"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Estado Laico - Isso é Bíblico? (parte 2)


Clique para ler: parte 1, parte 2, parte 3, parte 4, parte 5

No ponto anterior (O que é um Estado), analisamos as prerrogativas de como um Estado se forma e que características necessárias precisam concorrer para que possamos ter uma noção mínima dele. Em verdade, poderíamos dizer que o Estado é, também, a expressão ética dos cidadãos nele contidos - note que falamos de cidadãos e não de povos, vez que há diferença entre essas duas classes. [1]

A fim de avançarmos, analisemos, agora, a segunda parte proposta:

2. Qual é o conceito de laicidade

É importante usar as palavras corretas. Utilizamos conceito, uma vez que há diferença para definição. Conceito é algo abstrato, um consenso, mas não regra inflexível; já a definição é firmemente estabelecida, como no caso da aprendida nos primeiros anos escolares sobre o que é uma ilha: "um pedaço de terra cercado de água por todos os lados". Não pode ser considerada uma ilha legítima se houver alguma ligação por terra com o continente, por exemplo, ao passo que com o conceito sobre determinada matéria pode vir a ser alterado.

Dissemos isto porque não há uma definição de laicidade, e sim apenas conceitos, de modo que por ora, nos damos por satisfeitos em dizer que Estado Laico (ou o conceito de laicidade dentro do mesmo) é aquele que não possui uma religião oficial, pois entende que as liberdades individuais devem ser respeitadas. O problema surge, então, no seguinte prisma: é biblicamente possível respeitar as liberdades individuais sob a proposta de que elas são o melhor para o povo? Ademais: quais são as liberdades individuais a serem respeitadas? Ou ainda mais: é possível termos um Estado verdadeiramente laico?

De início, realizamos um adendo necessário: com o devido respeito a todos os discordantes do que estamos tratando, mas não nos preocupa o que os homens acham melhor ou o que creem ser mais benéfico, afinal, "Mais importa obedecer a Deus do que aos homens" (At 5.29). A doutrina bíblica não se pauta por acontecimentos históricos ou se deixa anular devido aos homens que a pervertem. O fato de em tempos pretéritos terem acontecido algumas tentativas de se criar um Estado cristão (mais ou menos bem sucedido, a depender de melhor averiguação), não invalida o que diz a Escritura. Guerras em nome do Senhor, mortes errôneas e deturpações não invalidam a sã doutrina. Por exemplo, não é porque muitos pais não conseguem educar corretamente os filhos na Lei de Deus que este dever seja excluído (Lv 10.11; Dt 6.7). Assim, intentamos deixar cristalino que o propósito deste estudo não tem qualquer interesse em agradar aos homens, e sim expor o que diz a Palavra.

Voltando, em nosso primeiro estudo, visualizamos que o cristão deve lutar pela Lei do Senhor, inclusive a civil. O próprio Salmo 119, por completo, exalta a magnificência das ordenanças do Senhor e demonstra o quanto o salmista amava a Lei de Deus. Como já deixamos explícito, nosso propósito é de averiguar se o cristão deve crer em um Estado Laico ou se deve buscar promover um Estado com leis cristãs. 

Fixemos alguns pontos importantes:

Em primeiro lugar, é preciso notar que quando algum país se propõe a ser laico, ele se propõe a instituir o mundo da utopia, da irrealidade e da completa falta de racionalidade. A um, porque ninguém pode crer em leis "moralmente neutras"; a dois, porque toda lei é necessariamente uma expressão positivada (escrita, registrada) dos legisladores (que fazem as leis), isto é, antes de ser lei, passou pelo que Miguel Reale (1910-2006) chamou de Teoria Tridimensional do Direito, a saber, fato, valor e norma [2]; a três, porque uma lei, embora seja "neutra" para alguns, para outros tantos será tendenciosa, fazendo que com conflitos venham a existir.

Em segundo lugar, embora a intenção de muitos cristãos seja boa em crer que pessoas discordantes da fé cristã devam ser livres para expressar sua fé, tal argumento não procede de acordo com a Escritura. A Bíblia afirma (veremos mais detidamente na parte 5 do estudo - "A Igreja e o Estado") que os governantes devem ser instrumentos para promover a justiça e isso de acordo com os parâmetros revelados: "Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos instruir, juízes da terra. Servi ao Senhor com temor, e alegrai-vos com tremor. Beijai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se acender a sua ira; bem-aventurados todos aqueles que nele confiam" (Sl 2.10-12). Observamos como Deus leva o salmista a escrever acerca dos demais reis da terra, falando de todos os que não são cristãos! Ele vai além, exortando os tais para que se submetam graciosamente a Ele - "para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se acender a sua ira". Isso implica em dizer que todo governo que não se pauta pela Escritura, é alvo da ira de Deus. Isto é terrivelmente sério!

Em terceiro lugar, o conceito de laicidade comum diz respeito ao Estado dever promover a ampla liberdade de crença. Entretanto, toda lei possui um fundamento moral [3], de maneira que é impossível contemplar toda a diversidade dentro de um sistema, ainda que este se diga plural. Para Hans Kelsen (1881–1973), "seria inconcebível e absurdo impor a todos os indivíduos exatamente as mesmas obrigações, ou lhes conferir exatamente os mesmos direitos." [4] Tais palavras parecem belas, mas se tornam obscuras quando trazemos à Escritura. André Ramos Tavares, constitucionalista renomado, afirma: "embora existam diferenças consideráveis entre os seres humanos, para fins de tratamento jurídico diferenciado não se pode chegar ao exagero de conceder um tratamento próprio para cada ser humano, tendo em vista o fato evidente de que todos se diferenciam entre si (pela cor dos olhos, estatura, peso, digital etc.). O ser humano é único em sua individualidade. Mas isso não pode ser levado ao exagero de pretender um tratamento próprio para cada pessoa, tendo em vista suas peculiaridades. A ser assim, e demandar-se-ia uma lei específica para cada ser humano. Neste caso, já nem mais se poderia falar de lei - em sentido genérico e abstrato -, pois dirigida a um único indivíduo." [5]

O mesmo autor supracitado demonstra como que, embora nossa Constituição declare ampla liberdade (ao menos em teoria), a tal possui restrições, de modo que ninguém pode crer ser totalmente livre, afinal, existem imperativos axiomáticos: "Assim, a Constituição, ao estabelecer que não pode haver preconceito de sexo, cor, raça, idade, origem etc., não está, como poderia parecer à primeira vista, vedando qualquer discriminação com base nesses elementos. Os elementos ou situações constitucionalmente arrolados (sexo, cor etc.,), na realidade, relacionam-se a ocorrência discriminatórias atentatórias de direitos fundamentais, muito comuns em determinadas épocas históricas, utilizadas indiscriminadamente e gratuitamente como forma de distinção e, o mais das vezes, punição. Foram situações de injustiça, que marcaram profundamente o espírito dos Homens, e que, por isso, o constituinte brasileiro pretendeu pôr a salvo os indivíduos para o futuro. Assim, a título exemplificativo, foi o caso da escravidão dos negros (distinção em função da raça), da submissão das mulheres (por força do sexo), e outros tantos casos" (grifo acrescentado). [6] Temos, aqui, a visão sobre as diferenças entre as pessoas e o princípio da igualdade, nada tendo de ligação com a moralidade das leis, mas, sim, com a proteção necessária no que diz respeito às coisas naturais, isto é, criadas por Deus, de modo que ninguém seja privado por sua raça ou sexo (estabelecidos na criação, evidentemente).

O que vemos, então, é que os dois extremos são errados, isto é, quando se tenta impor a todos uma mesma obrigação que não seja oriunda de algo que transcenda a natureza humana, se erra por tentar impor a opinião de alguns sobre os demais (pouco importando se são ou não legitimados para isso). Já quando se busca fazer leis individuais para cada ser humano, se percebe a insanidade e irrealidade de tal intento. Portanto, o conceito de um Estado Laico, não bastasse a realidade fática nos demonstrar sua inoperância, também sucumbe à teoria, chegando a uma única e necessária saída: a única forma é legislar com base em algo "maior" aos homens - a Bíblia. 

Para exemplificar, imagine que o Estado possa ser comparado a uma família não cristã, onde vivem sob o mesmo teto, pai, mãe, dois filhos e duas filhas. Quando houvesse alguma discussão entre os pais, nada poderia ser feito para cessar a discussão, pois eles não possuem a Escritura como regra de fé; quando os filhos homens desejassem ter suas "companheiras", os pais teriam apenas bons conselhos morais, nada tendo para oferecer de mais magnífico e excelso como a Palavra; quando as filhas começassem a desejar se vestirem de modo mais ousado, os pais somente poderiam reprimir com base na moralidade, não havendo qualquer lastro mais sublime para serem admoestadas. Resultado: seriam como as famílias que hoje vemos, cheias de discussões e vã moralidade autoritária.

Sendo o exemplo acima verdadeiro, que dizer-se-ia de todo um país onde as mais diversas religiões se confrontam constantemente?

"Bem", pode pensar alguém, "isso parece belo quando temos o cristianismo como algo superior, mas alguém gostaria de habitar em um país islâmico, por exemplo? Eles também diriam que o direito do seu Estado transcende a naturalidade". Se podemos ser diretos na resposta, assim fazemos: nenhuma importância e ligação com a Escritura este exemplo possui, afinal, a Bíblia não está condiciona ao gosto do cristão ou ao momento histórico da humanidade. Ela não afirma que um Estado com leis bíblicas seja o melhor, mas que não deve ser buscado em virtude de muitos possivelmente se sentirem ofendidos. Ora! Os homens passam a vida inteira ofendendo a Deus! Deixem que se ofendam por um momento! [7] Melhor é serem ofendidos com a Palavra, do que bajulados com mentiras. Deus é o Senhor e o que Ele mandou, obedecemos - o que proibiu, assim também deve ser (Dt 12.32).

