"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A Importância da Sensibilidade Cristã



Leia o texto abaixo e compare o capelão com o pastor; a prisão com o mundo; a angústia com o pecado; a execução com ira de Deus.
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Para que se possa perceber o quanto é importante a sensibilidade, como virtude humana, e o quanto a sua falta pode corromper o espírito, devemos mencionar um trecho da obra: O Último Dia de um Condenado à Morte, de Victor Hugo... Victor Hugo, no trecho que reproduziremos, narra o momento em que o seu personagem principal está na prisão, aguardando a hora de ser conduzido à Place de la Grève, para oferecer o seu pescoço à guilhotina. Ele era um friauche, ou seja, um condenado à morte. Nesses momentos que antecediam à sua execução, a angústia e o desespero tomavam conta de seu espírito e convulsionavam-lhe a mente. Em meio a esse torvelinho de pensamentos aterradores e de exasperantes apreensões, recebe a visita do capelão do presídio. Sente um alívio pela presença de um ser humano, de alguém que iria consolá-lo nesses momentos de aflição incontida. Todavia, o velho capelão se limita a dirigir-lhe algumas palavras frias, estereotipadas, retirando-se em seguida. O pobre condenado à morte, então, diz de si para consigo:

Mas o que foi que esse ancião me disse? Nada sentido, nada enternecido, nada chorado, nada arrancado da alma, nada que viesse do coração dele para tocar o meu, nada que passasse dele para mim. Ao contrário, não sei o que de vago, inacentuado, aplicável a tudo e a todos; enfático onde deveria ter sido profundo, banal onde deveria ter sido simples; uma espécie de sermão sentimental e de elegia teológica. Aqui e ali, uma citação latina em latim. Santo Agostinho, São Gregório, que sei eu? Depois, parecia estar recitando uma lição cem vezes já recitada, repassar um tema, obliterado na sua memória de tão conhecido. Nenhum olhar no olho, nem com acento na voz, nem um gesto nas mãos.

E como poderia ser diferente? Este padre é o capelão titular da prisão. Sua profissão é consolar e exortar, vive disso. Os forçados, os pacientes, são da alçada da sua eloquência. Confessa-os, assiste-os porque é função dele. Envelheceu levando os homens para a morte. Faz tempo que ele está acostumado ao que dá calafrios nos outros; seu cabelo, bem encanecido, já não fica mais em pé; os trabalhos forçados e o cadafalso fazem parte do cotidiano para ele. Ficou insensível. Ele provavelmente tem um caderninho, tal página os forçados, tal páginas os condenados. Avisam-no de véspera que haverá alguém para ser consolado a tal hora; pergunta o que é, forçado ou supliciado? Passa mais uma visita na tal página e vem para cá. Deste modo, acontece que os que vão para Toulon e os que vão para a Greve são um lugar-comum para ele, e ele, um lugar-comum para eles.

Oh! Que mandem buscar, em vez disso, algum jovem vigário, algum velho padre, ao acaso, na primeira paróquia; que o peguem juntinho da lareira, lendo seu livro, sem suspeitar de nada, e que lhe digam: 'Há um homem que vai morrer e cabe ao senhor consolá-lo. O senhor tem de estar presente quando atarem as mãos dele, quando lhe cortarem o cabelo; o senhor terá que subir com ele para a charrete com seu crucifixo para esconder dele o carrasco; terá que sacolejar com ele nos paralelepípedos até Greve; terá que atravessar com ele a horrível multidão bebedora de sangue; terá de beijá-lo ao pé do cadafalso, e ficar com ele até a cabeça estar aqui e o corpo lá'.

Que me tragam, então, todo palpitante, todo arrepiado da cabeça aos pés; que me joguem nos braços dele, aos pés dele; e ele chorará e nós choraremos, e será eloquente e eu estarei consolado, e meu coração desaguará no dele, ele tomará a minha alma e eu tomarei o Deus dele.

Mas o que aquele bom velho é para mim? O que sou para ele? Um indivíduo da espécie infeliz, uma sombra como já viu tantas, uma unidade para acrescentar ao número das execuções. (destacamos)

Destituído de sensibilidade no exercício de suas funções, o magistrado será como o velho capelão do presídio, no romance de Victor Hugo; será alguém que já não sente crepitar em seu coração aquela chama tão necessária para fazê-lo compreender as angústias humanas e também para fazê-lo sentir-se humano.

- por Manoel Antonio Teixeira Filho, Manual da Audiência na Justiça do Trabalho, págs. 29-30

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Um comentário :

  1. Meu Deus,que ditos lindos,Emocionantes! Muito Obrigado,por me passar este aprendizado.Que Deus nos Abençoe.

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