"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

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sexta-feira, 30 de maio de 2014

Carta ao Osnildo - Um cristão que pensa em colocar seus pais no asilo


*A presente carta é de gênero fictício, embora contenha situações da vida real.

Querido Osnildo, graça e paz. Obrigado por me escrever na semana passada e pelos convites enviados para o churrasco - tão breve seja possível desejo estar junto com tua família! Também lhe agradeço pela forma carinhosa com que você tem tratado os irmãos da igreja, de modo que muitos têm dado bom testemunho de sua conduta.

Nesta breve carta pretendo lhe falar sobre aquele assunto que você comentou comigo, a saber, a possibilidade de colocar seus pais em um asilo. Lembro que tinhas comentado acerca de sua idade "um pouco mais avançada" (65, certo?), de ser filho único, de seus filhos já estarem criados e você não ter condições adequadas para sustentar seus pais, os quais atualmente recebem uma pequena aposentadoria do governo. Realmente é uma situação difícil. Sei de seu esforço durante estes anos com seus pais e que atualmente não vê outra solução, senão os colocar em um asilo. Me permita, porém, amado irmão, tecer algumas considerações.

Antes de mais nada, deixo registrado que não estou atacando as instituições que acolhem as pessoas de idade. Tenho grande apreço por todas que fazem um excelente trabalho, muitas delas de maneira filantrópica e que demonstram extremo carinho por aqueles que por algum motivo tiveram de ir até lá. Louvado seja o Senhor por prover um local para todos aqueles senhores e senhoras.

Mas a primeira coisa a se notar é que a Bíblia Sagrada nos coloca uma grande responsabilidade para com nossos filhos, cada qual devendo os ensinar no bom caminho do Evangelho (Dt 6.7) - isto você fez com maestria para com os teus, de maneira que pela graça do Senhor todos seguem firmes na Palavra. Por outro lado, o que foi tratado como filho, um dia será pai e precisará de cuidados, o que juntamente ocorre com seus pais. Neste sentido, a Escritura é bastante evidente: "Mas, se alguma viúva tiver filhos, ou netos, aprendam primeiro a exercer piedade para com a sua própria família, e a recompensar seus pais; porque isto é bom e agradável diante de Deus" (1Tm 5.4).

Observe que o apóstolo Paulo instrui a Timóteo para que no tocante ao cuidado com os membros da igreja, ensine a família a prestar caridade para com os seus. Naquela situação em específico, muitas viúvas estavam vivendo às custas da igreja, sendo que tinham familiares crentes, os quais não estava fazendo o devido esforço para as amparar. Note, igualmente, algo importante: "aprendam primeiro a exercer piedade para com a sua própria família". Muitas vezes somos rápidos (ou nem tanto) para ajudar o desconhecido, aquele que nunca vimos, mas quão lentos somos para exercer o amor para com nossos parentes próximos - tudo isso sob inúmeros argumentos, alguns válidos, outros não.

Existe, outrossim, um ponto salutar: "se alguma viúva tiver filhos, ou netos". Seus pais têm somente a você como filho, mas eles também possuem netos - não me falha a memória você possui dois filhos, certo? Isso se traduz em que, segundo a Escritura, não somente você pode e deve os amparar, e sim também seus filhos, a fim de que os primeiros pais possam ter os provimentos necessários. É bem verdade que não mais vivemos naquela sociedade com muitos filhos (o que possui consequências sérias para a humanidade, pois mais filhos podem ajudar melhor os pais, por exemplo), todavia, o dever bíblico permanece independente disso.

Neste momento, recordemos do dito de Tiago: "A religião pura e imaculada para com Deus e Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo" (Tg 1.27 - grifado). Imagino que o irmão possa pensar que iria visitar seus pais no asilo, mas a pergunta é: isto seria o mesmo que cuidar de seus pais, ou seja, "exercer piedade para com a sua própria família"? Imagino, também, que o amado raciocine que é melhor deixar os pais em um asilo, do que não ter condições de os cuidar - o problema, entretanto, é que se o irmão não possui condições de lhes sustentar, terá de procurar um asilo público (que será difícil encontrar e achar uma vaga) e deixará seus pais aos cuidados de pessoas que não lhes levarão da Palavra de Deus diariamente, bem como "sabe-se lá nosso Deus" como deles cuidarão.

Dois versículos muito preciosos podem lhe ajudar a refletir: "Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós" (Mt 7.1-2). Ao contrário do que muitos pregadores dizem, este texto se encontra em conjunto com a repreensão ao julgamento desmedido para com o próximo - o típico farisaísmo combatido por Jesus. Aqui, somos instados a julgarmos de maneira equilibrada, "Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados". Isto significa dizer que se o irmão pensar ferranhamente desta forma (colocar seus pais no asilo) e não se propuser a achar uma forma melhor, sendo intransigente, não poderá reclamar se fizerem o mesmo com você e com sua esposa.

Um pouco adiante no capítulo de Mateus, lemos: "Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas" (Mt 7.12). Neste instante, deixo a pergunta ao irmão: você gostaria de que seus filhos o colocasem em um asilo? Todas aquelas fraldas trocadas, o dinheiro árduo investido na educação dos mesmos, a abnegação, as tristezas, as felicidades, tudo o que passou com eles para depois ser "idoso" e ser colocado em uma casa de abandono? Permita, por favor, ser "severo aqui", pois um asilo, por mais que seja um casa com outros semelhantes, nunca será como a companhia dos filhos e netos.

Finalizando, querido irmão, sei que sua casa tem espaço limitado e que também sua renda mensal é pequena, mas quando você tinha filhos em casa, o mesmo não acontecia? Noutras palavras, quando seus filhos estavam crescendo, você também não vivia "apertado"? Ademais, seus pais não lutaram muito para lhe dar uma vida nas melhores condições que puderam? Então, por que agir com certo egoísmo neste momento? Cuide, precioso irmão, para não cair nas ciladas do pecado, o qual nos diz que o tempo de velhice é para "descansar e curtir a vida sem preocupação" - lembre-se que a melhor maneira de viver a vida é cumprindo a vontade de Deus e vivendo para Sua glória (1Co 10.31).

