pensado, "certamente Deus poderia livrar-nos da fornalha, mas agora ela está sete vezes mais quente, isso é impossível!". Podemos imaginar o terror que transpassava seus corações nesse momento, a aflição e angústia de verem a fornalha sendo aquecida muito além da condição normal, que já era terrível e mortal! O destino parecia certo e seus corpos seriam entregues a morte.

Entretanto, contrariando toda a lógica e possibilidades de saírem vivos, lemos que ao saírem da fornalha, "os sátrapas, os prefeitos, os governadores e os conselheiros do rei se ajuntaram em torno deles e comprovaram que o fogo não tinha ferido o corpo deles. Nem um só fio de cabelo tinha sido chamuscado, os seus mantos não estavam queimados, e não havia cheiro de fogo neles." (3.27) A glória de Deus estava sobre aqueles homens! Nada poderia matá-los enquanto Deus assim não desejasse! Não havia possibilidade de a fornalha matar aqueles homens, pois Deus havia determinado que naquele momento, ao passarem pela fornalha sete vezes mais quente, eles não deveriam morrer. O tempo deles não havia chegado, e nada atrapalharia os planos de Deus!

Nada pode impedir que aquilo que Deus determinou que aconteça, deixe de acontecer por obra ou ambição humana. As Escrituras nos mostram o relato de um Deus fiel, que cumpre e realiza todos os seus propósitos, independentemente das condições, por mais adversas que possam parecer. A soberania de Deus não entra em conflito com as atitudes humanas, pois é ele quem as controla e as tem sob seu domínio. Nem Nabucodonosor, nem fornalha sete vezes mais quente, nem nada neste mundo poderia abreviar o tempo e vida de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego na Terra! Estes homens gozavam de um relacionamento com o Todo-Poderoso e por isso podiam confiar que, quer morressem, quer vivessem, estariam debaixo da mão soberana de Deus.

Que assim como Jó, nós também possamos dizer: "Sei que podes fazer todas as coisas; nenhum dos teus planos pode ser frustrado." Jó 42.2

Louvado seja o nosso Deus!

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Tudo é sem sentido! - Será? Breve análise sobre o livro de Eclesiastes

Texto por
Filipe Luiz C. Machado
-----

Ao conversarmos com alguns cristãos, vemos que alguns livros da bíblia têm mais aceitação do que outros (que grande pecado!). Enquanto Salmos e Provérbios são amplamente lidos e aceitos pela maioria, seu vizinho Eclesiastes é deixado de lado, afinal, ele aparenta ser um livro depressivo e sem sentido. Porém está longe de ser esta a verdadeira conotação, pois Eclesiastes é um livro onde o autor discorre sobre as coisas que acontecem na vida dos seres humanos e em como ele se vê perplexo perante grandes injustiças e inutilidades debaixo do sol, quando não analisadas à luz da soberania de Deus.

O ponto de partida de Eclesiastes se encontra no versículo 2.3: "eu queria saber o que vale a pena, debaixo do céu, nos poucos dias da vida humana". O autor está intrigado por não conseguir compreender certas ações de Deus em meio à natureza humana. Ele não entende o porquê de certas coisas acontecerem a determinadas pessoas, as injustiças da vida, o trabalho árduo debaixo do sol, os absurdos da vida, a futilidade do poder... O autor aparenta estar desolado e completamente confuso quanto ao motivo da vida existir.

Os versículos 4 até 10 do capítulo 2 nos mostram que o autor não negou coisa alguma que seus olhos e mãos desejassem. Ele se lançou rm projetos e teve tudo que seu coração desejou! Porém no versículo 11 ele conclui dizendo: "Contudo, quando avaliei tudo o que as minhas mãos haviam feito e o trabalho que eu tanto me esforçara para realizar, percebi que tudo foi inútil, foi correr atrás do vento; não há nenhum proveito no que se faz debaixo do sol". Vemos então um homem completamente arrasado! Um homem que teve tudo o que desejou, mas que não conseguiu perceber a verdadeira realidade da vida. O autor prosseguirá então até o final do capítulo 7 dizendo que "nada faz sentido debaixo do sol".

Depois de uma leitura cuidadosa no livro de Eclesiastes, percebemos que muitas das indagações ali contidas, refletem as mesmas dúvidas e questionamentos que temos. Por que Deus não finda com a injustiça terrena? Qual a vantagem em ser sábio se não se poder compreender a vida? De que adianta se esmerar em prol de algum serviço se ao final da vida todos teremos o mesmo destino que é a morte? Quantas vezes nós já nos deparamos com a mesma situação do autor, onde olhamos para nossa vida e pensamos, "que coisas inúteis tenho feito! É tudo sem sentido!".

