"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

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quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Biblicamente: o governo deve punir o uso de drogas?

Vivemos tempos indecisos na política e esta tem perdido a cada dia sua credibilidade. Tempos de trevas também abundam o judiciário, o qual é comprado e/ou profere decisões totalmente absurdas. O legislativo, então, não merece sequer comentários. E diante de tanta bagunça e desilusões com os poderes de nossa república, não poderíamos esperar que os mesmos sejam qualquer referência de moralidade, legalidade ou licitude para nós.

Todavia, ainda é o nosso Judiciário que julga as demandas levadas até ele e é o que acontecerá muito em breve (em verdade, hoje mesmo, se tudo ocorrer dentro do planejado), com um caso onde um usuário de drogas foi pego com uma pequena quantidade. Em resumo, o Supremo Tribunal Federal (STF) - órgão máximo no Judiciário brasileiro -, irá decidir se portar uma pequena quantidade de droga para consumo próprio, continua ou não sendo crime. O STF já julgou inúmeros processos envolvendo drogas, mas ao que tudo indica, o que está pautado para hoje, será o primeiro que envolverá determinado artigo da Lei Antidrogas, o qual poderá ser considerado inconstitucional, por violar liberdades individuais, não ferir a moralidade pública e outras coisas mais.

Independente da decisão que os ministros do STF prolatem, como cristãos, temos interesse em, primeiramente, saber o que a Bíblia nos diz sobre este assunto de punição ao usuário de drogas. Vamos ser objetivos em nossa análise.

A Escritura revela que existem inúmeros pecados que devem ser punidos pelo magistrado civil. Bem, mas o que é pecado? João nos responde: "Todo aquele que pratica o pecado transgride a Lei; de fato, o pecado é a transgressão da Lei" (1Jo 3.4). Pecado, portanto, é tudo o que viola a Lei de Deus e esta é bastante clara no Antigo Testamento. Ninguém pode dizer o que é ou não pecado, se não entender a Lei de Deus. É simples assim.

Entretanto, a Bíblia demonstra que nem todo pecado, especialmente no Antigo Testamento, é punido pela magistrado civil. Quer dizer, nem tudo aquilo que Deus considera pecado, significa que os juízes (investidos pelo poder do Senhor) devem punir. Êxodo 22.9 e outros textos, nos mostram a legitimidade dos juízes para decidirem as causas (desde que decidam de acordo com a Palavra de Deus). Vamos a alguns exemplos básicos:

- adultério: é punido pelos magistrados (Lv 18.20; 29)
- homossexualismo: é punido pelos magistrados (Lv 18.22; 29);
- zoofilia (sexo com animais): é punido pelos magistrado (Lv 18.23; 29);

Várias outras passagens poderia ser colacionadas, demonstrando que inúmeras práticas eram consideradas pecado diante de Deus e por isso seus praticantes deveriam ser punidos. E aqui ninguém se engane: a ordenança para obedecer as leis era estendida aos judeus e aos estrangeiros que viviam junto com o povo de Deus: "Porém vós guardareis os meus estatutos e os meus juízos, e nenhuma destas abominações fareis, nem o natural, nem o estrangeiro que peregrina entre vós" (Lv 18.26).

Algo salutar e que convém deixar registrado é que existe uma diferença entre crimes de perigo concreto e abstrato. Perigo concreto são aqueles crimes que exigem a comprovação de algum dano, como no caso de maus tratos aos animais: os animais sofrem e por isso existe a lesão. Já para o crime abstrato, a mera conduta, mesmo que não resulte em nenhuma lesividade, já é considerada crime, como no caso de dirigir sob o efeito de álcool ou outra substância que altere o estado normal do indivíduo: a mera possibilidade de ocorrer algo errado, já é considerado crime.

