"Eu me confesso ser do número daqueles que, aprendendo, escrevem; e escrevendo aprendem" - Agostinho

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sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Ensinando Crianças a Adorar


Adoração é muito importante – na verdade, é a coisa mais importante que fazemos. O Breve Catecismo diz: “O fim principal do homem é glorificar a Deus, e gozá-lo para sempre”. Deus nos criou para adorá-lo, e adorar a Deus é nossa tarefa mais importante – nosso fim principal.

Embora num sentido geral devamos adorar a Deus em tudo o que fazemos, é no Dia do Senhor que nos reunimos para a adoração formal. Neste dia, a igreja reúne-se como o corpo de Cristo para vir em sua presença e oferecer-lhe o culto que lhe é devido.

O relacionamento de Deus com o homem é pactual. Em particular, a aliança que temos com Deus não é só para nós, mas, como Deus ensinou a Abraão, também é para nossos filhos. Portanto, nós ensinamos nossos filhos a adorá-lo, mesmo na idade mais jovem. Quando ensinamos nossos filhos da aliança a adorar conosco, estamos lhes ensinando e preparando para a tarefa mais importante de suas vidas – e da eternidade.

Em geral, as igrejas norte-americanas sofrem de uma baixa consideração pelo culto público. Um indicativo disso são as “saídas fáceis” que usamos para manter nossos filhos felizes durante o culto, como o berçário, o culto infantil e mesmo atividades para adolescentes. O berçário pode ser útil, mas normalmente é mais utilizado do que deveria. O culto infantil é completamente desnecessário. E marcar as reuniões da mocidade durante os cultos de domingo ensina nossos jovens que o culto é apenas uma opção extra.

Deus está presente na adoração pública de uma maneira especial. Jesus nos diz em Mateus 18.20: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles”. Quando mantemos nossos filhos na igreja, estamos trazendo-os à presença de Cristo de uma maneira singular.

O culto enfoca aquilo que entregamos. Portanto, quando mantemos nossas crianças na igreja, podemos ensiná-las a adorar, a despeito do que (achamos) elas possam “tirar disso”.

O Deus que é suficiente para chamar nossos corações para adorá-lo também é suficiente para chamar os corações dos nossos filhos a adorá-lo. Não nos cabe convencê-los ou suborná-los para estarem no culto, mas discipliná-los para sentar-se em silêncio e ensiná-los pelo exemplo como adorar nosso Criador e Redentor.

Guardar essas convicções, contudo, nem sempre é suficiente para atingir o objetivo de ter os filhos quietamente sentados na igreja. Nós mantivemos facilmente nosso primeiro filho na igreja  até ele ter quase sete meses e começar a falar e se mexer. Finalmente recorremos ao berçário da igreja. Poucos meses depois, uma família com sete filhos visitou nossa igreja. Ficamos maravilhados de vê-los todos, até o que tinha um ano e meio, sentados quietamente e mesmo durante todo o sermão de cinquenta minutos. A partir deles, aprendemos a estabelecer nossas expectativas para nossos filhos e tomar a iniciativa em ensiná-los a sentar-se quieta e atentamente.

Após já termos ensinado nosso terceiro filho a ficar calmo e quieto na igreja, tivemos tempo para praticar os princípios de estabelecer nossas expectativas e tomar a iniciativa com nossos filhos. Mesmo aos oito meses, nosso terceiro filho rapidamente entendeu que um tapinha na perna significava que ele precisava ficar quieto. (Nosso segundo filho, que é muito enérgico, precisou de muito mais tempo para aprender a ficar calmo. Mas quando finalmente restringimos alguns limites que estávamos negligenciando em casa, ele fez grande progresso).

A despeito de você escolher ensinar seu filho a ficar quieto na igreja, normalmente aos dois anos, as crianças em desenvolvimento são totalmente capazes de sentar-se quietamente no culto. (Aprendemos que a tarefa é mais fácil se realizada antes da criança aprender a preferir o berçário).

Espere retirar seu filho e dar-lhe palmadas, pelo menos algumas vezes, enquanto ele aprende a ficar quieto. (Em nossa experiência, tem sido mais que “algumas vezes”). É importante que as crianças aprendam a ser reverentes em relação a Deus e, na medida do possível, não se tornem distrações para os outros. Elas estão na igreja para aprender a adorar e participar do chamado mais elevado de suas vidas.

Certamente, há aspectos negativos em disciplinar os filhos a sentarem-se quietamente na igreja: não fale, não se mexa, não ande por aí. Entretanto, há também o aspecto positivo de disciplinar nossos filhos. Não basta ter crianças calmas e quietas na igreja se elas não estão aprendendo também a participar e deleitar-se mais e mais na adoração de seu Redentor.

Ensine hinos a seus filhos (especialmente os que são cantados com mais frequência), a Oração do Senhor, e a doxologia, de maneira que mesmo antes de aprenderem a ler, eles possam participar dessas coisas. Crianças também amam ouvir o pastor citar os versos que elas memorizaram. Se puder, descubra o texto do sermão do pastor e leiam juntos antes do culto. Também pode ser útil permitir que seus filhos tomem notas (na forma de figuras, antes de aprenderem a ler) durante o sermão.

Lembrem-nos também das batalhas espirituais que todos encaramos no culto – distrações, deixar nossas mentes vagando, maus comportamentos – e como buscar auxílio do Senhor ao lutar essas batalhas.

E mais importante: orem com e por seus filhos, para que juntos com você eles crescentemente aprendam e amem adorar a seu Criador e Redentor.

Em resumo, devemos ensinar nossos filhos da aliança a adorar conosco, não por causa de tradição ou sentimento, mas porque o fim principal deles é glorificar a Deus, e gozá-lo para sempre. Nós, pais, devemos estabelecer nossas expectativas de acordo com isso e tomar a iniciativa em ensinar nossos filhos a adorar com reverência e amor.

- por Paul e Judi English
Fonte: iPródigo

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Afinal: Devemos ou Não dar o Dízimo?



Talvez, de todas as perguntas que circunde os arraiais evangélicos em nossos dias, a questão dos dízimos seja uma das mais controvertidas. Certamente que muitas outras coisas são passíveis de discussão, porém, muitas destas discussões não possuem motivo de ser, razão pela qual, embora se tenha divergência quanto à elas (por exemplo, calvinismo e arminianismo), todo pleito é inútil, pois as Escrituras são claras em afirmar, neste sentido, a completa soberania de Deus - relegando, então, o arminianismo a erro e falsa doutrina. Entretanto, outras doutrinas não nos saltam aos olhos como a supracitada, de modo que é necessário um maior escrutínio e entendimento da Palavra de Deus, a fim de que se possa compreender a correta nuance e aplicação da Verdade.

Em fevereiro de 2010, escrevi um texto chamado "O que dizer dos dízimos e das ofertas?". Naquela oportunidade, aventurei-me a escrever sobre o primeiro vislumbre que tive acerca deste assunto - daí o artigo ter sido simples e conciso. Hoje, passado pouco mais de 2 anos e algumas graças recebidas do Senhor, volto a escrever sobre esta importante veia do cristianismo. Não serei demasiadamente longo, todavia, espero conseguir dirimir as dúvidas e solidificar o argumento mediante a Escritura, a única base estável e que pode ser "proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra" (2T 3.16-17).

1. O dízimo é anterior à Lei e pago a Jesus Cristo

Muitos têm argumentado em favor de uma completa abolição de toda e qualquer contribuição à Igreja de Cristo, sustentando, para tanto, que o dízimo passou a vigorar apenas na Lei de Deus dada a Moisés. Acontece, que isto não é verdade. Assim lemos: "E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; e era este sacerdote do Deus Altíssimo. E abençoou-o, e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra; E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos. E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo" (Gn 14.18-20). Sim, é sabido que que Abrão entregou o dízimo dos despojos de guerra, mas o que fez, de qualquer modo, continuou sendo dízimo (veremos mais para frente alguns detalhes importantes).

Devemos nos perguntar: quem era Melquisedeque? A resposta é direta: "rei de Salém". Não obstante esta resposta, temos ainda um problema: onde ficava "Salém"? Diferente da resposta anterior, não temos uma base certa para afirmarmos onde se situada este local. Alguns pensam que por "Salém" significar "paz", era uma cidade/região que posteriormente seria a conhecida e notória Jerusalém. Outros, talvez, podem crer que era uma cidade inexistente ou extremamente longínqua.

Aqui, o leitor pode se questionar: que diferença isto faz? Atentemos para o versículo abaixo:

"Onde Jesus, nosso precursor, entrou por nós, feito eternamente sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque" (Hb 6.20). O livro de Hebreus nos revela que Jesus Cristo foi "nosso precursor", "segundo a ordem de Melquisedeque". Quer dizer, hoje os cristãos são sacerdotes diante de Deus, porque Cristo, primeiramente, foi sacerdote segundo a linha de Melquisedeque - e não, de Arão ou Levi.

Surge outra indagação: qual era a linhagem de Melquisedeque? Isto é, quem eram seus predecessores? Observemos o versículo:

"Porque este Melquisedeque, que era rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssimo, e que saiu ao encontro de Abraão quando ele regressava da matança dos reis, e o abençoou; A quem também Abraão deu o dízimo de tudo, e primeiramente é, por interpretação, rei de justiça, e depois também rei de Salém, que é rei de paz; Sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida, mas sendo feito semelhante ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre" (Hb 7.1-3). O que isto nos ensina? Que quando Abrão (posteriormente, Abraão - Gn 17.5) deu o dízimo de tudo à Melquisedeque, estava tributando não à qualquer mortal, mas a um tipo de Cristo, prefigurando o dia em que todos tributariam diretamente ao Senhor, rei dos reis - "Mas tu, ó homem de Deus, foge destas coisas... Que guardes este mandamento sem mácula e repreensão, até à aparição de nosso Senhor Jesus Cristo; A qual a seu tempo mostrará o bem-aventurado, e único poderoso Senhor, Rei dos reis e Senhor dos senhores" (1Tm 6.11, 14-15 - grifo meu).

