"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

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terça-feira, 21 de maio de 2013

“Deixados Para Trás” Culturalmente



Acabei de assistir o videoteipe de um novo filme que será lançado no dia 2 de Fevereiro: “Deixados Para Trás”.

Baseia-se num empreendimento editorial fundamentalista surpreendentemente bem sucedido, uma série de romances conhecidos coletivamente como Deixados Para Trás. Da última vez que chequei, havia oito volumes. A série gerou vendas de aproximadamente 250 milhões de dólares em somente cinco anos. Muito dinheiro. Muita audiência. Muitas esperanças para um produtor de cinema muito pequeno.

O coautor da série é o Rev. Tim LaHaye, marido de Beverly LaHaye, que comanda a organização ativista cristã, Concerned Women of America.

Esta série se baseia no pressuposto teológico de que o capítulo 13 do Evangelho de Mateus não deve ser entendido literalmente. Esta passagem, mais do que qualquer outra no Novo Testamento, lida com o Reino de Deus na história. Ela contém diversas parábolas de Jesus, incluindo a que fala do joio e do trigo. Esta é a parábola em que os trabalhadores do campo avisam ao pai de família que um inimigo semeou joio no campo de trigo. Eles deveriam arrancar o joio?

“Ele, porém, lhes disse: Não; para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele”. (Mateus 13.29)

Os discípulos de Jesus vieram até Ele depois que a multidão havia ido embora e perguntou o que esta parábola significava.

“E ele, respondendo, disse-lhes: O que semeia a boa semente, é o Filho do homem; O campo é o mundo; e a boa semente são os filhos do reino; e o joio são os filhos do maligno; O inimigo, que o semeou, é o diabo; e a ceifa é o fim do mundo; e os ceifeiros são os anjos. Assim como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será na consumação deste mundo. Mandará o Filho do homem os seus anjos, e eles colherão do seu reino tudo o que causa escândalo, e os que cometem iniqüidade. E lança-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes. Então os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”. (Mateus 13.37-43)

Jesus foi bastante claro: não haverá uma separação coletiva de pecadores e santos na história. A separação somente acontecerá no fim do tempo: ovelhas e bodes, joio e trigo, salvos e perdidos, guardadores do pacto e violadores do pacto. Até lá, a separação continua sendo confessional e institucional, não física e coletiva.

Até 1830, a Igreja cristã ensinava universalmente esta doutrina da não separação histórica. Em 1830, uma pequena seita protestante inglesa conhecida como os Irvingitas proclamou uma nova doutrina. A Igreja escapará de uma tribulação profética futura sendo removida da história. A Igreja será levada para o céu em um evento que hoje é conhecido como “o rapto”.

Duas observações preliminares são necessárias. Primeiro, a palavra “rapto” não aparece no Novo Testamento em grego ou na Bíblia King James. Segundo, em relação à doutrina da Grande Tribulação, segmentos significantes da Igreja entendem isso com se referindo ao exército imperial romano que queimou o templo e destruiu a cidade de Jerusalém em 70 AD (Veja o livro a Grande Tribulação de David Chilton).
A ideia dos Irvingitas foi imediatamente adotada por John Nelson Darby, um líder de uma pequena seita britânica conhecida como os Irmãos de Plymouth. Darby trouxe essa doutrina aos Estados Unidos. Décadas depois, na década de 1880, ela finalmente começou a se espalhar entre fundamentalistas americanos, especialmente aqueles que estavam chateados com o surgimento do que logo ficou conhecido como o Evangelho Social, que identificava o Reino de Deus com o movimento Progressista. Os defensores do Evangelho Social secularizaram o antigo Pós-Milenismo dos Puritanos e Presbiterianos americanos e concluíram que o Estado intervencionista irá progressivamente manifestar o aspecto político do Reino de Deus na história.

Fundamentalistas rejeitavam isso, mas, em seu lugar, colocaram a doutrina de Irving-Darby: o rapto Pre-Tribulacionista e Pre-Milenista. O rapto acontecerá 1007 anos antes do juízo final, sete anos antes do retorno corpóreo de Jesus para estabelecer uma burocracia cristã internacional para governar o mundo. Esta era de mil anos será conhecida como o reino milenar de Deus. Portanto, é dito que a volta de Jesus será Pre-Milenista.