Isto posto, vemos que o adultério, conquanto fosse punido pelos magistrados, precisava de duas ou três testemunhas, conforme lemos: "Quando no meio de ti, em alguma das tuas portas que te dá o Senhor teu Deus, se achar algum homem ou mulher que fizer mal aos olhos do Senhor teu Deus, transgredindo a sua aliança [...] Por boca de duas testemunhas, ou três testemunhas, será morto o que houver de morrer; por boca de uma só testemunha não morrerá" (Dt 17.2, 6). Ou seja, a mera conduta de adulterar, escondido e sem ninguém ter visto, não era punido pelo magistrado - até porque ninguém saberia do ocorrido, não é mesmo? 

E com relação a outras práticas, como no presente caso, o uso de substâncias que alteram a forma de percepção do mundo? É evidente que não cabe, neste pequeno texto, uma definição sobre o que é ou não droga, mas convém lembrar que muitas coisas não consideradas "drogas", são nocivas ao corpo. Alguém pode não fumar crack ou usar cocaína, mas vive cansado e fadigado porque só come "bobagem", por exemplo, vindo a morrer antes mesmo do "usuário de drogas". Para simplificar, vamos entender o termo "drogas" como tudo aquilo que altere o estado comum do homem e que lhe traga prejuízos (seja para mais ou para menos). Tal definição é importante, pois a Bíblia ordena que cuidemos de nossos corpos físicos (1Co 6.19-20) e que tenhamos cuidado com substâncias que nos tiram o domínio próprio e nos levam a cometer atos descabidos (Pv 23.29-35).

Desta forma, biblicamente, percebemos que os autores de tais práticas proibidas pela Escritura, nunca eram perseguidos com relação a sua vida particular. A própria proibição de ir adorar outros deuses, não era punida no âmbito privado - o indivíduo que em sua casa, fizesse uma oração a alguma outra deidade, não era punido pelo magistrado, pois não temos nenhum relato disso na Escritura.

É bem verdade que o uso de drogas não aparece de forma "clara" na Escritura e por isso temos de ter o cuidado quando tocamos neste assunto. Por outro lado, o silêncio quanto à punição pelo uso das mesmas, não parece encontrar lugar junto ao texto bíblico e creio que por uma simples razão: os possível atos decorrentes do seu uso, já possuem a devida punição. O indivíduo que usasse alguma droga e furtasse, teria de restituir; se matou, seria morto; se estuprou, seria morto; se enganou e dissimilou, receberia as devidas sanções...

Noutras palavras, a Bíblia não parece orientar os magistrados para que, no tocando ao prejuízo gerado para si mesmo, punam por crime abstrato, ou seja, pela mera conduta, devendo somente punir os delitos derivados destas condutas. O fato de alguém querer estragar o seu próprio corpo (você que se enche de batata frita toda semana e não faz exercícios, vá com calma no julgamento alheio, ok?), muito embora seja uma afronta ao corpo criado por Deus, não recebe punição pelo magistrado, de acordo com a Escritura. 

Aqui, alguém pode dizer que se liberado o uso (e estendo para a venda) de drogas, os jovens irão morrer e pessoas ficarão doentes, lotarão os hospitais e tudo o mais, quando não mencionarem o fato de as drogas, por viciarem, motivarem outros delitos. Tal argumentação é verdadeira e precisa ser levada em conta, todavia, nem sempre se furta/rouba para manter o vício e o furto/roubo já é punido biblicamente (e em nosso país), não importando o que motivou tal delito. Se as políticas públicas não conseguem punir com severidade os demais delitos, não é proibindo algo que a Bíblia não proíbe, que se chegará a uma solução melhor.

Ser favorável à descriminalização, não significa apoiar e promover as tristes consequências que isto tem para a vida da sociedade (afinal, as drogas circulariam com muito mais facilidade nos mais diversos lugares) e por isto precisamos conscientizar as pessoas dos malefícios que seu uso acarreta. Pais, igreja e toda a sociedade precisa estar ciente dos prejuízos causados pelas drogas, assim como orientar a todos de que cada um responderá por seus atos que venham - ou não - a ser praticados em decorrência do uso de drogas. 