É preciso registrar um ponto importante em nosso estudo: não cristãos são plenamente permitidos de morarem, habitarem, negociarem, empreenderem, gerarem filhos e tudo quanto diz respeito às coisas comuns da natureza. Não pense alguém que no Estado de Israel do Antigo Testamento, a "polícia" da época (o vingador de sangue) saía a campo exterminando toda e qualquer pessoa que não professasse a crença no Senhor - sustentar esta ideia é desconhecer por completo a Escritura.

Em um Estado cristão os não cristãos possuem liberdade para até mesmo crer em outros deuses, no entanto - e aqui reside a anotação sumária -, são impedidos de exteriorizarem esta crença. Isto significa dizer que os não cristãos podem continuar sendo não cristãos, pois a Bíblia nos diz: "Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais" (Ef 6.12). As leis civis não têm nenhum intento de converterem o pecador, pois isto é o trabalho do Espírito Santo de Deus e da correta pregação. Tal é, que em um Estado cristão os pensamentos não são punidos, pois seria extremamente subjetivo assim proceder. Em suma, portanto, ninguém seria obrigado a se tornar cristão (pois quem convence do pecado é o Espírito Santo - Jo 16.8) e por isso também não seria punido, exceto se desejasse exteriorizar tais pensamentos, tendo reuniões públicas ou incitando a adoração a outros deuses. [8]

Da impossibilidade de se permitir o livre curso das religiões

Se percebe mui claramente como toda norma, invariavelmente, está ligada à alguma característica moral concernente ao legislador. Aquele que propõe um projeto de lei (PL) ou deseja acrescentar algum artigo à determinada Lei, por exemplo, sempre levará suas paixões inerentes para o texto. A neutralidade é uma característica que não existe no ser humano, "Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus" (Rm 3.23). Ou seja, ou os homens buscam fazer leis desejando agradar os próprios homens e seus respectivos pecados, ou buscam com base em imperativos bíblicos, de modo a desejarem o cumprimento da grande comissão: "Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações [...] Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos" (Mt 28.19-20 - grifo meu).

Crer na abertura para se legislar com base em algo inferior ao próprio Senhor, é assumir uma posição de extremo risco, colocando em dúvida a sabedoria do Senhor em Sua Palavra. Se alguém defende que um Estado Laico é compatível com o cristianismo, terá de explicar o que devemos fazer com as Leis do Antigo Testamento - nos têm alguma utilidade? Podemos rasgar as páginas da "lei"? E as normativas sobre os juros abusivos? E sobre as mortes por culpa ou dolo? Que validade possui estas leis, se alguém defende o Estado Laico? Como dissemos, é impossível desassociar a Lei de quem a fez (Deus). Se um homem crê que pode possuir mais magnitude do que a próprio criador do universo (Gn 1.1), que criatura vil é esta! "Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!" (Mt 6.23).

Um cristão, portanto, não pode, sob qualquer argumento, crer que é possível contemplar um Estado Laico, pois se não bastasse o que já vimos no primeiro estudo, é absolutamente impossível criar leis que permitam a livre expressão de credos e diferentes "fés". Podemos, com boa dose de certeza - ainda que isto nos cause tristeza -, afirmar que a razão pela qual muitos defendem o Estado Laico, é devido ao fato de não terem uma justa noção de quem é Deus e do quão grave é permitir que as pessoas o ofendam. É plenamente verdade que o Senhor não necessita de homens para O defender, no entanto, Ele mesmo afirmou que os magistrados (e mestres na Igreja) são como que deuses: "Deus está na congregação dos poderosos; julga no meio dos deuses [...] Eu disse: Vós sois deuses, e todos vós filhos do Altíssimo" (Sl 82.1, 6; Jo 10.34). Certamente que não há qualquer referência a um verdadeiro Deus, e sim no sentido de que todo mestre e governante exerce um papel de poder à semelhança de Deus - daí a razão de Tiago dizer: "Meus irmãos, muitos de vós não sejam mestres, sabendo que receberemos mais duro juízo" (Tg 3.1). Verdadeiro, também, que o Senhor se refere aos do povo de Israel e Tiago aos cristãos, todavia, como vimos acima no Salmo 2, todos os governantes da terra são chamados à submissão ao Senhor, pois todos os que foram postos em lugares de honra e que possuem outros sob sua submissão, devem governar de maneira a serem representantes do justíssimo governo de Deus - esta relação é sempre vista por toda a Escritura, como no fato de homem e mulher casados deverem se tratar como a Igreja ama a Cristo, em como é submissa a Ele e em como ele deve a amar, assim como Cristo se entregou pela Igreja (Ef 5.22-27).

Ditas estas coisas, prosseguiremos com a terceira parte de nosso estudo: A Lei natural. Neste estudo veremos como os homens possuem uma moralidade intrínseca e infundida pelo próprio Deus, de maneira que todo homem é um ser responsável. Tal estudo nos ajudará a entender o que é ser à imagem e semelhança de Deus, dentre outras nuances.

Notas:
[1] Povo é o conjunto de indivíduos, ligados a um determinado território por um vínculo chamado nacionalidade. No conceito de povo estão incluídos os brasileiros natos e naturalizados. Distingue-se do conceito de população, pois neste incluem-se, além dos natos e naturalizados, os estrangeiros e os apátridas. O cidadão, por sua vez, é a pessoa que goza de direitos políticos. Fonte: Jus Brasil (acessado dia 24.08.2013 às 22:35).
[2] Para Reale, toda lei, antes de ser lei, foi um fato social ao qual se atribuiu um valor (positivo ou negativo), de modo que veio a ser instituído como legal ou ilegal. Daí a sequência: fato, valor e norma.
[3] Talvez você queira ler este texto: A importante diferença entre legalidade, moralidade e licitude
[4] Citado por André Ramos Tavares, Curso de Direito Constitucional,  Ed. Saraiva, 2003, pág. 414.
[5] Idem.
[6] Idem.
[7] Frase atribuída a John F. Macarthur Jr.
[8] Veremos mais detidamente este assunto na última parte de nosso estudo.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Efésios 3.3 - A Genuína Revelação - Exposição em Efésios - Sermão pregado dia 25.08.2013


Efésios 3.3 - A Genuína Revelação
Exposição em Efésios -
Sermão pregado dia 25.08.2013

Veja a pregação em vídeo, realizada na Igreja Cristã Reformada de Blumenau.
Link: http://www.youtube.com/watch?v=kjYd4QAHDCM#t=7339

"Como me foi este mistério manifestado pela revelação, como antes um pouco vos escrevi" (Ef 3.3).

A Palavra do Senhor nos têm admoestado e alegrado o coração na medida em que somos ensinados a crer firmemente no evangelho, de modo que não venhamos a ser levados por qualquer vento de doutrina (Ef 4.14) e possamos estar firmados na verdadeira e única rocha: Jesus Cristo (Ef 2.20). Anteriormente fomos instados a crer somente na Escritura, a fim de termos como inabalável fundamento a "graça de Deus" (Ef 2.2) recebida pelos apóstolos do Senhor e ensinada até os confins da terra. Notamos como pela soberana providência, a grande comissão está e continuará sendo cumprida por Sua Igreja (Mt 28.19-20), de modo que nada poderá abalar a Igreja do Senhor, pois ela não está sendo erguida sobre a areia (Mt 7.26), mas, sim, na perfeita pedra angular.

Agora, precisamos notar o que o Artífice, através do apóstolo Paulo, intenta nos ensinar. O motivo pelo qual o Senhor teve por bem nos legar este presente versículo, é devido fato de que ele explicita uma sublime verdade: o cristianismo não é religião de homens. Ainda que saibamos desta verdade, muitas vezes os somos assaltados com dúvidas vorazes que o pecado sussurra em nosso ser, desejando nos levar à falsa crença de que o cristianismo é algo estúpido ou potencialmente errado. Quantas são as vezes em que um desânimo incompreensível se abate sobre nós, fazendo com que percamos as esperanças e nos esqueçamos do Senhor? Seria possível contar as formas e astúcias com que somos traídos por nossa mente, a tal ponto de crermos que pode existir algo nesta terra que seja plenamente satisfatório?

Aprendemos esta grande verdade, ou seja, de que o cristianismo não pode ser fruto da mentalidade humana, à partir da expressão registrada: "este mistério manifestado pela revelação". O apóstolo estava a refutar qualquer possibilidade de crença de que suas palavras eram resultado de vãs elucubrações. Ele escreve buscando mostrar sua autoridade em transmitir a mensagem do evangelho, de maneira que não fosse visto como um ostentador prepotente da mensagem cristã,  e sim como um servo a quem foi incumbido o dever de pregar.

Podemos listar dez motivos que nos asseguram que o cristianismo não pode ser oriundo da mentalidade humana.

1. O homem natural não busca a Deus. A palavra de Deus prescreve cristalinamente: "Não há ninguém que busque a Deus" (Rm 3.11). Ainda: "Assim diz o SENHOR: Ponde-vos nos caminhos, e vede, e perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho, e andai por ele; e achareis descanso para as vossas almas; mas eles dizem: Não andaremos nele" (Jr 6.16 - grifo meu). Desta forma, não há qualquer lógica em se ponderar que o homem tenha criado o cristianismo, pois se a criatura faz algo que ela mesmo não está de acordo, no mínimo é um contra senso; para não dizer, uma estupidez.

2. O cristianismo humilha o homem. A Bíblia é clarividente com relação ao homem: "No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás" (Gn 3.19 - grifo meu). Ademais: "Ponha a sua boca no pó; talvez ainda haja esperança" (Lm 3.29). Nenhum racional criaria um "sistema religioso" para se auto humilhar - isso seria uma atitude nefasta. O orgulho é o que move o homem sem Deus (Tg 4.16).