Assim, de maneira breve, verifica-se que o fundamento do dízimo e seu alvo não é a Lei ou a nação de Israel, mas Cristo Jesus, "único poderoso Senhor, Rei dos reis e Senhor dos senhores" (1Tm 6.15). Daí, porque, lemos o próprio Mestre afirmar: "Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus" (Mt 22.21; Mc 12.17; Lc 20.25) - a César (representando o Estado) são os tributos governamentais, ao passo que a Cristo é o coração e tudo o que possuímos.[1

2. No Antigo Testamento, existiam basicamente três tipos de contribuição:

2.1 Um tributo que não era dinheiro

"Tomai do que tendes, uma oferta para o SENHOR; cada um, cujo coração é voluntariamente disposto, a trará por oferta alçada ao SENHOR: ouro, prata e cobre, Como também azul, púrpura, carmesim, linho fino, {pêlos}) de cabras, E peles de carneiros, tintas de vermelho, e peles de texugos, madeira de acácia, E azeite para a luminária, e especiarias para o azeite da unção, e para o incenso aromático. E pedras de ônix, e pedras de engaste, para o éfode e para o peitoral" (Êx 35.5-9); "E falou o SENHOR a Moisés, dizendo: Ordena aos filhos de Israel que te tragam azeite de oliveira, puro, batido, para a luminária, para manter as lâmpadas acesas continuamente. Arão as porá em ordem perante o SENHOR continuamente, desde a tarde até à manhã, fora do véu do testemunho, na tenda da congregação; estatuto perpétuo é pelas vossas gerações. Sobre o candelabro de ouro puro porá em ordem as lâmpadas perante o SENHOR continuamente" (Lv 24.1-4); "Tudo que abrir a madre, e toda a carne que trouxerem ao SENHOR, tanto de homens como de animais, será teu; porém os primogênitos dos homens resgatarás; também os primogênitos dos animais imundos resgatarás. Os que deles se houverem de resgatar resgatarás, da idade de um mês, segundo a tua avaliação, por cinco siclos de dinheiro, segundo o siclo do santuário, que é de vinte geras" (Nm 18.15-16).

Nestes breves versículos, podemos observar que além do dízimo pago (veremos a seguir), o povo de Israel era incumbido de muitos outros tributos sobre sua nação, de modo que o dízimo era, também, como que um tributo, todavia, destinado aos levitas e para a manutenção do tabernáculo/templo e seus sacerdotes. Observemos que a Escritura nos diz que o povo deveria levar "azeite de oliveira, puro, batido, para a luminária, para manter as lâmpadas acesas continuamente" (grifo meu), indicando que não bastaria uma única oferta durante toda a vida, e sim um contínuo sustentar.

2.2 Um tributo que era alimento aos sacerdotes

"Os sacerdotes levitas, toda a tribo de Levi, não terão parte nem herança com Israel; das ofertas queimadas do SENHOR e da sua herança comerão. Por isso não terão herança no meio de seus irmãos; o SENHOR é a sua herança, como lhes tem dito. Este, pois, será o direito dos sacerdotes, a receber do povo, dos que oferecerem sacrifício, seja boi ou gado miúdo; que darão ao sacerdote a espádua e as queixadas e o bucho. Dar-lhe-ás as primícias do teu grão, do teu mosto e do teu azeite, e as primícias da tosquia das tuas ovelhas. Porque o SENHOR teu Deus o escolheu de todas as tuas tribos, para que assista e sirva no nome do SENHOR, ele e seus filhos, todos os dias" (Dt 18.1-5).

O motivo dos israelitas terem de sustentar "toda a tribo de Levi", é porque estes "não terão parte nem herança com Israel". Quando lemos atentamente a distribuição de terras às doze tribos, vemos que justamente a tribo de Levi não ganhou porção alguma de terra, pois "o SENHOR é a sua herança". Mas, como homens que eram e por não terem qualquer porção de terra para plantarem ou criarem animais, "será o direito dos sacerdotes, a receber do povo, dos que oferecerem sacrifício, seja boi ou gado miúdo". Era preciso sustentar todos os levitas - e o motivo era grandioso: "Porque o SENHOR teu Deus o escolheu de todas as tuas tribos, para que assista e sirva no nome do SENHOR, ele e seus filhos, todos os dias". A tribo de Levi havia sido separada para trabalhar exclusivamente no templo, de modo que se algum israelita negligenciasse sua doação a eles, estes padeceriam necessidades e não poderiam servir ao Senhor; caso isso acontecesse, o fogo se apagaria, os levitas morreriam de fome e o tabernáculo (posteriormente, templo) se extinguiria, afinal, não haveria quem pudesse trabalhar nem quem sustentasse os levitas. Certamente que isto seria impossível, pois uma vez que Deus é soberano e tudo que decreta, faz também acontecer, tanto os levitas como o povo de Israel, continuamente levariam o ordenado pelo Senhor.[2]


2.3 O dízimo que servia de comida à família e também aos trabalhadores do templo

"Certamente darás os dízimos de todo o fruto da tua semente, que cada ano se recolher do campo. E, perante o SENHOR teu Deus, no lugar que escolher para ali fazer habitar o seu nome, comerás os dízimos do teu grão, do teu mosto e do teu azeite, e os primogênitos das tuas vacas e das tuas ovelhas; para que aprendas a temer ao SENHOR teu Deus todos os dias. E quando o caminho te for tão comprido que os não possas levar, por estar longe de ti o lugar que escolher o SENHOR teu Deus para ali pôr o seu nome, quando o SENHOR teu Deus te tiver abençoado; Então vende-os, e ata o dinheiro na tua mão, e vai ao lugar que escolher o SENHOR teu Deus; E aquele dinheiro darás por tudo o que deseja a tua alma, por vacas, e por ovelhas, e por vinho, e por bebida forte, e por tudo o que te pedir a tua alma; come-o ali perante o SENHOR teu Deus, e alegra-te, tu e a tua casa; Porém não desampararás o levita que está dentro das tuas portas; pois não tem parte nem herança contigo" (Dt 14.22-27).

Este texto nos ensina preciosas verdades. Em primeiro lugar, colocando um imperativo, uma ordem: "Certamente darás". Não era opcional o sustento da casa de Deus, pois haviam pessoas e toda uma obra que deveria ser levada adiante. Em segundo lugar, este dízimo não poderia ser oferecido em qualquer lugar, mas somente "no lugar que escolher para ali fazer habitar o seu nome". Em terceiro lugar, a prática do dízimo tinha um objetivo específico de Deus para com seu povo: "para que aprendas a temer ao SENHOR teu Deus todos os dias". Em quarto lugar, notamos a sabedoria e bondade de Deus para com os Seus, pois, embora o povo tivesse que dar "os dízimos do teu grão, do teu mosto e do teu azeite, e os primogênitos das tuas vacas e das tuas ovelhas", poderia acontecer que o lugar de os oferecer fosse muito longe, inviabilizando completamente o levar de toda aquela mercadoria, bem como todos os animais "e a tua casa" (lembremos que as famílias viviam num grande espaço de terra; avôs, avós, tios, sobrinhos, mulheres grávidas, crianças de colo...). Sabendo e determinando (em sua predestinação) que isto viria a acontecer, diz o Senhor: "E quando o caminho te for tão comprido que os não possas levar, por estar longe de ti o lugar que escolher o SENHOR teu Deus para ali pôr o seu nome, quando o SENHOR teu Deus te tiver abençoado; Então vende-os, e ata o dinheiro na tua mão, e vai ao lugar que escolher o SENHOR teu Deus".

Precisamos fixar este entendimento: o próprio dízimo (grãos, animais...) poderia ser "transformado" em dinheiro, caso fosse necessário. E mais: este dízimo era comido pela própria família! Quer dizer, havia uma separação para o Senhor, mas pela graça divina, quem usufruía eram os próprios israelitas! "E aquele dinheiro darás por tudo o que deseja a tua alma, por vacas, e por ovelhas, e por vinho, e por bebida forte, e por tudo o que te pedir a tua alma; come-o ali perante o SENHOR teu Deus, e alegra-te, tu e a tua casa". Atentemos, contudo, para a ressalva que faz o Senhor: "Porém não desampararás o levita que está dentro das tuas portas; pois não tem parte nem herança contigo". Isto implica em dizer que, mesmo a família comendo o próprio dízimo, não deveria desamparar o levita, pois ele vivia exclusivamente das doações. Estas doações, então, não deveriam ser ínfimas, pois os levitas (muitos deles, toda uma tribo) necessitavam do completo sustento.[3]

Acrescente-se ainda que, mesmo a família indo até o local "que escolher o SENHOR teu Deus para ali pôr o seu nome" e lá comer e entregar os dízimos, deveria: "Ao fim de três anos tirarás todos os dízimos da tua colheita no mesmo ano, e os recolherás dentro das tuas portas; Então virá o levita (pois nem parte nem herança tem contigo), e o estrangeiro, e o órfão, e a viúva, que estão dentro das tuas portas, e comerão, e fartar-se-ão; para que o SENHOR teu Deus te abençoe em toda a obra que as tuas mãos fizerem" (Dt 14.28-29). Portanto, não bastava apenas "ir e oferecer" os dízimos, mas também dever-se-ia guardar outro dízimo "Ao fim de três anos", para quando os que não tinham porção de terra ("o levita... e o estrangeiro, e o órfão, e a viúva") viessem, pudessem ter o que comer.

O que tudo isso nos ensina? Em breve síntese, que o sistema do Antigo Testamento era completamente oposto ao que temos visto hoje em dia. Não conheço uma pessoa sequer que "Ao fim de três anos", guarda certa quantia de dinheiro para ajudar os necessitados; também não me recordo de ter visto alguém separando o dízimo, comprando comida com ele, comendo e repartindo com os demais irmãos (pois hoje, como é sabido, todos os crentes são como que levitas diante do Senhor, devido ao sacerdócio ser universal).[4

Desta forma, precisamos compreender qual a maneira correta de aplicar esta verdade.

Nem todas as contribuições era iguais

Devemos lembrar acerca da importância de considerarmos o Antigo Testamento em sua completude, isto é, precisamos atentar para o fato de o dízimo ser parte integrante de um corpo maior. Considerar o dízimo, isolado das demais contribuições e deveres que os israelitas tinham, é violar os princípios de interpretação bíblica e colocar um peso que a própria Palavra não autoriza. Destarte, se verifica que nem todas as contribuições eram fixas e intransigíveis, quer dizer, muitas vezes cada pessoa contribuía/pagava com o que podia:

"Mas, se der à luz uma menina... trará um cordeiro de um ano por holocausto, e um pombinho ou uma rola para expiação do pecado... O qual o oferecerá perante o SENHOR... Mas, se em sua mão não houver recursos para um cordeiro, então tomará duas rolas, ou dois pombinhos, um para o holocausto e outro para a propiciação do pecado; assim o sacerdote por ela fará expiação, e será limpa" (Lv 12 5-8). Neste texto temos um real exemplo de proporcionalidade. A regra para àqueles que possuíssem posses era de trazer "um cordeiro de um ano por holocausto, e um pombinho ou uma rola para expiação do pecado". Porém, caso não houvesse condições de se trazer estes animais, "então tomará duas rolas, ou dois pombinhos, um para o holocausto e outro para a propiciação do pecado".

Muitos outros textos poderiam ser citados para confirmar esta verdade, mas a fim de cumprir a promessa de ser breve, deixo ao encargo do leitor os demais textos (capítulos 5, 14, 27 de Levítico - dentre outras passagens).

O dízimo em Malaquias 3.10

De todos os textos usados para defender o dízimo, talvez nenhum seja mais usado que este. Olhemos-o: "Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal até que não haja lugar suficiente para a recolherdes" (Ml 3.10).

