Pular para o conteúdo principal

A Piedade Para Tudo é Proveitosa



Pois o exercício físico é para pouco proveitoso (1 Tm 4.8). Pela expressão, exercício físico, o apóstolo não se refere ao esporte da caça, ou da corrida, ou proceder a uma escavação, ou de luta corporal, ou de algum trabalho manual; ao contrário, ele está falando de ações externas empreendidas em função da religião, a saber, vigílias, jejuns prolongados, prostração em terra e atos afins... Portanto, mesmo que o coração seja puro e o motivo justo, Paulo não encontra nada nas ações externas que seja de algum valor real. Eis aqui uma advertência indispensável, pois o mundo sempre revela forte tendência para cultuar a Deus por meio de observâncias externas, o que pode ser fatal. Mesmo deixando a noção perversa de que há méritos nelas, nossa natureza sempre nos dispõe fortemente a pensar que a vida ascética é de grande valor, como se fosse uma parte notável da santificação cristã. Não existe prova mais clara disso do que o fato de logo depois Paulo emitir esse mandamento, um tipo fútil de exercício corporal conquistou a admiração imoderada de toda a terra. 

De tal monasticismo surgiram as ordens de monges e freiras e quase toda a mais excelente disciplina da antiga igreja, pelo menos aquela parte dela que foi mais altamente estimada pela opinião popular. Se os antigos monges não tivessem crido de haver alguma perfeição divina ou angélica em suas austeras regras de vida, e jamais a teriam praticado com tanto ardor. Da mesma forma, se os pastores não tivessem indevidamente super valorizado as práticas então observadas como meio de se mortificar a carne, jamais as teriam requerido de maneira tão estrita. Todavia Paulo expressa o contrário, ou seja: mesmo que um homem se haja fatigado com muitos e prolongados exercícios, o proveito será pouco e insignificante; porque não passam de rudimentos de uma disciplina pueril.

Mas a piedade para tudo é proveitosa. Significa que ao homem que possui piedade nada falta, mesmo que não tenha a pequena assistência que essas práticas ascéticas podem oferecer. A piedade é o ponto de partida, o meio e o fim do viver cristão; e onde ela é completa, não existe lacuna alguma. Cristo não seguiu um modo ascético de vida como João Batista, e no entanto não lhe era absolutamente inferior, nem um mínimo sequer. Portanto, a conclusão é que devemos concentrar-nos exclusivamente sobre a piedade, pois quando a tivermos alcançado, Deus não requererá de nós nada mais; e devemos prestar atenção nos exercícios corporais só até onde eles não obstruam nem retardem a prática da piedade.

Tendo a promessa. É um conforto muitíssimo profundo saber que Deus não deseja que ao piedoso falte alguma coisa. Havendo decretado que nossa perfeição estaria radicada na piedade, ele agora faz provisão para que a mesma encontre sua concretização na genuína felicidade. E já que ela, nesta vida, é a fonte da felicidade, ele estende a esta vida, também, as promessas da graça divina, a qual só pode trazer-nos felicidade e sem a qual seremos os mais miseráveis dos homens. Pois Deus declara que mesmo nesta vida ele nos será por Pai. Devemos, porém, lembrar de fazer distinção entre as bênçãos da vida presente e as da vida futura. 

Pois neste mundo Deus nos abençoa de maneira que só desfrutamos de uma mera prelibação de sua benevolência, e através dessa prelibação somos atraídos a desejar as bênçãos celestiais para que nelas sejamos plenamente saciados. Eis a razão por que as bênçãos da presente vida são não só mescladas, mas também destruídas por muitas aflições, pois não é bom que tenhamos abundância aqui e a seguir suceda que ela nos conduza à luxúria. Além do mais, para que não suceda de alguém tentar extrair desta passagem a doutrina dos méritos [humanos], devemos observar que a piedade inclui não só uma consciência íntegra em relação ao homem e reverência em relação a Deus, mas também fé e oração.

- por João Calvino

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A mulher deve se vestir de modo que nenhum homem venha pecar por sua causa

Muitas mulheres e moças atualmente perderam seu próprio valor e muitas mulheres cristãs não tem se dado conta disso - o que acaba por as levar se vestindo conforme o mundo tem ditado; isto é, a moda. Por que digo isso?  Tenho notado o quanto muitas mulheres e moças têm se iludido ao pensarem que é bonito usarem vestimentas que mostram todas as suas curvas, tais como: roupas justíssimas delineando seu corpo, shorts e saias curtas e blusas decotadas. Mas, se fosse para ser  assim, Deus não teria vestido Adão e Eva como diz na Bíblia: " E o Senhor Deus fez túnicas de peles para Adão e sua mulher, e os vestiu " (Gênesis 3:21). Na palavra também está escrito: " Que do mesmo modo as mulheres se ataviem em traje honesto, com pudor e modéstia, não com tranças, ou com ouro, ou pérolas, ou vestidos preciosos. Mas (como convém a mulheres que fazem profissão de servir a Deus) com boas obras " (1 Timóteo 2:9-10). Noto ainda que muitas mulheres e moças usam roupas indecentes co

É pecado um casal de namorados dormir junto?

É pecado um casal de namorados dormir junto? - por Filipe Luiz C. Machado Recentemente um irmão em Cristo perguntou-me sobre a legitimidade - ou não - para um casal de namorados poder dormir junto. Confesso que esse é um ponto delicado, mas creio que - mais uma vez - as Escrituras nos revelam aquilo que devemos fazer. É importante notarmos, primeiro, sobre que tipo de situação nos rodeia. Uma coisa é um casal de namorados que viaja de avião e cuja aeronave cai no meio da floresta, restando poucos sobreviventes e ainda por cima, estavam na estação do inverno, o que implica dizer que necessariamente todos precisam dormir juntos - para se aquecer, caso contrário, morrerão. Mas é claro que essa é uma situação hipotética e nela seria perfeitamente coerente dormir junto, pois seria um pecado deixar alguém morrer de frio quando podia-se evitá-lo. Porém, mesmo a realidade dos namorados não é esta do avião, é a partir do dia-a-dia que as dúvidas surgem. Muitos namorad

A importância da Renúncia

Texto por Angela E. P. Machado ----- “E, pondo-se Jesus a caminho, correu um homem ao seu encontro e, ajoelhando-se, perguntou-lhe: Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna? Respondeu-lhe Jesus: Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão um, que é Deus. Sabes os mandamentos: Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso testemunho, não defraudarás ninguém, honra a teu pai e tua mãe. Então, ele respondeu: Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude. E Jesus, fitando-o, o amou e disse: Só uma coisa te falta: Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; então, vem e segue-me. Ele, porém, contrariado com esta palavra, retirou-se triste, porque era dono de muitas propriedades.” Marcos 10.17-22 Neste breve texto, vemos o reflexo daquilo em que os judeus acreditavam. Pensavam eles que as riquezas eram um sinal da aprovação de Deus e que os ricos teriam maiores possibilidades de serem salvos, ou seja, de alcançarem a vida etern