Assim, aqui me despeço, não ordenando ao irmão que não coloque seus pais no asilo (pois teríamos de conversar melhor), mas o levando a pensar sobre as consequências que isso pode ter, bem como se gostaria de ser tratado desta mesma maneira. Tenha em mente que Cristo deu Sua vida por Seu povo, não poupando esforços para os proteger e os guardar de todo o mal - e creio que todos nós devemos fazer o mesmo, afinal, "Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou" (1Jo 2.6).

Que o Senhor seja contigo e no que precisar, lembre-se que a igreja é o corpo de Cristo (Ef 1.22-23), de maneira que é mil vezes preferível "passar necessidade" e ser acudido pelos irmãos para ajudar os pais, cumprindo o bom dever de cuidar dos mesmos na velhice, a se livrar de "um problema" e ser tratado da mesma forma posteriormente. Recorde do santo dever que não acaba quando se completa 18 anos: "Honra a teu pai e a tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa" (Ef 6.2).

Um grande abraço e Cristo seja com tua casa!

terça-feira, 20 de maio de 2014

O Cristão Pode Fumar Maconha?


Para uma análise de um tema tão capcioso e que a muitos têm confundido, não devemos nos basear em pesquisas e análises que ao longo dos anos foram produzidas; não porque elas sao inúteis, e sim porque não possuímos conhecimento o suficiente para julgar se tais experimentos estão certos. Para ilustrar, relembre quantas vocês já viu algum estudo dizendo que o café faz mal e depois outro de que faz bem; que vinho é bom para a saúde, mas que também ajuda a matar; que pessoas magras são mais saudáveis, mas que não é bom ser magro demais... As variações são inúmeras e por isso não nos ateremos a elas.

Falar em "poder fumar maconha" envolve alguns temas importantes, como a suficiência das Escrituras e o dever de cuidar de si próprio. Não nos delongaremos sobre a suficiência da Bíblia para os cristãos, vez que se este ponto não for aceito, de nada valerá a conversa; a Bíblia precisa ser a única regra de fé e conduta para todos, de maneira que se algum cristão não a tem como base de sua crença, é melhor rogar ao Senhor para que se apiede de sua vida. Noutro lado, temos o dever bíblico de cuidar do próprio corpo, o qual analisaremos.

A Bíblia orienta os crentes a apresentarem suas vidas ao Senhor de maneira semelhante a como Cristo viveu: "Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional" (Rm 12.1). Nosso Senhor Jesus Cristo veio à terra em cumprimento à lei, os profetas e os salmos (Lc 24.27, 44), para ser o cabeça da Igreja (Ef 1.22) e cumprir na Igreja toda a sua plenitude (Ef 1.23). Como puro cordeiro, Ele não somente morreu pelo injustos  eleitos (1Pe 3.18), mas também viveu para fazer a vontade do Pai (Jo 5.30). 

Desta forma, o primeiro indicativo de como devemos viver e se seria lícito fumar maconha, diz respeito a buscar uma vida parecida com a de nosso Salvador. Um problema, contudo, começa quando se inicia a seguinte pergunta: "mas Jesus não jogou futebol, por exemplo; também não surfou e não temos relatos de que tenha comido alguma costela com os discípulos". Para resolver este pequeno problema, é preciso notar que não estamos nos referindo a viver estritamente o que a literalidade da Bíblia diz que Cristo fez, porque a própria Escritura nos diz: "Jesus, pois, operou também em presença de seus discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro" (Jo 20.30). Jesus fez inúmeras outras coisas que não estão relatadas, de modo que viver como Cristo viveu, tem referência à passagem bíblica: "Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou" (1Jo 2.6), isto é, buscando fazer a vontade de Deus.

Dando seguimento, embora não conheçamos muitos crentes que fumem maconha, talvez alguns fumem sem saber se estão fazendo certo ou errado, acabando por pecar: "Mas aquele que tem dúvidas, se come está condenado, porque não come por fé; e tudo o que não é de fé é pecado" (Rm 14.23). Nesta passagem o apóstolo está instruindo os cristãos em Roma acerca da licitude de comerem tudo o que lhes posto à mesa e vendido para consumo, mas devendo sempre observar o irmão mais fraco (Rm 14.3). Certamente que Paulo não estava advogando o comer alimentos estragados e nitidamente danosos à saúde, e sim fazendo um contraponto à pretensa liberdade que muitos estavam usando da maneira errada, sendo pedras de tropeço na vida dos mais fracos.

A liberdade cristã precisa ser corretamente entendida, pois quando lemos que "Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão" (Gl 5.1), devemos ter em mente que o apóstolo Paulo, na carta aos gálatas, estava tratando da judaização do cristianismo, devido a que muitos estavam voltando às antigas práticas, desejando introduzir antigos ritos na igreja, fazendo com que o sacrifício de Cristo fosse negado. Os irmãos na Galácia precisavam compreender que a liberdade para qual haviam sido chamados, fazia com que eles não mais vivessem na "sombra das coisas futuras" (Cl 2.17) e passassem a viver na realidade, em Cristo Jesus.

Assim, se alguém fuma maconha ou faz qualquer outra coisa sob a desculpa de que "é livre", demonstra que não entendeu a Palavra da Verdade e precisa a ela dedicar tempo, a fim de a ter como única coluna basilar de sua vida.

Diante disso, após termos ciência da necessidade de vivermos como Cristo e não escandalizarmos nossos irmãos, tenhamos em mente um versículo de suma importância: "Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus" (1Co 10.31). A pergunta que poderá responder nossa indagação sobre se é lícito fumar maconha, será: é possível fumar maconha para a glória de Deus?