Assim como o amor por dinheiro é a raiz de muitos males (1Tm 6.10), a ignorância é a mãe de muitos pecados (Os 4.6). Precisamos entender para quem Malaquias estava escrevendo. 

A carta começa com os dizeres: "Peso da palavra do SENHOR contra Israel, por intermédio de Malaquias" (Ml 1.1). Lemos, então, a advertência: "E dizeis ainda: Eis aqui, que canseira! E o lançastes ao desprezo, diz o SENHOR dos Exércitos; vós ofereceis o que foi roubado, e o coxo e o enfermo; assim trazeis a oferta. Aceitaria eu isso de vossa mão? diz o SENHOR" (M 1.13). Posteriormente, se evidencia que a carta não era somente para o povo que estava oferecendo animais impuros (leia todo o capítulo 1), mas igualmente: "Agora, ó sacerdotes, este mandamento é para vós" (Ml 2.1). Portanto, a carta de Malaquias não foi escrita somente para o povo, mas também aos sacerdotes, aqueles que administravam e recebiam os alimentos para consagrarem ao Senhor.[5]

Dito isso, olhemos o texto proposto. Este texto diz claramente: "Trazei todos os dízimos à casa do tesouro". Aqui se encontra um dos trunfos da interpretação: "à casa do tesouro". Não é necessário muito conhecimento para saber o que era a casa do tesouro, pois o próprio texto fornece a dica: "para que haja mantimento na minha casa". A casa do tesouro era onde eram guardados os mantimentos que o povo enviava aos levitas e sacerdotes. Era um lugar onde ficavam estocados tudo que era recebido, a fim de que houvesse sustento na casa do Senhor. Mas, devemos lembrar que Israel era um Estado, isto é, uma nação, regida por regras próprias e princípios ímpares em relação aos gentios. Isto demonstra que a casa do tesouro, talvez, pudesse se associar ao nosso Tesouro Nacional - "A Secretaria do Tesouro Nacional é responsável pela administração e utilização dos recursos financeiros que entram nos cofres do Estado brasileiro".[6] É, então, por causa disso, que não podemos pretender fazer este texto dizer o que ele não diz, afinal, vemos claramente que hoje não existe mais uma "casa do tesouro" bíblico, real e fixo como antigamente.

Não podemos, contudo, desprezar as promessas de Deus sobre os que contribuíssem de acordo com o estipulado pelo Senhor: "e depois fazei prova de mim nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal até que não haja lugar suficiente para a recolherdes". O próprio Senhor prometeu abençoar os que trouxessem àquele lugar o que era devido - mas não prometeu quando, quanto e nem onde; tão somente afirmou: "até que não haja lugar suficiente para a recolherdes" - ou seja, o importante era crer que haveria grande bênção sobre o povo de Israel.

Vale observar que a bênção não é dirigida aos indivíduos, e sim à coletividade, fazendo com que entendamos que o povo de Deus, como um grande corpo, deve contribuir ao Senhor - e quando isto acontecer, o Senhor nos abençoará grandemente.[7]

O dízimo no Novo Testamento

No intuito de avançarmos para a finalização, pontuemos que muitos têm afirmado que por o Novo Testamento silenciar a esse respeito, nós devemos fazer o mesmo - isto é, deixar sob o critério de cada cristão o contribuir ou não. Mas este é um pensamento falacioso, pois muitas das doutrinas bíblias são entendidas sob a ótica da lógica dedução - por exemplo: não somos informados que no Novo Testamento as mulheres cantem no culto, que as meninas sejam batizadas (no AT apenas os meninos eram circuncidados), que mulheres tomem da ceia junto com homens; também não temos qualquer versículo literal que fale da união das duas naturezas de Cristo (divina e humana) ou que contenha a palavra trindade... Assim sendo, precisamos do auxílio do Espírito Santo para "ligarmos os pontos" e compreendermos a Verdade.

O primeiro registro neotestamentário vem do próprio Cristo: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas" (Mt 23.23). Jesus não está censurando o dízimo dos escribas e fariseus, pois chega até mesmo a afirmar que o que faziam era bom - "deveis, porém, fazer estas coisas". O problema daqueles homens era que "desprezais o mais importante da lei" - e o que era o mais importante? "o juízo, a misericórdia e a fé". Tais pessoas viviam uma religião de aparência, de profissão de fé vazia. Noutro momento, Cristo até mesmo os censurou por darem mais valor aos animais do que às pessoas carentes (veja o capítulo 12 de Mateus).

Ressalta-se também que, agora no Novo Testamento, os israelitas (hoje, todos os cristãos - leia Romanos 11) não vivem mais sobre o Estado de Israel, o que implica dizer que os cristãos devem obedecer também as demais autoridades. Jesus foi um exímio exemplo, até mesmo pagando impostos: "Mas, para que os não escandalizemos, vai ao mar, lança o anzol, tira o primeiro peixe que subir, e abrindo-lhe a boca, encontrarás um estáter; toma-o, e dá-o por mim e por ti" (Mt 17.27). Paulo também afirmou: "Portanto é necessário que lhe estejais sujeitos, não somente pelo castigo, mas também pela consciência. Por esta razão também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo sempre a isto mesmo. Portanto, dai a cada um o que deveis: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra" (Rm 13.5-7).

"No primeiro dia da semana cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar, conforme a sua prosperidade, para que não se façam as coletas quando eu chegar" (1Co 16.2 - grifo meu). É preciso evidenciar este fato para que não sejamos levados pelo legalismo ou pela libertinagem. Devido a estas coisas, nos é mister atentar para que sob a égide da Nova Aliança pelo sangue do cordeiro (Hb 9:15; 12.24), os crentes continuam com seus deveres sobre o dízimo - não como comumente se diz, mas como a Palavra requer.

Por fim, estes são os requisitos que devem ser balançados, a fim de que tenhamos o correto entendimento acerca do dízimo para nós. Ele é:

1. Mandamento de Deus e já realizado antes da outorgada Lei;
2. Parte integrante de um sistema maior de tributos, contribuições e necessidades sociais;
3. Não era somente para o sustento dos levitas e sacerdotes, mas também das famílias e dos pobres;
4. Quando não se tinha condições de contribuir com determinado tributo, se fazia de acordo com as posses;
5. Por não vivermos mais em Israel como nação, devemos entender quais são as aplicações para nós;
6. No Novo Testamento, foi sancionado (aprovado) por Jesus, mas com a ressalva de que deveria-se não desprezar o mais importante;
7. Existem tributos para o governo e dízimos para Deus;
8. Deus promete ainda hoje abençoar seu povo mediante os dízimos, e não um indivíduo isolado;
9. Paulo menciona que devemos dar segundo o que possuímos.

Conclui-se, então, que os dízimos (a décima parte) são válidos para nós, mas não como uma fração irredutível, mas um padrão aceitável a Deus. Talvez pudéssemos dizer que a melhor expressão seria "contribuição", no lugar de "dizimar", uma vez que o princípio não expressa um valor ou quantia específica, mas um princípio, a saber: 100%

Se alguém se perguntar: "Quanto devo contribuir? Qual é o padrão das Escrituras?" A resposta é: "Com seu dízimo, o padrão bíblico". Alguém também pode dizer: "E se eu puder dar mais que 10%?" Se evidencia, então: "Deve assim realizar, de acordo com as possibilidades, pois os 10% são um padrão, apenas". Outra pessoa, porém, pode dizer: "Mas eu não possuo quaisquer condições, meus filhos estão doentes, meu marido desempregado, pagamos aluguel...". Para esta, o jugo também é suave e o fardo é leve, devendo contribuir "conforme a sua prosperidade", mesmo que esta prosperidade seja o comprar comida para a casa e saciar a necessidade - "come-o ali perante o SENHOR teu Deus, e alegra-te, tu e a tua casa".

Que Deus nos abençoe.

____________
Notas:
[1] Poderíamos ampliar a discussão e afirmar que até mesmo os tributos, em última instância, pertencem ao Senhor ("Por esta razão também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo sempre a isto mesmo" (Rm 13.6), mas nos ateremos à presente proposta e trataremos apenas dos dízimos.
[2] Recordemos, entretanto, da advertência de Malaquias acerca dos israelitas, que em vez de levarem "as primícias" (Dt 18.4), estavam recebendo do povo e oferecendo alimentos e animais impuros: "Ofereceis sobre o meu altar pão imundo, e dizeis: Em que te havemos profanado? Nisto que dizeis: A mesa do SENHOR é desprezível. Porque, quando ofereceis animal cego para o sacrifício, isso não é mau? E quando ofereceis o coxo ou enfermo, isso não é mau? Ora apresenta-o ao teu governador; porventura terá ele agrado em ti? ou aceitará ele a tua pessoa? diz o SENHOR dos Exércitos" (Ml 1.7-8).
[3] Esta questão do sustento completo, além de tipificar muitas coisas sobre Cristo (o pão como corpo, o vinho como sangue, os animais como o sacrifício do próprio Cristo...), creio que também visava o correto alimento para os levitas, pois que seria daqueles homens se vivessem apenas de grãos ou de vinho, por exemplo? Assim, o Senhor providenciava, através de todos os dízimos, uma "santa dieta", de modo que sempre estariam corretamente nutridos e aptos para o trabalho.
[4] "Por isso, irmãos santos, participantes da vocação celestial, considerai a Jesus Cristo, apóstolo e sumo sacerdote da nossa confissão" (Hb 3.1). Assim como no Antigo Testamento havia o sumo sacerdote e os sacerdotes, hoje Cristo é nosso sumo sacerdote, de modo que todos os crentes são sacerdotes diante do Senhor - "Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?" (1Co 3.16).
[5] Por analogia aos dias de hoje, podemos dizer que a exortação é também para os pastores e todos que cuidam e administram o que os crentes levam para a obra de Deus.
[6] http://www.brasil.gov.br/sobre/economia/orgaos-reguladores/tesouro-nacional
[7] Não cabe ao escopo do presente artigo o verificar de que natureza é esta bênção. Importa que entendamos que Deus abençoa segundo o Seu querer. Devemos orar e bradar às palavras de Paulo: "porque já aprendi a contentar-me com o que tenho" (Fp 4.11).

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Hereges São Pessoas Legais!




Por que foi tão difícil para Paulo e os outros apóstolos combaterem os falsos mestres em seus dias?