Assim, concluo esta breve reflexão (que não esgota o assunto, evidente) dizendo que, ao meu entender e por não visualizar qualquer exemplo bíblico onde possa me apoiar, sou favorável a descriminalização do uso/venda de drogas. Não sou favorável à legalização das mesmas, pois o Estado teria de controlar, incidir impostos e se intrometer ainda mais na vida particular. Voto pela prática deixar de ser crime - sem excluir, porém, o voto de que o Estado deve buscar promover campanhas e outras práticas que não incentivem tal conduta -, afinal, biblicamente, não encontramos motivo algum para se encarcerar quem utiliza/vende drogas - em verdade, o encarceramento sequer é bíblico - mas este ponto fica para outro texto.

A graça seja com todos os que amam a nosso Senhor Jesus Cristo em sinceridade (Ef 6.24).

terça-feira, 11 de agosto de 2015

O exercício físico e seus benefícios mentais


Em agosto de 2014, tive o prazer de conseguir relatar a maravilhosa experiência de participar de minha primeira maratona em trilhas, praias e morros. Naquela ocasião (clique aqui para ler), busquei enfatizar o quanto o exercício físico pode nos ensinar sobre a importância da perseverança na vida cristã.

Agora, em agosto de 2015, mais precisamente no dia 08, tendo acabado os cinco anos de faculdade e me lembrando da icônica corrida do ano passado, resolvi encarar um novo desafio: correr 50 km por minha cidade. Se para o ano passado eu não havia treinado o suficiente e por isso sofri bastante (mas que lembro com saudades e faria tudo outra vez!), no presente momento eu vinha de um ano inteiro correndo e treinando - não com este foco específico, mas sempre na atividade e em movimento.

Para estes 50 km, saí às 05:45 de casa e corri perto de 1,5 km até onde me encontraria com um colega e outro rapaz que nos iria acompanhar de bicicleta. Chegando lá, infelizmente, nem sinal do corredor amigo - descubro, depois, que acabou programando errado o despertador. Reflito e mentalizo o trajeto proposto e me pergunto se conseguiria encarar tal jornada sem outro colega ao lado, afinal, seriam meus primeiros 50 km e tudo fica mais fácil com companhia de alguém que sofre contigo. Se desistisse, além de sentimento de "ser um fracassado" e de ter de dizer pra esposa e pra família que "não deu, porque eu tive medo de tentar", jamais saberia se correr tal distância me era possível e qual é a sensação de a terminar. Gentilmente, então, peço para o colega da bicicleta colocar minhas duas garrafas de isotônico em sua mochila e começamos o trajeto - desistir não era mais uma opção. Graças a Deus os 50 km foram concluídos com sucesso, tendo sido finalizados em 5h e 29min. 

Passado este final de semana memorável (formatura em Direito, festa em família e os 50 km), estava lendo, nesta manhã, um interessante texto chamado Correr uma ultramaratona é a melhor forma de tortura [1], onde Lee Stobbs relata sua "loucura" de ter encarado uma das ultramaratonas mais difíceis que existe [2], mesmo nunca tendo corrida uma. Tal "ultra" consistia em correr de maneira autossuficiente (ou seja, levando todo o suprimento necessário) durante 7 dias, tendo de percorrer 272 km. Dentre as tantas dificuldades narradas e pensando sinceramente em desistir, o autor relata que ganhou novo ânimo ao escutar de outro corredor: nossos corpos sempre irão desistir, mas o corpo nunca está cansado se a mente estiver boa. E ele conclui seu texto da seguinte forma: eu posso estar quebrado, mas nunca me senti tão vivo.

Por meu pequeno conhecimento e informação sobre atividades físicas e acompanhando vários atletas e outras pessoas que passaram a se exercitar a partir de algum estímulo que receberam, posso afirmar que as palavras de Stobbs se encaixam perfeitamente em quase todos os praticantes de atividade física: é duro, difícil, extremamente desgastante e surgem infinitas vontades de desistir durante sua prática, todavia, o fim é glorioso. É algo inexplicável. É quase mágico: você sofre, tem vontade de xingar a si mesmo (por ter se colocado em tal encrenca), pensa em mudar para um esporte onde possa ficar sentado, por exemplo, mas ao fim (ou logo após ele), não perde por esperar a próxima oportunidade de experimentar tais sentimentos. É realmente algo inexplicável. Eu diria que é uma experiência que somente pode ser sentida e toda tentativa de a partilhar, sempre será menor do que a realidade.