O que era de novo nesta versão do Pre-Milenismo era a doutrina que Cristo irá remover a Igreja do mundo 3 anos e meio antes do período de Grande Tribulação, que durará por mais 3 anos e meio. Sete anos antes do rapto, Ele irá estabelecer Seu Reino terreno. O Pre-Milenismo tradicional, que tem uma longa história, ensinava que Cristo voltaria depois da Grande Tribulação de Sua Igreja. Não haverá qualquer período na história em que não haverá continuidade para Sua Igreja.

Então, Jesus voltará secretamente para raptar Sua Igreja ao céu. O anticristo irá estabelecer um governo internacional para governar o mundo. Três anos e meio depois do rapto, o exercito do anticristo irá cercar Jerusalém para matar (aproximadamente) 1/3 dos judeus. (Há grandes problemas de estatísticas com esta profecia: Nova York, West Los Angelos e Miami Beach).

Um grande motivo psicológico pelo qual fundamentalistas americanos apoiam o Estado de Israel é o seguinte: a doutrina do rapto Pre-Tribulacionista ensina que a futura perseguição dos santos será a perseguição de judeus, não cristãos, em Israel. Nessa época, os cristãos já terão escapado daqui.
“Deixados Para Trás” baseia-se na doutrina do rapto de Darby. Ela identifica os vilões – os bancos centrais e as Nações Unidas (é difícil contrariar essa parte!) e os mocinhos: cristãos irrelevantes que vão embora bem cedo no filme, deixando um estoque de roupas para trás. Isso faz com que não cristãos confusos fiquem sozinhos para conduzir o resto do drama do filme. Mas sem a União Soviética ou Saddam Hussein e com nações demais na União Europeia para se encaixar na interpretação fundamentalista tradicional de uma aliança com dez nações contra Israel, o roteirista teve dificuldades em apertar tanto drama.

Uma Trombeta Muda

A primeira cena do filme depois do rapto acontece em um voo transatlântico. Uma senhora pergunta a uma aeromoça se a aeromoça pode procurar seu marido. “Eu acho que ele está pelado”. Ela aponta para uma pilha de roupas no assento ao lado dela. É uma senhora já idosa. Presume-se que seu marido também seja. (Este é um filme para a família, afinal). Mas outros no avião também sumiram. Cadê eles? Sumiram! Em todos os aviões nos céus, eles sumiram. As outras pessoas no filme foram… deixadas para trás!
Ninguém sabe por que. No filme, é um grande mistério. É motivo até mesmo de segurança nacional. O filme passa os próximos trinta minutos com os personagens perambulando e se perguntando, “Para onde eles foram?”

O problema aqui, tanto para o roteirista quanto para os teólogos fundamentalistas, é a trombeta. No decorrer do filme somos informados que o Novo Testamento diz o seguinte:

“Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor”. (I Tessalonicenses 4:16-17)

Em outra epístola, Paulo escreveu: “Num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados” (I Coríntios 15:52). Esta trombeta tem destaque nas duas passagens. O motivo é que as duas passagens se referem ao mesmo evento: o fim da história (a verdadeira, não a de Francis Fukuyama) e o Juízo Final.
Então por que ninguém no filme ouviu a trombeta? Porque o filme é sobre o rapto secreto. É assim que os fundamentalistas chamam este evento futuro hipotético. Todos os cristãos do mundo desaparecerão num abrir e fechar de olhos, deixando para trás pilhas de ternos fora do cabide, mas ninguém que for deixado para trás ouvirá a trombeta. Eles terão dificuldades para descobrir exatamente o que aconteceu.
Eu pergunto ao roteirista e aos teólogos: Cadê o poderoso soar da trombeta? Quanto ao próximo evento escatológico cataclísmico, eu pergunto o seguinte: Louis Armstrong, cadê você agora que precisamos de ti?

Ele Não Está Vendo Vocês, Crianças

No filme, o mundo continua. Todos os cristãos sumiram, mas os aviões continuam a voar, empresas elétricas continuam a funcionar, os bancos continuam abertos e Rosie O’Donnel continua a defender que isso nunca teria acontecido se houvesse leis mais eficazes de controle das armas.