Geralmente esta pergunta - "é possível [atividade/atitude] para a glória de Deus?" - é respondida por algumas pessoas como sendo impossível fazer todas as coisas para a glória de Deus. Bem, se isso é verdade, então Deus é mentiroso, afirmando que deveríamos fazer uma coisa que não pode ser feita. Graças ao bondoso Senhor, sabemos que é possível fazermos todas as coisas para o Seu louvor, conforme links no final deste artigo. Mas no que consiste fazer todas as glórias de Deus? Talvez um excelente resumo seja: "Filho meu, guarda as minhas palavras, e esconde dentro de ti os meus mandamentos" (Pv 7.1); "Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor" (Jo 15.10).

Guardar os mandamento do Senhor indica que O amamos e permanecemos em Sua palavra. Evidente que, conforme já salientou o reformador Matinho Lutero, os mandamentos de Deus demonstram nossa fraqueza, pois vemos o quão altos são e chegamos à conclusão dada por nosso Salvador: "sem mim nada podeis fazer" (Jo 15.5). Falar em obedecer os mandamentos não significa alcançar a salvação por meritocracia, e sim buscar viver de acordo com a graça do Senhor que habita na Igreja pelo Seu Espírito Santo, conforme lemos: "Mas pela graça de Deus sou o que sou; e a sua graça para comigo não foi vã, antes trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus, que está comigo" (1Co 15.10). Portanto, não nós, mas a bondade do Senhor para conosco.

Tendo por certo que devemos guardar os mandamentos do Senhor, mesmo sabendo que iremos fraquejar (daí a necessidade de entendermos que eles somente podem ser cumpridos em Cristo, em quem somos adotados - Ef 1.5), notamos que a Escritura prescreve os frutos do Espírito Santo atuando na Igreja, os quais estão elencados no capítulo cinco da carta aos gálatas: "Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança" (Gl 5.22).

É preciso sempre notar que os frutos do Espírito Santo não são a mesma coisa dos dons do Espírito Santo. Os crentes possuem dons variados (1Co 12.29-30), segundo a boa vontade de Deus, porém os frutos do Espírito Santo devem habitar em todos os crentes, sem qualquer excessão. Nenhum crente pode ter falta de amor, gozo (alegria), paz e os demais elencados. Não é uma faculdade ter alguns deles, e sim uma obrigação; ou melhor, se alguém não os possui, não tem o Espírito do Senhor. Novamente, convém lembrar que tais dons não são manifestos de maneira plena da vida dos crentes, pois ainda lutamos contra as concupiscências da vida (Rm 7.4-25) - mas um fato notável é que todos precisam frutificar de acordo com a Palavra.

Importa observar que um dos frutos do Espírito Santo é a "temperança" ou "domínio próprio". A palavra no grego original é Egkrateia [1] e significa "domínio próprio, a virtude dos que dominam seus desejos e paixões". Este significado é de grande importância, porque dominar os desejos e paixões, ainda que não em plenitude de perfeição, é uma clara demonstração da libertação que o Evangelho causou: "E, libertados do pecado, fostes feitos servos da justiça" (Rm 6.18). Agora, porque o crente não é mais escravo do pecado, pode resistir à tentação (Tg 4.7) e a vencer pelo sangue do Cordeiro. Isto implica em que se alguma coisa escraviza o crente (drogas, futebol, internet, alguma amizade, dinheiro, fama...), o mesmo precisa buscar guarida junto ao Refúgio (Salmo 46) e buscar saber se controlar.

Em contraponto aos frutos do Espírito Santo, a Escritura nos revela os frutos da carne: "Porque as obras da carne são manifestas, as quais são [...] feitiçaria" (Gl 5.19-20). A palavra que temos traduzido por "feitiçaria" (em boa parte das traduções), no grego original é Pharmakeia [2] e significa "o uso ou a administração de drogas de envenenamento/intoxicação, feitiçaria, artes mágicas, geralmente em conexão com a idolatria e promovendo a mesma". Não é preciso muito malabarismo para se entender que a partir desta palavra surgiu "farmácia", ou como era nos tempos antigos, "drogaria".

O fato é que a Bíblia revela ser uma obra da carne, ou seja, não vinda do Espírito Santo, a manifestação de Pharmakeia, o uso de substâncias que trazem malefícios ao corpo, podendo ser acompanhada de outros rituais (é como o uso de drogas em determinadas seitas, a fim de alcançar um outro "estado de espírito"). Por isso, aqui temos um precioso indicativo bíblico sobre a necessidade do cristão vigiar sobre o que come, bebe ou realiza, a fim de verificar se não está incorrendo em Pharmakeia; se não está utilizando de drogas (lícitas ou ilícitas) para "viajar" ou ficar mais "relaxado".

Neste deságue, temos outros exemplos bíblicos de intoxicação, como em Romanos 13.13: "Andemos honestamente, como de dia; não em glutonarias, nem em bebedeiras, nem em desonestidades, nem em dissoluções, nem em contendas e inveja". A palavra "bebedices" é Methe [3] em grego e significa "intoxicação, embriaguez" - é a mesma palavra usada em Lucas 21.34 e Gálatas 5.21. Também lemos: "E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito" (Ef 5.18) - aqui a palavra é Methusko [4] e significa "se intoxicar, ficar bêbado, vir a estar intoxicado".

Neste instante, alguém pode vir pensar: "mas muitas outras coisas também intoxicam! Mortes pelas complicações da diabetes, álcool, frituras, fast-foods, embutidos... Muitas coisas intoxicam!". Tal questionamento é certo e precisa ser ponderado, afinal, que diferença existe entre um crente que consome altas quantidades de fritura e um que fuma maconha? Ambos não prejudicam o próprio corpo? O que vive comendo doçuras e está bem acima do peso, não comete tamanho pecado e demonstra não ter domínio próprio?