Muitas pessoas esperam que aqueles que deturpam e torcem as verdades bíblicas sejam pessoas não amáveis, sem simpatia, sem carisma... Paulo disse aos coríntios: “E não é maravilha, porque o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz.” -  2 Coríntios 11:14 - “Mas temo que, assim como a serpente enganou Eva com a sua astúcia, assim também sejam de alguma sorte corrompidos os vossos sentidos, e se apartem da simplicidade que há em Cristo”. 2 Coríntios 11:3

Em toda a história da igreja homens que propagaram heresias destruidoras eram amáveis, simpáticos, falavam em amor ao próximo, se empenhavam em caridade... hoje é assim como sempre foi. Podemos ensinar doutrinas antibíblicas enquanto falamos em ajuda aos pobres, missão integral, igreja relevante... Na verdade, todas as religiões podem falar sobre temas simpáticos, agradáveis, caridosos... sendo mesmo assim o oposto da revelação bíblica. Podemos passar horas lendo Confúcio, Budismo... Mas nossa questão aqui são heresias que saem da igreja, de líderes na igreja, simpáticos, caridosos... Paulo quando fala sobre líderes que ensinam doutrinas heréticas e desviam homens da verdade, diz: “e com suaves palavras e lisonjas (bajulações) enganam os corações dos simples.” - Romanos 16:18

Falsos mestres são simpáticos, amáveis e adoram falar sobre amor. Mas o amor que é proposto é um tipo de amor completamente diferente do que a Bíblia ensina. É um sentimentalismo que põe a verdade de lado em nome do que chamam amor. Qualquer amor que é destrutivo para a verdade total do evangelho (com todo seu lado ofensivo ao homem natural), qualquer amor que ignora a verdade e a vê como um obstáculo, chamando-a de dogmatismo... qualquer amor que é tolerante com o erro ou propaga o erro... tem que ser completamente evitado e combatido... porque isso não está nem próximo da essência daquilo que a Bíblia chama de amor. Toda conversa sobre amor, caridade, missão, união... que põe a verdade de lado é exatamente o trabalho dos falsos mestres, falsos profetas... Como é doce ouvir “paz, paz...” – “E curam superficialmente a ferida da filha do meu povo, dizendo: Paz, paz; quando não há paz.” - Jeremias 6:14 – É isso que Paulo enfatiza: “e com suaves palavras e lisonjas (bajulações) enganam os corações dos simples.” - Romanos 16:18

Na história da igreja homens que ensinaram doutrinas terríveis eram homens simpáticos e amáveis. Ário (Arius 256-336)  negava a divindade de Cristo. Ele defendia que o Logos e o Pai não eram da mesma essência, que o Filho era uma criação do Pai, que houve um tempo em que o Filho ainda não existia... Era um líder cristão em Alexandria. Mas é dito sobre ele que era um homem simpático, amável... Era descrito como  - brilhante, companheiro, atraente... um tipo de cidadão que todos gostariam de ter ao seu lado em causas nobres. Um tipo de homem que todos gostavam de ver ensinando a Bíblia... ele foi imensamente popular nos seus dias... Exatamente o que Paulo disse: “e com suaves palavras e lisonjas (bajulações) enganam os corações dos simples.” - Romanos 16:18

Outro homem que ensinou as mesmas heresias foi Socino (Fausto Socinus 1539-1604) – Seu ensino rejeitou os pontos de vista ortodoxos teologia cristã no conhecimento de Deus, sobre a doutrina da Trindade,  divindade de Cristo , e na soteriologia... Mas ele em si era um cara legal e simpático, amável... Ele é descrito como um verdadeiro cavaleiro. Sua moral estava acima de qualquer suspeita e era conhecido por sua cortesia infalível. É descrito como muito mais cortês do que os Reformadores que viveram na mesma época, Calvino, Lutero... Enfim, Socino é descrito como homem exemplar.

Eis o motivo porque raramente é ou será popular combater e resistir os falsos mestres. Eis o motivo porque Paulo teve grandes problemas para combatê-los em Corinto, na igreja dos Gálatas, e em todas as outras igrejas. Falsos mestres, hereges... são amáveis, falam muito sobre o amor, em ajuda aos necessitados... são simpáticos, falam sobre “paz paz..” – então eles quase sempre são vistos como uma benção para a igreja. Eles sempre tem palavras cativantes. Eles são atenciosos. Eles falam o que muitos querem ouvir. Eles estão prontos a adaptar a verdade. Eles são cavaleiros... Então Paulo diz: “e com suaves palavras e lisonjas (bajulações) enganam os corações dos simples.” - Romanos 16:18

“Suaves palavras” – A frase significa discurso suave. Eles sabem falar de forma inteligente. O diabo coloca os erros mais devastadores não na boca de hereges óbvios... ele não coloca esses erros na boca de homens que são um desastre para o objetivo dele. Palavra suaves e lisonjas. A palavra é eulogia, como elogio. É a ideia de uma eloquência falsa, mentiras bem escolhidas e que tem um som atraente e enganam o coração dos ingênuos,  é o que Paulo diz. Inteligente, eloquente, polido, de fala suave, elogiando, lisonjeiro, abraçando causas nobres... Ele ganha o ouvido e engana o coração.

Nunca, nunca será popular resistir falsos mestres na igreja, eles são vistos como benção e não tragédia!

- por Josemar Bessa

terça-feira, 27 de novembro de 2012

O Que é o Verdadeiro Arrependimento?



O arrependimento pertence exclusivamente à religião dos pecadores. Não tem lugar na vida de criaturas não caídas. Aqueles que nunca cometem pecados nem possuem uma natureza pecaminosa não precisam de perdão, conversão ou arrependimento. Os anjos santos nunca se arrependem. Não têm do que se arrepender. Isso é tão claro que é desnecessário argumentar o assunto. Mas os pecadores precisam de todas essas bênçãos, que lhes são indispensáveis. A impiedade do coração humano torna-as necessárias.

Em todas as épocas, desde que nossos primeiros pais foram expulsos do Jardim do Éden, Deus tem insistido no arrependimento. Entre os patriarcas, Jó disse: "Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza" (Jó 42.6). Sob a vigência da Lei, Davi escreveu os salmos 32 e 51. João Batista clamou: "Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus" (Mt 3.2). Cristo declarou a respeito de Si mesmo que viera "chamar... pecadores ao arrependimento" (Mt 9.13). Pouco antes de sua ascensão, Cristo ordenou "que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém" (Lc 24.47). E os apóstolos ensinaram a mesma doutrina, "testificando tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus" (At 20.21).

Portanto, qualquer sistema de religião entre os homens que não inclua o arrependimento é falso. Matthew Henry disse: "Se o coração do homem tivesse permanecido reto e puro, as consolações divinas seriam recebidas sem essa dolorosa operação precedente. Mas, visto que o coração do homem é pecador, tem de ser primeiramente quebrantado, antes de receber paz; tem de labutar, antes de obter descanso. Para haver a cura, a ferida precisa ser examinada. A doutrina do arrependimento é uma doutrina correta do evangelho. Não somente o austero João Batista, que foi considerado um homem melancólico e pessimista, mas também o amável e gracioso Jesus, cujos lábios transbordavam doçura, pregou o arrependimento".

Embora o arrependimento seja um dever óbvio e freqüentemente ordenado, só pode ser realizado de modo verdadeiro e eficaz pela graça de Deus. É um dom do céu. Paulo orientou Timóteo a instruir, com mansidão, aqueles que se opunham, na expectativa de que Deus lhes concedesse "o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade" (2 Tm 2.25). Cristo foi exaltado como Príncipe e Salvador, "a fim de conceder... o arrependimento" (At 5.31). Assim, quando os gentios foram introduzidos na igreja, esta glorificou a Deus, dizendo: "Logo, também aos gentios foi por Deus concedido o arrependimento para vida" (At 11.18).

Tudo isso está de acordo com o tom das promessas do Antigo Testamento. Ali, Deus afirmou que faria essa obra em e por nós. Ouça esta graciosa promessa: "Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis" (Ez 36.26-27)... O verdadeiro arrependimento é uma misericórdia especial da parte de Deus. Ele nos dá o arrependimento, pois este não procede de nenhum outro. É impossível para a natureza caída recuperar-se a si mesma, por suas próprias forças, assim como é impossível arrepender-se verdadeiramente. O coração está preso aos seus próprios caminhos e justifica sua vida pecaminosa com obstinação incurável, até que a graça opera a mudança. Motivos para fazer o bem não são suficientemente fortes para vencer a corrupção no coração natural do homem. Se devemos alcançar esta bênção, isso deve ocorrer pela ação do grande amor de Deus por homens perdidos.

O arrependimento é bastante lógico... Quando somos chamados ao exercício de deveres que relutamos em cumprir, nos convencemos facilmente de que tais deveres são cobrados de nós insensatamente. Portanto, sempre é proveitoso que tenhamos um mandamento de Deus compelindo nossa consciência, em qualquer dos casos. É verdadeiramente benéfico que Deus fale conosco de modo autoritário quanto a este assunto. Deus "notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam" (At 17.30). A base da ordem é o fato de que todos os homens, onde quer que estejam, são pecadores. Nosso bendito Salvador não tinha pecado. Ele não podia se arrepender. Com essa única exceção, desde a Queda, nunca existiu qualquer pessoa justa que não necessitasse de arrependimento. E ninguém é mais digno de compaixão do que os homens infelizes e iludidos que não vêem em seu coração nada do que se arrependerem.

O que é o verdadeiro arrependimento? Essa é uma pergunta da mais elevada importância. Merece a nossa melhor atenção. Esta talvez seja a melhor definição já apresentada: "O arrependimento para a vida é uma graça salvadora, que o Espírito Santo e a Palavra de Deus operam no coração de um pecador; é uma graça por meio da qual o pecador, motivado por senso e percepção, e não somente pelo perigo, bem como por causa da impiedade e do ódio para com seu pecados, com base na apreensão da misericórdia de Deus, em Cristo, para com aqueles que se arrependem, sente tanta tristeza e odeia tanto o seu pecado, que se volta deles para Deus, intencionando e se esforçando continuamente para andar com Ele em todos os caminhos de uma nova obediência". Quando examinamos mais completamente essa definição, torna-se evidente que ela é correta e bíblica. O verdadeiro arrependimento é uma tristeza pelo pecado, um tristeza que leva a transformação. O simples remorso não é arrependimento, assim como não o é a reforma exterior. O arrependimento não é uma imitação da virtude; é a própria virtude...

Aquele que se arrepende verdadeiramente sente tristeza por seus pecados; aquele cujo arrependimento é espúrio se preocupa principalmente com suas conseqüências. O primeiro se entristece principalmente por haver praticado o mal; o segundo, por ter incorrido no mal. Um lamenta e admite que merece punição, o outro lamenta que tenha de sofrer punição. Um aprova a Lei que o condena; o outro acha que é tratado com severidade e que a Lei é rigorosa. Para aquele que se arrepende com sinceridade, o pecado parece bastante pecaminoso. Para aquele que se entristece segundo o mundo, o pecado parece agradável, de algum modo; ele lamenta que o pecado lhe seja proibido. Um diz que pecar contra Deus é algo perverso e terrível, ainda que não lhe sobrevenha punição. O outro veria pouco mal na transgressão, se não houvesse as dolorosas punições que certamente a acompanham. Um desejaria ser libertado do pecado, ainda que não existisse o inferno. O outro pecaria com avidez crescente, se não houvesse retribuição.