Todo o sistema social ainda funciona. A infraestrutura está intacta. (“Quando eu ouço a palavra infraestrutura, eu pego meu revolver” – Ruben Alvorado.). O mundo acabou de perder os verdadeiros – realmente verdadeiros – membros de sua maior religião e tudo continua a funcionar perfeitamente. Nenhum problema! Até mesmo as empresas de seguro de vida estão funcionando.
Suponho que a programação da TV de Domingo de manhã com pregadores e televangelistas continua a passar reprises, mas o filme deixa isso em aberto. Um dos personagens deixados para trás é um pastor fundamentalista que está muito, muito decepcionado.

Eu queria que tudo isso fosse uma piada, mas não é. Este filme representa, com fidelidade e de maneira dramática, um principio fundamental do fundamentalismo americano: a irrelevância social do Cristianismo.

Em todas as áreas, os fundamentalistas entendem que os cristãos não tem nada realmente importante para oferecer culturalmente. O mundo pode funcionar muito bem sem os cristãos. Na educação, na ciência, na tecnologia, nas diferentes profissões, no entretenimento – acima de qualquer outra coisa, entretenimento – os fundamentalistas entendem que os cristãos sejam necessariamente irrelevantes e periféricos. Isso é indicado pela visão que eles têm do intervalo de sete anos entre o rapto e a Segunda Vinda de Cristo para estabelecer seu burocrático reino terrestre. A ausência dos cristãos não será sentida porque sua presença é dificilmente sentida hoje.

A única evidência que o filme dá que a ausência dos cristãos fará uma diferença visível é no número de acidentes. Os carros ficaram descontrolados quando os motoristas receberam a Grande Convocação do céu. Mas, mesmo em relação a isso, o roteirista não colocou ninguém para dizê-lo. É algo visível por causa de uma rua cheia de carros batidos.

Não há aviões caindo. Por que não? É porque o roteirista pressupõe que cristãos não tem educação suficiente para serem pilotos? Ou será que este filme é uma propaganda sutil das Linhas Aéreas Israelenses El Al?

Sim, eu estou sendo sarcástico. Mas tenho um motivo. A doutrina do rapto Pre-Milenista, Pre-Tribulacionista tem destruído os fundamentalistas culturalmente por mais de um século. Por que os cristãos pagariam o preço necessário para se tornar influente enquanto esperam que a Igreja seja removida do mundo em um futuro próximo? Afinal, o anticristo herdará tudo. Transgressores do pacto se tornarão os herdeiros do capital dos guardadores do pacto. Por que sacrificar hoje para edificar a herança dos inimigos de Deus?

A Bíblia ensina que “O homem de bem deixa uma herança aos filhos de seus filhos, mas a riqueza do pecador é depositada para o justo” (Provérbios 13:22). A doutrina do rapto ensina que a riqueza do justo é depositada para o pecador. Então, porque desperdiçar uma vida de esforço acima da média e de riscos para construir uma herança que será confiscada pelos pecadores que serão deixados para trás?
Uma mentalidade radicalmente focada no presente aflige os Protestantes fundamentalistas. Em 1970, Edward Banfield identificou que a origem primária de uma cultura de classe baixa é ser focada no presente. (Veja a edição original deste livro, The Unheavenly City). Não é a renda e sim a perspectiva de tempo que melhor identifica a classe. Fundamentalistas são, por definição, classe baixa.

Conclusão

Este artigo termina com um verso bíblico. Deveria ser aplicado em diversas circunstâncias, não somente uma.

“Porque, se a trombeta der sonido incerto, quem se preparará para a batalha?” (I Coríntios 14:8)
Culturalmente, intelectualmente e politicamente, fundamentalistas americanos foram deixados para trás. Eles se esforçaram para não deixar nada que seja culturalmente valioso. Eles são comprometidos com a irrelevância cultural, como eu explico no Capítulo 5 de meu livro, Rapture Fever. Culturalmente, eles soaram um sonido incerto. Figuradamente, eles precisam de Louis Armstrong.

- por Gary North

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