É preciso, por isso, atentarmos para as palavras de Cristo: "E por que atentas tu no argueiro que está no olho de teu irmão, e não reparas na trave que está no teu próprio olho?" (Lc 6.41). Inúmeras vezes os cristãos acabam por "tornar demoníaca" certas coisas e se esquecem de que praticam tantas outros pecados diante do Senhor. Para ilustrar, há algum tempo atrás um irmão me indagou acerca de um grupo de amigos seus (cristãos) que estavam usando Narguile para fumar, o que o estava deixando espantado; questionei-o, então, que mesmo concordando em não ser lícito fumar aquilo (pois segundo consta, possui sérias consequências para o corpo - tão ruins quanto ou pior que o cigarro), muitas vezes ele mesmo comia e ingeria bebidas maléficas para sua saúde, devendo ser cauteloso quanto ao "zelo" pela santidade, afinal, muitas vezes não se enxerga o próprio erro.

Creio, todavia, que mesmo entendendo o até aqui exposto, alguns crentes podem se lembrar do seguinte versículo: "Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm; todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas edificam" (1Co 10.23). Tal versículo é usado, frequentemente, como um respaldo para dizer, "bem, eu até poderia fazer isso ou aquilo, mas não convém". Este pensamento reflete a ideia de que todas as coisas são lícitas - absolutamente tudo -, mas que algumas é melhor não fazer. A grande questão é que o versículo seguinte explana o real entendimento: "Ninguém busque o proveito próprio; antes cada um o que é de outrem" (1Co 10.24). O combate do apóstolo era contra a pretensa liberdade de fazer, dentre as coisas lícitas, algumas que levavam os irmãos a se escandalizarem, e não que qualquer coisa no mundo seria lícita ao crente!

Em vias de finalização, sabemos que a maconha, assim como tantas outras plantas, foram criadas por Deus - o próprio tabaco, inclusive. Se Ele criou todas estas coisas, então elas são "boas", pois "viu Deus que era bom" (Gn 1.12). Mas o fato de algo ser bom, não significa que o modo como se utiliza é igualmente puro, além do que, o pecado corrompeu todas as coisas, trazendo "Espinhos, e cardos" (Gn 3.18) à terra, fazendo com que a criação sofra as consequências da desobediência: "Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora" (Rm 8.22). 

Como exemplo, de algo bom, mas que sendo usado de maneira errada, pode trazer prejuízos, é o caso dos animais - não é qualquer pecado matar animais para os comer (Gn 9.3), mas seria um pecado comer o animal sem o cozinhar e não observando algumas regras sanitárias, vindo a trazer inúmeras doenças; ou noutro sentido, assar o animal ainda vivo, desprezando o sofrimento do mesmo, o que é estaria em completa desarmonia com o governar e cuidar da criação de Deus (Gn 2.15).

Assim, podemos finalizar este breve artigo da seguinte forma: a maconha foi criada por Deus e na medicina possui a sua validade, tal qual inúmeras outras plantas; não deve, porém, ser usada para o consumo por meio de "baseados", pois nenhum benefício traz ao ser que faz uso desta maneira (não preciso discorrer sobre os efeitos maléficos). Por outro lado, os que não fumam maconha, devem olhar para a "trave" que está em seus olhos e perceberem que, conquanto não fumem esta erva, consomem inúmeras outras "porcarias", de maneira que não possuem nenhuma razão para se acharem mais ou menos crentes do que aqueles que fumam, pois ambos estão errados.

Que a graça de nosso Senhor esteja com todos os que O amam em sinceridade (Ef 6.24).

Notas:
[1] http://www.biblestudytools.com/lexicons/greek/kjv/egkrateia.html
[2] http://www.biblestudytools.com/lexicons/greek/kjv/pharmakeia.html
[3] http://www.biblestudytools.com/lexicons/greek/kjv/methe.html
[4] http://www.biblestudytools.com/lexicons/greek/kjv/methusko.html

quinta-feira, 15 de maio de 2014

"E Viu Deus que era Bom" - Uma Breve Análise Sobre a Beleza Pessoal


Quando separou a porção seca das águas, Deus viu que era bom (Gn 1.10); quando a terra produziu ervas e arvores frutíferas, Deus viu que era bom (Gn 1.12); quando os luminares foram postos, viu Deus que era bom (1.18); quando os animais marinhos e os que voam foram criados, viu Deus que era bom (Gn 1.21); quando os animais terrestres foram criados, viu Deus que era bom (Gn 1.25); quando finalmente criou homem e mulher e contemplou toda a criação, viu Deus que era muito bom (Gn 1.31).

A Escritura nos ensina que a criação de Deus é boa, pois ela foi feita e esculpida pelo perfeito Ser. A criação é um grande reflexo da magnitude e sabedoria excelsa do Senhor. A razão para lermos sobre que Deus viu ser bom o que fazia, demonstra que Ele se deleitou em toda a Sua criação, vendo nela as características de Seu perfeito querer.

Veio, todavia, o pecado e este manchou a criação de Deus - homens e mulheres agora carregam a semente da corrupção e a natureza geme em dores de parto, aguardando a redenção (Rm 8.22). Mas isso não significa que as coisas deixaram de ter a sua beleza, e sim que por causa do desvio do homem diante de Deus, ele tem dificuldade para enxergar a verdadeira beleza; seu senso de "belo" e "feio" foi terrivelmente pervertido, pois ao comer da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn 3.6), o homem percebeu que, conquanto fosse perfeito, sua perfeição não era tal como a de Deus, a ponto de que ele pudesse lidar com o mal sem com ele se enredar; quis ser como Deus e incorreu na condenação.

E o que isso tem a ver com "Uma Análise Sobre a Beleza Pessoal"? Certamente não é qualquer ensaio filosófico, entretanto, a reflexão que precisamos ter é sobre o quão erradas são as nossas atitudes diante de coisas saudáveis e belas que o Senhor criou. Vejamos um clássico exemplo.