O verdadeiro arrependimento é adverso ao pecado, pois este é uma ofensa contra Deus. E isso se refere a todos os tipos de pecados. Contudo, pode-se observar que há duas classes de pecado que permanecem com grande vigor na consciência daqueles cujo arrependimento é verdadeiro. São os pecados de omissão e os pecados secretos. Por outro lado, em um arrependimento espúrio, a mente inclina-se a permanecer em pecados notórios e pecados de comissão. A pessoa verdadeiramente arrependida conhece a praga de um coração mau e de uma vida infrutífera; a pessoa de arrependimento falso não se inquieta a respeito do estado genuíno de seu coração, mas se entristece com o fato de que as aparências lhe são bastante contrárias.

por - William S. Plumer (1802-1880)
Fonte: http://www.editorafiel.com.br/artigos_detalhes.php?id=324

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A Piedade Para Tudo é Proveitosa



Pois o exercício físico é para pouco proveitoso (1 Tm 4.8). Pela expressão, exercício físico, o apóstolo não se refere ao esporte da caça, ou da corrida, ou proceder a uma escavação, ou de luta corporal, ou de algum trabalho manual; ao contrário, ele está falando de ações externas empreendidas em função da religião, a saber, vigílias, jejuns prolongados, prostração em terra e atos afins... Portanto, mesmo que o coração seja puro e o motivo justo, Paulo não encontra nada nas ações externas que seja de algum valor real. Eis aqui uma advertência indispensável, pois o mundo sempre revela forte tendência para cultuar a Deus por meio de observâncias externas, o que pode ser fatal. Mesmo deixando a noção perversa de que há méritos nelas, nossa natureza sempre nos dispõe fortemente a pensar que a vida ascética é de grande valor, como se fosse uma parte notável da santificação cristã. Não existe prova mais clara disso do que o fato de logo depois Paulo emitir esse mandamento, um tipo fútil de exercício corporal conquistou a admiração imoderada de toda a terra. 

De tal monasticismo surgiram as ordens de monges e freiras e quase toda a mais excelente disciplina da antiga igreja, pelo menos aquela parte dela que foi mais altamente estimada pela opinião popular. Se os antigos monges não tivessem crido de haver alguma perfeição divina ou angélica em suas austeras regras de vida, e jamais a teriam praticado com tanto ardor. Da mesma forma, se os pastores não tivessem indevidamente super valorizado as práticas então observadas como meio de se mortificar a carne, jamais as teriam requerido de maneira tão estrita. Todavia Paulo expressa o contrário, ou seja: mesmo que um homem se haja fatigado com muitos e prolongados exercícios, o proveito será pouco e insignificante; porque não passam de rudimentos de uma disciplina pueril.

Mas a piedade para tudo é proveitosa. Significa que ao homem que possui piedade nada falta, mesmo que não tenha a pequena assistência que essas práticas ascéticas podem oferecer. A piedade é o ponto de partida, o meio e o fim do viver cristão; e onde ela é completa, não existe lacuna alguma. Cristo não seguiu um modo ascético de vida como João Batista, e no entanto não lhe era absolutamente inferior, nem um mínimo sequer. Portanto, a conclusão é que devemos concentrar-nos exclusivamente sobre a piedade, pois quando a tivermos alcançado, Deus não requererá de nós nada mais; e devemos prestar atenção nos exercícios corporais só até onde eles não obstruam nem retardem a prática da piedade.

Tendo a promessa. É um conforto muitíssimo profundo saber que Deus não deseja que ao piedoso falte alguma coisa. Havendo decretado que nossa perfeição estaria radicada na piedade, ele agora faz provisão para que a mesma encontre sua concretização na genuína felicidade. E já que ela, nesta vida, é a fonte da felicidade, ele estende a esta vida, também, as promessas da graça divina, a qual só pode trazer-nos felicidade e sem a qual seremos os mais miseráveis dos homens. Pois Deus declara que mesmo nesta vida ele nos será por Pai. Devemos, porém, lembrar de fazer distinção entre as bênçãos da vida presente e as da vida futura. 

Pois neste mundo Deus nos abençoa de maneira que só desfrutamos de uma mera prelibação de sua benevolência, e através dessa prelibação somos atraídos a desejar as bênçãos celestiais para que nelas sejamos plenamente saciados. Eis a razão por que as bênçãos da presente vida são não só mescladas, mas também destruídas por muitas aflições, pois não é bom que tenhamos abundância aqui e a seguir suceda que ela nos conduza à luxúria. Além do mais, para que não suceda de alguém tentar extrair desta passagem a doutrina dos méritos [humanos], devemos observar que a piedade inclui não só uma consciência íntegra em relação ao homem e reverência em relação a Deus, mas também fé e oração.

- por João Calvino

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Por que relutamos em pregar o evangelho?



Jerram Barrs, em seu livro “A Essência da Evangelização” (Editora Cultura Crtistã) demonstra que, em geral, somos relutantes para pregar o evangelho às pessoas. É fácil perceber isso. Procure se lembrar agora da última vez em que a igreja foi convocada a evangelizar o bairro. Quantas pessoas participaram? Qual a porcentagem da igreja que se envolveu no projeto? Procure se lembrar de quando foi oferecido curso de evangelismo na igreja. Quantas pessoas mostraram interesse? Apenas uns quatro ou cinco. Isso é ou não é relutância?

O nosso problema é que nossa relutância não combina com a natureza das obras de Deus para alcançar os pecadores. Deus não é relutante em perdoar pecados e em salvar pecadores aos quais ele amou soberanamente. Ele, pela sua graça, escolheu, antes da fundação do mundo, os alvos de seu bem-querer, enviou seu Filho para morrer no lugar deles, enviou o Espírito Santo para, em ocasião própria, chamar de forma eficaz os seus amados das trevas para a luz, derrotou o inimigo que antes escravizava e consumará a obra de salvação no último dia para o louvor da glória da sua graça, ressuscitando os que já partiram com Cristo e transformando os que estiverem vivos quando Jesus voltar.

Deus não é relutante, mas a igreja o é. Quando Jesus ascendeu às alturas, disse que os discípulos seriam suas testemunhas em Jerusalém, na Judéia, em Samaria e até os confins da terra (At 1.8). No entanto, a igreja só se espalhou quando ocorreu a dispersão em consequência da terrível perseguição chefiada por Saulo. Assim o evangelho chegou a Samaria e outras partes do mundo. Mas por que precisaram de uma perseguição para sair pregando o evangelho? Bastava obedecer à ordem de Cristo. Deus não é relutante em espalhar a mensagem do evangelho. Você já reparou como o Senhor conduziu cada passo de Filipe até que ele pregasse ao eunuco? (At 8.26,27). O problema a igreja de Jerusalém naqueles dias é o mesmo do nosso hoje: a relutância em pregar, talvez por timidez, vergonha, tipo de personalidade, culpa paralisante, mas a razão verdadeira é que somos pecadores e sujeitos a esse tipo de torpor espiritual. Deus não quer que sejamos relutantes no cumprimento da sua missão de encher a terra com a sua glória.

É hora de percebermos que a relutância em evangelizar é absolutamente incompatível com a graça do evangelho! Pensemos na beleza do evangelho. Ele é o poder de Deus em operação para a salvação de todo o que crer, independente da nacionalidade. É Deus tomando a iniciativa de ir atrás do pecador morto em seus pecados e incapaz de se aproximar, envolvendo-o com seu Espírito vivificador, que lhe dá compreensão da magnitude da obra redentiva realizada por Cristo na cruz do Calvário. Poder participar do processo de salvação de uma pessoa é um privilégio! Então não sejamos relutantes. Sejamos prontos a atender ao mandamento do Senhor de sermos sal e luz neste mundo mergulhado em trevas e sem sentido. Ore, use a Bíblia, seja claro ao dizer o que Deus fez para nos salvar do juízo, ajude seu próximo a refletir sobre sua vida com Deus, use a sua maneira de viver como testemunho poderoso da obra de Deus.

Concluindo, longe de nós a relutância para evangelizar. Preguemos, não movidos por sentimento de culpa ou por constrangimento, mas pela alegria de ser cristão, que é a melhor coisa do mundo. Sejamos relutantes, mas apenas em desobedecer a Deus. Que a sua graça esteja sempre sobre nós!

- por Pr. Charles

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A Importância da Sensibilidade Cristã



Leia o texto abaixo e compare o capelão com o pastor; a prisão com o mundo; a angústia com o pecado; a execução com ira de Deus.
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Para que se possa perceber o quanto é importante a sensibilidade, como virtude humana, e o quanto a sua falta pode corromper o espírito, devemos mencionar um trecho da obra: O Último Dia de um Condenado à Morte, de Victor Hugo... Victor Hugo, no trecho que reproduziremos, narra o momento em que o seu personagem principal está na prisão, aguardando a hora de ser conduzido à Place de la Grève, para oferecer o seu pescoço à guilhotina. Ele era um friauche, ou seja, um condenado à morte. Nesses momentos que antecediam à sua execução, a angústia e o desespero tomavam conta de seu espírito e convulsionavam-lhe a mente. Em meio a esse torvelinho de pensamentos aterradores e de exasperantes apreensões, recebe a visita do capelão do presídio. Sente um alívio pela presença de um ser humano, de alguém que iria consolá-lo nesses momentos de aflição incontida. Todavia, o velho capelão se limita a dirigir-lhe algumas palavras frias, estereotipadas, retirando-se em seguida. O pobre condenado à morte, então, diz de si para consigo:

Mas o que foi que esse ancião me disse? Nada sentido, nada enternecido, nada chorado, nada arrancado da alma, nada que viesse do coração dele para tocar o meu, nada que passasse dele para mim. Ao contrário, não sei o que de vago, inacentuado, aplicável a tudo e a todos; enfático onde deveria ter sido profundo, banal onde deveria ter sido simples; uma espécie de sermão sentimental e de elegia teológica. Aqui e ali, uma citação latina em latim. Santo Agostinho, São Gregório, que sei eu? Depois, parecia estar recitando uma lição cem vezes já recitada, repassar um tema, obliterado na sua memória de tão conhecido. Nenhum olhar no olho, nem com acento na voz, nem um gesto nas mãos.

E como poderia ser diferente? Este padre é o capelão titular da prisão. Sua profissão é consolar e exortar, vive disso. Os forçados, os pacientes, são da alçada da sua eloquência. Confessa-os, assiste-os porque é função dele. Envelheceu levando os homens para a morte. Faz tempo que ele está acostumado ao que dá calafrios nos outros; seu cabelo, bem encanecido, já não fica mais em pé; os trabalhos forçados e o cadafalso fazem parte do cotidiano para ele. Ficou insensível. Ele provavelmente tem um caderninho, tal página os forçados, tal páginas os condenados. Avisam-no de véspera que haverá alguém para ser consolado a tal hora; pergunta o que é, forçado ou supliciado? Passa mais uma visita na tal página e vem para cá. Deste modo, acontece que os que vão para Toulon e os que vão para a Greve são um lugar-comum para ele, e ele, um lugar-comum para eles.