3. O cristianismo se opõe ao desejo natural homem. O apóstolo Paulo evidencia grandemente a luta que o cristianismo causa ao homem interior: "Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum; e com efeito o querer está em mim, mas não consigo realizar o bem. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço. Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, quando quero fazer o bem, o mal está comigo" (Rm 7.18-21). É absolutamente descabida a assertiva com respeito que o cristianismo foi criado para o homem ter um "norte" ou uma direção. No mínimo, se assim fosse, esse "norte" apontaria para seus desejos naturais e, não, criaria outros.

4. O cristianismo afirma que Deus é irado. Assim diz o salmista: "Deus é juiz justo, um Deus que se ira todos os dias. Se o homem não se converter, Deus afiará a sua espada; já tem armado o seu arco, e está aparelhado. E já para ele preparou armas mortais; e porá em ação as suas setas inflamadas contra os perseguidores" (Sl 7.11-13). Qual homem espúrio iria maquinar uma crença que afirma ser o "Supremo" um Senhor irado contra sua criatura? Seria o mesmo que desenvolver uma bomba para se suicidar.

5. O cristianismo exige abnegação e santidade. Prescreve a Lei de Deus: "Portanto santificai-vos, e sede santos, pois eu sou o SENHOR vosso Deus" (Lv 20.7). Também Pedro: "como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver" (1Pe 1.15). Buscar a santidade é algo oposto à natureza do homem, pois desta forma se lê: "E viu o SENHOR que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente" (Gn 6.5). Inverídica toda e qualquer movimentação no sentido de creditar ao homem a "criação" da perfeita e única crença.

6. O cristianismo demonstra a impossibilidade do homem crer em Deus. Registra o evangelista as palavras de Cristo: "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha os seus pintos debaixo das asas, e não quiseste?" (Lc 13.34 - grifo meu). Somente um desvairado de mente e coração para crer que este versículo ensina o livre arbítrio. Paulo esclarece a questão: "E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados, Em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência. Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também" (Ef 2.1-3). É evidente o arrazoado do apóstolo, demonstrando que, não fosse a mão graciosa e misericordiosa de Deus (Ef 1.4), o homem para sempre estaria morto em seus pecados. Se o homem houvesse criado tal cristianismo, plausível seria que houvesse articulado sua religião de maneira a lhe dar condições de alcançá-la.

7. O cristianismo fala de um salvador que foi morto. Categoricamente está escrito: "Homens israelitas, escutai estas palavras: A Jesus Nazareno, homem aprovado por Deus entre vós com maravilhas, prodígios e sinais, que Deus por ele fez no meio de vós, como vós mesmos bem sabeis; A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos" (At 2.22-23 - grifo meu) O homem natural odeia todo aquele que diz ser o salvador, pois o orgulho não lhe permite dobrar-se diante de outrem. A natureza humana se inclina para a morte, jamais para a vida. Se o cristianismo fosse criação de homens, no mínimo o salvador seria ele próprio.

8. O cristianismo fala de um céu com lugares contados. Firmemente está estabelecido: "Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste antes da fundação do mundo" (Jo 17.24). Em Paulo: "Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor" (Ef 1.4). Pedro: "O qual, na verdade, em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado nestes últimos tempos por amor de vós" (1Pe 1.20). João finaliza em Apocalipse: "E adoraram-na todos os que habitam sobre a terra, esses cujos nomes não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo... A besta que viste foi e já não é, e há de subir do abismo, e irá à perdição; e os que habitam na terra (cujos nomes não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo) se admirarão, vendo a besta que era e já não é, mas que virá" (Ap 13.8; 17.8 - grifo meu). Por que os homens arquitetariam uma religião (no melhor sentido da palavra) onde os predestinados para a salvação já estariam contados? Certamente que o número dos eleitos é incalculável (Ap 5.11), mas jamais esse número pode ser incontável a Deus, pois cada verdadeiro filho de Deus já tem seu nome escrito.

9. O cristianismo prescreve um árduo e penoso remédio. Conquanto está escrito: "Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me" (Mt 16.24; Mc 8.34; Lc 9.23). Este, no entanto, não é o desejo do homem. O homem natural é bem expresso por Tiago: "dizeis: Hoje, ou amanhã, iremos a tal cidade, e lá passaremos um ano, e contrataremos, e ganharemos" (Tg 4.13). Não é do interesse do homem o tomar a cruz. Jamais o homem deseja sacrifícios. Pelo contrário, seu desejo é sempre de dizer: "Paz, paz; quando não há paz" (Jr 8.11).



10. O cristianismo prescreve duras punições aos falsos líderes. Salta aos olhos com nitidez: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia" (Mt 23.37). Novamente Cristo afirma a punição: "Virá o senhor daquele servo num dia em que o não espera, e à hora em que ele não sabe, E separá-lo-á, e destinará a sua parte com os hipócritas; ali haverá pranto e ranger de dentes" (Mt 24.50-51). Até mesmo aos bons mestres é advertido: "Meus irmãos, muitos de vós não sejam mestres, sabendo que receberemos mais duro juízo" (Tg 3.1). Não é crível que o homem tenha criado o cristianismo para poder manipular as massas, pois estaria agindo contrário ao seu propósito principal, afinal, estaria criando mecanismos de também ser condenado!

É necessário que nós tenhamos esta firme confiança, a saber, que o evangelho que temos ouvido e pregado é fruto do próprio Deus, pois o evangelho "é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê" (Rm 1.16). Notemos como a Bíblia é enfática em demonstrar que o evangelho é o "poder", em vez de simplesmente "conhecer". Bem verdade que o Senhor ensinou o seu povo sobre a importância do conhecimento (Os 6.6), entretanto, ele deve ser acompanhado do poder do Senhor. O simples conhecimento do evangelho em nada pode transformar o homem pecador. Em verdade, quando o homem possui apenas o conhecimento sobre o que diz a Palavra, ele se iguala aos demônios e às hostes malignas, as quais conhecem de maneira ímpar a Escritura.

Quando Tiago estava a ressalvar a importância das obras na vida dos cristãos - porque as tais são o necessário desdobrando do poder salvífico do Senhor, conforme já vimos em Ef 2.10 -, escreveu: "Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o creem, e estremecem" (Tg 2.19). Tiago é categórico em ensinar os homens que a crença de que existe um Deus verdadeiro, em nada lhes melhora sua situação natural, pois tal crença também os demônios possuem. Vê-se, portanto, como é necessário haver o "o poder de Deus" para testificar de que tal indivíduo é genuinamente um cristão. Este poder é o que habilita o crente é se desgarrar de sua velha natureza e passar a andar em novidade de vida (Rm 6.4).

Assim, o apóstolo Paulo escrevera aos efésios para lhes animar e não esmorecem diante das dificuldades, porque o evangelho que haviam recebido tinha sido dado por "pela revelação". Mas esta revelação não fora inventada por ele, de maneira que ele relembra os irmãos de que já havia falado sobre isso - "como antes um pouco vos escrevi". Falsos mestres falam de supostas revelações, mas somente uma revelação nos basta: a Escritura!

Por isso, podemos ser consolados e animados nesta manhã. Podemos levantar nossas frontes e agradecer a Deus por termos sido alcançados com as boas novas de Deus. Devemos louvar ao Eterno porque nos fez bem e nos mostra em Sua Palavra, mediante Seu Espírito Santo, que Ele mesmo é real. O cristão pode e é amado por Deus, de maneira que quando atenta para a revelação fornecida (a Bíblia), encontra firmes declarações de que não está a seguir ações e invenções de homens.

Porque o cristão segue a Palavra de Deus, ele jamais poderá desistir do evangelho. E para que tenhamos esta firme consciência, sverifiquemos como isto pode ser real.

Em primeiro lugar, não conseguimos abandonar o evangelho porque Ele é a causa de todas as coisas. Lemos cristalinamente: "Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele" (Cl 1.16). Perceba que a Bíblia, sempre, sem qualquer chance de ser diferente, começa de "cima para baixo", isto é, inicia com Deus em direção ao homem. Ele criou os céus, Ele criou a terra, Ele criou os animais, Ele criou os homens, Ele manda a chuva, Ele domina sobre os planetas, Ele é o dono das guerras... Daí, então, ser claro o porquê de lermos: "Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém" (Rm 11.36).

Os cristão não "conseguem" abandonar o evangelho, por mais mazelas que sofram, pois não se alistaram forçadamente ao Reino de Deus. Foi com grande benignidade que fomos atraídos e remidos (Sl 86.13). Porque Ele a causa de todas as coisas, então os cristãos verdadeiros não podem abandonar o evangelho, pois o Senhor é infinitamente mais forte do que suas vontades pecaminosas.

Em segundo lugar, não conseguimos abandonar o evangelho porque Ele nos amou primeiro. O apóstolo João afirma: "Nós o amamos a ele porque ele nos amou primeiro" (1Jo 4.19). Esta declaração é de suma importância, pois se nós O tivéssemos amado primeiro, então Deus seria refém de nosso amor. Poderíamos barganhar com o Senhor e ordená-Lo a responder nossas orações, intimidando-O e O alertando sobre que, caso não nos atendesse, O deixaríamos.

Porque Deus nos amou e enviou o Unigênito (Jo 3.16), nós O amos. A causa de não conseguirmos deixar o evangelho pode ser claramente resumida neste versículo: "Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados" (1Jo 4.10).

Em terceiro lugar, não conseguimos abandonar o evangelho porque Ele nos elegeu para a santidade e amor. À própria igreja em Éfeso foi escrito e já lemos: "Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor" (Ef 1.4). Deus elegeu cada cristão que haveria de permanecer até o fim. Esta preciosíssima doutrina é ecoada também no Apocalipse segundo João, quando nos é revelado que só adoraram a besta (clique aqui para ler mais) aqueles "cujos nomes não estão escritos no livro da vida, desde a fundação do mundo" (Ap 17.8).