Você está andando pelas ruas de sua cidade e como que "de repente", uma pessoa muito bela surge em seu campo de visão - aquela pessoa com os cabelos "perfeitos", olhar belo e um corpo bem cuidado. Qual é, geralmente, nossa reação posterior quando isso acontece? "Senhor, me perdoe! Eis que cobicei a mulher (ou homem) do próximo". Notemos, porém, que isso pode revelar um mal entendimento sobre a Palavra de Deus, pois o pecado estabelecido não é ver alguém e achar esta pessoa bonita, e sim o "ir além", ter outros pensamentos com ela - ou como diria um alguém, ainda que em forte tom, "é ver a pessoa além da roupa".

Observamos que "achar alguém bonito" não é qualquer pecado. Quando Jacó foi à casa de Labão, "aconteceu que, vendo Jacó a Raquel [...] era de formoso semblante e formosa à vista" (Gn 29.10, 17). Certamente que Jacó não cometera qualquer pecado em achar Raquel uma pessoa "formosa à vista" - o pecado estaria em como ele "processaria" essa informação e que atitudes tomaria com relação a ela. Isto é o que deve estar claro em nossas mentes: os seres humanos possuem suas belezas e características que nos chamam a atenção - "e viu Deus que era bom".

Muitos irmãos em Cristo, porém, têm tido dificuldades com isso - talvez pelo excessivo rigor sobre que "tudo é pecado", talvez pela extrema fraqueza nesta área específica. Seja como for, é preciso lhes lembrar que se não conseguirem ver "beleza" em qualquer pessoa, correm um sério risco de se enganarem, crendo que serão "santos" quando somente, no caso de solteiros, forem conversar com alguém que "não seja bonito". Este certamente é um grande erro, assim como aqueles que somente conversam com pessoas que exteriormente são "belas", não valorizando o interior.

Em minha experiência de casado, algumas vezes já disse, em tom respeitoso à minha esposa, como determinada pessoa é bonita - e ela já fez o mesmo comigo. Tentamos estabelecer uma relação de transparência, deixando a hipocrisia de lado, como se nenhum de nós passasse por tentações ou fosse alguém de outro planeta que depois de casado "não acha ninguém mais bonito". Neste mister, recomendo ao leitor este texto - O quão sincero você é com seu cônjuge? -, a fim de que possa, segundo a graça de Deus, buscar uma relação fiel e genuína com seu cônjuge (ou futuro).

Por isso, da próxima vez que você enxergar alguém formoso à vista, rogue ao Senhor para lhe dê um espírito de gratidão e que consiga perceber na beleza alheia um retrato da criação de Deus; que você obtenha graça suficiente para ver quantas coisas excelentes o Eterno criou, as quais se manifestam na vida de cada ser humano, cada qual com sua beleza peculiar. Procure perceber, também, o quão "irreais" são determinadas pessoas "belas", as quais buscam somente enganar os olhos, pois nada mais são do que uma modificação corporal e que atende às concupiscências da carne.

Que o Artífice da criação nos remova do excesso de desejo de ver pecado em todas as coisas que Ele disse ser bom, mas que também nos livre do mal (Mt 6.13), nos dê o escape no momento da angústia (1 Co.10-13), nos leve a fugir da aparência do verdadeiro mal (Tg 4.7) e nos ensine que sem Ele nada podemos fazer (Jo 15.5).

"A graça seja com todos os que amam a nosso Senhor Jesus Cristo em sinceridade" (Ef 6.24).

sexta-feira, 9 de maio de 2014

A Restauração do Povo Judeu


Se por um lado temos alguns evangélicos que afirmam que amam o povo judeu de uma forma até mesmo exagerada, não compreendendo que a ordenança de orar pela paz em Jerusalém (Sl 122.6), primeiramente está ligada ao contexto do Salmo e, por conseguinte, se estende à toda Igreja e povo de Deus, do outro lado existem aqueles crentes que não se importam nem um pouco com os judeus - em verdade, muitas vezes os insultando e os tratando com desprezo, sob a alegação de que foram eles que mataram nosso Senhor Jesus Cristo.

Ligado a estes dois extremos, reside uma pergunta: diante de tantas promessas no Antigo Testamento sobre a bênção de Deus sobre o Seu povo, a Bíblia nos revela alguma esperança para o povo judeu, no tocante à salvação de muitos? Para nos desvencilharmos desta dúvida, é preciso entendermos como e porque o evangelho chegou até os gentios.

Como é de conhecimento geral, durante muito tempo os gentios (povos não-judeus) foram restringidos quanto à palavra da salvação - não em sua totalidade, mas em considerável quantidade. Falamos que não foram totalmente excluídos devido a Escritura descrever, por exemplo, no livro de Jonas, o arrependimento de Nínive, uma cidade gentia; outrossim, de estrangeiros que viviam no meio do povo de Israel e tinham direito à herança (Ez 47.22-23), podendo, inclusive, oferecer sacrifícios a Deus (Lv 17.8-9). Portanto, é fato consumado que a salvação chegou a vários gentios naquele tempo, mas a maciça maioria jamais ouviu falar do evangelho e dele foi privado.

No entanto, mesmo os gentios tendo restrita a palavra da salvação, havia a antiga promessa dada a Abraão: "Olha agora para os céus, e conta as estrelas, se as podes contar. E disse-lhe: Assim será a tua descendência. E creu ele no Senhor, e imputou-lhe isto por justiça" (Gn 15.5-6). Assim como vemos as estrelas pelo céu que cobre toda a face da terra, o Senhor prometeu ao patriarca que a sua descendência também cobriria toda a terra. Esta descendência, embora também possa ser entendida como muitos judeus pelo mundo, se afigura muito mais elencada à fé de Abraão, sobre a qual lemos: "E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa" (Gl 3.29). Por isso, embora os gentios ainda não tivessem ouvido grandemente a mensagem da salvação, o Senhor afirmou que um dia isso iria se cumprir, porque Ele "não pode mentir" (Tt 1.2).