Em nossa vida cotidiana, conhecemos muitas pessoas que se queixam de serem preguiçosas, frequentemente desistentes de seus sonhos e vontades, não tendo ânimo para muita coisa e sempre crendo que não são capazes de fazer algo grandioso. Em toda a família existe um indivíduo que se considera "menos" que os outros; em toda roda de amigos sempre há o que se julga "não ser bom em nada"; e sem contar o número sem fim de pessoas que sequer começa algo, pois temem não conseguirem completar.

Ontem, me dirigindo ao trabalho e escutando a rádio CBN, ouvi o professor Jair Santos comentar sobre o porquê muitos não "mudam" e tendem a permanecer sempre na mesmice - e uma das causas elencadas, dizia respeito a que o medo de não conseguir era maior do que a vontade de tentar. E me lembrei, por óbvio, que idêntica coisa acontece quando se busca começar alguma atividade física ou se lança um desafio aparentemente grandioso: tememos mais o fracasso, do que temos energia para empreender rumo ao, relativamente, desconhecido. 

No texto de Stobbs citado, ele comenta sobre suas incertezas e inseguranças antes de se lançar em tal prova, afinal, quantos medos iria enfrentar e como iria reagir diante da sensação de insegurança por causa do inesperado - como suportar tudo isso? Correr por onde? Sozinho? Durante a noite? Passar por desertos, subir montanhas e andar em desfiladeiros? E se eu me perder? E se acabar a comida? O mesmo medo que tentava o aprisionar, também o impelia à mudança. Era o medo empreendedor que move o homem, o levando a experimentar novas sensações e crescer com elas.

É por isso que no exercício físico você aprende que, conquanto treinar o corpo seja essencial, se você não estiver mentalmente bem, tudo será em vão. Experimente, por exemplo, depois de uma discussão com seu cônjuge ou uma briga inesperada, tentar fazer algo que lhe seja desafiador: a probabilidade de êxito será bastante pequena. Pior: lance um desafio e estando à beira de o começar, descubra que algo grave em sua vida (uma dívida que você não lembrava, uma doença em algum parente querido...) não está como deveria e você verá a importância da "saúde mental" para a boa execução dos trabalhos.

Minha primeira corrida de 50 km foi um upgrade naquilo que os atletas/treinadores chamam de "calo mental". Você pode até estar preparado, fisicamente, para encarar o objetivo proposto, entretanto, se não estiver experimentado o suficiente, é bastante provável que irá desistir, pois seu corpo precisará de estímulos que não existirão. Se sua mente não estiver calejada o suficiente, ela aguentará poucos combates consigo mesmo e logo a vontade de desistir reinará. Se você não aprender a sofrer sozinho e se vencer, poucas experiências de glória lhe aguardam.

E é assim que finalizo esta breve reflexão, com o intento de animar você a se beneficiar dos exercícios físicos - não somente em matéria de saúde corporal, mas também mental. Sei que não é qualquer novidade, mas o fato de você ter precisar combater pensamentos como "desista", "olhe as pessoas nos carros - por que você está se esforçando?", "fique em casa assistindo televisão", "por que não uma pizza, em vez do exercício?", "agora chega: seu corpo não aguenta mais", certamente irá lhe trazer benefícios para muitas outras áreas e você se tornará mais forte mais encarar outros desafios que a vida lhe impor.

Não é à toa que nossos corpos se mexem, não é mesmo?

Notas:
[1] Clique aqui para ler (em inglês)
[2] Uma ultramaratona é qualquer corrida que tenha mais de 42,195 km. O autor resolveu correr a Grand To Grand Ultra.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Meu filho, você não merece nada


Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.

Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.

Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.

Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.

Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.

É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?

Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.

Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.

Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.

A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.

Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.

Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.

Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.

Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.

O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.

Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.

Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.

Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.

Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.

- por Eliane Brum

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