Oh! Que mandem buscar, em vez disso, algum jovem vigário, algum velho padre, ao acaso, na primeira paróquia; que o peguem juntinho da lareira, lendo seu livro, sem suspeitar de nada, e que lhe digam: 'Há um homem que vai morrer e cabe ao senhor consolá-lo. O senhor tem de estar presente quando atarem as mãos dele, quando lhe cortarem o cabelo; o senhor terá que subir com ele para a charrete com seu crucifixo para esconder dele o carrasco; terá que sacolejar com ele nos paralelepípedos até Greve; terá que atravessar com ele a horrível multidão bebedora de sangue; terá de beijá-lo ao pé do cadafalso, e ficar com ele até a cabeça estar aqui e o corpo lá'.

Que me tragam, então, todo palpitante, todo arrepiado da cabeça aos pés; que me joguem nos braços dele, aos pés dele; e ele chorará e nós choraremos, e será eloquente e eu estarei consolado, e meu coração desaguará no dele, ele tomará a minha alma e eu tomarei o Deus dele.

Mas o que aquele bom velho é para mim? O que sou para ele? Um indivíduo da espécie infeliz, uma sombra como já viu tantas, uma unidade para acrescentar ao número das execuções. (destacamos)

Destituído de sensibilidade no exercício de suas funções, o magistrado será como o velho capelão do presídio, no romance de Victor Hugo; será alguém que já não sente crepitar em seu coração aquela chama tão necessária para fazê-lo compreender as angústias humanas e também para fazê-lo sentir-se humano.

- por Manoel Antonio Teixeira Filho, Manual da Audiência na Justiça do Trabalho, págs. 29-30

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

A Mulher de Provérbios 31: Uma Mulher de Carreira?



Recentemente, tenho ouvido várias referências a Provérbios 31 para apoiar “mulheres em busca de uma carreira” na política ou em qualquer outra área. Deixe-me dizer que eu nunca argumentei que uma mulher não pode ou não deve trabalhar (apesar de ser precisamente disso que evangélicos na blogsfera e na mídia têm me acusado). De fato, eu já escrevi sobre o assunto (veja: Família Guiada Pela Fé e o meu post anterior) e fui claro. Ironicamente, milha filha Jasmine trabalha para mim! Ela é minha assistente para pesquisa e cuida da nossa loja online. Como, então, podem me acusar de argumentar que uma mulher não pode trabalhar?

Enquanto eu nunca argumentaria que uma mulher não pode trabalhar, eu tenho defendido que de uma mulher é requerido que ela seja uma “dona de casa” (Tito 2:5; cf. 1 Timóteo 5:14), e que, como tal, ela deve priorizar o seu lar e qualquer “trabalho” que ela faz não deve interferir no seu chamado primário de esposa e mãe. Assim, a mulher do fazendeiro que ajuda na colheita, a mulher do padeiro que trabalha ao seu lado, ou a mulher do contador que trabalha como sua recepcionista nos negócios da família, estão todas em uma categoria diferente da tão chamada “mulher de carreira” (o termo não é meu) que gasta sua vida como uma “ajudadora idônea” (Gênesis 2:18) para outro homem (ou para uma corporação), em vez de para o seu marido. Alistar Begg colocou isso bem:

"Senhoras, a maternidade é um trabalho de tempo integral. Não brinque consigo mesma, achando que você pode ser uma recepcionista e uma mãe; que você pode ser uma datilógrafa e uma mãe; que você pode ser uma vice-presidente e uma mãe. Uma das duas coisas vencerá. Agora, olhe para a sua Bíblia e pergunte o que você deve fazer. (Alistair Begg, “Biblical Principles for Parenting.” Truth for lige podcast)."

Deixe-me dizer que eu não sou tão “estúpido” a ponto de ignorar completamente o fato de que existem muitas mulheres (como minha mãe) que são abandonadas por homens pecadores, egoístas, imaturos e/ou irresponsáveis (tanto o pai de seus filhos ou o próprio pai delas), e que, assim, não têm qualquer escolha a não ser trabalhar e sustentar seus filhos. Tampouco eu culpo mulheres cujos maridos ficaram inválidos, por um motivo ou outro, por serem aquelas que sustentam a família. Estou falando da nossa aceitação cultural obstinada de uma visão que vê a mulher como um mero meio de produção. Estou falando da ideia exposta na cosmovisão Marxista, que vê a saída das mulheres de seus lares como um duplo feito: 1) Dobrar a produtividade do coletivo, e 2) colocar as crianças debaixo da autoridade do estado (via creches e escolas públicas), que, para o Marxista, é deus encarnado.

A ofensiva dos evangélicos conservadores tem sido na forma de referências à mulher de Provérbios 31. Essa mulher, de acordo com muitos, é o protótipo da moderna “garota de carreira”. Tomo a liberdade de discordar. Na verdade, eu argumentaria que não existe nenhuma evidência clara em Provérbios 31 de uma carreira de qualquer tipo. Além disso, eu me pergunto se essas pessoas que usam os versículos 16 e 18 para argumentar a favor da conveniência de uma mulher ter uma “carreira” usariam o restante dos versículos com a mesma seriedade.  

Provérbios 31:10ss

"10 Mulher virtuosa, quem a achará? O seu valor muito excede o de finas jóias. 11 O coração do seu marido confia nela, e não haverá falta de ganho.12 Ela lhe faz bem e não mal, todos os dias da sua vida.13 Busca lã e linho e de bom grado trabalha com as mãos.14 É como o navio mercante: de longe traz o seu pão. 15 É ainda noite, e já se levanta, e dá mantimento à sua casa e a tarefa às suas servas.16 Examina uma propriedade e adquire-a; planta uma vinha com as rendas do seu trabalho. 17 Cinge os lombos de força e fortalece os braços.18 Ela percebe que o seu ganho é bom; a sua lâmpada não se apaga de noite. 19 Estende as mãos ao fuso, mãos que pegam na roca. 20 Abre a mão ao aflito; e ainda a estende ao necessitado. 21 No tocante à sua casa, não teme a neve, pois todos andam vestidos de lã escarlate. 22 Faz para si cobertas, veste-se de linho fino e de púrpura. 23   Seu marido é estimado entre os juízes, quando se assenta com os anciãos da terra. 24 Ela faz roupas de linho fino, e vende-as, e dá cintas aos mercadores. 25  A força e a dignidade são os seus vestidos, e, quanto ao dia de amanhã, não tem preocupações. 26   Fala com sabedoria, e a instrução da bondade está na sua língua. 27   Atende ao bom andamento da sua casa e não come o pão da preguiça. 28   Levantam-se seus filhos e lhe chamam ditosa; seu marido a louva, dizendo: 29   Muitas mulheres procedem virtuosamente, mas tu a todas sobrepujas. 30   Enganosa é a graça, e vã, a formosura, mas a mulher que teme ao SENHOR, essa será louvada."

A mulher de Provérbios 31 certamente era empreendedora. Ela também trazia renda para o lar e o fazia mais produtivo. No entanto, não há nada nesta passagem que sequer sugira uma carreira. Ela não batia ponto. Ela não tinha uma babá. Na verdade, o contexto cultural faz como que essa leitura seja implausível. O Israel do Antigo Testamento não era uma cultura na qual uma “garota de carreira” se desenvolvia. Mas e quanto às outras verdades nesta passagem que eram a norma para as mulheres do Israel do Antigo Testamento? Por que usamos essa passagem para incitar as mulheres a terem sua carreira fora de casa, mas não estimulamos as mulheres a:

- Levantar de madrugada para cozinhar para a sua família (v. 15)
- Cultivar a própria comida (v. 16)
- Fazer as próprias cobertas (v. 22)
- Fazer seu marido conhecido entre os anciãos da terra (v. 23)
- Fazer suas próprias roupas (e as de sua família) (v. 24)
-  Fazer e vender peças de roupa (v. 24)
- Cuidar da sua casa (v. 27)

Essas coisas estão claras no texto. Usar o argumento da “garota de carreira” é forçar o texto. Especialmente quando nós reconhecemos o princípio hermenêutico irrefutável de que a Escritura interpreta a Escritura. Assim, não podemos usar Provérbios 31 para negar Tito 2. O que quer que a mulher de Provérbios 31 nos ensine, ela não pode ensinar algo que contrarie o mandamento direto para as mulheres serem “donas de (ou cuidadosas da)  casa”.  (Tito 2:5, cf. 1 Timóteo 5:14).

- por Voodie Baucham Jr.
Fonte: Monergismo.com 
*o autor deste blog recomenda o estudo já postado por aqui: Série - Homem e Mulher os Criou

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Desperte e Viva! - por Joseph Alleine (1634-1668)


Introdução

Escrevi este livro para pessoas que não são cristãs ainda. Minha esperança e oração é que através da leitura dele você se voltara para Deus. Mas eu estou muito consciente do fato de que não importa quão difícil tentar e não importa quão persuasivos são meus argumentos, por mim mesmo não posso fazer ninguém se tornar um cristão. Isto é uma coisa que somente Deus pode fazer.

A Bíblia diz que você deve nascer de novo para ir ao céu. Sem santidade você nunca verá Deus (Hb 12.14). Enquanto você começa a ler, disponha sua mente para procurar Deus. Prepare-se para reconhecer Jesus Cristo como Senhor com todo o seu coração. Submeta-se a ele e viverá!

Você pode achar algumas das coisas que eu digo difíceis de suportar. Certamente, eu não espero fazer-me popular – mas, outra vez, este não é meu objetivo! pois eu mesmo, preferiria escrever um livro mais agradável, mas se você não é um cristão, sua situação é muito mais séria para isso. É tudo muito bem cantar para um bebê que está chorando dormir, mas algo mais drástico é exigido se uma jovem criança caiu dentro do fogo.

Um bom médico sempre mostrará o maior interesse pelo paciente cuja vida está no maior perigo. E um bom pai sempre dará atenção especial para seu filho moribundo. Quanto maior a necessidade, maior a compaixão e mais esforços são exigidos.

Tentarei, portanto, escrever muito claramente a respeito de sua imensa necessidade. Eu não me envergonho de dizer que espero que você não será convencido somente pelo que escrevo, mas também convertido e salvo por Jesus Cristo.

Alguns de vocês podem não ter certeza do que é cristão. Começarei, portanto, dirigindo à pergunta "o que é um Cristão"?

Outros podem imaginar que tudo está bem entre elas e Deus quando, de fato, não está. Para eles, explanarei sobre "tornar-se um cristão".

Também, existem aqueles que querem saber se é importante para eles se tornarem cristãos. Procederei, portanto, com a pergunta: isto é realmente problema?

Outros podem alegar ser cristãos quando não dão a real evidência disto no caminho em que vivem. Para eles, tentarei mostrar "o caminho em que nós estamos" antes de voltarmos para Cristo.