Dando seguimento, quando o Filho de Deus, Jesus Cristo, veio à terra, anunciou primeiramente aos judeus, cumprindo as palavras de Isaías: "O povo, que estava assentado em trevas, Viu uma grande luz; aos que estavam assentados na região e sombra da morte, A luz raiou" (Mt 4.16). Essa luz, porém, embora tenha brilhado, foi recebida com endurecimento e em vez de ser a salvação de muitos, se tornou a pedra de tropeço (Mt 21.42-44). Os judeus não compreenderam a mensagem da salvação e por causa disso, em vez de Cristo lhes ser um salvador, tornou-se a pedra que os lançou à destruição.

Desta forma, uma vez que os evangelhos relatam incessantemente a recusa do povo judeu em reconhecer o senhorio de Cristo, vemos a assertiva: "Nunca lestes nas Escrituras: A pedra, que os edificadores rejeitaram, essa foi posta por cabeça do ângulo; pelo Senhor foi feito isto, E é maravilhoso aos nossos olhos? Portanto, eu vos digo que o reino de Deus vos será tirado, e será dado a uma nação que dê os seus frutos" (Mt 21.42-43 - grifado). O Messias afirmou que mesmo a pedra angular, a que sustenta todo um edifício (veja os paralelos em 1Co 3.9; 2Co 5.1; Ef 2.21), tendo sido rejeitada, ela seria a única sustentação do Reino de Deus - entretanto, o povo que durante tantos milhares de anos teve o Senhor como seu Deus, agora estaria sendo privado desta estupenda bênção, porque seria "dado a uma nação que dê os seus frutos".

Os judeus não haviam frutificado da maneira que lhes competia quanto à responsabilidade incumbida pelo Senhor. A vinda de Cristo, estava consolidando aquilo que já havia iniciado no tempo do profeta Isaías: "Ai, nação pecadora, povo carregado de iniquidade, descendência de malfeitores, filhos corruptores; deixaram ao Senhor, blasfemaram o Santo de Israel, voltaram para trás" (Is 1.4 - grifado). Por causa da obstinação, "o reino de Deus vos será tirado" e de fato foi - os judeus, agora, estavam privados da bênção do Senhor.

Percebamos, amados irmãos, que a partir deste momento a bênção como que é "invertida", pois se anteriormente a maioria dos judeus possuía a palavra da salvação - "Qual é logo a vantagem do judeu? Ou qual a utilidade da circuncisão? Muita, em toda a maneira, porque, primeiramente, as palavras de Deus lhe foram confiadas" (Rm 3.1-2) - e os gentios eram privados dela, agora Cristo afirma que muitos judeus seriam impedidos, enquanto os gentios seriam agraciados. Essa mudança é muito visível, principalmente quando olhamos para as duas comissões dadas aos discípulos.

Frequentemente conhecemos apenas o "ide, fazei discípulos de todas as nações" (Mt 28.19), constante no último capítulo do evangelho segundo Mateus, mas nos esquecemos de que já havia ocorrido um primeiro "ide": "Jesus enviou estes doze, e lhes ordenou, dizendo: Não ireis pelo caminho dos gentios, nem entrareis em cidade de samaritanos; Mas ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel" (Mt 10.5-6 - grifado).

Vemos que no início do ministério de Cristo a ordem era muito específica quanto à proibição de levar a mensagem aos gentios, afinal, os discípulos deveriam ir, primeiramente, "às ovelhas perdidas da casa de Israel" - e por que isso? "porque [...] as palavras de Deus lhe foram confiadas" (Rm 3.2). Sendo os judeus os que primeiro receberam a Palavra, seriam os primeiros a ouvirem sobre o Filho de Deus que agora havia vindo para cumprir toda a lei e os profetas (Lc 24. 27, 44). Neste deságue, o "fazer discípulos de todas as nações" é um claro apontamento de Jesus sobre que após o evangelho ter sido anunciado aos judeus e os mesmos terem sido povo de dura cerviz (relembre das inúmeras parábolas de Cristo e de como Ele demonstrava a malignidade no coração do povo escolhido), agora os seus servos deveriam ir por todas as nações, vez que os judeus já haviam recebido a mensagem.

Certamente que, conforme lemos nas Escrituras, muitos judeus se converteram - aqueles para os quais Cristo havia sido enviado (Mt 15.24), às ovelhas perdidas da casa de Israel - e existissem igrejas com predominância judaica (os Gálatas, por exemplo), um fato incontestável é que aquela impossibilidade que havia sobre os gentios em tempo pretérito, a fim de que não ouvissem a mensagem do Reino, agora estava sobre os judeus. Isso podemos atestar de modo cristalino: "Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não vêem; e, ouvindo, não ouvem nem compreendem. E neles se cumpre a profecia de Isaías, que diz: Ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis, e, vendo, vereis, mas não percebereis. Porque o coração deste povo está endurecido, E ouviram de mau grado com seus ouvidos, E fecharam seus olhos; Para que não vejam com os olhos, E ouçam com os ouvidos,e compreendam com o coração,e se convertam,e eu os cure" (Mt 13.13-15).

Diante do exposto, podemos compreende melhor a expressão do apóstolo em sua carta aos crentes romanos: "Porque não quero, irmãos, que ignoreis este segredo (para que não presumais de vós mesmos): que o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios haja entrado" (Rm 11.25). O apóstolo afirma que era importante esta mensagem aos cristãos em Roma, não devendo ser ignorado ou tido como de pouco importância. Igualmente, talvez para se precaver de julgamentos internos que os crentes poderiam fazer dos judeus, Paulo lhes diz que não deveriam presumir nada a partir deles mesmo, mas tão somente ter uma certeza: "que o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios haja entrado".