A razão pela qual, mesmo sofrendo duras baixas na luta contra o pecado, o cristão permanece buscando a santidade, é porque para isso foi eleito. Jamais ele foi eleito pelos seus próprios méritos, pois Deus tem misericórdia de quem deseja (Rm 9.15) e a única expressão de nosso coração deve ser: "graças a Deus que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo" (1Co 15.57).

Em quarto lugar, não conseguimos abandonar o evangelho porque Ele nos predestinou para louvor da Sua glória. A Escritura ensina de maneira ímpar: "E nos predestinou [...] Para louvor e glória da sua graça, pela qual nos fez agradáveis a si no Amado" (Ef 1.5-6). A Bíblia nos exorta a não contender com o Senhor (Rm 9.20). Ser eleito e predestinado por Deus, jamais deve ser fonte de orgulho. É um falso cristão ou na melhor das hipóteses, um cristão que está em erro, todo aquele que se orgulha por ter sido eleito. Se acaso assim pensa alguém, que se recorde de Judas, que apesar de figurar entre os doze, seu pacto era com Satanás.

Os cristãos não conseguem abandonar o evangelho porque para isso foram criados. Fomos criados para louvarmos ao Senhor e, portanto, não conseguimos fazer nada diferente disso! Todas as vezes em que o pecado nos assedia e lamentavelmente a ele nos juntamos, posteriormente, sempre, o Espírito Santo de Deus nos recorda: "Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo" (Rm 10.9). Devemos engrandecer ao Senhor, porque nos predestinou e nos criou para Seu louvor. Que imensa e maravilha boa nova!

Em quinto lugar, não conseguimos abandonar o evangelho porque Ele é nosso irmão mais velho. Cristo Jesus é descrito como nosso genuíno irmão: "Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos" (Rm 8.29; Mc 3.32-34). Se assim é, então necessariamente somos membros da família de Deus! Se Cristo é um irmão mais velho, Deus é também nosso pai! 

Querido crente, descanse em Cristo. Não, não esmoreça. As tentações virão, mas lembre-se de que se você verdadeiramente está em Cristo, perseguirá as boas obras para o qual foi criado (Ef 2.10).

Atentemos, porém, sempre ao santo aviso, quando Paulo escrevia à igreja na Galácia e lhes admoestava de que haviam sido libertos das amarras do pecado e agora eram livres dele em Cristo Jesus: "Não useis então da liberdade para dar ocasião à carne" (Gl 5.13).

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Efésios 3.2 - A autoridade da Escritura - Exposição em Efésios - Sermão pregado dia 18.08.2013


Efésios 3.2 - A Autoridade da Escritura
Exposição em Efésios -
Sermão pregado dia 18.08.2013

Veja a pregação em vídeo, realizada na Igreja Cristã Reformada de Blumenau.
Link: http://www.youtube.com/watch?v=h4NSxjegxrE

"Se é que tendes ouvido a dispensação da graça de Deus, que para convosco me foi dada" (Ef 3.2).

A Escritura deve ser a fonte completa, inerrante, infalível e inefável para todo homem. Ela deve ser como expressou o salmista: "Lâmpada para os meus pés é tua palavra, e luz para o meu caminho" (Sl 119.105). Assim, é preciso que entendamos haver um motivo para o apóstolo escrever este versículo aos irmãos em Éfeso. Sabemos que originalmente a Bíblia não foi escrita com a divisão de capítulos e versículos, no entanto, isso não significa que nela haja algum escrito sem motivo. Ainda mais: quando lemos a Escritura, não devemos crer, por exemplo, que é Paulo escrevendo, como se fossem suas palavras, pois ele mesmo, no versículo de hoje, clareou aos irmãos que sua mensagem não era fruto de seus estudos como fariseu, mas, sim pela revelação que recebera de Cristo Jesus.

A palavra que o apóstolo usa em nosso versículo (traduzida por dispensação), denota a ideia de administração, comissão, um ofício que requer boa mordomia e por isso deve ser corretamente tratado [1]. Isto é de extrema relevância para nós, pois ele está afirmando que tudo o que tem ensinado e recebido sobre si mesmo - inclusive a prisão - é fruto do dever que possuía em pregar o evangelho. Em sua primeira carta aos irmãos em Corinto, disse: "Porque, se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois me é imposta essa obrigação; e ai de mim, se não anunciar o evangelho!" (1Co 9.16 - grifo meu).

Portanto, podemos perceber como o tratado principal da Escritura em nos fornecer este versículo, diz respeito à autoridade que a Escritura tem na vida do cristão e em como devemos a ler como sendo palavra do próprio Deus, e não de homens. Ainda que essa distinção possa aparentar ser sem motivo, muitos, infelizmente, tem se enredado e caído em erros, crendo que versículos como "Sede meus imitadores" (1Co 11.1a), afirmam que devemos seguir os passos de homens, se esquecendo, todavia, da continuação do mesmo: "como também eu de Cristo" (1Co 11.1b).

A pergunta que devemos realizar neste momento é: a quem temos buscado seguir - a Cristo ou ao apóstolo? Quando lemos o Novo Testamento, ficamos mais santamente impressionados com a vida de Jesus ou com o modo como os demais cristãos viviam? Nos deixa perplexos a vinda do Verbo que se fez carne (Jo 1) ou o nascimento de mais um homem? Não que seja pecaminoso louvar a Deus pela grande obra realizada na vida de todos os Seus, mas a pergunta deve ser: a quem temos estimado acima de todas as coisas? Noutras palavras, Cristo tem sido o guia certo, justo e puro de nossa caminhada? Temos lido a Bíblia como sendo Deus falando aos nossos corações?

Quando lemos a Escritura, amados irmãos, melhor seria que nos reportássemos, em vez de dizermos "Carta de Paulo aos Efésios", afirmamos ser a "Carta de Deus aos irmãos em Éfeso por meio de Seu servo Paulo". Esta distinção é sublime e necessária, pois muitas vezes as asseverações bíblicas soam com pouco vigor para muitos crentes, pois estes leem a Bíblia como se fossem palavras de homens. Quando se deparam com doutrinas como o dever das mulheres cobrirem suas cabeças durante o culto público (1Co 11), creem ser algo cultural, passageiro, transitório e sem qualquer relação com nossos dias, porque enxergam um homem dando esta orientação. Tais pessoas fazem e agem desta maneira porque não estão carregando uma fé de que tal ordenança é vinda de Deus, "descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação" (Tg 1.17).

A Bíblia é a Palavra de Deus e o apóstolo afirmou para os irmãos que suas palavras eram vindas do Senhor. Ele invoca para si a responsabilidade recebida em pregar a Palavra, de maneira que sua carta não deveria ser recebida com escrito de homens falhos, mas, sim, como vindo do próprio criador do universo.

Já nos foi exposta a Palavra de Deus no sentido de aprendermos que todas as igrejas do início do Novo Testamento possuíam a mesma e pura doutrina, ainda que incorressem em erros diversos (clique aqui para ler). Isso precisa ser clarividente em nossas vidas, bem como jorrar certezas durante nossa peregrinação, pois caso não tenhamos a Bíblia Sagrada como escritura vinda diretamente do Senhor e devendo ser aplicada identicamente na vida de toda Sua Igreja, viveremos seguindo apenas um bom padrão moral, não tendo, entretanto, a verdadeira regeneração operada em nossas vidas.

Diante disso, podemos aprender quatro preciosas lições à partir deste estabelecimento: 1. Devemos seguir a Escritura; 2. Devemos pregar a Escritura; 3. Devemos crer que tudo advém da graça de Deus; 4. Devemos pregar somente a Escritura.

1. Devemos seguir a Escritura - "Se é que tendes ouvido"

O Senhor e Artífice de toda a criação, levou o santo apóstolo a anunciar o evangelho aos gentios (At 9.15; Gl 1.23). A afirmação retórica que Paulo se utiliza, diz respeito à autoridade que ele possuía para anunciar o evangelho. Ele não era apenas um mensageiro, pois a palavra apóstolo é específica, não significando e identificando alguém como um simples entregador de mensagens, e sim alguém que vai adiante de outrem mostrando o correto caminho.

Diante disso, devemos averiguar em nossos corações se a Escritura tem atingido a sua finalidade imaculada em nossas vidas. Ela não foi escrita somente para aumentar nosso conhecimento, e sim para transformar nossas vidas; ela foi dada e inspirada por Deus para que os homens reconheçam suas vilezas e conheçam a "Jesus, que nos livra da ira futura" (1Ts 1.10).

Esta é a razão pela qual o apóstolo diz "se é que tendes ouvido". Não havia qualquer intenção de Paulo em confundir ou duvidar da veracidade da fé dos cristãos em Éfeso, todavia, ele parece se precaver (ou exortar eventuais pessoas que estavam descrendo em sua mensagem como enviado do Senhor) de uma futura disputa acerca de seu apostolado, o que acontecera em outras cartas. Paulo era cônscio de que os irmãos em Éfeso reconheciam sua autoridade, pois outrora esteve entre eles. Vimos isto no primeiro versículo do primeiro capítulo, quando fomos ensinados de que Paulo esteve em Éfeso durante três anos (At 20.31) depois de sua segunda viagem missionária (isto é, na sua terceira), após ter visitado a cidade de Corinto (At 18). Em Éfeso, Paulo discursou durante três meses na sinagoga (At 19.8) e subsequente a isso, durante todos os dias, pelo período de dois anos, ensinou na escola de um certo Tirano (At 19.9). Pela graça de Deus, Paulo também fez muitos milagres enquanto ali permaneceu (At. 19.11), de forma que os habitantes muito se maravilhavam e o Evangelho de Cristo se expandia (clique aqui para ler).