Outros não temem nenhum perigo porque não têm qualquer consciência. Sou obrigado a mostrar, portanto, que sem Cristo estamos todos condenados!

Também, existem alguns que estão cônscios de sua necessidade, mas não sabem o que fazer sobre isto. Responderei, portanto, sua pergunta "o que devo fazer"?

E, finalmente, para o benefício de todos, evidenciarei a você a maravilhosa graça de Deus.

Joseph Alleine, 1671

O que é um cristão?

A questão precisa ser levantada porque ela tem sido respondida em todos os aspectos de maneiras diferentes. O resultado é que algumas pessoas imaginam que são cristãs quando não são, e outros pensam que não são cristãs quando realmente são! No próximo capítulo, explanarei sobre o que significa tornar-se um cristão, mas antes de tudo, permita-me falar com você o que isto não significa.

1. Não é suficiente simplesmente denominar-se um cristão

Cristianismo é muito mais do que um nome. A Bíblia fala sobre algumas pessoas que reivindicaram ser cristãs e pertencer a uma igreja sem vida cristã verdadeira. Lamentavelmente, existem muitas pessoas que professam ser seguidoras do Senhor Jesus Cristo, mas demonstram através do modo que vivem nunca terem realmente desviado para longe de seus pecados. Eles podem alegar conhecer a Deus, mas suas vidas negam isto. De fato, o Senhor Jesus advertiu que é possível igualmente pregar e realizar milagres em seu nome sem vida cristã real (Tt 1.16; Mt 7.22,23). Afinal de contas, como podem as pessoas dizer que Deus as salvou dos seus pecados quando elas não os abandonaram?

2. Não é suficiente ser batizado

É idéia muito comum pensar que o batismo faz de você um cristão. Muitas pessoas pensam que porque passam por uma forma de batismo são filhas de Deus e seguramente vão para o céu. Mas se o batismo realmente fez de você um cristão e você mereceu o favor de Deus, tudo o de que vocês precisariam para ir para o céu seriam um certificado de batismo! Milhões de pessoas são batizadas, mas o Senhor Jesus Cristo disse "estreita é a porta e difícil o caminho que conduz à vida, e existem poucos os que a encontram" (Mt 7.13,14). Ele também fala de buscar, bater e se esforçar para entrar no céu (Mt 11.12; Lc 13.24). Tudo isto seria completamente desnecessário se o batismo fosse tudo o de que precisamos. Batismo é um sinal do que Deus faz por nós. Em si mesmo não é nada. Batismo é bom, mas não é nenhum substituto da completa e poderosa mudança que Jesus chamou "nascida de novo" (Jo 3.7).

3. Não é suficiente ter uma vida pura

Nos tempos bíblicos, não havia nenhum grupo de pessoas mais específico interessado em um modo de vida puro do que os judeus escribas e fariseus. Porém o Senhor Jesus Cristo declarou "A menos que a justiça de vocês exceda a justiça dos escribas e fariseus, de jeito nenhum vocês entrarão no Reino dos céus." (Mt 5.20). Você não tem de ser um cristão para viver uma vida pura. Bem antes de tornar-se um cristão, o apóstolo Paulo pôde alegar que era irrepreensível no seu estilo de vida (Filipenses 3.6). Mas isto não era suficiente. Você precisa mais do que isto ou, senão, Deus ainda condenará você, não importa o quanto você proteste sua inocência. Não sou contra a moralidade; eu simplesmente advirto a que você não dependa disto. Vida honesta nunca salvou ninguém.

4. Não é suficiente ser religioso

A Bíblia diz que é possível ter uma forma de religião sem nenhuma realidade ou poder espiritual (2Tm 3.5). Você pode fazer longas orações, ouvir religiosos pregando e ensinando, jejuar, e fazer todos os tipos de outras coisas para servir a Deus sem uma real vida cristã (Mt 23.14; Lc 18.12; Mc 6.20; Is 1.11). Cristianismo verdadeiro envolve muito mais do que ir à igreja, ser generoso com seu dinheiro e fazer suas orações. Você pode fazer todas estas coisas – e igualmente negar a sua vida – e ainda assim não pertencer a Deus.

5. Não é suficiente reformar-se a si mesmo

A Bíblia ensina que é plenamente possível para você ter sua mente culta com respeito às coisas de Deus e sentir-se culpado por causa dos seus pecados e ainda assim ficar aquém de tornar-se um cristão (Hebreus 6.4; Atos 24.25; Marcos 6.20). Existe uma clara diferença entre convicção e conversão. Caim, o primeiro homem a cometer um assassinato, impacientemente perambulou de um lugar para outro com sua consciência perturbada até que sublimou isto com negócios e construções de projetos. Porém não há nada na Bíblia que sugira que ele realmente procurou a Deus (Gênesis 4). Algumas pessoas imaginam que são cristãs simplesmente porque elas pararam de cometer um pecado particular, desistido de um vício ou distanciado a si mesmos de certas influências do mal. Mas há muito mais para tornar-se um cristão do que qualquer uma dessas coisas.

Enquanto a consciência está perturbada, muitos orarão, lerão a Bíblia, ouvirão pregações e desistirão de alguns de seus prazeres pecaminosos, mas tão logo elas não sentem mais nenhuma convicção, irão diretamente voltar para seus pecados. Nunca houve um grupo de pessoas mais religioso do que os judeus quando a mão de Deus estava contra eles, porém quando seu período de sofrimento acabara, eles invariavelmente se esqueceram de Deus novamente. Você pode ter reformado sua vida de todo e qualquer forma e ainda assim ser exatamente a mesma pessoa no coração.

Você pode pegar um amontoado de barro e modelá-lo em uma flor, depois um animal, em seguida uma forma de homem, entretanto em todo o tempo ele permanece barro. Da mesma maneira, nenhum de nós pode mover-se da ignorância ao conhecimento e da plena impiedade para uma forma de religião enquanto nossa natureza é a mesma que sempre foi.

Se você tem baseado suas esperanças em algumas dessas coisas que discutimos até aqui, você pode ter achado este capítulo difícil de aceitar. Pode ser uma dolorosa experiência perceber que nada está bem entre você e Deus quando você pensou que estava. Quando eu estava escrevendo, senti-me como um pequeno cirurgião prestes a amputar um membro de um amigo íntimo – não por gosto mas cortado por necessidade. É muito melhor perceber a situação em que você está agora, melhor do que continuar com suas falsas esperanças e ir parar no inferno.

Se você alega ser um cristão, permita-me convidá-lo para examinar a base de sua esperança:

É por que você foi batizado?
É por que você é membro de uma igreja?
É por que sabe muito sobre religião?
É por que você tenta viver uma vida moralmente limpa?
É por que você tem se atormentado com seus pecados?

Todas essas coisas são muito boas em si mesmas, mas não fazem de você um cristão, e não salvarão você. Examine-se a si mesmo e volte-se para o Senhor com todo o seu coração. A menos que Deus mesmo o transforme, você estará perdido.

Mas talvez você não alegue ser um definitivamente cristão. Se é assim, sua posição certamente não é melhor. Você também deve arrepender-se de seus pecados e ser convertido. Volte para o Senhor Jesus Cristo. Receba seu perdão e nova vida. Entregue-se inteiramente a ele e viva uma vida santa ou, do contrário, você nunca verá a Deus. Se você permanecer como está, sofrerá a morte eterna com certeza.

- por Joseph Alleine (1634-1668)
*Um resumo do alerta de Joseph Alleine para o não convertido reescrito no inglês moderno. A versão completa está disponível pela The Banner fo Truth Trust ...

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Efésios 2.11 - Lembrai-vos dos Tempos Passados - Exposição em Efésios - Sermão pregado dia 18.11.2012




Efésios 2.11 - Lembrai-vos dos Tempos Passados
Exposição em Efésios -
Sermão pregado dia 18.11.2012


"Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne, e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão feita pela mão dos homens" (Ef 2.11).

O santo apóstolo Paulo, agora passa a chamar a atenção dos crentes de Éfeso, pois uma vez que vinha expondo os feitos de Deus em suas vidas, agora, enfatiza a importância daquela igreja e dos respectivos irmãos em jamais se esquecerem de onde haviam vindo e o que Cristo havia feito em seu meio, através do Espírito Santo. É preciso que tenhamos excelso cuidado neste ponto e, também, buscarmos praticar esta ordenança de Paulo, de modo que lembremos continuamente de onde o Senhor nos tirou e para onde levará todos os Seus filhos.

O apóstolo inicia o presente versículo com uma conjunção, isto é, "Portanto" - uma palavra que está ligada a tudo que precede o presente versículo. Desta forma, uma vez que já delineou diversos ensinos importantíssimos aos cristãos de Éfeso, passa a fazer um acréscimo, a fim de que àqueles crentes não se esquecessem "de que vós noutro tempo éreis gentios na carne, e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão feita pela mão dos homens".

Olhemos para o primeiro ensinamento que este versículo nos traz: "lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne".

Amados irmãos, o que Deus registrou nesta sentença, é por demais valioso para todos nós. Naqueles tempos, antes da vinda de Cristo, com exceção de alguns que eram feitos escravos e eventualmente achavam clemência - mediante a soberania o e querer de Deus - em meio ao povo de Israel, ser gentil de natureza, não era uma boa situação. O Deus criador não estava ao seu lado; o Senhor dos Exércitos era contra eles; o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, não os abençoava; enquanto aos judeus devotos ao Senhor, era dito que, "Nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará à tua tenda" (Sl 91.10), aos gentios era revelado por meio do salmista: "Caiam os ímpios nas suas próprias redes, até que eu tenha escapado inteiramente" (Sl 141.10) e também, "Mas tu, SENHOR, te rirás deles; zombarás de todos os gentios" (Sl 59.8); o prazer do judeu convertido era a lei de Deus (Sl 1), mas ao gentil, diz a Palavra, "O SENHOR desfaz o conselho dos gentios, quebranta os intentos dos povos" (Sl 33.10); "Não há paz para os ímpios, diz o meu Deus" (Is 57.21; 48.22). Por estas e numerosas outras referências bíblicas, é que Paulo desejava relembrar os cristãos de Éfeso sobre quem eles eram por natureza: gentios, separados de Deus e afastados do Senhor.

Se assim eram aqueles gentios, que dir-se-á de nós? Quem somos, por natureza, diante do Senhor? Olhemos atentamente e percebamos, pela graça bendita do Altíssimo, que Paulo não está apenas falando daqueles gentios, mas de todos! "lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne" - é isto que Paulo diz! Ele não escreve sobre quão bem-aventurados eram os gentios, mas, sim, que haviam nascido debaixo da mão irada de Deus! Haviam vindo ao mundo para serem consumidos pelo pó da terra e viverem "segundo o curso deste mundo" (Ef 2.2)! Ora, os gentios não possuíam a Lei de Deus, não tinham os mandamentos, não conheciam Moisés, não lhes fora revelada a vontade do Senhor - nada! Humanamente falando, do ponto de vista judaico, os gentios eram inúteis e povo descredibilizado, segundo a Lei.