A questão "que o endurecimento veio em parte sobre Israel", isso vimos até aqui - resta, porém, atentarmos com grande graça para a segunda parte: "até que a plenitude dos gentios haja entrado". Isso significa dizer o que exatamente, assim creio, o leitor está pensando: se outrora houve um endurecimento sobre os gentios e isso serviu de bênção para o povo judeu, pois os tais tinham a mensagem da salvação (ainda que nem todo israelita era salvo), agora o endurecimento se encontra com o povo judeu, todavia, até que a plenitude dos gentios haja entrado na aliança do Senhor.

Como cristãos, precisamos compreender esta verdade: entendermos que o endurecimento dos judeus (note que até hoje, a minoria deles segue ao Senhor, se rebelando contra Jesus Cristo) permanecerá vigente até que todos os gentios eleitos (leia os capítulos 6 e 10 do evangelho segundo João) tenham sido alcançados - ou em outra interpretação plausível, até que todos os povos gentios ao redor do mundo tenham ouvido falar do evangelho. Independente da interpretação, o que não se pode negar é que haverá o dia em que muitos judeus serão convertidos ao Senhor: "Porventura rejeitou Deus o seu povo? De modo nenhum [...] Deus não rejeitou o seu povo, que antes conheceu" (Rm 11.1-2).

Qual seria, então, a razão do povo judeu ter sido rejeitado? "Novamente pergunto: Acaso tropeçaram para que ficassem caídos? De maneira nenhuma! Ao contrário, por causa da transgressão deles, veio salvação para os gentios, para provocar ciúme em Israel" (Rm 11.11 - NVI). Aqui, mais uma vez, notamos a bondosa mão de Deus agindo, pois somos informados de que o tropeço do povo judeu em Jesus Cristo (em vez de O terem como a pedra angular, nela tropeçaram e caíram), não foi "para que ficassem caídos", e sim "para provocar ciúme em Israel".

O "ciúme" de que relata o apóstolo não está ligado àquele exemplo do mau ciúme no casamento, onde por fim o relacionamento se finda, e sim que, embora a relação deles com os gentios seja frequentemente pouco amistosa (vide o Talmude), haverá o tempo em que este ciúme os levará ao arrependimento, pois conforme vemos no Antigo Testamento, os judeus crentesse regozijaram de serem povo de Deus e de estar sob Seus cuidados. Agora, uma vez que rejeitaram a Cristo, sentem as dores do afastamento, tendo inúmeras guerras, tragédias e uma vida totalmente voltada à salvação pelas obras, porque não se submeteram aos pés de Jesus - preferiram Barrabás (Jo 18.40) e agora colhem os frutos.

Finalizando, não devemos entender o futuro avivamento dos judeus como sendo algo alegórico, como se a Palavra de Deus estivesse intentando dizer que se trata de um povo judeu figurativo, onde a mensagem seria de que um dia os judeus e gentios estariam juntos e isso seria uma espécie de volta dos judeus - tal pensamento imerece prosperar por diversas razões, dentre elas que o contexto da carta aos romanos é bastante claro em diferenciar gentios de judeus como povos distintos e de que noutros lugares das Escrituras (Efésios, por exemplo) a união da Igreja invisível de Cristo (todos os crentes de todo o mundo, ou seja, judeus e gentios) já é relatada como uma realidade, não mais como uma promessa no porvir.

Concluímos, assim, que devemos orar por esta conversão do povo judeu, bem como rogar ao Senhor pelos gentios que hão de converter - não superestimando o povo judeu (pois este tempo que passam é fruto da ira de Deus sobre eles), mas não os ignorando, sabendo do que já nos disse a santa Palavra de Deus sobre eles: "também agora neste tempo ficou um remanescente, segundo a eleição da graça" (Rm 11.5).

Buscando não cansar o leitor, finalizamos aqui este breve artigo - deixando, abaixo, citações dos antigos crentes e de como eles entendiam essa questão. Que a paz de nosso Senhor seja com todos aqueles que O amam em sinceridade (Ef 6.24).

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João Calvino (1509-1564): "No entanto, quando Paulo os lança fora de sua vã confiança em sua raça, ele ainda vê, por outro lado, que a aliança a qual Deus fez de uma vez para sempre com os descendentes de Abraão, não poderia, de forma alguma, ser feita nula. Consequentemente, no décimo primeiro capítulo (de Romanos), ele argumenta que a descendência física de Abraão não deve ser privada, subtraída, de sua dignidade. Por virtude disto, ele ensina, que os judeus são os primários e naturais herdeiros do Evangelho [...] ainda que abandonados de tal forma que a benção celestial não partiu completamente da sua nação. Por esta razão, apesar de sua teimosia e quebra da aliança, Paulo ainda os chama Santos (Rm 11.16)."

William Perkins (1558-1602): "O Senhor disse: 'Todas as nações serão benditas em Abraão'. Portanto, eu entendo que a nação dos Judeus será chamada e convertida para participar desta benção. Quando e como, Deus o sabe, mas sabemos que isto será feito antes do fim do mundo."

Richard Sibbes (1577-1635): "Os Judeus ainda não vieram para estar sob a bandeira de Cristo, mas Deus, que persuadiu Jafé a entrar na tenda de Sem, irá persuadir Sem a entrar nas tendas de Jafé (Gn 9.37). A 'plenitude dos gentios ainda não entrou' (Rm 11.25), mas Cristo, aquele que possui 'os limites da terra por sua possessão' (Sl 2.8), irá reunir toda as ovelhas que Seu Pai lhe deu para que haja um só um rebanho e um só pastor (Jo 10.16). Os judeus fiéis regozijaram-se em pensar no chamado dos gentios e por que nós não deveríamos fazer o mesmo em pensar no chamado dos judeus?"