Temos ouvido e lido a Escritura como palavra do Senhor? Desta resposta dependem muitos desdobramentos de nossa vida, porque se estamos a lendo como palavras de homens ou palavras não puras e dignas como deveriam ser, tomamos o nome de Deus em vão, quebrando o mandamento (Êx 20.7) e não experimentamos o santo renovar do Senhor (Rm 12.2). Podemos não ser como Timóteo, que "desde a tua meninice sabes as sagradas Escrituras" (2Tm 3.15), no entanto, isso não obsta o ler da Palavra de Deus como sendo vera palavra!

Quantos de nós há anos reclamam que nunca leram a Bíblica completamente? Quantos que a cada ano que passa reclamam de suas vidas e de modo como o Senhor não lhes ensina e transforma a vida, no entanto, sequer se apercebem que é impossível ser um professo da fé cristã ser ler a Escritura? Ora, isto é evidente, quando lemos em 2Tm 3.16-17, porque somente a Escritura nos torna aptos para viver.

2. Devemos pregar a Escritura - "a dispensação"

Uma vez que os irmãos haviam recebido a Palavra do Senhor por meio do apóstolo, este lhes diz que havia recebido a incumbência de pregar a Escritura - e isso também devemos realizar.

Quando escreveu ao amado Timóteo, Paulo disse: "Conjuro-te, pois, diante de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, na sua vinda e no seu reino, Que pregues a palavra, instes a tempo e fora de tempo, redarguas, repreendas, exortes, com toda a longanimidade e doutrina" (2Tm 4.1-2). Timóteo também havia recebido a ordenança do Senhor para pregar a Palavra e este dever é imposto sobre todos os cristãos!

Entretanto, não devemos olhar pelo viés negativo, aquele que traz receios e ansiedades, e sim pelo foco da graça do Senhor em nos tornar anunciadores de Sua Escritura. Os cristãos não devem somente se focar no lado peregrino da vida cristã, mas, sim, na graça de serem chamados cidadãos do céu, pois "O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo homem, o Senhor, é do céu" (1Co 15.47), "em quem também fomos feitos herança" (Ef 1.11).

Paulo se regozijava com o fato de ter sido chamado apóstolo do Senhor e nós erramos se não consideramos uma grande bênção o ser cristão. Por que teimamos em ver o lado negativo do cristianismo? Por que insistimos em ter uma visão pessimista da vida em santidade, sendo que tudo por nós já foi pago? Por que olhamos para o pecado e vemos o quão terrível é, ao passo que nos deixamos ser assolados e entristecidos, fazendo com que toda força se vá?

É mister que recobremos a alegria pelo evangelho, o júbilo de podermos estar louvando ao Senhor. Bem é verdade que muitos santos tiveram momento de dificuldades, mas nela clamaram: "Torna a dar-me a alegria da tua salvação, e sustém-me com um espírito voluntário" (Sl 51.12). A alegria deve se um distintivo na vida de toda a Igreja por esta terra, "Porque não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura" (Hb 13.14). Enquanto o mundo não pode enxergar nada além de sua turva visão, o cristão procede como o salmista: "Levantarei os meus olhos para os montes, de onde vem o meu socorro. O meu socorro vem do Senhor que fez o céu e a terra" (Sl 121.1-2). E esta alegria deve ser expressa na pregação da Palavra.

Pregar a Palavra, longe de uma imposição terrível e crudelíssima, é um dever jubiloso que o cristão possui. Ele, outrora escravo do pecado, agora pode anunciar o evangelho. Assim como o apóstolo, assim deve ser dito de cada cristão: - "Aquele que já nos perseguiu anuncia agora a fé que antes destruía" (Gl 1.23)

3. Devemos crer que tudo advém da graça de Deus - "da graça de Deus"

Conforme temos sido ensinados pelo texto e exposição bíblica, a realidade de que a salvação é pela graça soberana e imperscrutável do Senhor, dever-nos-ia ser uma axioma - um baluarte inabalável. Incontáveis vezes fomos exortados a nos fixarmos unica e exclusivamente no sacrifício substitutivo de Cristo Jesus, de maneira que nada mais resta à fé, senão a justificação imputada sobre todos os Seus.

Como crentes no Senhor, precisamos rogar ao Eterno Deus para que a cada dia nos dê maior convicção do pecado, mas também uma mais sublime noção e júbilo pela graça recebida. Esta graça, quando genuinamente guardada junto ao coração, produz os mais belos e excelentes frutos cristãos. Esta graça habilita o cristão a se achegar diante do trono de Deus e com ousadia suplicar perdão, mesmo que reconheça que todos os seus pecados já estão perdoados, pois o pecado já foi pago por Cristo.

Esta graça bendita, portanto, impelia e oficiava o apóstolo a pregar a Palavra. Ela o levava a pregar com santa disposição, sempre enfatizando que tudo o que os crentes precisavam se encontrava em Cristo. Nada que Paulo lhes escrevia deveria ser lido como demasiadamente pesado, porque uma vez que a salvação é um dom de Deus, então aqueles cristãos deveriam prosseguir a carreira da fé, sabendo como o apóstolo recebera a mensagem, também eles haviam sido alcançados.

4. Devemos pregar somente a Escritura - "que para convosco me foi dada"

O povo de Deus, quando expõe a sã mensagem, deve ser ater ao que recebeu do Senhor. Diversas são as vezes em que este mandamento é posto em prática, como quando Paulo prescreve a ceia aos irmãos em Corinto, dizendo: "Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei" (1Co 11.23). O levar da sã doutrina somente será abençoado de for de acordo com que Deus teve por bem nos legar em Sua Escritura. Maldito será todo o evangelismo que exaltar o homem ou deturpar a mensagem do evangelho.

A Igreja do Senhor é o porta voz de Deus na terra. À semelhança do arauto que proclamava a mensagem do rei para o povo, assim também é a Igreja, de maneira que grande temor deveria lhe sobrevir em todas as vezes em que expõe a Palavra de modo ambíguo e incerto. Que Escritura teríamos se o apóstolo Paulo deturpasse o que recebera? Em quantas invenções estaríamos enredados, caso o Senhor não tivesse guiado em verdade e pureza Seu santo povo durante estes mais de dois mil anos de história?

Possamos agradecer, portanto, ao bendito e salvador de Jesus Cristo, o qual se compadeceu de nós, fazendo com que também possamos ouvir Suas santas palavras. Que segundo a multiforme graça de Deus, sejamos levados a um desejo genuíno de ouvir, ler e entender a sã doutrina, de maneira que nos agarremos ao sacrifício de Cristo, crendo que se Sua mensagem chegou até nós, certamente não foi em vão.

Nota:
[1] A Palavra usada é oijkonomiva (Oikonomia).

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Estado Laico - Isso é Bíblico? (parte 1)


Clique para ler: parte 1, parte 2, parte 3, parte 4, parte 5

Não deve ser novidade a informação de que vivemos em um Estado laico (Estado com o "E" maiúsculo significa país), isto é, com ampla liberdade religiosa e não adotando uma religião oficial. A Constituição Federal da Republica Federativa do Brasil (este é o nome de nosso Estado), assegura a livre crença em território, conforme se lê no Art. 5º, incisos VI e VIII: é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias; ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei (grifos meus).

Todavia, nosso estudo não se propõe a analisar como nosso Estado lida com isso, mas, sim, se este parâmetro é bíblico, isto é, se possui base na Escritura para um cristão concordar com esta proposta. O propósito de nosso estudo é averiguar se um Estado Laico é coerente com o cristianismo e qual a posição do cristão frente a isso.

Para tanto, vamos analisar cinco pontos: 1. O que é um Estado; 2. Qual é o conceito de laicidade; 3. A Lei natural; 4. A Lei de Deus na vida do cristão; 5. A Igreja e o Estado.

1. O que é um Estado

Os doutrinadores jurídicos, em sua corrente majoritária, reconhecem que para se ter um Estado, é necessário haver três elementos: povo, território e soberania. Um povo sem território para dominar e viver, não pode ser um Estado, pois não haveria como exercer suas leis e diretrizes, afinal, estas se cumprem no tempo e espaço; um povo com território, mas sem soberania, igualmente não poderia subsistir, porque a soberania é justamente o que mune o Estado de poder para legislar de acordo com suas vontades e isto sem qualquer coerção externa. Assim, se verifica cristalinamente a imperiosa necessidade de reunirmos esta tríade de elementos, a fim de podermos ter um Estado.

No entanto, o Estado não é um conceito abstrato, e sim um ente jurídico, um órgão de expressão populacional. Em nosso país, a União é uma pessoa jurídica de direito público interno, ao passo que a República Federativa do Brasil é o Estado Federal, sendo pessoa jurídica de direito internacional. Isto implica dizer que a União é "entidade federativa autônoma em relação aos Estados-membros, Municípios e Distrito Federal, possuindo competências administrativas e legislativas determinadas constitucionalmente" [1], ao passo que o Estado Federal é o todo, compreendido pela União, estados membros, Distrito Federal e municípios. 

Em uma monarquia parlamentarista, por exemplo, o Rei é o chefe de Estado - ele é quem representa o povo em assuntos internacionais; já o governador geral ou primeiro ministro, é o chefe de Governo - ele é quem representa o poder executivo do Estado junto ao povo. Em linhas gerais, enquanto em uma república (nosso caso) o presidente assume o poder de chefia do Estado e do Executivo, em uma monarquia (caso da Inglaterra e outros países), o rei exerce o poder de chefe do Estado e o primeiro ministro de chefe executivo - o rei não pode ser substituído ao bel prazer, ao passo que o primeiro ministro pode ser deposto a qualquer momento (o que não ocorre no sistema presidencialista, exceto nas previsões legais).

