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A Vontade de Deus e a Vontade do Homem - parte 1



No presente, existe grande controvérsia a respeito da vontade de Deus. Sobre este assunto surgem muitas perguntas. A principal delas refere-se à conexão entre a vontade de Deus e a vontade do homem. Qual a relação entre elas? Qual a ordem que uma ocupa em relação a outra? Qual delas está em primeiro lugar? Não existe qualquer debate sobre a existência dessas duas vontades. Deus possui uma vontade, e, igualmente, o homem. Elas se encontram em constante exercício — Deus quer, e o homem quer. Nada ocorre no universo sem a vontade de Deus. Todos admitem isso; mas surge a pergunta: a vontade de Deus é o primeiro fator em todas as coisas?

Eu respondo “sim”. Não pode haver qualquer coisa boa que Deus não desejou que existisse; não pode haver qualquer coisa má que Deus não desejou permitir. A vontade de Deus vem antes de todas as outras vontades. Aquela não depende destas, mas estas dependem daquela. O exercício da vontade de Deus regula as outras vontades. O “Eu quero” de Jeová é aquilo que põe em atividade todas as coisas no céu e na terra; é a fonte e a origem de tudo que, grande ou pequeno, ocorre no universo, entre as coisas animadas ou inanimadas. Este “Eu quero” trouxe os anjos à existência e os sustem até agora. Este “Eu quero” originou a salvação para um mundo perdido, providenciou um Redentor e realizou a redenção. Este “Eu quero” começa, desenvolve e conclui a salvação de cada alma redimida; abre os olhos dos cegos e os ouvidos dos surdos; desperta aquele que dorme e ressuscita os mortos. Não estou dizendo que Deus simplesmente declarou a sua vontade a respeito dessas coisas; estou afirmando que cada conversão e cada atitude que a constitui originou-se neste supremo “Eu quero”. Quando Jesus curou o leproso, Ele disse: “Quero, fica limpo”; assim também, quando uma alma é convertida, ocorre a mesma, distinta e especial manifestação da vontade divina: “Quero, seja convertido”. Tudo que pode ser chamado bom no homem, ou no universo, tem sua origem no “Eu quero” de Jeová.

Não estou negando o fato de que na conversão o homem também exerce a sua vontade. Em tudo que o homem sente, pensa e faz, ele necessariamente exercita seu querer. Tudo isso é verdade. O contrário é absurdo e irreal. No entanto, enquanto o admitimos, surge outra pergunta de grande interesse e implicação. Os movimentos da vontade humana em direção ao bem são efeitos da operação da vontade divina? O homem deseja a salvação porque ele mesmo se tornou propenso a isto ou porque Deus o dispôs? O homem se torna completamente desejoso pela salvação por uma atitude de sua própria vontade, ou por causa do acaso, ou por persuasão moral, ou por que agiu motivado por causas e influências exteriores à sua pessoa?

Respondo sem hesitação: o homem se torna desejoso porque uma vontade distinta e superior — ou seja, a vontade de Deus — entrou em contato com a vontade dele, alterando sua natureza e sua propensão. Esta nova propensão resulta de uma mudança produzida sobre a vontade do homem por Aquele que, entre todos os seres, tem o direito irrestrito de afirmar, em referência a todos os acontecimentos e mudanças: “Eu quero”. A vontade do homem seguiu os movimentos da vontade divina. Deus o tornou desejoso. A vontade de Deus é a primeira a agir, não a segunda. Mesmo uma vontade santificada e aperfeiçoada depende da vontade de Deus, para receber orientação; e, depois de regenerada, a vontade do homem ainda é uma seguidora, e não um guia. E, no que se refere à vontade de uma pessoa não-regenerada, muito mais necessário é que sua propensão tenha de ser primeiramente mudada. Como isto pode acontecer, se Deus não interpuser sua mão e seu poder?

Isto não significa tornar Deus o autor do pecado? Não. O fato de que a vontade de Deus originou tudo que é bom no homem não implica em que essa mesma vontade dá origem ao que é mau. A existência de um mundo santo e feliz prova que Deus o criou com suas próprias mãos. A existência de um mundo impuro e infeliz comprova que Deus permitiu que esse mundo caísse nesse estado; porém não comprova mais nada. As Escrituras nos dizem que Jesus foi “entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus” (At 2.23). A vontade de Deus estava ali. Ele permitiu que as obras das trevas se realizassem; porém, mais do que isso, a morte de Jesus foi o resultado do “determinado desígnio” de Deus. Isto demonstra que Deus foi o autor do pecado de Judas ou de Herodes? Se não fosse a eterna vontade de Deus, Jesus não teria sido entregue; mas isto prova que Deus compeliu Judas a trair, Herodes a desprezar e Pilatos a condenar o Senhor da Glória? Ainda, outra passagem bíblica afirma: “Porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e gente de Israel, para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram” (At 4.27-28). É possível perverter esta passagem, a ponto de provar que ela não possui qualquer referência à predestinação? Ela significa que Deus foi o autor dos atos aos quais ela se refere? Deus é o autor do pecado, porque este relato afirma que judeus e gentios se ajuntaram “para fazerem tudo o que” a mão e o propósito divinos predeterminaram? Permitamos que os nossos oponentes expliquem esta passagem bíblica e digam-nos como ela pode se harmonizar com a teoria deles.

- por Horatius Bonar (1808 - 1889)
Fonte: Editora FIEL

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