Herman Witsius (1636-1708): "Podemos reconhecer dentre os benefícios do Novo Testamento, a restauração dos Israelitas, os quais foram anteriormente rejeitados, e a recuperação da comunhão deles com Deus em Cristo [...] Do que foi afirmado aqui anteriormente, percebe-se, que se afastam do significado intencionado pelo Apóstolo, aqueles que entendem 'todo Israel' como o 'Israel místico', ou povo de Deus, consistindo tanto de Judeus como de Gentios, sem admitir a conversão de toda a nação Judia para Cristo, no sentido que mencionei em minha exposição [..] esperamos a conversão geral dos Israelitas em um tempo ainda por vir, não, em verdade, de cada indivíduo, mas de todo o corpo nacional, e das doze tribos."

Catecismo Maior de Westminster (1647): Pergunta 191. O que pedimos na segunda petição? "Na segunda petição, que é: Venha o teu reino reconhecendo que nós e todos os homens estamos, por natureza, sob o domínio do pecado e de Satanás -, pedimos que o domínio do mal seja destruído, o Evangelho seja propagado por todo o mundo, os judeus chamados, e a plenitude dos gentios seja consumada; que a igreja seja provida de todos os oficiais e ordenanças do Evangelho, purificada da corrupção, aprovada e mantida pelo magistrado civil; que as ordenanças de Cristo sejam administradas com pureza, feitas eficazes para a conversão daqueles que estão ainda nos seus pecados, e para a confirmação, conforto e edificação dos que estão já convertidos; que Cristo reine nos nossos corações, aqui, e apresse o tempo da sua segunda vinda e de reinarmos nós com ele para sempre; que lhe apraza exercer o reino de seu poder em todo o mundo, do modo que melhor contribua para estes fins." (Is 64.1-2; Sl 67 (todo); 68.1; Ml 1.11; Mt 6.10; 9.38; Rm 10.1; 11.25; 2Co 4.2; Ef 2.2-3; 3.14,17; 5.26-27; At 26.18; 2Ts 2.16-17; 3.1; Ap 12.9; 22.20.

Diretório de Culto de Westminster (1647): "Da oração Pública antes do Sermão: [...] Orar pela propagação do Evangelho e Reino de Cristo a todas as Nações, pela conversão dos judeus, a plenitude dos gentios, a queda do Anticristo, e o apressar da segunda vinda de nosso Senhor."

Jonathan Edwards (1703-1758): "A infidelidade dos judeus será derrubada [...] os judeus, em quaisquer das suas dispersões, lançarão fora sua velha infidelidade, e terão seus corações maravilhosamente mudados, e terão a si mesmo por abomináveis quanto a sua antiga descrença e obstinação. Eles fluirão juntos para o bendito Jesus, penitentemente, humildemente, e com alegria recebendo-O por Seu glorioso Rei e único Salvador, e, com todo seu coração, e com um só coração e uma só voz, louvarão a Cristo ante as outras nações [...] Nada é mais certamente previsto que esta conversão nacional dos judeus em Romanos 11. Porém, além das profecias sobre o chamado dos Judeus, nós temos um marcante selo da providência sobre o cumprimento deste futuro grande evento, um tipo de milagre contínuo: a preservação dos Judeus como uma nação distinta [...] não há no mundo nada mais como isto. Há indubitavelmente uma visível mão da providência nisto. E, quando forem chamados, este povo antigo, que por tanto tempo foram sozinhos o único Povo de Deus, serão novamente Seu Povo, para nunca mais serem rejeitados. Eles serão reunidos em um só aprisco, junto com os gentios."

Charles Hodge (1797-1898): "O segundo grande evento, o qual, de acordo com fé comum da Igreja, precederá o segundo advento de Cristo, é a conversão nacional dos Judeus [...] que haverá tal conversão nacional dos judeus, se pode argumentar a partir do chamado e destino original deste povo. Deus chamou Abraão e prometeu que, através dele, e na sua semente, as nações da terra serão abençoadas [...] um argumento ainda pode ser derivado da estranha preservação dos judeus através de tantos séculos como um povo distinto. Como a rejeição dos Judeus não foi total, também não é final. Primeiro, Deus não designou mandar embora Seu Povo totalmente, mas, por sua rejeição, em primeiro lugar, facilitar o progresso do Evangelho dentre os gentios, e ultimamente fazer da conversão dos gentios o meio de conversão dos Judeus [...] Porque se a rejeição dos judeus foi e é uma fonte de benção, muito mais a restauração deles será um meio de trazer o bem [...] A restauração dos judeus aos privilégios de Povo de Deus está incluída nas antigas predições e promessas feitas a respeito deles [...] O plano de Deus, portanto, contempla o chamado dos gentios, a temporária rejeição e a final restauração dos judeus [...] Como a restauração dos judeus não só é um mais que desejado evento, como um que Deus está determinado a cumprir, os cristãos devem ter isto constantemente em vistas, inclusive quando laboram pela conversão dos gentios."

Edward Elton (1882-1960): "Isto deve nos ensinar a não odiar os judeus, como muitos fazem, somente por serem judeus [...]; mas, amados, isto não deve ser assim, pois estamos obrigados a amar e a honrar os judeus como sendo eles o antigo povo de Deus, devemos desejar o bem deles, e sermos diligentes em orar pela conversão deles."

Iain Murray: "Se 'todo Israel' do verso 26 se refere a salvação final de todos os crentes, judeus e gentios, por que Paulo chama isto de mistério [ou segredo]? A objeção de Elnathan Parr é relevante: 'Paulo disse que ele não queria que os gentios fosse ignorantes do quê? De que todos os eleitos devem ser salvos? Quem jamais duvidou disto? Mas quanto ao chamado dos judeus havia uma dúvida. Ele chama isto de segredo ou mistério; mas não é um segredo dizer que todos os eleitos serão salvos."

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