A importância desta distinção é devido ao fato de que um Estado não passa a existir misteriosamente, sendo necessário uma série de distinções e elementos dentro dele, a fim de se caracterizar um legítimo Estado e possui representatividade, tanto perante o povo como frente às demais nações.

Um Estado, como vimos, é constituído, primeiramente, de um povo que deseja ser autônomo em alguma parte da terra, não sendo mais servidor de outro Estado. Isto foi o que aconteceu conosco com a Declaração de Independência, proclamada a 7 de setembro de 1822 pelo próprio príncipe herdeiro do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, fazendo com que o nosso Estado fosse livre.

Observe a história do Brasil e de como se formou um Estado - o que isto nos lembra? Exatamente: o povo de Israel. A emancipação do povo de Israel e sua posterior soberania sobre determinadas porções de terra, se deu de maneira muito semelhante à ocorrência natural de formação de um Estado. O povo do Senhor foi escravo no Egito por 430 anos (Êx 12.40) e depois rumou à terra prometida: Canaã. O que ocorreu em Canaã foi uma inequívoca concepção de Estado (no sentido tríade como vimos acima, não necessariamente em uma concepção de Estado como conhecemos atualmente), pois os israelitas deixaram de ser subservientes ao Egito e passaram a ter suas próprias leis recebidas pelo Senhor. Havia, então, um Estado israelita, constituído pelo povo do Senhor, com território em Canaã e tendo soberania para legislar dentre de seus limites.

Sabemos, também pela narrativa bíblica, que existiam muitas nações que viviam nos ao redores do povo do Senhor. Constantemente lemos sob as advertências para que o povo de Deus não se enredasse com os tais, pois eles os desviariam do Eterno e atrairiam ira divina sobre si mesmos. Mas há algo mais na Bíblia Sagrada: a firme concepção de que as leis do Senhor eram as melhores, mais puras, mais justas e mais santas que poderiam existir sobre a face da terra. Em outras palavras, o Estado de Israel, afirmava o Senhor, era o melhor lugar para se viver.

Antes de o povo adentrar à terra prometida, Moisés registrou: "Agora, pois, ó Israel, ouve os estatutos e os juízos que eu vos ensino, para os cumprirdes; para que vivais, e entreis, e possuais a terra que o SENHOR Deus de vossos pais vos dá" (Dt 4.1). Observamos como a bênção da herança estava condicionada à guarda da Lei de Deus no Estado de Israel - "para os cumprirdes; para que vivais". Tão pura, justa e completa era a Lei, que Moisés afirma que coisa alguma deveria ser removida ou acrescentada à palavra recebida do Senhor: "Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do Senhor vosso Deus, que eu vos mando" (Dt 4.2; 12.32). Para o caso de desejarem desobedecer ao Senhor e seguirem outras leis dos demais povos, era mister que se lembrassem da justa punição que os rebeldes haviam recebido: "Os vossos olhos têm visto o que o Senhor fez por causa de Baal-Peor; pois a todo o homem que seguiu a Baal-Peor o Senhor teu Deus consumiu do meio de ti" (Dt 4.3). Em contrapartida, deveriam se alegrar com a bênção recebida: "Porém vós, que vos achegastes ao Senhor vosso Deus, hoje todos estais vivos" (Dt 4.4). Para afirmar que tais leis não eram advindas de sua imaginação ou conhecimento adquirido na corte de Faraó - e por isso sendo humanas -, Moisés assevera: "Vedes aqui vos tenho ensinado estatutos e juízos, como me mandou o Senhor meu Deus; para que assim façais no meio da terra a qual ides a herdar" (Dt 4.5). Notemos a ênfase: "como me mandou o Senhor meu Deus".

Não bastasse isso, afirma a Escritura que os demais povos, vendo o zelo e temor ao Senhor que os israelitas possuíam, iriam glorificar a Deus: "Guardai-os pois, e cumpri-os, porque isso será a vossa sabedoria e o vosso entendimento perante os olhos dos povos, que ouvirão todos estes estatutos, e dirão: Este grande povo é nação sábia e entendida" (Dt 4.6). Os demais povos não viviam junto do povo de Israel (embora isso tenha acontecido algumas vezes, mas para desgraça e castigo do povo do Senhor, devido à desobediência), no entanto, ao ouvirem sobre os estatutos do Senhor, teriam seus próprios estatutos como falhos e ineficazes. Não obstante, um dos motivos pelos quais os israelitas deveriam crer na Lei de Deus, era porque quando O invocavam, eram recebidos e tinham suas petições respondidas: "Pois, que nação há tão grande, que tenha deuses tão chegados como o Senhor nosso Deus, todas as vezes que o invocamos?" (Dt 4.7). Por fim, nos é registrado: "E que nação há tão grande, que tenha estatutos e juízos tão justos como toda esta lei que hoje ponho perante vós?" (Dt 4.8).

O Estado de Israel possuía regras e leis firmemente estabelecidas. A Lei do Senhor, conforme vimos, era a melhor lei que poderia existir. Nenhum israelita deveria se deixar seduzir pelo encanto das leis de outros povos. Ninguém deveria ser atraído por uma suposta lei mais benéfica pregada nas nações vizinhas. Este é um ponto deveras importante, porque o Estado de Israel precisava ser soberano sobre si mesmo, de maneira que ninguém intentasse subverter a Lei do Senhor - em verdade, vemos quantas vezes o Senhor castigou, inclusive com morte os que imprudentemente procederam.

Assim, vemos como o Estado de Israel era um modelo para todas as nações. Todas as nações veriam que habitar junto ao Senhor e sob Sua Lei era algo maravilhoso, sublime e abençoado. Nenhum israelita deveria crer que poderia haver algo melhor do que a Lei de Deus, porque "que nação há tão grande, que tenha estatutos e juízos tão justos como toda esta lei que hoje ponho perante vós?" (Dt 4.8).

Ditas estas coisas, podemos fazer nossas primeiras conclusões e dizer que todo aquele que crê ser algo terrível morar junto aos israelitas nos tempos passados do Antigo Testamento, além de pernicioso à alma, é um terrível pecado diante do Senhor. O cristão que olha para o povo de Israel no Antigo Testamento e vê algo de mau na Lei do Senhor, certamente ainda não teve os olhos de seu entendimento abertos (Ef 1.18), pois não pode dizer como o salmista: "Oh! quanto amo a tua lei! É a minha meditação em todo o dia" (Sl 119.97). Ainda mais: afirmamos que todo cristão deveria ansiar por um Estado cristão, pautado pela Lei do Senhor, pois nada pode haver mais justo do que Sua palavra.

Por que podemos dizer isso? Porque o povo de Israel estava proibido de desejar as leis de outros povos, ainda que elas aparentassem ser boas e justas aos seus olhos - vale lembrar que esta foi a causa do pecado ter entrado no mundo: "E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento" (Gn 3.6). Adão e Eva creram que a sugestão de Satanás era mais justa e nobre do que a ordenança de Deus. Desejaremos fazer o mesmo?

Podemos notar, portanto, como a concepção de Estado vai muito além de simplesmente um povo fixado sobre determinado território, pois este é constituído de pessoas que têm vontades, desejos e intenções que desejam ver materializadas. Ninguém que ama a vida, por exemplo, intenta viver em um país onde o aborto é permitido; ninguém que zela pela propriedade privada deseja habitar em um país onde os meios de se defender do injusto invasor sejam tolhidos; ninguém que ame a justiça tem prazer em morar em alguma nação cujos juízes são corruptos e proferem sentenças injustas e imorais. Desta mesma forma, um cristão não deveria ter qualquer desejo de viver em um país onde a Lei de Deus não é a Carta Magna, a Lei Maior, a Constituição e o estandarte. Nenhum cristão deveria se alegrar em ter de jurar fidelidade à bandeira nacional, como temos em nosso país, afinal, nossa bandeira é Cristo!

Muitos pensam que no Estado de Israel só habitavam crentes, o que, porém, é uma inverdade. "Também não oprimirás o estrangeiro; pois vós conheceis o coração do estrangeiro, pois fostes estrangeiros na terra do Egito" (Êx 23.9). Vemos como pessoas de outros povos conquistados ou que viessem a morar junto a Israel seriam e deveriam ser bem recebidos, afinal, também carregavam a imagem e semelhança de Deus. No entanto, tais estrangeiros (isto é, que não eram judeus, portanto, gentios) deveriam se conformar à Lei de Deus, sob pena de sofrerem as mesmas sanções: "Uma mesma lei tereis; assim será para o estrangeiro como para o natural; pois eu sou o Senhor vosso Deus" (Lv 24.22).

Notamos, ainda, que embora o estrangeiro vivesse junto, não poderia participar de certos ritos cristãos, o que significa que em um Estado cristão, caso o Senhor um dia intente assim proceder, o fato de um país se declarar cristão e seguidor da lei de Deus, não torna os estrangeiros filhos de Deus e nem os autoriza a tomar da ceia ou dirigir reuniões eclesiásticas, por exemplo. Nitidamente lemos sobre esta diferença: "Esta é a ordenança da páscoa: nenhum filho do estrangeiro comerá dela" (Êx 12.43).

Todavia, nada obstava que o estrangeiro viesse a se converter ao Senhor: "Quando também peregrinar convosco algum estrangeiro, ou que estiver no meio de vós nas vossas gerações, e ele apresentar uma oferta queimada de cheiro suave ao Senhor, como vós fizerdes, assim fará ele" (Nm 15.14). Ao estrangeiro era também dada ampla liberdade de comércio, a ponto de até mesmo empregar servos judeus (Lv 25.47).