Após muitas dúvidas, questionamentos e indagações sem fim, o autor nos diz que devemos obedecer ao Rei. No capítulo 8 versículo 4 lemos: "Pois a palavra do rei é soberana, e ninguém lhe pode perguntar: 'O que estás fazendo?'". Aqui, o autor expressa algo de profundo valor para nós cristãos, que é: Obedeça ao Rei! Porém ele deixa claro que esse obedecer não é precedido de uma conversa entre o rei e o servo, onde ambos fixam um acordo que lhes parece melhor e/ou que apraz ambas as partes. Pelo contrário, ele diz que ninguém pode indagar ao Rei sobre o que ele faz ou deixa de fazer, pois o Rei é soberano e faz aquilo que sua vontade bem entender. Se cremos verdadeiramente que nosso Rei é Jesus, filho do Pai, então devemos aceitar as palavras proferidas pelo autor. Se quisermos ser sábios, devemos atentar para os grandes ensinamentos da bíblia.

Um cristão maduro é aquele que acata as decisões de seu Rei e as segue sem questionamentos quanto à veracidade - não porque ele é um cristão sem vontade de questionar, mas sim porque sabe que aquilo que o seu Rei faz é o melhor para Seu povo. Não devemos ficar como que apontando as orações para os céus e dizer: "Por que tu fizeste isso, Senhor? Existiam milhares de outras maneiras para Tu realizares o teu propósito! Por que foi dessa maneira?!" Relembremos: "O temor do Senhor é o princípio da sabedoria" (Provérbios 9.10).

Em fase de finalização, no capítulo 11, versículo 9 lemos: "Alegre-se, jovem, na sua mocidade! Seja feliz o seu coração nos dias da sua juventude! Siga por onde seu coração mandar, até onde a sua vista alcançar; mas saiba que por todas essas coisas Deus o trará a julgamento." Vemos, aqui, que embora o autor estivesse confuso quanto ao sentido da vida, ele não diz para deixarmos de viver e abandonarmos tudo; pelo contrário, nos exorta a irmos atrás de nossos sonhos, a vivermos por nossas ambições e desejos, indo o mais longe que pudermos! Mas ele nos salienta dizendo que por todas essas coisas Deus nos trará a julgamento.

Não há problema algum em termos grandes planos para nossa vida e desejarmos fazer grandes coisas. O problema está no porquê desejamos determinadas coisas. Não devemos viver como se nossa estadia na Terra fosse eterna! Não podemos viver achando que levaremos alguma coisa daqui da Terra para os céus! O autor também nos previne de acharmos que, independentemente daquilo que fizermos, Deus nos salvará! Ele diz que teremos julgamento por cada ato que praticarmos e se estivermos em Cristo, teremos a sentença absolutória.

Para concluir seu pensamento, no capítulo 12, versículo 13,14 ele escreve: "Agora que já se ouviu tudo, aqui está a conclusão: Tema a Deus e obedeça aos seus mandamentos, porque isso é o essencial para o homem. Pois Deus trará a julgamento tudo o que foi feito, inclusive tudo o que está escondido, seja bom, seja mau." O autor finaliza dizendo que não devemos tentar entender tudo que acontece debaixo do sol, pois isso é inútil, é correr atrás do vento. Ele nos anima a obedecermos a Deus mesmo quando não entendemos aquilo que Ele faz ou deixa de fazer!

O cristão não deve obedecer a Deus porque conseguiu compreender Sua mente, mas, sim, porque confia que as ações de seu Rei são as melhores para seu povo, mesmo quando estas lhe causem grande e profunda tristeza.

Longe de ser um livro depressivo e sem sentido, o Eclesiastes nos mostra que podemos confiar em nosso Rei Jesus mesmo quando as situações nos parecem confusas e tudo parece ser sem sentido!

Deus nos abençoe!

terça-feira, 13 de abril de 2010

O que é viver pela fé?

Texto por
Filipe Luiz C. Machado
-----

O que é viver pela fé? Uma simples pergunta, mas que se respondida e entendida de maneira errada, pode acarretar em grandes problemas.
---

Se pararmos e perguntarmos para um grande número de crentes o que eles entendem por fé, certamente a grande maioria responderá que fé é a certeza das coisas que não se vêem. Em Hb 11.1 lemos que "ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem". Seria então natural entendermos que pela fé podemos esperar e ter certeza daquilo que não podemos ver; sejam milagres, curas, pedidos ou qualquer outra coisa. Fé seria a plena certeza de que receberíamos tudo aquilo que ainda não podemos ver.