Precisamos, então, recobrar a lembrança de que somos semelhantes à igreja e povo de Éfeso. É mister atentar para o fato de necessitarmos entender que em nada diferimos do povo de Éfeso. Aquela cidade era grandiosamente importante e imponente no cenário de sua época. Era uma das cidades mais importantes da província romana na Ásia, ligando os dois lados do império romano (Europa e Ásia); era conhecida pela adoração à deusa Diana (At 19.28); tinha um importante porto que atraía grandes comerciantes; um grande teatro também possuía (At 19.29); em suma, Éfeso era como que uma metrópole, uma gigantesca cidade para os seus dias. Destarte, foi neste e para este cenário que Paulo escreveu.

Se o povo de Éfeso fosse deixado aos seus próprios prazeres, estaria completamente perdido - e não somos, neste quesito, em nada diferentes. Nascemos em meio a uma sociedade corrupta e mais do encharcada por causa do pecado; nossos dias clamam por mais e mais lascívia e toda sorte de promiscuidade sexual; a corrupção é latente; as propagandas e a mídia nos levam a decorar mais os slogans jingles, do que os dez mandamentos e os salmos. Não foi à toa, então, que Paulo, mais adiante escreveu: "Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, mas como sábios, Remindo o tempo; porquanto os dias são maus" (Ef 5.15-16 - ênfase minha).

"lembrai-vos" - isto precisa ecoar em nossas mentes por todo este dia. Roguemos que o Espírito Santo nos faça compreender, outra vez, que somos grandes pecadores! Terríveis criaturas! Gentios! Por natureza, fora do pacto da aliança; fora das promessas; fora das benesses divinas; fora da benevolência e do bem querer de Deus; fora da providência; fora da graça; fora da misericórdia; fora de tudo! Isto é o que temos por nascença! Certamente que o apóstolo falará da grandiosa obra de Cristo - no versículo 13 - mas, necessitamos aprender estas verdades. Precisamos acordar amanhã pela manhã e termos três pensamentos  bíblicos piedosos: quão terrível somos por natureza; quão horrível e infestado de pecado é este mundo; qual superabundante é a Tua graça sobre nós. Se fizermos menos que isso, é possível que não tenhamos conhecido e sido impactados por nosso estado diante do Senhor.

segundo ensinamento que nos é transmitido é: "e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão"


Devemos ter em mente que Paulo era judeu (At 22.3) e certamente sabia a forma ríspida como o seu povo tratava os gentios. O próprio Cristo, algumas vezes referia-se aos samaritanos (que eram gentios), demonstrando aos judeus o quanto eles (os judeus) eram errantes e precisavam aprender com os estrangeiros (Lc 10.33; 17.16; Jo 8.48). Assim sendo, Paulo era devidamente gabaritado pelo Espírito Santo para ensinar os crentes de Éfeso acerca de quem eles eram por si mesmos e o que representavam para o povo judeu. Notemos que ele diz que todos do povo de Éfeso eram "chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão". Quer dizer, por uma questão natural, os judeus não tinham qualquer pessoa de fora de sua etnia, como valiosa e muito menos amada por Deus - Paulo, na verdade, confirmará isso no próximo versículo (v. 12).

Quando o povo de Israel estava sendo desafiado pelo gigante Golias e ninguém se apresentava para a batalha, perguntou Davi: "Que farão àquele homem, que ferir a este filisteu, e tirar a afronta de sobre Israel? Quem é, pois, este incircunciso filisteu, para afrontar os exércitos do Deus vivo?" (1Sm 17.26 - ênfase). Quando o ímpio e atual rei Saul, quis persuadi-lo a não ir à batalha, ouviu: "Teu servo apascentava as ovelhas de seu pai; e quando vinha um leão e um urso, e tomava uma ovelha do rebanho, Eu saia após ele e o feria, e livrava-a da sua boca; e, quando ele se levantava contra mim, lançava-lhe mão da barba, e o feria e o matava. Assim feria o teu servo o leão, como o urso; assim será este incircunciso filisteu como um deles; porquanto afrontou os exércitos do Deus vivo" (1Sm 17.34-36 - ênfase minha). Adiante, quando Golias se aproximou de Davi, disse: "Sou eu algum cão, para tu vires a mim com paus? E o filisteu pelos seus deuses amaldiçoou a Davi. Disse mais o filisteu a Davi: Vem a mim, e darei a tua carne às aves do céu e às bestas do campo" (1Sm 17.43-44). Porém, pelo poder do Senhor e sendo um tipo de Cristo, afirmou Davi: "Tu vens a mim com espada, e com lança, e com escudo; porém eu venho a ti em nome do SENHOR dos Exércitos, o Deus dos exércitos de Israel, a quem tens afrontado. Hoje mesmo o SENHOR te entregará na minha mão, e ferir-te-ei, e tirar-te-ei a cabeça, e os corpos do arraial dos filisteus darei hoje mesmo às aves do céu e às feras da terra; e toda a terra saberá que há Deus em Israel; E saberá toda esta congregação que o SENHOR salva, não com espada, nem com lança; porque do SENHOR é a guerra, e ele vos entregará na nossa mão" (1Sm 17.45-47).

Também lemos no profeta Isaías: "Desperta, desperta, veste-te da tua fortaleza, ó Sião; veste-te das tuas roupas formosas, ó Jerusalém, cidade santa, porque nunca mais entrará em ti nem incircunciso nem imundo"  (Is 52.1 - ênfase minha). Ezequiel registra: "Porque introduzistes estrangeiros, incircuncisos de coração e incircuncisos de carne, para estarem no meu santuário, para o profanarem em minha casa, quando ofereceis o meu pão, a gordura, e o sangue; e eles invalidaram a minha aliança, por causa de todas as vossas abominações" (Ez 44.7 - ênfase minha). Igualmente, Habacuque revela: "Serás farto de ignomínia em lugar de honra; bebe tu também, e sê como um incircunciso; o cálice da mão direita do SENHOR voltará a ti, e ignomínia cairá sobre a tua glória" (Hc 2.16 - ênfase minha)

Muitas outras passagens poderiam ser citadas, mas considero que estas sejam suficientemente claras para nos mostrar que o fato dos judeus chamarem os gentios de incircuncisos, estava de total acordo com a forma pela qual haviam sido ensinados pelo Senhor. Por nascimento, os agora cristãos de Éfeso, eram "estranhos às alianças da promessa" (Ef 2.12) e por isso levavam corretamente sobre si a designação de incircuncisos. Os judeus erravam por muitas vezes desejarem impor seus costumes aos gentios (At 15.5, 24), mas estavam certos, até a dispensação da graça ter sido conferida aos gentios, em os chamarem assim.

terceiro e último ensino, nos vem do fim do versículo: "feita pela mão dos homens".

Aqui está o grande trunfo e preciosa pérola das boas-novas à igreja em Éfeso. Não que a circuncisão não tivesse tido valor noutro tempo, afinal, o próprio Deus havia ordenado que assim se fizesse (Gn 17.12); mas, com relação à eficácia da circuncisão no presente tempo. O apóstolo não está menosprezando a circuncisão, e sim, afirmando ser ela parte do tempo em que o evangelho era segregado dos gentios. Noutras palavras, a circuncisão era ordenada ao povo judeu como marca de sua aliança com Deus (Gn 17.11). Entretanto, nos dias em que escreve àqueles irmãos, a circuncisão física já não tinha mais valor, pois  a circuncisão dera lugar ao batismo. Ele mesmo testifica desta preciosa e ímpar verdade, quando escreve: "É alguém chamado, estando circuncidado? fique circuncidado. É alguém chamado estando incircuncidado? não se circuncide" (1Co 7.18); "Onde não há grego, nem judeu, circuncisão, nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre; mas Cristo é tudo em todos" (Cl 3.11); "Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor" (Gl 5.6).

Assim lemos e de sobremaneira, exultamos: "E estais perfeitos nele, que é a cabeça de todo o principado e potestade; No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo; Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos. E, quando vós estáveis mortos nos pecados, e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas, Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz" (Cl 2.10-14).

Aleluias, meus irmãos! Cristo perdoou todos os Seus eleitos e destinados à vida eterna! Glorificado seja o Senhor misericordioso! "quando vós estáveis mortos nos pecados, e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas"! "Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças"! "e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz"! Aquela bendita e preciosa cruz, nos livrou da ira vindoura (1Ts 1.10)! Embora tenhamos nascidos em meio aos gentios, aprouve ao Senhor, mediante Seu filho "que foi morto desde a fundação do mundo" (Ap 13.8), expandir o Seu reino: "Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações" (Mt 28.19 - ênfase minha).

Por estas razões diz o apóstolo: "lembrai-vos". Não podemos nos esquecer destas verdades; não devemos nos furtar a memória e voltar a seguir o caminho que outrora trilhamos. Sim, cada um de nós, durante muitos anos de nossa vida, vivemos "segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência. Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamento" (Ef 2.2-3). Que jamais esqueçamos disto. Que nunca nos falte esta bendita lembrança; jamais, pela graça e misericórdia do Eterno, nos esqueçamos de nossa fragilidade e completa impotência diante do Soberano.

"lembrai-vos de que vós noutro tempo". O motivo que tem levado muitos a perecerem e se encontrarem em profundo desânimo, é porque não buscam relembrar dos seus tempos passados. Preferem "esquecer", "não comentar", esquivar-se do assunto, como se isto melhorasse suas vidas. É verdade que não devemos remoer o passado, pois "se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo" (2Co 5.17); contudo, assim como um povo que desconhece sua história, é um povo fadado a repetir os mesmos erros, um cristão que se esquece do lamaçal de onde foi tirado, pode ser seriamente tentado a crer que, no lugar do pecado, o que lhe acompanhou com o nascimento, foram ouro e pedras preciosas - com grande urgência o Senhor precisa despertar-nos para esta verdade e profundo ensinamento.

"gentios na carne". Miserável situação em que nascemos! Oremos ao Senhor para que fixe isto em nossas mentes, irmãos! "Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus" (Rm 3.23). Se os judeus, tendo nascido no berço do cristianismo (ainda que muitos não eram realmente filhos do Senhor - Rm 9.6), sofriam as penalidades de suas desobediências, que se diria dos gentios? Haveria alguma coisa que pudessem fazer? Somente uma coisa lhes era certa: "e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também" (Ef 2.3).

Nesta manhã, supliquemos ao Senhor, a fim de que Ele, por meio de Seu santo e precioso Espírito Santo, nos relembre de nossas malignidades e nos alegre pelo sangue de Cristo vertido em favor de Seus filhos. E para o caso de alguns ainda estarem impenitentes e não verem o seu passado com grande tristeza e angústia, assim também lemos: "Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça" (1Jo 1.9), sabendo que, "Na verdade até aos gentios deu Deus o arrependimento para a vida" (At 11.18).

Louvado seja o nome do Senhor.

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