Para o caso de alguém crer que o Antigo Testamento não é valido para nós (ainda que vejamos mais para frente este ponto), basta volver para 2 Timóteo 3.16-17: "Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra." De qual Escritura Paulo estava tratando? Ora, certamente que era do Antigo Testamento, pois o Novo Testamento ainda estava sendo escrito! Ademais, Paulo louvou a atitude da mãe e vó de Timóteo, as quais ensinaram o jovem no caminho da Lei de Deus (e isso no Novo Testamento!) - "Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido, E que desde a tua meninice sabes as sagradas Escrituras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus" (2Tm 3.14-15; 2Tm 1.5).

Portanto, em resumo, o que aprendemos nesta primeira parte, pode ser esboçado da seguinte maneira:

1. Um Estado é constituído por povo, território e soberania;
2. Um Estado vem à existência à partir de um conjunto de acontecimentos;
3. As leis de um Estado são a expressão do próprio povo;
4. A Lei do Senhor é a mais pura, nobre, justa, santa e eficaz que pode existir;
5. Jamais houve um Estado tão magnífico com o Estado de Israel;
6. O cristão deve sentir prazer e alegria na Lei de Deus;
7. O cristão deve lutar por um país segundo a Lei de Deus;
8. Um Estado cristão é compatível com não cristãos convivendo nele.

Por fim, alguém pode advogar que em um Estado cristão, somente os cristãos iriam seguir a Lei de Deus, afinal, ela foi feita exclusivamente para eles. Não é isso, contudo, que ensina a Escritura: "Sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém dela usa legitimamente; Sabendo isto, que a lei não é feita para o justo, mas para os injustos e obstinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreligiosos, para os parricidas e matricidas, para os homicidas, Para os devassos, para os sodomitas, para os roubadores de homens, para os mentirosos, para os perjuros, e para o que for contrário à sã doutrina, Conforme o evangelho da glória de Deus bem-aventurado, que me foi confiado" (1Tm 1.8-11 - grifo meu).

Em breve, a parte 2 de nosso estudo: Qual é o conceito de laicidade.

Notas:

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Eu não conheço um Deus de segundas chances


Santidade não oferece repetição. Quando eu encontro meu Criador, não há como pedir revanche. O bem é puro, ou não é bem. No minuto em que buscamos o bem em algo além de Deus, damos as costas para a santidade e nos voltamos para o mal. Ponto. Sem segunda chance.

Mas Ele nos dá algo melhor.

Ele nos dá sua própria santidade. Ele nos dá a si mesmo! O santo Deus do universo condescendeu até nós, nasceu como bebê, cumpriu toda justiça como o segundo Adão, suportou a maldição do pecado por todos os seus amados até a morte, foi sepultado e, três dias depois, ressurgiu dos mortos. “Foi visto por Cefas, e depois pelos doze… Depois foi visto, uma vez, por mais de quinhentos irmãos… Depois foi visto por Tiago, depois por todos os apóstolos” (1 Co 15.5-7). Ele ascendeu à destra do Pai, de onde agora intercede em favor dos santos.

Eu não tive uma segunda chance para conseguir eu mesma a salvação. Eu consegui um segundo Adão que me conquistasse a salvação . Assim como o primeiro Adão foi criado pelo sopro de Deus, meu Criador soprou nova vida em mim com sua Palavra poderosa e gloriosa. Agora, ele está me transformando à semelhança de Jesus Cristo. Amém e louvado seja Deus!

Afinal, eu teria desperdiçado minha segunda chance 37 anos atrás (eu mencionei que tenho 37?). Quantas chances eu precisaria para alcançar a eternidade diante da face de Deus nos novos céus e nova terra? Não haveria chances suficientes. Eu não duraria um segundo.

Eu não conheço um Deus de segundas chances. Vamos encarar: segunda chance é algo barato. O segundo Adão é inestimável.

- por Aimee Byrd
Fonte: iPródigo

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A importante diferença entre legalidade, moralidade e licitude


Pode parecer trivial, mas não é. Legalidade, moralidade e licitude são facetas distintas e que nem sempre são intercambiáveis, ainda mais quando colocadas sob o prisma da Escritura. Esta tríade deve ser constantemente levada em conta e ponderada durante nossos afazeres, sejam no cotidiano ou nalguma situação específica.

Vejamos um exemplo típico:

Um cristão se depara com um imóvel à venda. O preço: 30% do valor de mercado. Ou seja, uma casa que normalmente seria vendida por R$200.000,00, está sendo oferecida por R$60.000,00. Parece um excelente negócio, certo?

Do ponto de vista da legalidade, tal venda pode ser legal, isto é, de acordo com a lei que rege a vontade das partes - pacta sunt servanda (o pacto faz lei entre as partes) - não haveria problema algum em se vender pelo preço que se bem entende. Todavia, poderia configurar sonegação de impostos, levando o Ministério Público a averiguar se, embora tenha havido um contrato no valor firmado, não foram pagos os R$140.000,00 restantes "por fora", a fim de "aliviar" o imposto de renda do comprador e vendedor. 

Do ponto de vista da moralidade, tal venda jamais deveria acontecer, supondo que de fato fosse vendida somente por R$60.000,00, pois ninguém em sã consciência vende algo tão abaixo do preço, exceto se estiver extremamente endividado e precisar do dinheiro "para ontem". O comprador cristão, vendo o sufoco em que o vendedor se encontra, não deveria "acabar por puxar a corda" e o enforcar, mas, sim, oferecer um preço justo pela casa - talvez não os 200 mil iniciais, mas algo próximo.

Do ponto de vista da licitude, tal venda é plenamente lícita, afinal, houve acordo entre as partes. Não havendo algum dos tradicionais vícios de consentimento (erro, dolo, coação, estado de perigo, lesão, fraude contra credores e a simulação), o negócio é lícito, não havendo que se arguir coisa alguma.

O que isso nos ensina? Nos ensina que nem sempre porque alguma coisa está na Lei (agora me refiro à lei dos homens), significa que é legal ou moral, ainda que lícita.

Ainda outro exemplo:

Um cristão expondo o evangelho em sua Universidade, é proibido de continuar falando de Cristo.

Do ponto de vista da legalidade dos homens, eles veem o cristão como um transgressor, pois mesmo tendo o direito Constitucional à liberdade religiosa (Art. 5º, CF), essa suposta liberdade não pode ferir a liberdade de outrem em não querer ouvir. Desta forma, o cristão oscila entre a legalidade e ilegalidade dos homens, mas tem a legalidade bíblica ao seu lado.

Do ponto de vista da moralidade, o cristão estará sendo imoral, pois à vista dos homens é alguém que deseja impor suas crenças sob os demais (ainda que não seja isso). Para o cristão, porém, falar da Escritura é a mais reta, pura, justa e desejável moralidade, de maneira que mesmo se tendo por imoral, ele continuará a falar - buscando, dentro do possível, respeitar a legalidade dos homens.

Do ponto de vista da licitude, o cristão está realizando algo plenamente lícito, pois a ninguém está obrigando coisa alguma, mesmo que os homens digam que não é moralmente correto ele continuar com sua anunciação do evangelho. 

O que novamente aprendemos? Que nem sempre algo imoral do ponto de vista dos homens, será, necessariamente, imoral sob o foco da Escritura.

Não desejando soar cansativo, vejamos um último exemplo onde vemos a licitude sendo tolhida.

Um cristão deseja escutar algum grupo musical, mas não tendo dinheiro para adquirir o "CD", se vê tentado à baixar toda a discografia da banda gratuitamente, entretanto, de modo "pirata".

Do ponto de vista da legalidade, ele está diante de uma norma legal sem qualquer eficácia, pois ainda que o comércio pirata seja ilegal, já existem decisões dos tribunais que reconhecem a legalidade dos downloads, desde que para uso pessoal. Ou seja, é ilegal, mas ao mesmo tempo é legal. Como muitas vezes as decisões dos tribunais se sobressaem à norma escrita, passou a ser legal.

Do ponto de vista da moralidade, o cristão se vê diante de um problema: passou a ser legal, mas será que é moral? Caso o cristão estivesse do lado do grupo musical, ele gostaria de ver todo seu trabalho sendo pirateado pela internet? Pode ser que sim, mas pode ser que não. Ele fica, então, em fogo cruzado, pois de um lado a Escritura diz que devemos obedecer aos magistrados, por outro lado, ela também diz que devemos não furtar o próximo. Já a legalidade diz que é moralmente aceito fazer o download, ao passo que o grupo musical pode não ver desta forma.

Do ponto de vista da licitude, se percebe que é lícito baixar, pois é legal (passou a ser, em verdade), no entanto, esta licitude é por demais relativa. Assim, embora o cristão tenha a legalidade e a moralidade do mundo ao seu favor, diante de Deus acaba por se tornar ilícito baixar tais músicas em face da não aceitação desta norma legal pelo grupo musical.

Portanto, amado cristão, verifique muito atentamente todas as ocasiões que se descortinam diante você. Nem sempre porque está na Lei dos homens (Código Civil, Penal...), será moral. Não é porque a Lei condena que também será sempre imoral (como pregar o evangelho, por exemplo). De igual forma, não é porque algo é lícito à luz dos homens, que será moral e legalmente correto diante de Deus.

"Todas as coisas [permitidas no evangelho] me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma" (1Co 6.12).

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Como você tem criado seus filhos?


Eu estou grandemente convencido de que há apenas dois estilos de vida a serem seguidos: 1) Confiando em Deus e vivendo em submissão à vontade dele e sua lei, ou 2) tentando ser Deus. Poucas pessoas vivem um meio termo entre esses dois caminhos. Como pecadores nós parecemos estar melhores com a segunda opção do que com a primeira.

A dinâmica espiritual afeta diretamente o modo como criamos nossos filhos. Uma criação de filhos bem sucedida está relacionada a uma ‘perda de controle’ justa e ordenada por Deus. O objetivo de sermos pais é o de ensinar nossos filhos, que uma vez foram totalmente dependentes a serem independentes, pessoas maduras que com confiança em Deus e um bom relacionamento com a comunidade Cristã sejam capazes de andar com os próprios pés.