Agora, é mister notarmos que embora o texto diga-nos que fé é a certeza de coisas que se esperam e a convicção de fatos que se não vêem, ele não nos fala que coisas são essas, nem tão pouco quais são os fatos que não vemos. Por isso é importante atentarmos e analisarmos melhor essa questão.

O que é viver pela fé? Para respondermos essa pergunta é necessário que entendamos que nosso Deus é um Deus soberano e por ele ser soberano, não estamos livres para exercitarmos a fé que ele nos deu conforme nosso próprio beneplácito. A fé que ele nos deu serve para podermos confiar em seu poder capaz de nos livrar das mãos do inimigo e nos conduzir seguramente à vida eterna. A fé que recebemos não serve para barganharmos com Deus ou comprarmos o seu favor. Esta fé que nos foi concedida tem como propósito nos unir a Ele, caso contrário estaríamos destituídos da capacidade de usufruirmos de sua comunhão.

Viver pela fé é crer nas promessas que nos foram concedidas. É ter a total confiança de que "aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus." Fp 1.6. Viver pela fé é viver confiando naquilo que o Senhor já nos revelou. É compartilhar do mesmo sentimento que Paulo, quando disse que: "Estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor". Rm 8.38,39

O cristão que verdadeiramente vive pela fé, sabe que esta fé que ele tem não provém dele mesmo, "porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus" Ef 2.8. A bíblia deixa claro que não temos fé por nós mesmos. Não adianta clamarmos em alta voz para que o mundo inteiro tenha fé em Deus, sendo que eles só poderão ter a fé salvífica se Deus assim os conceder. O homem por si mesmo é incapaz de criar fé em Deus.

Estar aliançado em Deus é estar vivendo pela fé transformadora de vidas. O homem que vive pela fé sabe em quem está confiando e pode ter a certeza que será transformado. Não uma transformação de casa, carros, bênçãos e prosperidade se fim, mas a única e verdadeira transformação: a de seu ser! Ele não tem dúvidas de que o seu Senhor é soberano e está controlando a situação. Ele pode até titubear perante o aparente abandono de Deus, mas assim como Jó, ele também poderá dizer: "Porque eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra." Jó 19.25

Viver pela fé é ler com expectativa e paixão as palavras do anjo que disse: "Varões galileus, por que estais olhando para as alturas? Esse Jesus que dentre vós foi assunto ao céu virá do modo como o vistes subir." At 1.11

Vivamos pela fé!

terça-feira, 6 de abril de 2010

Falar em línguas é auto-edificante?

por John Stott
-----

Ainda paira um ponto de interrogação sobre o fenômeno contemporâneo conhecido como falar em línguas, quanto a ele ser idêntico ao dom do Novo Testamento. Está claro que no dia de Pentecostes os crentes cheios do Espírito estavam falando "em outros línguas", isto é, em línguas estranhas, e "segundo o Espírito lhes concedia que falasse", e que todas estas línguas era compreensíveis a grupos da multidão (At 2.4-11).

A suposição teológica e linguistica é forte no sentido de que o fenômeno mencionado em 1Coríntios é o mesmo. Primeiro, porque as expressões no grego são praticamente as mesmas, e uma das primeiras regras da interpretação da Bíblia é que expressões idênticas têm o significado idêntico.

Em segundo lugar, porque o substantivo glōssa tem somente dois significados conhecidos, que são o órgão, ou seja, a língua e o idioma. A tradução "lhes concedia que falassem em êxtase" não tem base linguistica. Isto não é uma tradução, mas uma interpretação. De modo análogo, a expressão "interpretação de línguas" significa tradução de idiomas.

Em terceiro lugar, todo o empenho de 1Coríntios 14 é no sentido de desencorajar o culto de caráter ininteligível, como coisa de criança: "Irmãos, não sejais meninos no juízo; (...) sede homens amadurecidos" (v.20). O Deus da bíblia é um Deus racional, que não tem prazer em irracionalidade ou em ininteligibilidade.

A interpretação levanta algumas dificuldade exegéticas, que levaram algumas pessoas a distinguirem radicalmente entre "línguas" em Atos e "línguas" em 1Coríntios. Mas as dificuldades são pequenas em comparação com a força do argumento de que o fenômeno é o mesmo, não uma expressão extática ininteligível, mas um idioma inteligível - compreensível, é claro, a alguns poucos presentes (como no Dia de Pentecostes). Obviamente ela precisaria ser "interpretada" ou "traduzida" em um porto de Corinto, em que se falavam muitos idiomas, para benefício daqueles que falavam alguma língua estrangeira. (...) porque todos os dons de Deus são bons e desejáveis, mas o dom de línguas em si (isto é, à parte do conteúdo falado) não tem capacidade para edificar.