Nos primeiros anos da criação dos filhos, nós estamos no controle e tudo, e mesmo que reclamando do estresse que isso causa nós gostamos de ter o poder! São poucas as situações em que a criança escolhe o que fazer, exceto no que diz respeito às necessidades físicas básicas. Nós escolhemos a comida deles, a hora de dormir, a forma deles se exercitarem, o que eles veem e ouvem aonde ir, quem são seus amigos, e certamente essa lista pode continuar a crescer.

Entretanto, a verdade é que desde o primeiro dia de vida nossas crianças estão crescendo independentes. O bebê que antes não conseguia rolar sem ajuda, agora pode engatinhar até o banheiro sem permissão e desenrolar todo o papel higiênico! Essa mesma criança em breve estará saindo de casa, dirigindo para lugares onde estarão bem longe do alcance dos pais.

Quantos pais tem tido problemas com os amigos que seus filhos escolheram? Sim, a escolha de companhias é um problema sério, mas é tambem o lugar onde podemos entregar o controle a uma criança em amadurecimento. A finalidade da criação de filhos não é reter um controle absoluto sobre nossas crianças com a intenção de garantir a segurança deles e a nossa sanidade. Apenas Deus é capaz de exercer esse tipo de controle.

Ao invés disso, a finalidade é a de ser usado por Ele para inculcar em nossas crianças um auto controle em constante amadurecimento através dos princípios da Palavra, e permitir-lhes exercer círculos cada vez mais amplos de escolha, controle e independência.

Como conselheiro e pastor, eu frequentemente trabalhei com pais que queriam voltar no tempo. Eles achavam que sua única esperança era voltar aos primeiros dias, os dias de total controle. Eles tentaram tratar seus adolescentes como crianças pequenas. Eles acabaram se tornando mais parecidos com carcereiros do que com pais, e se esqueceram de ministrar o Evangelho, que era a única esperança nos momentos cruciais de dificuldades.

É vital nós nos lembrarmos de três verdades do evangelho relacionadas a esses problemas na criação dos filhos:

1) Não há situação que não esteja sob controle porque Cristo domina sobre todas as coisas para o bem da igreja. (Efésios 1:22)
2) Não só a situação está sob controle, mas Deus está trabalhando para o bem daqueles a quem ele prometeu. (Romanos 8:28). Então eu não preciso controlar todos os desejos, pensamentos e ações do meu filho em amadurecimento. Em cada situação, ele ou ela está sob o soberano controle de Cristo que está cumprindo o que eu não posso fazer.
3) Eu preciso lembrar que o objetivo de criar meus filhos não é criar neles a minha própria imagem, mas me esforçar muito para que eles sejam conformados à imagem de Cristo. Meu objetivo não é clonar meus gostos, opiniões e hábitos nas minhas crianças. Eu não estou buscando a minha imagem neles, eu desejo ver a Cristo.

Nós não podemos pensar na criação de filhos sem olhar honestamente para o que nós, como pais, trazemos para o problema. Se nossos corações são governados pelo sucesso, pela apreciação dos outros e pelo controle excessivo nós vamos involuntariamente querer que nossos filhos satisfaçam nossas expectativas em vez de ajuda-los em suas necessidades espirituais. Ao invés de ver os momentos de dificuldades como oportunidades que Deus nos da, nós iremos vê-los como frustrantes, decepcionantes e irritantes, e certamente iremos experimentar uma crescente raiva contra os nossos próprios filhos, os quais nós fomos chamados para auxiliar e ensinar.

- por Tedd Tripp

sábado, 17 de agosto de 2013

O ódio mútuo entre Deus e o homem


Adão foi criado em estado de favor de Deus, mas não muito tempo após a sua criação, ele apostatou rumo à corrupção. Por sua criação um filho do amor de Deus, por sua corrupção um filho da ira de Deus. Enquanto ele permaneceu, era o possuidor do paraíso e herdeiro do céu. Quando ele caiu, Deus selou a ordem de despejo, e o homem se tornou um herdeiro do inferno. Ele se tornou rebelde, e se juntou a Satanás, o grande inimigo de Deus. Deus tomou a perda da sua possessão e o tirou da sua casa e lar, dificultando a sua reentrada por uma espada flamejante mantendo os seus dedos longe da árvore da vida (Gn 3.24) [...] O homem invadiu o direito da soberania de Deus, e Deus, o soberano Pai, se tornou um juiz irado. O homem caiu em pecado, e a ira caiu sobre o homem. O pecado causou separação entre ele e Deus, e Deus desembainhou a espada flamejante. Assim, os céus e a terra estão em desacordo. O ódio é mútuo: Deus odeia os homens, não como suas criaturas, mas como pecadores. O homem odeia a Deus, não como Deus, mas como soberano e juiz. O homem se desligou de Deus como seu Senhor, e Deus se desligou do homem como sua obra favorita. O homem direciona seu veneno de serpente contra Deus, e Deus derrama sua ira e cólera sobre o homem.

- por Stephen Charnock (1628–1680)

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A Lei Civil do Antigo Testamento: Você é dispensacionalista nisso?

Você se torna dispensacionalista quanto à lei civil do Antigo Testamento?
Você afirma a teologia do pacto, e dessa forma sustenta que leis específicas do Antigo Testamento (AT) são mandatórias hoje, a menos que tenham sido modificadas no Novo Testamento (NT)? Consequentemente, você se opõe ao dispensacionalismo por este sustentar que a lei do AT era apenas para Israel; que as leis específicas do AT foram revogadas, a menos que tenham sido repetidas no Novo Testamento?
Se sim, então excelente! E estamos de acordo. Essa é a visão cristã histórica e reformada (e, mais importante, bíblica). Toda a Escritura (Antigo e Novo Testamento) equipa o homem de Deus para toda boa obra (2 Timóteo 3.16, 17); Jesus confirmou a lei moral até que passem o céu e a terra (Mateus 5.17-20).
E, todavia, quando diz respeito à lei civil do AT, você subitamente muda de marcha e engata uma hermenêutica dispensacionalista? Isto é, quando alguém diz que as leis do AT são obrigatórias hoje, você argumenta (como fazem os dispensacionalistas), “Aquelas leis eram apenas para Israel! Em nenhum lugar são elas repetidas no Novo Testamento!”?
Mas espere aí! Você não é aliancista? Por que então a reviravolta? Certamente você não sustenta que a lei do AT contra a bestialidade (Êxodo 22.19) foi abolida, simplesmente porque o NT não repete essa lei. Claro que não sustenta!
Mas a consistência lógica exige a mesma abordagem para com a lei civil do AT. O silêncio no NT sobre as leis do AT não revoga essas leis, assim como o silêncio no NT sobre a bestialidade não revoga essa lei. A teologia do pacto presume que as leis do AT ainda são válidas, a menos que sejam provadas inválidas pelo NT.
Talvez você pense que a lei civil era parte da lei cerimonial, que foi abolida. Mas como você justificaria isso?
Considere as distinções claras entre lei civil e cerimonial. A lei cerimonial tipificava a redenção (cf. Hebreus 10.1) ou ensinava à comunidade redimida princípios de separação dos incrédulos (cf. Levítico 20.22-26), enquanto a lei civil era a aplicação da justiça não-redentiva (Êxodo 21.23-35; cf. Hebreus 2.2). A lei cerimonial era obrigatória somente na comunidade pactual de Israel (Êxodo 12.48), enquanto a lei civil era obrigatória sobre todos de Israel (Levítico 24.22; cf. vv. 16-23). A lei civil era simplesmente a (permanente) lei moral aplicada ao Estado.
E, adicionemos isso: a lei civil do AT é de fato repetida no Novo Testamento. (Não que a teologia dispensacionalista, sendo um sistema inconsistente, aceitaria isso como uma base para sustentar a lei civil do AT.)
Por exemplo, Jesus confirmou a lei moral (que inclui a lei civil do AT) até que o céu e a terra tenham passado (Mateus 5.17-20); ele particularmente confirmou a pena de morte contra quem amaldiçoa os próprios pais (Mateus 15.4); e após a sua ressurreição, Jesus exigiu que os seus discípulos ensinassem todas as nações a observar tudo o que ele ordenou aos discípulos (Mateus 28.19-20) – e sem dúvida esses mandamentos incluem a lei civil, que ele afirmou antes da ressurreição.
E não esqueçamos o arrependido Zaqueu afirmando a lei de restituição do AT (Lucas 19.8; cf. Êxodo 22.1). Então há a afirmação de Paulo da lei do AT ao advogar inocência até que fosse provado culpado (Atos 23.3; cf. Deuteronômio 25.1, 2); arrependendo-se de falar contra o sumo-sacerdote (Atos 23.5). reconhecendo a validade de várias penas capitais do AT (Atos 25.11); e sustentando que toda a Escritura (incluindo o AT) equipa o homem de Deus para toda boa obra (2 Timóteo 3.16, 17) – o que abrange boas obras na esfera civil.
(Esse último versículo na verdade mostra a natureza autorrefutadora do dispensacionalismo; embora o dispensacionalismo sustente que somente o NT é para os cristãos, o próprio NT diz que o AT é para os cristãos.)
Podemos dar mais exemplos, mas você deve já ter entendido o nosso argumento. Rejeitar o lei civil do AT não é consistente com a teologia pactual, nem com o argumento “apenas o Novo Testamento”.
Dessa forma, se você há de ser verdadeiramente aliancista, quanto tempo coxearás entre as duas opiniões? Se o dispensacionalismo é verdadeiro, então abrace-o. Mas se a teologia pactual é verdadeira, então abrace-a, e pare de rejeitar a lei do AT sobre a base da teologia dispensacionalista.
- por Steve C. Halbrook
Fonte: Monergismo

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