O que dizer, então, da prática atual e particular do falar em línguas, como ajuda à devoção pessoal? Muitos dizem estar descobrindo através disto um novo grau de fluência quando se achegam a Deus. Outros falam de um tipo de "liberação psíquica" que experimentam, e que ninguém quer lhes negar. Por outro lado, precisa ser dito (1Co 14) que Paulo, além de proibir completamente o falar em línguas em público sem interpretação, também desencoraja com insistência que se fale em línguas em particular, se a pessoa não entende o que está dizendo. Muitas vezes, as pessoas se esquecem do versículo 13: "O que fala em outra língua, ore para que a possa interpretar". De outra forma sua mente fica "infrutífera ou improdutiva. Mas, então, que ele deverá fazer? O próprio Paula faz a pergunta. E responde dizendo que irá orar e cantar "com o espírito", mas também "com a mente". Está claro que ele simplesmente não consegue imaginar oração e louvor dos cristãos em que a mente não esteja envolvida de modo ativo.

Alguns leitores, sem dúvida, responderão que nos primeiros versículos de 1Coríntios 14 o apóstolo contrasta a profecia e o falar em línguas, afirma que o profeta "edifica a igreja", enquanto quem fala em línguas "edifica a si mesmo" e, portanto, está incentivando ativamente a prática de falar em línguas em particular. Questiono se podemos tirar esta conclusão legitimamente, devo confessar. Duas razões fazem-me hesitar.

A primeira é que, no Novo Testamento, a "edificação" invariavelmente é um ministério voltado para as outras pessoas. A palavra grega oikodomeō significa literalmente "construir" - cidades, casas, sinagogas etc. É aplicada figuradamente à igreja. Jesus disse: "Edificarei a minha igreja (Mt 16.18). O apóstolo Paulo escreveu: "Edifício de Deus sois vós" (1Co 3.9; v. Ef 2.20-21), e Pedro acrescentou: "Vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual" (1Pe 2.5). A partir deste significado básico, a palavra passou a ser usada no sentido de "fortalecer, estabelecer, fazer crescer em número e maturidade" cristãos e igrejas. Lucas escreve que a igreja na Palestina estava "edificando-se", e Paulo escreve que sua autoridade apostólica tinha-lhe sido dada "para edificação" (At 9.31; 2Co 10.8, 12.19, 13.10).

Além disso, os cristãos têm um ministério de "edificação de uns para com os outros" (Rm 14.19), também expresso na ordem: "Edificai-vos reciprocamente" (1Ts 5.11; v. Rm 15.2, Ef 4.29, Jd 20). E, se alguém perguntar o que mais edifica a igreja, Paulo responderia "a verdade" (At 20.32; v. Cl 2.7) e o "amor" (1Co 9.1; cf. também 10.23). A mesma ênfase em edificar os outros transparece em 1Coríntios 14: o profeta "edifica" com sua mensagem "(v. 3-4), e, no culto público, "tudo" deve ser feito "para edificação" (v. 26; veja também 17), e os cristãos devem procurar "progredir, para a edificação da igreja" (v. 12; v. também 5).

Agora, à luz desta ênfase consistente do Novo Testamento na edificação como ministério aos outros na igreja, o que faremos com a única exceção, que diz que quem fala em línguas "edifica a si mesmo"? Certamente deve existir pelo menos uma ponto de ironia no que Paulo escreve, porque a frase praticamente se contradiz em seus termos. A auto-edificação está completamente fora de cogitação quando o Novo Testamento fala de edificação.

Em segundo lugar, devemos entender a expressão à luz do ensino que já estudamos "para a utilidade de todos", para o serviço aos outros. Então como seria possível inverter este dom e usá-lo para proveito próprio, e não mais para o proveito de todos? Não devemos concluir que isto é um abuso do dom? O que pensar de um crente que recebeu um dom de ensino e que o usa somente para dar-se instrução particular, ou de alguém que recebeu um dom de curar e o usa somente para curar a si, e mais ninguém? É difícil justificar o uso egoísta de um dom concedido especificamente para o benefício dos outros.

Fonte: Stott, John. Batismo e Plenitude do Espírito Santo. Ed. Vida Nova. Páginas 117-120.

O culto online e a tentação do Diabo

Você conhece o plano de fundo deste texto olhando no retrovisor da história recente: pandemia, COVID-19... todos em casa e você se dá conta ...